sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um, dois, três...um milhão!

A palavra milhão não existia até o ano 1300. Até então, o maior número era expresso pelo termo grego "miríade", que quer dizer 10 mil. Ao calcular a quantidade de sementes no universo, Arquimedes usou a expressão "miríade de miríade de miríade". No Brasil, na época do descobrimento, os índios guarani tinham ainda menos números. Contavam um, dois, três... muitos.  Para dar a idéia de quanto eram esses "muitos" diziam: "Os dedos das mãos" ou "os dedos das mãos e dos pés".

Aventuras na História n° 022

Pólo Sul: dois anos de solidão

Cláudia de Castro Lima

Aventura sueca na Antártica em 1902, exibida no documentário argentino Presos no Fim do Mundo, deu pontapé inicial na exploração do Pólo Sul.
O gosto por aventura provavelmente era parte do código genético do geólogo sueco Otto Nordenskjöld. Sobrinho do explorador Adolf Erik Nordenskjöld (que descobriu uma passagem ao norte da Sibéria), Otto foi o líder de uma das mais incríveis jornadas à Antártica. Deu quase tudo errado em sua viagem ao Pólo Sul, que durou bem mais que o previsto, dois anos. Mas ele voltou de lá com uma enorme bagagem de descobertas científicas – e deu o pontapé inicial para as investigações polares na América do Sul.
A viagem do sueco e sua equipe de exploradores, mostrada no documentário argentino Presos no Fim do Mundo,  foi impulsionada por congressos de geografia realizados no final do século 19. Os encontros visualizaram a riqueza científica do ainda inóspito território polar do Sul – depois deles, várias nações patrocinaram equipes para explorar o local. Quando Otto preparava sua viagem, pelo menos outras duas expedições também estavam no estágio final de planejamento: uma alemã, sob o comando de Erich von Drygalski (a Gauss), e uma britânica, liderada por Robert Falcon Scott (a Discovery).
Otto zarpou de Gotemburgo, na Suécia, em 16 de outubro de 1901. Chegou nas ilhas Shetland do Sul em 11 de janeiro do ano seguinte a bordo do navio Antarctic. Em fevereiro, o navio deixou o sueco, outros cinco tripulantes, equipamentos e alguns cachorros em terra e foi para as ilhas Malvinas, esperar o inverno passar. Deveria voltar no fim do ano, com o verão, para resgatar os aventureiros, que passariam a estação gelada em uma cabana de 26 metros quadrados, construída por eles.
Uma série de problemas atrapalhou os planos. O gelo do mar não derreteu o suficiente para abrir passagem para o Antarctic e o navio acabou preso nas geleiras. Otto e a tripulação não tiveram outra  alternativa senão esperar – e passar mais um rigoroso inverno na cabana. A equipe sueca só foi resgatada em novembro de 1903, pelo navio argentino Uruguay. O geógrafo publicou suas descobertas científicas, como alguns fósseis, em Wissenschaftliche Ergebnisse der Schwedischen Südpolar-Expedition 1901-1903 (“Resultados Científicos da Expedição Sueca ao Pólo Sul 1901-1903”) e passou o resto dos dias como reitor de uma universidade sueca – possivelmente, relembrando sua viagem.
Para baixo e avante
Quem foram os desbravadores pioneiros:
1821
Em fevereiro,o navegador John Davis virou a primeira pessoa a desembarcar no continente antártico. Davis havia partido de Connecticut e pretendia chegar às ilhas Shetland para caçar focas.
1823
Em fevereiro, o inglês James Weddell torna-se o homem a navegar mais ao sul da Antártica – tanto que o mar de Weddell foi batizado em sua homenagem.
1892
Em novembro, o capitão Carl Larsen e seu navio Jason chegam à Península Antártica fazem descobertas importantes: os primeiros fósseis de lá.
1899
Entre fevereiro e dezembro, uma expedição comandada pelo aventureiro Carsten Borchgrevink completa a primeira temporada de inverno passada inteiramente no continente antártico.
1900
Em outubro, o naturalista Hanson, membro da expedição de Borchgrevink, morre misteriosamente. Foi o primeiro homem a ser enterrado na Antártica.
1902
Em fevereiro, dois eventos importantes. Além da expedição de Otto Nordenskjöld ter desembarcado no continente, acontece o primeiro vôo de balão sobre a área. À bordo,o famoso explorador Robert Falcon Scott. Em dezembro, numa expedição a pé, Otto encontra alguns fósseis. No mesmo mês, Scott chega o mais perto do Pólo Sul que alguém jamais conseguira.
1903
Em fevereiro, o navio Antarctic afunda – é o primeiro a submergir em águas ao sul.
1908
Em janeiro, seis homens, entre eles o explorador inglês Ernest Shackleton, são os primeiros a chegar ao topo do vulcão Erebus(3 794 metros), na ilha de Ross, na Antártica.

  Aventuras na História n° 022

Carter: dinheirama

Num país que costuma endeusar seus líderes, Jimmy Carter, presidente americano, é uma exceção. Famoso por aumentar os gastos do governo e os impostos, em 1979 aprovou um orçamento recorde de 50 bilhões de dólares. Para usar essa grana em um ano, o governo se dispunha a gastar 951 mil dólares por minuto, 57 milhões por hora e 1,37 bilhão por dia, incluindo domingos e feriados. Em 1981, o democrata Carter perdeu a reeleição para o republicano Ronald Reagan.

Aventuras na  História n° 022

Radiação: radiator tabajara

Bárbara Axt

A radioatividade, há 80 anos, prometia acabar com cólicas. E mais: dar energia. Se você comprasse logo, ainda ganhava mais pique sexual!
"Rádio: cientistas descobriram. Governos aprovam. Médicos indicam. Usuários endossam. Nós garantimos: com certeza é bom.”
Por mais absurdo que pareça hoje, há 80 anos a radioatividade fazia bem. Ao menos era o que propagandas de diversos produtos alardeavam – como essa aí de cima, da fábrica Radium Health Products, de Michigan (Estados Unidos). Trazer de volta a energia da juventude, acabar com distúrbios menstruais e até devolver a visão a cegos: praticamente qualquer problema de saúde podia ser curado com tônicos, cremes para a pele, pasta de dente, anticoncepcionais e supositórios radioativos.
A onda de acreditar no poder curativo da radioatividade foi causada graças a uma série de raciocínios até que lógicos – mas bastante equivocados. Tudo começou quando pesquisadores descobriram a presença de radioatividade na água de estações visitadas por pessoas em busca de cura para enfermidades. Essa radioatividade é causada pela desintegração do elemento rádio presente no solo, que gera o gás radônio. Hoje, sabe-se que o radônio, em doses altas, afeta seriamente os ossos e pode causar câncer. Na época, uma associação apressada levou à conclusão que o rádio era responsável pelos poderes curativos da água.
“É claro que ir a uma estação de águas faz bem à saúde. A pessoa fica ao ar livre, descansa, faz exercício. Mas quando fica sabendo que a água do local é radioativa, pensa que foi isso que a curou”, afirma o especialista em segurança Paul Frame, um dos autores do livro Living with Radiation: the First 100 Years (“Vivendo com a Radiação: os Primeiros 100 Anos”, inédito em português). “Imagino também que, graças aos usos da radiação pela medicina, em radiografias ou tratamento de tumores, ela passou a ser associada à saúde e, consequentemente, a poderes curativos.”
Portanto, as indústrias começaram a disponibilizar esses poderes curativos ao público que não podia viajar até uma estação de águas. Logo, mais uma dedução: se água radioativa faz bem, utilizar o rádio diretamente devia ser melhor ainda. O que não faltou foi criatividade para abastecer o mercado com todo tipo de produto. “Na verdade, a radioatividade na água tem níveis baixos e não afeta a saúde. Quando os níveis são altos demais, podem causar queimaduras na pele. Pior: se a substância for ingerida, a radioatividade destrói os ossos”, afirma Paul Frame. A folia acabou conforme as leis foram definindo níveis máximos de segurança de exposição.
Isso não significa que a crença nos poderes de cura da radioatividade tenha acabado: ainda hoje estações de águas radioativas, assim como as areias monazíticas das praias brasileiras de Guarapari, são um sucesso. No Japão, por exemplo, a moda continua: “Há produtos para tornar a água radioativa e para transformar a água da banheira semelhante à de uma fonte. Mas todos possuem níveis seguros de radiação”, diz o outro autor do livro, William Kolbe.
Compre já
Os produtos tinham diversas apresentações: de supositórios à placa banhada a ouro.
Essa espécie de filtro dos anos 1920, com paredes internas revestidas de argila e minério de urânio, dizia que deixava a água radioativa. Bastava enchê-lo com água normal à noite que, de manhã, o líquido daria muita energia a quem o tomasse. O manual tinha um teste com fotos que “provavam” a melhora na saúde: nas imagens, duas plantas eram regadas, uma com água normal e outra com água de Revigator. A segunda crescia mais vistosa.
Eram pastilhas de “genuíno rádio”, que deveriam ser tomadas com água, dois tabletes antes ou depois de cada refeição. Um trecho da propaganda veiculada em 9 de fevereiro de 1923, no Newark Ohio Advocate, afirmava: “Rádio acaba com a agonia do reumatismo, neurite, nevralgia e gota. Os médicos dizem que simples e inofensivos tabletes de rádio – como Arium – trazem um espantoso e durável alívio até mesmo para casos que pareciam perdidos. Recompensa de 5 milhões de dólares se os tabletes falharem”. Na semana seguinte, o anúncio prometia uma recompensa de apenas 5 mil. Por que será?
Em formato de supositórios, prometia recuperar a energia sexual e melhorar o funcionamento dos sistemas nervoso e circulatório. Feito de “rádio solúvel em uma base de manteiga de cacau”, garantia rápida absorção da substância pela corrente sanguínea. Eram entregues em embalagem lacrada, que não permitia identificação. Outro produto semelhante eram os supositórios Torb, lançados em 1927, pelo preço de 1 dólar a embalagem com 12 unidades.
Foi o mais popular dos produtos, apesar de ser caro, e virou manchete do Wall Street Journal. Depois de dois anos tomando pelo menos duas garrafinhas de Radithor ao dia, o industrial Eben Byers teve um câncer, que o fez perder os dentes e destruiu seus ossos. Sua morte em 1932, aos 51 anos, foi um escândalo nacional. O jornal publicou: “A água com rádio funcionava muito bem, até que sua mandíbula caiu”. O Radithor ainda foi comercializado por alguns anos até ser proibido pelas autoridades americanas.
Lançado em 1928, consistia em uma placa radioativa banhada em ouro 14 quilates, que vinha numa embalagem de couro e veludo. A indicação era que fosse usado diretamente sobre as glândulas endócrinas, “a fonte de saúde do organismo”, e até sobre o saco escrotal. Custava mil dólares, mas, com o mercado de remédios radioativos saturado, chegou a ser vendido por 150 dólares. William J. Bailey, o criador do produto, garantia tanto a eficácia das invenções que usava todas – acabou morrendo de câncer de bexiga aos 64 anos.

Aventuras na História n° 022

Quem paga o pato?

Bruno Borges

Quem paga o pato, coitado, é feito de bobo: leva a culpa pelo que não fez, arca com as consequências dos atos de outros. Segundo o filólogo João Ribeiro, a origem da expressão está num conto do humanista florentino Poggio Bracciolini (1380-1459).
Nele, uma mulher quer comprar um pato para preparar a ceia. O vendedor de aves, porém, não aceita o dinheiro como forma de pagamento. O que ele quer são alguns "favorzinhos" da mulher. Ela promete ceder, mas faz ressalvas. No meio da discussão sobre o acordo, entra o marido (sim, ela era casada), querendo saber o motivo da demora. O vendedor, cara-de-pau, diz que a ave não paga. Cansado e faminto (e feito de bobo), o marido paga o pato. A partir daí, as pessoas começaram a usar o termo para falar daquele que faz papel de tonto.

Aventuras na História n° 022

Cemitério

Lívia Lombardo

Credo! A gente rezava em cima dos defuntos
A vida sem cemitério não era, digamos, muito salubre. Nós, por exemplo, rezávamos em cima dos cadáveres. É sério. Até meados do século 19, o costume era enterrar os mortos dentro das igrejas. Na maior parte das vezes, nem caixão era usado. Os corpos eram sepultados na terra suja e repleta de ossos de defuntos antigos. Não é difícil imaginar a quantidade de doenças que a prática ocasionava. Segundo o escritor Francisco de Assis Vieira Bueno, em Vida Cotidiana em São Paulo no Século XIX, um ar maléfico enchia as igrejas e expunha as mulheres, que ficavam horas sentadas lá dentro, a todo tipo de infecção.
São Paulo só acabou com esse hábito nada higiênico em 1850, quando a Câmara decidiu que a cidade deveria construir um cemitério. Na Europa, já havia locais próprios para enterrar os defuntos no século 16. O cemitério dos ricos ficava próximo das igrejas. O dos pobres era uma vala comum, afastado.
Mas muito tempo antes de existirem igrejas o homem já tinha o costume de enterrar seus mortos. O primeiro rito funerário de que se tem notícia aconteceu há 300 mil anos, na atual Espanha – foi quando o homem tomou conhecimento da inevitabilidade da morte. O rito, coletivo, enterrou 32 corpos num poço dentro de uma caverna, com 14 metros de profundidade. O local deve ter sido escolhido para garantir que os defuntos ficariam a salvo de animais carniceiros.
A partir daí, cada civilização passou a enterrar seus mortos de acordo com a cultura e a religião. Os egípcios, por exemplo, mumificavam os faraós e os enterravam com pompas em pirâmides. Falecidos do povão eram colocados em um buraco no chão e cobertos com um manto de fibra natural. Os celtas, por volta de 1200 a.C., faziam grandes túmulos de terra para colocar os finados. Mais tarde, entre os séculos 11e 8 a.C., passaram a incinerar os mortos e a guardar as cinzas em uma urna. Ainda na Antiguidade, na Índia, os defuntos eram incinerados em grandes piras – e, por vezes, a viúva do morto era queimada também.

Medo de fantasma
Atualmente, quando algum ente querido morre, é costume que os familiares organizem cerimônias fúnebres para honrar o falecido. Mas nem sempre foi assim. Na Antiguidade, o medo era a principal razão dos ritos. Acreditava-se que, se a cerimônia agradasse ao morto, ele entraria no paraíso. Mas, se o defunto não gostasse dela, se vingaria mantendo-se entre os vivos e não descansaria em paz. Por causa do temor, as cerimônias, cada vez maiores, deram origem às pompas fúnebres, que continuam até hoje.

Aventuras na História n° 022

Onde foram parar os negros da Argentina?

Cláudia de Castro Lima

Quando, em abril, o jogador de futebol argentino Leandro Desábato, do Quilmes, chamou Grafite, do São Paulo, de "macaco", a questão do racismo voltou à tona. Na Argentina, o tema é particularmente polêmico - sobretudo porque o tráfico de negros lá teve um fim terrível: a maior parte dos africanos simplesmente sumiu.
O comércio negreiro durou entre os séculos 15 e 19 (a abolição foi em 1853). Num censo de 1778, a população negra chegava a 54% em algumas regiões argentinas. Em 1887, caiu para 1,8%. "A dizimação está ligada às guerras dos espanhóis contra ingleses, no fim do século 18. Nelas, morreram uma boa parte dos negros, engajados como soldados", afirma o historiador Álvaro de Souza Gomes Neto, especialista em escravidão. Mais tarde, no processo de independência (que aconteceu em 1816), foram formadas companhias apenas de negros, os "batalhões de libertos". Com a promessa de liberdade, eles ocuparam as posições mais perigosas. "Morreram quase todos."
Outro motivo para o sumiço foi epidemia de febre amarela, em 1871. Os negros libertos, vivendo em condições de extrema miséria em guetos, foram os mais afetados. Soldados argentinos impediam a saída deles dos bairros em que moravam, com medo de a epidemia se alastrar entre os brancos. Assim, eles morriam sem atendimento médico.
Descendentes foram "branqueados" legalmente
Além da dizimação na prática, a Argentina organizou uma na teoria, registrando todos os descendentes de escravos como brancos. O processo ficou conhecido como "política de branqueamento" e foi praticado no início do século 19. Para o governo argentino, o desenvolvimento e o progresso do país estavam atrelados à cor da pele da população.
Muitas mulheres negras, com a ausência de homens da mesma etnia, casaram-se e tiveram filhos com brancos, inclusive com imigrantes europeus, que começaram a desembarcar no país antes da metade do século 19. Seus filhos, embora tivessem traços negros comprovados, eram registrados como brancos. "As estatísticas, assim, acabaram registrando um sumiço repentino de toda a população negra da Argentina", diz o historiador Álvaro de Souza Gomes Neto. "Todo argentino que não seja descendente de indígenas tem um traço de sangue negro, mesmo que em pequena proporção."
Trabalho e racismo
• O sistema econômico argentino começou a substituir a mão-de-obra escrava já por volta de 1840. "Em Buenos Aires, a força de trabalho foi basicamente de imigrantes russos, italianos, espanhóis e judeus novos", afirma o professor Álvaro Neto. No nordeste do país, a força de trabalho era, na maior parte, indígena.
• O na Argentina é forte desde o século 19. "Até os anos 1930, a ·moda· entre os negros era vestir-se, agir e falar como branco", diz Álvaro. "Desde o século 18, identificar alguém com traços negros colocava a pessoa numa condição social extremamente baixa. Há processos e buscas de retratações de pessoas registradas assim." Lá, chamar alguém de "macaco", por exemplo, não é crime.
• O século 20 presenciou uma nova leva de imigrantes africanos na Argentina. "Temos aqui no pais uma comunidade organizada de cabo-verdianos que chegaram principalmente entre as duas guerras mundiais em busca de melhores possibilidades de trabalho" afirma a filósofa argentina Dina Picotti. Segundo ela, a imigração africana vem crescendo novamente nos últimos dez anos.

  Aventuras na História n° 022