sábado, 9 de março de 2013

Saiba mais sobre a Guerra do Canal de Suez


Vitor Orlando Gagliardo
Briga pelo controle do canal mais longo do mundo envolveu Egito, Inglaterra e França
Construído entre 1859 e 1869, o Canal de Suez é o mais longo do mundo. São 163 quilômetros que ligam o porto egípcio Port-Said, no mar Mediterrâneo, a Suez, no Vermelho. A posição estratégica, que permite que mercadorias sejam transportadas da Europa à Ásia – sem contornar a África –, gerou uma disputa internacional, encerrada há mais de 50 anos.
Ingleses e franceses, acionários do canal, com o auxílio de Israel (proibido de navegar em águas egípcias), atacaram o Egito em retaliação à campanha nacionalista do presidente Gamal Abdel Nasser para legitimar o local. Com essa política, Nasser tinha por objetivo medir forças com os Estados Unidos, que se negaram a financiar a construção de uma barragem, além de recuperar o controle do canal. Em um discurso da época, Nasser afirmou que a briga acontecia porque “este canal é propriedade do Egito”. A Guerra do Canal de Suez durou uma semana e teve a intervenção da Organização das Nações Unidas com o apoio americano (que temia um confronto com a União Soviética).

Aventuras na História n° 043

O Grande Dicionário de Culinária: De dar água na boca

Carolina Daher

O passeio de Alexandre Dumas, pai dos mosqueteiros, pelo universo gastronômico.
No menu, cerca de 400 receitas, de clássicos franceses a pratos originais, como filé de canguru salteado. O Grande Dicionário de Culinária, do francês Alexandre Dumas, recém-lançado no Brasil, há mais de 100 anos desfila o título de “bíblia gastronômica”. O autor, um grande romancista – criador de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo –, dedicou os últimos anos de sua vida a elaborar um trabalho completo sobre a arte de cozinhar. E de comer bem.
Numa época em que a França reinava absoluta sobre as cozinhas do mundo, Dumas não se intimidou ao se aproximar das caçarolas. Viajante infatigável, bon vivant assumido e excelente contador de histórias, o autor reunia em si os ingredientes perfeitos para a empreitada. Deixou registrados seus objetivos nem um pouco modestos na apresentação do livro: “... reproduzir, dos livros clássicos de culinária caídos em domínio público (...), todas as receitas que conquistaram lugar nas melhores mesas (...) e acrescentar-lhes pratos desconhecidos, coletados em todos os países do mundo”.
Para cumprir o prometido, Dumas levou anos planejando a obra. A idéia surgiu em 1850, mas só começou a tomar forma no verão de 1869, quando, já doente (teve um problema nos pulmões devido à intoxicação por carvão), partiu a conselho médico para a aldeia de Roscoff, no litoral da Bretanha. Na bagagem, além de sua intimidade e talento com a literatura, todo o material coletado: anotações, crônicas, recordações e mais de 3 mil receitas. Mas Dumas morreu em 5 de dezembro de 1870 e não chegou a ver a obra publicada, três anos depois.
Apesar de a primeira edição ter histórias truncadas e verbetes fora de ordem alfabética ou duplicados, o Grand Dictionnaire de Cuisine, seu nome no original, esgotou em pouco tempo. Em 1965, para uma nova edição, o artista e colecionador Alain Meylan cedeu gravuras e desenhos dos séculos 16 a 19 relativas a cozinha e gastronomia. A jóia passou a ser objeto de desejo. A edição brasileira (Jorge Zahar) conta com 615 verbetes, 413 receitas e 275 ilustrações.

Aventuras na História n° 043

Freiras livres


Carla Aranha
Pode soar estranho, mas houve mulheres que optaram por viver em conventos para ter liberdade intelectual (e sexual). Conheça as histórias de três freiras que se tornaram grandes escritoras na América espanhola.
Apavoradas, as freiras ouviam os tiros disparados por 2 mil piratas. Era 1585, e o corsário inglês Francis Drake mal podia esperar para saquear Santo Domingo, na República Dominicana, onde ficava o convento Regina Angelorum. Uma das freiras, Leonor de Ovando, tomou coragem e conduziu as colegas até a fazenda de um amigo, o fidalgo Diego de Medrano. Os piratas varreram a cidade, mas todas as religiosas escondidas se salvaram.
Com atos como esse, não é de se admirar que Leonor tenha conquistado alguma fama. Mas não foi por causa de sua bravura que ela entrou para a história. Leonor é considerada a primeira poetisa do continente americano. Não é pouca coisa. Na época dela, a maioria absoluta das mulheres era analfabeta e, pior ainda, vivia à sombra dos homens – as que sabiam ler tinham seus livros censurados pelos maridos. Como só devia explicações a Deus, Leonor pôde ter relações próximas com diversos fidalgos. Graças a isso, inclusive, ela foi capaz de salvar suas companheiras do ataque pirata.
Seguindo os passos de Leonor vieram a guatemalteca Juana de Maldonado y Paz, que foi a primeira dramaturga da América Latina, e a mexicana Juana Inés de la Cruz, uma das maiores poetisas latino-americanas. Ambas também optaram pela clausura para escapar da tutela masculina. “Nos monastérios, elas tinham liberdade não só para exercer as atividades de que mais gostavam, inclusive as artísticas, mas também para administrar seu próprio dinheiro e levar uma vida social”, diz Leila Mezan Algranti, historiadora da Universidade Estadual de Campinas e autora do livro Honradas e Devotas, Mulheres da Colônia.
A vida num convento da América colonial pouco tinha a ver com a reclusão de hoje. Voto de pobreza, proibição de contatos com pessoas de fora, nada disso era levado a sério. Pelo contrário. Nos conventos mais exclusivos dos séculos 16 e 17, as religiosas tinham direito até a escravas e a aposentos luxuosos, em que recebiam pessoas da alta sociedade. Os de Juana de Maldonado tinham as paredes forradas com lâminas de ouro e prata. O apartamento de Juana Inés não ficava atrás: possuía duas salas, quarto, estúdio, cozinha e banheiro. “Os conventos mais requintados eram centros onde as mulheres podiam realizar-se artística e culturalmente”, diz a lingüista guatemalteca Luz Méndez de la Vega, da Academia de Letras da Guatemala, especialista na vida e na obra de Juana de Maldonado.
No fim do século 18, preocupada com os abusos cada vez mais frequentes na vida monástica, a Igreja endureceu suas normas e acabou com os privilégios dos conventos. Por sorte, nos dois primeiros séculos da colonização da América, eles permitiram o surgimento de geniais mulheres escritoras. Acompanhe, a seguir, o perfil de cada uma delas.

Leonor de Ovando
Santo Domingo, capital da República Dominicana, foi a primeira cidade fundada no Novo Mundo, entre 1494 e 1498, por ninguém menos que o irmão de Cristóvão Colombo, Bartolomeu. Foi ali que surgiu a primeira universidade das Américas, a Santo Tomás de Aquino, por volta de 1538. Era na biblioteca dessa instituição que a primeira poetisa latino-americana passava longos períodos, lendo obras de diversas épocas. Os pesquisadores supõem que Leonor de Ovando tenha nascido na Espanha, em 1550, e se mudado ainda jovem para Santo Domingo com a família. “Ela tinha uma cultura acima da média, por isso se conclui que ela deve ter sido educada na Espanha, onde já havia colégios para meninas”, diz a linguista e poetisa argentina Nela Rio, da Saint Thomas University, no Canadá, especialista nas freiras escritoras da América colonial.
Grande parte dos documentos a respeito  de Leonor acabaram se perdendo nas seguidas invasões que a República Dominicana sofreu. O que sobrou, no entanto, basta para comprovar o alto nível de sua produção artística. Entre as obras recuperadas estão cinco sonetos, cartas que Leonor enviava regularmente a seu grande amigo, o ouvidor Eugenio de Salazar, e até alguns comentários sobre religião mandados ao papa (hoje guardados no Vaticano).
Ela sabia latim, conhecia a fundo a gramática espanhola e, nas palavras do ouvidor Salazar, era “sábia, douta e instruída”. Mas, no fim da vida, Leonor foi vítima de perseguições e fofocas. A principal acusação foi a de ter contatos frequentes demais com homens – inclusive com figuras proeminentes como Salazar. Documentos da época mostram que, no tempo de Leonor, a construção do convento ainda não havia sido finalizada. Por isso, as monjas dele não viviam enclausuradas. “Elas tinham muito contato com a vida exterior”, conta Nela Rio. “O que não quer dizer que Leonor fosse uma devassa, mas ela levava a vida dela, certamente, recebendo quem quisesse e escrevendo.” Para uma freira do século 16, devia ser mesmo um escândalo. Não que Leonor se importasse, do mesmo modo como algum tempo mais tarde também não se incomodariam as duas Juanas. Para ela, bastava ter um espaço onde pudesse exercer sua arte e cuidar da própria vida. Assim foi até sua morte, em 1609.

Juana de Maldonado
Autora da primeira peça teatral escrita por mãos femininas na América, Juana de Maldonado y Paz teve uma vida tão incomum para sua época que, até a primeira metade do século 20, ela era considerada personagem ficcional. Mas, graças a pesquisas em arquivos esquecidos, há cerca de 50 anos foram encontrados os primeiros documentos que comprovaram a existência da freira, que provavelmente viveu de 1598 a 1666.
Os relatos mais antigos sobre Juana foram escritos por um padre e cronista irlandês, Thomas Gage, que morou na Guatemala entre 1627 e 1637. Eles foram publicados no livro The English-American, his Travail by Sea and Land or a New Survey of the West-Indias (“O anglo-americano, seu trabalho no mar e na terra ou uma nova pesquisa sobre as Índias Ocidentais”, inédito em português). A obra é implacável com os costumes da colônia espanhola, especialmente em relação à liberal vida nos conventos guatemaltecos. Ele descreve as aventuras de Juana e não poupa críticas a seus relacionamentos íntimos demais com o clero. “O livro foi proibido na Guatemala, mas a brilhante Juana virou uma lenda nos séculos seguintes”, explica a linguista Luz Méndez de la Vega.
Filha do ouvidor Juan de Maldonado y Paz, Juana era rica e linda. Sua primeira ocupação foi a de modelo de artistas, o que quase lhe custou a vida. Em 1615, aos 17 anos, foi acusada de heresia quando, durante uma procissão, seu rosto foi reconhecido nas imagens de Santa Lúcia – Juana tinha posado para o pintor. A denúncia foi esquecida, mas o pai de Juana a mandou para o elegante convento La Concepción, na Cidade da Guatemala. “Ela não opôs resistência, pois sabia que ali encontraria um refúgio para suas inquietudes intelectuais e artísticas”, afirma Luz Méndez.
Logo que professou os votos de castidade e obediência, aos 20 anos, Juana tentou ser madre superiora do convento, para indignação das freiras mais velhas. A comoção ganhou ares de guerra civil quando o bispo local, Zapata y Sandoval, resolveu interferir a favor dela. As religiosas recorreram aos nobres e comerciantes mais católicos, que foram ao convento levando suas espadas. Nem assim Juana desistiu. Foi preciso chamar seu pai para que ela finalmente cedesse. No meio da confusão, aumentaram os rumores de que o interesse do bispo Zapata y Sandoval pela linda monja era exagerado. “Ele estava apaixonado por ela”, escreveu Thomas Gage. Em seu livro, o irlandês explica por que a moça despertava tantas paixões. “Juana de Maldonado era admirada em toda a cidade tanto por sua beleza e sua voz como pelo perfeito conhecimento que tinha da música e pela capacidade de improvisar versos.”
Juana escrevia poesias, mas elas jamais foram encontradas. O terremoto de 1717, que destruiu a Cidade da Guatemala, arrasou o convento e vários manuscritos se perderam. Restou, entretanto, o auto de Natal Entretenimiento en Obsequio de La Guida a Egicto (“Entretenimento em obséquio à fuga ao Egito”, sem edição no Brasil). Além de ser a primeira peça de teatro escrita por uma mulher na América Latina, essa foi a primeira obra que mesclou o espanhol falado na Espanha a expressões usadas pelos criollos, os descendentes de espanhóis nascidos na colônia. “Juana exerceu um importante papel na formação da língua nacional”, diz Luz Méndez. Como as pesquisas em antigos arquivos continuam, outros escritos seus, talvez ainda mais surpreendentes, poderão ressurgir.

Juana Inés de la Cruz
Nada foi fácil para Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana, a maior poetisa da América espanhola. Nascida em 1648, num povoado próximo à Cidade do México, vinha de uma família mestiça. Não conheceu o pai. A mãe encontrou um marido enquanto Juana era criança e mandou a filha para a capital, aos 8 anos, para morar com o avô. Foi na biblioteca dele que Juana teve contato com livros. Devorou desde clássicos gregos e romanos até compêndios de teologia. Começava a nascer uma brilhante escritora.
Autodidata, Juana aprendeu latim, passou a dominar o espanhol como ninguém e estudou até português. Mas, para uma moça sem pai e sem fortuna, a vida era espinhosa na América do século 17. Aos 16 anos, Juana precisou se separar do avô para tentar a vida na corte. Se algum nobre caridoso pudesse se apiedar da jovem e lhe conceder um dote, ela poderia entrar para o convento, onde nenhuma moça era admitida sem pagar uma boa quantia. Ou até casar.
Submeter-se a um marido, entretanto, estava definitivamente fora dos planos de Juana. “Se tivesse se casado, ela jamais teria se tornado escritora”, diz Nela Rio. A própria Juana se encarregou de explicar sua opção pelo convento. “Fiz-me religiosa porque, embora soubesse que essa condição tinha muitas coisas repugnantes ao meu temperamento, pela total negação que possuía ao matrimônio, era o mais decente que podia escolher”, disse ela em uma carta ao bispo de Puebla, Manuel Fernández de la Santa Cruz.
Entre as amizades que Juana fez na corte, estava um nobre muito católico, Pedro Velázquez de la Cadena. Sabendo dos desejos da jovem, ele aceitou pagar seu dote e, aos 21 anos, ela pôde entrar para o Convento dos Jerônimos. Ali, conseguiu escrever livremente, assinando como Sóror (“irmã”, em espanhol antigo) Juana Inés de la Cruz. De sua pena saíram desde sonetos e liras até poemas satíricos, mitológicos e amorosos – muitos deles dedicados a mulheres com quem convivia, como a marquesa de Mancera, que foi vice-rainha do México.
Juana também escreveu belos poemas para outra vice- rainha, Maria Luísa Manrique y Gonzaga, que tinha fama de também ser bonita e inteligente. Para ela, escreveu: “Ser mulher, nem estar ausente/ não é de amar-te impedimento/ pois você sabe que as almas/ ignoram distância e sexo”. Foi Maria Luísa que, de volta à Espanha, em 1682, lançou o primeiro livro de Juana, Inunda­ción Castálida (“Inundação castálida”, inédito em português). “Não se sabe se ela tinha tendências realmente homossexuais ou se pretendia apenas adular a corte. De qualquer forma, Juana foi bastante audaciosa”, diz Nela Rio.
Mesmo antes da primeira edição, os escritos da genial Juana já circulavam pelos salões do vice-reinado no México. Pelas mãos de seus muitos admiradores, suas criações não demoraram a chegar à Espanha. Juana sabia cultivar relações com os poderosos, e recebia em seus aposentos desde membros da alta sociedade mexicana até clérigos influentes.
Defensora do direito à educação das mulheres e da igualdade intelectual entre os sexos, ela expunha suas idéias em cartas enviadas a amigos e conhecidos. Como Juana era  protegida e querida pelas autoridades, seus escritos sempre despertavam mais admiração que rancor. Mas, por volta de 1690, isso mudou. Levando sua rebeldia até o fim, Juana não viu problema em criticar o padre Antônio Vieira, figura admiradíssima na América colonial. Quando a freira escreveu a Carta Antagônica, com críticas a um dos sermões dele, o jesuíta português que vivera no Brasil já estava morto e enterrado. Mas isso não evitou a polêmica.
Juana descobriu que podia criticar a sociedade de sua época e até receber homens em seus aposentos, mas jamais poderia ter mexido com as figuras célebres da Igreja. Pressionada por seus superiores, ela teve que se retratar e abandonar a escrita. Pouco tempo depois, em meio a uma epidemia de gripe que tomou conta da Cidade do México, Sóror Juana morreu, com cerca de 45 anos. Era o fim de uma das maiores vozes da América Latina.

Aqui, mulher era para casar
Os portugueses não aceitavam freiras no Brasil colonial.
Se na América espanhola os conventos criaram condições para que surgissem grandes talentos femininos, no Brasil a história foi bem diferente. Por aqui, durante muito tempo, não era sequer permitido que uma mulher virasse freira. Enquanto nas terras colonizadas pela Espanha havia mais de 70 conventos em meados do século 17, a primeira casa semelhante do Brasil, a Santa Clara do Desterro, foi fundada somente em 1677, na Bahia. A proibição, imposta por Portugal, tinha um motivo demográfico: a carência de mulheres brancas para encher a colônia com seus filhos.
No começo, a coroa portuguesa teve praticamente um só objetivo no Brasil: explorar as riquezas naturais, deixando de lado o povoamento. Com o passar do tempo, isso se tornou um problema, pois faltavam descendentes de portugueses para ocupar o vasto território colonial. Nesse cenário, uma mulher que virasse freira desperdiçava seu potencial de ser mãe. “No Brasil, o direito de escolher entre casar ou seguir a vida religiosa acabava negado às mulheres, em grande parte por essa questão populacional”, diz Maria José Rosado Nunes, historiadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e co- autora do livro História das Mulheres no Brasil.
Uma das figuras femininas mais famosas do Brasil colonial foi Jacinta de Jesus, que lutou pela fundação do Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Ela nasceu em 1715, filha de pais nobres, e decidiu seguir a vida religiosa. Como isso ainda era algo restrito, ela viajou até Portugal e conseguiu uma autorização régia para ser freira e viver num convento. Mas Jacinta morreu pouco depois, em 1768, sem ver o início das obras da instituição criada por causa dela. “Jacinta foi uma guerreira. Não nas artes, como as Juanas latino-americanas, mas no desejo de levar a vida que escolhera”, diz a historiadora Margareth Gonçalves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Aventuras na História n° 043

As águas do tempo: a história do banho


Bruno Vieira Feijó
Públicos ou privados, sagrados ou profanos, os banhos são uma tradição milenar. Em nome da religião, da beleza e da saúde, civilizações celebraram - e amaldiçoaram - o ato de se lavar.

A humanidade melhora com o passar dos séculos, certo? Nem sempre. Prova disso é o que ocorreu com um de nossos hábitos mais comuns, o banho. Durante a Idade Média, os ocidentais abandonaram os sofisticados rituais de limpeza da Antiguidade e mergulharam numa profunda sujeira. Principalmente por causa da religião, o homem medieval comum achava suficiente tomar um banho por ano. Foi preciso muito tempo  e alguns bons exemplos dos povos orientais e indígenas – para que voltássemos às nossas asseadas origens.
Pesquisadores acreditam que todos os povos, desde tempos imemoriais, tenham praticado alguma forma de higiene pessoal. Os primeiros registros do ato de se banhar individualmente pertencem ao antigo Egito, por volta de 3000 a.C. Os egípcios realizavam rituais sagrados na água e tomavam ao menos três banhos por dia, dedicados a divindades como Thot, deus do conhecimento, e Bes, deus da fertilidade.
“Mais do que limpar o corpo, eles presumiam que a água purificava a alma”, diz o egiptólogo francês Christian Jacq, fundador do Instituto Ram­sés, em Paris. “A crença valia tanto para a realeza, cortejada com óleos aro­máticos e massagens aplicadas pelos escravos, quanto para as populações mais pobres, que recorriam inclusive a profissionais  de rua quando não conseguiam tratar da própria beleza.” O apreço pela higiene é o motivo ao qual arqueólogos atribuem a sobrevivência dos egípcios às pragas e doenças que assolaram a Antiguidade.
A Grécia foi outro local em que os banhos prosperaram. Em Cnossos e Faístos, na ilha de Creta, é possível encontrar bem preservados palácios de 1700 a.C. a 1200 a.C. que, até hoje, surpreendem por suas avançadas técnicas de distribuição da água. “Todo banquete que precisava ser luxuoso incluía uma sessão de banho para os convidados”, explica Georges Vigarello, professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris.
Embora os gregos tenham iniciado a prática dos banhos públicos no Ocidente, os pioneiros nos balneários coletivos foram os babilônios. A diferença é que, na Grécia, o banho não era motivado apenas pela higiene e espiritualidade. Entre 800 a.C. e 400 a.C., o esporte, particularmente a natação, era um dos três pilares da educação juvenil – ao lado das letras e da música. Bom cidadão era aquele que sabia ler e nadar, como comprovam imagens presentes em centenas de vasos de cerâmica pintados naquela época.
Os romanos herdaram muito da cultura da Grécia, incluindo a adoração pelo banho. Mas, entre eles, esse hábito tomou proporções inéditas. Enquanto construíam um dos maiores impérios de todos os tempos, os romanos levavam a suntuosidade de suas termas (enormes balneários públicos) aos mais diversos lugares. Por causa disso, algumas cidades européias ganharam nomes que incluem, literalmente, a palavra “banho” – é o caso de Bath, na Inglaterra, Baden Baden e Wiesbaden, na Alemanha, e Aix-le-Bains, na França. Mas as maiores termas ficavam mesmo na capital do império, Roma: eram as de Caracala, inauguradas em 217, e as de Diocleciano, do ano 305. Esses edifícios, cujos nomes homenageavam imperadores, ti­nham capacidade para receber, respectivamente, 1600 e 3200 pessoas.
A engenharia romana teve que se desdobrar para acompanhar o frenesi dos banhos. Na onda das termas surgiu o hipocausto, uma espécie de assoalho construído sobre câmaras de gás subterrâneas. Esse sistema ajudava a esquentar os cômodos e mantê-los climatizados. Cada salão das termas era decorado com estatuetas e mosaicos. Ao redor de um pátio central, havia uma espécie de sauna, um vestiário e piscinas de água quente, morna, fria e ao ar livre. Os complexos de banho do Império Romano tinham ainda jardins, bibliotecas e restaurantes (como se fossem antepassados dos spas e resorts de hoje).
As visitas diárias às termas tinham fundo religioso, já que o banho público era um ato de adoração à deusa Minerva. E o costume não era restrito às classes mais abastadas. Boêmios, prostitutas, imperadores, filósofos, políticos, velhos e crianças, todos se banhavam no mesmo espaço, sem constrangimento. Ponto de encontro e de troca de informações, era o lugar onde um aristocrata podia medir sua popularidade de acordo com a quantidade de cumprimentos que recebia. “Em épocas de plebiscito, os plebeus nem precisavam pagar a pequena taxa que geralmente era cobrada. Os custos da entrada eram cobertos pelos ricos e nobres”, escreveu o historiador francês Jérôme Carcopino no livro Aspects Mystiques de la Rome Païenne (“Aspectos místicos da Roma pagã”, não lançado em português).

Prazeres perdidos
A liberdade que os romanos tinham de se banhar e ficar nus em público foi entrando em declínio à medida que uma nova religião se tornava popular por todo o império. Era o cristianismo, que pregava a castidade e se tornou a crença oficial de Roma no ano 380. Menos de um século depois, o império viria abaixo, junto com vários de seus costumes. Enquanto isso, a Igreja seguiria cada vez mais forte. Foi a gota d’água para que os prazeres do banho fossem boicotados durante cinco séculos.
Começava a Idade Média, época em que a cristandade varreu da Europa as termas, o esporte e outras atividades em que as pessoas se expusessem demais. Gregório I, o Grande, que foi papa entre 590 e 604, chegou a qualificar o corpo de “abominável vestimenta da alma” – ou seja, a carne era o depósito de tudo o que era pecado. Com tantos pudores, o prazer de tomar banho de corpo inteiro passou a ser visto como um ato de luxúria. Lavar as mãos e o rosto (às vezes nem isso) bastava. Quando muito, era aceitável tomar um banho por ano. Um único barril de água servia para toda a família, sem que a água fosse trocada. “O privilégio do primeiro mergulho era do homem da casa, enquanto as crianças ficavam por último, na sopa suja que sobrava”, escrevem as consultoras Renata Ashcar e Roberta Faria no livro Banho – Histórias e Rituais.
Sem água corrente, as pessoas se viravam como podiam. A limpeza da pele era feita friccionando-a com um pano úmido. Mas, mesmo entre os nobres, o ritual era repetido apenas a cada dois dias. Os cabelos deviam ser escovados com um tipo de pó que supostamente mantinha os fios limpos. E, como não podia deixar de ser, era preciso muita maquiagem e perfume – nas roupas, nos corpos e nos cabelos – para amenizar o mau cheiro.
Toda essa falta de higiene abriu as portas para epidemias devastadoras, propagadas principalmente por roedores. Foi o caso da peste, que matou cerca de 200 milhões de pessoas ao longo da Idade Média. Ao notar que muitos judeus não pegavam a doença, a Inquisição chegou a julgá-los e executá-los, acusados de bruxaria. Mas eles, na verdade, não agiam de má-fé – muito pelo contrário. O que fazia os judeus serem menos suscetíveis a doenças era uma recomendação religiosa que seguiam: lavar as mãos antes das refeições e tomar banho ao menos uma vez por semana.
Foi só durante as Cruzadas, as guerras religiosas travadas entre os séculos 11 e 13, que muitos europeus puderam redescobrir as delícias da água, na aproximação – ainda que violenta – entre Oriente e Ocidente. É que, fora dos territórios dominados pela Igreja, onde ocorreram muitos combates, os banhos públicos da Antiguidade haviam sido mantidos, com seus rituais e instalações sofisticados. Nas hamans, casas de banho turco-árabes, os muçulmanos aproveitavam o prazer de alternar águas quentes e frias. Sessões de banhos completos incluíam depilação, massagem, hidratação, branqueamento dos dentes e maquiagem – ritual que, até hoje, é seguido meticulosamente. Os cavaleiros cristãos que partiram para o Oriente com a missão de tomar a Terra Santa dos muçulmanos não se fizeram de rogados. “Não só passaram a se banhar por lá mesmo, como espalharam pela Europa a prática de jogar água pelo corpo quando retornavam dos combates”, contam Renata Ashcar e Roberta Faria. A certa altura, a atitude contagiou o restante da população européia medieval e alguns banhos públicos chegaram a reabrir as portas.

Nem só aos sábados
Depois do fim da Idade Média, a religião voltou a suprimir os banhos no Ocidente. Nos séculos 16 e 17, irredutíveis cristãos bradavam que a água dilatava os poros da pele, por onde a saúde escaparia e o mal penetraria, em formas como a friagem e os germes. Todo mundo acreditou nisso, incluindo os médicos. E, enquanto nações como Portugal e Espanha descobriam, na América, populações que amavam tomar banho, os europeus voltavam para o mundo da sujeira.
Existiam algumas medidas de higiene, é verdade. Mas elas não eram lá essas coisas. Antes ou depois de qualquer atividade física e após as refeições enxugava-se a pele com um pano e simplesmente mudava-se de camisa. Supunha-se que a roupa branca agia como “esponja” e absorvia a sujeira. Assim, trocar de roupa passou a ser sinônimo de se lavar – e, para se sentir limpas, as pessoas usavam punhos e colarinhos impecáveis.
A privação de água durou até o século 18, quando se provou definitivamente que as doenças se originavam não do banho, mas da falta dele. O iluminismo, que celebrava a razão e defendia a tese de que o mundo deveria ser esclarecido pela ciência, ajudou a fazer do ato de se lavar o símbolo da saúde. Banhos públicos para higiene, esporte e terapia foram, aos poucos, sendo reabilitados.
Mas, após anos de religiosos dizendo o contrário, não foi todo mundo que voltou a tomar banho, mesmo com insistentes conselhos médicos. Quando a célebre rainha Vitória subiu ao trono, em 1837, ainda não havia local para banho no palácio de Buckingham, sede da coroa inglesa. Até os anos 1870, eram raras as casas ocidentais que tinham um cômodo para seus habitantes se lavarem.
Já cientes do bem que a água podia fazer pela saúde, médicos banhavam doentes à força em hospitais. “Não era difícil encontrar um sujeito que, tendo de enfrentar a experiência do primeiro banho, demonstrasse verdadeiro terror, gritasse, tentasse escapar da sensação de sufocamento e palpitação que a água fria proporcionava”, diz um relato da época, citado pelo historiador americano Law­rence Wright no livro Clean and Decent: The Fascinating History of the Bathroom (“Limpo e decente: a fascinante história do banheiro”, não editado no Brasil).
Os banhos rotineiros reapareceram definitivamente nas grandes cidades ocidentais apenas por volta dos anos 1930. Mas, no começo, eles não eram lá tão freqüentes. Eram tomados aos sábados, dia em que também eram trocadas as roupas de baixo das crianças. Nessa época, navios ofereciam cabines de banho e barcos delimitavam áreas em rios que serviam como piscinas naturais. Após o fim da Segunda Guerra, em 1945, quando boa parte das casas européias teve que ser reconstruída, elas ganharam banheiros, abastecidos com a cada vez mais comum água encanada. A França foi a pioneira nas inovações sanitárias, seguida pela Inglaterra e pela Alemanha.
Hoje, voltamos a expor nossos corpos sem pudor, como fazíamos na Antiguidade. Mas isso não ocorre mais durante o ato de se lavar, e sim depois dele. “Ao mesmo tempo em que os trajes começam a valorizar o corpo e deixar adivinhar suas formas, realçando-as e, por vezes, revelando o bronzeado e a pele lisa e firme, o banho se transforma num hábito estritamente íntimo”, escrevem os historiadores franceses Gerard Vincent e Antoine Prost na obra História da Vida Privada: da Primeira Guerra aos Dias Atuais. Tomar banho virou um método individual de se preparar para a exposição pública. Não é à toa que todo banheiro contemporâneo que se preze tem um espelho – um objeto que, há cerca de dois séculos, dificilmente seria visto num lugar como esse.

Difícil higiene
Saiba como os antigos se viravam sem sabão, chuveiro ou xampu.

Ferro no couro
Uma espátula de ferro de mais ou menos 30 centímetros, o strigil era usado pelos antigos gregos e romanos para esfregar vigorosamente a pele, untada com um óleo verde-oliva. Entre os ricos, essa limpeza era feita por escravos.

Cascata caseira
Sem rede encanada, os povos antigos tomavam banho com água derramada de bacias e jarros. Às vezes a pessoa ficava dentro de uma banheira rasa de pedra, mas o mais comum era se inclinar num banco de pedra.

Limpeza pesada
Os babilônios ferviam gordura animal com cinzas vegetais para passar sobre a pele e os cabelos. Já no Egito, uma mistura de bicarbonato de sódio, cinzas e argila fazia as vezes do sabão.

Arranca-cascão
No Oriente, materiais ásperos  feitos de rocha ou cerâmica eram (e ainda são) usados para esfoliar a pele e retirar a sujeira. O ritual se completava com o uso de água de flor de laranjeira, pentes, pastas e perfumes.

Asseio preguiçoso
As banheiras portáteis se popularizaram no fim do século 19, primeiramente entre os ingleses. Quando um fidalgo ia tomar banho, camareiras carregavam a banheira para o quarto e a enchiam à mão, com água aquecida.

Mania de brasileiro
A higiene dos índios demorou a ser aceita pela elite portuguesa.
Quando aportaram por aqui, em 1500, os portugueses se assustaram com a limpeza dos índios, que mergulhavam em rios e no mar até 12 vezes ao dia. Pero Vaz de Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, chegou a escrever, surpreso: “São tão limpos e tão gordos e tão formosos que não podem ser mais”. Os portugueses acabaram cedendo aos hábitos dos nativos brasileiros, percebendo que eles eram muito mais saudáveis que os da Europa. Os membros da corte, entretanto, resistiram aos deleites da água, pois estavam acostumados a passar meses sem sequer mudar de camisa. Já os mais humildes aceitaram o banho mais facilmente – começaram lavando os pés diariamente em bacias. “Com o tempo, o rio se tornou extensão da casa. Sem rede encanada, era nele onde se lavavam as roupas, as louças e o corpo”, escrevem Renata Ashcar e Roberta Faria no livro Banho – Histórias e Rituais. No século 18, algumas cidades já usavam a água de poços e chafarizes mantidos pelo Estado. Quando a família real portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, fez do Rio de Janeiro o primeiro município a contar com água encanada no país – benefício que ainda está longe de atingir todos os brasileiros.

Aventuras na História n° 043

Fatos históricos no mês de março

Maria Carolina Cristianini

DIA 1- Na várzea existente entre os morros do Pão de Açúcar e Cara de Cão, Estácio de Sá, recém-chegado ao litoral sudeste do Brasil para expulsar os franceses que ocupavam o local, funda a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A região havia sido descoberta no primeiro dia de 1502 por navegadores portugueses que pensaram ter encontrado a foz de um rio, que chamaram de rio de Janeiro. Estácio de Sá acrescentou o São Sebastião para homenagear o rei de Portugal, dom Sebastião, e escolheu como padroeiro o santo de mesmo nome – por isso o aniversário da cidade é comemorado em 20 de janeiro, dia do santo. Em 1763, a capital foi transferida para a cidade, que seria a sede do reino português com a chegada da família real em 1808. O Rio de Janeiro permaneceria como capital até a inauguração de Brasília em 1960.
Em 1565, no Rio de Janeiro

Acusada por garotas da cidade americana de Salem de fazer rituais de magia, Tituba, uma escrava negra vinda das Índias Ocidentais, confessa a prática de feitiçaria. O fato desencadeou uma onda de acusações a mulheres da cidade, que levaria ao julgamento do episódio conhecido como o das Bruxas de Salem.
Em 1692, em Massachusetts, nos Estados Unidos

DIA 3- A ópera Carmen, de Georges Bizet, estréia causando espanto. A platéia presente à Opéra- Comique de Paris ficou chocada com o espetáculo, cujo enredo mostra uma cigana que enfeitiça os homens e os leva à perdição.
Em 1875, em Paris
Eu me lembro
"O coração do senhor Bizet, que se tornou insensível pela escola da dissonância e experimentação, precisa recapturar sua virgindade. Carmen não é cênica nem dramática."
Crítica à estréia do espetáculo publicada no jornal francês Le Siecle

DIA 4- Sete anos após a extinção dos templários, o papa João XXII autoriza, a pedido do rei dom Diniz, a criação da Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo. Milícia religiosa, sua missão era combater os infiéis e defender Portugal de invasões.
Em 1319, em Roma

DIA 18- Aos 24 anos,Gaius Julius Caesar Germanicus, conhecido como Calígula por causa das pequenas botinas de exército que usava quando criança, chamadas caligae, assume o posto mais alto do Império Romano no lugar de Tibério, morto dois dias antes.
Em 37, em Roma

DIA 20- Ao fim do prazo de 48 horas dado pelo presidente George W. Bush para que o ditador do Iraque Saddam Hussein abandonasse o país, os Estados Unidos lançam o primeiro ataque contra a capital iraquiana e iniciam a guerra, que continua até hoje. Em 2003, em Bagdá.
DIA 31- Durante a Exposição Universal de Paris, da qual era a principal atração, a Torre Eiffel é inaugurada em comemoração ao centenário da Revolução Francesa. Criada pelo engenheiro Gustavo Eiffel, era na época a construção mais alta do mundo, com seus 300 metros de altura.

Em 1889, em Paris
Eu me lembro
"Soube que os soldados estavam cruzando a fronteira com o Iraque na tarde daquele dia. Eu estava em casa e tive a sensação de que meu país tinha começado algo de que se arrependeria. Senti raiva e fiquei mudando os canais da televisão e checando todos os sites da internet que eu podia. Mesmo não acreditando que os iraquianos tinham armas químicas, estava nervoso porque nossas tropas poderiam ser atacadas por eles. E também porque, cedo ou tarde, eu seria enviado para o combate. Minha unidade foi chamada ao dever em junho de 2004. Então, a raiva que eu senti desde o início do conflito cresceu e se transformou numa amargura que permanece até hoje."

Andrew Sapp, da Guarda Nacional de Massachusetts, esteve no Iraque entre novembro de 2004 e outubro de 2005.
Aventuras na História n° 043

Vietnã x Iraque: as semelhanças das duas guerras

Rodrigo Cavalcante

Motivo polêmico, pouco apoio popular...
Veja as semelhanças e diferenças entre as duas guerras que colocaram os Estados Unidos em um beco sem saída.
Pague para entrar, reze para sair. Em meio à cada vez mais complicada Guerra do Iraque, a comparação com o Vietnã é inevitável. A começar pelo pretexto usado pelos Estados Unidos para entrar na Guerra do Vietnã (1964-1975), que, para alguns especialistas, foi quase tão furado quanto a tal evidência alegada pelos americanos de que o Iraque tinha armas de destruição em massa.
No caso do Vietnã, tudo começou em julho de 1964, quando os navios americanos USS Maddox e USS C.Turney Joy teriam sido atacados pelos comunistas do Vietnã do Norte ao patrulharem o golfo de Tonquim, a sudeste de Hanói, capital do país. Hoje, especula-se que o ataque tenha sido uma ocorrência pouco importante usada como desculpa para o governo americano intervir diretamente na região. Desde 1962, os Estados Unidos já vinham enviando armas, dinheiro e assessores militares para a ditadura pró-capitalista do Vietnã do Sul resistir aos comunistas do norte do país.
Uma vez lá, assim como hoje no Iraque, o exército americano descobriu que seu poderio bélico não era capaz de dominar a resistência vietnamita. Dotados de uma rede de abrigos subterrâneos e túneis, os vietcongues (como eram chamados os guerrilheiros do Vietnã do Norte) contra-atacavam por meio de armadilhas e emboscadas. Além disso, a transmissão pela TV das mortes de soldados americanos e de civis vietnamitas minou a popularidade da Casa Branca, que durante o governo Nixon foi cercada por milhares de manifestantes que exigiam o fim de uma guerra cujo fardo financeiro – e de vidas – se tornara insustentável.
Para o pesquisador americano Robert K. Brigham, autor do livro Is Iraq Another Vietnam? (“O Iraque é outro Vietnã?”, inédito no Brasil) e professor de Relações Internacionais da Faculdade Vassar, em Nova York, as semelhanças não param por aí. “Mais uma vez o país está engajado em uma guerra de fronteiras nebulosas, sem uma estratégia clara de saída, sem uma boa definição de o que seja a vitória, sem o aval das Nações Unidas, com pouco apoio de aliados, custos cada vez mais altos e uma crescente insatisfação popular”, escreve Brigham. Mas ele enfatiza também as diferenças de duração e número de mortes entre os conflitos. Ao menos por enquanto, o Vietnã ainda é o campeão de trágicas estatísticas.

Guerras parecidas
Alguns números sobre os dois conflitos.

VIETNÃ - 1964-1975
Motivo alegado para a guerra - Responder o ataque dos norte- vietnamitas a navios americanos.
Motivo real da guerra - Impedir a expansão do comunismo na Ásia.
Número de militares americanos em batalha - 500 mil.
Custo da guerra - 150 bilhões de dólares.
Número de mortos - 57 039 soldados americanos/ 1,5 milhão a 2 milhões de vietnamitas (civis e militares).
Relação entre vítimas - Dois civis vietnamitas mortos para cada militar.

IRAQUE - 2003
Motivo alegado para a guerra - Eliminar armas de destruição em massa e levar democracia ao Iraque.
Motivo real da guerra - Eliminar um inimigo no Oriente Médio em nome da guerra contra o terror e, de quebra, controlar o petróleo na região.
Número de militares americanos em batalha - 132 mil.
Custo da guerra - 1,2 trilhão de dólares.
Número de mortos - 3 399 soldados aliados (a maioria americanos)/ entre 50 mil e 500 mil iraquianos (civis e militares).
Relação entre vítimas - Menos de 5% das vítimas iraquianas são militares.

Aventuras na História n° 043

Ligação entre mares existe há 4 mil anos


Vitor Orlando Gagliardo
Idéia de ligar os mares existe desde a época dos faraós.
De acordo com o historiador grego Heródoto, a idéia de ligar mares surgiu entre os egípcios por volta do século 5 a.C. Segundo Pedro Paulo Funari, arqueólogo da Universidade Estadual de Campinas, não havia na época um canal entre o Mediterrâneo e o mar Vermelho, como se ­supõe. “Mas houve canais entre o rio Nilo e o mar Vermelho que ligavam esses mares”, diz. No reinado do faraó Senuseret III, que durou entre 1878 e 1842 a.C., o tal canal foi escavado unindo o Nilo ao Vermelho. Dario, rei persa que conquistou o Egito no século 5, terminou a obra. Ptolomeu II Filadelfo, rei egípcio, voltou a mexer no canal perto de 250 a.C. Outros tantos canais foram abertos desde então, até a construção do Canal de Suez no século 19.
É o canal
Teve Verdi na inauguração

Aída na festa
Para comemorar a inauguração do canal, em 1869, o governo do Egito contratou o compositor italiano Verdi para contar a história do país. Ele não conseguiu terminar a tempo a ópera Aída. Acabou apresentando Rigoletto.

Egito e Panamá
O empresário Ferdinand Lesseps construiu os dois canais mais famosos do mundo. Fez o de Suez e o do Panamá, mas não terminou este devido à acusação de fraude. Os Estados Unidos o inauguraram em 1914.

Tropas brasileiras
Após a campanha nacionalista de Nasser e a guerra, a Organização das Nações Unidas enviou, em 1957, uma tropa de paz. O Brasil integrou a missão com cerca de 6200 soldados (Batalhão de Suez). A retirada das tropas foi em 1967.

Aventuras na História n° 043