sábado, 4 de maio de 2013

Edição de Formação Econômica do Brasil de roupa nova


Rodrigo Cavalcante
Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, ganha edição à altura de sua elegância.
Até a década de 1980, a maioria das edições dos chamados textos clássicos brasileiros tinha aparência semelhante à de uma intelectual de esquerda. Sabe aquela que se esforçava para não parecer bonita com medo de ser considerada fútil? Então. Quanto mais importante a obra, menor era o esforço empregado em torná-la visualmente atraente.
A nova edição de Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado (Companhia das Letras), é uma feliz prova de que esse tempo acabou. De roupa nova, ler o texto é uma experiência semelhante à de ouvir um concerto remasterizado. Sem ruídos, sobra o que há de melhor.
E o que há de melhor em Formação... é a clareza, a elegância e a ambição da obra, não à toa considerada uma das melhores “interpretações do país” – ao lado de outros clássicos como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ou Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Ao chegar ao fim do livro, o leitor tem a clara visão de que o país não é resultado do acaso, mas de escolhas econômicas tomadas ao longo de cinco séculos. Gostemos delas ou não.
O paraibano Furtado, morto em 2004, foi criador e presidente da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene, no governo de Juscelino Kubitschek, e ministro do Planejamento de João Goulart. Mas em sua obra não há espaço para divagações ideológicas. Da sobreposição de uma paisagem histórica bem desenhada à análise fina de dados econômicos, o Brasil aparece inteiro, como em um mural.
Os personagens são os próprios ciclos econômicos do país, do Nordeste açucareiro, no século 16, ao início do processo de industrialização, em meados do século 20. A paisagem da obra é formada pelos ciclos da economia no mundo, do mercantilismo à integração econômica mundial (quando ela ainda não era batizada de economia global). O resultado não poderia ser outro: ao traçar um nítido quadro da nossa economia, Furtado terminou desenhando um perfil da essência do Brasil.

Aventuras na História n° 045

Revolta militar, atentado político e cena musical: Três vezes Copacabana


Jardel Sebba
A praia, de difícil acesso e habitada apenas por índios e pescadores, transformou-se em cenário de uma revolta militar e de um atentado político e em templo do samba-canção e da bossa nova.
Duas baleias foram responsáveis pela primeira manifestação de amor do povo do Rio de Janeiro pelo bairro de Copacabana. Em 1858, surgiu o boato de que os mamíferos iam aparecer numa região próxima à praia. Um grupo de curiosos, incluindo o imperador dom Pedro II e a imperatriz dona Theresa, se deslocou nos dias 22 e 23 de agosto para vê-los. O caminho até o areal foi tortuoso. A turma teve que subir morros e cruzar uma vegetação densa, só interrompida por hortas de pescadores e cabanas de índios tamoios, os primeiros habitantes do lugar. O esforço foi quase em vão: as baleias não deram o ar da graça. Para não perder a viagem, o grupo acampou e fez um piquenique, que durou nada menos que três dias e três noites.
O povoado já havia abandonado seu primeiro nome, Sacopenapan (“o barulho dos socós” – nome tupi para pássaros que viviam ali). Tinha sido batizada de Copacabana (“mirante do azul”, em quíchua), assim chamada por causa de Nossa Senhora de Copacabana, uma santa andina adorada na fronteira entre Bolívia e Peru, cuja imagem foi trazida ao Rio por mercadores de prata. Ela era guardada em uma igrejinha que levava seu nome, na praia das Pescarias (atual Posto 6). Copacabana foi por muito tempo uma igreja. Embora nunca tenha sido santa.
A data de nascimento oficial do bairro é 6 de julho de 1892, quando o túnel de Real Grandeza, hoje túnel Alaor Prata (conhecido como túnel Velho), foi inaugurado, na presença do presidente Floriano Peixoto. Construída pelo engenheiro Coelho Cintra, a obra marcou a primeira ligação entre o novo distrito e o centro da cidade, até então bastante complicada pela presença dos morros íngremes. Com o acesso facilitado, a ocupação do lugar começou (e nunca mais parou). Copacabana tornou-se o palco de diversos acontecimentos que determinaram a trajetória política e cultural do país.
Em 1908, depois que o prefeito Francisco Pereira Passos já havia inaugurado o túnel do Leme, que liga Botafogo à atual avenida Princesa Isabel, abrindo mais um caminho para o bairro, Copacabana ganhou sua maior marca registrada: o calçamento preto-e-branco da orla da avenida Atlântica. O famoso mosaico em preto-e-branco foi inspirado no rio Tejo (que banha Lisboa) e cuidadosamente colocado por uma equipe de 35 artesãos vindos de Portugal – assim como as pedras que formam o desenho. Em 1919 a avenida Atlântica, até então constantemente destruída por ressacas, foi duplicada. No ano seguinte, o cronista João do Rio descreveu, em Crônicas e Frases de Godofredo de Alencar, a vista da praia de Copacabana: “Em certos pontos, cavalheiros e damas abancados em torno de mesas a bebericar; em outros, grupos de observadores; e em toda a sua extensão, a movimentação quase nua da multidão de banhistas, multidão que entrava um pouco pelo verde líquido do mar e se envolvia nos borbotões de renda dos vagalhões”.
Os estrangeiros tinham descoberto o bairro antes dos brasileiros. Em 1824, a escritora inglesa Maria Graham já tinha narrado em seu Diário de uma Viagem ao Brasil um alegre passeio a cavalo em Copacabana. Dez anos depois, o francês Jean Baptiste Debret, em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, também escreveu sobre uma “pequena igreja de Copacabana, isolada num pequeno platô”. Em 1886, a atriz francesa Sarah Bernhardt foi a protagonista do primeiro banho de mar registrado no local. Mas o lugar ganhou mesmo notoriedade mundial nos anos 40. “Durante a Segunda Guerra, ela era a única praia segura para a elite internacional”, avalia o historiador Milton Teixeira. “Nessa época, Hollywood descobriu o Rio. Foi o auge de Copacabana e Urca, bairros marcados pela presença dos cassinos, que atraíam artistas estrangeiros que lá se apresentavam”, explica Paul Knauss, professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Daí para virar tema de música foi um passo.
A  pedido do produtor de cinema norte-americano Wallace Downey, em 1944, João de Barro, o Braguinha, e o médico Alberto Ribeiro escreveram Copacabana, aquela que fala da “princesinha do mar”. A canção não ficou pronta a tempo de atender a encomenda – ela serviria para marcar musicalmente a inauguração da boate homônima do bairro em Nova York. Só foi lançada em agosto de 1946, na gravação de Dick Farney. Mas não era a primeira homenagem que um músico fazia ao bairro. Em 1927, o violinista e maestro argentino Julio de Caro já havia escrito o tango Copacabana. Entre as duas ainda há o registro de mais uma Copacabana, do regente e compositor paulista Assis Pacheco. Carmen Miranda gravou Let’s Go to Copacabana, canção do filme que levava o nome do bairro, de 1947, dirigido por Alfred E. Green. Outra homenagem marcante foi a parceria entre Dorival Caymmi e Carlos Guinle, Sábado em Copacabana, de 1951. Três anos mais tarde, Lucio Alves compôs com Haroldo Barbosa o Baião de Copacabana. “Copacabana era o retrato da modernidade e a face bonita que queríamos mostrar ao mundo”, afirma Milton Teixeira.

Um bairro, um forte
Em 1914, o forte de Copacabana foi inaugurado no promontório (cabo formado por rochas elevadas) da antiga igreja de Nossa Senhora de Copacabana, demolida quatro anos depois para a expansão da fortaleza. Lá, uma página sangrenta da história do bairro, que começava a se urbanizar, foi escrita. No dia 5 de julho de 1922, 301 soldados amotinados saíram do forte para fazer um desagravo à prisão do marechal e ex-presidente Hermes da Fonseca, que teria interferido indevidamente nos rumos da eleição daquele ano.
Na madrugada do dia 5 de julho, um grupo de oficiais, sob o comando do capitão Euclides da Fonseca, filho de Hermes, tomou o forte de Copacabana, enquanto outras unidades também se rebelavam. No mesmo dia, o Congresso aprovou o Estado de Sítio. Depois de várias desistências, um grupo saiu do forte disposto a resistir até a morte. E marchou pela avenida Atlântica contra o governo do presidente Epitácio Pessoa. Há controvérsia quanto ao número de militares revoltosos. Algumas fontes dizem que eles eram, inicialmente, 301 – que viraram 29, que viraram 19. E, destes, 18 eram militares, o que fez com que o episódio ficasse conhecido como “Dezoito do Forte”.
Conforme o protesto seguia, sobraram dez manifestantes: quatro oficiais, quatro soldados, um civil que havia se juntado ao grupo durante a marcha e um soldado eletricista que havia ajudado, ainda no forte, a cortar a bandeira nacional com a qual o grupo se enrolou durante a caminhada. No combate final, apenas dois oficiais sobreviveram, Eduardo Gomes e Siqueira Campos, que hoje está representado numa estátua em frente à rua onde ocorreu o tiroteio, batizada com seu nome. O episódio foi o grande marco do Tenentismo, movimento decisivo para a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.
Os restos da bandeira que os revoltosos carregavam estão no forte, aberto à visitação pública. Lá, onde prestaram serviço militar o prefeito César Maia e o empresário Roberto Marinho, ainda há o Museu do Exército e uma filial da confeitaria Colombo. A tradicionalíssima Colombo (filial da matriz do centro) havia passado cinco décadas em outro endereço do bairro, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, mas fechara suas portas em 1992.

Um crime: Rua Tonelero
A revolta do forte não foi o único evento político que saiu das ruas de Copacabana para abalar o país. Após governar o Brasil de 1937 a 1945, Getúlio Vargas voltou eleito à presidência em 1951, baseado numa plataforma política de industrialização sob a bandeira nacionalista. Quando suas diretrizes econômicas entraram em crise e o custo de vida aumentou, por volta de 1953, um de seus mais ferozes opositores era o jornalista Carlos Lacerda, que, à frente do jornal Tribuna da Imprensa, atacava o governo incessantemente (credita-se a ele o nascimento da expressão “mar de lama”, originalmente destinada a classificar uma operação de financiamento do jornal governista Última Hora feita pelo Banco do Brasil). Em um ato desesperado, grupos ligados ao presidente, aparentemente sem seu conhecimento, agravaram em definitivo a crise do governo.
O crime aconteceu na madrugada de 5 de julho de 1954, na rua Tonelero. Lacerda já havia sofrido ameaças e era escoltado por oficiais da Aeronáutica em eventos noturnos. Assim tinha acontecido na noite do dia 4, em comício no Externato São José, na Tijuca. O jornalista, de olho em uma vaga de deputado federal nas eleições de outubro, proferiu mais uma leva de denúncias de corrupção contra Vargas. Na madrugada do dia 5, Lacerda chegou ao edifício Albervania, no número 180 da rua. Acompanhavam-no seu filho Sérgio, então com 15 anos, e o segurança, o major-aviador Rubem Florentino Vaz.
O grupo já entrava no edifício quando Alcino João do Nascimento, que no comício havia estado ao lado de Climério Euribes de Almeida, membro da Guarda Pessoal de Getúlio Vargas, surgiu, atirou, matou Vaz e acertou Lacerda no pé. A partir daí, o que se pode afirmar com certeza é que Nascimento foi acusado de ser o executor do crime. O chefe da guarda de Getúlio, Gregório Fortunato, foi denunciado como mandante e Almeida, como cúmplice. Todas as versões que se seguiram – de Alcino, de jornalistas que presenciaram o crime e do próprio Lacerda – dão detalhes diferentes sobre o que teria acontecido naquela madrugada. Certo mesmo é que foi na rua Tonelero, em Copacabana, que o governo Vargas deu seu suspiro final. Dezenove dias depois do atentado, afogado no “mar de lama”, Getúlio Vargas se matou no Palácio do Catete.

As estrelas no beco
Na mesma década de 50, a pouco mais de seis quarteirões do crime, outra história se desenrolava. O trecho da rua Duvivier, entre os números 27 e 31, batizado por Stanislaw Ponte Preta (codinome do cronista Sérgio Porto) de Beco das Garrafadas, inaugurava uma nova safra de talentos da MPB. O apogeu do lugar aconteceu somente nos anos 60, quando já era chamado de Beco das Garrafas (reza a lenda que, irritados com o barulho, vizinhos jogavam garrafas pelas janelas e os músicos gritavam de volta que as beberiam). Naquela época, quatro boates dominavam a área.
A Ma Grife era dedicada ao trabalho das gentis senhoritas que batalhavam na noite, ao lado da Baccará, da Bottle’s e da Little Club, essas duas dos irmãos italianos Alberico e Giovanni Campana. Aquele pedaço de rua foi palco de uma sucessão de encontros musicais e amorosos, com personagens unidos pela dedicação à boemia. No fim dos anos 1950, Alberico alimentava uma paixão silenciosa por Dolores Duran, que cantava quase diariamente na Little Club. Lá a cantora foi aplaudida pelo colega francês Charles Aznavour. Na Baccará, Dolores contou com a reverência da diva americana Ella Fitzgerald. Jorge Ben debutou no Beco, em 1961, época em que a cantora Leny Andrade reinava. Quando a dupla  Luis Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli começou a fazer história dirigindo shows no Beco, Sérgio Mendes (um jovem pianista de 20 anos que começou a se apresentar nas matinês de domingo, em 1960), Luiz Carlos Vinhas e Luiz Eça tinham que pagar pela bebida antes de usar o piano da Bottle’s, imposição de Alberico.
Wilson Simonal começou a ganhar as platéias das boates da vizinhança em 1963. No ano seguinte, uma cantora gaúcha recém-chegada à cidade também passaria por ali. Elis Regina começou participando do show de Íris Lettieri, e depois ganhou um só seu, dirigido por Miele e Bôscoli, primeiro na Little Club, depois na Bottle’s. Conforme Elis ganhava fama, tinha de se apresentar em São Paulo e começou a faltar às performances do Beco. Contratada pela TV Record, em 1965 ela venceu o Primeiro Festival da Música Popular Brasileira, com Arrastão e abandonou a rua Duvivier de vez. Era o começo do fim.
Pelo menos, até o recomeço. Ano passado, o professor aposentado Carlos Alberto Afonso, dono da Toca do Vinícius, em Ipanema, abriu a livraria musical Bossa Nova & Cia, na Duvivier, ao lado de onde era a Ma Grife. Afonso não viveu a glória do Beco, mas tem seu momento preferido: “De todos os episódios que não testemunhei,  o de que mais gostei é o que conta quando Leny Andrade escondeu-se atrás de um piano, esperando o pessoal do Juizado de Menores sair, para então, na flor dos 17 anos, poder cantar”. Afonso tem projetos para o futuro. “Em breve instalaremos, ao lado, uma réplica da Baccará, que servirá de museu e receberá concertos especiais.” Foi na Baccará que Edith Piaf pediu uma cerveja, mas o bar só vendia uísque e cuba-libre. Mandaram buscar uma no boteco mais próximo e, reza a lenda, a cantora francesa andou espalhando que a boate tinha a melhor cerveja da cidade. Uma malandragem digna de Copacabana.

Copa é o Copa
Uma ilha de glamour para os ricos e famosos.
Obra do arquiteto francês Joseph Gire, que se inspirou nos hotéis Negresco, de Nice, e Carlton, de Cannes, o Copacabana Palace nasceu de uma idéia do presidente Epitácio Pessoa. O político queria receber os convidados do centenário da Independência, em 1922, com o luxo europeu. A idéia foi logo encampada pelo empresário Octávio Guinle, mas a obra não ficou pronta a tempo dos festejos. A inauguração só aconteceu em 1923. Já em 1925, Albert Einstein foi a primeira personalidade mundial a se hospedar ali. Aos 10 anos de vida, uma réplica do hotel já aparecia no filme Voando para o Rio, fato que abriu as portas do Copa para o povo do showbizz. Foi lá que, em 1942, o cineasta americano Orson Welles  um dos primeiros a rodar um filme no Brasil – brigou pelo telefone com a namorada, a atriz mexicana Dolores Del Rio. Num ataque de fúria, jogou a mobília pela janela. Ava Gardner (6) fez um escândalo, em setembro de 1954, quando descobriu que a haviam hospedado no Hotel Glória. Exigiu que fosse levada, às 2 da manhã, para o Copa. Dizem que a diva chorava toda vez que a boate Meia Noite, dentro do hotel, tocava Frank Sinatra, seu ex-marido. Em janeiro de 1964, Brigitte Bardot parou o bairro quando posava para a imprensa na fachada do Copa. Por ali também passaram Edith Piaf, Nat King Cole, Tony Bennett e Louis Armstrong. Marlene Dietrich se apresentou em 1959 com o jovem pianista Burt Bacharah. Nos anos 70, a estrutura do hotel começou a se mostrar deficitária. Nesse período, alguns hóspedes deram trabalho. Em 1970, Janis Joplin  foi expulsa por ter nadado nua na piscina. Alice Cooper , depois de um show no Maracanãzinho, em 1974, destruiu quatro suítes e deixou a piscina inativa por dois dias, tempo que os funcionários precisaram para retirar pratos e talheres do fundo da água. Outro que não deixou boa impressão foi Rod Stewart, que promoveu uma partida de futebol na suíte presidencial do Copa, em 1977, e de lá foi devidamente expulso. Tombado em 1986, em princípio para dificultar os planos de venda e demolição que chegaram a passar pela cabeça de alguns dos Guinle, o hotel foi vendido em 1989 para o inglês James Sherwood, dono da Orient-Express Hotels, por 23 milhões de dólares. Algumas mudanças foram consequência da modernização. A proibição de animais, por exemplo, teve de ser revista para que Marco, um dutch shepherd, pudesse farejar explosivos antes da estada de Hillary e Bill Clinton  no hotel, em 1997. Em uma madrugada de 1991, a piscina do hotel ficou às escuras: a princesa Diana queria nadar e não ser vista. Tudo pelo bem dos hóspedes. ”O Copacabana Palace não é simplesmente uma relíquia do passado. Ele é um hotel moderníssimo”, diz Philip Carruthers, gerente-geral do hotel.

Aventuras na História n° 035

Fatos históricos no mês de maio

Dia 1º - Inglaterra e Escócia firmam um tratado, conhecido como Ato de União, e se unem em um único reino que recebe o nome de Grã-Bretanha. A partir de então, os dois países passaram a ter um único Parlamento, uma só bandeira e os mesmo impostos e sistema monetário. A rainha Ana, da Inglaterra, assumiu o comando do novo reino, que já havia incorporado o País de Gales no século 16 e seria acrescido, em 1801, da Irlanda.

Em 1707, em Londres

Dia 6- Os britânicos lançam o Penny Black, primeiro selo postal do mundo. O nome era uma alusão ao preço (1 penny) e à cor (preta). Antes da invenção, o pagamento pela entrega de correspondências era feito pelo destinatário.
Em 1840, na Inglaterra

Dia 10- O artista italiano Michelangelo começa a pintar os afrescos da abóbada da Capela Sistina, atendendo a pedidos insistentes do papa Júlio II. Finalizada em outubro de 1512, a obra retrata episódios do Velho Testamento da Bíblia. Vinte e seis anos depois do início do trabalho – e dessa vez a pedido do papa Paulo III –, Michelangelo voltaria ao local para pintar o Juízo Final na parede do altar.
Em 1508, no Vaticano

Dia 12- Metalúrgicos da Saab-Scania iniciam a primeira greve de trabalhadores após o AI-5. Na semana seguinte, outras paralisações somaram 50 mil trabalhadores, que pediam melhores salários. Era o começo das greves operárias que se estenderam até o início dos anos 1980.
Em 1978, em São Bernardo do Campo

Eu me lembro
"Aquele foi um dia muito tenso. Lembro que antes de sair de casa não consegui olhar para minhas filhas. Por causa da repressão, nem minha mulher sabia o que estava para acontecer. Mas tive a coragem de propor a paralisação e os trabalhadores confiaram em mim, então precisava seguir em frente. Na época, dissemos que a greve foi espontânea, mas na verdade foi extremamente organizada. Chamei as pessoas que tinham perfil de liderança e fazia reuniões nos banheiros da empresa. Passava a noite pensando nos detalhes para que a chefia não desconfiasse de nada. Tudo deu certo. Era o começo do movimento que atingiria milhares de outros trabalhadores."

Gilson Correia de Menezes foi  líder da greve e prefeito de Diadema. Atualmente é filiado ao PCdoB.
Dia 13- Às 15h15 de um domingo ensolarado, a princesa Isabel assina a lei número 3353, conhecida como Lei Áurea. Assim, libertava os 723719 escravos que oficialmente ainda existiam no país, o último da América em que a escravidão vigorava. A lei possuía apenas dois artigos: “É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil” e “Revogam-se as disposições em contrário”. Durante três séculos, mais de 3 milhões de pessoas foram trazidas da África para o Brasil.

Em 1888, no Rio de Janeiro
Eu me lembro

"Entramos para a comunhão dos povos livres. Está apagada a nódoa da nossa pátria. (...) O júbilo popular explodiu ontem como bem poucas vezes temos presenciado. Nenhum coração saberia conter a onda de entusiasmo que o inundava. (...) Logo que se publicou a notícia da assinatura do decreto, as bandas de música estacionadas em frente ao palácio executaram o Hino Nacional e as manifestações festivas mais se acentuaram prolongando-se até a noite."
Notícia publicada no jornal O Paiz, no Rio de Janeiro, em 14 de maio de 1888.

Dia 20- Convocado pelo imperador romano Constantino I, começa o Concílio de Nicéia, primeiro concílio ecumênico cristão. O encontro condenou o arianismo e estabeleceu como dogma que Cristo era filho de Deus e igual ao Pai.
Em 325, na atual Iznik, Turquia

Dia 23- Começa a construção da primeira ferrovia pública para transporte regular de cargas e passageiros do mundo. A estrada, inaugurada três anos depois, ligaria as cidades britânicas de Stockton e Darlington.
Em 1822, na Inglaterra

Dia 24- Na tentativa de tomar o trono francês, Eduardo III, rei da Inglaterra, começa uma invasão ao território da França e dá início à Guerra dos Cem Anos. O conflito, intermitente entre os países, se estendeu por mais de um século.
Em 1337, na França

Dia 27- Após vencer tropas suecas, o czar Pedro I, o Grande, constrói uma fortaleza no delta do rio Neva e funda São Petersburgo. A cidade foi a capital do Império Russo entre 1712 e 1917.
Em 1703, na Rússia

Aventuras na História n° 045

Museu Evita: homenagem a Eva Péron


Renata Afonso
Acervo mostra a trajetória da mulher mais famosa do país.
Inaugurado em 2002, nos 50 anos da morte de Eva Perón, o Museu Evita, em Buenos Aires, homenageia a mulher mais importante da Argentina. A infância, a carreira artística e a vida política estão representadas no museu, instalado em um casarão do início do século 20. O prédio, um elegante sobrado no bairro de Palermo, era usado pela Fundação Eva Perón como hotel de trânsito para mulheres que pernoitavam na capital. Após o golpe de Estado que derrubou Perón em 1955, a propriedade virou um escritório do Ministério da Saúde.
María Eva Duarte, caçula de cinco irmãos, nasceu em Los Toldos. Aos 15 anos, foi para Buenos Aires, determinada a ser atriz. Em 1944, um terremoto atingiu a cidade de San Juan e Eva participou de um festival para angariar fundos para as vítimas. No evento, ela conheceu o então secretário do Trabalho e da Previdência, Juan Domingo Perón. No ano seguinte, os dois se casaram.
Com o marido na presidência, Evita criou a fundação que leva seu nome – sustentada por doações e impostos – e passou a lutar pela causa das mulheres e dos mais pobres. Isso a tornou muito popular entre as classes baixas, mas ao mesmo tempo criticada e desprezada pela elite, que reprovava o populismo do casal Perón.

1. Estrela em ascensão
Quando chegou a Buenos Aires, Evita entrou para a Companhia Argentina de Comédias e estreou no teatro em 1935. Nos anos seguintes, trabalhou também no cinema e no rádio. Teve alguns papéis de destaque e foi capa de revistas da época. Ao se casar, abandonou a carreira artística.

2. Razão de uma vida
O museu guarda o original do livro mais famoso sobre Eva Perón: A Razão de minha Vida. Lançado em 1951, é a autobiografia em que ela expõe suas convicções. Evita escreveu que se os realistas governaram por tanto tempo e o povo estava tão mal, seria bom dar uma oportunidade a idealistas como ela para mudar a história.

3. Mulher de classe
Frequentemente, Eva Perón era vista com chapéus sofisticados. Consta que ela teria voltado de uma viagem à Europa com 130 malas cheias de mimos e jóias avaliadas em 20 milhões de dólares. Entre os estilistas preferidos estavam o argentino Paco Jamandreu e o francês Christian Dior.

4. Visita ao Brasil
Em junho de 1947, Perón, eleito presidente no ano anterior, fez uma viagem oficial de três meses ao lado de Evita. O casal rodou por Espanha, Itália, Portugal, França, Suíça, Mônaco, Uruguai e Brasil. Nos eventos, a primeira-dama sempre se apresentava com roupas feitas na Argentina, como este vestido de gala, usado no Rio de Janeiro.

5. Guarda-roupa lotado
Na mesma viagem, Evita renovou todo o guarda-roupa. Dizem que ela tinha mais de 900 pares de sapatos – como este, da marca Perugia, número 36. No museu, as peças são acompanhadas por fotos que mostram a ocasião em que foram usadas. Em 1950 a revista americana Life mostrou os armários de Evita repletos de casacos de pele, vestidos, sapatos e jóias.

6. Máquina feminina
Evita Perón foi uma primeira-dama muito ativa – chegou a trabalhar 18 horas por dia em sua fundação. A instituição criada por ela distribuía livros, peças de roupa, alimentos e máquinas de costura a mulheres que não tinham emprego e precisavam sustentar a família.

7. Despedida pública
 doente, Eva Perón usou este casquete na posse do marido, Juan Domingo Perón, para o segundo mandato como presidente da Argentina. O evento, em 4 de junho de 1952, foi a última aparição pública de Evita, que morreria de câncer no útero um mês depois. Seu corpo foi sequestrado e ficou desaparecido até 1971, quando se descobriu que estava enterrado na Itália sob um nome falso. Em 1974, foi devolvido para a Argentina.

8. Exército de enfermeiras
A Fundação Eva Perón, que funcionou entre 1948 e 1955, foi responsável, entre outras coisas, pela construção de escolas e hospitais. A Escola de Enfermeiras da instituição, inaugurada em 1950, formou mais de 5 mil mulheres entre 18 e 34 anos. Acreditava-se que as enfermeiras, que na escola aprendiam até a dirigir ambulância, poderiam resolver os problemas de saúde do país.

9. Carisma de artista
Evita encantava multidões, fazendo comícios que costumavam reunir milhares de pessoas. Este traje foi usado em março de 1952 durante um discurso para apresentar o plano agrário da Fundação Eva Perón, que ajudou pequenos produtores a aumentar os lucros.

10. Título inédito
Evita fez uma enorme campanha a favor do voto feminino na Argentina – tanto que o primeiro título eleitoral emitido para uma mulher foi o dela. Com a aprovação da lei, quase 4 milhões de mulheres foram às urnas pela primeira vez, em 1951. E ajudaram seu marido a ser reeleito.

Aventuras na História n° 045

Copacabana, princesinha do mar


O bairro carioca inspirou diversos músicos.
Antes mesmo de conquistar a boemia carioca, Copacabana já servia de musa inspiradora para músicos estrangeiros, na década de 20. O maestro argentino Julio de Caro compôs, em 1927, o tango que leva o nome do bairro. Carmen Miranda cantou “Let’s Go to Copacabana”, em 1947. Lúcio Alves interpretou “Sábado em Copacabana” e fez ainda o “Baião de Copacabana” em parceria com Haroldo Barbosa. Escute em www.aventurasnahistoria.com.br trechos dessas e de outras músicas que homenageiam a praia mais famosa da América do Sul.

Aventuras na História n° 045

A orgia de Marquês de Sade

Giovana Sanchez

Obra do homem que originou o termo
Ninguém jamais recebeu o convite ao lado. Os qua­tro meses passados no ermo castelo Silling, no qual 48 pessoas se enclausuraram para praticar as mais devassas orgias, existiram apenas na mente de Donatien-Alphonse-François de Sade. E fazem parte da obra mais famosa do francês conhecido como Marquês de Sade, Os 120 Dias de Sodoma.
Esses e outros livros, pornográficos e libertinos, tiveram papéis contraditórios na vida de seu autor. Por um lado, o transformaram, muitos anos após sua morte, em um gênio precursor de correntes filosóficas e autor de obras consideradas à frente de seu tempo. Mas, por outro, são responsáveis pela confusão que se faz entre sua vida e sua obra.

A vida
Não que Sade fosse santo. O homem que deu origem à palavra “sadismo” e passou um terço de sua vida preso teve, sim, suas experiências sexuais um tanto incomuns. E era um grande mulherengo. Mas não fez diferente de outros nobres de sua época. “Libertinagem é uma palavra típica do século 18 e ‘libertino’ é um tipo social da época”, afirma Eliane Robert Moraes, professora de Estética e Literatura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “O libertino era um aristocrata que desafiava os valores dos homens e de Deus”, diz Eliane, que é autora de, entre outros, Lições de Sade – Ensaios sobre a Imaginação Libertina.
Sade tampouco fez o que escreveu. Sua literatura deu abertura para uma série de mitos construídos sobre si. Como o de que, por exemplo, teria passado seus últimos dias encarcerado solitário, escrevendo com sangue e com as próprias fezes para substituir a pena que havia sido tirada dele, como mostra o filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, de 2000. Na verdade, ele passou o fim da sua vida – tão obeso que os movimentos eram prejudicados – em um manicômio, mas ao lado da sua mulher e de uma amante, e escrevendo muito.
Sade era, antes de tudo, um nobre. Filho de um conde diplomata e militar, ele nasceu em junho de 1740 no palácio de La Coste, em Paris. Seguiu a carreira militar e, aos 16 anos, lutou na Guerra dos Sete Anos, na qual a França e a Áustria disputaram com a Inglaterra e a Prússia territórios e destinos comerciais. Quando voltou do conflito, foi obrigado pelo pai a casar-se com Renée-Pélagie de Montreuil. Filha de uma família de nobreza recente e com influência na corte, Renée tinha dois problemas, que se tornariam as perdições da vida de Sade: uma mãe muito poderosa e uma irmã mais jovem e mais bonita.
O primeiro escândalo na vida do marquês ocorreu cinco meses após o casamento. Em outubro de 1763, foi acusado pela prostituta Jeanne Testard de obrigá-la a renegar Deus e a realizar “atos de sacrilégio” com imagens cristãs enquanto mantinham relações sexuais. Acabou preso, mas, graças à influência da sogra, ficou na cadeia menos de um mês. A sogrona ainda o livrou da forca em 1772, quando Sade intoxicou uma prostituta – em uma festinha, ofereceu à infeliz um bombom com um licor afrodisíaco e ela quase morreu.
Sua esposa sabia de suas traições, mas, mesmo assim, manteve-se a seu lado por 27 anos, além de dar-lhe três filhos. Um deles, Donatien-Claude-Armande, queimou quase todos os manuscritos e correspondências do pai após sua morte. Se Renée fechava os olhos para as escapulidas do marido, o mesmo não fazia sua mãe. De protetora, a sogra passou a perseguidora quando Sade revelou que mantinha um caso com a cunhada, Anne-Prospère. O casal fugiu para a Itália. Ela conseguiu localizá-los e pediu ao rei da Sardenha em pessoa, Carlos Emanuel III, que expedisse uma ordem de prisão contra o marquês – embora sem acusação alguma. A sogra ainda se incumbiu das despesas de seu cárcere forçado na fortaleza de Miolans, em Savóia, entre a Itália e a França. Em abril de 1773, o marquês conseguiu fugir.
Em 1775, outra confusão. Uma orgia envolvendo empregados do castelo, Sade e a própria mulher, Renée, veio à tona. O processo foi aberto pelo pai de uma das criadas que participaram da festa – além de enfrentar o marquês nos tribunais, ele deu dois tiros em Sade, que se salvou graças à má pontaria do atirador.
Em janeiro de 1777, a sorte do nobre mudou. A sogra conseguiu que o rei emitisse uma carta de prisão, chamada lettre de cachet. Dessa vez, por 13 anos. E também sem um crime propriamente dito.

A obra
Até então, Sade era apenas um cara com uma vida amorosa apimentada. Na prisão, isso mudou. Lá  onde, ao todo, passou quase um terço da sua vida, lendo muito –, produziu toda sua obra. Em 1784, foi transferido para a Bastilha, onde escreveu contos e novelas (cerca de 50) e produziu seu primeiro romance, Os 120 Dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, concluído em apenas 37 dias. Em 2 de julho de 1789, 12 dias antes da tomada da Bastilha, Sade foi transferido para o Sanatório de Charenton sem poder levar nada. Morreu sem saber que seus manuscritos foram achados por um guarda e publicados – mesmo que apenas em 1935.
Se existe uma coisa que o autor Sade não faz é poupar seus leitores. Inspirado nas “sociedades do amor” formadas pelos aristocratas de sua época para satisfazer desejos sexuais, o marquês escreveu a história de uma comitiva que realiza em um castelo as mais bizarras experiências sexuais. Grande parte da obra é dedicada à pedofilia e à descrição de práticas coprofílicas – com fezes humanas.
Em 1790, Sade foi anistiado pela Re­volução e deixou o manicômio. Foi quando Renée o abandonou. Dias depois, porém, o francês conheceu a mulher que seria sua companheira pelo resto de seus dias, Marie-Constance Renelle. E, com seus bens confiscados pela Revolução, envolveu-se na política: virou comissário para a administração de hospitais de um distrito de Paris. Três anos depois, voltou à prisão. A acusação agora era a de se recusar a punir e a condenar os réus: o marquês era malvisto pelos radicais revolucionários por sempre procurar o meio-termo e ser contra a pena de morte. Em liberdade, publicou A Filosofia na Alcova. No livro, conta a história de Eugénie, jovem que tem aulas de libertinagem em uma orgia entremeada por discussões filosóficas. Nele, faz uma irônica denúncia aos revolucionários. Acusado de “moderatismo”, escapou da guilhotina em julho de 1794.
Em março de 1801, com a França sob a batuta de Napoleão, Sade foi levado ao manicômio de novo  e nunca mais o dei­xou. Aos 74 anos, obeso, morreu em sua cela. Foi enterrado no cemitério de Charenton. Sua cova não tinha nenhuma inscrição, apenas uma cruz.

O legado
Apesar de produzir uma obra extensa – da qual apenas um terço foi publicado –, Sade foi um escritor pouco lido em sua época. “Ele sabia que o que escrevia não seria vendido na esquina livremente. Sempre foi um autor clandestino”, afirma Eliane Moraes. Assim ele permaneceu durante todo o século 19. Em 1834, uma edição do Dicionário Universal inaugura o termo “sadismo”, com o significado de “aberração horrível do deboche; sistema monstruoso e anti-social que revolta a natureza”. O nome só se torna famoso, porém, quando usado pelo psiquiatra alemão Richard Freiherr von Krafft-Ebing, num catálogo de psicopatias sexuais, em 1886.
Os livros de Sade chegaram a ser jul­- gados pelos tribunais franceses em 1950, sob a alegação de afronta à moral e aos bons costumes. Aos poucos, artistas como Salvador Dalí e André Masson começam a se inspirar nas imagens sadianas de crueldade para compor suas obras. Para a filósofa e escritora Simone de Beauvoir, a filosofia radical de liberdade de Sade precedia o existencialismo em mais de um século. Há quem o veja, ainda, como um precursor do estudo do foco da sexualidade que permeia toda a psicanálise de Sigmund Freud. Após mais de dois séculos de sua morte, o marquês recebeu dos surrealistas o apelido de “divino”, entrando para o hall de gênios da literatura e da filosofia.
“Ele coloca uma questão fundamental: como lidar com nossas paixões mais cruéis para encontrar um ponto de superação e de civilização”, afirma Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores da Companhia de Teatro Os Satyros, que interpreta Sade desde a década de 1990. Ainda hoje o pensamento do marquês é provocador. Vázquez diz que a platéia de Filosofia na Alcova, montagem ainda em cartaz em São Paulo, sempre sai chocada. Não fosse assim, não seria Sade.
“Amigo leitor, prepara teu coração e teu espírito para o relato mais impuro já feito desde que o mundo existe.”*
Você está convidado a mergulhar num mundo em que tudo é liberado. Incesto, homossexualismo, orgias e demais violações das normas da sociedade.
Local: Castelo Silling
Data: 30 de outubro de 1784
Durante 120 dias, 44 pessoas se entregarão aos mais secretos – ou nem tanto – deleites de quatro libertinos. Esqueça seus pudores, seus medos, seus questionamentos morais. Aqui não há lugar para eles.

* FRASE DE SADE NA INTRODUÇÃO DE SEU LIVRO OS 120 DIAS DE SODOMA
Mitos sádicos
Uma série de histórias foi contada sobre o nobre francês - mas poucas são verdadeiras
Muitas histórias nebulosas surgiram em torno de Sade. Com uma vida amorosa repleta de traições e festinhas, várias prisões e uma literatura pornográfica, ele serviu freqüentemente de bode expiatório para muitos crimes praticados por libertinos ricos e impunes de sua época. O próprio marquês confirmou, em uma das cartas que escreveu da prisão, em 1781, à esposa: “Sou um libertino, eu confesso; eu concebi tudo o que se pode conceber nesse gênero, mas seguramente não fiz tudo o que concebi e certamente nunca farei. Sou um libertino, mas certamente não sou nenhum criminoso nem assassino”. Vários crimes foram atribuídos a Sade, mas nunca provados. Eis alguns deles:
• Enviar um exemplar de seu romance Juliette (que contava a vida de uma moça que participa de orgias em um convento e relata cerca de 50 mil crimes) a Napoleão, que teria ateado fogo ao livro.
• Ser encontrado em uma sala com um homem morto colocado em um imenso pote de vidro com álcool. Ele teria matado o sujeito e dissecado o corpo.
• Em 1834, a polícia teria arrombado sua casa e o encontrado deitado no chão, bêbado, junto a seu criado, ambos estendidos sobre poças de sangue e vinho.
• Ser preso em flagrante quando tentava queimar uma mulher viva e nua em sua casa.
• Ter provocado, por intermédio de seus livros cheios de violência e crueldade, assassinatos – como o cometido por um suposto leitor, que teria matado uma jovem que cuidava do marquês no sanatório.

Cartas de um homem sensível
Correspondências revelam um sujeito angustiado e irônico.
Preso durante um terço de toda sua vida, Sade se comunicava com o mundo por meio de suas cartas. Seja para as amantes, para a sogra, para a esposa ou para o rei Luís XVI, ele nunca deixou de escrevê-las. Nelas, o marquês se mostra um homem sensível, às vezes apaixonado, às vezes ciumento. Em uma biografia recente, The Marquis de Sade – A Life (“O Marquês de Sade – Uma vida”, inédita em português), o americano Neil Schaeffer traduziu centenas delas. Ele diz em seu site (www.neilschaeffer.com/sade) que “uma das melhores surpresas foi descobrir a riqueza, o humor e a humanidade genuína de suas cartas da prisão”. Muitas vezes seus relatos se mostram angustiados e revoltados, principalmente nas acusações à sogra. Em 1779, escreve a Renée: “Então sua execrável mãe não tem ao menos pena das minhas condições, e, embora esteja completamente consciente de tudo o que enfrento, ela o julga necessário, apenas para instigar sua raiva e a de seus conselheiros, apunhalando-me pelas costas novamente,  doente como estou. Ah, besta detestável!” O marquês tem um humor refinado e, a seu secretário, escreve: “Na França não se fala impunemente a respeito de uma puta. Pode-se falar mal do governo, do rei, da religião: tudo isso não é nada. Mas uma puta, senhor Quiros, com os diabos! (...) Por causa dela intrepidamente encerram um cavalheiro na prisão durante 12 ou 15 anos”.

Aventuras na História n° 045

O Pagador de Promessas trouxe A Palma de Ouro para o Brasil


Isabela Flórido
Prêmio máximo do Festival de Cannes foi dado ao filme O Pagador de Promessas.
Ao contar a história de Zé do Burro (Leonardo Villar), agricultor que vai do interior baiano a uma igreja em Salvador para cumprir uma promessa feita num terreiro de candomblé, o diretor, roteirista e produtor Anselmo Duarte conseguiu um feito até hoje inédito na América Latina: ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
O ano era 1962, e o cinema brasileiro não tinha a menor projeção no exterior. Tanto que nem havia uma bandeira do Brasil hasteada ao lado das bandeiras dos países que participavam da competição, realizada no francês Palais du Festival. Mas O Pagador de Promessas, uma adaptação da peça homônima de Dias Gomes, papou o prêmio máximo, além de receber uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1963. A obra mostra a obstinação de um homem simples e faz referência à intolerância da Igreja Católica diante do sincretismo religioso brasileiro.
A Palma de Ouro conquistada com ele continua até hoje com o diretor. Anselmo guarda a relíquia, toda de ouro, na caixa original, em sua casa, em São Paulo. “A Palma de Ouro representou a afirmação do cinema brasileiro numa época em que nem mesmo nós, brasileiros, acreditávamos no nosso potencial criativo”, afirma. Anselmo Duarte já exprimiu seu desejo de doar a famosa estatueta, além dos outros prêmios conquistados com O Pagador de Promessas e todo seu material iconográfico, para a Cinemateca Brasileira, na capital paulista. “Aguardamos um retorno da instituição sobre como tudo será mantido, protegido e disposto para o público, para efetivarmos a doação”, diz Ricardo Duarte, filho do cineasta, que também é o curador de um projeto ainda mais amplo envolvendo o trabalho de seu pai. “Em parceria com a Brasileira Filmes, trabalhamos não só na recuperação física de todo o acervo, mas montando uma exposição interativa e itinerante, que queremos levar para todo o país. Também haverá a publicação de um livro e a produção de  um documentário sobre a trajetória de O Pagador de Promessas, com o título Palmas, a Palma é do Brasil”.

Aventuras na História n° 045