sábado, 11 de fevereiro de 2012

Maurício de Nassau, o brasileiro

Mariana Lacerda

Ele passou apenas sete anos no Brasil, mas hoje, 400 anos depois de seu nascimento, seu nome está associado à época de ouro da presença holandesa no Recife. Ao voltar para Europa, fracassado econômica e militarmente, e até a morte, Maurício de Nassau seria chamado de "o brasileiro".
No amanhecer de 9 de maio de 1624, moradores de São Salvador da Bahia viram entrar no porto uma frota de 25 velas que exibiam reluzentes canhões pintados de vermelho. Eram os holandeses, ou flamengos, que em menos de um dia tomaram a cidade, num ataque à sede do governo-geral do Brasil. Ali, do outro lado do Oceano Atlântico, no novo mundo, iniciara-se mais um episódio da guerra de independência dos Países Baixos (atual Holanda) contra a Espanha – a quem América portuguesa foi anexada em 1580. No ano seguinte, os 1,9 mil soldados holandeses foram dominados e entregaram suas armas ao exército do rei da Espanha. A cidade foi reconquistada. Em 14 de fevereiro de 1630, os flamengos reapareceram, dessa vez com uma armada de 67 velas. Desembarcaram em Pau Amarelo, litoral norte de Pernambuco, e tomaram a direção de Olinda. Tentaram apoderar-se da vila e, no fim, estabeleceram-se no povoado do Recife. Onde ficariam por 24 anos. Nesse período, Recife se tornaria a Nova Holanda. E, para governá-la, a Companhia das Índias Ocidentais enviou para o Brasil o conde Maurício de Nassau. Ao desembarcar em 1637, ele daria início à chamada “idade de ouro” do Brasil holandês.
O contexto histórico em que se deu a vinda dos holandeses para o Brasil é o dos conflitos europeus em torno da questão colonial. “Os Países Baixos rivalizavam com a Espanha pelo controle do rentável comércio marinho de especiarias asiáticas, escravos africanos e, como não poderia deixar de ser, pelo açúcar brasileiro”, afirma a historiadora Adriana Lopez, autora do livro Guerra, Açúcar e Religião no Brasil dos Holandeses. Assim, a capitania de Pernambuco tornou-se um inevitável campo dessa briga. Para a Companhia, a sede do governo-geral interessava politicamente e a capitania de Pernambuco economicamente. Pois no início do século 17, a região abrigava mais de 120 engenhos e, com as capitanias vizinhas, tornou-se “a área de produção açucareira mais importante do mundo”, segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello, em O Brasil e os Holandeses.
À Companhia das Índias Ocidentais, criada em 1621 pelos holandeses, cabia o monopólio sobre a conquista, o comércio e a navegação na América e na África. Assim como à Companhia das Índias Orientais estava reservada a parte oriental do mapa-múndi. “As duas dividiram entre si o mundo, tal qual  os reis de Portugal e da Espanha pactuaram Tordesilhas”, diz Adriana.
Expulsos da Bahia, os soldados da Companhia tomaram Recife e Olinda. A região transformou-se num só fogo: os engenhos foram abandonados, os canaviais incendiados. Moradores recrutados formaram patrulhas organizadas por Matias de Albuquerque, governador da capitania, que conseguiu manter, por cinco anos, os inimigos restritos ao povoado do Recife.
Com a ajuda de Domingos Fernandes Calabar, luso-brasileiro conhecedor dos labirínticos rios pernambucanos, os holandeses dominaram parte do nordeste do Brasil, da foz do Rio São Francisco até o Rio Grande. De lá, partiram para a conquista do Maranhão (que só foi conquistado em 1641). A queda do Forte dos Afogados, no Recife, em março de 1633, abriu aos invasores o caminho para os engenhos da Várzea (onde hoje está um dos mais aprazíveis bairros do Recife). Também foram pilhados os engenhos em Goiana e Igarassu, com a conquista da vizinha Itamaracá. Os holandeses atacaram o Forte do Cabedelo, na Paraíba, ao norte, e Porto Calvo, em Alagoas, ao sul. Estavam assim tomado o Nordeste açucareiro e seus pontos de comunicação com a Europa, por onde chegavam mantimentos e escoava-se a produção.
Conquistado o território, chegou a hora de a Companhia organizar sua nova colônia e colocá-la para funcionar – e lucrar. Para a tarefa, chamou um  certo Johan Maurits von Nassau-Siegen. Nascido há exatos 400 anos, ele era filho de uma importante família da Europa e, aos 32 anos, tinha uma vitoriosa carreira militar. Parecia ser o homem certo para a função.
Como governador da Nova Holanda, -receberia 1,5 mil florins mensais (o melhor terreno no centro do Recife custaria cerca de 2,5 mil florins) além de seu salário como coronel do Exército, mais uma ajuda de 6 mil florins para despesas pessoais. E ainda o direito a 2% sobre tudo o que fosse apreendido no litoral do Brasil. Era uma proposta irrecusável, principalmente para quem, na época, construía um palácio, em Haia, na Holanda, e estava cheio de dívidas.
Mas o novo governador não veio só. Ao todo, uma comitiva com 46 artistas, cronistas, naturalistas e arquitetos, o acompanhou em sua viagem ao Brasil. Eles seriam responsáveis pela documentação não só das obras do governo, mas da sociedade recifense da época. “Projetaram uma nova cidade, reproduziram as paisagens, fizeram mapas, catalogaram animais e plantas, e retrataram o homem indígena e africano. A fidelidade e a precisão de todo esse trabalho faz com que até hoje seja considerado um importante acervo da história das ciências”, diz o historiador Leonardo Dantas Silva. Até então, o Novo Mundo jamais fora alvo de observações tão precisas. “É essa produção que faz, hoje, o período holandês ser tão lembrado por meio da figura de Nassau – que permaneceu no Brasil apenas sete dos 24 anos de ocupação”, afirma Adriana.
Recife, que relatos da época chamam simplesmente de “povo”, era, no começo do século 17, um burgo “que os nobres de Olinda deviam atravessar pisando em ponta de pé, receando os alagados e os mangues”, escreveu José Antônio Gonçalves de Mello Neto, no clássico Tempo dos Flamengos. A situação agravou-se em novembro de 1631, quando os holandeses incendiaram Olinda. A cidade e “seus inacessíveis oito morros e casas distantes entre si” era difícil de defender das investidas dos portugueses e, por isso, acabou condenada à destruição pelos invasores.
Quando chegou no Recife, em 1637, Nassau encontrou uma população de cerca de 7 mil pessoas obrigada a conviver nas piores condições de higiene e conforto. Para enfrentar a falta de habitações, iniciou a construção, na Ilha de Antônio Vaz (hoje, o bairro de Santo Antônio, no centro do Recife), do que veio a ser a Mauritsstaden ou, para nós, em bom português, a Cidade Maurícia. Ali, ele erigiu para si dois palácios, o de Friburgo e a casa da Boa Vista. E iniciou a urbanização do povoado, seguindo um projeto que contemplava ruas, praças, pontes, mercados, canais, jardins e saneamento, enfim uma cidade de verdade. Afinal, “os holandeses que aqui estiveram eram todos originários de aglomerados urbanos e, por isso mesmo, não poderiam pensar numa cidade que não fosse voltada para o urbano”, diz Leonardo.
Nassau determinou que os moradores varressem a rua defronte suas casas e os orientou “a não despejar mais as imundices senão nas praias”, escreveu Mello Neto. O Recife (atualmente o Bairro do Recife) foi, enfim, em 28 de fevereiro de 1644, ligado à Cidade Maurícia com a construção da primeira ponte da América Latina (onde atualmente fica a ponte Maurício de Nassau). Para a inauguração, Nassau anunciou à população que um boi iria voar sobre suas cabeças. Para surpresa geral, na hora da festa, um boi, ou melhor, o couro de um boi enchido com palha, preso a uma corda, desceu por uma corda do alto do Palácio Friburgo.
Recife tornou-se a cidade mais cosmopolita do continente. Holandeses, franceses, alemães, poloneses que integravam os quadros da Companhia das Índias acorriam para lá. Mulheres chegaram da Holanda e fizeram que o Recife, segundo um relato da época, tivesse os “bordéis mais vis do mundo”. A cidade passou por um terrível surto de sífilis. Doença de cidade grande.
Apesar da relativa paz entre os invasores holandeses e os locais portugueses e brasileiros, durante as obras da Cidade Maurícia, a Companhia passou a questionar a administração de Nassau, que não obtinha os lucros que esperava. “Os novos dominadores eram formados em sua maioria por comerciantes e gente da navegação, acostumados a viver em áreas urbanas e, como tal, não se adaptaram à vida rural, onde se encontravam os principais núcleos da produção do açúcar”, diz Leonardo Dantas, em seu novo livro, João Maurício Brasileiro (ainda inédito). “Eis a primeira falha da tentativa de colonização holandesa no nordeste do Brasil: os invasores podiam ter conseguido apoderar-se dos engenhos, mas não das técnicas de produção de açúcar.”
Ao conquistar Pernambuco, os holandeses confiscaram parte dos engenhos. Os senhores, então, tiveram de pagar caro ao novo governo por suas terras. Quem não teve como pagar ficou devendo. Nassau fazia vista grossa, mas, por pressão da Companhia, passou a cobrar os empréstimos. Assim, atraiu a revolta daqueles que sabiam transformar cana em açúcar. “Ao fazer isso, cultivou entre os donos de engenhos o sentimento de que era melhor – e mais barato – se livrar dos holandeses”, diz Pedro Puntoni, pesquisador da Universidade de São Paulo.
A empresa exigiu o aumento da arrecadação e a cobrança imediata das dívidas e, como não foi atendida, em maio de 1643, o governo holandês mandou que Nassau retornasse. Porém, ele demorou quase um ano para obedecer. Num documento, o seu Testamento Político, Nassau recomendou que, na sua ausência, o governo fosse tolerante com práticas religiosas e exercesse sem rigor a cobrança dos créditos dos engenhos. Que conservasse as fortificações, não abusasse das torturas e fizesse o que fosse possível para atrair a simpatia dos comerciantes portugueses.
Do outro lado do oceano, a Companhia das Índias empobrecia. Por isso, enviava menos recursos para a colônia que, aos poucos, entrou em colapso. “Do início da guerra de restauração, em 1645, até a expulsão total dos holandeses, em 1654, foram anos de muita penúria no Brasil holandês”, diz Adriana Lopez. Cercada no Recife, a população foi obrigada a incluir gatos, cachorros, cavalos e até ratos no cardápio.
O conde Nassau voltou à Europa no mesmo barco que o trouxera ao Brasil, o Zuphen. Ao seu redor, navegava uma frota de 13 navios, e um carregamento avaliado em 2,6 milhões de florins, composto principalmente de açúcar, fumo, pau-brasil e madeiras de lei. Para se ter uma idéia, a ponte construída por Nassau anos antes custou 140 mil florins. Com ele, estavam, além de amostras de plantas, animais e artefatos indígenas, toda a produção de seus cronistas, pintores e naturalistas. Material que, desde aquele momento, iria dar à Europa um valioso testemunho das riquezas naturais e culturais no Novo Mundo. Esse acervo também fez com que Johan Maurits von Nassau-Siegen passasse a ser lembrado, até hoje, em terras do além-mar, como Maurício Brasileiro.
Arte e ciência
A produção dos holandeses no Brasil preservou para sempre um período de apenas 24 anos.
Desde o momento em que o europeu chegou ao novo continente, passou a relatar o que via nessa terra, repleta de gente e de vegetação generosa. Mas mesmo após mais de 100 anos da chegada dos portugueses, nunca a Europa vira descrições e desenhos tão minuciosos de paisagens, da fauna, flora, dos índios e negros que habitavam nossas terras, até que Nassau desembarcou no Recife acompanhado por uma comitiva de 46 estudiosos, entre os quais o médico particular de Nassau, Willem Piso, o astrônomo Georg Marcgrave, os pintores Frans Post e Albert Eckhout – autores dos mapas, herbários e obras de artes tão apaixonantes quanto importantes para a compreensão da história da ciência no Brasil e no mundo. “O período de Nassau não foi, necessariamente, melhor para a colonização. Ele não mexeu na estrutura do colonialismo, que é o escravismo e as grandes propriedades. Mas deixou uma herança histórica e científica sem precedentes para a época”, diz a historiadora Adriana Lopez. A Historia Naturalis Brasilie, publicada em Amsterdã em 1648, divide-se em De Medicina Brasiliensi, escrita por Piso, e no Herbarium Vivum Brasiliens, um compêndio das espécies de plantas brasileiras, assinado por Marcgrave. Era o mais completo sobre a flora do Novo Mundo que se tinha notícia e que seria, mais tarde, citado em trabalhos de Lineu e Darwin. Piso e Marcgrave trabalhavam, na maior parte do tempo, no Palácio de Vrijburg (Cidadela da Liberdade), onde Nassau guardava sua coleção de bichos e plantas. O legado do pintor Albert Eckhout inclui um conjunto de oito pinturas, em tamanho natural, com tipos étnicos brasileiros. E mais uma coleção com quadros menores (óleo sobre madeira), além de aquarelas e desenhos de plantas conhecidos como Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae, com retratos da fauna e da flora contida no zoobotânico de Nassau. Em sua comitiva, estava o jovem artista de 24 anos que se tornou o primeiro autor de paisagens em território americano: Frans Post. Ele teria pintado em Pernambuco, segundo o historiador Leonardo Dantas, pelo menos 18 quadros a óleo. Ao retornar a Holanda, Maurício de Nassau levou consigo a mais importante coleção de manuscritos, preciosos mapas e toda obra de Eckhout e Frans Post. Parte desse acervo foi vendido, em 1652, a Frederico Guilherme (1620-1688), príncipe-eleitor de Brademburgo, na Prússia. Uma segunda parte da coleção veio a ser depois negociada pelo conde de Nassau com Frederico III, rei da Dinamarca, ficando o restante para ser adquirido por Luís XIV em 1679. Hoje, um conjunto de 27 painéis, pintado no Brasil por Albert Eckhout, integra o acervo do Museu Nacional de Copenhague. Suas aquarelas e crayons, com pinturas de animais e plantas, foram redescobertos, na Polônia, onde estão disponibilizados à pesquisa. Dos quadros de Post, restaram sete: quatro estão no Museu do Louvre, em Paris, um na Holanda, outro nos Estados Unidos e o sétimo, uma paisagem da Ilha Antônio Vaz, pertence à coleção da Fundação Ricardo Brennand, no Recife.
Presença marcante
Foram apenas 24 anos, mas a invasão dos holandeses deixou marcas indeléveis no Recife.
1598- Os holandeses atacam as ilhas de São Tomé e Príncipe, na África, dando início à guerra contra o império ultramarino português.
1602- Fundada a Companhia das Índias Ocidentais.
1604- Nascimento de Nassau.
1624- Soldados da Companhia atacam a cidade de Salvador, na Bahia. São expulsos no ano seguinte.
1630- Olinda e logo em seguida o “povo” do Recife são tomados.
1631- Em 24 de novembro, a cidade de Olinda é incendiada.
1632- Temendo ser punido por furto, Calabar muda o rumo da expansão holandesa ao passar para o lado dos “hereges”.
1636- Os holandeses dominam o Nordeste da foz do Rio São Francisco até o Rio Grande do Norte.
1637- Empossado o governador da Nova Holanda, o conde Maurício de Nassau-Siegen.
1637- Nassau ataca São Jorge de Mina, na África. Pernambuco recebe 1580 escravos.
1638- Nassau tenta, em vão, a reconquista de Salvador.
1639- Iniciada a construção do Palácio de Friburgo, casa e jardim zôobotânico de Nassau.
1641- A Companhia já dominava sete das 14 capitais do Brasil, as regiões da Guiana, e as ilhas de Curaçao e Aruba, além do comércio de peles feito pelo Rio Hudson, na América do Norte.
1644- Nassau inaugura a primeira ponte da América Latina.
1644- Nassau deixa o Recife, levando sua coleção de pinturas, vendidas, posteriormente, talvez para pagar as contas da construção de seu palácio, em Haia.
1645- Os luso-brasileiros têm o Recife isolado, sem acesso aos alimentos produzidos na zona rural.
1646- Holanda manda reforços para Pernambuco.
1647- Rebeldes luso-brasileiros controlam o interior do Nordeste. Os holandeses dominam as entradas por mar. Do Forte do Bom Jesus (hoje bairro de Casa Forte), o burgo do Recife é bombardeado sem cessar.
1649- Em 19 de fevereiro, começa a Batalha dos Guararapes. Mais de mil soldados morrem no confronto com rebeldes luso-brasileiros. A data é considerada o marco do início da existência do Exército brasileiro.
1653- Portugal bloqueia o Porto do Recife. Em 27 de janeiro do ano seguinte, a tropa da Companhia das Índias Ocidentais rende-se.
1654- Saídos do Recife, 23 judeus chegam à baía de Hudson e se estabelecem na futura Nova York.
Nova York é aqui
Durante a ocupação, os holandeses garantiam tolerância religiosa para espanhóis, portugueses e nativos, católicos ou judeus. Por isso, judeus portugueses e alguns migrados da Polônia e da Alemanha, mudaram- se para o Brasil a fim de fugir da Inquisição. Eles se estabeleceram no comércio, cobranças de impostos e venda de tabaco e escravos – que ocorria na rua dos Judeus, hoje chamada rua do Bom Jesus, no Recife. Ali surgiu, por volta de 1636, a primeira sinagoga na América, a Zur Israel (rocha de Israel).
Durante a Insurreição Pernambucana, o movimento de reconquista português, a cidade foi cercada e o rabino Isaac Aboab da Fonseca, um português, compôs o poema Mi Kamókha (Quem Como Tu?), em que descreveu a ação de João Fernandes Vieira, líder do movimento, e o estado de penúria pelo qual passava a comunidade judaica.
“Trata-se da primeira literatura escrita em hebraico na América”, diz Leonardo Dantas Silva, historiador recifense. Em 22 de junho de 1646, os esfomeados do Recife vêem surgir os barcos holandeses Falcão e Elizabeth, que vinham carregados de soldados e alimentos.
A população agradecida mandou cunhar duas medalhas comemorativas, as primeiras que se têm notícia no Brasil, para serem entregues aos comandantes dos navios, com os dizeres “O Falcão e o Elizabeth salvaram o Recife”. Após a rendição das tropas holandesas, cerca de 400 judeus retornam à Europa. Um grupo de 23 deles seguiu para a Nova Amsterdã e, lá, fundaram a primeira comunidade judaica do que, no futuro, tornou-se a cidade de Nova York.

 Revista Aventuras na História n° 010

Fidel e a revolução: 45 anos depois

Alessandro Meiguins

Em 1959, Castro chegou ao poder em Cuba. De lá para cá - do fim da Guerra Fria ao colapso do bloco soviético, da globalização ao 11 de setembro - tudo mudou. E a tudo el comandante tem resistido.
Diz-se em Cuba que as grandes mudanças têm data certa para ocorrer: 1º de janeiro. Foi nesse dia, em 1899 que a bandeira da Espanha desceu dos mastros do país, e, após um longo movimento de independência, subiu aos céus caribenhos o símbolo dos novos donos da ilha: a bandeira listrada dos Estados Unidos. Os revolucionários cubanos já expulsavam praticamente os espanhóis quando 15 mil soldados americanos desembarcaram em Cuba e só saíram de lá três anos depois, quando incluíram na Constituição do novo país um artigo inusitado: a chamada Emenda Platt, que permitia que os americanos entrassem e saíssem como e quando quisessem da ilha – o que fizeram de forma direta e indireta durante 60 anos, até outro 1º de janeiro.
No Ano-Novo de 1959, Fidel Castro, comandante de um exército rebelde com pouco mais de 900 homens, liderou um levante popular em Havana, a capital do país. Depois de dois anos na selva, ele e seu grupo de maltrapilhos e barbudos – no qual estavam  seu irmão Raúl, Che Guevara e Camilo Cienfuegos – derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista, que governava com o apoio do governo e empresas americanos. As relações entre as duas nações eram antigas e intensas e a presença de americanos era tão comum na ilha, que está a apenas 144 quilômetros da Flórida, que na década de 50 a expectativa era que Cuba se tornaria, a qualquer momento, o 52º estado americano. Além da cláusula na Constituição, os Estados Unidos guiavam a política cubana por meio das empresas que controlavam a produção de frutas e cana-de-açúcar – o principal produto da ilha – no interior do país. Em Havana, turistas americanos passavam os dias ensolarados entre a praia e os barcos de pesca e, as noites, em bordéis e cassinos.
Durante os anos da guerrilha em Sierra Maestra, o clima ficou tenso entre os velhos amigos. Em plena Guerra Fria, a preocupação dos Estados Unidos era impedir o avanço do socialismo e, por isso, os diplomatas americanos em Havana receberam a incumbência de investigar o movimento rebelde. “O parecer da embaixada poderia ter determinado uma intervenção militar. Mas, na época, as tendências comunistas de Castro não estavam claras e a invasão foi descartada”, diz o historiador americano Wayne Smith, autor de The Closest of Enemies (O Mais Próximo dos Inimigos, inédito no Brasil). Smith trabalhava na embaixada em Havana, na época.
Durante os primeiros meses do novo regime, a diplomacia americana preferiu acreditar que Fidel seria apenas mais um ditador latino-americano com o qual teria de negociar. No entanto, no fim de 1959 e em 1960, as medidas adotadas pelo governo de Castro indicaram que a ilha começava a assumir um perfil político semelhante ao soviético. “Ele iniciou uma extensa reforma agrária, nacionalizou fazendas, usinas de açúcar, indústrias e propriedades urbanas, medidas quase inacreditáveis, dentro da área de influência direta dos Estados Unidos”, diz a historiadora Claudia Furiati, autora de Fidel, uma Biografia Consentida.
A primeira retaliação americana foi a determinação, em 1960, de um bloqueio econômico à ilha – quem quisesse continuar comprando e vendendo para os Estados Unidos deveriam interromper qualquer relação comercial com Cuba. A ameaça está de pé até hoje. A segunda ação foi orquestrada pelo Serviço de Inteligência Americano, a CIA, em abril de 1961. No dia 15, aviões de guerra bombardearam os arredores de Havana. No dia seguinte, Fidel fez um de seus longos discursos em que, pela primeira vez, declarou a natureza socialista da revolução cubana (coisa que relutara em fazer), numa clara tentativa de atrair a simpatia (e a proteção) soviética. Naquela manhã, Cuba tornou-se o primeiro – e único – país socialista do continente. À noite, cerca de 1,4 mil homens, entre mercenários e voluntários recrutados entre os dissidentes cubanos que viviam em Miami, desembarcam em Playa Girón, na Baía dos Porcos. Depois de 72 horas de combates, os contra-revolucionários foram derrotados e o Exército cubano fez 1197 prisioneiros, entre eles diversos feridos, além de causar mais de 200 baixas aos invasores. Após oito meses, os presos foram trocados com os Estados Unidos por alimentos e remédios avaliados em 54 milhões de dólares.
O episódio foi a gota d’água para convencer Fidel que para manter a ilha segura seria inevitável um acordo com os soviéticos. A aproximação incluiu contratos econômicos que romperam o bloqueio: em troca de açúcar, Cuba passou a receber petróleo russo. Em troca, a União Soviética penetrava no coração da América, jogando no lixo o tratado de Yalta de 1945, que havia definido as áreas de influência das grandes potências após a Segunda Guerra. Cercados na Europa, onde os americanos mantinham bases na Alemanha, Itália e Turquia, e na Ásia, (pelas bases americanas no Japão, na Coréia do Sul e no Irã), os soviéticos viram uma oportunidade de igualar as condições de tensão da Guerra Fria. No ponto alto desse combate velado, o primeiro ministro russo Nikita Krushov propôs a Fidel instalar ogivas nucleares em território cubano. De junho a agosto de 1962, a potência socialista enviou secretamente a Cuba, 44,5 mil soldados, combustível e equipamento necessário para a construção de uma base de lançamentos. Os mísseis totalizavam 42 ogivas instaladas em foguetes de médio alcance. As obras estavam prestes a ser concluídas quando em uma checagem de rotina, aviões de espionagem americanos descobriram o aparato cubano-soviético. O presidente John Kennedy mandou que navios de guerra cercassem Cuba e exigiu a retirada dos armamentos de lá. A chamada crise de outubro, ou Crise dos Mísseis, colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear. Fidel, animado pela promessa de proteção dada pelos soviéticos, parecia pronto para a briga e afirmou que a hegemonia do “tubarão ianque na América chegara ao fim”. Ao mesmo tempo, mobilizou suas tropas e preparou-se para resistir. “Fidel acreditou no acordo com Krushov e estava pronto para a guerra”, diz Newton Duarte Molon, historiador da Universidade de São Paulo. Porém, na véspera do conflito, Kennedy e Krushov firmaram um acordo de paz sem consultar o líder cubano. Os russos retiram os mísseis em troca da garantia que Kennedy não invadiria a ilha.
Os cubanos sentiram-se abandonados, mais isolados do que nunca. E as relações com os soviéticos esfriaram. Fidel apostou, então, no que chamou de internacionalização da revolução. Cuba passou a financiar guerrilhas na América Latina, na África e na Ásia e passou a fornecer treinamento militar para qualquer um que estivesse disposto a derrubar um governo que julgasse simpático aos americanos, como o Brasil, o México e a Argentina, para ficar em exemplos do continente. Durante quase 30 anos, tropas cubanas apoiaram movimentos guerrilheiros em países como Nicarágua, El Salvador, Honduras, Panamá, Bolívia, Cabo Verde, Guiné Bissau, Congo, Argélia, Namíbia, Angola, Iêmen e Vietnã.
Em 1966, Che Guevara, o maior embaixador dos ideais internacionalistas de Cuba, tornou-se um dos responsáveis em levar a revolução para países da América do Sul. “Em contrapartida, os Estados Unidos lançaram o Plano Mann, que apoiava governos e movimentos anti-socialistas”, afirma Newton. “O medo de uma nova Cuba fez com que os Estados Unidos apoiassem ditaduras na Argentina, no Brasil e no Chile.”
A bronca dos cubanos com os russos, porém, não resistiu à saída de Kruschov e a reaproximação ocorreu em 1972, quando Fidel e o líder soviético Leonid Brezhnev assinaram novos acordos de cooperação. Segundo Claudia Furiati, entre produtos e créditos, a União Soviética gastava, na década de 70, 1milhão de dólares diários para manter viva a vitrine do socialismo na América. Havia dinheiro para investir em educação (que, em Cuba, inclui os esportes) e saúde. A produção de livros ultrapassou 30 milhões de exemplares por ano. E ainda sobrou algum para promover a dança, as artes plásticas e a música.
A partir de 1980, com a eleição de Ronald Reagan, os Estados Unidos voltaram a pressionar Cuba por meio da opinião pública internacional, afirmando que ninguém podia sair da ilha e que todos os cidadãos cubanos eram prisioneiros. A reação de Fidel foi liberar a concessão de vistos e, em seguida, abrir o porto de Mariel, cancelando todas as restrições para a imigração. Criou-se uma ponte Mariel-Miami, por onde passaram 125 mil pessoas.
Em 1984, a economia cubana dava mostras de que não funcionava mesmo com o apoio soviético. Cuba devia a mais de 100 bancos internacionais, na maioria empréstimos de curto prazo. O governo Reagan interveio para impedir a renegociação das dívidas, deixando a ilha sem crédito. Para completar a asfixia, em março de 1985, Mikhail Gorbachov chegou ao poder na União Soviética. Suas políticas de perestróika (abertura) e a glasnost (transparência) previam a convivência pacífica com os Estados Unidos e a redução do apoio ao socialismo internacional. A queda do muro de Berlim em 1989 anunciou o colapso do bloco socialista. Em pouco tempo, Cuba perdeu 75% das importações e mais de 95% do mercado externo para seus produtos. A vida na ilha tornou-se extremamente difícil.
Sem saída, em 1993, Fidel decretou o chamado Período Especial, ou “revolução dolarizada”. Cuba abriu-se ao turismo e o uso da moeda americana foi permitido, quando não incentivado. Permitiu-se que os dissidentes cubanos da Flórida enviassem dinheiro a parentes em Cuba, o que passou a ser uma das principais molas da economia local. Aqueles que não tinham formação universitária foram autorizados a criar pequenos comércios e a cobrar em dólar. A pirâmide social enlouqueceu e mestres e doutores, que só podiam receber em peso (a moeda cubana), ganhavam menos que camelôs a prostitutas. “Fidel errou ao não preparar o país para uma independência financeira. Em vez de apoiar revoluções na África, deveria ter criado um parque industrial que gerasse empregos para a mão-de-obra especializada do país”, diz Dina Lida, responsável pelas relações internacionais do Partido Popular Socialista (PPS). Entre 1995 e 1997, quando todos esperavam a falência do Estado cubano, contratos com empresas de 40 países (incluindo a brasileira Petrobras) resultaram no ingresso de mais de 1,5 bilhão de dólares no país.
Além da difícil situação econômica interna, a pressão internacional não refresca a vida dos cubanos. Quando as torres do World Trade Center caíram em 11 de setembro de 2001, o presidente americano, George W. Bush, se esforçou para incluir Cuba na lista de países que apoiavam o terrorismo. A resposta de Fidel, condenando os atentados e oferecendo ajuda aos Estados Unidos, arrefeceu a estratégia americana. No ano seguinte, o governo Bush voltou ao ataque, acusando Cuba de ser produtora e distribuidora de armas químicas e biológicas. Em abril passado, o país foi condenado em uma votação nas Nações Unidas, numa denúncia apresentada por Honduras, por não respeitar os direitos humanos. “Em maio, o Congresso americano começou a discutir uma proposta do Executivo, que sugere os caminhos para uma transição – pacífica ou não – nas relações com Cuba. Ele decidirá o papel que o governo adotará ainda este ano”, diz William Leo Grande, professor de política internacional da Universidade Americana, na Virgínia, Estados Unidos. Para Wayne Smith, no entanto, quem espera alguma mudança drástica irá frustrar-se. “A manutenção do bloqueio e da pressão sobre Cuba podem ser políticas ultrapassadas, mas o Congresso está disposto a mantê-las até o fim.”
Mas que fim será esse? Depois de 45 anos de revolução e passados 15 do fim do bloco socialista, Fidel permanece à frente de Cuba, invicto após tentativas de assassinato (leia quadro na pág. 29), crises econômicas, da pobreza de seu povo e das acusações de despotismo. Para os que o apóiam,  ele é o último defensor de ideais libertários e sociais. Para Claudia Furiati, a persistência da revolução cubana em 2004 “é um sinal de que é possível buscar um projeto próprio de desenvolvimento, com todas as suas dificuldades, seus equívocos e acertos”. Para os críticos, ele é um líder antiquado, isolado no poder, que se sustenta graças a um passado quase mítico, que alguns insistem em acreditar. “Resistir aos americanos tem sido a única bandeira de Cuba, pois Fidel não construiu um modelo novo de sociedade, que se possa seguir ou admirar”, diz Rafael de Falco, empresário brasileiro e ex-ativista político que morou exilado em Cuba de 1973 a 1979. Fidel já afirmou, repetidas vezes, que será absolvido pela história. Mas o julgamento já começou.
Dois anos em Sierra Maestra
Incansável e com ótima pontaria, Fidel foi um guerrilheiro e tanto.
A primeira tentativa que Fidel fez de derrubar a ditadura de Batista teve um fim trágico. Dos 175 homens que o seguiram, em 26 de julho de 1953, ao ataque do Quartel de Moncada (sede do governo), poucos sobreviveram. Fidel foi preso  e depois exilado no México. Lá, ele reorganizou seu grupo, recebeu adesões (incluindo a de Che Guevara) e treinou tiro e técnicas de guerrilha. Seu plano: voltar a Cuba. Na madrugada de 25 de novembro de 1956, Fidel cruzou o Golfo do México num barco chamado Granma, levando 85 homens, armas e munição. Para encobrir o desembarque, aliados de Fidel fazem manifestações em partes isoladas de Cuba. Próximo ao Cabo Cruz, no sudeste da ilha, o Granma encalhou. Ao descer, atolaram até os joelhos na lama e, quando chegaram em terra, foram recebidos pelas forças de Batista.
Entre 8 e 16 de dezembro, muitos membros da guerrilha acabaram presos e mortos. Com o Exército em seus calcanhares, Fidel fugiu para uma região montanhosa na floresta: a Sierra Maestra. Apenas 12 homens sobreviveram. E 17 de janeiro,  ocorreu a primeira vitória dos rebeldes, em La Plata, onde capturaram armas e alimentos dos soldados do governo. A lei da guerrilha era mobilidade e proteção: golpear e embrenhar-se. Durante dois anos, essa foi a estratégia. Outra, era conseguir o apoio dos camponeses. Os guerrilheiros receberam dinheiro e armas de simpatizantes e, no começo de 1958, o grupo já era composto por mais de 200 combatentes. Em abril, Fidel estabeleceu o comando revolucionário em La Plata. Construiu casas e estabeleceu uma pequena república. São 280 rebeldes armados. O dia mais crítico dos combates foi 19 de junho, quando batalhões do Exército com mais de 600 homens cercaram La Plata, entre 28 e 30 de junho, Fidel venceu, apossou-se de armas, munição e um rádio – com o qual passou a transmitir seus discursos contra o governo e os imperialistas americanos. Em julho, as tropas de Batista atacaram em peso os rebeldes, entre os dias 11 e 21, na batalha de Jigue. Os rebeldes cercaram um dos batalhões de Batista e os deixaram sem alimentos. Quase são rechaçados pelos aviões bombardeiros, mas mantêm a posição e seguram o batalhão, que se entregou no dia 21. No fim de 1958, os rebeldes assaltaram um carregamento de armas pesadas, como metralhadoras, bazucas e granadas e tomaram Santa Clara, o coração da ilha, onde se cruzam as principais estradas de ferro e rodovias. Dali, não havia retorno. Com 900 homens atuando em quatro frentes, os rebeldes conquistam Havana.
Era 1º de janeiro de 1959.
 "Meu colete é minha moral"
Fidel teria resistido a 638 tentativas de assassinato.
A contra-inteligência cubana, o serviço secreto que se dedica, entre outras coisas, a proteger a vida de Fidel Castro, calculou em 638 as tentativas de assassinato ao seu líder, até 2002. Sem contar, é claro, as inúmeras situações de perigo que viveu durante a guerrilha. Os próprios responsáveis pela proteção do revolucionário afirmam que é a sorte quem salva Fidel. As ameaças contra sua vida começaram em 13 de janeiro de 1960, quando Allen Dulles, diretor da CIA, apresentou um plano de ação contra os líderes da revolução cubana ao Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Na primeira fase, os planos visavam desmoralizar Fidel – o que incluiu até um spray com um composto químico parecido com o LSD, para que o comandante “alterasse sua conduta em público”. A CIA atuava por conta própria nessa questão, e muitas vezes  imaginava planos cheios de discrição, impossíveis de serem notados. Ao saber de todos os passos de Fidel, em 1962, a CIA enviou a Cuba pastilhas com veneno. De mão em mão, as cápsulas chegaram até um barman do Hotel Havana Livre, muito freqüentado por Fidel. Quase um ano se passou sem que coincidisse uma visita de Fidel com o turno do barman. Quando isso finalmente ocorreu, as pastilhas estavam grudadas no congelador do bar. Ao tentar desgrudá-las, o barman  Santos de La Caridad as quebrou e o veneno escorreu pelo freezer. Menos curioso  e muito mais trágica foi a tentativa em 1976.
Ao saber de uma viagem de Fidel a Angola, um grupo chamado Condor mandou pelos ares um avião da Cubana, linha aérea de Cuba, em 6 de outubro.  Morreram  73 pessoas, a maioria esportistas. A informação de que Fidel estaria no vôo era falsa. A explicação para tanta sorte foi o próprio Fidel quem deu, aos jornalistas americanos, em sua visita aos Estados Unidos em 1960. Indagado se mantinha algum esquema especial de segurança ou se andava com colete à prova de balas, Castro, sempre um grande frasista, disse: “Meu colete é minha moral”.
 Hasta la vista, Fidel!
O que será de Cuba depois que ele deixar o poder?
A pergunta foi feita pela primeira vez por Simone de Beauvoir, em 1960, quando a escritora francesa visitou Cuba. Há 45 anos no poder, a vida de Castro confunde-se com os rumos de seu país. Muitos imaginaram que o fim dessa relação era certo, quando o bloco soviético se esfacelou e Cuba se tornou uma ilha à deriva no cenário internacional: sem matéria-prima, sem divisas, sem indústrias de ponta e sem crédito. Tanto Fidel como a economia cubana sobreviveram, graças aos dólares dos turistas e das remessas dos dissidentes cubanos nos Estados Unidos. Num sistema que nem de longe garante a estabilidade econômica da ilha.
Em Cuba, o regime político é parlamentarista. A explicação oficial para a longa permanência de Fidel no poder é a de que ele é reeleito presidente do Conselho de Estado, instância máxima do Parlamento de quatro em quatro anos. Outra justificativa, essa menos oficial, é que Cuba ainda vive uma revolução. Por isso, Fidel ainda anda de farda e quepe e não permite outro partido na ilha, sem ser o instituído pelo Estado – o Partido Comunista Cubano (PCC). Assim, ele simplesmente escolhe continuar no poder, para evitar o fim da revolução. Mas ninguém é obrigado a ser comunista para participar das assembléias, para votar ou para dar palpite na esquina. A continuar o atual modelo, a sucessão de Castro se dará dentro do partido. “Não acredite que mude muita coisa com a ausência de Fidel”, diz Alberto Granado, membro histórico do Partido Comunista Cubano, famoso por ter feito com Ernesto Guevara a mítica viagem de moto pela América do Sul, nos anos 50. Segundo ele, que mora em Cuba desde 1960 e atuou em diversos setores do governo, “o futuro de Cuba já começou e os jovens políticos já estão nos cargos principais que dirigem o país.”
“Cuba sem Fidel será uma nação sem seu grande líder, mas creio que o socialismo na ilha continua sem ele”, diz a historiadora Claudia Furiati. Para ela, é possível até apontar prováveis sucessores. “Duas pessoas podem assumir o poder: Carlos Lage, que hoje em dia é quase um primeiro-ministro, e o chanceler Felipe Pérez Roque.” Para Dámian Fernandez, professor do Centro de Estudos Cubanos da Universidade Internacional da Flórida, no entanto, a saída de Fidel pode ser o primeiro passo para uma política de distensão entre Estados Unidos e Cuba. “Se o socialismo vai continuar, essa será uma decisão dos cubanos, mas é claro que a saída de Fidel irá aumentar a pressão de seus opositores”, diz Fernandez. Nos Estados Unidos, sobretudo na Flórida, onde é mais influente a comunidade cubana, não há a menor dúvida. “Será o fim do socialismo em Cuba”, afirma Orlando Murado, diretor da Fundação Nacional Cubano-Americana, sediada em Miami. Para Fernandez, um cenário pós-Fidel, continuará dependendo muito mais da continuação do embargo americano a Cuba que do fim do socialismo. “Se o bloqueio acabar, novas empresas podem fixar-se em Cuba, o que reaqueceria a economia com oferta de empregos e serviços”, diz. Além disso, é claro que se a comunidade internacional passar a comprar um pouco de açúcar da ilha, como fazia no fim do século 18, a economia cubana não iria reclamar.

 Saiba Mais: Sites
www.american.edu/faculty/leogrande/ - Artigos, notícias e debates sobre Cuba, do ponto de vista americano

www.granma.cu/ - O jornal oficial de Cuba
www.canf.org - Mantido por dissidentes cubanos em Miami

Revista Aventuras na História n° 010

Lessa, um gay perante a Inquisição

Luiz Mott

Vinte e um de setembro de 1593. Tempo de moagem da cana em Pernambuco. Nesse dia, desembarca no Recife o Visitador do Santo Ofício, Heitor Furtado de Mendonça. A capitania contava com cerca de 8 mil brancos, 2 mil índios domésticos e 10 mil escravos africanos. Olinda, a sede da capitania, ostentava a casa da alfândega, três conventos, quatro igrejas e uma dezena de ruas. Durante os 22 meses que aí permaneceu, o visitador da Inquisição ouviu 209 denunciantes e 61 confissões de moradores dessa região, cujos desvios incluíram 90 blasfêmias, 87 proposições heréticas, 62 práticas judaicas, 36 desacatos à religião, 34 bigamias, 17 sodomias, 16 práticas luteranas e oito feitiçarias. Um total de 350 ocorrências.
Pelo menos cinco homens foram publicamente infamados de “sodomia”, (homossexualidade), e mais de 30 mantinham em segredo que eram “fanchonos”, isto é, gays. Entre esses, André Lessa, um sapateiro que vivia em pleno centro de Olinda e se viu obrigado a assumir sua prática perante o inquisidor. Em seu currículo constavam 31 rapazes com quem praticara mais de uma centena de ajuntamentos sodomíticos. Isso sem falar nos parceiros que ele omitiu por esquecimento ou por matreirice.
O “Lessa”, como era chamado, invalida o mito do homossexual como um ser delicado, franzino, uma espécie de “terceiro sexo”, conforme definiu no século 19 o médico Karl Ulrichs, o pai dos estudos sobre a homossexualidade. Em seu processo, arquivado na Torre do Tombo, (Inquisição de Lisboa nº 8 473), André Lessa foi descrito como “homem alto, um homenzarrão, com um grande bigode e valente”. Deve ter freqüentado quando menos as primeiras letras, pois assina sua confissão com bela firma. Em seu processo, consta que lá iam de 12 para 13 anos que “tem pecado na sensualidade torpe com muitos moços, sendo sempre autor e provocador, tendo ajuntamento por diante com os membros viris e com as mãos, solicitando e efetuando polução um ao outro.” Os homens e rapazes com quem o sapateiro Lessa manteve atos homoeróticos tinham idade variando entre 15 e 18 anos, eram todos brancos, com exceção de um mameluco. Entre eles, dois filhos de mercadores e de um fazendeiro, três alfaiates, dois sapateiros e nove criados. Quanto à performance erótica desses cripto-sodomitas, temos um menu variado, o que desfaz o mito de que os atos homoeróticos repetiriam a mesma limitação comum aos amantes de sexo oposto, em que há um macho penetrador que subjuga a fêmea submissa. As centenas de práticas libidinosas desse homenzarrão bigodudo revelam a grande versatilidade do imaginário homoerótico quinhentista, incluindo “ajuntamentos nefandos alternados”, “acomentimentos nefandos por detrás”, “ajuntamento dos membros viris pela frente”, “cognatos e adereços”, “derramamento de semente entre as pernas”, “coxetas”, “punhetas ad invicem” (recíprocas), exibições fálicas e conversações torpes. Todas expressões obtidas pelos piedosos ouvidos inquisitoriais.
Um dos aspectos que mais chama a atenção no processo de André Lessa é que em lugares remotos, como Olinda e Recife, no século 16, num espaço urbano exíguo e com rígido controle social, exacerbado ainda mais pelo espectro ameaçador do representante do Santo Tribunal, havia lugar para no curto período de um ano, um homossexual manter uma média de um encontro erótico a cada dez dias, contatando 14 amantes em 12 meses. Além disso, Lessa foi castigado com relativa brandura: sofreu quatro sessões de açoites e foi degredado por cinco anos para Angola.
Se Lessa não tivesse confessado, jamais teríamos notícia da existência dessa numerosa rede de cripto- sodomitas que somente graças à Inquisição se tornou conhecida para a posteridade. Quantos e quantos outros “Lessas” e sua numerosa trupe de amantes homossexuais nunca foram revelados? Os processos dos sodomitas perseguidos pela Inquisição permitem-nos portanto afirmar que, assim como em Portugal do século 16, havia uma sub-cultura gay também no Brasil naquela época, o que nos lembra Goethe quando declarou: “a homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade.”

Revista Aventuras na História n° 010

Clube do Tom

Dedicada à memória e à obra do compositor Tom Jobim, esta página traz letras e acordes de todas as músicas do mestre da bossa nova. Melhor ainda: tem arquivos de áudio das canções de Tom, desde as instrumentais até as cantadas com parceiros. A página, que foi eleita um dos três melhores sites de cultura do mundo, não deixa de exibir também retratos, artigos e uma detalhada biografia do compositor.


Revista Aventuras na História n° 010

Um guia sobre Napoleão Bonaparte

Página oficial da Fundação Napoleão, de Paris, este site tem tudo, tudo mesmo, sobre a vida do imperador Napoleão Bonaparte e sua era. Bem organizado e dividido por mídias e temas, traz um banco de retratos e cenas históricas do imperador, datas-chave de sua vida, caricaturas e links para dezenas de notícias contemporâneas aos feitos do maior general do século 19. Há uma sala de leitura com artigos e livros digitalizados, e recomendações dos melhores filmes, biografias e pinturas sobre “O Corso”. Por meio de listas de discussão, o site também funciona como um ponto de encontro de colecionadores e estudiosos de Napoleão. Em inglês e francês.


Revista Aventuras na História n° 010

Partilha desastrada

Isabelle Somma
Depois da Primeira Guerra Mundial, uma reunião de seis meses entre os líderes dos quatro países vencedores – Grã-Bretanha, França, Itália e Estados Unidos – definiu os termos da paz com os perdedores. Em Paz em Paris (Nova Fronteira), a historiadora Margaret MacMillan, bisneta do primeiro-ministro britânico Lloyd George, mergulha, com intenso detalhismo, nas atitudes dos personagens da reunião e no seu desenrolar. Margaret não deixa de tocar no contexto social e nos impactos históricos da conferência que encerrou a Primeira Guerra mas provocou a Segunda.

Revista Aventuras na História n° 010

A batalha de Sedan

Roberto Navarro

Cai um gigante, nasce outro. A França de Napoleão III cede espaço para o nascimento do Império Alemão. O combate que decidiu a Guerra Franco-Prussiana, no século 19, mudou a história da Europa para sempre
Encurralados na cidade fortificada de Sedan, na França, perto da fronteira com a Bélgica, entre cadáveres destroçados pela artilharia prussiana, os soldados franceses tinham ânimo sombrio naquele ensolarado 1o de setembro de 1870. Pouco mais de um mês antes, seu entusiasmo beirava a euforia. Como a maioria das pessoas  na França, esperavam vencer sem dificuldades a Guerra Franco-Prussiana, confiantes no poderio financeiro e industrial de seu país. Embora inquietos com os recentes problemas políticos no governo do imperador Napoleão III, não tinham dúvida quanto à sua capacidade em esmagar o inimigo. Mas, apesar de subestimada pelos franceses, a Prússia, estado germânico na costa do Mar Báltico, tendo Berlim como capital, também atravessava um período de crescimento econômico. Havia superado a França na fabricação de aço e instalação de ramais ferroviários. Mais importante: a Prússia contava com notável máquina de guerra, apoiada num programa de convocação obrigatória.
Impulsionadas pelo militarismo, suas aspirações políticas eram enormes. Depois de ocupar a região norte do que hoje é a Alemanha e o leste da Polônia desde o século anterior, a Prússia lançou-se em guerras expansionistas contra a Dinamarca e a Áustria. Seu principal líder, Otto von Bismarck, nomeado primeiro-ministro, em 1862, pelo kaiser Guilherme I, dedicava-se ao projeto de unificar sob sua liderança os outros estados germânicos. O imperialismo prussiano alarmava a França, ameaçada em sua posição de potência dominante na Europa.
Em meados de 1870, o príncipe Leopold de Hohenzollern-Sigmaringen, aparentado à família real prussiana, declarou-se pretendente ao trono da Espanha, batendo de frente com interesses franceses. Depois de muita ameaça, a candidatura foi retirada, mas Bismarck manipulou o incidente para jogar um país contra o outro. “Ele queria ver a unificação nacional alemã consumada e achava que uma luta patriótica contra uma agressão estrangeira viria bem a calhar”, afirma o historiador americano Theodore Hamerow, da Universidade de Wisconsin.
Do lado francês, Napoleão III estava convencido de que a França poderia derrotar a Prússia e que a vitória faria bem à sua declinante popularidade e declarou guerra em 19 de julho. Em 1º agosto, otimista com a lendária bravura do soldado francês, ordenou o avanço sobre território inimigo. Foi o primeiro erro numa série de operações mal concebidas. Apenas após alguns dias de invasão, os franceses foram obrigados a recuar. Dois de seus principais exércitos lutaram e perderam quatro batalhas seguidas. Após o último desses reveses, em Gravelotte, em 18 de agosto, as tropas francesas viram-se envolvidas pela movimentação prussiana e, duas semanas mais tarde, estavam isoladas na cidade fortificada de Sedan. A posição era estratégica, pois dominava a área do Rio Meuse, última barreira natural entre a fronteira prussiana e Paris, a capital da França. Ali, concentrava-se o destino da guerra. Todos sabiam disso e mesmo Napoleão III, doente, acometido por fortes cólicas renais, dirigiu-se para Sedan.
Guerra sem heróis
As colinas em torno da cidade haviam sido tomadas pelos prussianos, reforçados por tropas de outros estados germânicos e  suas poderosas peças de artilharia. O 1º de setembro amanheceu quente, com tempo bom e ampla visibilidade, facilitando a ação dos canhões. Em meio ao bombardeio preliminar, escaramuças iniciadas na véspera intensificaram-se nas primeiras horas da manhã nos campos próximos, e numa delas o marechal Mac-Mahon, líder do exército francês, foi ferido. O comando passou então para o general Ducrot, que tentou organizar uma retirada para posições defensivas antes do avanço  prussiano conseguir fechar o cerco. Ao saber disso, o general francês Wimpffen anunciou ter ordens do Ministério da Guerra autorizando-o a assumir o exército caso algo acontecesse com Mac-Mahon. As forças francesas na área eram transferidas assim ao controle de seu terceiro oficial comandante num período de quatro horas. Diante da chuva de granadas disparadas pelos canhões prussianos, Wimpffen cancelou a retirada.
Porém, o fogo da artilharia continuava causando estragos entre os franceses. Em debandada, as tropas posicionadas em campo aberto fugiram ao encontro dos homens reunidos em Sedan, permitindo que os prussianos completassem o cerco por volta das 11 horas. No começo da tarde, Napoleão III já pensava em rendição, mas sua cavalaria não e ainda lutava para romper as linhas adversárias em Floing, a cerca de 2 quilômetros de Sedan. Enquanto isso, no alto de uma colina da região, ordenanças do general prussiano Helmuth von Moltke serviam canapês e vinho branco ao rei Guilherme I da Prússia, que assistia a tudo como se estivesse na ópera ou numa corrida de cavalos. Ao lado dele no camarote improvisado, os convidados incluíam Bismarck, um repórter do jornal inglês The Times, representantes dos exércitos da Grã-Bretanha, da Rússia e dos Estados Unidos e um verdadeiro quem é quem da nobreza alemã, que assistia à cena bem de perto, conforme registrou mais tarde o diário de um dos convivas: “O espetáculo de carnificina era horrível, e os gritos aterrorizados das vítimas de nossas granadas subiam até onde estávamos”.
Lá embaixo, a cavalaria francesa lançou três cargas naquela tarde. Todas foram contidas pelos fuzis prussianos e pelo terreno desfavorável. Perguntado por Ducrot se poderia atacar de novo, o general Gallifet, chefe da cavalaria, respondeu: “Quantas vezes o senhor desejar, mon général, enquanto ainda sobrarem alguns de nós para lutar”. Por volta das 3 horas da tarde, os franceses fizeram uma última e desesperada tentativa. Reuniram todos os esquadrões dispersos da cavalaria e avançaram colina abaixo com o que restava da infantaria. Foram quase todos mortos.
Já não havia esperanças e Napoleão III aceitou a derrota, ordenando a rendição. As baixas francesas somaram 3 mil mortos, 14 mil feridos e 21 mil desaparecidos ou capturados, contra menos de 9 mil prussianos feridos ou mortos. Bismarck e Guilherme I receberam o imperador da França. Foi um encontro embaraçoso. Cabisbaixo, Napoleão III limitou-se a elogiar as forças prussianas e fez apenas um pedido: seguir para o cativeiro pela Bélgica. Queria evitar a humilhação de atravessar derrotado o território francês. Bismarck aceitou e, em 3 de setembro, o imperador partiu para um palácio na Prússia onde ficaria preso. Os 83 mil franceses sobreviventes não tiveram o mesmo privilégio. Debaixo de chuva, marcharam para um campo de prisioneiros, que ficaria conhecido como le camp de la misère (o campo da miséria), pelos tormentos provocados pela fome e por doenças.
A guerra estava decidida, mas não acabou de imediato. Sua segunda fase consistiu numa sustentada por guerrilheiros franceses, os franc tireurs. Mesmo tendo conseguido resultados melhores que o exército convencional, pouco podiam contra a poderosa Prússia. Cercada e bombardeada, Paris rendeu-se em 18 de janeiro de 1871 (a guerra acabou, oficialmente, em 1º de março, com a assinatura do Tratado de Frankfurt). Terminava também uma era na história das táticas militares. Formações compactas de soldados e cargas de cavalaria, de tanta importância em séculos anteriores, seriam a começar dali abandonadas pelos estrategistas europeus, substituídas pelo poder de fogo das novas armas de infantaria, pelas linhas de barragens de artilharia e pela mobilidade das tropas, principais lições dos quase dez meses de guerra entre a França e a Prússia.
Cessar fogo
Rixa entre França e Alemanha marcou o século 20.
A Guerra Franco-Prussiana passou à história como o conflito que destruiu um império e criou outro. A queda de Napoleão III resultou na proclamação da Terceira República e acabou com a hegemonia francesa na Europa continental. Além de pagar pesadas indenizações, a França foi obrigada a ceder os territórios da Alsácia e Lorena. Do outro lado, em território alemão, a vitória provocou uma grande onda de entusiasmo patriótico, que resultou na unificação da Alemanha – a região era formada por 36 microestados, dos quais o mais forte era a Prússia. Estavam lançadas as bases para o imperialismo alemão nas décadas seguintes. Os anos entre 1871 e 1914 foram marcados por uma paz instável, com a França determinada a recuperar a Alsácia e Lorena. Franceses e alemães permaneceram à beira de novo choque armado e essa animosidade seria uma das motivações para a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). “A Primeira Guerra foi a revanche dos franceses. Vitoriosos, impuseram aos alemães o Tratado de Versalhes, em 1919, que determinava multas pesadíssimas e limitava a capacidade alemã de organizar tropas, além de retomar Alsácia e Lorena”, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo. Para ela, a animosidade franco-prussiana ainda teve repercussões durante a Segunda Guerra Mundial, quando os alemães mais uma vez invadiram a França e ocuparam Paris.
Teatro de guerra
Cerca de 120 mil franceses foram cercados por 200 mil prussianos. Acompanhe os momentos finais da batalha que dividiu a Europa.
1. Os prussianos instalaram seus canhões nas montanhas em torno de Sedan e iniciaram intenso bombardeio, além de ocupar a vila de Floing, a 2 quilômetros dali. Para romper as linhas inimigas e escapar do cerco, os franceses precisavam tomar o vilarejo.
2. Para chegar a Floing, a cavalaria francesa foi obrigada a atacar descendo uma ladeira, num terreno tão irregular que seus cavalos escorregavam e caíam.
3. As táticas francesas eram pouco eficazes e consistiam no emprego de duas linhas maciças de cavaleiros com sabre em punho, realizando ataques sucessivos para tentar romper as defesas prussianas.
4. Bem treinados e disciplinados, os prussianos resistiram às seguidas cargas da cavalaria francesa em Floing, causando pesadas baixas nas forças inimigas, atingidas pelo fogo cerrado de fuzis.
5. Por duas vezes seguidas, os ataques franceses foram repelidos. Detida pelos fuzis prussianos, a terceira e decisiva carga francesa recuou. Os prussianos suspenderam o fogo, poupando os sobreviventes.
6. Instalado em posição privilegiada, numa colina perto de Sedan, Guilherme I, rei da Prússia, assistiu ao desenrolar da batalha e comentou a coragem dos combatentes.

Revista Aventuras na História n° 010