sábado, 31 de março de 2012

A união faz o leão

Em liberdade e acompanhados de seus semelhantes, os leões e tendem a ser mais férteis. Essa descoberta, que tem importantes implicações para a defesa de espécies sob ameaça de extinção, é o resultado de um estudo realizado por pesquisadores americanos com diferentes populações leoninas. Para observar a diversidade genética e as variações no comportamento do organismo desses animais, os pesquisadores compararam a fertilidade em três grupos de leões – o primeiro, e maior deles, em seus extensos domínios na planície da Serengeti, na Tanzânia, na África Oriental; o segundo em liberdade, mais um espaço menor, também na Tanzânia; enfim o terceiro num zôo da Índia.
A experiência mostrou que as funções reprodutoras desses animais sofrem os efeitos da diminuição do número de famílias e, em consequência, o do aumento da consanguinidade: quanto menores as populações leoninas e mais restrito seu habitat, menos férteis tendem a ser os machos do grupo. A pesquisa comprova com observações anteriores de cientistas sobre a queda da fertilidade dos animais mantidos em zoológicos com laboratórios. Mostra ainda os efeitos adversos da mudança de habitat nos mamíferos selvagens. A conclusão do estudo não deixa também de ser preocupante e para a conservação das espécies ameaçadas de extinção, pois a vida no cativeiro ou em espaço reduzido, nesses casos, costuma ser a regra em vez da exceção.

Revista Super Interessante n° 006

Como funciona o sistema de camuflagem do camaleão?

Sérgio Santos Twardowski Pinto

O camaleão é capaz de trocar de cor porque pode controlar a concentração de pigmento (melanina) das células da pele. A cada concentração corresponde uma cor ou um conjunto de cores e tonalidades. Ao contrário do que se pensa, o camaleão não troca de cor para se confundir com o meio ambiente e fugir de inimigos. A mudança de cor é determinada por fatores como luz e temperatura ou por emoções como o medo.

Revista Super Interessante n° 006

Quando foi encontrado o fóssil humano mais antigo?

Juvenal Charlis da Paixão

Cada camada de uma rocha sedimentar é característica de um período geológico específico. Assim , pelo estudo da sequência, da quantidade de camadas e o que elas contêm, é possível determinar uma cronologia padrão. Se, por exemplo, um conjunto de organismo puder ser colocado em ordem cronológica de acordo com a sequência de sedimentos depositados em determinado local, isso poderá fornecer um padrão básico, com o qual registros fósseis isolados possam ser comparados e ter sua idade relativa estimada. Para o chamado cálculo da idade absoluta de um fóssil, existe a datação radiativa. Esse método depende da presença de certos isótopos radioativos comuns na atmosfera. Como esses isótopos se degradam, ou seja, perdem a radioatividade num ritmo constante e conhecido, é possível calcular sua idade a partir da radioatividade residual.

Revista Super Interessante n° 006

O aviso dos pássaros

Nos próximos oito anos, cientistas munidos de microfones direcionais ultra- sensíveis vão percorrer uma área pouquíssimo conhecida da floreta amazônica, na fronteira com a guiana, com uma curiosa incumbência: gravas o canto dos pássaros. É um modo de identificar os efeitos da construção da hidrelétrica de Balbina sobre a ecologia de uma área de 1500 quilômetros quadrados, às margens do rio Trombetas, no norte do Amazonas.
Com o auxílio do computador do Laboratório de Bioacústica da Unicamp, em Campinas, o biólogo francês Jacques Vielliard, que desenvolve esse trabalho pioneiro no Brasil, pretende catalogar – mediante o registro de seus sons – as espécies de aves encontradas na área e depois observar periodicamente as mudanças. Ele já acumulou cerca de seiscentas gravações de cantos de pássaros da Amazônia, como o do célebre uirapuru, que só canta ao amanhecer – e apenas quinze dias por ano.

Revista Super Interessante n° 006

Socorro para os bichos

Na Califórnia, discute-se um projeto de lei que dá aos estudantes de qualquer nível o direito de recusar se a dissecar ou ferir animais como parte de seu aprendizado. Aqui ainda não se foi tão longe, mas em São Paulo um grupo de defesa dos direitos das cobaias já trabalha pela regulamentação do uso de animais e em laboratórios e biotérios. O grupo, chamado SOS - bichos, surgiu a há um ano e meio, e por orgulha-se de ter conseguido junto ao prefeito Jânio Quadros que os animais capturados nas ruas de pela prefeitura não sejam mais entregues a laboratórios.
"Não somos contra a ciência", argumenta a artista Mariselda Bumajny, presidente do SOS bichos. "Apenas queremos que haja critérios humanitários na utilização dos animais." Na regulamentação dos sonhos do SOS bichos, os centros de pesquisa teriam o dever de tratar bem as cobaias, a anestesiando-as sempre que lhes fosse causado sofrimento. Além disso, seria proibida a prática frequentam de aproveitar um mesmo animal para mais de uma cirurgia – ele deveria ser obrigatoriamente sacrificado após a primeira intervenção.

Revista Super Interessante n° 006

sexta-feira, 30 de março de 2012

Berços esplêndidos

Ao longo do tempo, a cama já serviu aos mais variados usos: nela se fazia política e serviam-se banquetes. Também se escrevia música e literatura. Já houve tempo em que lugar de discutir assuntos de Estado era a cama — e ninguém estranhava. Na França, por exemplo, o rei Carlos VIII (1470-1498) organizou em seu leito a reconciliação política com seu inimigo, o duque de Orleans. Entre lençóis e almofadas de seda eles resolveram seus problemas, certamente embalados pelo aconchegante clima do quarto de dormir. Como prova de confiança mútua, ao fim da conversa dormiram na mesma cama.
O célebre escritor alemão Thomas Mann dizia que a cama é um “móvel metafísico”, onde ocorrem os mistérios do nascimento, do amor e da morte, e que à noite se transforma em “navio mágico no qual embarcamos para o mar dos sonhos”. Fonte de inspiração de muitos artistas, para nossos antepassados a cama tinha mil outras utilidades além de lugar de repouso  ao menos para os que dela podiam desfrutar.
Os antigos gregos dormiam, comiam e celebravam suas festas em leitos ricamente decorados; os romanos faziam tudo isso em seus relaxantes divãs. Na Idade Média, a cama era um luxo reservado aos poderosos. Para um nobre medieval, receber visitantes placidamente deitado em sua cama era sinal de prestígio e prova de superioridade diante do recém-chegado. Mas nem as famílias aristocráticas dispunham de leitos individuais para cada um de seus membros.
O normal era ter em casa uma grande cama que era compartilhada por pais, filhos e até convidados, se houvesse. Também os animais domésticos eram tranquilamente admitidos a se aninhar nesse leito coletivo — mesmo porque eles ajudavam a manter seus donos aquecidos nas longas noites do inverno europeu. Isso não era coisa só de pobre. “O que me mantém realmente quente são os seis cachorrinhos que tenho e que se metem comigo na cama”, contava Liselotte von der Pfalz, nora de Luís XIV, rei da Franca (1638-1715).
Para a maioria dos mortais, o lugar de dormir não era exatamente um primor de conforto, para não falar em higiene. Dormia-se em enxergas de palha, que, além de absorverem a umidade, eram a moradia ideal para toda a espécie de insetos. O leito do imperador Carlos Magno (742-814), que ele dividia com convidados, conforme o costume da época, consistia em um manto de palha estendido sobre uma base de madeira. Era coberto com um colchão forrado de plumas, em cima do qual se estendiam lençóis. Uma almofada ficava na altura da cabeça. Como soberano que era,  certamente Carlos Magno contava com a criadagem para lhe renovar a palha de vez em quando.
O hábito de repartir a cama com outras pessoas estendeu-se no tempo. Só na segunda metade do século XVIII, apareceria um médico inglês, o doutor Graham, para advertir que essa prática era abominável e anti-higiênica. Mas os contemporâneos do bom doutor não se impressionaram muito e ele acabou entrando para a história por outro motivo — como inventor da cama “celestial”, como a chamou. Exibida em 1778, ela era equipada — segundo Graham — com “uns seiscentos imãs artificiais, que renovavam o vigor  sexual das pessoas que nela deitavam, e proporcionavam um movimento doce, ondulante e vibratório”. Uma intriga de alcova da época dizia que uma das mais famosas apreciadoras desse sugestivo leito era Lady Hamilton, amante de Lord Nelson, o almirante que venceu os franceses na batalha de Trafalgar em 1805. Talvez a cama “celestial” tenha sido a precursora das camas vibratórias de hoje.
Quando Carlos VIII chamou o duque de Orleans  para acertarem suas diferenças a bordo do leito real, não estava inovando. Desde a Antiguidade, fazia-se política na cama. Alexandre Magno, da Macedônia (356-323 a.C.), decidia os destinos de seu império do alto de sua cama de ouro. Os imperadores romanos davam audiências  reclinados em luxuosos divãs. Francisco I, da França (1494-1547), tinha por hábito premiar o almirante Bonnivent, chefe de sua esquadra, após cada batalha vitoriosa, com o honroso convite para partilhar de sua cama por alguns momentos.
O monarca Filipe IV, o Belo (1268-1314), fez de seu dormitório a sala de reuniões mais concorrida de todo o reino da França. Ao redor de sua luxuosa cama — de veludo azul bordado com lírios dourados — se reuniam os conselheiros eclesiásticos, os ministros, os representantes das corporações e os embaixadores estrangeiros. Nos séculos XVII e XVIII era comum que as damas e rainhas recebessem amigos na cama e a eles era concedido o privilégio até de sentar-se ou deitar-se nela. Tal hábito chamava-se ruelle e era sinônimo de estima.
Mas o figurão mais chegado a uma cama foi sem dúvida o cardeal Richelieu, o astuto primeiro-ministro de Luís XIII, da França (1601-1643). Ele só se levantava para despachar com o rei. Quando precisava viajar, não fazia por menos — levava a cama consigo, indo e vindo por vilas e cidades e derrubando muros e paredes que obstruíssem o caminho de sua companheira inseparável. Não é de estranhar que ela o vitimasse: a falta de movimento mais o excesso de comida deixaram Richelieu sofrendo de dificuldades  respiratórios, transtornos cardíacos e circulatórios. Morreu de apoplexia aos 57 anos. Na cama.
De acordo com registros disponíveis, Cleópatra, a bela rainha do Egito, também viajava acompanhada de sua cama, tão grande e pesada que quarenta escravos fortes precisavam carregá-la. Com tantos usos, não é de admirar que a cama tenha servido de refúgio e abrigo dos poderosos nos momentos mais sofridos. Carlos Xll, da Suécia (1682-1718) ficou dezessete meses na cama, não porque padecesse de alguma enfermidade do corpo, mas para curtir a profunda depressão que lhe causou a derrota na batalha de Poltawa para o czar da Rússia, Pedro, o Grande.
A cama tem sido fiel cúmplice das mais esdrúxulas manias, Ricardo III, que usurpou o poder na Inglaterra de 1483 a 1485, depois de ter mandado assassinar todos os aspirantes ao trono, entre os quais seus sobrinhos, com medo de ser assassinado transformou sua cama em uma fortaleza cercada por uma grade de metal. Acabou morrendo numa batalha.
O leito também foi o lugar de nascimento de sublimes criações do espírito humano. Escritores tão diferentes como o alemão Goethe, os franceses Voltaire e Rousseau e o norte-americano Mark Twain produziam suas obras na cama. Em tempos mais modernos, Winston Churchill, duas vezes primeiro-ministro britânico (1940-1945 e 1951-1955), escreveu na cama boa parte de sua História da Segunda Guerra Mundial. O italiano Gioacchino Rossini, famoso compositor de óperas do século passado, entre as quais O Barbeiro de Sevilha, costumava trabalhar no leito. Dizem que seu apego à cama era tanto que, se uma partitura caísse no chão, ele preferia reescrevê-la a ter de levantar para apanhá-la.
Depois da Revolução Industrial, que gerou a sociedade competitiva e apressada dos dias atuais, ficar muito na cama passou a ser visto como grave defeito de personalidade e sinônimo de improdutividade e vagabundagem.
Ao mesmo tempo, porém, a tecnologia cada vez mais avançada oferece aos apreciadores camas cinematográficas, de dar inveja aos potentados de antigamente: vibratórias, redondas, com cobertores elétricos e colchões de água, que ondulam suavemente a qualquer movimento, e até com bar e equipamentos de som e vídeo acoplados.

Revista Super Interessante n° 006

Chuva corrosiva

Os 10 milhões de paulistanos que se cuidem: a poluição está caindo sobre suas cabeças. A chuva em São Paulo, analisada pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), tem mais acidez – ou seja, mais poluentes - do que toleram os padrões internacionais de saúde. Seu pH (índice de acidez) é de 4.5 na média anual, abaixo portanto do índice recomendável de 5. 65. Quanto menor o pH, mais ácida é a água. As chuvas que caem na cidade costumam ser mais poluídas no inverno que no verão, quando o volume de água ajuda a dissipar a acidez.
Os culpados pelo fenômeno são os mesmos de sempre – as indústrias e os veículos que despeja um, todos os dias, na atmosfera toneladas de dióxido de enxofre e de óxido de nitrogênio. Em contato com as nuvens, os agentes poluidores formam um ácido sulfúrico e ácido nítrico que voltam ao solo com a chuva. Nos Estados Unidos, Canadá e países europeus, estudos já comprovaram a relação entre a acidez da chuva e a baixa produtividade de lavouras – além da mortandade de da fauna. Segundo o físico Celso Orsini, da USP, não se conhecem os efeitos e específicos da chuva sobre São Paulo, o mas a corrosão em automóveis é um bom indicador do alto teor de enxofre no ar.

Revista Super Interessante n° 006