sexta-feira, 29 de março de 2013

Acordes da vida: a história de Fania Fénelon


Raquel Grisotto
Soprano, a  judia Fania Fénelon teve sua vida poupada por sua voz. Durante dois anos em Auschwitz ela cantou para oficiais nazistas e presos que caminhavam para as câmaras de gás.
Em Auschwitz,  Fania Fénelon tinha lá suas regalias. Tomava banho todos os dias, ia ao banheiro sempre que tivesse vontade e não precisava dividir o colchão. Tinha roupas quentes, sapatos, escova e pasta de dentes. Magra, pouco mais de 1,5 metro de altura, ela pertencia à elite das prisioneiras dos campos de concentração da Polônia. Ao lado de outras 80 mulheres, vivia no alojamento especial da orquestra feminina do complexo de Auschwitz e estava protegida da selvageria que vitimou mais de 1 milhão de pessoas entre 1940 e 1945 na maior fábrica da morte do império nazista. Diplomada pelo Conservatório de Paris – foi aluna de Germaine Martinelli, famosa soprano francesa –, Fania era pianista e cantora talentosa. Como a gueixa Cio-Cio-San, de Madame Butterfly, da ópera de Giacommo Puccini, conseguiu agradar até os oficiais de Hitler.
Artista dos cabarés em Paris e com passe livre para circular durante a noite numa cidade dominada por tropas alemãs (a capital francesa foi tomada em junho de 1940), Fania (de batismo, Gold­stein) atuava com amigos na Resistência francesa. Filha de judeus, foi denunciada e, em 1943, capturada pela SS, a polícia nazista. Passou nove meses numa prisão francesa antes de ser enviada a Oswiecim, a pequena cidade que abrigava o complexo.
Chegou a Auschwitz em 23 de janeiro de 1944. Logo reconhecida pela violoncelista da orquestra, foi resgatada do terror do bloco de quarentena, um barracão imundo, abarrotado de gente. “Quando uma guarda entrou chamando por Madame Butterfly, não acreditei. Será que aquilo estava mesmo acontecendo, ou os poucos momentos naquele horror já haviam tirado minha sanidade?”, conta em sua biografia Playing for Time (“Tocando por um tempo”, inédito no Brasil). Escrito em parceria com a jornalista Marcelle Routier, o livro, apesar de narrar as atrocidades do Holocausto, é um relato de coragem e fé.
Fania e suas companheiras serviam de atração para os oficiais da SS e prisioneiros. Tocavam todos os dias diante dos que marchavam em direção aos campos de trabalho forçado das indústrias químicas e de borracha sintética da I.G. Farben, em Auschwitz III. E também se apresentavam nos momentos em que presos com menos sorte eram levados para a morte, nas câmaras de gás. Segundo a teoria dos nazistas, a música dava ares de normalidade ao genocídio e facilitava o trabalho. Os oficiais gostavam, além disso, de ouvir música para relaxar.

Cinderela de botas
Foi Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz entre 1940 e 1943, quem instituiu a formação de uma orquestra. O grupo de músicas era responsabilidade de Maria Mandel, primeira entre as mulheres na hierarquia da polícia nazista dentro do complexo até 1942. A orquestra 100% feminina era motivo de orgulho para a SS. Os oficiais prezavam pelo grupo e não admitiam interferência no trabalho de suas protegidas. Entre os muitos privilégios, as garotas só não tinham direito a mais comida – embora fizessem as refeições num alojamento exclusivo, distante das demais prisioneiras.
A preferência de Mandel por Butterfly era evidente e, por isso, Fania foi beneficiada pelos nazistas. Satisfeitos com uma performance, os oficiais davam às garotas direito de ir ao “Canadá” – espécie de mercado negro dentro do complexo. Ali elas encontravam roupas, sapatos, batons, artigos de higiene e bebidas. Eram miudezas que haviam sido confiscadas dos presos na chegada ao campo, mas que não tinham valor suficiente para ser enviadas a Berlim.
Numa ocasião, diante da dificuldade de Fania em encontrar sapatos de seu tamanho (34), Mandel saiu, ela mesma, à procura de um par de botas. Ao voltar, ordenou: “Sente-se e dê-me seus pés”. A orquestra observou estarrecida: Lagerführerin Maria Mandel, a todo-poderosa da polícia nazista, de joelhos para calçar uma judia. “Pés aquecidos são fundamentais para uma boa voz”, explicou Maria.
Enquanto a nazista Mandel garantia sobrevida às garotas, era da regente, a judia Alma Rosé, a tarefa de conseguir daquele grupo de meninas (com idades entre 17 e 20 anos) o empenho necessário para satisfazer os desejos da SS. Violinista renomada, sobrinha e filha de músicos, Alma não admitia amadorismos. Batia no rosto das moças e, com a batuta, golpeava a cabeça de quem errasse uma única nota. Ex-adepta do Nacional Socialismo – só havia deixado de considerar Hitler a melhor solução para a Alemanha após deparar com os crimes cometidos pelo regime – a maestrina trancafiava as moças por até 20 horas em ensaios para garantir o sucesso de alguma apresentação.

Ouvidos ignorantes
Em meados de 1944, Auschwitz não tinha espaço para mais gente. Dos pouco mais de 10 mil prisioneiros da fase inicial, em 1940, os 40 subcampos comportavam nessa época cerca de 130 mil pessoas, entre judeus, ciganos e presos políticos. Hitler havia anunciado o que chamava de “Solução Final” anos antes e, sob orientação de Heinrich Himmler, chefe da SS e idealizador da monstruosa estrutura das prisões no Leste Europeu, os oficiais nos campos estavam empenhados em garantir a purificação da Europa, conduzindo ações de extermínio de forma cada vez mais eficiente. Dos comboios que chegavam diariamente, apenas homens e mulheres jovens que demonstravam ainda certa disposição para o trabalho tinham chance de sobreviver. Idosos, grávidas e crianças seguiam dos trens diretamente para as câmaras de gás. Nessa fase pesada, os cinco crematórios de Auschwitz operavam com capacidade máxima, ininterruptamente. Quanto mais intensas as atividades do complexo, maior a demanda por música ao longo do dia.
Além de Mandel e do próprio Himmler, que assistiu à orquestra das garotas durante uma visita ao campo, era comum a presença de espectadores como Josef Kramer, o comandante de Birkenau, e Josef Mengele, executor das mais famosas atrocidades do campo de extermínio por suas experiências com crianças e gêmeos. Elite dos geneticistas de Hitler na busca por uma solução científica para o aperfeiçoamento da raça humana, doutor Mengele – que veio viver no Brasil depois da Segunda Guerra, onde morreu, em 1979 – é descrito por Fania como “um cavalheiro, dotado de charme irresistível”. Num ambiente tão inóspito a qualquer tipo de prazer, as visitas do médico à sala de música chegavam a provocar discreto alvoroço entre as meninas.
Mengele preferia Mozart e Mandel, Puccini. Mas, no geral, eram ecléticos os oficiais da SS. Os programas da orquestra eram um pot-pourri de compositores alemães, austríacos e italianos: Johann Strauss I (Danúbio Azul e as Valsas Vienenses); Johannes Brahms (com Danças Húngaras); Giuseppe Verdi (com a ópera Rigoletto); além de Robert Schuman, Franz Schubert e até mesmo o contemporâneo Peter Kreuders estavam entre os mais requisitados. “Na verdade, eles gostavam muito de música, mas entendiam bem pouco a respeito”, diz Fania. Discretamente, ela incluía nos programas canções compostas por judeus. Sem notar, eles ouviam, por exemplo, Felix Mendelssohn (Primeiro Movimento em Ré Menor para violino) e Antonín Dvorák (que “adoravam”). Orientada a colocar mais um alemão no repertório, Ludwig van Beethoven, a copista não teve dúvidas: alegou lembrar de cabeça apenas o primeiro movimento da Quinta Sinfonia. A obra popularizou-se durante a Segunda Guerra Mundial por abrir os noticiários da rede inglesa BBC. A emissora manteve-se engajada na Resistência durante todo o combate, transmitindo informações importantes aos soldados no front e exaltando as vitórias das tropas aliadas. O início da composição, com três notas curtas e uma longa, reproduz o código Morse para a letra V – sinal que virou marca registrada de Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico, na ocasião.

Liberdade ao vivo
As tropas aliadas, a essa altura, fim de 1944, já vislumbravam a queda do exército alemão. Paris havia sido libertada em setembro e, no mesmo ano, o complexo de Auschwitz começou a ser evacuado, após as enormes dificuldades dos nazistas em território russo. O Exército Vermelho chegou a Auschwitz em 27 de janeiro de 1945. Restavam pouco mais de 7 mil prisioneiros no campo. Fania, suas colegas de orquestra e a maioria dos presos já estavam em Bergen-Belsen.
O campo alemão não tinha infra- estrutura alguma e apenas um crematório. Os barracões de madeira, a fiação adaptada para prover energia ao alojamento, tudo foi sendo construído com a chegada dos novos ocupantes. Estava claro que se tratava de uma situação emergencial. Esporadicamente a SS cortava a água e a comida. Não havia câmaras de gás e os assassinatos eram com injeção de veneno no coração das vítimas. A maior parte, no entanto, morria de tifo, desnutrição ou frio. A música não tinha lugar. Sem Mandel, a orquestra deixou de existir. Das 80 meninas do grupo, restavam vivas 47. “Em Bergen-Belsen, pela primeira vez, tive medo de não resistir”, assume a cantora. Sujeita às brutais condições de prisioneira comum, Fania havia contraído tifo e pesava, seis meses depois de chegar ao novo campo, apenas 29 quilos.
“Seremos todas mortas às 3 da tarde”, foi o que ouviu ao acordar em 15 de abril de 1945, na enfermaria. Às 11 da manhã, as portas do barracão foram abertas. Um soldado britânico entrou no galpão. “Achamos vocês por sorte. Não sabíamos que havia um campo de concentração aqui.” Era o fim. Desorientadas, rindo e chorando, as garotas cantavam e insistiam para que Fania também desse uma canja. O soldado providenciou um microfone e o entregou à soprano. Era para a BBC: o momento de avisar ao mundo que estavam livres. Ela começou com God Save the King, o hino nacional britânico, e terminou em coro com as russas, entoando A Internacional.
Entre 1973 e 1975, Fania escreveu suas memórias. Em 1980, o livro inspirou o filme de TV Playing for Time (A Amarga Sinfonia de Auschwitz), do dramaturgo Arthur Miller, vencedor de quatro prêmios Emmy. A produção foi protagonizada por Vanessa Redgrave. A atriz, conhecida por sua simpatia pela OLP (Organização para Libertação da Palestina), havia usado seu discurso no Oscar de 1978 para fazer duras críticas à posição de Israel em relação às questões árabes. Por isso, Fania jamais escondeu sua indignação pela escolha de Redgrave para o papel principal. O livro da cantora também serviu de inspiração para musicais nos anos 80 e 90. E continua a inspirar artistas. Ano passado, o compositor alemão Stephan Heucke se baseou na história da musicista para escrever a ópera Das Frauenorchester von Auschwitz (“A orquestra de mulheres de Auschwitz”) e relembrar o Holocausto na Alemanha. Fania morreu de câncer, em Paris, em 1983.

Aventuras na História n° 044

Oleg Kalugin: O espião playboy


Adriana Maximiliano e Bernardo Weaver
Durante 12 anos, Oleg Kalugin trabalhou para a KGB nos Estados Unidos. Ia a boates e torrava a maior grana para obter informações confidenciais. Acusado de traição, mora hoje no país que espionou.
O russo Oleg Danilovich Kalugin foi chamado de “popular” e “brilhante” na edição do jornal The New York Times de 11 de maio de 1959. O jovem de 24 anos havia desembarcado de Leningrado no ano anterior para estudar Jornalismo na Universidade de Colúmbia, em Nova York. Bem, isso era o que dizia o Times e pensava o pessoal da Colúmbia. Na verdade, Kalugin era um espião da KGB (sigla em russo para Comitê de Segurança do Estado). Filho de um membro da polícia secreta de Joseph Stálin, tinha como missão conseguir informações confidenciais e divulgar o comunismo no território inimigo em plena Guerra Fria.
Entre 1958 e 1970, Kalugin caiu na noite de Nova York e Washington com a intenção de fazer amigos e pagar para que eles ajudassem Moscou a sabotar o capitalismo ocidental. Foi descoberto, voltou para a Rússia e virou, aos 40 anos, o mais jovem general da história da KGB. Mais tarde, enquanto o sistema ruía, desiludiu-se com o Partido Comunista. Em 1990, deixou o cargo na KGB e passou a fazer críticas abertas ao partido. Logo se mudou para os Estados Unidos e ganhou a cidadania americana. Acusado de traição na Rússia, foi condenado a 15 anos de prisão em 2002. Os americanos não pretendem extraditar o russo, que hoje dirige a firma de consultoria Intercon International, é professor e consultor no CI Centre (Centro de Estudos de Contra-inteligência e Segurança) e membro da diretoria do Spy Museum.

Como o senhor virou espião?
Oleg Kalugin – Nasci em Leningrado, em 6 de setembro de 1934, filho de um membro da polícia de Stálin e de uma dona-de-casa. Era um jovem romântico, totalmente dedicado ao comunismo. Acreditava que podia mudar o futuro da humanidade promovendo justiça social, liberdade, essas grandes coisas que fazem parte dos sonhos de um jovem comunista. Queria participar do processo de mudança e sabia que a KGB promovia essas idéias pelo mundo. A profissão de espião era perfeita: romântica, emocionante e uma prova de lealdade ao sistema. Como tinha facilidade com línguas estrangeiras (aos 24 anos, Kalugin falava inglês, alemão e árabe, além de russo), não foi difícil convencê-los de que poderia me tornar um bom espião. Entrei para o Instituto de Línguas Estrangeiras da Universidade de Leningrado em 1952 e fui recrutado pela KGB. No fim daquela década, meus superiores cogitaram me enviar para o Cairo (Egito), mas acabaram optando por Nova York, onde cheguei como estudante de intercâmbio.

E quais foram suas primeiras impressões ao chegar aos Estados Unidos?
Fiquei impressionado com Nova York. O tamanho dos edifícios, o ritmo da cidade... Mas não mudei minhas idéias comunistas. Via pobreza, desemprego, problemas de distribuição de renda e educação.

Esse cenário não mudou muito.
É verdade. Os Estados Unidos ainda têm muitos problemas, como qualquer outro grande país no mundo. Mas a diferença é que você vê os americanos sempre tentando melhorar, você vê as pessoas comuns lutando contra o crime, contra a violência, as drogas. Em outros países, o que se vê é cada um querendo levar o seu.
Voltando à sua história, no arquivo do The New York Times há uma matéria, em maio de 1959, sobre jovens que faziam intercâmbio, com destaque para o senhor, sob o título de “Russo popular”. Ela diz que na Universidade de Colúmbia todos o adoravam e, em poucos meses, o senhor foi eleito o primeiro russo do conselho de estudantes da escola de Jornalismo da Colúmbia. O senhor já estava espionando?
Já era um espião do First Chief Directorate da KGB (estrutura responsável por ações em países estrangeiros), mas ainda estava me adaptando e estudando o ambiente. Acho que esse artigo é uma prova de que levava jeito. Ninguém duvidava de que eu era um estudante de intercâmbio com bolsa do Fulbright Scholar (programa entre universidades). E sequer escondi meu coração comunista para ser aceito.

Quando começou a espionar para valer?
Só comecei a espionar pesado quando virei correspondente da Rádio Moscou na ONU (a Organização das Nações Unidas, de 1960 a 1964) e depois como porta-voz da embaixada soviética em Washington (de 1965 a 1970). Só fui descoberto em 1970 e voltei para Moscou (Kalugin foi denunciado como o “espião playboy” pelo jornalista investigativo Jack Anderson, que tinha sua coluna publicada em cerca de mil jornais).

Sua espionagem já foi classificada como “agressiva”. Por quê?
Não ficava esperando as informações caírem na minha mesa. Saía quase todas as noites, ia a festas e boates, procurava pelas pessoas-chave, ficava amigo e oferecia muito dinheiro em troca de informação ou influência na opinião pública. Meu salário na época era de 700 dólares e eu pagava mil dólares por boas informações. Havia um oficial da embaixada alemã que, duas vezes por mês, me dava um pacote gordo com cópias de documentos secretos em troca do dobro do meu salário.

E como era essa vida de playboy para um russo comunista?
Tinha até um cartão da KGB para gastar à vontade. Minha função era fazer amigos e deixá-los beber todas por minha conta. Era um playboy, sim, mas um playboy com uma boa causa (risos). Pegava, por exemplo, a lista de nomes do Departamento de Estado e analisava um por um para saber quem poderia ser meu amigo. E, então, ia atrás daquelas pessoas socialmente. Ah, eram todos de esquerda ou pelo menos simpatizantes da esquerda. Se o cara era de direita, ficava muito mais difícil convencê-lo a colaborar.

O jornalista Jack Anderson, quando revelou sua profissão, disse que o senhor seduzia mulheres. É verdade?
Não, eu não costumava seduzir mulheres sexualmente. Geralmente, as espionagens que envolviam sedução e sexo eram feitas por mulheres. Aqui em Washington havia a Jennifer Miles, uma diplomata sul-africana que espionava para Cuba e dormiu com mais de 100 homens, incluindo figurões do Departamento de Estado e das Forças Armadas americanas. Eu era um espião sedutor no sentido de seduzir homens e mulheres para armadilhas. O que podia acontecer, às vezes, era de o alvo se apaixonar por mim.

O senhor pode contar um desses casos?
Certa vez, quando trabalhava em Nova York como correspondente da Rádio de Moscou, um dos meus alvos era uma jovem canadense, que trabalhava para o comitê da Europa Livre. Esse comitê era uma das instituições que eu deveria espionar. Éramos dois devotos: ela uma católica devota; eu, um comunista devoto. Nos  entendíamos bem, saímos várias vezes e cheguei até a ir a missas com ela só para agradar. Ela estava prestes a virar minha informante quando perguntou se eu era casado. Eu disse que sim e ela entrou em crise. Dizia: “Meu Deus, eu estava saindo com um homem casado! Que horror!” Há pouco tempo, falei sobre ela com um diretor aqui do Spy Museum que era da CIA (agência de inteligência americana) na época e hoje é meu amigo. Ele me contou que a CIA queria usá-la para arrancar informações importantes de mim! (risos) E ela se negou, dizendo que gostava de mim e não conseguiria fazer isso...

Por que ser espião tem tanto glamour?
O glamour é coisa do James Bond. O que você vê nos filmes não tem nada a ver com a realidade. Espionar é um trabalho de persistência. Vou descrever em poucas palavras os grandes desafios da profissão: transformar o inimigo em amigo e construir uma ponte segura de entendimento entre mim e meu informante. Era excitante conhecer pessoas, virar amigo delas e transformá-las em meus informantes. Mas a profissão se misturava com minha vida pessoal. Não havia glamour naquilo.

Como foi voltar para Moscou depois de 12 anos morando fora?
Foi complicado descobrir minha impotência diante de todos os problemas da União Soviética. A década de 80 foi cheia de decepções e matou aquele jovem romântico. Vivíamos num estado totalitário. Havia injustiças e mentiras por todos os lados, meu povo estava sofrendo. Em 1987, fui dispensado do meu trabalho e, em 1990, deixei a KGB de vez e entrei, eleito pelo povo, para o Parlamento russo. Eu sempre me identifiquei com o povo, mas não com o governo. A perestroika (processo de abertura russa) me deu liberdade para fazer o que quisesse e escolhi enfrentar o Partido Comunista. Isso desagradou muita gente.

Como o atual presidente da Rússia, Vladimir Putin?
Putin era um dos meus 3 mil subordinados na KGB. Ele é um mau-caráter, e lamento que a Rússia esteja hoje sob seu comando. Certa vez, tinha que dar uma promoção para ele ou outro subordinado. Escolhi o outro, porque ele era um medíocre.

E por que o senhor decidiu voltar para os Estados Unidos?
Voltei porque me sentia bem aqui. Em 1994, lancei meu livro (The First Directorate – “O primeiro diretório”, sem versão em português), revelando muitos segredos, mas nenhum nome. Nunca mencionei nomes porque teria que provar as histórias na corte e isso seria muito difícil. Também não falei sobre assassinatos, torturas e coisas desse tipo, porque nada disso fazia parte do meu trabalho. Eu era como um diplomata da KGB, e foi o que contei no livro. No ano seguinte, recebi uma proposta para dar aula na Universidade Católica de Washington e nunca mais voltei para a Rússia. Putin já tinha me processado e eu sabia que seria arriscado pisar lá de novo.

Mesmo antes de lançar seu livro, o senhor virou uma celebridade e aparecia quase diariamente na TV, nos jornais e rádios dos Estados Unidos. A intenção era conseguir uma boa editora?
Não, eu queria era me manter vivo. Minha melhor defesa até hoje é estar na mídia. Se estivesse me escondendo, poderia ter sido assassinado faz tempo e ninguém notaria. Como estou na mídia, devem pensar duas vezes antes de me matar.
Numa edição recente da revista The New Yorker, um artigo sobre os assassinatos cometidos pelo governo russo apontava o senhor como o primeiro alvo de Putin. O senhor ainda se sente ameaçado?
Não só me sinto, mas sou ameaçado. O governo russo ainda mata seus oponentes e, há pouco tempo, recebi cartas anônimas com ameaças de morte. Entreguei ao FBI (polícia federal americana).

Sua mulher sabia de suas espionagens?
Lyudmilla sabia o que eu fazia, mas não sabia detalhes. Ela não fazia perguntas e eu não falava nada. Fomos felizes durante 47 anos, até sua morte, de câncer, em 2001. Tivemos duas filhas: uma mora em Washington e a outra, em Moscou. Casei-me de novo com outra russa.

O senhor não tem medo de que algo aconteça com sua filha em Moscou?
Não, ela não fez nada para ninguém. Ela estuda Ciências Sociais e sempre vem me visitar no verão. Passa um mês aqui, mas está feliz em Moscou. A outra é professora.

Em 2002 o senhor foi condenado por traição. Não pensa em voltar para a Rússia nunca mais?
O poder muda de mãos o tempo todo. E, se eu for julgado com honestidade, serei absolvido. Quero voltar para visitar o túmulo dos meus pais, mas não para morar.

Qual país o senhor vê como lar?
Meu lar, doce lar, é aqui nos Estados Unidos. Passei quase 30 anos da minha vida aqui, vi este país crescer. Sinto-me americano e amo este país.

O senhor acredita que ainda existam espiões como na época da Guerra Fria?
Claro, a maioria das grandes potências tem espiões. Na época da Guerra Fria, a motivação era ideológica. Agora, as questões são econômicas e de segurança interna.

Aventuras na História n° 044

Martin Luther King: A agonia de um rei em depressão


Adriana Maximiliano
Um dos maiores heróis americanos, Martin Luther King enfrentou a injustiça de uma nação. Mas, por trás do poderoso líder, havia um homem infiel e deprimido, que vivia à sombra do suicídio.
Quando foi avisado de que tinha ganhado o prêmio Nobel da Paz, em 14 de outubro de 1964, Martin Luther King Jr. estava sob o efeito de tranquilizantes, sozinho num quarto de hospital em Atlanta. Sua mulher, Coretta Scott King, ligara para dar a notícia. Logo depois, o quarto foi inva­dido por fotógrafos. Os jornais do dia se­­­­­guin­te diriam que King tinha sido inter­nado três dias antes, sofrendo de febre e exaustão. Uma meia verdade. Aos 35 anos, ele estava lá por causa de um problema que o acompanhava desde criança: a depressão.
A imagem de King que se eternizou é a do pastor, líder político e pacifista que lutou pela igualdade entre negros e brancos nos Estados Unidos. Um homem corajoso e otimista. Mas ele também era frágil e vulnerável. “Durante entrevistas que fiz com amigos de Martin Luther King, seu comportamento deprimido foi citado inúmeras vezes. Ele chegou a questionar em alguns momentos se sua vida valia a pena. Mas essas histórias de desespero não ganharam os jornais na época porque a imprensa não costumava noticiar dramas desse tipo como faz hoje”, diz o escritor americano Taylor Branch, que passou um quarto de século estudando a vida de King e, no ano passado, lançou At Canaan’s Edge (“À beira de Canaã”, inédito no Brasil), o último volume de uma trilogia sobre o líder.
Entre 1965 e 1968, nos anos finais de sua vida, King estava numa encruzilhada. Depois da vitória contra as leis racistas dos Estados Unidos, o líder se envolveu com causas como a luta contra a Guerra do Vietnã. Ao fazer isso, perdeu o apoio de vários aliados, fossem eles negros ou brancos. Enquanto isso, seus constantes casos extraconjugais eram usados pelo FBI (a polícia federal americana) para desestabilizar seu casamento e aprofundar sua depressão. O objetivo era tirar King da vida pública – ou mesmo fazê-lo dar cabo da própria vida. Em meados dos anos 60, o homem que enfrentara todo o racismo de uma nação estava encurralado, ameaçando sucumbir ao próprio sofrimento.

No caminho, uma Rosa
Nascido em 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, no estado da Geórgia, King vivia com os pais, os irmãos e a avó materna, Jennie Williams. Quando o menino tinha 5 anos, ela sofreu um desmaio em casa. King não suportou a idéia de que Jennie pudesse ter morrido. Subiu as escadas correndo e se jogou por uma janela do segundo andar. Sua mãe, Alberta, o encontrou no quintal, estatelado no chão – o pequeno King só abriu os olhos depois que disseram que Jennie estava bem. A cena se repetiria sete anos depois, em maio de 1941. Ao saber que sua avó tinha sofrido um ataque cardíaco, voltou correndo para casa e encontrou a família chorando. King se jogou pela mesma janela, sobrevivendo de novo. Mas, dessa vez, a avó estava morta. O menino passou diversas noites em claro, chorando sem parar.
O lado depressivo do garoto contrastava com as boas condições de sua família. Martin Luther King pai, pastor da Igreja Batista, era o negro mais bem pago de Atlanta. Nascido Michael, ele trocara o nome para Martin Luther em 1935, homenageando o fundador do protestantismo. A mudança se estendeu ao filho, que acabaria herdando também a vocação religiosa. Aos 19 anos, Martin Luther King Jr. se formou em Sociologia no Morehouse College, a melhor escola para negros de Atlanta. Em 1954, depois de se doutorar em Teologia pela Universidade de Boston, King se tornou pastor batista em Montgomery, no Alabama.
Nos anos 50, King já estava envolvido na luta pelos direitos dos negros: era do comitê executivo da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês). Nos estados americanos do Sul, como o Alabama, os negros eram cidadãos de segunda classe. Não podiam votar, eram proibidos de entrar em certos clubes, lojas e igrejas e, no transporte público, tinham que dar preferência aos brancos.
Em 1º de dezembro de 1955, toda essa discriminação foi posta em xeque por uma inofensiva costureira negra de 42 anos. Cansada e com dores nos pés depois de um dia de trabalho, Rosa ­Par­ks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco. Foi presa. Ao saber da notícia, King e outros líderes da NAACP transformaram o caso de Rosa no estopim da luta contra a desigualdade racial que ficaria conhecida como o Movimento pelos Direitos Civis. No dia seguinte, os negros de Montgomery iniciaram um boicote aos ônibus, sob a liderança do quase desconhecido pastor de 26 anos. Foram necessários 382 dias até que, em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarasse inconstitucional a segregação racial nos transportes públicos do país.
Durante o boicote em Montgomery, viajando cerca de 25 dias por mês, King se tornara respeitado em todo o Sul dos Estados Unidos. Em contrapartida, tinha sido preso, criticado por membros de sua igreja e acordado inúmeras vezes de madrugada por telefonemas com ameaças. Diante disso, King não escondia a importância do apoio da esposa. Ele e a musicista Coretta haviam se conhecido em Boston, em 1952. O casamento rendeu quatro filhos ao casal, mas não era um modelo a ser seguido. Desde o primeiro momento, o pastor foi infiel. Quando estava longe de casa, King se encontrava com várias amantes.

Um sonho de liberdade
Apesar do fim da segregação no transporte público, o racismo continuava em várias instituições dos Estados Unidos. Após o boicote de Montgomery, Martin Luther King continuou trabalhando por reformas. Seguidor declarado de Mahatma Gandhi, ele promovia manifestações pacíficas como boicotes, greves e passeatas, pontuadas por seus poderosos discursos. Em 1957, ele ajudou a fundar a Conferência da Liderança Cristã Sulista (SCLC, na sigla em inglês), instituição que presidiu até a morte.
Diversas organizações iam surgindo para engrossar o Movimento pelos Direitos Civis. O problema é que elas muitas vezes acabavam entrando em conflito entre si. Uma das principais polêmicas era a doutrina de não- violência de King. No início dos anos 60, ela ainda soava bem, mas já não convencia os que estavam cansados de apanhar da polícia. O líder muçulmano Malcolm X, por exemplo, não hesitava em dizer que os negros deviam responder com violência à brutalidade das autoridades. King, entretanto, tinha boas razões para preferir o pacifismo: ele fazia com que a violência vista no noticiário fosse protagonizada pela polícia. Assim, o público americano tendia a simpatizar cada vez mais com a causa da SCLC – e a doar dinheiro para a instituição.
Em abril de 1963, King lançou uma campanha para acabar com a segregação nos banheiros e lanchonetes de Birmingham, no Alabama, então considerado o mais racista dos municípios americanos. Durante uma passeata na cidade, o pastor acabou preso. A cadeia não era novidade para King – ao todo, foram mais de 20 prisões –, mas, daquela vez, o presidente John Kennedy interveio diretamente por sua libertação. O prestígio do pastor estava no auge. Em 28 de agosto, King liderou a Marcha sobre Washington, que reuniu mais de 200 mil pessoas na capital americana. Diante delas, disse estar feliz por fazer parte da “maior manifestação pela liberdade” da história dos Estados Unidos. Essas palavras foram o início de um dos mais pungentes discursos de todos os tempos, que ficaria conhecido como “Eu tenho um sonho”. Por 16 minutos, King hipnotizou a multidão enquanto dizia sonhar com o fim da discriminação racial, evocando desde a Bíblia até a Declaração de Independência americana. Foi ovacionado.
A eloquência de King chamou a atenção de todo o país. Inclusive a do FBI. Em um documento secreto escrito após a Marcha, ele foi apontado pelo órgão como “um potencial messias, capaz de unificar e eletrificar o movimento nacionalista negro”. O relatório citava uma prova inequívoca do carisma de King: sua nomeação, pela revista Time, como o Homem do Ano de 1963 – honraria inédita para um negro. A conclusão do documento não deixava dúvidas: era preciso acabar de uma vez com a influência do pastor.

Vitória e angústia
O assassinato do presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, fez King ter um mau pressentimento sobre a morte. “É o que também vai acontecer comigo. Esta sociedade está doen­te”, disse ele a um amigo logo após o atentado, de acordo com Taylor Branch. Sem dúvida, King era um alvo potencial da ira alheia. Afinal, ele não era só um líder pacifista negro. Era o maior ativista de esquerda dos Estados Unidos.
Durante todo o ano de 1964, o excesso de trabalho, as ame­a­ças anônimas e as intrigas en­tre as organizações negras fizeram King sair de cena. Segundo Branch, o líder se tornou assíduo frequentador do hospital St. Joseph – onde, inclusive, receberia a notícia do Nobel. “Ele pediu para ser internado  lá pelo menos uma dezena de vezes, porque só assim podia ficar sozinho e descansar à base de pílulas para dormir”, afirma. Mas, em 2 de julho, King interrompeu o isolamento para viver outro mo­mento de glória em Washington: a cerimônia em que o presidente Lyndon Johnson assinou a Lei dos Direitos Civis, que tornou inconstitucional toda a legislação segregacionista dos Estados Unidos.
A euforia pela conquista histórica não significou o fim do Movimento pelos Direitos Civis. Faltava ainda garantir que os negros do Sul pudessem votar sem restrições. Isso motivou King a promover mais uma grande marcha, partindo da cidade de Selma em direção a Montgomery, em março de 1965. A polícia tentou parar os manifestantes, que resistiram sem violência até conseguir chegar ao destino final. Cinco meses depois, a Lei do Direito ao Voto foi aprovada pelo Congresso, acabando com os en­­traves legais para os negros nas eleições.
Dez anos depois do início do boicote aos ônibus, o Movimento pelos Direitos Civis havia conseguido, ao menos em termos de legislação, igualar negros e brancos nos Estados Unidos. A vitória poderia ter garantido a King dias de felicidade. Mas sua vida privada estava em frangalhos. No início de 1965, quando ele ainda estava preparando a marcha de Selma, Coretta tinha recebido um pacote com uma fita e uma carta anônima. As gravações traziam conversas de King com amigos e mulheres, em que a infidelidade do pastor ficava clara  Coretta estava acostumada a denúncias e amea­ças, mas jamais tinha recebido uma fi­ta comprometedora com a voz do marido. Já o texto da carta que acompanhava a gravação dizia que King era “uma vergonha  para todos nós negros”. No fim, o autor sugeria que ele cometesse o suicídio: “Você se acabou. King, só resta uma coisa a ser feita. Você sabe o que é. Só existe uma saída. É melhor você pegá-la antes que seu lado nojento, anormal e fraudulento seja revelado para a nação”.
A carta e a gravação não tinham sido obra de um membro do movimento negro. Elas eram um golpe baixo da campanha do FBI contra King. Diálogos sobre adultério haviam sido obtidos com gravadores colocados na casa e no escritório de King, além de grampos em telefones de quartos de hotel. Os agentes federais sabiam que, por causa da depressão crônica, King seria capaz de se matar num momento de crise. A fita era uma tentativa de fazer com que isso acontecesse – essa tenebrosa estratégia foi posteriormente admitida por William C. Sullivan, ex-diretor-assistente do FBI, num depoimento dado ao Senado americano em 1975.
A explosiva fita acabou chegando às mãos de políticos, religiosos e jornalistas. A idéia de suicídio não foi levada adiante, mas a depressão do líder se agravou. “King reclamou que suas pílulas para dormir não estavam fazendo mais efeito”, escreveu Taylor Branch em At Canaan’s Edge. Em público, se limitou a fazer um mea-culpa nas entrelinhas de seus sermões na igreja, dizendo coisas como: “Eu nunca me coloquei como um grande modelo, mas tenho que fazer o melhor possível para redimir a mim mesmo e a América.”

Memória americana
Depois da aprovação da Lei do Direito ao Voto, a vida política de King precisava de uma nova causa. Ainda em 1965, ele decidiu usar o Movimento pelos Direitos Civis para se opor à Guerra do Vietnã, em que os Estados Unidos haviam acabado de entrar. King foi atacado por todos os lados, incluindo amigos e inimigos. Ninguém queria que ele se metesse com o conflito – que ainda não tinha se torna­do um evidente beco sem saída. King mu­­dou o discurso e apostou na chamada Campanha dos Pobres.
A luta contra a pobreza nem de longe contava com a simpatia que King arrebanhara para a questão racial. Ativistas próximos do líder achavam que o melhor seria se preocupar em fortalecer as conquistas dos negros no Sul do país. A falta de resultados em suas novas lutas aumentou o desalento de King. Duas semanas depois de completar 39 anos, pressionado por Coretta, ele finalmente resolveu admitir um de seus casos extraconjugais. Ainda assim, a esposa foi capaz de seguir ao lado dele.
Em 4 de abril de 1968, King estava em Memphis, no Tennessee, para apoiar uma greve de lixeiros. Sua liderança estava desgastada, assim como sua capacidade de sonhar com um país mais justo. A desilusão dava o tom do sermão que ele começou a escrever naquela tarde, intitulado “Por que a América deve ir para o inferno”. O texto ficou inacabado. Às 18h01, enquanto conversava com amigos na sacada do Lorraine Motel, King levou um tiro no pescoço. Hospitalizado, morreu por volta das 19h. Cinco dias depois, o pastor foi enterrado em Atlanta, num funeral acompanhado por 300 mil pessoas. O suposto assassino foi capturado, mas o crime nunca foi esclarecido (veja quadro acima).
Após sua morte, Martin Luther King Jr. virou nome de ruas, escolas e bibliotecas e ganhou um feriado nacional nos Estados Unidos (a terceira segunda-feira do mês de janeiro). Em 2008, deverá ser inaugurado seu memorial no National Mall – a esplanada em Washington, próxima à Casa Branca, onde foi feito o discurso “Eu tenho um sonho”. Além do líder negro, apenas os ex-presidentes Thomas Jefferson e Abraham Lincoln conquistaram honraria semelhante.
O King eternizado no panteão dos heróis americanos, entretanto, não é o mesmo que foi morto em Memphis. Em tempos de invasão do Iraque, a história do King que protestou contra a guerra e a pobreza tem  sido deixada de lado. O historiador americano David J. Garrow, autor de um premiado livro sobre o pastor – Bearing the Cross (“Carregando a cruz”, inédito no Brasil) –, não estranha esse esquecimento. “Os  Estados Unidos preferiram a imagem romantizada de um homem doce e otimista. Principalmente porque o King dos anos finais ainda seria um estorvo até hoje, no governo de George W. Bush.

Os quase aliados
Quatro líderes e suas relações controversas com King.
Ralph Abernathy

Amigo e braço direito de King, o reverendo sabia falar com os negros humildes – o pastor se dava melhor com os intelectuais. Mas Abernathy não era tão leal: quando King ganhou o Nobel, ele achou que merecia metade do dinheiro. Acabou faturando bastante ao lançar uma autobiografia cheia de fofocas sobre a vida sexual de King. Morreu em 1990.

John Kennedy
Graças ao apoio de King, o democrata conquistou os votos da comunidade negra e foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1960, derrotando o rival Richard Nixon por uma diferença de menos de 1%. Em agradecimento, Kennedy apoiou o Movimento pelos Direitos Civis. Antes de ser assassinado, em 1963, teria convencido King a não fazer um discurso muito crítico ao governo na marcha de Washington.

Malcolm X
O objetivo de ambos era o mesmo: combater a discriminação. Mas, enquanto King optava pelo pacifismo, Malcom X defendia que os negros reagissem com violência. Essas diferenças impediam acordos entre os dois, que só se encontraram uma vez, em 1964. No ano seguinte, Malcolm X foi morto a tiros (King morreria da mesma forma, com a mesma idade: 39 anos).

Lyndon Johnson
Vice de Kennedy, assumiu a presidência em 1963 e a manteve nas eleições de 1964. Johnson negociou com King a elaboração das leis dos Direitos Civis e do Direito ao Voto, aprovadas em seu governo. Mas, quando o ativista se pronunciou contra a Guerra do Vietnã, o presidente parou de colaborar com ele – e chegou a chamá-lo de “pastor hipócrita”. Johnson deixou o cargo em 1969 e morreu em 1973.

Crime ou conspiração?
O suposto assassino de King morreu dizendo que era inocente
Dias depois do assassinato de Martin Luther King, o traficante americano James Earl Ray foi apontado pelo FBI como principal suspeito. Capturado em junho de 1968, em Londres, Ray confessou o assassinato de King em 10 de março de 1969. Três dias depois, voltou atrás. Mas já era tarde. Foi condenado a 99 anos de prisão e passou a vida tentando provar sua inocência. Aparentemente, Ray foi orientado a confessar o crime por seu advogado, Percy Foreman, numa estratégia para evitar um julgamento (e o risco de pegar pena de morte). Quando se arrependeu da confissão, Ray disse que era apenas uma peça sem importância numa enorme conspiração – a família de King ficou convencida de sua inocência. Ray morreu em 1998, aos 70 anos, sem saber dizer quem seriam os verdadeiros culpados. Nas últimas décadas, mais de dez livros com teorias sobre o assassinato foram lançados nos Estados Unidos. Há quem acredite que não apenas o FBI, mas também a CIA (a agência de inteligência americana), a polícia de Memphis e até o presidente Lyndon Johnson estavam envolvidos numa conspiração para matar King.

Aventuras na História n° 044

Tatuagem: À flor da pele


Celso Miranda
Símbolos de bravura, nobreza, rebeldia, divindade ou simples adornos corporais, as tatuagens estão em homens e mulheres desde os primórdios da civilização.
Está fazendo 238 anos. Agora mesmo em abril. Era uma manhã de sol de 1769, quando o enorme navio Endeavour contornou o pequeno istmo de areia branca e algumas pedras salientes e adentrou uma aprazível baía. Ali, o comandante James Cook conduziu as manobras do poderoso  três- mastros da Marinha britânica e ancorou. Enquanto isso, na praia ensolarada uma gente bronzeada se juntava para ver o que acontecia. Era a primeira vez que aquela ilhota, no meio do oceano Pacífico, recebia visita tão ilus­tre. Após meses no mar, sem comer nada fresco, sem banho ou água limpa, Cook não precisou pensar muito para resolver desembarcar, mas, por via das dúvidas, mandou uma pequena expedição na frente para testar os ânimos dos nativos. Quando viu que sua tripulação não era trespassada por setas nem caía morta vítima de feitiçarias, e que, pelo contrário, confraternizava com os nativos e deles recebia flores e frutas, o experiente capitão inglês encheu o peito de coragem e decidiu: bom, é hora de descobrir o Taiti. Entre a paisagem exótica, no entanto, uma coisa chamou-lhe a atenção mesmo antes de pousar a bota na areia: os estranhos desenhos que os locais traziam gravados na pele. Curioso, Cook quis saber o que eles significavam e como eram feitos. Descobriu o que parecia ser um ritual sagrado e doloroso, no qual os taitianos cutucavam uns aos outros com uma ferramenta feita de madeira e um pente de ossos afiados. Para furar a pele e introduzir a tinta escura e, assim, formar os desenhos, os nativos batiam com um pedaço de pau na parte de trás do instrumento, pressionando a agulha na carne do sujeito. Por causa do som produzido por essas batidas repetidas (tá-tá, tá-tá, tá-tá) os nativos chamavam a coisa toda de tatau.
Nos dias seguintes, o capitão Cook anotou em seu diário, ao lado dos vários retratos que mandou fazer de homens e mulheres com corpos desenhados: tattow. Nascia a palavra tattoo (em inglês), que viraria tatuagem, em bom e velho português. A prática de fazer na pele desenhos que não podem ser apagados, porém, é muito, mas muito mais velha. “Ela é tão antiga quanto a própria civilização”, afirma a historiadora e antropóloga inglesa Jane Caplan, professora da Universidade de Oxford. “A tatu­agem surgiu em diversos lugares do mundo, em épocas diferentes e de forma independente umas das outras”, diz a especialista, autora de Written on the Body – The Tattoo in European and American History (“Escrito no corpo – A tatuagem na história européia e americana”, inédito no Brasil).
O primeiro tatuado de que se tem notícia é um desconhecido, que viveu há cerca de 5 300 anos, cujo corpo congelado foi encontrado nos Alpes, entre a Itália e a Áustria, em 1991. Apelidado de Ötzi, ele apresentava alguns traços azulados desenhados nas costas, uma cruz atrás do joelho esquerdo e faixas no tornozelo direito. Ao todo, Ötzi tinha 57 tatuagens, que os especialistas acreditam ter significados religiosos ou místicos. “Certamente não são adornos, mas talvez servissem de amuleto, ou como terapia contra a dor. Dada a localização das perfurações, achamos que elas possam fazer parte de um tratamento médico primitivo”, diz Konrad Spindler, arqueólogo austríaco que chefiou uma das equipes que pesquisa os restos mortais do pobre Ötzi.
Se o primeiro homem foi Ötzi, a primeira mulher tatuada foi a princesa Amunet, encontrada em Tebas, no Egito. Sacerdotisa de Hathor, a deusa do amor, ela viveu por volta de 2000 a.C. e em seu corpo mumificado foram encontrados desenhos enigmáticos, destacando-se uma elipse tatuada na barriga, que os especialistas acreditam estar ligada a algum ritual de fertilidade. Outros que acreditavam nos poderes mágicos das tatuagens eram os membros de um povo que viveu no norte da Europa e a quem o historiador grego Heródoto, no século 5 a.C., chamou de pictos (do latim pictum, que quer dizer, veja você, “pintado”). Os pictos, que chegavam a cobrir o corpo inteiro, ganhavam suas tatuagens por atos de bravura. Ou seja, quanto mais tatuados, mais corajosos eles deviam ser. “Eles acreditam que os desenhos lhes conferem força e que ficam gravados em suas almas, o que permite que sejam identificados depois da morte por seus antepassados”, escreveu Heródoto.

Marinheiro só
Na América, muito antes do descobrimento, os índios já usavam pinturas corporais, incluindo as indeléveis, ou seja, as  que não dá para apagar, como formas ritualísticas. No Brasil, os kadiwéus fotografados pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, na década de 30, tatuavam-se como os animais de quem desejavam obter alguma característica: a onça para ter coragem, os pássaros de quem almejavam a beleza. Na Amazônia, os meninos ianomâmis são pintados e perfurados para demonstrar coragem. As meninas waujás, do Xingu, pintam os seios e a barriga para indicar que já menstruaram e se tornaram mulheres. Mas, apesar da proximidade, não foi deles que herdamos nossas atuais tatuagens. Então como as tatuagens dos polinésios chegaram até as barriguinhas durinhas das meninas e às pernas cabeludas dos meninões do Big Brother? Segundo Jane Caplan, é hora de voltar ao capitão Cook e a seus companheiros de viagem: os marinheiros.
Segundo ela, que em seu livro mapeou a trajetória da tatuagem desde sua origem, a data de nascimento da tradição que chegou até nós é mesmo a viagem do Endeavour, no fim do século 18. “Se hoje a tatuagem se difundiu pelo mundo, devemos isso aos ingleses. Mais precisamente aos marinheiros ingleses”, afirma. Mas quem está pensando num Daniel Craig (o bonitão que assumiu o posto de James Bond) metido num uniforme branco pode ir tirando o cavalo-marinho da chuva. Os marujos daquela época eram pouco mais que piratas, beberrões e briguentos. Homens rudes, que passavam meses, às vezes anos, longe de casa, se arriscando por lugares exóticos e até então inexplorados que iam do Caribe à Nova Zelândia, do cabo Horn ao mar do Japão. “As tatuagens de dragões, serpentes-marinhas e sereias eram feitas pelos marinheiros como prova de suas aventuras e coragem demonstrada diante do desconhecido”, diz a historiadora. Nas costas e braços dos marinheiros, as tatuagens ganharam o mundo seguindo a rota dos navios, de seus tripulantes e seus desejos. Em pouco tempo, o hábito havia se espalhado pelo submundo, tatuado na pele de prostitutas, lutadores de rua, piratas, malfeitores de toda espécie e presidiários.

Contra a corrente
No Japão, também parece ter havido uma tradição ancestral da tatuagem, já que foram encontradas estatuetas que mostram que desenhos na pele eram praticados há pelo menos 2500 anos. No entanto, não há muitos indícios de o que essa tradição significava, se eram desenhos permanentes ou, ainda, como eram feitos. “A tatuagem oriental hoje conhecida e espalhada pelo mundo inteiro não é tão antiga e vem de uma tradição importada dos chineses e os coreanos, que durante o período Edo, entre os séculos 17 e 19, eram os únicos autorizados a entrar no país, pelo porto de Nagasaki,” diz William Seii, pesquisador norte-americano. “Na época, a tatuagem era utilizada, ainda, por prostitutas e cortesãs, que escreviam no braço o nome de seus amantes e no cotovelo faziam pontinhos coloridos em número equivalente à idade dos parceiros.”
No início do século 19, época de grande repressão militar e crise no sistema feudal dominado pelos xoguns, uma famosa novela chinesa chamada Suikoden tornou-se popular no Japão. No enredo, 108 heróis da cavalaria imperial da China se rebelavam contra o governo em favor da população pobre. Pelo menos 18 desses guerreiros eram tatuados. “Acredita-se que, a partir da difusão do Suikoden, os japoneses adquiriram o hábito de se tatuar”, explica Seii. Quem não viu essa moda com bons olhos foi o governo Edo, que proibiu o costume mas não conseguiu impedir que sociedades secretas, como os machi-yokku, se tatuassem em locais escondidos sob a roupa. Segundo o historiador ameri­cano David Kaplan, autor de Yakuza: Japan’s Criminal Underworld (“Yakuza: o submundo do crime no Japão”, sem versão em português), essa seria uma das possíveis origens da tradição da conhecida máfia japonesa, cujos membros tatuam o corpo inteiro, como sinal de lealdade, sacrifíci , elas eram literalmente atrações de circo, onde pessoas totalmente tatuadas dividiam o picadeiro com anões, gêmeos siameses e mulheres barbadas, nos chamados freak shows. A mais famosa dessas atrações tatuadas foi o Grande Omi, ou o Homem-Zebra, que se apresentou nos circos americanos até 1912. Omi tinha o corpo completamente coberto por tatuagens, num trabalho que levou sete anos para ficar pronto. Ao todo foram 500 milhões de picadas com o tatuógrafo, inventado por Samuel O’Reilly (na verdade, uma adaptação de uma máquina de pintar patenteada por Thomas Edison, em 1871).
Foi só a partir dos anos 1950 que a tatuagem começaria a deixar para trás sua fama de maldita. Nessa época, o mundo começava a virar de pernas para o ar. As cidades cresciam como nunca, o mundo ficava menor, as mulheres trabalhavam e tornavam-se donas dos próprios narizes, o sexo deixava de ser um assunto proibido, as drogas deixavam os guetos, a arte e a literatura ficavam mais bagunçadas, menos organizadinhas, e nascia um novo tipo de gente: o jovem. Parece loucura, mas até aquela época não existia uma “cultura jovem”. As pessoas nasciam, comiam mingau de aveia e cresciam para serem iguais a seus pais. A TV, a publicidade e o rock’n’roll são dessa época. A década de 50 desembocou nos loucos anos 60, quando tudo quanto é símbolo de contestação, dos cabelos compridos às tatuagens, dos brincos às drogas, foi tomado pelos jovens da classe média e deixou os guetos. E então vieram o surfe, o rock, o punk, o rap, cada vez mais rápido, cada vez mais rápido...
Hoje todo mundo quer ser jovem. Todo mundo quer se diferenciar. Ou seja, a tatuagem tem tudo a ver com os dias de hoje. Para alguns, é a transgressão que atrai. Fiéis aos velhos marinheiros, queremos demonstrar nossa coragem e nossa disposição para a aventura de ir a lugares nos quais ninguém esteve. Para outros, é a moda, aquela vontade aparentemente paradoxal de se diferenciar e de pertencer a um grupo. Para outra turma, ainda, o legal é a mistura e o fascínio de diferentes culturas e histórias, que junta Japão e Egito, ianomâmis e pictos numa tribo do tamanho do mundo. Um mundo que cabe na palma da mão. Ou no ombro, no tornozelo, em qualquer pedacinho de pele.

Até tu, Vitória?

A paixão pela Marinha era estampada em corpos reais ingleses.
No século 19, a Inglaterra era um império global, tipo os Estados Unidos de hoje. Os ingleses estavam em todos os lugares ao mesmo tempo graças à poderosa Marinha de sua majestade, na época a rainha Vitória, que reinou de 1837 até 1901, quando morreu. A chamada Era Vitoriana ficou conhecida pela rigidez dos costumes e pela extrema discrição. Nada que pudesse indicar o costume da família real de se tatuar. O primogênito de Vitória e futuro rei, Eduardo VII, tinha uma cruz de malta, uma âncora e um dragão tatuados nos braços. Um tradição entre os oficiais da Marinha britânica. A mulher de Eduardo, a princesa Alexandra da Dinamarca, também tinha uma tatuagem, assim como seu filho George (mais tarde também coroado George V, rei da Inglaterra), que tinha o desenho de um dragão no braço feito pelo tatuador japonês Hory Chyo, o mesmo que tatuou o czar da Rússia, Nicolau II, que, por sinal, era casado com a imperatriz Alexandra, neta de quem, de quem? Da própria: a rainha Vitória. Além de George, a rainha tinha outros dois netos tatuados, Albert Victor e Guilherme. Na época, era tão notória a mania familiar que muita gente sugere que a própria rainha tivesse uma tatuagem sob aqueles vestidões  sem graça que usava. Mas Vitória, como é típico dos vitorianos, nunca confirmou (ou negou) o assunto.

Aventuras na História n° 044

As aventuras de Che Guevara em quadrinhos


Carlos Minuano
Quadrinhos coreanos contam saga do ícone revolucionário.
Mais um livro contando as aventuras do mito revolucionário Che Guevara (1928-1967) não seria exatamente uma novidade. Agora, se a história for contada em quadrinhos, aí sim, soa diferente. Para dizer o mínimo. É o caso de Che, mangá do sul-coreano Kim Yong-Hwe que narra os passos do argentino Ernesto Guevara de la Serna de seu nascimento até a morte nas selvas da Bolívia, recentemente lançado no Brasil pela Conrad.
Como em todo quadrinho que se preze, Che é transformado numa espécie de super-herói de carne e osso. O que não anula as qualidades da biografia. O autor mescla uma rigorosa pesquisa histórica com referências pop inusitadas. O famoso vilão de Guerra nas Estrelas, Darth Vader, por exemplo, ilustra uma explicação sobre o imperialismo.
Com tempero moderno e pitadas de humor, Che procura cercar, além da história oficial, o lado humano do revolucionário. “É uma pessoa mais conhecida por sua imagem que pelas informações propriamente ditas a seu respeito”, escreve Kim na introdução do mangá.
Do nascimento do ícone da revolução cubana, em Rosário, interior da Argentina, até a emboscada fatal, está tudo lá. A viagem de moto pela América Latina ao lado do amigo Alberto Granado, as crises de as­ma, as andanças pelo mundo, o encontro com Fidel Castro.
Além disso, interferências didáticas acompanham a narrativa do mangá. Há, por exemplo, informações sobre acontecimentos históricos e explicações de conceitos políticos, como a diferença entre revolução e golpe de estado.
Nem a utopia sedutora do argentino escapa ao cartunista. Em certo trecho, um Che Guevara um tanto caricato, com olhos sutilmente puxados, afirma com dedo em riste: “Seja realista, desafie o impossível!” A frase, comumente atribuída a Ernesto, foi dita na verdade pelo pintor surrealista André Breton. Mas tudo bem: ela bem que poderia ser de Che.

Aventuras na História n° 044

Jornal mais velho do mundo só online


Rodrigo Cavalcante
Fundado em 1645, o mais antigo jornal em circulação está disponível apenas na Internet.
Quando a rainha Cristina da Suécia ordenou a impressão, em 1645, do jornal Post-och Inrikes Tidningar (em português, “Correio e Tendências Domésticas”), ele era um panfleto pregado em pontos estratégicos que trazia informações sobre os assuntos de Estado para os súditos da rainha. Mais de três séculos depois, o jornal governamental, cuja circulação recente não passava de 1500 exemplares por dia, deixou de ser impresso e agora só pode ser lido na internet (para quem sabe sueco, o endereço é www.poit.org).
“Acredito que essa decisão seja um desastre cultural”, disse o sueco Hans Hol, que foi editor-chefe do jornal durante 20 anos. Segundo a Associação Mundial de Jornais, com sede em Paris, o periódico não perderá, contudo, o título. “Um jornal online é ainda um jornal. Por isso, ele continuará em nossa lista como o mais antigo em circulação no mundo”, disse o porta-voz da associação, Larry Kilman.

Aventuras na História n° 044

O hit parade nazista


Oficiais da SS ouviam música para relaxar nos campos
A soprano Fania Fénelon, que conta em sua autobiografia Playing for Time (sem edição em português) como sobreviveu ao Holocausto graças a sua voz, revela alguns dos compositores clássicos preferidos dos oficiais alemães. O perverso médico Josef Mengele gostava do austríaco Mozart e Maria Mandel, a chefe da polícia nazista, preferia o italiano Puccini, autor de Madame Butterfly. Escute em www.aventurasnahistoria.com.br versões dessas e de outras obras-primas que foram interpretadas pela soprano e suas companheiras no campo de Auschwitz – no momento em que os prisioneiros eram enviados à morte nas câmaras de gás.

Aventuras  na História n° 044