domingo, 29 de setembro de 2013

Por que chamamos o sanduíche de pão com salsicha de cachorro-quente?

Geraldo Takuo Yamanaka

A origem do nome pode ser atribuída aos alemães e americanos. Em meados de 1850, os alemães começaram a produzir novos tipos de salsicha, originalmente inventada pelos babilônios por volta de 1500 a.C. Um cozinheiro na cidade alemã de Frankfurt possuía um cão bassê, dachshund em alemão, e a salsicha feita por ele ficou conhecida por esse nome. Charles Feltman, um imigrante alemão, levou a novidade para os Estados Unidos, por volta de 1880, e lá criou um sanduíche quente feito com pão, salsicha e molhos. O sucesso foi tal, que Feltman abriu seu próprio restaurante. Mas foi nos estádios de futebol americanos que o sanduíche se popularizou. Conta-se que durante um jogo, em1906, um vendedor gritava nas arquibancadas: “Get your hot dachshund” (Pegue seu dachshund quente). O cartunista Tad Dorgan, presente ao estádio, não perdeu a chance de ilustrar a cena. Porém, como não entendida a palavra dachshund, escreveu na legenda: “Get your hot dogs” (Pegue seus cachorros quentes). E o nome pegou.
Revista Super Interessante n° 041

Por que o fermento faz a massa crescer?

Valdeci dos Santos

Porque libera gás carbônico (CO2) em reações químicas, formando bolhas no meio da massa que fazem com que ela aumente de tamanho e fique fofa. Existem dois tipos de substâncias usadas para esse fim: o fermento biológico é composto por microorganismos vivos – leveduras – que se reproduzem graças à temperatura da massa e ao açúcar presente nela, que lhe serve de alimento. Durante a reprodução, os microorganismos liberam gás carbônico. O fermento químico, como explica o farmacêutico bioquímico Eugenio Aquaroni, da Universidade de São Paulo, é composto por um biocarbonato e um ácido orgânico, que, quando aquecido a uma temperatura de 50 a 60 graus Celsius e em contado com a umidade da massa, reagem e também liberam CO2 .
Revista Super Interessante n° 041

Cola-Cola é isso aí

Cristina de Medeiros

A ascensão irresistível da bebida, que surgiu há um século como remédio para a indisposição, conquistou o mundo como refrigerante e já foi consumida até no espaço.
Faltava menos de um ano para que a Coca-Cola, a bebida mais famosa do mundo, completasse um século. No dia 23 de abril de 1985, a direção da empresa convocou uma entrevista à imprensa em Nova York para anunciar a mais de 200 jornalistas uma novidade sensacional: a Coca-Cola ia mudar de gosto. A decisão, explicou o presidente da companhia, Roberto C. Goizueta, fora tomada depois que mais de 200 000 testes com consumidores fiéis haviam revelado uma flagrante preferência por um novo sabor, mais doce, obtido pelos químicos da Coca-Cola. A empresa não tardaria a perceber que cometera um gravíssimo engano.
O simples anúncio da mudança começou a gerar protestos antes mesmo que a versão mais adocicada chegasse ao mercado. Em poucos dias, a companhia foi bombardeada por milhares de cartas de consumidores indignados. Ao contrário do que haviam indicado as pesquisas, o público na verdade execrava a inovação e exigia a volta da fórmula clássica. Assim, passados menos de três meses, a direção da Coca-Cola chamou novamente os jornalistas, desta vez para anunciar, num episódio inédito na história das grandes corporações, que voltara atrás e relançaria o produto tal qual era conhecido.
Não é difícil compreender a reação conservadora do público. Bebida apreciada por nove em cada dez americanos, segundo os números apresentados pelos fabricantes, a Coca-Cola é um símbolo tão característico dos Estados Unidos como a Estátua da Liberdade e a bandeira das listras e estrelas. Quando o governo de algum país quer fazer um desaforo a Washington, tem sido isso aí: rompe relações diplomáticas e proíbe a venda do refrigerante. Foi o que aconteceu em Cuba de Fidel Castro em 1960 e no Irã do aiatolá Khomeini em 1980. É um paradoxo: americana até o fundo do casco, a Coca-Cola no entanto derramou-se de tal modo por todo o planeta que perdeu a identidade nacional.
Nenhuma outra bebida industrializada é tão consumida: existe em pelo menos 160 dos 168 países da Terra. Depois dos americanos, os canadenses, os italianos e os espanhóis são os principais apreciadores per capita, à frente dos alemães, mexicanos e brasileiros. Estima-se que a humanidade tome todo santo dia 1,3 bilhão de litros do refrigerante, um mundaréu de água equivalente a 688 piscinas olímpicas. Volume com o qual o químico americano John Styth Pemberton jamais ousaria sonhar, ao gastar 74 dólares em 1886 para conceber sua fórmula - até porque a Coca-Cola não se destinava originalmente ao consumo de massa.
No início, era apenas mais uma entre as incontáveis beberagens apregoadas nos Estados Unidos das últimas décadas do século passado como infalíveis remédios para uma série de mazelas do corpo e do espírito, como depressões nervosas, desânimo e indisposições variadas. A maioria era uma misturança de ervas e óleos vegetais, mas várias fórmulas continham também pequenas doses de substâncias já não tão inofensivas, como álcool, ópio e cocaína.
Farmacêutico e dono de drogaria em Atlanta, capital do Estado da Georgia, no sul do país, Pemberton (1831-1888) já havia inventado um tônico, a que dera o nome de French Wine Coca, à base de álcool e folhas de coca. O elixir era uma variante do então famoso vinho Mariani, inventado por um químico da Córsega e largamente apreciado na Europa. Como um ingrediente essencial, o vinho de Bordeaux, tornara-se muito caro nos Estados Unidos, Pemberton decidiu eliminá-lo da fórmula. Para que o tônico mantivesse as alegadas propriedades revigorantes, substituiu-o por uma substância que a América descobrira com os escravos trazidos da África e que se habituara a usar como antídoto contra a ressaca: o extrato da noz de cola, o fruto da Cola acuminata, árvore da família das esterculiáceas (como o cacaueiro), de origem sudanesa. Um grão vermelho, com teor de cafeína de 24%, contendo ainda teobromina, alcalóide diurético e vasodilatador, a noz era mascada pelos nativos africanos para combater a fome e o cansaço, a exemplo do que os índios dos Andes fazem com as folhas da coca.
A combinação entre a coca e a cola, porém, dava à bebida um gosto amargo, que precisava ser disfarçado. Meses a fio, instalado em seu laboratório, Pemberton dedicou-se como um alquimista medieval a misturar dúzias de ingredientes em um xarope de cor escura e gosto agradável. Seu sócio e guarda-livros, Frank Robinson, foi quem se saiu com um nome sonoro, de fácil memorização, para o produto: Coca-Cola. Com sua caligrafia floreada, o mesmo Robinson desenhou aquela que viria a ser a inconfundível marca da bebida, patenteada em 1893. O passo seguinte foi anunciá-la como um novo medicamento capaz de suprimir a fadiga, facilitar a digestão, revigorar nervos extenuados, curar dores de cabeça, insônia, nevralgia, histeria e melancolia — tudo isso por 5 cents o copo. Como o capitalismo na época era risonho e franco, sem leis de defesa do consumidor nem castigos para a publicidade enganosa, essa milagreira Coca-Cola passou a ser vendida livremente em pequenos frascos cujos rótulos a descreviam como "deliciosa, refrescante, estimulante e revigorante!"
Estavam na moda então as soda-fountains, as ancestrais das máquinas de refrigerantes das lanchonetes de hoje. Instaladas atrás de elegantes balcões de mármore à entrada de farmácias e drogarias, distribuíam refrescos à base de água gaseificada e xarope de frutas ou de ervas. Diz a lenda que a irresistível ascensão da Coca-Cola começou numa dessas farmácias — por puro acaso. Certo dia, um cliente acometido de enxaqueca entrou na drogaria Jacob’s, em Atlanta, para comprar um frasco de Coca-Cola, com o qual esperava aliviar a dor. Decidindo tomar uma dose ali mesmo, pediu ao farmacêutico para diluir o remédio. Mr. Jacob teve a idéia de misturar o xarope à água gasosa, em vez de usar água de torneira. O freguês sentiu-se recuperado na hora, com certeza mais pelo paladar agradável da nova bebida do que por suas supostas virtudes medicinais.
Seja como for, o episódio passou de boca em boca e em pouco tempo a Coca-Cola gasosa tornou-se procurada, sendo vendida em todas as drogarias. A marca, porém, não ficaria muito tempo nas mãos de Pemberton. Cinco anos depois de inventar a.fórmula mágica, ele a vendeu a outro farmacêutico de Atlanta, Asa Griggs Candler, que se encarregaria de instalar fábricas do xarope em outras cidades. (Em 1893 surgiu a Pepsi, que hoje detém 26% do mercado americano de refrigerantes, três pontos abaixo da Coca-Cola.) Na virada do século, Candler inaugurou a prática inteligente de vender o xarope a terceiros, que fabricariam, engarrafariam e distribuiriam a bebida sob licença da Coca-Cola Company. A empresa mudaria de mãos mais uma vez, em 1919, ao ser  comprada por 25 milhões de dólares pelo empresário Ernest Woodruff. Seu filho Robert iria dirigir a companhia de 1923 a 1955.Pouco a pouco, o caráter medicinal da bebida foi deixado de lado e sua publicidade conservou apenas o slogan "deliciosa e refrescante", que a acompanharia durante muitos anos. (A expressão mais famosa, "a pausa que refresca", data de 1929.)
À medida que a Coca-Cola passou a ser consumida como simples refrigerante, a cocaína foi eliminada de sua composição. Em 1906, quando o Food and Drug Act entrou em vigor nos Estados Unidos, regulamentando severamente a adição em produtos alimentares e farmacêuticos de substâncias consideradas perigosas à saúde, todos os traços da droga já haviam sido suprimidos da bebida. Atualmente, a única companhia americana autorizada oficialmente a importar folhas de coca é um laboratório comercial, que extrai os alcalóides para a indústria farmacêutica e vende os resíduos da planta à Coca-Cola, que os utiliza para efeito aromatizante.Se é sabido que a Coca-Cola não contém cocaína, não se sabe até hoje precisamente o que ela contém. Sua fórmula, referida também pelo código "7 X", como num romance policial, é um dos segredos comerciais mais bem guardados do mundo. Inúmeras análises químicas já tentaram decifrá-lo, em vão.
Naturalmente, os principais componentes são de domínio público, até por exigência do FDA, o órgão que controla os produtos alimentícios e medicinais nos Estados Unidos para garantir que as substâncias vendidas legalmente no país não façam mal.Sabe-se, por isso, que além de água gasosa e açúcar a fórmula contém cafeína, noz de cola, folhas de coca descocainizadas, baunilha, caramelo, limão verde, noz-moscada, canela e ácido fosfórico, mas não se conhecem as proporções desses ingredientes, nem os vários outros temperos adicionados em doses mínimas, aos quais a bebida deve seu sabor peculiar. "É exatamente como um bom perfume: pode-se imitá-lo, mas apenas o laboratório que concebeu sua fórmula é capaz de produzi-lo à perfeição", costumava explicar o proprietário Robert Woodruff.
"Um bom conhecedor pode identificar com precisão grande parte de seus componentes, mas é impossível definir sua dosagem, seu fixador e outros detalhes fundamentais."Durante muitos anos, a receita secreta era transmitida oralmente apenas para um punhado de químicos e diretores da companhia. Nenhuma nota escrita era autorizada. As etiquetas dos recipientes que continham os ingredientes eram retiradas logo depois da entrega. A partir daí eles só eram identificados pelo cheiro e por seu lugar nas prateleiras. O único documento que descreve toda a receita do sucesso é mantido a sete chaves num cofre na sede da companhia em Atlanta. A Coca-Cola tanto acredita que o segredo é a alma do negócio que em 1977 preferiu renunciar ao imenso mercado representado pelos 800 milhões de habitantes da Índia, a revelar a fórmula da bebida, como queria o governo hindu para permitir a instalação da empresa.
Além da fórmula e do logotipo, a terceira principal característica da Coca-Cola é a garrafa. No começo do século, quando se difundiu a praxe do licenciamento a terceiros para a fabricação da bebida a partir do xarope fornecido pela companhia de Atlanta, não havia um modelo único de garrafa, podendo cada distribuidor utilizar os vasilhames que quisesse. Isso, naturalmente, dificultava a identificação da verdadeira bebida entre as muitas Kolas, Colas e até Nolas que pipocavam por toda parte. As campanhas publicitárias martelavam sempre: "Exija a Coca-Cola genuína. Recuse as imitações".
Levaria ainda muito tempo até se perceber que seria muito mais fácil combater os imitadores com uma embalagem padrão, de características inconfundíveis. Só em 1916, quando já existiam 153 marcas impostoras disputando o mercado com a real thing, como a chamava a publicidade, o advogado da empresa, Harold Hirsh, propôs a criação de um modelo único de garrafa. Uma concorrência foi então aberta entre os produtores de embalagens de vidro. Um deles era a Root Glass Company, de Indiana. Seu diretor, Alex Samuelson, apostou na idéia de um design capaz de ser diretamente relacionado pelo consumidor com os ingredientes que davam nome à bebida: a noz de cola e a folha de coca.Não tendo porém a menor idéia do aspecto dessas plantas, Samuelson mandou um assistente fazer uma pesquisa numa biblioteca.
Este, que tampouco entendia coisa alguma de Botânica, enganou-se: em vez de trazer uma ilustração da planta da coca, trouxe o desenho de um cacau. Samuelson, naturalmente, não percebeu o erro; ao contrário. achou que a forma do cacau era extremamente adequada para inspirar uma embalagem. E foi assim que acabou nascendo a garrafa que o mundo aprenderia a identificar num piscar de olhos, bojuda no meio, alongada no gargalo e recortada em gomos. Houve até quem a comparasse às curvas sensuais da pin-up americana Mae West.
Apenas a partir de 1923, contudo, quando Robert Woodruff assumiu a presidência da empresa, a Coca-Cola decolaria para valer. Sob a direção de Woodruff, uma política comercial e publicitária extremamente dinâmica projetou a bebida internacionalmente. Desde o começo, Woodruff centrou sua estratégia na distribuição do produto e no reforço de sua imagem junto ao público. Assim que assumiu, criou as primeiras embalagens de papelão para seis garrafas (as famosas six pack), a bordo das quais a bebida adentraria em massa as casas americanas. Outra idéia revolucionária de Woodruff, esta de 1930, foram as geladeiras vermelhas para conservar o refrigerante nos pontos-de-venda, uma das quais viria a ser concebida pelo designer Raymond Loewy. Uma grande sacada, em 1933, foram os distribuidores automáticos de copos de Coca-Cola, que permitiriam à bebida estar presente, sempre gelada, em fábricas, escritórios, estádios, clubes, cinemas etc.
A conquista do mundo, porém, começou com a Segunda Guerra Mundial. Graças à antiga amizade de Woodruff com o general Dwight D. Eisenhower, comandante-em-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos. a empresa colheu em Washington uma autorização excepcional para importar todo o açúcar de que necessitasse, um artigo que o conflito tornara escasso e sujeito a racionamento. Isso representou uma vantagem incalculável, já que a concorrência não foi beneficiada pelo mesmo privilégio. Woodruff conseguiu a concessão seduzindo Eisenhower com a promessa de que todo soldado americano, onde quer que estivesse, poderia comprar uma garrafa de Coca-Cola por 5 cents, pelo tempo que durasse a guerra.
A manobra de Woodruff permitiu-lhe ainda embarcar gratuitamente nos navios de transporte militar a maior parte das instalações de engarrafamento que a empresa montaria na Europa. Nada menos de 64 fábricas foram assim enviadas além-mar. Depois da vitória, elas permaneceram onde estavam e as populações civis substituíram a clientela militar. A partir de então, a Coca-Cola seria lançada sucessivamente em quase todos os países do mundo, incluindo a China e a União Soviética, enquanto a empresa criaria uma série de outros produtos aparentados, como a Fanta e a Cherry Coke, e ainda a Diet Coke.
Em 1985, acondicionada numa embalagem especial, ela atravessou as fronteiras do planeta a bordo do ônibus espacial Discovery, tornando-se assim o primeiro refrigerante a ser consumido no espaço. Hoje a empresa é responsável pela produção de pouco mais de 1/3 de todas as bebidas não alcoólicas consumidas no mundo, tendo faturado em 1989 quase 9 bilhões de dólares. Um sucesso que talvez tenha sido explicado melhor do que ninguém pelo falecido artista plástico americano Andy Warhol, por sinal um de seus maiores fãs: "Todo mundo bebe Coca-Cola, do garçom do bar ao presidente dos Estados Unidos, passando por você e por Elizabeth Taylor. E não há fortuna no mundo capaz de comprar uma Coca melhor do que aquela que você bebe".

É isso aqui
Em números absolutos, o Brasil é o terceiro consumidor mundial de Coca-Cola, abaixo apenas dos Estados Unidos e do México. Estima-e que em 1990 os brasileiros beberam perto de 2,6 bilhões de litros do refrigerante, o que daria algo como 17 litros para cada homem, mulher, velho e criança. É um gosto duradouro. O país foi apresentado à Coca-Cola numa época de intenso namoro com os Estados Unidos, no curso da Segunda Guerra Mundial. Para combater a influência alemã, Washington construiu uma estratégia de aproximação com o Brasil, a famosa Política de Boa Vizinhança. Dela descenderiam em linha direta os requebros de Carmen Miranda em Hollywood e as malandragens do Zé Carioca nos quadrinhos Disney — e também, em última análise, os dólares para a usina de Volta Redonda e os tiros dos pracinhas no front italiano.
As primeiras Coca-Colas made in Brazil, nas clássicas garrafinhas de 185 ml, apareceram em abril de 1942, distribuídas por uma fábrica inaugurada um mês antes no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Logo de saída venderam-se 1 843 caixas. Em junho de 1943 foi instalada uma filial em São Paulo. Mas o decreto autorizando a Coca-Cola Company a funcionar no Brasil só seria assinado no ano seguinte pelo presidente Getúlio Vargas — que por sinal dispensou a empresa de revelar o segredo do refrigerante. De todo modo, a companhia informa ter fornecido às autoridades amostras para análises físicas, químicas e microbiológicas, além de cumprir os padrões que definem os aditivos permitidos e proibidos em alimentos e bebidas.Segundo a empresa, só alguns ingredientes do refrigerante são importados. A Coca-Cola assegura que a bebida é a mesma em qualquer parte do mundo: tem 88% de água, 9,976% de açúcar, 2% de gás carbônico e 0,024% do tal xarope que é a alma do negócio. Se a Coca brasileira parece algo mais doce, isso se deveria a variações da matéria-prima empregada como edulcorante. No Brasil, como na maioria dos países, utiliza-se o açúcar de cana.

Revista Super Interessante n° 041

sábado, 10 de agosto de 2013

Chica da Silva: Senhora sem procedência

Flávia Ribeiro

A escrava Chica da Silva conquistou o homem mais poderoso das Minas Gerais. Ele comprou sua liberdade e a tornou  rica. Mais que isso: a ex- cativa ganhou respeito.
Francisca nasceu pobre e escrava. Conseguiu a liberdade após viver em concubinato com um homem branco. Ficou rica e conquistou um espaço na sociedade. Isso não era lá algo incomum no Brasil do século 18. Nossa Francisca talvez não fosse citada sequer uma vez em livros se não tivesse se envolvido com um dos homens mais ricos do país na época. Depois de seu relacionamento com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, ela virou Chica da Silva.
E Chica da Silva se transformou em um mito. Como ocorre com todos eles, muito foi dito – grande parte, porém, não era verdade ou não tem qualquer comprovação histórica. Ganhou diversos livros, filme no cinema e novela na extinta TV Manchete. Entre outras coisas, Chica foi descrita como perdulária, devoradora de homens, bruxa. O primeiro homem a escrever sobre a ex- escrava em livro foi Joaquim Felício dos Santos, com suas Memórias do Distrito Diamantino, de 1853. Vista à luz da sociedade do século 19, para quem mulatas como Chica eram dignas de desprezo, ela foi apresentada como uma mulher que “não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim, não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão”. Era feia, de feições grosseiras, e escondia a cabeça raspada sob perucas, diziam.
Mesmo negativas, as citações a Chica em diversos outros livros da época a fizeram conhecida. Só na segunda metade do século 20, no entanto, ela ganhou aspectos positivos. Passou a ser descrita como bela, o que justificaria a paixão de um homem branco e rico como o contratador de diamantes. O que antes era visto como ato perdulário, como viver cercada de luxo e riqueza, virou sinônimo de refinamento. Tornou-se ainda, num período marcado pelo nacional-desenvolvimentismo ufanista, “a primeira heroína da nascente nacionalidade brasileira, redentora da sua raça”, segundo afirma a historiadora Júnia Ferreira Furtado em Chica da Silva e o Contratador de Diamantes, a mais completa biografia da ex- escrava já escrita.
Nos anos 70, surgiu a imagem de Chica que permanece até hoje: sensual, libertária, de sexualidade aflorada. Um novo mito foi criado pelo livro Xica da Silva, de João Felício dos Santos, sobrinho-neto de Joaquim Felício dos Santos, e difundido pelo filme homônimo de Cacá Diegues, ambos de 1976. Além da substituição do “Ch” pelo “X”, a personagem ganhou a beleza de Zezé Motta e a liberação de costumes da mulher daquela década, marcada pela revolução sexual. “Chica é uma personagem com várias construções. A virada do mito, com Cacá Diegues, na verdade diz mais sobre os anos 70 do que sobre a mulher que retrata”, afirma a historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e co-autora do livro para- didático Para Conhecer Chica da Silva.

Outras Chicas
Em 1953, a poetisa Cecília Meireles versava em seu Romanceiro da Inconfidência: “Ainda vai chegar o dia / de nos virem perguntar / – Quem foi Chica da Silva, / que viveu neste lugar?” Pois então: afinal, quem foi ela? Livre dos anacronismos dos séculos subsequentes, Chica da Silva não foi uma exceção. Foi, sim, um produto de seu tempo. “Muitas ex- escravas afirmavam seguidamente que sua condição de liberta devia-se a elas próprias”, afirma Júnia Furtado, que é professora da Universidade Federal de Minas Gerais. “Mais de 50% dos chefes de domicílio no arraial do Tejuco (como era chamado, então, o distrito de Diamantina) na época eram mulheres libertas, ex- escravas.”
Havia, portanto, muitas outras Chicas, ex- escravas que viviam como senhoras. Muitas eram amantes ou mesmo casadas com homens brancos e poderosos. Outras viviam de seu próprio trabalho, ligado, em grande parte das vezes, ao comércio. Não só no Tejuco, como diz Júnia: “Essa formação social era típica de áreas urbanas, e a região da mineração foi a área mais urbanizada da colônia”. Para ela, Chica passou a ser vista como única porque, objeto de livro, não se perdeu a memória da sua existência. “Já as demais ficaram sob o manto do esquecimento a que a sociedade machista, escravocrata e tradicional do século 19 as relegou”, afirma.
Em 1774, época de Chica, havia 511 residências no Tejuco. Dessas, 282 eram chefiadas por homens livres ou forros – apenas 89 eram negros ou mulatos. No entanto, as outras 229 casas eram comandadas por mulheres livres ou forras. E, dessas, 197 eram negras ou mulatas. Incluindo Chica. Elas se misturaram à sociedade branca. Eram escravas que ganharam a alforria, foram concubinas de brancos ricos, tiveram filhos com eles, enriqueceram, montaram um patrimônio, frequentaram a Igreja e participaram de ordens religiosas de elite, reproduzindo o modo de vida das brancas, para serem aceitas.
Sobre Chica, não se sabe ao certo quando nasceu, apenas que foi entre 1731 e 1735, no arraial do Milho Verde, perto do Tejuco. Não era negra, e sim parda – o pai dela, Antônio Caetano de Sá, era branco, e sua mãe, Maria da Costa, era uma escrava africana da Costa da Mina. Embora não haja comprovação histórica, acredita-se que Chica era uma mulher bonita, já que atraiu um homem poderoso.
Escrava do médico Manuel Pires Sardinha, ela se envolveu com seu proprietário e foi mãe de Simão Pires Sardinha, nascido em 1751. Dois anos depois, foi viver com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, que a comprou. Acredita-se que Sardinha a vendeu porque teria se comprometido com a Igreja a deixar de viver ilicitamente com duas de suas escravas – Chica, como se sabe, era uma delas. Poucos meses após comprá-la, em pleno Natal de 1753, João Fernandes deu a alforria a Chica. Data do ano seguinte o primeiro documento que a apresenta como a parda forra Francisca da Silva. Naquela época, o sobrenome Silva, bastante adotado no mundo português, indicava o sujeito sem procedência ou origem definida.

Mulher de poderoso
Nossa “Francisca sem procedência” passou a assinar Francisca da Silva de Oliveira depois que a primeira filha do casal, Francisca de Paula, nasceu, em 1755. “Foi com esse nome que Chica iniciou uma nova etapa em sua vida, em que se afirmava no mundo livre por seus próprios meios, porém conectada ao homem ao qual permaneceria ligada até o fim de seus dias”, escreveu Júnia. A nova vida de Chica foi bem diferente daquela a que estava acostumada. Graças à união com o contratador de diamantes, o homem mais poderoso da região, ela ascendeu socialmente e ganhou privilégios. Pôde, por exemplo, frequentar igrejas e irmandades. Chegou a ser madrinha de batismo e casamento inúmeras vezes – o que prova sua boa posição na rede de relações da cidade, já que era costume escolher para madrinha pessoas influentes. Entre as ordens religiosas, frequentou algumas que, teoricamente, eram apenas para brancos, como a Irmandade do Carmo, a mais elitista de Tejuco.
Chica não se transformou apenas em uma pessoa rica – também ganhou respeito. Parte disso deve-se ao fato de ter virado uma espécie de mecenas da região. Costumava promover bailes e peças de teatro. “Uma mulata podia virar uma dama e ninguém tocava no assunto”, diz a historiadora Sheila Siqueira de Castro Faria, diretora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de artigos sobre mulheres forras, como “Sinhás Pretas: Acumulação de Pecúlio e Transmissão de Bens de Mulheres Forras no Sudeste Escravista”. Apesar disso, era analfabeta, embora tenha aprendido ao menos a assinar o nome, libertando-se de mais um estigma.
A ex- escrava teve ainda uma legião de escravos. Eram pelo menos 104, negros como sua mãe ou mulatos como ela. A maioria das negras forras tinha escravos – ou para se afastar do mundo do trabalho, como as senhoras brancas, ou para trabalhar com elas, aumentando sua riqueza. “A filosofia abolicionista é do século 19. No 18, quando Chica viveu, não havia nenhuma incoerência no africano vir como escravo e, ao virar livre, comprar seus próprios escravos”, diz Sheila. A própria mãe de Chica, Maria da Costa, foi escrava de um ex- escravo, Domingos da Costa.
Ainda contrariando os mitos criados em torno dela, Chica tampouco era uma devoradora de homens. Teve filhos com apenas dois. O primeiro ainda com seu primeiro dono, o médico. Todos os outros 13 rebentos tiveram o mesmo homem como pai, João Fernandes, durante os 17 anos em que viveram juntos. Os dois nunca foram casados oficialmente, mas viveram em concubinato até o contratador de diamantes viajar para Portugal, em 1770 – ele foi defender sua herança após a morte do pai e não voltou mais.
João Fernandes morreu em 1779. Sete anos depois, em 16 de fevereiro de 1796, foi a vez de Chica, cuja cerimônia fúnebre foi “cercada de toda pompa a que ela tinha direito como irmã do Santíssimo, de São Francisco de Assis, das Almas, da Terra Santa, das Mercês e do Rosário”, relata Júnia Furtado. Quando morreu, segundo a autora, “não era mais uma escrava parda sem nada de seu; era senhora de ‘grossa casa’, possuidora de bens imóveis e numerosos escravos”. Era, já havia mais de 40 anos, uma mulher importante, que viveu com um homem poderoso, acumulou fortuna e se tornou, como disse Cecília Meireles também no Romanceiro da Inconfidência, “a Chica-que-manda!”

Prole embranquecida
Um dos filhos de Chica se envolveu com os inconfidentes mineiros.
Chica da Silva lutou para livrar os filhos do estigma da cor e da escravidão. Todos esconderam do jeito que puderam o passado de ex- escrava da mãe, para assim continuar a ascender socialmente. João Fernandes conseguiu que dom José I, o rei de Portugal, legitimasse todos os rebentos.
A tentativa de “embranquecer” a prole tinha um objetivo: garantir o futuro de todos na sociedade. Para isso, Chica mandou todos os cinco filhos homens estudarem em Portugal e as mulheres, em um convento. De todos os herdeiros, quem mais se destacou foi o filho mais velho, Simão Pires Sardinha. Graduou-se em Artes em Lisboa, virou membro da Ordem de Cristo – “a maior honraria que um indivíduo não nobre poderia almejar”, segundo a historiadora Júnia Ferreira Furtado –, sócio- correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa, sargento-mor das ordenanças das Minas Gerais e almoxarife do Reino. Em 1788, Simão envolveu-se com os participantes da Inconfidência Mineira – embora nunca tenha sido formalmente acusado disso. De acordo com Júnia, “foi Simão que mandou avisar o alferes (Tiradentes) de que estava sob vigia e que sua prisão era iminente”.

O brilho do diamante
Companheiro da ex- escrava tinha autorização para explorar a pedra preciosa.
Brasileiro, filho do sargento-mor português João Fernandes de Oliveira com a carioca Maria Inês de Souza, João Fernandes nasceu em 1727 e ficou rico quando, em 1739, seu pai arrematou seu primeiro contrato de exploração de diamantes da demarcação Diamantina – área em torno do arraial do Tejuco que incluía povoados como Milho Verde, Gouveia, São Gonçalo, Chapada e Rio Manso. Era ele o responsável por controlar o fluxo de diamantes da região e o pagamento à Coroa portuguesa. João Fernandes estudou em Portugal, na Universidade de Coimbra, e formou-se doutor em Cânones, o que o habilitava ao exercício do direito civil e do canônico. Tornou-se cavaleiro da Ordem do Cristo e, aos 25 anos, desembargador. De volta ao Brasil, seguiu para o Tejuco, onde assumiu o quarto contrato diamantino conquistado por seu pai. Foi esse homem de formação acadêmica impecável que, aos 26 anos, encantou-se com Chica, na época ainda uma escrava com entre 18 e 22 anos e já mãe de Simão. Controlando a extração de diamantes, João Fernandes acumulou incrível riqueza. Chica também. Tanto que, mesmo após a ida dele para Portugal, a ex- escrava manteve a riqueza e a influência.

Aventuras na História n° 051

Cabo da Boa Esperança: Na esquina do mundo

Fabiano Onça

Nunca uma caravela havia ido tão longe. Em 1488, Bartolomeu Dias contornou o traiçoeiro cabo da Boa Esperança, no sul da África, e provou que era possível chegar ao Oriente pelo mar.
Como você se sentiria se, um dia, seu soberano o chamasse para uma audiência e lhe confiasse a seguinte missão: navegue até onde nenhum homem jamais navegou. Vá até o fim da África, rumo ao desconhecido, e veja o que encontra por lá. Você aceitaria? Mesmo sabendo que teria de atravessar mares traiçoeiros, com tempestades capazes de destruir seu navio em minutos? Mesmo ciente dos longos períodos de calmaria, em que sua embarcação ficaria à deriva durante semanas sob um calor de fritar a cabeça? Mesmo tendo ouvido relatos de que o litoral estaria coalhado de selvagens, prontos a matar quem tentasse pôr o pé em terra? Essa foi a decisão que o navegador português Bartolomeu Dias teve de tomar em 10 de outubro de 1486, diante de dom João II, rei de Portugal.
Naquela época, as nações ocidentais não sabiam o que existia ao sul da África. A região não havia sido descrita em mapas nem contava com portos amigos onde aventureiros pudessem buscar apoio ou consertar uma avaria em seus navios. A proposta de dom João II, sem dúvida, beirava as raias da loucura. Mas nem ele nem Bartolomeu padeciam de insanidade. Muito pelo contrário: eram homens ambiciosos, dispostos a correr riscos. A recompensa? Encontrar a rota marítima para as Índias (nome genérico dado às regiões orientais – muitas delas situadas na atual Índia – que produziam valiosas especiarias como pimenta e cravo).
“Embora tenha governado relativamente pouco tempo (de 1481 a 1495), dom João II ocupa um lugar fundamental na história portuguesa da transição dos tempos medievais para os modernos”, escreveu o historiador português Luis Adão da Fonseca em D. João II (não publicado no Brasil). Quando assumiu o trono, ele não se deixou influenciar por forças estrangeiras e demonstrou aversão às intrigas palacianas. Rapidamente, tomou uma série de medidas para tirar poder da nobreza e concentrá-lo em suas mãos.
O monarca logo foi vítima de conspirações. Nobres, liderados por Fernando II, duque de Bragança, começaram a flertar com o reino vizinho de Castela, pedindo por uma intervenção contra o jovem governante. Dom João II pareceu não tomar atitude. Quando a conspiração estava quase madura, o monarca caiu como um raio. Seu serviço secreto havia interceptado várias mensagens comprometedoras. O duque de Bragança foi executado. No ano seguinte, o próprio dom João II matou a punhaladas o duque de Viseu, seu primo, também acusado de conspiração. Sua autoridade nunca mais foi questionada.
Era esse o homem – ambicioso, estrategista, calculista – que estava diante de Bartolomeu naquele 10 de outubro. Um rei que sabia que uma nova rota para as especiarias da Índia traria a Portugal uma riqueza incalculável. Justamente por isso dom João II tinha dedicado boa parte do seu reinado à revitalização da Escola Naval de Sagres – um dos maiores centros de excelência em navegação da época, fundado por seu tio dom Henrique, o infante.
Bartolomeu, por sua vez, era um membro da pequena nobreza. Sua origem é obscura, mas alguns historiadores afirmam que ele nasceu por volta de 1450, na região de Trás-os-Montes, no norte de Portugal. Era parente de Dinis Dias e Fernandes, desbravador das ilhas de Cabo Verde. É provável, inclusive, que uma indicação dele tenha permitido a Bartolomeu ser admitido na Universidade de Lisboa, onde adquiriu conhecimentos raros naquela época: estudou astronomia e matemática.
Em 1481, numa expedição chefiada pelo veterano marinheiro Diogo de Azambuja (da qual também participou um navegador genovês chamado Cristóvão Colombo), o jovem Bartolomeu assumiu a função de capitão de um dos navios, o São Cristóvão. A missão era construir a primeira colônia européia na África, a fortaleza costeira de São Jorge da Mina (no atual litoral de Gana), fundada no ano seguinte. Foi ali, naquele entreposto perdido no meio da vasta costa, que Bartolomeu familiarizou-se com o comportamento do mar africano, com suas correntes, seus ventos e suas calmarias.
Ao aceitar a missão de tentar contornar a África, Bartolomeu deixou dom João II aliviado. Afinal, os outros navegadores de confiança do monarca estavam incapacitados. O predileto, Diogo Cão, morrera (não existem registros precisos de onde e por quê) naquele mesmo ano, 1486, logo após mapear o rio Congo e parte do litoral da Namíbia – até então, o lugar mais ao sul ao qual os portugueses tinham se atrevido a ir. Já o velho Diogo de Azambuja, fundador da fortaleza de São Jorge da Mina, havia ficado louco.

Na rota do Cão
A expedição de Bartolomeu Dias saiu do porto de Lisboa no fim de agosto de 1487. O navegador comandava duas pequenas caravelas: São Cristóvão e São Pantaleão, cada uma com cerca de 50 toneladas. Além delas, Bartolomeu mandara preparar uma galeota, embarcação menor que levava a mais preciosa das cargas: água e comida extras. É possível que Bartolomeu, lendo os relatos de Diogo Cão, tenha sido alertado para um fato fundamental: as terras ao sul não tinham bons lugares para aportar e conseguir alimento. O comando da estratégica galeota ficou nas mãos de Diogo Dias, irmão de Bartolomeu. Para completar o time, foram convocados dois dos melhores pilotos da frota portuguesa: Pêro de Alenquer e João Infante. Se a expedição se perdesse no meio do caminho, não haveria melhores pessoas para orientar, pelas estrelas, os barcos de volta à costa.
O motivo real da viagem foi mantido em segredo. Oficialmente, ela seria realizada para procurar o mítico reino de Preste João (uma suposta comunidade cristã perdida em meio a terras bárbaras). “Nos bastidores, os portugueses já se preparavam para descobrir caminhos únicos para as Índias e tomar posse de novas terras”, afirma o historiador português Francisco Contente Domingues, da Universidade de Lisboa. Para impressionar os nativos africanos, o rei mandou que Bartolomeu levasse a bordo dois negros e quatro negras, capturados na viagem de Diogo Cão. Devidamente trajados à moda da corte portuguesa, os prisioneiros deveriam ser desembarcados no litoral africano para que os moradores locais se impressionassem com a “grandeza” dos modos lusitanos.
Durante o mês de setembro, a pequena frota singrou o oceano Atlântico sem maiores contratempos. Após uma pequena parada em Cabo Verde, os portugueses começaram a se afastar do litoral africano. A manobra, claro, não foi acidental. Bartolomeu começava a utilizar o conhecimento quase exclusivo que possuía da costa da África, realizando uma manobra chamada “a volta do mar”. A artimanha consistia em afastar-se do litoral, navegando para oeste nas imediações do golfo da Guiné, para depois se aproximar novamente da costa. Com isso, os portugueses evitavam o interior do golfo da Guiné, conhecido por suas infernais calmarias. A manobra surtiu efeito. Quando alcançaram novamente o litoral africano, Bartolomeu Dias estava quase na entrada da luxuriante foz do rio Congo. Até ali, os portugueses estavam em segurança. Diogo Cão, outro navegador, já havia estado lá anos antes e havia cartografado a área.
O desafio maior começou quando, em outubro, a frota passou pelo último ponto desbravado até então, o cabo do Padrão (o atual Cape Cross), a aproximadamente 22 graus de latitude. Naquele lugar, Diogo Cão havia erigido um padrão (um grande marco de pedra) com uma cruz no topo. A partir dali, Bartolomeu não poderia contar mais com mapas. O mar, suas correntes, seus ventos – tudo seria estranho. Para piorar, as chances de descer à terra eram quase nulas. À sua frente, desenhava-se um litoral rochoso, árido, assolado por ventanias de areia – aquele território desértico seria, séculos depois, denominado Costa do Esqueleto, por conta dos intermináveis naufrágios ali ocorridos.
Após passar pelo cabo do Padrão, Bartolomeu navegou por cerca 270 milhas náuticas rumo ao sul (cerca de 500 quilômetros), sempre bordejando a costa. Ao chegar à baía batizada de Angra Pequena (próxima à atual cidade de Luderitz, na Namíbia), Bartolomeu intuiu, pelo recorte do litoral, que estava perto de finalmente dobrar a costa da África. Deixou a galeota de suprimentos ancorada em Angra Pequena e partiu para o ataque com suas duas caravelas.

Surpresa a bombordo
Mesmo olhos experientes podem se enganar. Após passar, em 26 de dezembro de 1487, ao largo de uma baía, batizada pela tripulação de Santo Estevão (atualmente Elizabeth Bay, na Namíbia), Bartolomeu Dias constatou que o suposto “fim” da África não estava onde ele pensava. Até onde a vista alcançava, ainda havia costa – e nenhum sinal promissor. Àquela altura, Bartolomeu poderia voltar e, assim como anos antes fizera Diogo Cão, relatar suas descobertas para que, mais tarde, outra expedição tentasse ir adiante. Mas não foi isso que ele fez. As duas caravelas permaneceram em curso. Após navegar outras intermináveis 150 milhas náuticas (ou 280 quilômetros) para o sul, já próximo dos 29 graus de latitude, ele encontrou a foz de um rio (hoje o Orange, na divisa entre Namíbia e África do Sul).
Ali começou o martírio. Durante cinco dias, ventos contrários empurraram os navios de volta, obrigando-os a darem voltas e mais voltas na tentativa de quebrar a força da ventania. Vencido o obstáculo, Bartolomeu seguiu firme por mais 70 quilômetros para o sul. Na altura da atual cidade de Port Nolloth, os maus ventos transformaram-se numa potente tempestade. Obrigados a abandonar o refúgio da costa sob risco de baterem em rochedos, os dois navios foram atirados ao coração da tormenta. Por 13 dias, as caravelas navegaram sem rumo, ao sabor da tempestade, lutando para não serem engolidas pelas ondas gigantescas. Quando o castigo amainou, os portugueses não faziam idéia de onde tinham ido parar. Só sabiam que o tempo esfriara significativamente – segundo alguns historiadores, o motivo da mudança no clima era a localização: naquele momento, as naus portuguesas teriam chegado a 40 graus de latitude.
A situação era desesperadora. A comida já escasseava. Os marujos não sabiam, mas estavam a mais de 1200 quilômetros do local onde a galeota de Diogo Dias havia sido deixada. A última esperança para sair da enrascada estava no maior trunfo da marinha portuguesa: o uso avançado de instrumentos marítimos, como o astrolábio, e a experiência ímpar de seus navegadores. Pêro de Alenquer fez os cálculos e chegou à conclusão de que eles estavam muito ao sul. Deram meia-volta.
Após dias navegando para o norte, os portugueses encontraram terra. Mas não onde esperavam. Eles imaginavam ver a costa a estibordo (lado direito, tendo como referência a frente do barco). Mas viram montanhas a bombordo, o outro lado do navio. Os cálculos foram refeitos e eles perceberam que, enquanto navegavam em alto-mar, haviam ultrapassado o extremo sul da África. Mesmo sem querer, Bartolomeu tinha conseguido. Quando chegaram à costa, libertaram os negros que traziam consigo e fincaram, na altura do recém-batizado rio do Infante (hoje o Great Fish, na África do Sul), um padrão de pedra para atestar aos viajantes posteriores que Portugal havia ido até lá primeiro.
Naquele momento de glória, Bartolomeu estava dividido. Especula-se que ele tenha tentado seguir viagem e chegar às Índias – de fato, as naus avançaram mais alguns dias rumo ao Oriente. Mas as privações tinham sido muitas e, sem a galeota de suprimentos, a aventura tornava-se impraticável. Foi preciso retornar para casa. No caminho de volta, as naus portuguesas foram bordejando a costa. Em 3 de fevereiro de 1488, aos 34 graus de latitude, Bartolomeu finalmente avistou a tão sonhada “esquina” da África. A travessia foi feita sob ferozes tempestades, o que inspirou o navegador a batizar o local de cabo das Tormentas. O nome, porém, teve vida curta. Em dezembro, dez meses após realizar a façanha, Bartolomeu aportou em Lisboa. O rei dom João II, exultante com a nova rota comercial, preferiu deixar para a história um nome menos sombrio, e rebatizou o lugar como cabo da Boa Esperança.

A vingança do cabo
Depois do feito, Bartolomeu Dias não recebeu condecoração alguma. Permaneceu sem grandes incumbências, relegado ao emprego burocrático de recebedor da Casa da Guiné (responsável por receber e catalogar os bens provenientes da fortaleza de São Jorge da Mina). Mesmo assim, mantinha-se esperançoso para liderar a futura expedição que finalmente levaria os portugueses para as Índias. O rei dom João II, entretanto, preferiu não dar novos passos antes que os novos domínios portugueses fossem regulamentados com a bênção da Igreja. Enquanto nada se resolvia no campo político, Cristóvão Colombo realizou a façanha que ofuscaria para sempre o contorno do cabo da Boa Esperança: em 1492, liderando uma frota espanhola, o genovês chegou à América.
Dom João II morreu em 1495, levando consigo as chances de que Bartolomeu conduzisse uma expedição marítima para as Índias. Com a ascensão do novo monarca, Manuel I, Vasco da Gama ganhou a preferência da corte. No dia 8 de julho de 1497, ele partiu para, enfim, alcançar as Índias de barco. Levou como piloto Pêro de Alenquer, que havia participado do contorno do cabo da Boa Esperança.
A Bartolomeu coube o papel de coadjuvante em outra aventura. Ele comandou uma das naus da expedição de Pedro Álvares Cabral que aportou no Brasil e, em seguida, rumou para as Índias. Na madrugada de 23 de maio de 1500, uma tempestade atacou os barcos portugueses. Ironicamente, a frota se encontrava próxima do cabo da Boa Esperança. Quando a intempérie se dissipou, quatro embarcações e 400 homens, incluindo Bartolomeu Dias, tinham sido engolidos pelo mar – Cabral e o resto da frota continuaram sua jornada rumo ao Oriente.
A esperança de Bartolomeu de chegar às Índias acabou vencida pelas tormentas do cabo que ele havia descoberto. Seu pioneirismo, entretanto, foi crucial para as gerações de marinheiros que o sucederam. “Bartolomeu Dias realizou uma verdadeira revolução geográfica ao provar a intercomunicabilidade do Atlântico e do Índico. Isso mudou a história do comércio na Europa e deflagrou o início do capitalismo mercantil”, diz o historiador Francisco Contente Domingues.

Tatuagens e fantasmas
O cabo da Boa Esperança povoou o imaginário dos marinheiros.
Até o fim do século 19, o cabo da Boa Esperança foi um dos dois pontos obrigatórios que os navios tinham de cruzar para ir da Europa até a Ásia (o outro era seu “irmão” cabo Horn, na América do Sul). Cruzá-lo tornou-se uma espécie de batismo para os marinheiros. Os britânicos, por exemplo, costumavam tatuar cada marujo que fizesse a travessia com uma estrela na orelha esquerda. A cada nova passagem pelo cabo, o marinheiro ganhava mais uma estrela, até completar cinco. As marcas passavam então para a orelha direita. Quando um marinheiro tinha as duas orelhas tatuadas com cinco estrelas, ele ganhava o direito de marcar duas pequenas estrelas vermelhas na testa, indicando que ele já havia cruzado o cabo mais de dez vezes – quem chegava a esse nível, dizia-se, jamais pagava a conta num bar.
Além do costume britânico, o cabo da Boa Esperança deu origem a algumas lendas. A mais célebre é a do Holandês Voador. Segundo ela, um capitão chamado Van der Decken teria tentado atravessar as revoltas águas do cabo em 1641, vindo do Oriente. Porém, quanto mais tentava, mais seu navio era atirado de volta. O holandês não se deu por vencido e tentou uma última arremetida. Seu navio, como que por castigo divino, bateu nos rochedos e começou a afundar. Van der Decken, à beira da morte, blasfemou: “Eu vou atravessar este cabo mesmo que tenha de navegar até o dia do Juízo Final!” Desde então, ele reapareceria no cabo nos dias de tempestade, num fantasmagórico navio com as velas içadas contra o vento.
Os nevoeiros constantes no cabo inspiraram outra lenda. No século 18, o pirata holandês Jan van Hunks teria ficado famoso pelo hábito subir as montanhas que circundam o cabo para tragar substâncias alucinógenas com seu cachimbo. Certo dia, diz a lenda, um estranho sentou a seu lado e iniciou uma competição para ver quem fumava mais. Depois de vários dias, Jan derrotou o adversário, que revelou ser o diabo. O coisa-ruim desapareceu, levando consigo o pirata. Cada vez que o cabo é tomado pela névoa, seria um sinal de que Van Hunks e o capeta estão por perto com seus cachimbos.

Aventuras na História n° 051

Os dentes do ofício: a evolução do trabalho dos dentistas

Mariana Sgarioni

Eles já recomendaram bochechos com xixi e foram especialistas em cortar cabelos - mas salvaram nossa pele ao inventar a anestesia. Conheça a milenar (e assustadora) saga dos dentistas.
Deitado, de boca aberta há vários minutos, o homem não pára de suar frio. Na luta para lhe extrair um den­te do siso, o dentista apóia os cotovelos no peito do paciente. O sangue jorra até que, enfim, o dente sai na ponta do alicate – o temido boticão. Esta cena aconteceu há mais de 2 mil anos. Mas pode também ter acontecido agora há pouco, em um consultório perto da sua casa. “O cirurgião deve agarrar firmemente a cabeça do paciente entre seus joelhos e aplicar um boticão robusto, extraindo o molar verticalmente, para que não se quebre”, escreveu Albucassis, cirurgião árabe do século 5. É lógico que hoje contamos com novas tecnologias – a começar pela anestesia –, mas o método e os instrumentos para esse tipo de intervenção não mudaram tanto assim. Deve ser por isso que, quando se fala em dentista, muita gente sente um certo incômodo (para não dizer pânico).
Embora nosso imaginário sugira outra coisa, os dentistas estão bem longe de serem torturadores sádicos. Foram eles que batalharam, por exemplo, para inventar a anestesia, que nos livra de dores muito piores que as de dente. Tiveram ainda uma importante participação na pesquisa de medicamentos e cuidados que contribuíram muito para a evolução do saneamento e da saúde pública. Entretanto, é verdade que, apesar de ter se estabelecido em cima de sólidos preceitos científicos, a história da odontologia passa por alguns momentos horripilantes. Prepare-se para conhecê-la melhor a partir de agora. E pensar sobre isso quando estiver sentado numa sala de espera, lendo uma revista velha e ouvindo Ray Conniff, enquanto aguarda por mais uma sessão daquele famigerado tratamento de canal.

Grandes arrancadas
Há tempos os dentes nos causam dor de cabeça (e de dente, lógico). Pesquisadores da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, descobriram que, na África, uma bactéria causadora de cáries já infestava a boca de seres humanos há 100 mil anos. Os cuidados com os dentes também parecem ser bastante antigos – e podem não ter sido exclusividade da nossa espécie. Em setembro deste ano, paleontólogos espanhóis divulgaram a descoberta, na região de Madri, de dois molares neandertais com mais de 60 mil anos. Eles traziam marcas aparentemente causadas por gravetos de madeira, o que indica que esses hominídeos (que acabaram extintos) gostavam de palitar – ou “escovar” – os dentes.
Os mais antigos relatos conhecidos sobre problemas com os dentes têm cerca de 5 mil anos. Eles dizem que as cáries seriam causadas por “vermes” e foram encontrados em tabletes de argila sumérios feitos na Mesopotâmia, a planície situada entre os rios Tigre e Eufrates (no atual Iraque). Na mesma região, foram achadas peças de limpeza dentária, como palitos feitos de metal trabalhado, que teriam sido elaboradas por volta de 3500 a.C. Demoraria um bocado, entretanto, para que alguém achasse necessário formar profissionais especializados em odontologia.
Os primeiros dentistas de que se tem notícia eram médicos. O mais antigo deles foi o egípcio Hesi-Re, que viveu há cerca de 4500 anos. Ele era conhecido como o “maior médico que tratava dos dentes” – modo como foi eternizado em hieróglifos. Parece que a especialidade de Hesi-Re e seus contemporâneos era a extração – é o que indicam os crânios banguelas daquela época que foram encontrados. O que não faltava era trabalho: os egípcios sofriam de uma grande variedade de enfermidades dentais, causadas por falta de higiene e por sua alimentação. A farinha usada no pão, base da dieta egípcia, vinha carregada de grãos de areia. O mesmo acontecia com os vegetais, que eram cultivados em solo arenoso e não eram lavados adequadamente. O hábito involuntário de mastigar areia causava um desgaste enorme nos dentes, além de inúmeros abcessos na boca.
Papiros catalogados na Universidade de Leipzig, na Alemanha, registram diversos tratamentos egípcios para doenças bucais. Para o dente que “corrói as partes altas da carne”, um deles recomenda “amassar uma pasta e aplicar sobre o dente uma parte de cominho, uma parte de incenso e uma parte de cebola” – imagine só o resultado. Já para os abcessos, o tratamento dos egípcios era feito com furos na gengiva, que aliviavam a pressão das bolas de pus que se formavam no local.
Na Grécia antiga, os hábitos de higiene bucal eram um pouco mais parecidos com os nossos. Diocles de Caristo, médico que viveu no século 4 a.C., aconselhava: “A cada manhã deveis esfregar vossas gengivas e dentes com os dedos desnudos e com menta finamente pulverizada, por dentro e por fora, e em seguida deveis retirar todas as partículas de alimento aderidas”. Já os romanos, influenciados pela cultura grega, usavam pós dentifrícios – parentes distantes dos cremes dentais – feitos à base de ossos, cascas de ovos e conchas de ostra. A escovação também foi defendida por ninguém menos que Maomé. No Oriente Médio do século 7, o fundador do islamismo orientava seus seguidores a usarem o siwak – o precursor da escova de dentes, feito de um ramo de árvore cuja madeira contém bicarbonato de sódio.
A principal contribuição dos muçulmanos para a odontologia foi dada por Avicena, que viveu entre 980 e 1037. Um dos médicos mais respeitados do Oriente Médio, ele lançou princípios que chegaram à Europa e se tornaram a base do tratamento dentário medieval. O principal deles se refere a fraturas de mandíbula: Avicena recomendava a aplicação de uma bandagem de fixação em torno do queixo, cabeça e pescoço, além de uma pequena tábua ao longo dos dentes.

Barbeiragens dentárias
Na Idade Média, os responsáveis por exercer a medicina eram os monges católicos. A coisa mudou de figura a partir de 1163, quando a Igreja os proibiu de realizar qualquer tipo de procedimento cirúrgico – incluindo os tratamentos dentários. Essas tarefas sobraram então para os barbeiros. Mas por quê? Em primeiro lugar, é bom dizer que os barbeiros medievais não cuidavam apenas de pêlos. De tanto ir aos mosteiros fazer a barba e tosar os cabelos dos monges, os barbeiros acabavam aprendendo um pouco de medicina com eles. Tornaram-se, com o tempo, auxiliares cirúrgicos dos monges, especializando-se nos diversos tipos de intervenção que os sacerdotes não podiam mais fazer. Tiravam pedras da bexiga, abriam abscessos, praticavam sangrias e, é claro, extraíam dentes. Com o passar dos anos e o afrouxamento da linha dura da Igreja, os monges puderam fazer cirurgias de novo. Mas os barbeiros tinham se tornado arrancadores de dentes tão bons nisso que alguns médicos encaminhavam a eles os pacientes que precisavam de ajuda odontológica.
O aumento de prestígio dos cirurgiões-barbeiros, como passaram a ser chamados, começou a causar confusão dentro da medicina. Em 1540, o rei Henrique VIII, da Inglaterra, publicou um estatuto para a Real Comunidade dos Cirurgiões-Barbeiros, delimitando as áreas de atuação dos barbeiros e dos médicos. As extrações dentárias ficaram permitidas aos dois grupos. Até o século 18, a maior parte dos barbeiros seguiu oferecendo serviços dentários aos seus clientes. E a odontologia continuou sendo exercida de forma um tanto mambembe, por profissionais muitas vezes inaptos. Alguns, por exemplo, costumavam armar tendas em mercados e feiras livres – assistir às manipulações bucais feitas pelos barbeiros era uma das diversões preferidas dos passantes.

Enfim, uma ciência
O hábito de ter dentes arrancados em praça pública começou a mudar na época em que o francês Pierre Fauchard escreveu O Cirurgião Dentista. Publicado em 1728, o livro foi um marco na história da odontologia. “Aperfeiçoei e também inventei várias peças artificiais para a substituição dos dentes e para remediar sua perda completa, ainda que em prejuízo do meu próprio interesse”, escreveu, anunciando a invenção de pivôs e dentaduras – e achando que as soluções duradouras iriam diminuir sua clientela. Foi a partir do trabalho de Fauchard que a odontologia foi separada da medicina (e da barbearia).
Além de ter sido pioneiro nas próteses, Fauchard dotou o gabinete de dentista de cadeira apropriada (antes os tratamentos eram, em geral, feitos no chão) e defendeu a odontologia preventiva. Algumas das receitas eram bizarras: Fauchard mandava, por exemplo, enxaguar a boca de manhã com várias colheradas da própria urina. Apesar disso, foi reverenciado por seus sucessores. “Considerando as circunstâncias em que viveu, Fauchard merece ser lembrado como um ilustre pioneiro e fundador da ciência odontológica. Se sua prática era tosca, isso se deveu aos tempos”, disse certa vez o dentista americano Chaplin Harris, que em 1840 fundou a primeira escola de odontologia do mundo, o Baltimore College of Dental Surgery, nos Estados Unidos.
Pouco depois que Harris fundou sua faculdade, um dentista americano deu uma contribuição decisiva para minimizar o sofrimento dos pacientes. Em 1844, o jovem Horace Wells resolveu fazer uma experiência em si mesmo: inalou óxido nitroso – ou “gás hilariante” – antes de um colega lhe extrair um dente. O gás havia sido descoberto em 1776 pelo cientista inglês Joseph Priestley, que provara sua capacidade de acalmar as dores físicas e provocar uma sensação agradável. Sob efeito do gás, Wells não sentiu dor alguma. E virou uma celebridade instantânea.
A fama de Wells, entretanto, durou pouco mais de um mês. Numa demonstração de extração dentária com óxido nitroso, feita diante de um grupo de cirur­giões da Universidade Harvard, o paciente sentiu uma dor danada. Tudo porque Wells retirou o gás antes do tempo. A banca examinadora não perdoou e ele acabou caindo em descrédito. Nesse meio-tempo, quem se deu bem foi William Thomas Green Morton, aluno de Wells que, aconselhado pelo químico Charles Jackson, substituiu o óxido nitroso por éter. Depois de fazer testes em animais e em si mesmo, extraiu um dente de um paciente com absoluto sucesso – ou seja, sem um só grito de dor.
Wells, Morton e Jackson se engalfinharam para provar quem tinha sido o inventor da anestesia. Em 1848, Wells acabou se suicidando de desgosto. Só seis anos depois é que um congresso da Associação Médica Americana resolveu bater o martelo e disse que o descobrimento da anestesia tinha sido obra do “recém-desaparecido Horace Wells”. Morton e Jackson morreram na miséria.
Após a controvertida invenção da anestesia, os dentistas ainda ajudaram muito no avanço das ciências da saúde – aperfeiçoando a radiografia, por exemplo. Mas nem por isso os pacientes sorriem de gratidão quando pensam nos tratamentos odontológicos. Há cerca de dez anos, a Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo fez uma pesquisa para saber que tipo de emoção estava associada ao ato de ir ao dentista. Descobriram que duas das principais eram... o medo e a dor. Se você também treme só de pensar no barulho infernal do motorzinho, pelo menos agora já sabe que, antes, tudo era ainda pior.

Para limpar, extrair ou disfarçar
Veja os antepassados de quatro marcos da odontologia.

Boticão
Com a aparência de um alicate, serve para extrair fragmentos ósseos e dentes. Na Grécia foram encontrados fórceps dentários datados de cerca de 5 a.C.

Dentadura
A mais antiga prótese removível feita para substituir dentes foi encontrada no Japão. De madeira, ela pertenceu à sacerdotisa budista Nakaoka Tei, que viveu no século 16. A dentadura teria sido feita pela própria dona, uma habilidosa artesã. Cerca de 120 antigas próteses japonesas semelhantes a essa já foram achadas.

Pivô
É um dente artificial fixado à raiz por meio de um pino metálico. Até o século 19, muitas dessas próteses não eram sintéticas, mas ossos e dentes tirados de animais e – isso mesmo – de cadáveres humanos.

Escova de dentes
Maomé, no século 7, orientava os muçulmanos a usar o siwak, um galho com a ponta desfiada, para limpar a boca. Já a primeira escova de dentes moderna foi criada pelos ingleses no século 17. O cabo era feito de osso, com perfurações em que eram amarradas cerdas feitas de pêlo de porco.

Doutores da alegria
Homens que ajudaram a construir um mundo com menos banguelas

Albucassis (936-1013)
Cirurgião árabe nascido em Córdoba, deixou um grande legado para a odontologia. Foi o primeiro a descobrir, por exemplo, que as inflamações da gengiva tinham a ver com enfermidades dos dentes.

Guy de Chauliac (1300-1368)
O francês foi um dos mais importantes nomes da cirurgia medieval. Em seu livro Inventorium, ele analisou a anatomia dos dentes e elaborou uma longa relação das doenças de que eles são vítimas.

Pierre Fauchard (1678-1761)
Considerado o pai da odontologia moderna, o francês sintetizou tudo o que se sabia no Ocidente sobre o assunto no livro O Cirurgião Dentista. Recomendava cuidados preventivos com os dentes.

ChapLin Harris (1806-1860)
Um dos principais responsáveis pela criação da primeira escola de odontologia do mundo, em 1840, da primeira Associação Nacional de Dentistas e da primeira revista científica reconhecida da área – tudo nos Estados Unidos.

Horace Wells (1815-1848)
Americano, é considerado o inventor da anestesia por ter sido o primeiro a usar o óxido nitroso (ou gás hilariante) para eliminar as dores de um paciente em um procedimento odontológico.

No país de Tiradentes
Ele foi nosso mais célebre cirurgião-barbeiro.

Até 1884, quando surgiram faculdades de Odontologia no Rio de Janeiro e na Bahia, os cuidados com os dentes dos brasileiros eram bastante precários. Assim como na Europa medieval, quem dava conta do recado por aqui eram os cirurgiões-barbeiros. A partir de 1782, uma lei obrigava os barbeiros que queriam cuidar de dentes a tirar uma licença especial conferida pelo “cirurgião-mor” (quem não a possuísse poderia ser preso). O mais conhecido de nossos práticos da odontologia foi o mineiro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Apesar de ter ficado mais famoso por sua atuação política que por sua habilidade com a boca alheia, ele era considerado um bom dentista – ofício que aprendeu com seu padrinho, Sebastião Ferreira Leitão. O frei Raymundo de Pennaforte, que conhecia Tiradentes, disse que ele tirava dentes “com a mais sutil ligeireza e ornava a boca de novos dentes, feitos por ele mesmo, que pareciam naturais”. Ou seja: apesar de seu apelido, nosso mártir da Inconfidência também era bom em colocar dentes (eitos de materiais como ossos esculpidos). Para completar sua profissão, Tiradentes provavelmente também fazia barba, cabelo e bigode – na cela em que ele esteve antes de ser enforcado, foram encontradas duas navalhas e um espelho.
Aventuras na História n° 051

Casablanca, criador de ratos e Torre Eiffel

Fabio Versano

“Toque outra vez, Sam”
É possível imaginar outro ator que não Humphrey Bogart dizendo uma das mais famosas frases do cinema? Pois por pouco Rick, de Casablanca (1941), par romântico de Ingrid Bergman, não foi Ronald Reagan, o preferido do chefão do estúdio, Jack Warner. Bogart ganhou o papel por insistência dos produtores. Quase 40 anos depois, o ator relegado virou o presidente dos Estados Unidos.

Carioca da gema
Criar ratos virou hábito comum e até lucrativo em 1903 no Rio de Janeiro. O inusitado costume começou após o sanitarista Oswaldo Cruz passar a oferecer 100 réis por cada roedor, hospedeiro da pulga que, contaminada, transmitia peste bubônica. Surgiram até revendedores dos animais. O maior deles, conhecido pela alcunha de Amaral dos Ratos, ao ser preso, chegou a declarar que seus bichos eram cariocas legítimos, enquanto os da concorrência eram paulistas.

Monstruosa Eiffel
Construída para a Exposição Universal de Paris de 1889, a Torre Eiffel é o monumento mais visitado do mundo – 6 milhões de pessoas ao ano. A atração, no entanto, não era unanimidade na época. Antes da inauguração, uma campanha “em nome do bom gosto francês” exigia a demolição da “inútil e monstruosa torre”. Entre outras coisas, ela era chamada de “gigantesca chaminé de usina” e “odiosa coluna de ferros aparafusados”.

Aventuras na História n° 051