terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Vamos ver que bicho que dá?


Cláudio Moreno
Assim como há pessoas que se parecem muito com seus pais, há palavras cuja origem não oferece mistério algum, pois o falante percebe claramente o seu parentesco com algum velho radical da nossa língua. No fértil campo dos vocábulos ligados a animais, por exemplo, não temos dificuldade de ver, no verbo "macaquear", a mania que tem o macaco de imitar os gestos dos humanos, e um "cavalete" só pode ter recebido esse nome porque seu apoio no solo lembra as patas de um cavalo. No entanto, existem outros casos em que essa ligação pode passar despercebida. Poucos lembram de uma serpente quando ouvem falar na "serpentina", companheira do confete; no entanto, é evidente que aquelas tiras de papel colorido receberam esse nome por causa da maneira espiralada com que se desenrolam. Veremos, abaixo, exemplos de vocábulos em que o animal primitivo está tão bem escondido que poucos de nós conseguimos enxergá-lo. me

GATILHO (de gato)
Nas primeiras armas de fogo, fabricadas artesanalmente e decoradas com extremo requinte, a peça que segurava a pederneira (pedra que produzia a faísca para iniciar o disparo) costumava ser esculpida com a forma da cabeça de um cão ou de um gato. Desse costume proveio o nome das duas peças que manuseamos na hora de atirar: o cão e o gatilho. Embora originariamente ambos fossem nomes diferentes para a mesma coisa, pouco a pouco "gatilho" passou a denominar apenas a parte em que se apóia o dedo para disparar o tiro, tecnicamente conhecida como disparador.

VACINA (de vaca)
Na sua origem, "vacina" era um adjetivo latino, presente na expressão variolae vaccinae ("varíola das vacas"). O médico inglês Edward Jenner (1749-1823) desenvolveu a idéia de inocular as pessoas com o vírus dessa varíola animal, muito mais fraca que a humana, provocando assim uma reação que deixava o organismo imunizado contra a temida doença. Hoje, a Organização Mundial da Saúde considera extinta a varíola em nosso planeta, mas o termo "vacina" continua a ser usado para abranger toda inoculação que produza anticorpos protetores contra qualquer outra doença.

BOATO (de boi)
Contrariando o dito que do boi só não se aproveita o berro, a palavra "boato" vem do latim boatus ("mugido, berro do boi"). No século 17, o famoso jesuíta português padre Vieira ainda utilizava o termo para se referir a uma "gritaria; alvoroço", significado até hoje conservado no espanhol. Pouco a pouco, no entanto, "boato" passou a designar aquela informação, geralmente mal intencionada e sem fundamento algum, que as pessoas vão passando umas para as outras, como reses de um grande rebanho.

PORCELANA (de porca)
A porcelana, fabricada na China desde o século 7, foi introduzida na Europa pelos mercadores venezianos e portugueses do Renascimento. A louça feita com esse material leve e translúcido logo substituiu os pesados utensílios de cerâmica, metal ou madeira até então utilizados nas mesas européias. Ela foi batizada de porcellana pelos italianos, devido à sua semelhança com a textura branca e lisa de uma concha conhecida como porcella ("porquinha"), numa analogia de sua forma com o órgão sexual da porca. No famoso relato do mercador e aventureiro Marco Polo, do início do século 14, aparece o termo usado tanto para a louça, quanto para o molusco.

CANÁRIO (de cão)
O pássaro canário, conhecido na Europa desde o século 16, recebeu esse nome porque foi trazido das Ilhas Canárias, hoje pertencentes à Espanha. No início da Era Cristã, Juba II, rei da Numídia (região que faz parte da atual Argélia), fez uma expedição a essas ilhas, onde teve a surpresa de encontrar numerosas matilhas de cães selvagens, de porte avantajado, levados para lá por possíveis viajantes do norte da África. O fato o levou a chamar o arquipélago de Canariae Insulae (em latim, "ilhas dos cães"), o que faz com que a palavra "canário" seja da mesma raiz que "canil" ou "canino".

CÍNICO (de cão)
Uma das mais controvertidas escolas filosóficas da Grécia antiga era a dos cínicos, que desprezavam as aparências e as convenções sociais e pregavam uma vida radicalmente simples e independente. Não há dúvida de que o nome dessa escola vem do grego kyon, kynos ("cão"), embora haja duas teorias diferentes para explicar essa origem. Uma a relaciona com o modo de vida de Diógenes, o mais famoso seguidor dessa filosofia, que vivia ao ar livre, comendo o que encontrava nas ruas e fazendo suas necessidades em qualquer lugar; ele próprio se intitulava "o cão", e latia quando queria fazer críticas a alguém. A outra teoria liga o nome ao ginásio denominado Cinosarges ("cão branco"), local onde lecionava Antístenes, o filósofo que fundou a escola dos cínicos.

PISCINA (de peixe)
Os apreciadores de horóscopo não estarão equivocados se enxergarem aqui uma derivada da palavra latina piscis ("peixe"), o nome clássico do signo de Peixes, pois originariamente a piscina era apenas um grande reservatório para a criação de peixes (que denominamos, não por acaso, de "piscicultura"). Com a difusão dos famosos banhos públicos de Roma, o vocábulo passou a designar os grandes tanques de água fria e quente em que os patrícios nadavam.

MÚSCULO (de rato)
Vem do latim musculum, diminutivo de mus, muris ("rato"), a mesma fonte de onde proveio o famoso mouse do inglês e o nosso "morcego" (de muris caecus, "rato cego", como os antigos o chamavam). Esse estranho nome de "ratinho" foi adotado pelo primitivos estudiosos de anatomia porque certos músculos, como os do braço e os da perna, ao se contraírem sob a pele, dão a impressão do volume de um pequeno rato que se move sob um pedaço de tecido.

Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003

Em qual esporte as bolas atingem as maiores velocidades?


Rodrigo Ratier
Saretta, essa quase ninguém vai acertar, porque o esporte de bola mais rápido que existe é praticamente desconhecido aqui no Brasil. Estamos falando da pelota basca, um jogo que surgiu na Europa, durante a Idade Média, e ganhou fama na Espanha e na França. Por lá, a pelota é quase tão popular quanto o futebol! Entre as 14 modalidades do esporte, a mais veloz é a jai-alai, jogada com uma espécie de cesta para arremessar a bola contra uma parede. Durante a partida, a bolinha de 125 gramas pode atingir velocidades superiores a 300 km/h - o recorde, medido com um radar em um jogo de 1979, é de 302 km/h, segundo o Guinness, o "livro dos recordes". Já o tênis, Saretta, esporte em que você é o número 2 do Brasil no ranking mundial, atrás apenas do Guga, abocanha a medalha de bronze entre os esportes ligeirinhos, logo atrás do golfe.
Por enquanto, dois tenistas dividem o título de mais velozes: o britânico Greg Rusedski, cujo saque chegou a impressionantes 239,7 km/h em 1998, e o americano Andy Roddick, que cravou exatamente a mesma marca neste ano. Os jogos de raquete, aliás, emplacaram mais duas modalidades entre as dez mais rápidas: o squash, cujas bolinhas viajam a mais de 200 km/h, e o tênis de mesa, com rebatidas de até 160 km/h. Entre os esportes em que a bola é impulsionada só pelas mãos ou pelos pés, um dos mais ligeiros é o vôlei, em que saques e cortadas ultrapassam 130 km/h. O futebol é o último do nosso Top 10, mas isso não significa que o esporte seja lento. Pelo contrário: as bombas de até 115 km/h dos chutadores mais potentes do mundo podem machucar de verdade.
Foi o que aconteceu no jogo entre Brasil e Escócia na Copa do Mundo de 1990, quando o lateral brasileiro Branco disparou um petardo em uma cobrança de falta. A pancada atingiu em cheio a cabeça do zagueiro adversário Murdo  McLeod, que desmaiou com o impacto e teve de ser substituído. Entretanto, nem sempre a velocidade é o fator mais importante para garantir um grande lance. Em esportes como o tênis de mesa, precisão no ataque e mudanças inesperadas na trajetória da bolinha podem fazer a diferença. A dica é do supercampeão Hugo Hoyama, um dos maiores medalhistas brasileiros na história dos Jogos Pan-americanos - ao todo, o craque das mini- raquetes conquistou 12 medalhas, sendo oito de ouro. "Muitas vezes, é melhor aprender a rotacionar a raquete ou a posicioná-la no ângulo certo para dar mais efeito à bolinha. A jogada pode não ser tão rápida, mas fica mais difícil de defender", diz o mesa-tenista.

Ranking das apressadinhas
Em pelo menos dez modalidades, a rapidez dos lances ultrapassa 100 km/h.

PELOTA BASCA - 302 km/h*
Na modalidade mais rápida do esporte, conhecida como, cada jogador carrega uma cesta em forma de trilho. Dentro dela, a bola caminha e ganha velocidade até ser impulsionada contra uma parede. Como as bolinhas podem rasgar o ar a mais de 300 km/h, a segurança é um requisito básico. Para se protegerem, os atletas usam capacetes e óculos especiais e a quadra é isolada com grades ou vidro sintético.
* Recordes homologados por medições oficiais. Os outros valores são médias entre os lançamentos mais velozes de cada esporte.
 ** Velocidade na rebatida. Durante o arremesso, a bola atinge 160 km/h.

Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003

Faz mal um jovem tomar Viagra? Como ele age no organismo?


Jairo Bouer
O Viagra (Sildenafil) e os outros componentes da sua classe - Levitra (Vardenafil) e Cialis (Tadalafil) - são medicamentos desenvolvidos para facilitar a ereção masculina. Eles agem nos vasos sanguíneos dentro do pênis, facilitando as dilatações, o que faz com que mais sangue permaneça nos corpos cavernosos (espécie de esponja que há no interior do pênis), levando à ereção. Essa classe de medicamentos surgiu para tratar dificuldades de ereção que podem surgir a partir dos 45, 50 anos. No entanto, de uns tempos para cá, existe uma espécie de "febre" entre os jovens para consumir esses remédios.
Vamos então a algumas explicações: em primeiro lugar, remédio é remédio, não é bala. E, como todo remédio, deve ser receitado pelo médico, atendendo a indicações corretas. Todo medicamento pode trazer efeitos indesejados. E com o Viagra não é diferente. Dores de cabeça, rubor facial, enjôo e alterações visuais são os efeitos mais comuns. Em segundo lugar, é mito a história de que o Viagra produz uma superereção. O pênis não vai ficar maior, nem gerar um prazer incomparável. Ele terá apenas uma ereção completa e parecida com a que é produzida naturalmente pelo corpo.
Os jovens estão usando Viagra porque querem o pênis ereto por mais tempo ou para vencer as ansiedades de quem começa a vida sexual. Calma lá! É verdade que o pênis poderia se recuperar para um "segundo turno" de forma mais rápida. E também que eventuais medos de falhar não atrapalhariam tanto a ereção. Mas existe o risco de o homem achar que só "funciona" com o remédio e que vai conseguir ter quantas relações sexuais quiser, o que não é verdade.
Que tal reservar esse tipo de medicamento para o futuro, quando você realmente sentir que precisa? E mais: jovens que têm dificuldade de ereção podem se beneficiar mais com prática, experiência e, eventualmente, terapia, do que com remédios. Certo?

Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003

É possível transformar água do mar em água potável?


Rodrigo Ratier
É possível, sim - e isso já ocorre em vários países onde a água doce de rios, lagos e represas é escassa. Hoje, mais de 100 nações, principalmente no Oriente Médio e no norte da África, possuem usinas que retiram da água salgada o cloreto de sódio (o sal de cozinha), deixando o líquido pronto para beber. A primeira usina de dessalinização surgiu em 1928, na ilha de Curaçao, no Caribe. O equipamento pioneiro simplesmente evaporava a mistura em enormes colunas de destilação para tornar a água potável. A partir da década de 40, porém, surgiram métodos mais refinados, possibilitando a instalação de miniusinas em navios que permanecem muito tempo em alto-mar. Entre as novas técnicas, a mais bem-sucedida é a chamada osmose reversa, que separa o líquido por meio de um plástico poroso que barra os sais.
 "Na maioria dos processos, cerca de um terço da água do mar vira água potável, enquanto os dois terços restantes são descartados na forma de salmoura, um líquido com alta concentração de sais que sobra da separação", afirma o geólogo Aldo Rebouças, da Universidade de São Paulo (USP). O descarte desse resíduo é um dos grandes dilemas da dessalinização. No solo, a salmoura inibe o crescimento das plantas. Se a mistura cair em correntes de água doce, ela pode matar a vida aquática sensível ao sal. O ideal é despejar o resto de volta no mar ou em lagoas de água salobra. O Brasil, mesmo sendo um dos países mais ricos em água doce, também utiliza processos de dessalinização para purificar a água de lençóis subterrâneos no Nordeste. A iniciativa é controversa. "Mesmo onde o lençol freático é mais salino, a qualidade da água dos poços artesianos costuma melhorar naturalmente no máximo um ano depois da perfuração", diz Aldo.

Tecnologia contra a sede
Um plástico poroso barra o sal e deixa o líquido pronto para beber.
1. A água do mar começa a virar água potável quando o líquido oceânico é bombeado para os filtros da fase de pré-tratamento. Nessa etapa, são retiradas as substâncias grosseiras, como grãos de areia que podem danificar os equipamentos da usina, além de vírus e bactérias prejudiciais à saúde humana.
2. Depois da purificação inicial, a água salgada segue para a etapa em que o sal será efetivamente retirado da mistura. A técnica mais moderna para realizar essa tarefa é a chamada osmose reversa. Esse método baseia-se no uso de membranas plásticas com microporos que barram a passagem de sal, deixando a água pronta para beber.
3. Além da água potável, o processo de dessalinização gera um outro subproduto, a salmoura, um líquido com altíssima concentração de sais. Para evitar que esse resíduo contamine o solo ou algum rio de água doce, a solução é devolvê-lo ao mar ou lançá-lo em lagoas salgadas, onde se pode criar camarões, tilápias e outros peixes do mar.
4. Geralmente, a água recolhida depois da separação já pode ser bebida e segue para a distribuição. Mas, em alguns casos, o líquido ainda recebe um tratamento químico para reduzir a acidez. Outro inconveniente é que a dessalinização não retira da água do mar apenas o sal, mas também minerais como cálcio, potássio e magnésio, compostos essenciais para fortalecer os dentes e prevenir cáries, por exemplo.

BATALHÃO DA SEPARAÇÃO
Na fase de osmose reversa, a água que vem do mar é dividida por centenas de cilindros metálicos, cada um com as tais membranas plásticas que separam o líquido potável do sal. Para facilitar o processo, uma bomba hidráulica aumenta a pressão da mistura salina, forçando a água do mar contra as membranas separadoras.

EVAPORAÇÃO PIONEIRA
Um método diferente nasceu na década de 20.
A destilação, o método mais antigo para deixar a água do mar potável, baseia-se em um princípio bem simples: dentro de enormes colunas de destilação, o líquido salgado é aquecido até que a água comece a evaporar, separando-se do sal. No topo do recipiente, o vapor é coletado e, depois, resfriado, transformando-se em água potável. Uma das vantagens é que o aquecimento praticamente elimina o risco de contaminação da água por microorganismos. O maior problema é que o gasto de energia para aquecer as caldeiras é muito maior do que em processos como a osmose reversa.

POROS PURIFICADORES

Por dentro, cada cilindro é oco, possuindo apenas um cano revestido pelas membranas na parte central. A água do mar preenche o conteúdo das estruturas e é lançada contra os microporos da membrana, que só deixa passar para o cano no centro do cilindro a água sem sal. O líquido potável é recolhido e segue para a distribuição.

Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003

É verdade que os Beatles acabaram por causa da Yoko Ono?


José Augusto Lemos
A melhor resposta talvez seja a de George Harrison, em depoimento ao documentário Anthology, de 1996: "Seria injusto colocar em Yoko Ono toda a culpa por nossa separação, porque àquela altura já estávamos todos cheios. Mas talvez ela tenha sido a catalisadora". Ou seja: já havia bastante tensão e conflito entre os quatro Beatles quando Yoko entrou publicamente em cena, durante as gravações de The Beatles - mais conhecido como "The White Album" ("Álbum Branco") - em 1968. A presença constante de Yoko ao lado de John Lennon e o fato de ele valorizar muito mais a opinião dela, como artista de vanguarda, que a de seus parceiros musicais, teria apenas acelerado o processo de dissolução, que, mesmo assim, ainda se estenderia por dois anos. Independentemente da presença de Yoko, os Beatles haviam chegado àquela fase terminal, pela qual passam quase todas as bandas de rock, em que os talentos individuais começam a se sentir limitados e surgem as famosas "diferenças criativas".
Quando entraram em estúdio para gravar o "Álbum Branco", Lennon e Paul McCartney não mais compunham juntos e Harrison pressionava para incluir mais composições suas além da cota tradicional de duas por álbum. Resultado: os três passaram a gravar suas participações em separado, ou acompanhados apenas por Ringo Starr. Logo surgiram mais dois motivos de brigas sérias: Paul queria colocar seu sogro, Lee Eastman (um dos donos da Kodak), como empresário da banda e também queria que voltassem a se apresentar ao vivo. Mesmo assim, não resta dúvida de que Yoko e o modo como John deixava claro que era ela, e não mais a banda, o que havia de mais importante na sua vida, criaram uma divisão irreparável entre ele e os outros três Beatles.

Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003

Como é organizado um festival de cinema?


Geralmente, um evento desse tipo envolve uma estrutura complexa, mobilizando centenas de pessoas que trabalham o ano todo. Antes  de mais nada, é preciso viabilizar o evento, buscando patrocínio para bancar a empreitada. Só depois do sinal verde dos financiadores é que começa a organização. Em primeiro lugar, os organizadores aprovam os filmes que farão parte do festival. Em seguida, cuidam de toda a propaganda e divulgação, negociam as salas de projeção onde as películas serão exibidas e montam a programação. No final, a maioria das mostras e festivais  conta ainda com júris que premiam as melhores produções em diversas categorias. Como boa parte desses eventos privilegia filmes nacionais e estrangeiros fora do circuito comercial, um festival é uma boa oportunidade para cineastas, distribuidores, críticos e público conhecerem as novidades cinematográficas de diversas partes do mundo. O primeiro festival a ser organizado foi o de Veneza, na Itália, em 1932.
 Mas o evento, considerado hoje um dos mais prestigiosos do mundo, só se tornou fixo e anual em 1943. Três anos depois, aconteceu a estréia de outro festival tradicional, o de Cannes, no sul da França. Conhecido por apostar nos filmes "de arte", ele é famoso por abrigar discussões intermináveis para decidir quem leva a Palma de Ouro, o cobiçado prêmio do evento. No Brasil, os festivais mais badalados são o de Gramado, no Rio Grande do Sul, cuja programação privilegia filmes nacionais e latinos, e as mostras internacionais de cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo. O evento paulistano, aliás, acontece entre os dias 17 e 30 deste mês e deve atrair um público estimado de 180 mil cinéfilos. "Nossa seleção aposta em criações inovadoras e filmes internacionais de difícil acesso", afirma o cineasta Ivan Melo, um dos produtores da mostra paulistana.

Maratona nos bastidores
Mostra Internacional de São Paulo analisa mais de mil filmes para definir a programação.
1. Os festivais costumam durar cerca de 15 dias, mas a equipe de organização trabalha o ano todo. O primeiro passo é buscar um patrocinador para o evento. Para isso, um grupo de quatro a cinco pessoas prepara um projeto para ser distribuído entre possíveis financiadores. A Mostra Internacional de São Paulo tem um orçamento de 3,3 milhões de reais.
2. Com o dinheiro garantido, os organizadores fazem uma triagem dos filmes que serão exibidos. A escolha segue dois caminhos: primeiro, o grupo roda mostras do mundo todo para definir as melhores produções. Além disso, os produtores recebem milhares de inscrições pela internet e costumam assistir a todos os filmes. A mostra de São Paulo recebeu cerca de 1 100 filmes no ano passado.
3. Depois das inscrições e triagem começa a escolha dos filmes que efetivamente farão parte do festival. Uma comissão de aproximadamente cinco pessoas, formada pelos organizadores e críticos de cinema, assiste a cópias em vídeo de filmes escolhidos em festivais e pela internet para decidir qual será a programação.
4. Quando a produção aprovada é estrangeira, o diretor ou distribuidor precisa mandar junto com a cópia em vídeo uma lista de diálogos para tradução e legendagem. O trabalho envolve muita gente: no evento paulistano, por exemplo, essa etapa conta com cerca de 50 tradutores. Na hora da exibição, um operador sincroniza manualmente no computador as legendas com o filme.
5. Alguns meses antes do festival, começa a fase de divulgação. Na mostra de São Paulo, um diretor é convidado para desenhar o cartaz que serve de base para o catálogo oficial, kits de imprensa e produtos promocionais, como sacolas e camisetas. Cineastas conhecidos, como o italiano Federico Fellini e o japonês Akira Kurosawa, já foram encarregados dessa tarefa.
6. A etapa seguinte é a negociação das salas de exibição. Em geral, o dono do cinema cede as salas para o festival e a bilheteria é divida em partes iguais entre a organização e o proprietário. O evento paulistano costuma ocupar entre 10 e 12 salas. Do lado de fora dos cinemas, mais de 80 pessoas trabalham como monitores, organizando filas, vendendo produtos do festival e entregando cédulas de votação para o júri popular.
7. Depois de tudo pronto, é hora de exibir a programação do evento. Durante as duas semanas da mostra de São Paulo, são projetados entre 250 e 300 títulos. Como os festivais apresentam filmes muito recentes, que contam com apenas uma ou duas cópias em película, às vezes um filme é exibido em uma única sessão e no dia seguinte já está viajando para o próximo festival.
8. Boa parte dos eventos conta também com júris para definir as melhores produções exibidas. A mostra de São Paulo tem três júris. O popular, composto pela votação do público, escolhe dez filmes que serão vistos pelo segundo júri, o internacional, com cineastas renomados. O terceiro júri é o da crítica especializada, que também elege seus favoritos.

Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003

Qual a origem da comemoração do Halloween?


Cíntia Cristina da Silva
Uma versão ancestral da festa - que por aqui também é conhecida como Dia das Bruxas - provavelmente surgiu na Europa, centenas de anos antes de Cristo. Originalmente, o Halloween era um ritual dos celtas, um povo que habitou a Grã-Bretanha e a França entre o ano 2000 e o ano 100 antes da era cristã. Para eles, a noite de 31 de outubro, data da comemoração até hoje, indicava o início do Samhain, uma importante celebração que marcava três fatos: o fim da colheita, o Ano-Novo celta e também o início do inverno, "a estação da escuridão e do frio", um período associado aos mortos. "No Halloween, segundo a mitologia desse povo, era possível entrar em contato com o mundo dos desencarnados", diz a historiadora Clare Downham, da Escola de Estudos Celtas, na Irlanda. Como se pregava que esse contato libertava todo tipo de espírito, as pessoas acreditavam que, durante aquela noite, fantasmas, demônios e fadas ficavam à solta.
Para representar esse caos sobrenatural, os celtas se fantasiavam com peles e cabeças de animais abatidos para o inverno. A crença nos espíritos também despertou outros costumes típicos da festa, como o uso de leite e comida (hoje substituídos por doces) para acalmar os visitantes do além. Outras tradições, porém, foram deixadas de lado, como o hábito de acender fogueiras para espantar os espíritos. Bem depois, no século 9, a festa foi influenciada pela expansão do cristianismo na Grã-Bretanha. Na tentativa de acabar com os festejos pagãos, o papa Gregório III consagrou o dia 1º de novembro para a celebração de Todos os Santos. Surgiu daí a própria palavra halloween, originada de all hallows eve, que em português quer dizer "véspera do dia de Todos os Santos". Finalmente, no século 20, o Halloween juntou ao seu caldeirão de influências a força da cultura dos filmes de terror, que hoje dão o tom da celebração tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos.

Terror modernizado
Festa atual guarda poucas semelhanças com os rituais celtas que a inspiraram.
NABO QUE VIROU ABÓBORA
O símbolo mais conhecido da festa, a cara assustadora esculpida em abóboras, representa uma antiga lenda celta: Jack, um homem mesquinho condenado a vagar pela eternidade, pediu uma brasa ao capeta e a colocou dentro de um nabo para iluminar seu caminho. Com a imigração irlandesa para os Estados Unidos no século 19, o vegetal foi trocado. Como o nabo era difícil de ser encontrado na América, ele foi substituído pela abóbora acesa com uma vela, que ganhou o nome de Jack da Lanterna.
CHAMA RENOVADORA
Na Antiguidade, o fogo era o elemento mais importante do Halloween, que coincidia com o Ano-Novo dos celtas. Na noite da celebração, em 31 de outubro, os druidas, sacerdotes desse povo, acendiam fogueiras para simbolizar a renovação das esperanças para o ano seguinte. No topo das montanhas, o fogo também servia para espantar os espíritos. Algumas festas mantêm tochas até hoje, mas apenas para decoração.
CHANTAGEM ANCESTRAL
Segundo a crença celta, o caos reinava na noite do Halloween. Para acalmar os espíritos despertados, era comum deixar leite e comida na porta de casa. A moda pegou nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, onde até hoje as crianças saem fantasiadas para pedir doces — quando não são atendidas, ameaçam pregar um susto, como fariam os espíritos. A senha é a famosa expressão ("travessura ou gostosura"), provavelmente usada pela primeira vez na década de 30.
BRUXAS DO BEM
Outra presença inconfundível no Halloween são as bruxas, mulheres de aparência assustadora que usam a magia para fazer o mal. Essa descrição negativa, entretanto, surge só no século 9, com a influência do cristianismo na comemoração. Para os celtas, as bruxas eram apenas mulheres que conheciam poderes terapêuticos de plantas e ervas. Elas faziam parte da comunidade e podiam participar normalmente das celebrações.
MONSTROS HOLLYWOODIANOS
O costume de se fantasiar também surgiu com os celtas, que na época vestiam-se para a festa usando a cabeça e a pele de animais abatidos antes do início do inverno. Atualmente, a fauna monstruosa se modificou bastante, principalmente pela influência das produções de Hollywood. Vampiros, múmias, lobisomens e outros personagens do cinema são presenças garantidas em qualquer Halloween.

 Revista Mundo Estranho Edição 20/ 2003