domingo, 29 de abril de 2012

Caraguatás: Beleza e Perigo


Roberto Muylaert Tinoco

Eles formam um verdadeiro pântano no alto das árvores e abrigam muitas espécies de seres vivos, entre eles os mosquitos que transmitem muitas doenças perigosas. Por isso os sanitaristas repetem: lugar de caraguatá é na floresta.
Diariamente chegam às cidades, sobretudo nos Estados do Sul, grandes quantidades de caraguatás, ou bromélias, trazidas por vendedores de plantas ornamentais que as arrancam na mata. Eles entraram na moda porque produzem flores de forte colorido e são, sem dúvida, muito bonitos. Mas convém ter cuidado com os caraguatás - sobretudo os de origem silvestre. Eles possuem a original capacidade de viver sobre outras plantas— daí seu nome científico epífitas—e podem ser hospedeiros de larvas de mosquitos capazes de transmitir inúmeras moléstias, desde a malária às viroses responsáveis por alguns tipos de encefalites.
Isso deixa bem claro que lugar de caraguatá é no mato — lá, ele é imprescindível para garantir o equilíbrio ecológico de toda a região. E no desempenho desse papel eles são, realmente, fantásticos. Nas  florestas tropicais da América existem verdadeiros pântanos suspensos sobre as árvores", escreveu um biólogo francês depois da descoberta para ele surpreendente: uma variedade enorme de animais aquáticos, típicos habitantes de pântanos e lagoas, consegue viver a 30 metros de altura, junto às copas das árvores. Desde microscópicos protozoários e larvas de insetos até pequenos vertebrados, como os sapinhos arborícolas, sobrevivem naquela altura graças a pequenas quantidades de água de chuva ou de orvalho acumuladas pelos caraguatás.
São poucos os litros de água que uma planta dessas pode reter, mas existem centenas de milhões (isso mesmo: centenas de milhões) de caraguatás povoando os galhos das árvores em grandes extensões de florestas. Na Mata Atlântica, em apenas uma árvore é possível encontrar até quinhentos caraguatás, cada qual com enorme quantidade de seres abrigados entre as folhas. Somando todas essas unidades  obtém- se o que muito apropriadamente aquele biólogo chamou "um pântano suspenso?”.
É grande a variedade de plantas que servem de criadouro para pequenos animais, mas poucas conseguem hospedar uma fauna tão abundante e diversificada como os caraguatás. Suspensos nas árvores, eles não abrigam apenas seres aquáticos. Em suas folhas podem ser encontrados também inesperados habitantes ao solo e até do subsolo da floresta.
É que, além da água, uma boa quantidade de folhas caídas fica retida pelo caraguatá e todo esse material se decompõe lentamente, transformando- se num húmus muito semelhante ao do solo. Ele serve de residência para aranhas, besouros, centopéias, lesmas e até mesmo minhocas. Assim, não foi apenas o pântano que ficou suspenso com os caraguatás: eles levaram para o telhado da floresta um pouco de seu chão e outro pouco do seu porão. Do ponto de vista ecológico, os caraguatás conseguiram, literalmente, virar a mata de cabeça para baixo.
É claro que isso tudo não aconteceu de uma hora para outra. Foram necessários alguns milhões de anos para que a família botânica das bromeliáceas—que engloba as bromélias e os ananases, ou abacaxis — produzisse espécies capazes de viver sobre as árvores. Distanciando - se do solo, essas pioneiras ficaram impossibilitadas de absorver, pelas raízes, a água e os sais minerais, como faziam suas ancestrais terrestres. E, se realizaram a façanha de conquistar o topo da floresta, foi porque já contavam com algum mecanismo capaz de solucionar esse problema vital.
Pelo menos um grupo de bromeliáceas primitivas já dispunha de uma "inovação· evolutiva para substituir a convencional raiz absorvente. Entre elas, a coleta dos nutrientes passou a ser feita por células altamente especializadas, agrupadas nas bases das folhas. Com o acúmulo de água e de restos vegetais em suas cavidades interfoliares, a bromélia absorve diariamente, através dessas células, uma rica sopa de matéria orgânica. Uma vez independente do solo, a planta utiliza as raízes como elemento de fixação, fazendo-as abraçar os galhos das árvores. Por isso muitos acreditam, erradamente, que elas são parasitas das outras plantas.
As bromeliáceas formam o que se pode chamar uma grande família. Pelo menos metade dos seus membros  são epifíticos, ou seja, vivem aferrados aos troncos e galhos das árvores. Algumas mais abaixo, no tronco, outras mais acima, na copa, conforme as exigências de luz e umidade de cada espécie. Exatamente por ocuparem diversos níveis—ou patamares—no meio da floresta, elas oferecem muitas opções de hospedagem. Nos pequenos reservatórios de água das folhas centrais podem ser encontradas muitas espécies de algas, desde que a bromélia pertença a uma espécie habitante dos galhos mais altos, onde a luz é mais intensa.
A proliferação das algas proporciona uma rica fonte de alimento para inúmeras espécies de insetos cuja primeira fase de vida é essencialmente aquática. Não fosse pela presença dos caraguatás, essa fauna jamais poderia viver no interior das florestas, principalmente as que cobrem as encostas das serras, onde o solo íngreme raramente permite que a água se acumule. O significado ecológico disso é assombroso. Essas plantas assumem o papel de verdadeira ponte entre dois ambientes que, sem elas, ficariam separados por uma barreira que esses pequenos animais não conseguiriam atravessar.
Isso acontece especialmente na Mata Atlântica (do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo), que recobre a encosta das serras entre o litoral e o planalto atlântico e as planícies costeiras. Para as espécies capazes de suportar as severas variações de temperatura das regiões serranas, os caraguatás abriram uma excelente estrada de ligação entre o planalto e as baixadas litorâneas.
Entre os incontáveis seres vivos que podem ser encontrados nos caraguatás há alguns que representam um grande perigo potencial: mosquitos capazes de transmitir a malária. Isso chegou a constituir um problema muito sério, em alguns lugares, e acabou provocando a destruição maciça dos caraguatás em uma enorme região. Hoje, essa solução é considerada mais um grande crime contra o meio ambiente, por uma razão muito simples: os caraguatás são plantas indispensáveis à manutenção do equilíbrio ecológico da Mata Atlântica.
E não apenas porque servem de abrigo para uma infinidade de seres minúsculos e de bebedouro natural para muitos animais da floresta. As pesquisas revelaram que os macacos da Mata Atlântica obtêm uma indispensável dieta de proteínas comendo insetos, aracnídeos, lesmas, caracóis, minhocas e girinos (larvas de sapos). E é entre as folhas dos caraguatás que eles capturam suas refeições. Da mesma forma que os pássaros insetívoros e os beija-flores, que neles encontram o seu suprimento diário de néctar.
Deve-se observar ainda que a erradicação dos caraguatás para combater a malária em uma determinada região não garante resultados a longo prazo. Pois tanto as plantas quanto os mosquitos possuem um elevado poder de recuperação, mesmo depois de terem sido dizimados. Por maior e mais perfeita que tenha sido a erradicação, depois de alguns anos o trabalho deverá ser repetido em toda a extensão da floresta, porque plantas e mosquitos já terão retornado ao seu ambiente natural. E se é verdade que alguns locais, no Sul do Brasil, livraram-se definitivamente da chamada bromélia- malária, isso não se deveu à simples erradicação das plantas mas ao fato de que eles sofreram um quase total desmatamento. Sem árvores onde possam enrolar suas raízes, os caraguatás não conseguem recuperar- se. Em compensação, lentamente eles vão conquistando espaços nas grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, existem bairros onde a febre de decorar os jardins com caraguatás já se espalhou. Se fosse possível reunir todas aquelas plantas ornamentais dentro de um único parque faríamos, sem dúvida, um considerável "pântano urbano".
Nosso Vietnã ecológico
Mais de 400 milhões de caraguatás foram destruídos em Santa Catarina, no final da década de 40, a fim de controlar a malária naquele Estado. A informação foi publicada pelo padre Raulino Reitz, um especialista em bromélias, na revista Ciência Hoje, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Esse verdadeiro "massacre botânico" foi classificado pelo professor Mário Guimarães Ferri, da Universidade de São Paulo, como "fruto de despreparo ou de enfoque unilateral do problema (saúde pública) por uma distorção profissional perfeitamente compreensível e difícil de corrigir". Mas talvez a incrível denúncia de Reitz seja apenas a ponta do iceberg numa controvertida e lamentável investida contra a Mata Atlântica.
Na guerra contra os caraguatás não foram usadas apenas as armas convencionais — desmatamento e coleta manual—como informou o articulista. Saíram a campo aviões e helicópteros, despejando produtos químicos sobre as selvas litorâneas numa empreitada sem precedentes na história da saúde pública no Brasil. Havia um "modelo importado" inspirando aquela articulação. Uma experiência bem-sucedida fora realizada pelos americanos em Trinidad (Venezuela), que ali exterminaram os caraguatás nas plantações de cacau. Acontece que se tratava de Plantas criadas em matas artificiais que ali estavam apenas para sombrear as plantações de cacau. Os trabalhadores estavam em contato direto com elas e assim se exigiam drásticas e rápidas medidas de saneamento. No Brasil, ao contrário, o veneno foi lançado sobre matas nativas e restingas de pouca ou nenhuma ocupação humana.
Outro trabalho, publicado em 1956 na Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais, apresenta o resultado de apenas um ano de borrifações: mais de 100 milhões de caraguatás destruídos. Ignorando a tese de que naquelas circunstâncias uma eficiente campanha de saúde pública poderia ser conduzida pelo fornecimento de telas, mosquiteiros, pequenos desmatamentos em torno das habitações e, principalmente, pelo emprego do inseticida DDT, os devastadores ataques aéreos cumpriram sua terrível missão.
Teria sido apenas uma questão de despreparo e distorção profissional dos sanitaristas, como sugere o professor Ferri? Talvez. Mas na mesma revista há uma estarrecedora explicação para o emprego do veneno conhecido como verde-paris: Era um inseticida básico na época do combate às formas aquáticas dos anofelinos transmissores de malária. Com o advento do DDT, o combate a esses mosquitos passou a ser feito quase exclusivamente contra a fase alada. Ao se proceder a essa mudança, as entidades empenhadas em campanhas antipalúdicas possuíam grandes estoques de verde-paris. Em nosso serviço, só no almoxarifado da diretoria existiam 30 toneladas, fora o que estava distribuído pelos setores. Nessas condições, não é justo que se pense em outro herbicida, enquanto não terminar todo esse estoque".
Tal como acontece nas grandes guerras, jamais saberemos a verdadeira extensão do desastre ecológico causado pela guerra aos caraguatás. A única certeza é que milhares de pássaros e animais mamíferos silvestres adoeceram e morreram em consequência da ingestão de insetos e águas envenenadas. O que restou das florestas ficou privado do seu componente fundamental: alguns agentes polinizadores específicos, responsáveis pela reprodução de uma enorme variedade de plantas. Como saldo positivo restou apenas uma lição simples, amarga e antiga: a extinção é para sempre.

Revista Super Interessante n° 011

Qual o maior ser vivo da Terra?


É uma sequóia, conhecida como a árvore do general Sherman. Ela está no parque Nacional da Sequóia, na Califórnia, Estados Unidos. Com cerca de quatro mil anos de idade, mede 83 metros de altura, o equivalente a um prédio de trinta andares (existem árvores ainda mais altas, mas com menor volume). Suas raízes penetram apenas dois metros no solo, mas se estendem por 45 metros à volta do tronco. Este, na base, chega a Ter dez metros de diâmetro. Se fosse cortada, seus 1 486 metros cúbicos de madeira seriam suficientes para construir 60 casas de dois dormitórios.

Revista Super Interessante n° 011

As divindades femininas: No princípio, eram as deusas


Maria Inês Zanchetta

Nos quatro cantos do mundo, as primeiras divindades eram mulheres: Pótnia, Astarte, Ísis, Amaterazu, Nu Gua. Nas antigas sociedades, elas representavam o começo e o fim de tudo.Hoje, ajudam a entender o passado remoto dos homens.
Em Çatal Huyuk, na Turquia, a estatueta de uma mulher sentada num trono e ladeada por duas panteras, em cujas cabeças ela coloca as mãos, sugere ao mesmo tempo a imagem da mãe e da senhora da natureza. Suas formas generosas — quadris largos e seios grandes— reforçam ainda mais essa idéia. O nome da figura feminina é Pótnia, a deusa de Çatal Huyuk, a mais antiga cidade que se conhece do período Neolítico, cerca de 10 mil anos atrás. De Pótnia nasceram outras divindades femininas também adoradas pelos homens pré- históricos. Sua estatueta, esculpida por volta de 6500 a.C., foi uma das muitas encontradas na Europa e no Oriente Médio, algumas mais antigas, do Paleolítico Superior (de 50 mil a 10 mil anos atrás).
Essas descobertas levaram historiadores e arqueólogos a sugerir que, bem antes de venerar deuses masculinos, os antepassados do homem teriam adorado as deusas, cujo reinado chegou até a Idade do Bronze, há cerca de 5 mil anos. Não se sabe a rigor o exato significado daquelas estatuetas, até porque pouco ou quase nada se conhece dos costumes dos homens pré-históricos. Mas não resta dúvida de que por um bom tempo as deusas reinaram sozinhas, deixando os poderes masculinos à sombra. Em seu livro Um é o outro, a filósofa e professora francesa Elisabeth Badinter tenta explicar a supremacia feminina a partir do que se supõe teriam sido as relações entre homens e mulheres naquelas épocas distantes.
A idéia é que o homem do Neolítico—ao contrário dos seus antecessores do Paleolítico, que eram caçadores, e dos seus descendentes da Idade do Bronze, guerreiros—dedicava-se à criação de rebanhos e à agricultura. Ou seja, já não era necessário arriscar a vida para sobreviver. Nesses tempos relativamente pacíficos, em que a força bruta não contava tanto como fator de prestígio e as diferenças sociais entre os sexos se estreitavam, é bem possível que deusas—e não deuses tivessem encarnado as principais virtudes da cultura neolítica.
Entre as centenas de estatuetas encontradas, algumas têm em comum os seios fartos e os quadris volumosos como Pótnia. Talvez a mais famosa seja a Vênus de Willendorf, encontrada às margens do rio Danúbio, na Europa Central. Nela, os seios, as nádegas e o ventre formam uma massa compacta, de onde emergem a cabeça e as pernas — na verdade, pequenos tocos. Igualmente reveladora é a Vênus de Lespugne, descoberta na França: embora mais estilizada, guarda as mesmas características de sua irmã de Willendorf.
Mas, das esculturas pré- históricas encontradas até hoje, são raras as que apresentam os traços femininos tão exagerados — o que dá margem a um debate sobre o que significava afinal a figura feminina (devidamente divinizada) nos primórdios das sociedades humanas. Os historiadores tendem a achar que os primeiros homens a viver em grupos organizados davam mais importância à sexualidade feminina do que à fertilidade, embora não seja nada fácil separar uma coisa da outra. No entanto. a imagem à qual acabaram associadas foi a da maternidade. Há quem não concorde. "Traduzir o culto dos ancestrais às deusas como simples exaltação à fertilidade é simplificar demais", comenta a historiadora e antropóloga Norma Telles, da PUC de São Paulo, que estuda mitologia praticamente desde criança. "Na realidade, a deusa não é aquela que só gera. Ela é também guerreira, doadora das artes da civilização, criadora do céu, do tecido e da cerâmica, entre muitas outras coisas."
De fato, em muitos mitos, a deusa aparece como quem dá o grão aos homens, e não apenas no sentido literal de nutrição. Assim, por exemplo, Deméter, venerada pelos gregos como a deusa da colheita, ajudava a cultivar a terra — arar, semear, colher e transformar os grãos em farinha e depois em pão. Deméter ensinava ainda os homens a atrelar as animais e a se organizar. Os gregos explicaram a origem do mundo com outro mito feminino: o da deusa Gaia. Doadora da sabedoria aos homens, ela limitou o Caos o espaço infinito—e criou um ser igual a ela própria: Urano, o céu estrelado.
Pouco depois, Eros, símbolo do amor universal, fez com que Gaia e Urano se unissem. Desse casamento nasceram muitos filhos e, assim, a Terra foi povoada. A crença de que o Universo foi criado por uma divindade feminina está presente em quase toda parte.
Ísis, a mais antiga deusa do Egito, tinha dado a luz ao Sol. Na Índia, Aditi era a deusa-mãe de tudo que existe no céu. Na Mesopotâmia, Astarte, uma das mais cultuadas deusas do Oriente Médio, era a verdadeira soberana do mundo, que eliminava o velho e gerava o novo. Essa idéia aparece com clareza nas efígies datadas de 2 300 a.C., que mostram Astarte sentada sobre um cadáver. Também para os chineses foi uma deusa Nu Gua — quem criou a humanidade. Seu culto apareceu durante o período da dinastia Han (202 a.C.-220 d.C.). Representada com cabeça de mulher e corpo de serpente, a venerável Nu Gua encarnava a ordem e a tranquilidade.
Os chineses dizem que, cavando barro do chão, ela moldou uma figura que, para sua surpresa, ganhou vida e movimento próprio. Entusiasmada, a deusa continuou a moldar figuras, mas a natureza mortal de suas criaturas a obrigava a repetir eternamente o trabalho. Por isso, Nu Gua decidiu que os seres deviam se acasalar para se perpetuarem daí também ela ser considerada pelos antigos chineses a deusa do casamento. Do outro lado do mundo, na América pré - colombiana, os astecas tinham em Tlauteutli sua deusa da criação. Para eles, o Universo fora feito de seu corpo. Os maias tinham igualmente sua deusa-mãe. Era Ix Chel. De sua união com o deus Itzamná nasceram os outros deuses e os homens.
Com o passar do tempo, deuses e homens passaram a dividir com as deusas o espaço no Panteão, o lugar reservado às divindades. Para Elisabeth Badinter, isso acontece quando a noção de casal vai deitando raízes nas sociedades. Pouco a pouco, da Europa Ocidental ao Oriente, "reconhece-se que é preciso ser dois para procriar e produzir", escreve ela. Mas o culto à deusa - mãe ainda não é substituído pelo do deus - pai. O casal divino passa a ser venerado em conjunto. As deusas só serão destronadas com o advento das religiões monoteístas, que admitem um só deus, masculino. Com a difusão do cristianismo, as antigas deusas são banidas do imaginário popular.
No Ocidente, algumas acabaram associadas à Virgem Maria, mãe do Deus dos cristãos, outras se transformaram em santas. Mas outras ou foram excluídas da história ou acusadas pelos padres de demônios e prostitutas. As deusas das culturas indo- européias tinham em comum o poder de criar, preservar e destruir davam a vida e recebiam de volta o que se desfazia. Esse aspecto destrutivo das divindades femininas foi o mais atacado pelos inimigos do politeísmo. A suméria Astarte, por exemplo, não escaparia à ira nem dos profetas bíblicos nem dos primeiros cristãos: para uns e outros, ela era a encarnação do diabo.
No império babilônico, Astarte foi venerada sob o nome de Ishtar, que quer dizer estrela. Nos escritos babilônicos, ela é a luz do mundo, a que abre o ventre, faz justiça, dá a força e perdoa. A Bíblia, porém, a descreveria como uma acabada prostituta. A importância dada ao lado violento, destrutivo, talvez explique por que a deusa hindu Kali Ma aparece no filme de Steven Spielberg, O templo da perdição, como a encarnação da violência. Ela é a sanguinária figura em nome da qual se matam e torturam adultos e se escravizam crianças.
No entanto, para os hindus, mais especialmente para os tantras — adeptos de uma derivação do hinduísmo —, Kali é a deusa da transformação e nesse sentido mais filosófico é que ela é destruidora, da mesma forma como a passagem do tempo destrói. Representada como uma mulher negra com quatro braços e uma serpente na cintura, pode aparecer também com um colar de crânios no colo e uma cabeça em cada mão.
Em seus templos, espalhados por toda a Índia, realizavam-se sacrifícios de búfalos e cabras. "Para os orientais, Kali é a desintegração contida na vida, visão essa que nós ocidentais não temos", interpreta a antropóloga Norma Telles. Se Kali foi vista como deusa sanguinária, outras divindades compensavam tanta violência. Sarasvati, a deusa dos rios, era para os hindus a inventora de todas as artes da civilização, como o calendário, a Matemática, o alfabeto original e até os Vedas, o texto sagrado do hinduísmo.
Também na América pré-colombiana, sobretudo entre os astecas, o culto às deusas e deuses incluía muitas vezes sacrifícios humanos. A deusa Tlauteutli é um bom exemplo. Um dia, os deuses descobriram que ela ficaria estéril, a menos que fosse alimentada de corações humanos. Na verdade, os astecas tinham uma visão apocalíptica do mundo: se não alimentassem a deusa, a Terra se acabaria.
Mas, à medida que começava a crescer o culto à deusa da maternidade, Tonantzin, diminuía o interesse dos astecas pelos deuses aos quais se faziam sacrifícios sangrentos. Mais tarde, com a chegada dos conquistadores espanhóis, Tonantzin foi identificada com a Virgem Maria. Isso acabaria acontecendo também com a deusa Ísis. Cultuada no Egito e no mundo greco - romano, ela representava a energia transformadora. Casada com o deus Osíris, morto pelo próprio irmão, Ísis não sossegou enquanto não lhe restituiu a vida. A lenda conta que as enchentes do Nilo eram causadas pelas lágrimas da deusa que pranteava a morte do amado. Por isso, as festas em sua homenagem coincidiam sempre com a época das cheias. É evidente que, ao festejá-la, os egípcios comemoravam a generosa fertilidade do rio Nilo. Nos primeiros séculos cristãos, Ísis passou a ser identificada com Maria.
Já a deusa Brighid, cultuada pelos celtas, ancestrais dos irlandeses, foi transformada pelo cristianismo em Santa Brigida. A veneração daquele povo por Brighid era tanta que ela era chamada simplesmente "a deusa". Dona das palavras e da poesia, era também a padroeira da cura, do artesanato e do conhecimento. As festas em sua homenagem se davam no dia 1º de fevereiro, antecipando a chegada da primavera. Na história cristã, a santa nasceu no pôr- do- sol, nem dentro nem fora de uma casa, e foi alimentada por uma vaca branca com manchas vermelhas. Na tradição irlandesa, a vaca era considerada sobrenatural.
Antes mesmo da chegada das religiões monoteístas, os mitos dizem que o convívio entre deuses e deusas começou a se tornar difícil e a igualdade dos poderes divinos começava a ficar abalada. Assim, por exemplo, Amaterazu, a deusa japonesa do Sol, de quem descendiam os imperadores, não se dava muito bem com o deus da tempestade. Conta a lenda que certo dia ele foi visitar os domínios da deusa e acabou por destruir seus campos de arroz. Furiosa, Amaterazu resolveu vingar-se trancando- se numa caverna — o que deixou o mundo às escuras. Depois de um tempo, como ela não saísse da caverna, uma multidão de deuses e deuses menores decidiu armar uma estratégia para convencê-la a mudar de idéia. Assim, colocaram diante da caverna um espelho que refletia a imagem do deus da tempestade, como se ele estivesse enforcado numa árvore, e começaram a dançar.
Atraída pela música, a deusa decidiu sair para ver o que acontecia. Ao deparar com a imagem no espelho ficou feliz e voltou ao mundo. Com isso, tudo se normalizou e os dias continuaram a suceder às noites. Outro exemplo dos conflitos entre as divindades é o caso da deusa grega Deméter e seu marido Hades, o deus do mundo dos mortos. Eles começaram a brigar pela guarda da filha Perséfone e a questão só foi resolvida com a mediação de Zeus, o deus supremo do Olimpo. Salomonicamente, ele determinou que a menina ficasse com cada um seis meses por ano. Das deusas veneradas no mundo antigo, não houve tantas nem tão famosas como as da mitologia greco - romana. Afrodite (Vênus, em Roma) talvez fosse a mais popular de todas, por encarnar o amor e as formas belas da natureza.
Já Ártemis (Diana) era a caçadora solitária, senhora dos bosques e dos animais. Seus lugares preferidos eram sempre aqueles onde o homem ainda não tinha chegado. Atena (Minerva) protegia a cidade, as casas e as famílias. O predomínio que as divindades femininas exerceram ao longo do tempo levou alguns pesquisadores do século XIX a supor que na pré-história as mulheres detiveram alguma forma de autoridade política. Não há registros arqueológicos que confirmem isso — hoje os especialistas não admitem que tenha existido alguma sociedade cujo controle estivesse com as mulheres. Mas também é certo que nos tempos pré-históricos, quando era outra a divisão social do trabalho, as mulheres tinham um papel preponderante na luta pela sobrevivência do grupo. É impossível saber com exatidão quando e por que deixou de ser assim. De uma coisa, porém, não se duvida: foram os homens quem primeiro traçaram a mitologia das deusas.
A primeira mulher de Adão
Segundo uma antiga lenda, a primeira companheira de Adão não foi Eva, mas uma deusa chamada Lilith—"monstro da noite", para os antigos hebreus—que brigou com Deus e por isso foi transformada em demônio. Na verdade, o castigo maior que Ihe impuseram os sacerdotes foi excluí-la dos relatos bíblicos da criação do mundo. Lilith, versão hebraica de uma divindade babilônica, sinônimo de "face escura da Lua", não se dava bem com Adão. Certo dia, cansada de desavenças, Lilith abandonou o marido e foi para o mar Vermelho, onde passou a viver entre demônios, com quem teve vários filhos.
Inconformado, Adão foi pedir a interferência de Deus. Este determinou então que Lilith voltasse imediatamente para casa. Mas ela recusou-se e foi condenada a devorar todos os seus filhos. Não bastasse, passou a ser considerada  um demônio igual a outras deuses do mundo das trevas. Por tudo isso, no folclore judaico, cada vez que morria uma criança, dizia-se que Lilith a tinha levado. A lenda de Lilith perdurou entre os judeus pelo menos até o século VII.

Revista Super Interessante n° 011

Esportes - Da flecha à bola


Carl Sagan

A paixão mundial pelos esportes tem origem nos tempos pré-históricos em que o homem era caçador e coletor.
A cena se repete a cada outono nos Estados Unidos: nas tardes de domingo assim como nas noites de segunda-feira, abandonamos tudo que estamos fazendo para olhar as pequenas imagens de 22 homens em movimento — precipitando-se uns sobre os outros, caindo, erguendo-se e chutando um objeto alongado feito da pele de um animal. De vez em quando, tanto os jogadores quanto os espectadores passivos são levados à exaltação ou ao desespero pelo desenvolvimento do jogo. Por todo o país, hipnotizados diante das telas de vidro, pessoas (na maioria homens) gritam e resmungam em coro. Dito assim, parece um comportamento estúpido, mas quando você pega o jeito é difícil resistir e eu falo por experiência própria.
Atletas correm, pulam, batem, escorregam e é emocionante vê-los fazer tudo isso com tanta habilidade. Eles se atracam no solo. São precisos ao golpear ou arremessar um objeto marrom ou branco em rápido movimento. Em alguns jogos, tentam conduzir a coisa em direção ao que se convencionou chamar "meta". Em outros, os jogadores fogem e depois voltam à "base". Quase tudo é trabalho em equipe—e é admirável como as partes se encaixam formando um conjunto magnífico. Mas não são essas as habilidades que a maioria de nós usa para ganhar o pão de cada dia. Então, por que nos sentimos compelidos a ver pessoas correndo ou golpeando? Por que essa necessidade existe em todas as culturas? (Antigos egípcios, persas, gregos, romanos, maias e astecas também jogavam bola; o pólo é tibetano).
Alguns astros do esporte ganham por ano dez vezes mais que o presidente dos Estados Unidos. Depois de aposentados, ainda são eleitos para altos cargos. Em suma, são heróis nacionais. Mas por que isso acontece? Existe aí alguma coisa que está acima da diversidade dos sistemas políticos, sociais e econômicos. É um apelo que vem de muito longe. A maioria dos principais esportes é associada a uma nação ou cidade e contém elementos de patriotismo e orgulho cívico. Nosso time nos representa nosso lugar, nossa gente—contra aqueles outros caras vindos de algum lugar diferente, povoado por pessoas estranhas, talvez hostis. (Na verdade, a maioria dos "nossos" jogadores não é realmente daqui. São mercenários que frequentemente se transferem de alma limpa para cidades adversárias em troca de uma paga adequada. Às vezes um time inteiro muda de cidade.)
Competições esportivas são confrontos simbólicos mal disfarçados. Essa não é exatamente uma idéia nova. Os índios Cherokee, por exemplo, chamavam sua antiga forma de jogar lacrosse (uma espécie de hóquei) de "o irmãozinho da guerra". Max Rafferty, antigo superintendente de Instrução Pública da Califórnia, depois de xingar os críticos do futebol universitário de "vagabundos, comunas, beatnicks cabeludos", proclamava: "Futebol é guerra sem mortes. Os jogadores possuem um brilhante espírito combativo que traduz o próprio espírito da América". (Isso até que merece uma reflexão) Já o falecido treinador Vince Lombardi sempre dizia que a única coisa que importa é vencer. E George Allen, ex- treinador dos Redskins (time de futebol americano) de Washington não deixava por menos: "Perder é como morrer".
De fato, falamos em ganhar ou perder uma guerra com a mesma naturalidade com que falamos em ganhar ou perder um jogo. Num comercial de recrutamento do Exército americano, feito para a TV, um tanque de guerra destrói outro numa manobra de blindados. Ao final do exercício, o comandante vitorioso diz: "Quando vencemos, todo o time vence, o tanque inteiro vence—não uma só pessoa". Isso torna muito clara a relação entre esporte e combate. Fãs (abreviatura de fanáticos) do esporte agridem, espancam, às vezes até matam, atormentados pela derrota de seu time, ou quando são impedidos de comemorar uma vitória, ou ainda quando se sentem injustiçados pelos juízes.
Em 1985, a primeira-ministra britânica se viu obrigada a denunciar o comportamento brutal de embriagados torcedores ingleses que, num jogo em Bruxelas, na Bélgica, atacaram um grupo de italianos pelo simples fato de eles torcerem pelo seu próprio time. Dezenas de pessoas morreram quando as arquibancadas despencaram. Em 1969, após três disputadas partidas de futebol, tanques de El Salvador cruzaram a fronteira de Honduras, enquanto bombardeiros salvadorenhos atacavam portos e bases militares hondurenhas. Essa "guerra do futebol" fez milhares de vítimas. Tribos afegãs, no passado, jogavam pólo com as cabeças decepadas de antigos adversários. E há seiscentos anos, onde hoje é a Cidade do México, havia um campo de jogos onde nobres suntuosamente vestidos assistiam a competições entre times uniformizados. O capitão da equipe perdedora era decapitado e seu crânio colocado numa prateleira, ao lado dos de.outros companheiros de desgraça um incentivo possivelmente mais estimulante que a própria vitória.
Vamos supor que, como quem não quer nada, você está mexendo no seletor de canais da TV e sintoniza um jogo que não Ihe diz nada de especial —por exemplo, um amistoso de vôlei entre a Birmânia e a Tailândia. Como você decide por qual time torcer? Mas espere um pouco: por que torcer por qualquer deles? Por que simplesmente não apreciar a partida? Muitos  de nós não conseguem manter essa atitude imparcial. Queremos participar da disputa, nos sentirmos membros de um time. Esse sentimento nos domina e quando menos percebemos lá estamos nós: "Vai, Birmânia".
No começo, nossa lealdade pode oscilar fazendo-nos incentivar primeiro um time, depois outro. Às vezes torcemos pelo mais fraco. Outras vezes, vergonhosamente, viramos bandeira: do perdedor para o - ganhador, quando o placar já parece definido. (Quando um time sofre sucessivas derrotas numa temporada, a lealdade de alguns de seus torcedores pode balançar.) O que buscamos é vitória sem esforço. Queremos ser arrebatados por algo como uma pequena, segura e vitoriosa guerra.
O mais antigo evento atlético organizado de que se tem notícia remonta à Grécia pré-clássica, há 3 500 anos. Durante aqueles primeiros Jogos Olímpicos, uma trégua suspendia todas as guerras entre as cidades- estado gregas. Os jogos eram mais importantes que as batalhas. Nessas competições os homens participavam nus e não era permitida a entrada de mulheres na platéia. Por volta do século VIII a.C., as Olimpíadas consistiam em corridas (muitas modalidades), saltos, arremesso de objetos (inclusive dardos) e lutas (às vezes até a morte). Embora nenhuma dessas competições fosse praticada em equipe, elas foram fundamentais para o desenvolvimento dos modernos esportes coletivos e também para a caça esportiva.
A caça é tradicionalmente considerada um esporte, quando não se come o que se captura — uma condição muito mais fácil de ser cumprida pelos ricos do que pelos pobres. Desde os primeiros faraós, a caça esteve associada à aristocracia militar. O aforismo do escritor Oscar Wilde sobre a caça à raposa na Inglaterra—"o indizível em busca do incomível" — alusão ao elitismo dessa prática. Já os precursores do futebol, hóquei e esportes afins eram chamados "jogos do populacho", reconhecidos como substitutos da caça, que não podia ser praticada por jovens que precisavam trabalhar para viver.
Então talvez os jogos de equipe não sejam apenas ecos estilizados das antigas guerras; talvez eles também satisfaçam um desejo quase esquecido de caçar. Mas, se nossa paixão pelo esporte é tão profunda e tão difundida, é possível que esteja arraigada em nós não em nosso cérebro, mas em nossos genes. Os 10 mil anos decorridos da invenção da agricultura não são tempo suficiente para que tais predisposições tenham evoluído. Se quisermos entendê-las, precisamos retroceder ainda mais. A espécie humana tem centenas de milhares de anos. No entanto, somente nos últimos 3 por cento desse período, que engloba toda a nossa história, levamos uma existência sedentária, baseada no cultivo do solo e na criação de animais. Nos primeiros 97 por cento de nossa estada na Terra, adquirimos tudo o que é caracteristicamente humano. Podemos aprender algo sobre esses tempos com as raras comunidades caçadoras / coletoras ainda não corrompidas pela civilização.
Perambulamos com nossos filhos e nossos pertences nas costas, seguindo a caça e buscando fontes de água. Acampamos por um tempo, logo prosseguimos a marcha. Para proporcionar alimento ao grupo, os homens passam a maior parte do tempo caçando, enquanto as mulheres colhem. Um típico  bando itinerante, uma família extensa composta de parentes e consanguíneos, soma algumas dúzias de indivíduos embora centenas de nós, com a mesma língua e cultura, nos reunamos anualmente para cerimônias religiosas; trocas, casamentos, narrações de histórias. E muitas são as histórias de caça.
Estou me detendo principalmente nos caçadores, que são homens. Mas as mulheres têm um significativo poder social, econômico e cultural. Elas coletam os alimentos essenciais—nozes, frutos, tubérculos, raízes, assim como ervas medicinais, além de caçarem pequenos animais e informarem os homens dos movimentos dos grandes animais. Os homens também se dedicam à coleta e a uma parte considerável dos afazeres domésticos (embora não tenham casas). Mas caçar— apenas para comer, nunca por esporte é a mais duradoura ocupação de qualquer homem que se preze.
Os meninos aprendem a abater pássaros e pequenos mamíferos com arcos e flechas. Adultos, sabem perfeitamente como fabricar armas, espreitar a presa, matá-la e cortá-la em pedaços que serão levados ao acampamento. Quando capturam o primeiro grande mamífero, passam a ser considerados adultos. Na cerimônia de iniciação, incisões rituais são feitas no seu peito ou nos braços; depois, uma erva é esfregada nos cortes, de modo que a cicatriz forme uma tatuagem. Esta significará uma espécie de condecoração; bastará um olhar para que se conheça a experiência de combate de cada um.
A integração com a natureza é tanta que, das muitas pegadas deixadas por um bando de animais, podemos dizer com certeza quantos são, distinguir as espécies, os machos e as fêmeas e até descobrir se algum era manco ou há quanto tempo passaram. Alguns filhotes podem ser capturados por meio de armadilhas espalhadas pelo campo; outros, com estilingues e bumerangues ou apenas com pedras jogadas com força e precisão. O homem pode aproximar-se e matar a golpes de borduna os animais que ainda não aprenderam a temê-lo. Para agarrar presas mais espertas, que se mantêm distantes, arremessamos lanças ou flechas envenenadas. Às vezes temos sorte e encurralamos um bando inteiro à beira de um penhasco.
O trabalho em equipe entre os caçadores é fundamental. Se não quisermos espantar a caça, devemos nos comunicar por mímica. Pelo mesmo motivo, devemos controlar nossas emoções—tanto o medo como o júbilo são  perigosos. Somos ambivalentes em relação aos animais. Nós os respeitamos, reconhecemos que eles e nós temos algum parentesco, chegamos até a nos identificar com eles. Mas, se paramos para pensar na sua inteligência, no cuidado com que tratam os filhotes, se sentimos pena deles, a caça vai ser prejudicada; vamos trazer menos comida para casa e novamente nosso bando vai ficar em perigo. Ou seja, precisamos manter uma distância emocional entre nós e eles.
Por 1 milhão de anos nossos ancestrais masculinos correram de cá para lá, atirando pedras em pássaros, perseguindo filhotes de antílopes, derrubando-os no chão e, aos gritos, aterrorizando bandos de animais selvagens. Suas vidas dependiam da habilidade na caça e do trabalho em equipe; não só eram bons caçadores como bons guerreiros. Então, depois de muito tempo digamos, alguns milhares de séculos —, uma predisposição natural para caçar e trabalhar em equipe estará incorporada em muitos recém-nascidos. Por quê? Porque os caçadores incompetentes ou frouxos tendem a deixar menos descendentes. Não estou querendo dizer com isso que nossa herança contém informações do tipo como confeccionar uma ponta de lança afiada a partir de um pedaço de pedra ou como emplumar uma flecha: essas coisas são ensinadas ou deduzidas. Mas o prazer de caçar, isso eu aposto que está arraigado.
A seleção natural ajudou a moldar nossos ancestrais como soberbos caçadores. A evidência mais clara do sucesso do estilo de vida caçador / coletor é o simples fato de ter-se propagado por cinco continentes e durado 1 milhão de anos. Após 40 mil gerações, em que a matança de animais era nossa defesa contra a inanição, tais inclinações ainda devem estar conosco. Ansiamos por extravasá-las. Os esportes de equipe nos proporcionam essa possibilidade. Uma parte de nós sonha fazer parte de um pequeno bando de semelhantes em busca de uma intrépida, ousada conquista. As tradicionais virtudes masculinas seriedade, inventividade, modéstia, coerência, conhecimento profundo dos animais, amor pela vida ao ar livre — eram todos comportamentos adaptativos na época da caça / coleta. Até hoje admiramos essas características, embora quase tenhamos esquecido por quê.
Além dos esportes, há poucas válvulas de escape disponíveis. Podemos reconhecer nos adolescentes o jovem caçador, o aspirante a guerreiro, saltando pelos telhados, dirigindo motocicletas sem capacete, arranjando encrencas para o time vencedor na celebração depois do jogo. Se esses ímpetos não forem submetidos a alguma forma de controle, podem se transformar em algo mais grave (embora nossos índices de homicídios sejam equivalentes aos dos !Kung, uma tribo do sul da África). Tentamos assegurar que esse gosto ritual pelo ato de matar não se volte contra os humanos. Nem sempre conseguimos.
Ao pensar como são poderosos esses instintos de caçador, fico preocupado. Temo que o futebol de segunda-feira à noite seja uma saída insuficiente para esses modernos caçadores / coletores, enfiados em seus macacões, aventais, uniformes ou ternos. Penso naquele antigo legado de não expressarmos nossos sentimentos e mantermos distância daqueles que matamos e isso tira um pouco do prazer do jogo. Os caçadores / coletores geralmente não apresentavam perigo para  si mesmos: primeiro, porque sua economia era relativamente saudável (muitos tinham mais tempo livre do que nós); segundo, porque, como nômades, tinham poucas posses, quase nenhum roubo e pouca inveja; porque, também, a arrogância e a cobiça não eram apenas considerados males sociais mas ainda; algo muito próximo a uma doença mental; porque as mulheres tinham poder político real e tendiam a exercer influência estabilizadora antes que os garotos se lançassem a suas flechas envenenadas; e porque, enfim, quando sérios crimes eram cometidos—assassínios, por exemplo—o bando em conjunto passava a sentença e o castigo.
Os caçadores / coletores organizavam democracias igualitárias. Eles não tinham chefes nem hierarquias políticas ou empresariais que valessem a pena galgar. Não havia contra quem se revoltar. Assim, se estamos encalhados a algumas centenas de séculos de quando deveríamos estar, se embora não por falha nossa nos encontramos na era das armas nucleares, com emoções do Plistoceno mas sem as salvaguardas sociais do Plistoceno —, talvez possamos ser desculpados pelo futebol das segunda - à noite.

Revista Super Interessante n° 011

O marfim dos elefantes - Um modo de vida em extinção

Nos anos 60, uma libra de marfim valia cerca de 2,5 dólares no mercado internacional. Hoje, a cotação alcança 68 dólares - e o mundo consome anualmente 800 toneladas de marfim, o peso de mil Fuscas. Esses números indiferentes explicam por que apenas este ano 70 mil elefantes serão abatidos na África - e 10 mil filhotes perecerão por causa da morte de suas mães. Esses dados explicam também por que a população africana de elefantes, estimada em 1,3 milhão em 1979, está reduzida a pouco mais de 750 mil. O que as cifras não revelam é a outra face desse morticínio: tendo virtualmente esgotado os contingentes de machos adultos, donos das maiores presas, os caçadores estão eliminando indiscriminadamente animais jovens, fêmeas em idade fértil e até fêmeas mais idosas, que governam as famílias de elefantes. Isso acarreta Um efeito devastador sobre a rica organização social desses animais. "A espécie não corre risco de extinção nos próximos vinte anos", calcula Cynthia Moss, que dirige pesquisas com elefantes no Quênia. "Mas seu modo de vida está sendo destruído a olhos vistos."

Revista Super Interessante n° 011

Os céus estrelados de Van Gogh

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Nenhum pintor sentiu melhor a força da música cromática da noite que o atormentado holandês Vincent van Gogh. Após exprimir a vida miserável dos camponeses e da gente humilde, em sua alucinação expressionista Van Gogh descobriu, no período de Arles (fevereiro de 1888 - maio de 1889), sob a influência dos dias iluminados pelo sol do Midi francês, o impacto das cores vivas da primavera que o conduziram a um novo cromatismo, bem como a uma nova visão fulgurante de um Universo profundo, ilimitado e infinito. Com estas descobertas, uma notável irradiação surgiu em suas telas, o que lhe permitiria ultrapassar o Impressionismo para atingir uma arte exaltada e violentamente expressionista.
E nesse momento que o seu interesse, ou melhor, a sua sensibilidade de gênio o conduz ao Cosmo, ao Sol, às estrelas e aos planetas. Seduzido pela luz artificial, em Café noturno (setembro de 1888 - Arles), e pela miragem das noites, em Café de calçada à noite (outono de 1888 - Arles), ou pelas cintilações e reflexos das estrelas nas águas, em Noite estrelada (1889 - St. Rémy), Van Gogh procurou exprimir as noites cheias de estrelas em uma nova realidade luminosa e cromática até então desconhecida dos artistas.
Van Gogh confessaria a seu irmão, Theo, que experimentava uma terrível necessidade de sair à noite para pintar as estrelas. Movido por este impulso, Van Gogh instalou-se às margens do Ródano, de início colando velas nas abas do seu chapéu, depois sob um lampião de gás, para alumiar a palheta e a tela. Deste modo, Van Gogh pintou as estrelas em telas que, finalmente em setembro, seriam enviadas a Theo, com a observação de que a Noite estrelada era uma de suas obras mais calmas. Do ponto de vista artístico, Van Gogh encontrou em Arles, na Provença, uma nova harmonia na expressão da noite que não só seria o símbolo da vida, mas também o símbolo da morte. Depois de uma crise nervosa, na véspera do Natal, após violenta discussão com Gauguin, Van Gogh cortou a própria orelha. Logo em seguida, o pintor das estrelas solicitou ao irmão ser internado no asilo de Saint-Rémy. No período de Saint-Rémy (maio de 1889 - março de 1890), as estrelas continuariam dominando as suas telas, agora associadas aos ciprestes, que parecem ascender ao céu como flamas verdes imensas. É desse período uma série de novos estudos do céu estrelado: Noite estrelada (junho de 1889 - Museu de Arte Moderna de Nova York); Os ciprestes (também de junho de 1889 - Metropolitan Museum de Nova York); Passeio ao crepúsculo ou Casal ao luar (outubro de 1889 - Museu de Arte de São Paulo).
Dos seus quadros sobre o céu noturno, o mais notável é O caminho dos ciprestes (maio de 1890 - Museu Krõller - MüIler, Otterlo, Holanda), pintado em Auverssur-Oise, que Van Gogh descreveu em carta a Gauguin, de 17 de junho de 1890: "Um céu noturno com uma lua sem brilho, só o delgado crescente emergindo da sombra opaca projetada da Terra, uma estrela com um brilho exagerado, se você quiser, brilho suave de rosa e verde no céu ultramar onde passam as nuvens(...) Muito romântico, se lhe parece, mas também acho provençal..."
Nessa tela, a "estrela com brilho exagerado" é Vênus, que esteve em conjunção com a Lua em 19 de junho de 1890. Convém lembrar que, na época, Vênus Estrela da Tarde apresentava-se como um astro de visibilidade vespertina, na constelação de Câncer, quando também atingiu a maior latitude heliocêntrica norte. Por outro lado, o fenômeno que Van Gogh descreveu como "sombra opaca projetada da Terra" da qual emerge o fino crescente lunar é o conhecido fenômeno da luz cinzenta, tão comum logo que tem início a Lua nova. De fato, o crescente muito delgado - pouco luminoso - permite que se observe melhor a tênue luz cinzenta, ou seja, a luminosidade proveniente da Terra que a superfície lunar reflete. Assim, apesar da exaltação de cores, Van Gogh era um artista que não desprezava os modelos nem a realidade dos fenômenos. Ele soube, como ninguém, ouvir a sinfonia cromática do céu.

Revista Super Interessante n° 011

Mais inteligência, menos consumo


O cérebro de uma pessoa inteligente trabalha mais do que o de uma pessoa, digamos, nem tanto. Certo? Errado. Certo é o contrário, diz o psiquiatra americano Richard Haier. Ele, descobriu que o cérebro de pessoas de raciocínio um pouco lento consome muito mais energia (sob a forma de glicose), embora produza menos, como um motor mal regulado. O médico injetou uma dose de glicose radioativa em oito jovens, antes de aplicar-lhes o teste de Ravens, com 36 questões abstratas. Depois, eles foram examinados Com o PET (sigla em inglês de tomógrafo de emissão de pósitrons), um aparelho computadorizado que usa a radioatividade para estudar o metabolismo humano. O cérebro daqueles que acertaram apenas onze respostas, à esquerda na foto; queimou muita glicose – o que pode ser percebido pelo excesso de tons quentes. Já aqueles que se saíram melhor no teste, como o jovem que acertou 33 respostas, gastaram uma quantidade menor de glicose, o que se traduz nos tons mais frios do cérebro à direita. De acordo com o psiquiatra Haier, pessoas menos inteligentes talvez precisem ativar um número maior de células do cérebro (neurônios) para completar um raciocínio - então seus neurônios precisam de energia extra para realizar tarefas.

Revista Super Interessante n° 011