terça-feira, 29 de maio de 2012

O que é um gêiser?

Rodrigo Ratier

A palavra, de origem islandesa, significa "fonte jorrante". Há registros de que ela teria sido usada pela primeira vez com o sentido atual em 1294, para descrever um estranho buraco que cuspia fortes jatos de água quente e vapor de dentro da terra, no oeste da Islândia. Desde então, o termo tornou-se universal, significando esse curioso fenômeno que só costuma ocorrer em áreas de erupção vulcânica relativamente recente. "Isso explica por que não existem gêiseres no Brasil. Aqui, os últimos vulcões se extinguiram no período mesozóico, entre 245 e 66 milhões de anos atrás", afirma a geóloga Annkarin Aurélia Kimmelmann e Silva, da Universidade de São Paulo (USP). Regiões vulcânicas têm o primeiro ingrediente necessário para o fenômeno: camadas de magma incandescente. Situadas a poucos quilômetros da superfície, elas funcionam como uma chama de fogão, aquecendo a água da chuva ou de neve derretida que penetra no subsolo.
Em reservatórios nas rochas impermeáveis, o líquido atinge temperaturas superiores a 200ºC. À medida que esquenta, ele ganha pressão, aumenta de volume e empurra a coluna d’água para cima. É o mesmo processo que ocorre nas estâncias termais (Mundo Estranho de julho), mas com uma diferença importante: nos gêiseres, as rachaduras que levam a água à superfície são muito mais estreitas. "Por isso, quando a pressão é forte o suficiente para expulsar a mistura de líquido e vapor dos reservatórios, o jato d’água sai de uma vez só, na forma de uma erupção", diz o hidrologista Alan Glennon, da Universidade de Western Kentucky, nos Estados Unidos. Horas depois de se esvaziarem com esses jatos escaldantes, os depósitos subterrâneos voltam a se encher de água e o show se repete. Em alguns casos, com pontualidade britânica. O famoso Old Faithful, no Parque Yellowstone, Estados Unidos, lança jatos de até 50 metros a cada 80 minutos.
Como algumas erupções chegam a causar pequenos terremotos, as rochas em áreas de gêiseres precisam ser ricas em sílica, mineral resistente às chacoalhadas do terreno. Poucos lugares no mundo reúnem todas essas características. Existem, em todo o planeta, menos de 1 000 gêiseres, a maioria concentrada nos Estados Unidos, Rússia e Chile. Além de raros, eles também são frágeis. Fenômenos geológicos corriqueiros, como tremores de baixa intensidade, podem pôr fim aos jatos d’água. Foi o que aconteceu com a lendária fonte quente de Waimangu, na Nova Zelândia. Nascido de uma erupção vulcânica em 1888, esse gêiser chegou a disparar jorros de 480 metros. Para ter uma idéia, é uma altura superior à das Torres Petronas, na Malásia, os prédios mais altos do mundo, com 452 metros. Mas, em 1904, um deslizamento de terra alterou o fluxo da água subterrânea e acabou com o espetáculo.
Pode vir quente... Pressão faz a água subterrânea explodir terra acima
1. A água que vem das chuvas (ou da neve derretida) se infiltra na terra e se deposita nas fraturas das rochas. A 1 500ºC de temperatura, o magma de regiões vulcânicas recentes esquenta a água dos depósitos subterrâneos até ela chegar a 200ºC.
2. Superaquecido, parte do líquido dos reservatórios começa a se transformar em vapor. No estado gasoso, a água ocupa um volume até 1 500 vezes maior - por isso, tende a explodir para fora dos reservatórios subterrâneos.
3. As fendas estreitas fazem com que o sistema funcione como uma panela de pressão. A mistura de vapor e líquido só consegue passar pela pequena abertura quando estiver superpressurizada e extremamente quente, pronta para expulsar a coluna d’água para cima.
4. A erupção do gêiser ocorre quando a água escapa de uma só vez dos reservatórios. Nessa explosão de líquido e vapor, os jorros podem ultrapassar os 100 metros de altura. O espetáculo dura alguns minutos. Depois, o sistema subterrâneo volta a encher para um novo disparo.
Água quente
Com o calor do magma vulcânico, as moléculas se agitam intensamente: colidem entre si, ganham mais volume e tendem a virar vapor.
Água fria
As moléculas de hidrogênio e oxigênio (H2O) que formam o líquido ficam próximas umas das outras e ocupam um espaço definido.
Um raro espetáculo Existem menos de 1 000 gêiseres
A região campeã é Yellowstone, parque americano, com 400. A península de Kamchatka, na Rússia, tem quase 200. O vale de El Tatio, no Chile, 50. A ilha Umnak (Alasca), a ilha Norte da Nova Zelândia e a região de Hveavellir, na Islândia, têm cerca  e 15 cada uma.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002

O que é o sargaço?

É uma alga marinha comum em regiões tropicais. No litoral do Brasil, por exemplo, existem várias espécies de sargaço. Ele costuma crescer grudado em rochas à beira-mar, mas pode se espalhar pelo oceano. "Enormes colônias de sargaço bóiam nas águas mornas do Atlântico graças às suas vesículas flutuadoras, que funcionam como pequenos balões cheios de ar", diz o naturalista Eurico Cabral de Oliveira, da USP, especialista em algas marinhas. Os navegadores europeus da Era dos Descobrimentos deixaram narrativas escabrosas sobre embarcações aprisionadas no célebre Mar dos Sargaços, região no norte do Caribe que tem uma concentração impressionante dessas plantas flutuando na superfície do oceano. Mas muitas dessas lendas eram exageradas, como comprovou o explorador genovês Cristóvão Colombo, o primeiro a descrever o sargaço, em 1492. Mesmo assim, ele passou maus bocados para conduzir a caravela Niña até a América atravessando aquela região sem ventos.
Mais recentemente, cientistas descobriram que o Mar dos Sargaços é um santuário para muitos animais. Além de tartarugas marinhas ameaçadas de extinção, pequenos crustáceos (como camarões) e moluscos excretam a amônia e o fosfato que as algas usam como nutriente. Sua recompensa é crescerem protegidos dos predadores e rodeados de comida. O sargaço também é uma matéria-prima versátil para várias indústrias. Dele se extrai o alginato, substância viscosa usada como goma em adesivos, cosméticos e alimentos. Essa alga também é um ingrediente tradicional na medicina oriental e está sendo estudada em pesquisas de combate ao câncer e à Aids: há sinais de que os polissacarídeos (um tipo de carboidrato) do sargaço ajudam a fortalecer o sistema imunológico e a inibir o crescimento de tumores.
Mar vegetal
O célebre Mar dos Sargaços fica no Caribe. São 5 milhões de quilômetros quadrados cobertos por um tapete de algas, delimitado por quatro correntes marítimas: do Golfo, do Atlântico Norte, das Canárias e a Norte Equatorial.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002

Como se forma o arco-íris?

A mitologia grega diria que ele aparece sempre que a deusa Íris deixa um rastro colorido no céu, para transmitir aos homens as mensagens de Zeus, o todo-poderoso do Olimpo. A explicação científica é bem menos romântica. O arco-íris surge quando o Sol ilumina a umidade suspensa no ar, após uma chuvarada, por exemplo. Quando um raio bate na borda de uma gotinha de água ou de vapor, a luz branca do Sol é desviada e se decompõe nas sete cores que compõem seu espectro: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. É o mesmo efeito do prisma, que aprendemos na escola: cada cor é refletida em um ângulo diferente e muda de direção ao retornar para a atmosfera. A cor vermelha é a que se propaga mais rápido, formando a faixa superior do arco-íris. A violeta, a mais lenta, aparece na parte inferior.
O fenômeno é tão comum que os cientistas acumulam alguns recordes coloridos. "Em laboratório, foram observados mais de 12 arco-íris a partir de uma única gota d’água", afirma o físico José Pedro Rino, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).
Prisma natural Chuva ou umidade do ar favorece o belo fenômeno
1. Dentro da gota d’água ou de vapor, o raio solar passa por uma refração - ou seja, se divide nas sete cores que compõem a luz branca.
2. Cada onda colorida é desviada em um ângulo diferente, de acordo com suavelocidade de propagação.
3. Os raios coloridos são refletidos na borda do fundo da gota.
4. Ao saírem da gota, os raios são desviados mais uma vez. O efeito é igual aode uma lente de aumento.
5. O espetáculo acaba quando o Sol muda de posição ou quando um vento forte dissipa a umidade do ar.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002

O que causa a ressaca do mar?

A chegada de ondas violentas à costa começa quando rajadas de vento fazem subir o nível do oceano e aumentam, já em mar aberto, o tamanho dos vagalhões. Impulsionada por correntes marítimas, a massa de água caminha com velocidade crescente até encontrar o litoral. Ao chegar à praia, o mar agitado inunda a faixa de areia e as ondas quebram bem próximas da orla. A força da ressaca costuma alagar avenidas e danificar construções à beira-mar - há também relatos de banhistas tragados pelo mar e levados para longe da praia pelas fortes correntes marítimas. "No Brasil, as ressacas são quase sempre causadas por frentes frias que atingem o Sul e o Sudeste. Podem ocorrer dezenas de vezes por ano, mas, felizmente, é possível prevê-las até cinco dias antes", diz o oceanógrafo Joseph Harari, da USP.
Inspirados na destruição marítima, os bebedores exagerados apelidaram de ressaca aquele mal-estar típico após uma bebedeira. "A palavra deriva do espanhol resaca, cujo sentido original designa o refluxo das ondas do oceano. No Brasil e em Portugal, o termo ganhou um significado metafórico, pois quem bebe demais também passa por muita turbulência na manhã seguinte", afirma o lingüista e tradutor John Robert Schmitz, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Violência marítima Ventos fortes e correntes intensas fazem a água chegar à costa com força máxima.
1. Em mar aberto, rajadas de vento geladas e fortes, trazidas por uma frente fria, sopram em direção ao litoral. Elas criam correntes intensas, transportando uma enorme quantidade de água.
2. As correntes agitam o mar, aumentando o tamanho das ondas e o nível da água. Ventos de até 50 quilômetros por hora fazem o oceano subir 2 metros, criando ondas de até 4 metros.
3. O mar bravo inunda a praia e quebra violentamente no litoral. As ondas grandes podem devastar a orla, alagando ruas, destruindo casas e arrastando pessoas.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002

Por que algumas frutas continuam amadurecendo depois de colhidas e outras não?

Tudo depende do momento em que a fruta é arrancada do pé. Se isso ocorrer ainda no começo do seu amadurecimento, provavelmente ela permanecerá verde. Mas, se o agricultor esperar passar essa espécie de puberdade vegetal, ela seguirá maturando até ficar pronta para o consumo. O segredo está no etileno, hormônio produzido pelas plantas, que é o responsável pelas transformações características do amadurecimento, como mudança de cor, amolecimento da fruta e aumento da quantidade de açúcar. "Frutas arrancadas muito cedo sofrem pouca ação do etileno e nunca amadurecem", diz a bióloga Sônia Perez, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). O ideal é esperar elas estarem no ponto para serem colhidas, mas, para facilitar o transporte e o armazenamento, o mais comum é os agricultores planejarem a colheita para um estágio conhecido como verde-maduro. "Nessa etapa, a fruta continua verde, mas já  foi sensibilizada pelo hormônio.
Para  completar o desenvolvimento, borrifa-se uma dose extra de etileno sobre as frutas colhidas e elas continuam amadurecendo em casa", afirma Sônia. Como cada fruta matura em um tempo diferente, é difícil escolher, só pela aparência, o momento certo da colheita. Os pequenos agricultores descobrem isso pelo velho método de tentativa e erro e passam a sabedoria de pai para filho.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002

Os vegetais emitem algum som?

À primeira vista, isso soa estranho, mas basta pensar um pouquinho para lembrar que sim. É claro que eles precisam de uma ajuda de outros elementos da natureza. Coqueiros, por exemplo, podem formar um belo dueto com o vento. Os compositores Vinícius de Moraes e Toquinho imortalizaram, nos versos da música "Tarde em Itapoã", o barulho das folhas de coqueiros raspando umas nas outras com o sopro da brisa: o "diz-que-diz-que macio que brota dos coqueirais". Em plantas como o bambu-gigante, a ventania faz o caule dobrar, provocando um estalo instantâneo. Outra parceira afinada das plantas é a lei da gravidade. Ao despencarem das árvores, é óbvio que os frutos produzem um estalido no momento em que se espatifam no chão. Isso não cria nenhuma melodia, mas pode ser o mote para o início de um batuque... Sozinhos, porém, os vegetais não emitem nenhum som, até porque não precisam. "As plantas se comunicam  entre si liberando substâncias químicas, como aromas e toxinas.
É  assim que um vegetal percebe o outro e pode responder a essa presença", afirma o biólogo Carlos Prado, da UFSCAR.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002

Quem são o Pierrô, o Arlequim e a Colombina?

São personagens de um estilo teatral conhecido como Commedia dell’Arte, nascido na Itália do século XVI. Integrantes de uma trama cheia de sátira social, os três papéis representam serviçais envolvidos em um triângulo amoroso: Pierrô ama Colombina, que ama Arlequim, que, por sua vez, também deseja Colombina. O estilo surgiu como alternativa à chamada Commedia Erudita, de inspiração literária, que apresentava atores falando em latim, naquela época uma língua já inacessível à maioria das pessoas. Assim, a história do trio enamorado sempre foi um autêntico entretenimento popular, de origem influenciada pelas brincadeiras de Carnaval. Apresentadas nas ruas e praças das cidades italianas, as histórias encenadas ironizavam a vida e os costumes dos poderosos de então. Para isso, entravam em cena muitos outros personagens, além dos três mais famosos.
Do lado dos patrões, por exemplo, havia um comerciante extremamente avarento (chamado Pantaleão), um intelectual pomposo (o Doutor) e um oficial covarde, mas metido a valentão (o Capitão). Outros personagens típicos eram o casal Isabella e Orácio (em geral, filhos de patrões) e outros serviçais. Apesar de obedecerem a um enredo predefinido, as peças tinham a improvisação como ingrediente principal, exigindo grande disciplina e talento cômico dos atores, que precisavam responder rapidamente às novas piadas e situações criadas pelo colegas.
"Até hoje, a Commedia dell’Arte é um método de grande riqueza para o aprendizado e o treinamento do ator", afirma a atriz Tiche Vianna, formada pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Commedia dell’Arte pela Universidade de Bolonha e Florença, na Itália. Um detalhe interessante é que sempre havia, no meio do espetáculo, um intervalo chamado lazzo, que podia ter mais comédia, apresentar acrobacias ou sátiras políticas sem qualquer relação com o enredo. Terminado o lazzo, a história continuava do ponto em que havia sido interrompida. Com esse estilo único, a Commedia dell’Arte influenciou a arte dramática de toda a Europa.
Entre tapas e beijos Intriga amorosa e sátira social eram os pratos principais da antiga comédia italiana
Pierrô
Seu nome original era Pedrolino, mas foi batizado, na França do século XIX, como Pierrot e assim ganhou o mundo. O mais pobre dos personagens serviçais, vestia roupas feitas de sacos de farinha, tinha o rosto pintado de branco e não usava máscara. Vivia sofrendo e suspirando de amor pela Colombina. Por isso, era a vítima preferida das piadas em cena. Não foi à toa que sua atitude, sua vestimenta e sua maquiagem influenciaram todos os palhaços de circo.
Pantaleão
O mais conhecido dos personagens patrões, que representavam a elite da sociedade italiana nas histórias da Commedia dell’Arte, Pantaleão (também chamado de "O Velho") era um "mercador de Veneza" (expressão que deu título a uma peça de Shakespeare). Tirano avarento e galanteador desajeitado, era alvo constante das gozações dos servos e de outros personagens da trama.
Arlequim
Também servo de Pantaleão, Arlequim era um espertalhão preguiçoso e insolente, que tentava convencer a todos da sua ingenuidade e estupidez. Depois de entrar em cena saltitando, deslocava-se pelo palco com passos de dança e um grande repertório de movimentos acrobáticos. Debochado, adorava pregar peças nos outros personagens e depois usava sua agilidade para escapar das confusões criadas. Outra de suas marcas-registradas era a roupa de losangos.
Colombina
Criada de uma filha do patrão Pantaleão, mas tão bela e refinada quanto sua ama, Colombina era também o pivô de um triângulo amoroso que ficaria famoso no mundo todo - de um lado, o apaixonado Pierrô; do outro, o malandro Arlequim. Para despertar o amor desse último, a romântica serviçal cantava e dançava graciosamente nos espetáculos.

Revista Mundo Estranho Edição 7/ 2002