quarta-feira, 27 de junho de 2012

O controle remoto que sai do videogame

Projetado um novo tipo de acessório de videogame que dispensa botões, comandos e controles remotos. Trata-se de uma maleta com uma série de sensores eletrônicos que registram os movimentos do jogador, sua velocidade e posição relativa e os traduz em ação na tela.
Um novo tipo de acessório de videogame tem tudo para ser o maior sucesso do ano no mercado americano. Projetado para acompanhar os jogos inventados por fabricantes japoneses, muito populares nos Estados Unidos, o novo equipamento dispensa botões, comandos e controles remotos, enfim, qualquer contato físico entre o jogador e o jogo. Em vez disso, as crianças podem, por exemplo, movimentar figuras no vídeo apontando-lhes um revolver de luz. Mas a grande sensação é uma maleta que substitui os controles tradicionais: o jogador simplesmente move as mãos e o corpo em frente à tela. Assim, para acertar o supercampeão Myke Tyson num jogo de série de sensores eletrônicos a maleta registra os movimentos do jogador, sua velocidade e posição relativa e os traduz em ação na tela.

Revista Super Interessante n° 020

O que é sol da meia-noite?

Elias Luzia Salvador

É um fenômeno que ocorre nas proximidades dos pólos, quando o Sol não se põe durante pelo menos 24 horas. Isso acontece porque a inclinação do eixo da Terra em relação ao plano quase de sua órbita faz com que o Sol incida quase perpendicularmente sobre os pólos, em posições que se alternam de seis em seis meses. Nos pólos propriamente ditos, tanto o dia solar quanto a noite duram teoricamente um semestre, porque os períodos efetivos de luz e escuridão são modificados também pelas auroras boreais. A passagem para o dia ou para a noite polar ocorre nos equinócios – quando a duração das horas de sol é igual em toda a Terra.
Revista Super Interessante n° 020

Via Láctea: Fábrica de Estrelas

Martha San Juan França

A Via Láctea abriga 250 bilhões de astros como o Sol. Nossa galáxia pode explicar alguns enigmas cósmicos, como a natureza da chamada ¿matéria escura¿. É possível que seu núcleo seja um buraco negro.
No árido deserto do Novo México, nos Estados Unidos, 27 radiotelescópios alinhados na forma de Y observam atentamente o céu. O conjunto forma o VLA (Very Large Array, traduzido habitualmente por Arranjo de Muito Longa Base), uma espécie de antena gigante capaz de detectar emissões de ondas eletromagnéticas das mais distantes galáxias. Há seis anos, um grupo de astrônomo do Instituto de Tecnologia da Califórnia (CalTech) apontou o VLA na direção da constelação de Sagitário, onde fica o núcleo da Via Láctea. Quando os computadores combinaram os sinais recebidos em cada uma das 27 antenas, estava pronta a primeira imagem da extraordinária fonte de energia ali existente - algo como 10 milhões de sóis.
“Supõe-se pelo tamanho e pela forma dessa fonte de energia que no coração da Via Láctea existe um buraco negro”, concluiu o astrônomo Kwok Yung Lo, da equipe do CalTech, referindo-se aos estranhos corpos, cuja existência ainda não foi comprovada, que exerceriam tamanha atração gravitacional sobre tudo que está a sua volta que nem a luz escaparia.
Pesquisas como a de Lo e seus colegas mostram que as respostas a algumas indagações importantes sobre a origem e a evolução do Universo - por exemplo, se o Cosmo está mesmo se expandindo - podem ser encontradas aqui mesmo na nossa galáxia, que abriga o Sol e o seu séquito de planetas, entre os quais a Terra. Deixada de lado durante algum tempo em favor de galáxias mais distantes, nestes últimos anos a Via Láctea “voltou ao centro das atenções”, como afirma a astrônoma Sandra dos Anjos, da Universidade de São Paulo. Equipados com novos telescópios e sensores eletrônicos, os cientistas tentam construir uma imagem mais completa da Galáxia, o que antes não era possível por que suas nuvens de gás e poeira prejudicavam a observação. A nova imagem mostra que a Via Láctea, como as outras centenas de bilhões de galáxias que se calcula haver no Universo conhecido, é uma fábrica que transforma matéria gasosa em estrelas. Ela se condensou na mesma época que suas irmãs, até 10 bilhões de anos atrás, a partir de uma nuvem primordial de gás em movimento, composta na maior parte de hidrogênio, com alguma porcentagem de hélio.
Essa colossal nuvem começou a se contrair pela ação da força gravitacional até ficar com uma aparência que pode ser comparada à de dois ovos fritos colados entre si pelas claras. A região interna, densa e concentrada, onde se supõe existir o buraco negro, gira mais rapidamente em redor de si mesma, como se fosse um corpo sólido. Já no disco em volta do núcleo, as nuvens de gás giram mais devagar. É o mesmo princípio, em escala descomunal, que permitiu a criação de um sistema planetário ao redor do Sol. Em torno desse conjunto, distribuídos numa imensa esfera chamada halo, estão os aglomerados globulares, formados por centenas de milhares de estrelas.
Desde Nicolau Copérnico ( 1473-1543) se sabe que a Terra não é o centro do sistema solar. Mas por muito tempo ainda se acreditou que o Sol estivesse no centro da Via Láctea. Em 1917, o astrônomo americano Harlow Shapley (1885-1972), considerado um dos fundadores da Cosmologia moderna, acabou com essa idéia. Ao medir as distâncias da Terra de alguns aglomerados globulares que giram perto do centro da Galáxia. Shapley pôs o sistema solar no seu devido lugar: nos subúrbios do disco da Via Láctea, longe do centro cerca de 30 mil anos-luz ou inimagináveis 285 quatrilhões de quilômetros. A Via Láctea, ela própria, faz parte do que se chama Grupo Local, uma família de umas vinte galáxias por assim dizer vizinhas, entre as quais as conhecidas Andrômeda e as Nuvens de Magalhães, onde foi avistada há dois anos a supernova 1987 A. O Grupo Local parece dirigir-se para uma superconcentração de galáxias que se imagina também estar sendo atraída por um aglomerado ainda maior e mais distante.
No interior da Via Láctea, há cerca de 10 bilhões de anos, começaram a aparecer os primeiros embriões de estrelas formados pela condenação de hidrogênio. No núcleo desses embriões, reações termonucleares transformaram o hidrogênio em outros elementos químicos: primeiro, hélio e depois carbono, que, por sua vez, provocou novas reações. Quando isso ocorreu, nasceram as primeiras estrelas e uma descomunal quantidade de energia foi liberada para o espaço sob a forma de luz e outras radiações eletromagnéticas. Dependendo de sua massa, depois de alguns bilhões de anos, muitas daquelas estrelas explodiram, expelindo o seu conteúdo para as nuvens de gás. Essas nuvens gigantescas são as incubadeiras de outras estrelas da Galáxia. Chamam-se nebulosas porque, vistas da Terra, parecem manchas esbranquiçadas, pois o seu interior é iluminado por uma infinidade de estrelas recém-nascidas.
Parte da matéria-prima que compôs o Sol e os planetas , bem como a combinação de átomos que tornou possível a vida na Terra, foi gerada no forno das primeiras gerações de estrelas da galáxia. “Somos todos feitos de pedacinhos de estrelas”, ousa o astrônomo Roberto Boczko, da Universidade de São Paulo. Ele explica que o espaço entre as estrelas é povoado por um arsenal de moléculas, formadas por átomos expelidos pelas próprias estrelas.
Depois de bilhões de anos, as moléculas se organizaram de forma cada vez mais complexa. Já foram identificadas cerca de cem moléculas diferentes, algumas simples, como carbono, oxigênio e nitrogênio, outras mais complexas, como o cianopentacetileno. “Cada tipo de molécula tem uma assinatura - uma frequência única de rádio”, atesta o astrônomo Eugênio Scalise, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), que há cinco anos pesquisa a existência de moléculas de água nas proximidades de estrelas muito jovens.
Quem olha para o céu numa noite límpida e sem luar percebe a Via Láctea como uma brilhante faixa leitosa. Daí o nome: aos antigos romanos parecia um caminho de leite. Se fosse possível retratá-la de cima, a Via Láctea pareceria uma imensa espiral girando como um cata-vento em torno do núcleo. Os braços dos cata-vento indicam concentrações de matéria e são formados por estrelas e nebulosas. Esses braços são interrompidos por nuvens de poeira. O espaço em volta, embora pareça vazio, possui hidrogênio e outros gases, de forma rarefeita. O caminho de leite dos romanos é a Via Láctea como que vista de perfil. A quantidade de estrelas que ela parece abrigar depende de onde se encontra e para onde olha o observador - fora da faixa branca os espaços são pouco povoados. Na faixa, se vêem tantas estrelas que parecem formar uma única massa luminosa.
Com diâmetro de 100 mil anos-luz, que corresponde à metade da distância da Terra à Grande Nuvem de Magalhães, a Via Láctea tem cerca de 250 bilhões de estrelas (todas as 6 mil estrelas que se avistam a olho nu da Terra estão na Via Láctea). Mas uma boa parte da massa da Galáxia não se encontra nas estrelas, no gás ou nas moléculas interestelares até agora observadas. Ela pertence a alguma coisa que os astrônomos designam por matéria escura, por enquanto invisível, que ocupa um gordo naco de espaço, provavelmente na periferia do disco galáctico. “Não podemos ver a matéria escura, mas sabemos que existe pela influência gravitacional que exerce sobre os demais componentes observáveis da Galáxia”, explica Roberto Boczko. Em outras palavras, a Via Láctea não teria exatamente a forma que aparenta se não houvesse essa misteriosa matéria escura à sua volta.
“O cálculo da massa do Universo, que é um dos parâmetros usados para medir a sua evolução, deverá levar em conta a matéria escura”, esclarece Boczko. “Com esse dado será possível dizer se o Universo está mesmo em expansão, com as galáxias se afastando umas das outras como pontos na superfície de um balão de borracha que se enche.” Em teoria, a matéria escura pode ser qualquer coisa, de prótons a planetas. Alguns astrônomos acreditam que se trata de corpos conhecidos, como estrelas anãs pouco luminosas ou asteróides pequenos demais para serem visíveis.
Outros acham que a matéria escura é constituída de partículas subatômicas ainda desconhecidas. Seja qual for a verdade, sua eventual descoberta nesta ou em outras galáxias será com certeza um extraordinário avanço científico, comparável por exemplo à captação em 1965 da radiação de fundo remanescente do Big Bang, a explosão que deu origem à expansão do Universo. Se a Terra ficasse no núcleo da Via Láctea, as noites seriam muitíssimo mais estreladas. Enquanto a vizinha mais próxima do Sol, Alfa, da constelação de Centauro, está a 4 anos-luz de distância, o intervalo entre as estrelas do núcleo da Via Láctea é bem menor, quase igual ao dos planetas em relação ao Sol.
A distância entre a Terra e o Sol, por exemplo, é de 8 minutos-luz. Acredita-se que as estrelas do núcleo estão sendo atraídas para um ponto central, onde se supõe existir o buraco negro, revelado nas imagens captadas pelo VLA sob a orientação dos astrônomos do CalTech. Ultimamente, imagens ainda melhores do caroço da Via Láctea mostram que ali existe um aglomerado de fontes de calor. Pode ser que a massa combinada daqueles astros seja responsável pela atração exercida pelo núcleo - como se ali existisse não um, mas vários pequenos buracos negros. Para o astrônomo americano George Rieke, da Universidade do Arizona, “há evidências muito fortes de que as galáxias vizinhas, como Andrômeda, têm grandes buracos negros no centro”. Mas ele adverte: “Isso não significa que a Via Láctea tenha que seguir a mesma regra”. Uma das teorias correntes sobre os buracos negros afirma que eles seriam os motores que fornecem aos quasares a sua extraordinária capacidade de radiação.
As emissões dos quasares, cujo nome significa fonte de rádio quase-estelar (do inglês quasi-stellar radio source), são captadas de galáxias distantes bilhões de anos-luz da Terra. São testemunhas dos primeiros tempos do Universo, ou seja, o jardim de infância das galáxias atuais. Alguns astrônomos acreditam que à medida que os quasares se apagam as galáxias amadurecem e herdam os buracos negros em seu núcleo. Segundo o astrônomo inglês Donald Lynden-Bell, da Universidade de Cambridge, e um dos mais respeitados estudiosos da Via Láctea, “os núcleos das galáxias são os cemitérios dos quasares que vemos brilhando na aurora do Universo”.
Há menos de dez anos, os astrônomos descobriram que as nuvens de gás quente em volta do núcleo da Via Láctea formam um arco agitado por enormes raios, resultado da ação de poderosas forças magnéticas. O espetáculo deve ser impressionante: esses raios, uma espécie de relâmpagos cósmicos, se estendem às vezes por centenas de anos-luz de distância. “Ao que parece, as nuvens de gás quente devem conduzir eletricidade, fornecendo o alimento necessário a esses relâmpagos”, especula um dos seus descobridores, o americano Marc Morris, da Universidade da Califórnia. Esta, porém, não é a única manifestação de atividade magnética no núcleo da Via Láctea. Astrônomos japoneses captaram as emissões de ondas gigantes de matéria rarefeita que se elevam várias centenas de anos-luz acima do plano da Galáxia e podem ser comparadas aos turbilhões de plasma que agitam a superfície solar.
Como em tantos outros campos da ciência, o que já se aprendeu sobre a Via Láctea rivaliza com o que ainda se ignora a seu respeito. Pode ser que nos próximos anos se saiba explicar alguns grandes mistérios, como a natureza da matéria escura e a constituição do núcleo galáctico - que, em última análise, estão ligados à origem e evolução do Universo. Como reconhece o astrônomo Marc Morris, “quanto mais se aprende sobre a Via Láctea mais complicada ela fica. Mas também se pode dizer que fica mais interessante:”.

AS IRMÃS DO SOL
Quando uma nuvem de gás nos braços em espiral da Via Láctea se contrai devido à própria gravidade, começam a ocorrer as reações termonucleares que fazem nascer as estrelas. Algumas, como as supergigantes vermelhas, são milhares de vezes mais brilhantes que o Sol; outras, como as anãs brancas, emitem uma luz tão fraca que equivale a 1 milionésimo da luminosidade solar. Essa espantosa diversidade tem uma explicação simples: trata-se apenas de uma questão de massa e idade. As estrelas mais pesadas produzem mais energia, sendo portanto mais brilhantes e quentes que as de massa menor. O Sol, por outro lado, deve esgotar seu combustível em 5 bilhões de anos. Então terá o tamanho de uma gigante vermelha, para depois murchar e virar uma anã branca. Sua massa será igual à que tem hoje, comprimida, numa esfera do tamanho da Terra.
Se a maioria da estrelas morre pacificamente de velhice, algumas, sobretudo as de maior massa, têm um final violento. Quando a estrela chega ao fim de sua fase de super- gigante vermelha as reações nucleares próximas ao núcleo ficam tão fortes que tudo explode e a matéria que compõe o astro é projetada em fragmentos no espaço: é a supernova. Nessa explosão colossal, a supernova brilha brevemente como 1 bilhão de sóis. Depois da explosão, seu núcleo se contrai até que ela se transforme numa estrela de nêutrons ou pulsar. Ao girar feito um turbilhão, a estrela de nêutrons emite radiações rigorosamente regulares, como os lampejos de um farol.
Teoricamente, o centro de uma estrela se transformará numa anã branca ou num pulsar, conforme a sua massa. Mas, caso essa massa seja excepcionalmente grande, quando a estrela se contrair nada conseguirá impedir o seu colapso; e quanto maior o núcleo, e ao mesmo tempo mais concentrado, maior será também a força gravitacional. A estrela transforma-se então num buraco negro.

Revista Super Interessante n° 020

Vida fora da Terra: Na mira, cometa e lua de Saturno

A NASA e a ESA lançarão nos próximos anos duas sondas espaciais para investigar a possibilidade da existência de formas elementares de vida fora da Terra.

Duas sondas espaciais planejadas pela agência espacial americana NASA com colaboração européia pretendem investigar a possibilidade de formas elementares de vida fora da Terra. Uma delas, a CRAF (sigla em inglês de Encontro com Cometa e Sobrevôo de Asteróide), terá como principal equipamento de pesquisa um perfurador de 1,5 metros de comprimento para analisar o material que compõe o núcleo de um cometa. Ao contrário das sondas que analisaram o Halley com sobrevôos rápidos em 1986, a CRAF deverá acompanhar um cometa, ainda não definido, durante vários meses e, de passagem, observar um dos asteróides existentes entre Marte e Júpiter. A previsão que os cientistas fazem atualmente para o lançamento é 1995.
A outra sonda, Cassini, concebida pela Agência Espacial Européia (ESA), é parecida com a CRAF, mas levará instrumentos diferentes. Se for lançada em 1996, como se espera, deverá pousar em Titã, uma das luas de Saturno, em 2002. Assim poderá estudar a atmosfera desse satélite, composta principalmente de nitrogênio, além de descobrir se há água em sua superfície. O ambiente de Titã pode ser muito parecido com o que se supõe ter existido na Terra durante o aparecimento das primeiras formas de vida há 4 bilhões de anos.

Revista Super Interessante n° 020

Conversa Salva-Vidas

Arthur Beltrame Ribeiro

Para um diagnóstico perfeito é necessário que haja uma boa relação médico-paciente.
As origens da Medicina se confundem com as do próprio homem. Ao que sabemos, os primeiros médicos eram “divindades” – deles se esperava que conseguissem afastas os espíritos causadores das doenças. Ao homem primitivo não ocorria que as doenças pudessem ser consequência de problemas do corpo, da matéria. Desde essa remota fase até os dias de hoje, houve, obviamente, uma enorme mudança, que foi fundamentalmente determinada pelo uso sistemático de informações e pela aplicação de princípios de metodologia científica. O resultado é a Medicina moderna, tão cheia de máquinas complexas e cirurgias assombrosas.
O primeiro grande passo desta fantástica revolução foi simples conversa – a conversa do paciente com o médico, as perguntas, queixas etc. Enfim, a anamnese, no jargão clínico. Pessoas vão ao médico em busca de ajuda para os mais variados problemas. O ponto de partida dessa ajuda é o diálogo em que o paciente conta o que sente, com a exatidão que lhe for possível, e responde às perguntas do médico. Fica evidente que tais conversas representam a depuração de milhares de memórias de conversas entre médicos e pacientes ao longo do tempo. Os clínicos com os quais começou a era moderna da Medicina passaram a registrar sistematicamente suas observações. Galeano, o grande médico grego do século II da era cristã, escreveu 180 livros sobre suas experiências no convívio com doentes de muitos lugares.
O registro sistemático da relação entre o que o paciente sentia e o tipo de doença que manifestava foi nos ensinando a evolução natural das moléstias. Graças a esse trabalho de observação, tanto o que o paciente conta como aquilo que o médico pergunta estão codificados  em um roteiro para facilitar o diagnóstico. Basicamente, as conversas com o médico dizem respeito aos sintomas – sentimentos subjetivos (não visíveis ou palpáveis) que os pacientes descrevem. Um sintoma muito comum é a dor. Mas muitas vezes não basta relatar, pura e simplesmente, o sintoma. O médico precisa de outras informações para formular a hipótese diagnóstica.
Por exemplo, se a queixa for dor de cabeça, é preciso saber a frequência, o tipo (se é em pontada, aperto, pulsátil etc.), os fatores que a fazem melhorar ou piorar e assim por diante. É com estas características que o médico forma uma idéia mais apurada do que está ocorrendo. Uma dor de cabeça muito esporádica certamente pode ser menos alarmante do que outra muito freqüente. Uma dor pulsátil pode ser de origem vascular. Após saber da queixa atual, o médico procura conhecer o tempo transcorrido desde o seu aparecimento até o dia da consulta, para depois perguntar do passado médico do paciente e de sua família, até finalmente rever, ainda com perguntas, cada um dos sistemas do organismo (respiratório, gástrico etc.)
Há portanto, um roteiro que pretende em última análise detectar todos os sintomas e suas possíveis origens, muitas vezes não valorizadas pelo paciente.
Não é incomum no consultório surpreender-se um paciente que refere estar emagrecendo, mas não relata espontaneamente que está urinando muito e também se alimentando muito. A pergunta do médico esclarece ao próprio paciente o que está ocorrendo com ele. Ao ouvir que o paciente estava emagrecendo, o médico lembrou a possibilidade de diabetes mellitus. Nesta doença, o paciente não produz insulina, um hormônio vital para o aproveitamento do açúcar. Como o açúcar não é etabolizado, o paciente perde peso, enquanto aumenta a fome e o volume de urina (porque o açúcar sai na urina). Como estes sintomas podem aparecer lentamente, o paciente não os percebe e portanto não os relata. A memória médica de muitos pacientes com diabete, porém, tornou fácil o diagnóstico.
Outras vezes, as perguntas podem parecer incoerentes, mas são absolutamente lógicas. Por exemplo, um paciente que está com o coração fraco pode sentir falta de ar ao fazer esforço: ao procurar o médico é logo inquirido sobre se tem acordado à noite para urinar. A relação, obscura para os leigos, é óbvia para os médicos: um coração enfraquecido não tem força para aspirar o sangue dos membros inferiores durante o dia, porque o paciente está em pé. À noite, com o paciente deitado, o retorno é fácil e o excesso de água retirado das pernas obriga o rim a funcionar mais – e lá vai o nosso paciente ser acordado pelo excesso de urina.
Após a conversa sobre a queixa atual é necessário conhecer o passado médico do paciente. Às vezes, a moléstia pode ser a manifestação tardia de outras que ocorreram no passado. Por exemplo, pode-se ter ido uma nefrite (inflamação nos rins) na infância e apresentar hipertensão arterial (pressão alta) muitos anos depois. A história familiar é igualmente essencial porque pode sugerir que o paciente está predisposto a algum tipo de doença. Há muitas moléstias que incidem em famílias inteiras.
Finalmente, na história clínica há ainda um aspecto muito importante: a necessidade de o paciente sentir-se à vontade com o médico. Quando confia nele, fornece também elementos de sua vida emocional, que, como sabemos, tão importante papel desempenha nas moléstias. Às vezes, o paciente fica inibido em falar de sentimentos que não compreende, ou dos quais tem vergonha por achar que senti-los resulta de falta de vontade. Nessa área é necessário que haja uma boa relação médico-paciente. Isso é vital ao exercício da profissão e facilita o auxílio ao paciente. Converse com seu médico.

Filhos pagam pelas mães
Pela primeira vez, cientistas conseguiram confirmar uma antiga suspeita: existe uma relação direta entre consumo de álcool durante a gravidez e o desenvolvimento mental dos filhos. Pesquisadores americanos trabalhando com uma amostra de 421 mães e seus filhos, verificaram que, aos 4 anos, as crianças cujas mães tinham o costume de tomar pelo menos três drinques por dia na gestação ficavam cerca de cinco pontos abaixo da média em testes de inteligência específicos para a idade. Os pesquisadores tiveram o cuidado de levar em conta nada menos de trinta outros fatores que também poderiam influir no Q.I. das crianças, desde o nível de educação dos pais até nutrição pré-natal, raça e sexo. Para os autores do estudo, os resultados não querem dizer que, se três doses são demais, duas não irão prejudicar a inteligência dos filhos. Diz a psicóloga Ann Streissguth, que dirigiu a pesquisa: “O ideal é não ingerir álcool nenhum durante a gravidez”.

Como o cigarro ataca
Embora a relação entre cigarro e câncer seja uma certeza consagrada em Medicina, ainda não se sabe exatamente como o fumo provoca o câncer no pulmão. Uma boa pista, no entanto, surgiu recentemente: pesquisadores ingleses descobriram que as substâncias causadoras de câncer contidas na fumaça do cigarro se ligam ao material genético nas células do pulmão. Daí resultariam  mutações capazes de desenvolver-se como tumores. Aparentemente, a quantidade de material genético afetada varia de acordo com o número de cigarros consumidos e com o tempo em que a pessoa é viciada: mais fumo, mais dano. Os pesquisadores verificaram também que as células do pulmão de pessoas que deixaram de fumar tornar a ficar iguais às células de não- fumantes depois de aproximadamente cinco anos.

Bom coração deve dançar
Batimentos cardíacos perfeitamente regulares são um sinal inequívoco de boa saúde, certo? Errado, respondem pesquisadores americanos. Segundo um estudo recente, o batimento de um coração sadio deve ser algo errático e não seguir um padrão rigorosamente previsível. Um pouco de desordem ajudaria igualmente a outros órgãos e sistemas fisiológicos, incluído o cérebro e o sistema nervoso. Numa pesquisa com trinta pacientes moribundos, os cientistas notaram que horas antes da morte os intervalos entre as batidas tornavam-se praticamente idênticos. “O coração saudável dança”, comparou um dos médicos. “O órgão em via de morrer consegue apenas marchar.” A descoberta ainda não tem aplicação prática. Mas, futuramente, a análise de eletrocardiogramas que leve em conta a dança do coração poderá permitir diagnósticos mais precisos.

Revista Super Interessante n° 020

Durante a gravidez: Sinal verde para os digitadores

De acordo com pesquisas realizadas na França e EUA constatou-se que o trabalho de digitação não expõe as mulheres, mesmo grávidas, a qualquer ameaça e que a luminosidade dos terminais de computador não causa problemas oculares.
Uma ampla pesquisa realizada na França, sob o patrocínio da Organização Mundial de Saúde (OMS), traz uma boa notícia para quem ganha o pão de cada dia mexendo com computador: ao contrário do que se suspeitava, o trabalho de digitação não expõe as mulheres, mesmo grávidas, a qualquer ameaça à saúde. A pesquisa concluiu que a radiação eletromagnética dos terminais está bem abaixo dos limites estabelecidos pelas normas internacionais de segurança.
Outra boa notícia vem dos Estados Unidos: um relatório da Academia Americana da Oftalmologia descartou os temores de que a luminosidade dos terminais de computador causaria problemas oculares. Comenta o oftalmologista Newton Kara José, da Universidade Estadual de Campinas: “Os terminais apenas ajudam a revelar eventuais deficiências de visão que normalmente passariam despercebidas”.

Revista Super Interessante n° 020

Esquizofrenia no plural

A esquizofrenia é causada por defeitos genéticos, porém os cientistas ainda não descobriram em qual cromossomo, dos 46 que o homem tem, está a imperfeição.

Cientistas desconfiam que há várias doenças mentais recebendo um mesmo nome: esquizofrenia, conceito relacionado a uma imensa dificuldade em associar idéias, apatia e perde de contato com a realidade – demência, em suma. Desde a década de 70 existe a suspeita de que o problema é hereditário, por causa da incidência maior em pessoas da mesma família. Uma equipe de pesquisadores ingleses, americanos e islandeses, ao estudar sete famílias – que, juntas tinham 39 esquizofrênicos - , descobriu recentemente que nessas pessoas um cromossomo sempre é imperfeito.
Embora não percebessem se havia um ou mais genes defeituosos, os cientistas apontaram o cromossomo número 5 (dos 46 que o homem tem) como principal suspeito pela doença. Outra equipe americana, porém estudou famílias suecas com grande número de esquizofrênicos e nelas o quinto cromossomo era normal.
Esses estudos, de qualquer maneira, reforçam a teoria de que diferentes defeitos genéticos poderiam causar a doença – cujos sintomas, aliás, parecem variar conforme o gene defeituoso.

Revista Super Interessante n° 020