domingo, 28 de julho de 2013

Idéias quentes sobre Tritão

Características do satélite de Netuno.
Um mundo congelado a 250 graus Celsius abaixo de zero, mas coberto por uma suava coreografia de gases coloridos, o satélite Tritão, de Netuno, desafia a imaginação dos astrônomos. É difícil explicar as belas plumas gasosas observadas pela primeira vez em sua atmosfera pela nave americana Voyager 2, em 1989. Elas sobem a uma altura de 8 quilômetros e têm até 150 quilômetros de extensão – mas de onde vem a força que as empurra?
Inicialmente se pensou que alguns pontos de seu solo seriam suficientemente quentes para vaporizar substâncias geladas e expulsá-las na forma de um gêiser. No entanto, a suposição mais plausível é que Tritão seja um corpo geologicamente morto e já não haja energia em suas entranhas para produzir calor. Em vista disso, surgiu uma hipótese alternativa em que a fonte de calor é o Sol: ao aquecer a base da atmosfera, ele produziria um forte movimento ascendente nos gases. O resultado seria uma espécie de frígido redemoinho, colorido por grãos de poeira e renovado a cada dia tritoniano.

Revista Super Interessante n° 040

A margarina e o colesterol

Pesquisadores holandeses descobriram que várias margarinas contêm ácido elaídico entre seus ingredientes, que provoca uma diminuição dos benéficos lipídios de alta densidade e provoca o colesterol.

Quem pensa estar livre de problemas como o colesterol, porque substituiu a manteiga pela margarina no dia-a-dia, deve talvez começar a se preocupar. Pois, segundo pesquisadores da Universidade de Wageningen, na Holanda, há margarinas e margarinas – e algumas delas provocam tantos males para as artérias quanto a gordura de origem animal, conhecida como saturada. As margarinas são de origem vegetal, ou seja, suas gorduras, insaturadas, não costumam se depositar nos vasos sanguíneos. Mas os holandeses observaram que um componente de determinadas margarinas, o ácido claídico, embora não se acumule nos vasos, provoca uma diminuição dos benéficos lipídios de alta densidade. Esses lipídios merecem o apelido de bom colesterol, porque limpam o organismo de outro tipo de gordura, a de baixa densidade – este, sim, o mau colesterol, que obstrui a circulação do sangue. Como para o consumidor é, de fato, impossível saber se determinada margarina contém ou não ácido elaídico entre os seus ingredientes, os pesquisadores recomendam que, por precaução, aquelas pessoas com problemas de colesterol passem a evitar qualquer tipo de gordura.
Revista Super Interessante n° 040

Doença do aparelho respiratório: respiração a fundo


Lucia Helena de Oliveira

Ao partir do nariz, o ar deveria entrar no mais eficiente aparelho de condicionamento. Mas isso geralmente não acontece, porque os caminhos que levam aos pulmões estão danificados pela fumaça da poluição e dos cigarros.
Respirar, segundo o bom e velho dicionário Aurélio, é “absorver o oxigênio do ar nos pulmões”. Cientistas americanos, no entanto, pretendem fazer um acréscimo a definições clássicas como essa: pois, segundo eles, repirar é também encher os pulmões com um líquido transparente, insípido e inodoro, conhecido como perfluorcarbono. Ainda nos anos 60 , descobriu-se que essa substância possui uma concentração tão grande de oxigênio, a ponto de os pulmões de cobaias serem capazes de extraí-lo com facilidade. Só no final do ano passado, porém, na Universidade de Temple, nos Estados Unidos, experimentou-se pela primeira vez em seres humanos a chamada respiração líquida, ou seja, a substituição do ar pelo perfluorcarbono. Foram sete casos de bebês prematuros demais para realizarem os movimentos respiratórios sem a ajuda de aparelhos. Um sistema foi especialmente construído para injetar nos pulmões, com extrema delicadeza, o líquido rico em oxigênio.Nenhum bebê sobreviveu, por causa de outras complicações de saúde. Mas os cientistas garantem que, apesar disso, a respiração líquida, em si, pode ser considerada um sucesso, digno de ser comemorado como um dos grandes avanços da Medicina nos últimos tempos. Trocar o gás da atmosfera por esse líquido fabricado em laboratório oferece a vantagem imediata de aposentar os tradicionais aparelhos de ventilação artificial, usados sempre que os pulmões não conseguem trabalhar por conta própria. As máquinas convencionais de ventilação, ao simularem os movimentos respiratórios, lançam ar no organismo do paciente com tanta força, que a pressão acaba arrebentando as células, aliás, são uma das mais frágeis estruturas do corpo humano. Por isso, chega a ser surpreendente que uma pessoa de meia-idade ainda tenha pulmões funcionando, bem ou mal, vivendo em um mundo coberto pela fumaça da poluição e dos cigarros, próprios ou alheios.Isso só é possível porque o ar, antes de alcançar as células pulmonares, percorre as chamadas vias aéreas, repletas de obstáculos para toda sorte de partícula tóxica. Esse caminho ainda tem mistérios que fazem alguns pesquisadores perderem o fôlego de espanto. Só para comparar: hoje em dia, o homem consegue mapear o cérebro em áreas de acordo com a função, mas ignora o papel de seis dos oito tipos de células que revestem as vias aéreas. Embora seja o protagonista do processo, o pulmão mesmo não tem segredos. Afinal, o organismo humano troca gases exatamente como as amebas, seres unicelulares que surgiram há cerca de 500 milhões de anos. Isto é, o ar atravessa uma membrana finíssima, com aproximadamente 0.5 milésimo de milímetro de espessura, e se dissolve no citoplasma, o líquido que recheia a célula. Assim, o oxigênio pode ser transportado até microscópicos vasos capilares, onde pega carona nas moléculas de hemoglobina do sangue; pelo mesmo trajeto, em direção inversa, o gás carbônico, produzido pela queima do oxigênio no organismo, é mandado para fora.
A questão é que, diferente das amebas, o homem consome muito mais oxigênio do que sua superfície corporal seria capaz de capturar. O organismo humano adulto precisa de nada menos do que 90 metros quadrados forrados de células especializadas na troca gasosa. E, de fato, ele dispõe de toda essa superfície para a absorção do oxigênio, só que dobrada milhares de vezes, a ponto de ocupar o espaço modesto de dois sacos cor-de-rosa com mais ou menos 25 centímetros de comprimento, que pesam juntos cerca de 700 gramas. Um pulmão nada tem a ver com um balão, oco por dentro. Sua estrutura pode ser descrita como uma árvore com um tronco cartilaginoso, o brônquio, que se divide ao meio em dezessete gerações, isto é, 262 000 vezes, em galhos cada vez mais finos.
Com menos de 1 milímetro de diâmetro já se pode falar em bronquíolo, um tubo sem cartilagem, formado apenas por músculo e mucosa. Presos nos brônquios, encontram-se sacos com 1 a 2 centímetros, os lobos pulmonares. Estes, por sua vez, se subdividem em saquinhos com 0,1 a 0,3 milímetro, cercados por vasos capilares: são os alvéolos , cenário efetivo das trocas gasosas. Os dois pulmões somam cerca de 300 milhões de alvéolos. "Se pudessem ser espalhados no chão, eles cobririam uma quadra de tênis", calcula o professor de Educação Física Benedito Sérgio Denadai, que vem pesquisando os mecanismos dos pulmões na Escola Paulista de Medicina, onde está instalado um dos primeiros laboratórios brasileiros de fisiologia respiratória, inaugurado há doze anos. Ali, entre outras coisas, modernos equipamentos comparam o fôlego de atletas e de pessoas sedentárias, o que entusiasma Denadai, ex-jogador de basquete na cidade de Marília, no interior de São Paulo. Em qualquer parte do planeta, o ar que se respira é composto em 22,93% por oxigênio. "No alvéolo", descreve Denadai, "o oxigênio tende a passar para o sangue, que depois de circular por todo o corpo chega ali com baixíssima concentração e, portanto, pouca pressão desse gás."Com o gás carbônico acontece o contrário, pois o sangue venoso que alcança os pulmões carrega grande quantidade dele, enquanto o ar possui apenas 0,04% dessa substância. Assim, é natural que o gás carbônico troque o aperto no sangue pelafolga no ar do interior do alvéolo. Respirar, no entanto, envolve outras questões de Física. "Se a pressão dentro dos pulmões fosse idêntica à da atmosfera, o ar não se deslocaria. É preciso haver diferenças", determina o fisiologista Ivan da Cruz Piçarro, professor da Escola Paulista de Medicina. No caso, o jogo de pressões é realizado por músculos do tórax: "As pessoas têm a ilusão de que o peito estufa na inspiração porque os pulmões se enchem. Mas, na realidade, são os pulmões que ficam cheios porque o tórax dilata", esclarece Piçarro. A contração muscular faz a caixa torácica aumentar de tamanho, e a pressão interna cai. Quando isso acontece, aproximadamente meio litro de ar entra nos pulmões, porque, mais uma vez, o gás tende a sair do lugar de maior pressão para o de menor pressão.
Na expiração, contudo, os músculos não costumam ter trabalho — basta que relaxem e a caixa torácica encolhe. Logo a pressão interna fica maior do que a pressão do ambiente e o ar escapa para fora. Se alguém fura a caixa torácica, a pressão vai embora e, dai, fica impossível respirar. É por isso que tiros e facadas no peito quase sempre matam, mesmo sem haver perfuração do pulmão ou do coração. Segundo Piçarro, a situação dos músculos respiratórios só muda durante exercícios físicos : "Então, os pulmões passam a receber até 1,5 litro de ar, cada vez que se enchem", diz ele. "Como todo esse gás precisa ser renovado rapidamente, para atender à necessidade de oxigênio durante o esforço, alguns músculos passam a se contrair para acelerar a expiração." No governo desse ritmo está o cérebro, cujas células constantemente analisam o pH (índice de acidez) do sangue, para verificar o equilíbrio entre o gás carbônico e o oxigênio (veja quadro). "Tanto faz estar numa praia, onde a pressão atmosférica é alta, ou no pico de uma montanha, onde o ar é rarefeito", revela Piçarro. "Pois o organismo regula o ritmo respiratório para absorver sempre a mesma quantidade de oxigênio."Também não importa o lugar, o gás da atmosfera nunca é suficientemente bom para entrar em contato com as exigentes células pulmonares — mesmo o mais puro ar do campo. "As vias aéreas são o mais perfeito aparelho condicionador de que se tem notícia”, considera a pneumologista Ilma Aparecida Paschoal, que divide seu tempo entre as salas de aula da Universidade de Campinas, no interior de São Paulo, e as pesquisas com o microscópio eletrônico, usado para examinar as células que revestem o caminho do ar pelo nariz, seios faciais, faringe, traquéia, brônquios e bronquíolos — enfim, as vias aéreas. "As células pulmonares enrijecem e até congelam com temperaturas frias" conta a pesquisadora. "Por isso, mal entra no nariz, o ar começa a ser aquecido, graças a uma rede de vasos sangüíneos sob a mucosa, para chegar nos alvéolos com uma temperatura exata: 37 graus Celsius, nem mais, nem menos."No caso de um andarilho no calor do deserto, a função das vias aéreas pode ser a de resfriar o ar, liberando água na superfície da mucosa. "Independente do calor excessivo, enquanto respiramos, perdemos água", revela Ilma. Mais uma vez isso acontece em prol das células pulmonares, que, de tão finas, se ressecam com facilidade: o ar só pode entrar em contato com elas quando possui uma umidade relativa de 100%. Para se ter uma idéia, em épocas de chuva, a umidade relativa de uma cidade como o Rio de Janeiro fica em torno de 75%; em climas desérticos, porém, a umidade relativa média costuma ser 10%, dando mais trabalho ao aparelho respiratório. O conceito antigo de que climas secos fazem bem aos pulmões vem do fato de que algumas bactérias causadoras de doenças são aeróbicas, isto é, respiram. Assim, se a secura do ar não facilita as coisas para os pulmões, também não ajuda esses microorganismos a sobreviver.
O ar ainda pode ser considerado uma suspensão de partículas e, teoricamente, nenhuma delas deve entrar nos pulmões. Para defendê-los, as vias aéreas possuem células gorduchas, as calciformes, que não param de produzir uma substância grudenta, o muco. Dessa maneira, as partículas de poluentes vão ficando coladas nas paredes das vias aéreas, à medida que o ar passa. Esse muco, por sua vez, é constantemente arrastado para cima, até ser engolido na altura da glote, sem que se perceba. Quem realiza esse serviço de limpeza, varrendo o muco contra a força da gravidade, são minúsculas células, cada qual com 200 microscópicos cílios em média. "A coreografia dos cílios é impressionante", nota Ilma, com os olhos azuis arregalados pelo entusiasmo. De fato, se os cílios simplesmente batessem de um lado para outro o muco ficaria zanzando, sem sair do lugar. Mas não é isso o que se observa. Esses microscópicos feixes, mergulhados na camada gelatinosa que reveste as vias aéreas, realizam movimentos como os dos braços de um nadador. Ou seja, emergem e batem na frente; em seguida, se encolhem mergulhando. Dessa forma, o muco é conduzido em um único sentido — para o alto.
Quando esse transporte deixa de ser eficiente, o muco passa a se acumular. Em um ato reflexo, os músculos abdominais se contraem com violência, para que um forte jato de ar expulse esse excesso. É a tosse. O espirro tem um papel semelhante, embora cause mais efeito para limpar as vias aéreas superiores, como o nariz: após uma inspiração profunda, ocorre uma expiração súbita pela boca, com o ar atingindo uma velocidade de até 150 quilômetros por hora.
Há catorze anos, pesquisadores suecos fizeram uma descoberta curiosa: a estrutura dos cílios do aparelho respiratório é idêntica à do espermatozóide. Existem doenças hereditárias em que o homem, além de ser estéril porque seus espermatozóides são imóveis, também sofre de bronquite crônica, por causa de defeitos nos cílios. Mas raramente o transporte nas vias aéreas é mal realizado por causa de problemas genéticos como esse: "O primeiro efeito do 3. cigarro. 3 é paralisar os cílios", acusa Ilma. O pior, vem algumas tragadas mais tarde, quando essas células ficam carecas. Afinal, uma célula ciliada demora até 220 dias para se renovar. Sabe-se que entre aquelas seis células desconhecidas das vias aéreas, uma se transforma em célula ciliada, quando uma substituição é necessária. Resta saber qual delas. Só assim os pesquisadores poderão entender o câncer de pulmão, que misteriosamente sempre nasce nos brônquios. "Os poluentes devem causar alterações na metamorfose da célula desconhecida em célula ciliada. Daí surgiria a doença", suspeita Ilma. A poluição e o cigarro também causam a proliferação das células calciformes, produtoras do muco. Eis o pigarro do fumante. Faz sentido: quanto mais muco, maior a barreira entre as paredes das vias aéreas e os tóxicos, capazes de provocar queimaduras.
O problema é que o muco é um campo fértil para microorganismos e, por esse motivo, ele aumenta muito quando alguém está resfriado, por exemplo. Microorganismos nunca são bem recebidos no aparelho respiratório, que deveria ser esterilizado da garganta para baixo, graças a um batalhão de células de defesa na faringe. O invasor que passa incólume não pode respirar aliviado: a postos nas paredes das vias aéreas ficam os macrófagos, células imunológicas que literalmente engolem os inimigos. Se, mesmo assim, o microorganismos escapa, muitos portões se fecham nas passagens para os pulmões. Ou seja, os brônquios se contraem para impedir a sua entrada. Daí a dificuldade do doente para respirar.Por zelo, dentro dos alvéolos encontram-se mais macrófagos, embora nenhum microorganismo devesse entrar nessa área nobre. Quando isso acontece, a inflamação resultante é a famosa pneumonia. "Se um germe consegue vencer todas as batalhas nas vias aéreas, é sinal de que as defesas estão muito enfraquecidas, como na AlDS, ou de que estamos diante de um inimigo muito poderoso”, comenta Ilma "Os médicos devem encarar qualquer caso de pneumonia com o maior respeito. Para o pneumologista Flávio Tavares Martins, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, mais grave ainda é o enfisema, uma degeneração gradual das paredes pulmonares, que se rompem. "Isso não causa dor, só falta de ar", diz ele. "As pessoas só notam o problema quando a doença já evolui há vinte anos. Então, há pouco o que fazer."Segundo o médico, problemas pulmonares podem ser controlados com drogas e exercícios para os músculos respiratórios. Além disso, a Medicina tem realizado proezas: em novembro de 1990, na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, uma mãe transferiu parte do seu pulmão para substituir o órgão danificado na filha de 12 anos de idade. Os médicos agora esperam que a porção do pulmão materno cresça até atingir o tamanho normal na menina. Os cientistas, porém, desconhecem uma maneira de poupar os pulmões. Diferente do coração, por exemplo, não há ginástica que melhore a sua saúde: o único remédio é o luxo de respirar um ar livre de qualquer espécie de fumaça.

Em ritmo acelerado
Com monitores para medir a respiração e o oxigênio absorvido pelo organismo, um atleta pedalou normalmente uma bicicleta; em seguida passou a pedalar com uma perna só. Para surpresa do fisiologista Antonio Carlos da Silva, que realizou a experiência na Escola Paulista de Medicina, a mudança fez a respiração do atleta acelerar. "Os músculos respiratórios são comandados por sinais nervosos que partem da região do tronco cerebral", explica o fisiologista. "Esses comandos, por sua vez, poderiam ser influenciados por substâncias liberadas durante a fadiga muscular.Ao agüentarem sozinhos a carga de uma bicicleta, os músculos de uma única perna se cansariam mais, portanto liberariam mais substâncias, aumentando o ritmo da respiração em um reflexo.Tradicionalmente, acreditava-se que esse ritmo era regulado apenas em função do oxigênio existente no sangue arterial, analisado por células especializadas no próprio cérebro e na artéria carótida, que parte do coração. "Para o sistema nervoso, aliás, pequenas alterações na oxigenação sanguínea são menos importantes do que variações na quantidade de gás carbônico", esclarece Silva. "Esse gás é capaz de modificar a acidez do sangue, o que prejudica o funcionamento das células, especialmente as nervosas."

Setor de Trocas: Onde se absorve oxigênio

A troca de gases ocorre em 300 milhões de saquinhos, os alvéolos, dentro dos pulmões. Ali, o oxigênio do ar passa para o sangue venoso, onde existe uma baixa concentração desse gás. Já o gás carbônico, cuja concentração sanguínea é alta, passa para o ar, que possui apenas 0,04% dessa substância.
Revista Super Interessante n° 040

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cromossomo Y versus Cromossomo X

Ao menos na concepção, os machos têm vantagens em relação às fêmeas. Pois, de acordo com cientistas da Universidade Lehigh, nos Estados Unidos, em uma ejaculação existem cerca de nove espermatozóides carregando o cromossomo Y, que determina o sexo masculino, pra cada dez com o cromossomo X, que determina o sexo feminino. Apesar dessa diferença, a cada ano nascem mais meninos do que meninas. Mesmo em fertilizações in vitro, ou seja, nos casos de bebês de proveta, é mais comum se conceber um homem do que uma mulher. Segundo os cientistas, os espermatozóides com o cromossomo Y parecem ser mais eficientes em penetrar no óvulo. Tanto assim que, embora em menos número, estatisticamente eles fecundam mais de metade dos óvulos. O que ninguém explica, por enquanto, é o segredo desse sucesso.

Revista Super Interessante n° 040

A geometria instintiva das abelhas

Luiz Barco

Artigo de Luiz Barco, comentando sobre a geometria que as abelhas praticam em sua vida diária para construir os alvéolos das colméias.
No livro As maravilhas da Matemática, o genial Malba Tahan, cujo verdadeiro nome era Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), comentou o trabalho do matemático belga Maurice Maeterlinek (1862-1949) sobre a Geometria que as abelhas praticam em sua vida diária. Como se sabe, esses insetos usam cera para construir os alvéolos das colméias, que servem depois de depósito para o mel que fabricam. Maetrlinek observou que, ao contrário de muitos planejadores humanos, as abelhas constroem os alvéolos procurando uma forma que otimize a economia, isto é, que apresente o maior volume para a menos porção de material gasto. Para isso, os alvéolos não poderiam ser cilíndricos, pois a falta de Paredes comuns entre eles deixaria uma grande quantidade de espaços inaproveitados.
Assim, para que a parede de um alvéolo servisse também ao alvéolo vizinho, eles deveriam, obviamente, ter a forma de um prisma, E os únicos prismas regulares que se justapõem sem deixar buracos são os prismas triangulares os quadrangulares e os hexagonais.
Tente fazer a experiência usando uma mesma quantidade de cartolina para fazer três prismas (abertos nas duas extremidades): um de base triangular, um de base quadrada e outro de base hexagonal.
Como as áreas laterais dos três são equivalentes  (as tiras de cartolina são do mesmo tamanho), o de maior volume será aquele cujo polígono da base tiver a maior área. Mas não esqueça: esses polígonos devem ter o mesmo perímetro (comprimento da cartolina).
Com um simples cálculo de área, supondo que as tiras de cartolina tenham 12 centímetros de comprimento, você vai verificar que os polígonos das bases terão respectiva e aproximadamente 6,92 centímetros quadrados, 9 centímetros quadrados e 10,38 centímetros quadrados (considerando que a raíz de 3 é igual a 1,73). Assim, a escolha da base hexagonal para o alvéolo é uma questão de pura economia. Para o mesmo gasto de material, elas constroem o recipiente de maior volume.
Mas o problema realmente interessante acontece no fechamento dos alvéolos. Em vez de construir um hexágono (plano) para cobrir o fundo, as abelhas economizam cerca de um alvéolo em cada cinquenta, utilizando três losangos iguais colocados inclinadamente.
Pode parecer pouco, mas a economia de 2 por cento que elas conseguem com o fechamento de milhões de alvéolos representa uma grande quantidade. Os ângulos dos losangos de fechamento, inclinados em relação ao eixo radial dos alvéolos, acabaram provocando uma controvérsia que foi didaticamente exposta por Malba Tahan em seu livro. Ele conta que o físico francês René-Antonie Ferchault de Réaumur (1683-1757) observou que o ângulo agudo e, consequentemente, seu suplemento (obtuso) não variavam. Isto é, suas medidas eram constantes.
Intrigado, Réaumur mandou buscar alvéolos em várias partes do mundo, como a Alemanha, Suíça, Inglaterra, Canadá e Guiana. Todos apresentavam losangos de mesmo ângulo. O astrônomo francês Jean-Dominique Maraldi (1709-1788) efetuou as medições dos ângulos agudos e encontrou o mesmo valor em todos eles: 70º32’. Surpreendido com o resultado, Réaumur propôs ao seu amigo Samuel König, matemático alemão, que resolvesse o seguinte problema: dado um prisma de base hexagonal, devemos fechá-lo em uma das extremidades com três losangos iguais, colocados inclinadamente, para obter o maior volume com um gasto mínimo de material. Qual é o ângulo dos losangos que satisfaz a condição?
Sem saber a origem do problema, König calculou o ângulo como sendo 70º34’. Embora a diferença fosse insignificante, de apenas dois minutos em relação aos cálculos efetuados por Maraldi, conclui-se que as abelhas estavam erradas. Isso provocou um verdadeiro rebuliço entre os cientistas que tentavam explicar a questão. O fato chegou ao conhecimento do matemático escocês Colin Maclaurin (1698-1746), que utilizando os recursos do cálculo diferencial recalculou o ângulo e encontrou 70º32’. Então, as abelhas estavam certas. Maclaurin mostrou ainda que o engano de König era explicável: ele havia usado uma tabela de logaritmos contendo um erro, daí a diferença de dois minutos.

Revista Super Interessante n° 040

Sobrevivência no mar: duelo nos recifes de coral ao pôr-do-sol


Nos recifes de coral, o entardecer é um tempo de conflito: a luta pela vida, exacerbada, mobiliza as energias de presas e predadores, peixes a caminho do repouso e outros que despertam para a noite.
Os seres humanos são criaturas de hábitos diurnos. Essa observação, em si mesma, pode não significar muita coisa, mas tem algumas implicações para aqueles que se interessam em conhecer melhor os recifes de coral. A maioria dos mergulhadores, com ou sem cilindros de ar comprimido e demais equipamentos, se lança ao mar dia claro, digamos entre 9 da manhã e 3 da tarde. Ora, como uma visita a qualquer ambiente subaquático, seja qual for o traquejo do visitante, é sempre uma incursão por uma região fundamentalmente estranha de um mundo não domesticado, faz sentido. Mergulhar de dia é mais seguro porque permite enxergar melhor. A desvantagem é que, por maravilhoso que o recife de coral pareça durante o dia, só se tem nessas horas uma visão incompleta do que acontece ali.
Ao meio-dia, o recife está quase adormecido. Peixes diurnos de vivo colorido vasculham a área à procura de algas e de plâncton para comer. Anêmonas rosadas seguem preguiçosamente a correnteza atrás de uma refeição que esteja de passagem. Os duros corais estão em repouso, seus pólipos firmemente enrolados. E, mesmo predadores como o oportunista peixe trombeta (Fistularia tabacaria), que não é especialmente exigente quanto ao cardápio, exibem o seu melhor comportamento. Todos conhecem as regras; todos sabem o que esperar; todos mantêm uma distância segura do perigo. O resultado é uma aparência de paz capaz de induzir o mergulhador à conclusão de que o recife de coral é tão aprazível para seus habitantes quanto para os turistas que o vêem como um pedaço do paraíso.
Até a investida ocasional de um cardume de vorazes xaréus (Caranx) ou de uma solitária e veloz barracuda (Sphyraena barracuda), um acontecimento que dispersa os peixes dos corais num relâmpago de medo e fuga, mal consegue dissipar a impressão de que o coral é um lugar sossegado, uma espécie de santuário marinho onde reina a ordem. Regra geral, a impressão é correta. Como nós, os bichos se organizam de acordo com determinadas rotinas, obedecem a padrões de comodidade que evitam o desperdício de energia. Os peixes precisam de tempo e de atenção para alimentar-se e procriar; em consequência, as relações entre as criaturas dos corais são quase sempre estáveis. E isso vale também para o grupo de bichos que circula por ali à noite, os peixes de hábitos noturnos e os invertebrados que às vezes podem ser encontrados dormindo nas reentrâncias e fendas do coral.
De fato, na maioria das vezes, os mergulhadores percebem peixes diurnos repousando tranquilamente em muitos dos mesmos dormitórios usados durante o dia pelos peixes noturnos. Quase nada, em pleno dia ou à noite fechada, desfaz a sensação de paz que ali se vislumbra. Visite-se, porém, o recife durante a "mudança de turno", o período entre a claridade e a escuridão, a hora em que a luz está partindo — e aquela sensação de tranquilidade irá desaparecer. Cerca de uma hora antes do crepúsculo, quando os raios de sol incidem bem obliquamente na água, ocorre entre os peixes um aumento de atividade que parece corresponder a um aumento de ansiedade. Há um forte motivo para isso: o período crepuscular é tempo de intensa atividade no cotidiano dos animais ictiófagos, os que se alimentam de peixes. Eles se aproveitam da diminuição da luz para atacar não só os peixes a caminho das tocas onde costumam passar as noites, como principalmente os que, ainda sonados depois de um bom dia de descanso, deixam esses mesmos esconderijos.
Peixes-lagartos ( Synodus intermedius ), garoupas (Epinephelus morio ), os já mencionados xaréus e barracudas, badejos (Mycteroperca Gill), mangangás (Scorpaena plumieri) e outros predadores oportunistas tornam-se especialmente ativos durante o crepúsculo, quando a inclinação dos raios solares ressalta a silhueta dos bichos marinhos, facilitando muito a caça. Disso sabem muito bem os aficionados da pesca (para não falar nos pescadores profissionais) que anos a fio abrem mão do jantar em família para estar na água ao anoitecer.
É quando os peixes que passaram o dia se alimentando do plâncton suspenso na água começam a se reunir e a tomar o rumo do recife. Cardumes de barbeiros (Acanthurus coeruleus), bodiões (Sparisoma viride) e salmonetes (Mulleidichtys martinicus), entre outros, que haviam deixado o recife pela manhã para uma jornada dedicada à caça e/ou ao acasalamento, regressam então aos seus esconderijos noturnos.
A viagem de volta é bastante diferente das excursões diurnas ao redor do recife. Na ida, sem pressa, os peixes gastam sossegadamente o tempo a explorar recantos promissores, intrometendo-se em territórios alheios, xeretando em torno de uma cabeça-de-coral. Já no regresso, o tempo é valioso, a viagem é a sério. Tudo o que esses peixes querem é chegar logo em casa; por isso usam a mesma rota dia após dia. Tal rotina, embora economize esforço, torna esses migrantes diurnos vulneráveis aos astutos caçadores do crepúsculo, de tocaia ao longo de tais rotas, que engordam à custa dos viajantes. Os barbeiros, por exemplo, juntam-se ao anoitecer em cardumes compactos e seguem pelo fundo a toda a velocidade, por um caminho previsível, rumo à proteção do recife. Os retardatários, obviamente os mais vulneráveis, aceleram o nado para alcançar o cardume a fim de não serem apanhados sozinhos por um esperto, atento devorador de peixes.Não surpreende que os peixes diurnos fiquem irritadiços, sendo comuns entre eles as perseguições e as exibições de agressividade, sobretudo quando está em disputa um lugar de repouso. Ao anoitecer, por causa dessa ansiedade exacerbada, é especialmente difícil fotografar peixes. Assustados com o mergulhador e ainda mais com as luzes, não ficam quietos durante os dez segundos muitas vezes necessários para serem fotografados.
Esse período de elétrica inquietação não dura muito, porém. Passados dez minutos do pôr-do-sol, quase todos os peixes diurnos já encontraram abrigo e há um breve período em que todo o recife fica calmo. Enquanto a turma do dia corre a se esconder, a turma da noite acorda devagar e emerge cuidadosamente de seus esconderijos. Uns trinta minutos antes do pôr-do-sol, predadores noturnos, como o fogueira (Myripristis jacobus) e o jaguareçá (Holocentrus refus), vagarosamente começam a se arrastar para fora do recife, mas se comportam como se de alguma forma um fio invisível os mantivesse ligados a ele. Tais peixes são tipicamente cor de ferragem, vermelho-escuros ou ainda cor de cobre, tonalidades que tornam difícil enxergá-los na água noturna praticamente opaca onde se movem. É notável, ao se olhar para baixo ao longo da parede do recife de coral, no momento em que a luz diminui, o aparecimento dessas manchinhas avermelhadas, prestes a sair para mais uma noitada. Ao contrário dos peixes diurnos, que habitualmente se alimentam perto da proteção do recife, algumas espécies de hábitos noturnos não raro percorrem grandes distâncias em busca de comida. Muitos passam a o noite banqueteando-se com a relativa abundância de plâncton que se ergue das profundezas quando o sol se põe. Outros, como as corcorocas (Haemulon flavolineatum) que emitem um som que lembra um cacarejo, deixam o recife e se deslocam para leitos cobertos de vegetação onde se nutrem de invertebrados.
Para assegurar que seus passeios não atrapalhem a discrição, eles mudam de cor, trocando as listas vivas por um traje mais apagado de pois borrados. Mas, como percorrem invariavelmente os mesmos caminhos de saída do recife, corcorocas e outros peixes noturnos também ficam vulneráveis às investidas dos predadores oportunistas. Peixes-lagartos, de tocaia ao longo do percurso habitual das corcorocas, jantam os mais fracos e mais jovens; embora as presas se mantenham perto do fundo para serem menos visíveis à luz poente, muitas cometem erros fatais com frequência suficiente para manter o nível das populações de peixes-lagartos e outros predadores.
Assim como as corcorocas garantem o sustento dos peixes-lagartos, a piaba do mar (Pempheris schomburgki), outro peixe noturno, é o manjar predileto dos peixes-trombetas e dos badejos. Na verdade, apesar da extrema ansiedade dos peixes diurnos de regresso ao fim do dia, tudo indica que os predadores do crepúsculo preferem os peixes de hábitos noturnos que se aventuram pelas águas perigosas ao redor do recife logo após o pôr-do-sol. O fato de que muitos peixes diurnos são herbívoros e de que a maioria dos noturnos é carnívora leva a suspeitar, com razão, de que a população de invertebrados muda junto com a de peixes quando anoitece.
Muitos crustáceos, vermes marinhos, estrelas-do-mar e moluscos saem à noite, para virar comida de raias (Dasyatis say), jaguareçás e outros peixes noturnos. Um mergulho à noite poderá revelar também ofiuróides enfrentando a corrente com seus longos braços preênseis e sensíveis à luz; lírios-do-mar encarapitados em esponjas ou cabeças de coral; lagostas, ofiúros, ceriantos e ouriços-do-mar raspando algas das pedras e de outras superfícies duras — e, é claro, o recluso polvo, talvez o mais impressionante e assustador invertebrado que se pode encontrar em um mergulho noturno. A "mudança deguarda" entre os invertebrados também ocorre durante o periado crepuscular, mas não parece caracterizar-se por um estado de ansiedade comparável ao dos peixes. Nada a estranhar nisso, dada a simplicidade do sistema nervoso da maioria dos invertebrados. Talvez os filósofos sejam capazes de responder se é preferível passar da claridade às trevas com o apático destemor dos camarões e dos lírios-do-mar ou com a frenética ansiedade dos barbeiros. Para os naturalistas, já é recompensa bastante observar as mudanças que os períodos crepusculares produzem nos recifes de coral.

Revista Super Interessante n° 040

Por que os gatos conseguem enxergar com pouca luz?


Ilana Socolik
Eles têm nos olhos uma estrutura chamada região tapetal, composta por células especiais que provocam dupla estimulação dos cones e bastonetes, responsáveis pela percepção de cores e formas. Localizada na coróide, camada que reveste internamente quase toda esfera ocular, essa região funciona como um espelho. “A luz atravessa a retina e estimula os cones e bastonetes uma vez, e, quando reflete na região tapetal, volta e passa por eles, estimulando-os novamente”, diz o veterinário Paulo Sérgio Moraes de Barros, da Universidade de São Paulo.

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