segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Gripes e Resfriados

Artur Beltrame Ribeiro

Conhecendo melhor a gripe e o resfriado.
Está sempre rondando todos nós. Chega pelo ar e muitas vezes, faz tantas vítimas que se constitui em uma epidemia. Estamos falando de uma moléstia comum, reincidente, chata: a gripe ou resfriado. Na linguagem médica, os termos se equivalem. Mas o uso consagrou o nome gripe para designar a doença mais intensa. Mas a pergunta que aflige a todos é: como podemos nos defender? O resfriado é uma infecção respiratória aguda causada por vírus específico. Na sua forma clássica pode ser provocado por três tipos diferentes de vírus: A, B, C. As infecções pelo vírus A ocorrem, em geral, em surtos e podem causar epidemias, Uma peculiaridade desse vírus é sua capacidade de modificar a própria estrutura química. Após cada modificação surge um novo vírus tipo A.
As infecções pelo vírus B tendem a ser menos frequentes e mais brandas. Enfim, aquelas causadas por vírus do tipo C são muito raras. Normalmente, não se identifica se um resfriado é provocado por um ou outro tipo de vírus. Na verdade, não se determina a característica viral de uma infecção a não ser por exclusão. Isto é, não sendo bacteriana, a infecção deve ser viral. Assim, outras infecções são comumente rotuladas de resfriado, como as caudadas por rinovírus (o vírus que causa rinite) ou por vírus da parainfluenza (que acarretam laringotraqueobronquite). Em suma, muitos vírus convergem para nos resfriar.
O contágio é feito de pessoa para pessoa. Gotículas de saliva carregam os vírus. Evidentemente, o contágio será maior quanto maior for a proximidade física com a pessoa doente. No inverno, as pessoas ficam mais próximos em ambientes fechados, o que facilita a transmissão. Não se sabe bem por que o frio deixa mais vulneráveis ai vírus as mucosas do nariz, traquéias e brônquios. Por isso, tomar sorvete, por exemplo, pode fazer mal, sim. Após a entrada do vírus, a cadeia de eventos é bem conhecida. Por um ou dois dias não sentimos nada. É o período de incubação: o vírus está no organismo, mas ainda não se manifestou. Então começam os sintomas gerais: corpo febril, dor de cabeça, dores musculares, perda de apetite e um cansaço que pode chegar à prostração. Às vezes, as juntas também doem.
Os sintomas no sistema respiratório logo aparecem: tosse seca e nariz escorrendo. Ou obstrução nasal e dor de garganta. A febre, os problemas nasais e a dor de garganta duram, em geral, de três a quatro dias. Já a tosse e o cansaço podem persistir por uma ou duas semanas, mesmo tendo desaparecido outros sintomas. A grande maioria doa casos evolui bem, não causando maiores complicações. Mas estas podem acontecer. A mais comum é a pneumonia, causada pelo próprio vírus ou provocada por uma infecção bacteriana.
A pneumonia bacteriana é mais comum em pacientes idosos e vai requerer antibióticos no tratamento. Mas, se a gripe é provocada por vírus desconhecidos, por questão podemos nos livrar dela com uma vacina? O problema é que os vírus que causam a gripe passam por variações constantes na sua estrutura, fazendo com que uma vacina perca o efeito protetor. Além disso, outros vírus que não os da gripe clássica causam sintomas muito semelhantes e também não seriam neutralizados pela vacina. Como fazer então para evitar as tão temidas e repetitivas gripes?
Manter a boa forma alimentar-se adequadamente e hábitos higiênicos apropriados ajudam bastante. Mas ainda não são tudo. É que, muitas vezes, o fato de o vírus nos atingir vai depender de sua maior ocorrência na população e não de fatores relacionados à nossa resistência. Mas não desanime. Se a gripe chegar, lembre-se de que não há medicamentos efetivos contra ela. Recorra ao repouso (santo remédio), muito liquido e aspirina. Se os sintomas forem demasiado intensos, o melhor é procurar o médico, que irá avaliar a necessidade de tomar outras medidas.

Revista Super Interessante n° 024

Rapidez de reflexos

Kenneth Jon Rose

A agilidade dos reflexos. Reações velozes, ordenadas pelo cérebro, com a finalidade de proteger-nos de alguma coisa.
Gordon Liddy costumava exibir um truque esperto em festas. O ex-agente da CIA, um dos trapalhões do caso Watergate, colocava a palma da mão sobre a chama de uma vela até queimar a carne. Diante dos convidados embasbacados, Liddy ficava imóvel enquanto a chama lambia sua mão. Então, satisfeito por todos terem observado a sua virilidade, afastava a vela. O cheiro penetrante de pele chamuscada continuava a impregnar a sala muito tempo depois que ele saía. Gordon Liddy não era nenhum professor de Biologia, mas tinha um jeito didático para demonstrar como um corpo humano normal deve funcionar. A menos que o inibamos de maneira ativa ou consciente (e foi o que Liddy fez0,  o corpo tem seu próprio modo de se proteger de danos. A isso se chama reflexo, algo extraordinariamente rápido.
Todos os reflexos humanos são involuntários, não aprendidos e totalmente previsíveis. Com a finalidade de defender o corpo ou servi-lhe de anteparo contra um ambiente cambiante e frequentemente nocivo, eles ocorrem como reação a estímulos sensoriais. No século XVII, o filósofo e matemático francês René Descartes foi um dos primeiros pelo pensamento da época, ele acreditava que a força vital proveniente do cérebro – a morada da alma humana – era refletida (daí o termo ”reflexo”) nos músculos do corpo, fazendo com que se contraísse.
Se as noções de Descartes sobre o corpo humano eram sedutoramente românticas, eram também totalmente erradas. Os reflexos envolvem circuitos nervosos simples, principalmente entre os músculos e a medula espinhal, embora o cérebro também possa tomar parte. O ato de retirar subitamente a mão de uma chama é um reflexo. Receptores sensoriais na pele transmitem impulsos nervosos para a medula espinhal. Em seguida, os impulsos voltam, através de células nervosas motoras especiais, aos músculos que controlam o movimento da mão. Os músculos contraem-se. A mão dá um salto e se afasta. Uma “fração de segundo” depois sentimos a dor, mas a mão está a salvo.
Os reflexos aparecem de todas as formas. Há aquele que têm a ver com o ajuste do diâmetro dos vasos sanguíneos, outros que afetam a atividade do movimento do intestino e a respiração. Alguns são complexos, envolvendo muitas conexões nervosas, outros não. Dois dos reflexos mais comuns – espirrar e piscar os olhos – são também dois dos mais rápidos.

Um milionésimo de litro de lágrimas por minuto
Piscar preserva e protege os olhos. Na verdade, há três tipos de piscadelas. O piscar reflexo é uma reação de proteção, causada por qualquer estímulo, desde um barulho alto e repentino ou uma batida de leve na testa até uma inesperada bola vindo na sua direção. Existe também a piscadela voluntária, que dura mais do que o piscar reflexo e é usada conscientemente para retirar um cisco, partículas de pó ou grãozinhos de pólen que tenham caído na córnea. Além desses, há o piscar espontâneo, que possui seu próprio ciclo interno. É o tipo mais comum. Para manter a córnea limpa, o piscar espontâneo lava, espalha e mistura sobre a parte externa do globo ocular o líquido lacrimal – uma película complexa constituída de óleos (que agem como lubrificantes para o deslizamento das pálpebras), glicoproteínas ( que agem como agentes umectantes), sais e enzimas bactericidas.
O piscar dos olhos funciona como força propulsora para extrair, por sucção, líquido lacrimal novo das glândulas lacrimais (líquido este continuamente secretado à razão aproximada de 1 milionésimo de litro lacrimal “usado” nos canais lacrimais e na cavidade nasal. As lágrimas escoam pela garganta mesmo quando os corpo está de cabeça para baixo. A pálpebra superior desempenha a função de uma espécie de limpador de pára-brisa em miniatura, que desliza sobre a córnea exposta e empurra quaisquer fragmentos para a área junto à margem da pálpebra inferior, de onde serão retirados.
Os  seres humano piscam, em média, cerca de 24 vezes por minuto (os cachorros e os gatos, em comparação, piscam cerca de duas vezes por minuto). A frequência com que piscamos varia de acordo com o estado de espírito, Quando ficamos entediados ou cansados, piscamos muito mais. Ao dirigir um carro, por exemplo, a princípio piscamos em média quinze vezes por minuto. A duração de cada piscadela pode durar apenas 200 milésimos (ou 2 décimos) de segundo. Uma hora mais tarde, dirigindo por um longo trecho de estrada, passamos a piscar com uma frequência maior, cerca de quarenta vezes por minuto, e a duração das piscadelas pode durar cerca de três vezes mais do que no início da viagem.

Da infância aos 20 anos frequência vai aumentando
Os seres humanos piscam com mais frequência quando estão irritados ou quando falam com estranhos ou ainda com seus superiores do que quando estão simplesmente conversando com amigos. A piscadela acontece durante a mudança de um olhar e em geral dá início a um movimento do olho. A leitura faz diminuir de forma significativa o número de piscadas (se bem que muitas vezes pisquemos ao chegar ao final de uma sentença). Quanto mais difícil o texto, menor será o número de piscadas. Quando tentamos conscientemente não piscar por alguns minutos (o limite geralmente é 4), logo em seguida piscamos com uma frequência ainda maior, para compensar a perda – fenômeno conhecido como efeito rebote.
Torna-se ainda mais evidente que o piscar dos olhos reflete a função do cérebro quando se observa o amadurecimento desse reflexo nas crianças. Bebês de colo, com até 2 meses de idade, piscam pouco menos do que uma vez por minuto; entre os 5 e os 10 anos de idade, as crianças piscam à razão de seis vezes por minuto. A média acelera depois dessa idade, atingindo seu pico – 24 vezes por minuto – quando a pessoa chega aos 20 anos. Essa frequência permanece até a velhice. No passado, os pesquisadores supunham que a pálpebra superior, como o obturador de uma máquina fotográfica, fosse o elemento fundamental do mecanismo do ato de piscar. Não é. De fato, tanto os movimentos da pálpebra inferior participam do piscar dos olhos dos seres humanos e formam um padrão complexo e interessante.
É obvio que, enquanto as pálpebras estão cobrindo os olhos, não conseguimos enxergar. O que não é óbvio, porém, é que, já 50 milésimos de segundo antes de as pálpebras saírem do lugar, o sistema visual do cérebro suspende seu funcionamento. Por quê? Supostamente, ao mesmo  tempo que o cérebro dispara um sinal para os músculos das pálpebras, também envia um sinal para a região visual do cérebro que faz desligar-se. Na prática, está dizendo: “Você não receberá nenhuma informação pelos próximos 4 décimos de segundo aproximadamente. Não se dê o trabalho de processar nada “

Piloto voa 8 quilômetros de olhos fechos
Qualquer que seja a razão para o sistema suspender o seu funcionamento, essa ocorrência, em conjunto com o próprio ato de piscar – que dura no mínimo 200 milésimos de segundo e, em média, cerca de 400 –, gera um período significativo em cada piscada durante o qual a visão é interrompida ou reduzida. O surpreendente nisso tudo é que não ficamos cientes dessa perda de visão, apesar de conseguirmos perceber durações de tempo ainda menores quando desligamos e tornamos a ligar as luzes de uma sala. Se o piloto de avião de combate, cansado, piscar à razão de quarenta vezes por minuto e se em cada piscadela as pálpebras bloqueiam a visão por cerca de décimos de segundo (incluindo o tempo em que o sistema visual do cérebro suspende seu próprio funcionamento), isso significa que o piloto ficará desatento ao ambiente durante aproximadamente 12 segundos em cada minuto de vôo. Voando duas ou três vezes mais rápido do que o som, um piloto poderia viajar uns 8 quilômetros de olhos fechados.
Para os que trabalham com Psiquiatria e na área de neurociências, conhecer a dinâmica de uma piscada normal torna-se um instrumento preciso e útil para o estudo de certas doenças do cérebro. Descobriu-se que a frequência do piscar de olhos é mais elevada em pacientes esquizofrênicos ou com a síndrome de Gilles de la Tourette (que apresentam espasmos musculares e tiques) e discinesia tardia – doenças nas quais a dopamina, substância química do cérebro, é muito ativa. Por outro lado, a frequência do piscar fica baixo do normal nos portadores do mal de Parkinson e de outras síndromes correlatas. Curiosamente, estes últimos possuem um nível menor de dopamina no cérebro. Tais estudos sugerem que a dopamina exerce uma função de grande importância no pestanejar espontâneo normal.
Alguns pesquisadores descobriram que o próprio piscar pode ativar o cérebro, Estudos recentes revelaram que o piscar de olhos transforma a luz em pulsos sensíveis à retina. Esses pulsos luminosos ativam determinadas células nervosas do cérebro. Os nervos, por sua vez, enviam seus próprios sinais para outras regiões do cérebro. Uma rajada de piscadas pode ser útil para proteger os olhos da fumaça expelida pelo escapamento de um carro ou da luz do sol.
O olho não é o único órgão do corpo desprotegido perante o mundo, Os pulmões também são. O ar – cheio de bactérias, vírus diversos, pó, sujeira, fibras e excrementos de insetos – é aspirado para dentro dessas duas bolsas de troca de gases, a cada poucos segundos. Felizmente para nós, a maioria dessas partículas fica retina no nariz ou ao longo do revestimento viscoso da garganta e termina deslizando para um estômago ácido ou assoado em um lenço de papel. Mas os pulmões também estão protegidos por um reflexo rápido e poderoso: o espirro.

Os homens espiram mais do que as mulheres
Rápido como um estalar de dedos, barulhento como um rojão e constrangedoramente impositivo, o espirro é na maioria das vezes provocado pelos agentes que causam irritações no nariz. Mesmo assim, a maior parte do ar soprado, para o desprazer de quem estiver à frente, sai pela boca. Um dos mais importantes reflexos de defesa da maioria dos mamíferos, nos seres humanos é seletivo. Os caucasianos espirram mais do que os negros, os homens, mais do que as mulheres. Além disso, há outro reflexo protetor contido no espirro: o fechamento automático dos olhos.
Para muitos, um espirro é exatamente o que ele soa. Na realidade, porém, o achim é apenas uma fase do espirro, chamada pelos pesquisadores fase respiratória. Essa parte tão extrovertida é simplesmente o resultado do ar sendo aspirado para dentro dos pulmões (o ar do espirro) e, em seguida, rapidamente liberado para o ambiente num úmido, poderoso, explosivo tchim! É preciso que algo provoque o espirro. Esse algo pode ser uma gama muito grande de causas. A mais comum provém de agentes que provocam irritação local ou de fatores alérgicos. Que a luz pode causar espirros é sabido há séculos. O espirro fotorreflexo, como é chamado, ocorre imediatamente depois que uma pessoa caminha em direção a uma luz intensa ou olha para ela. Às vezes, quando o nariz esta formigando mas o espirro simplesmente não sai, ajuda olhar para o sol ou fixar os olhos na luz da sala. Há uma vantagem seletiva em se espirrar excessivamente. No Ártico e em outras regiões de clima frio, onde as populações habitualmente estão sujeitas a infecções respiratórias, aqueles que espirram com frequência ficam menos doentes. Expelem os germes antes que estes tenham a oportunidade de se instalar no organismo. Seja qual for a causa, depois que um espirro é provocado, a única coisa a fazer é esperar que ele siga seu curso normal. Em geral, o primeiro evento ocorre quando um pêlo de gato ou partículas de pólen pairando no ar são repentinamente aspirados. Por um breve momento, nada acontece. Depois, sem o nosso conhecimento, sua presença ativa células especiais do revestimento interno do nariz, que imediatamente enviam impulsos nervosos para a medula localizada na base do cérebro. Até aí passaram-se menos de 40 milésimos de segundo. Levada a agir, a medula envia seus próprios sinais de volta ao nariz, conduzindo-os para um conjunto especial de nervos próximos do revestimento das narinas.
Poucos milésimos de segundo depois, os impulsos desse gânglio nervoso estimulam as glândulas mucosas do nariz a secretar um líquido transparente, porém ligeiramente viscoso. Eles também causam uma dilatação nos pequenos vasos sanguíneos existentes na mucosa nasal. Ao mesmo tempo, nervos do nariz deflagram uma bateria de impulsos para uma região sensorial do cérebro. Gradativamente, começamos a sentir uma sensação de tremor particularmente agradável, causada pela secreção da mucosa do nariz. Em geral, essa sensação dura de 2 a 15 segundos.
Por fim, o formigamento e a sensação de tremor tornam-se tão intensos que ansiamos por espirrar. Para acelerar o processo, fixamos o olhar na luz do teto. Isso faz o revestimento interno do nariz ingurgitar-se ainda mais. A congestão e as secreções da mucosa do nariz irritam o nervo trigêmeo e suas fibras desferem uma rápida rajada de impulsos de volta à medula. Aaaaaaa... Colocada mais uma vez em ação, a medula cerebral acelera seu lento fluxo para nada menos de 300 a 400 pulsos por segundo. Os sinais nervosos vão para os músculos dos pulmões. Estes se contraem. Por 4 a 7 segundos aspiramos, enchendo os pulmões com cerca de 2,37 litros de ar.
Dentro dos pulmões, a pressão do ar sobe. O balão infla. Então, clique. A glote, ou via aérea superior, obstri-se com o estrondo e a cordas vocais ficam bem fechadas. Por 200 milésimos de segundo, o ar dentro dos pulmões permanece preso. Mas as coisas continuam acontecendo. Os sinais que puseram os músculos inspiratórios em ação começam a reduzir a velocidade. Os pulmões param de tentar aspirar o ar. Agora, a medula despacha uma bateria de pulsos aos músculos da expiração.

Ar dos pulmões sai quase tão veloz como o som
Os músculos em volta do abdome e das vértebras contraem-se com força, fazendo pressão sobre o músculo do diafragma e da caixa torácica.
Ainda preso, o ar nos pulmões é espremido. A pressão do ar aumenta a níveis perigosamente altos. O balão está prestes a estourar. Os dois décimos de segundo acabam. Tchiiimmm! As cordas vocais e a glote abrem-se subitamente. A parte de trás da língua ergue-se. E cerca de 2,5 litros de ar explodem, expelidos pela rápida contração dos músculos do abdome e das vértebras. O ar irrompe dos pulmões em 0,5 segundo. Automaticamente, as pálpebras fecham-se com força, protegendo os olhos do ar potencialmente contaminado, e os pequenos músculos da orelha média contraem-se, protegendo do barulho os frágeis ossinhos ali localizados.
O ar úmido e morno atinge o ambiente carregando consigo quaisquer fragmentos, partículas de pólen ou bactérias que tenham aderido ao revestimento da traquéia. Com que velocidade o ar se move através da traquéia durante o espirro? Na tosse, o ar proveniente dos pulmões é expelido a uma velocidade próxima à do som (cerca de 340 metros por segundo). O mesmo acontece durante um espirro. Assim como o piscar dos olhos, o espirro tem uma razão de ser: reflexos, destinam-se à proteção. Ao se desencadearem repentinamente, defendem o corpo da entrada de elementos estranhos. Logo, a razão da sua velocidade é óbvia.

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Relógio Biológico

Cientistas americanos descobriram uma maneira de regular o relógio biológico. A receita consiste em simplesmente tomar sol após, por exemplo, uma viagem aérea transcontinental.

Cientistas americanos inventaram uma receita inusitada para combater o jat-lag – a desconfortável situação em que o sono pode aparecer pleno dia e a fome bater de madrugada, tudo por causa da demora do organismo em adaptar-se às diferenças de fuso horário. Após uma viagem aérea transcontinental. A receita americana consiste pura e simplesmente em tomar sol. Essa formula de acertar os ponteiros do relógio orgânico nasceu de uma experiência com voluntários. As portas fechadas, sem noção da hora, eles foram submetidos a três ciclos de luz artificial, que trocavam o dia pela noite.
Naturalmente, os ciclos biológicos das cobaias humanas ficaram desregulados, como se fossem passageiros desembarcados, por exemplo, no Japão, vindos do Brasil. Mas,. Expostos a uma lâmpada com iluminação equivalente à luz do dia, cerca de duas horas antes de acordarem, as pessoas tiveram seus ponteiros biológicos ajustados. Comenta o cronobiologista José Cipolla-Netto, da Universidade de São Paulo, especialista no assunto: “A experiência comprova que o melhor remédio para quem chega de uma longa viagem aérea PE um passeio ao ar livre, antes mesmo de desfazer as malas”.

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Anticongelante Natural: Dos sorvetes aos Transplantes

A descoberta de que os peixes estão protegidos por um anti congelante natural, que impede que eles se congelem ao nadar em águas glaciais, despertou o interesse dos fabricantes de sorvetes dos EUA e ainda pode ser uma revolução no campo da medicina, no que diz respeito aos transplantes de órgãos.

Mesmo quando nadam nas águas glaciais dos mares antárticos, os peixes não se congelam. Isso porque então protegidos por um anticongelante natural formado por compostos de proteína e açúcar: quando a temperatura cai abaixo de zero, esses compostos se prendem aos cristais de gelo que se formam nos fluidos do organismo, como o sangue, e retardam a sua solidificação. Essa descoberta de uma equipe de pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, já despertou o interesse, quem diria, de fabricantes de sorvete.
Explica-se: eles gostariam de impedir a formação de cristais em sorvetes recongelados depois de derretidos. Mas a principal aplicação da descoberta pode estar na área de transplantes. Normalmente, as temperaturas baixas que mantém os órgãos a serem implantados também provocam a deterioração do fluido intercelular. Se o mecanismo dos peixes puder ser utilizado para guardar órgãos humanos descongelados, mas ainda submetidos a baixas temperaturas, eles poderão ser conservados por muito tempo.

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Bicho-da-Seda: O bicho do Homem

Roberto Muylaert Tinoco

Domesticado há milhares de anos, submetido a incontáveis cruzamentos, o bicho-da-seda não mais existe em estado natural: é um morto-vivo, incapaz até mesmo de reproduzir-se em liberdade.
O cultivo do bicho-da-seda e da abelha existe há milênios. Esses dois tipos de inseto quase nada têm em comum além de terem sido intensamente multiplicados pelo homem. Seus modos de vida também são tão divergentes que o longo processo de domesticação a que foram submetidos praticamente não afetou as abelhas; mas, por outro lado, transformou os bichos-da-seda em verdadeiros monstrengos, tornando-os incapazes de sobreviver em liberdade. O drástico processo degenerativo que os atinge começou quando os primitivos habitantes da Ásia Central descobriram que os fios produzidos pelas lagartas de uma espécie de mariposa eram excelentes para a confecção de cordões e tecidos.
A partir de então - e durante 4 mil anos - as lagartas tecedoras ou bichos-da-seda passaram a ser incessantemente recolhidas da natureza e introduzidas em recintos destinados à proliferação, locais onde encontravam com fartura a sua única fonte de alimento: folhas de amoreira. Naqueles ambientes artificiais, completavam todo o seu ciclo vital (em que o cobiçado casulo de seda representa apenas a fase intermediária entre a lagarta e o inseto adulto). Em todas as borboletas e mariposas a reprodução se dá por meio do acasalamento na fase adulta, pois na fase de larva (como lagartas ou taturanas) elas são desprovidas de órgãos sexuais.
Os bichos-da-seda não escapam à regra. Suas lagartas, segundo desenhos chineses elaborados há mais de 3 mil anos, transformavam-se em mariposas de grandes asas esbranquiçadas e esvoaçavam em torno das lanternas à noite. Elas foram catalogadas cientificamente como Bombix mori. No entanto, aquela antiga descrição chinesa ficou bastante distanciada do que realmente são hoje os bichos-da-seda em sua forma adulta. Atualmente, não existem em estado nativo e se desconhece a época em que desapareceram das florestas da China. E possível que isso tenha ocorrido há mais de 2 mil anos.
Pouco a pouco, introduzidas em grandes quantidades nos viveiros de criação, as lagartas do bicho-da-seda passaram a ficar protegidas de seus inimigos naturais. O mesmo aconteceu com as mariposas que, a partir de então, não precisaram mais escapar dos ataques de pássaros ou morcegos. Isso deve ter sido o bastante para que os genes responsáveis pelo exercício das funções fundamentais de autodefesa do animal deixassem de desempenhar papel decisivo na sua sobrevivência.
Ao mesmo tempo, foram criadas pelos sericicultores novas raças de lagartas que atendessem exclusivamente aos interesses da produção da seda. Isso era conseguido mediante cruzamentos artificiais que selecionavam os indivíduos com tendência a fornecer apenas maior quantidade e melhor qualidade em seus fios. Quando a indústria da seda atingiu finalmente seus objetivos, apurando as raças que lhe assegurariam um notável rendimento, os bichos-da-seda já haviam sido transformados em animais degenerados. Todas as atuais mariposas descendentes das antigas Bombix mori, que agora só podem ser encontradas em poder dos sericicultores, dos quais, fiéis operárias, são desajeitados insetos com pesados abdomes e asas atrofiadas, incapacitados para o vôo e, portanto, sem condição alguma de se reproduzirem novamente em liberdade, pois, entre as mariposas, tanto as manobras de acasalamento como de postura dos ovos são tipicamente aéreas. Assim, o bicho-da-seda foi transformado num verdadeiro morto-vivo na listagem atual das espécies; extinto em sua terra de origem, mas mundialmente preservado em cativeiro.
A melhor hipótese até agora formulada para explicar o desaparecimento do bicho-da-seda em estado selvagem é a que admite que tenha acontecido um tipo de "contaminação genética" das populações selvagens por parte das domesticadas. Era difícil conceber que os chineses houvessem erradicado por completo aquele inseto, principalmente nas regiões montanhosas onde era tão comum. Teria sido impossível, por exemplo, capturar toda uma população de Bombix mori sediada ao longo dos vales escarpados onde floresciam as amoreiras silvestres, o alimento natural das lagartas.
Depois de vários séculos de cultivo, as populações domesticadas já haviam sofrido incontáveis cruzamentos induzidos pelos criadores. Mas, assim mesmo, para os indivíduos que conseguissem escapar, deveriam surgir chances de acasalamento com seus parentes selvagens. Nesses encontros, os genes responsáveis pela degeneração da espécie passavam para as populações selvagens. O resultado óbvio de tais contaminações se revelaria, mais cedo ou mais tarde, como uma total inaptidão às rigorosas condições da luta pela sobrevivência. Assim, pouco a pouco, os bichos-da-seda passaram a percorrer o desastroso caminho da extinção.
Se, por um lado, o verdadeiro bicho-da-seda foi banido da natureza pela mão do homem, por outro acabaram por ser encontradas, em várias partes do mundo, muitas outras espécies de lagartas tecedoras, em estado selvagem, que ainda não foram devidamente aproveitadas para a obtenção da seda em escala industrial. Já estão relacionadas quarenta espécies produtoras de seda em todo o mundo; quatro delas vivem em território brasileiro. O principal motivo pelo qual ainda não foram utilizadas pelos sericicultores é o pouco investimento que habitualmente se faz em pesquisa. Provavelmente, seria necessário que  durante alguns anos essas espécies recebessem especial atenção, algo que foi concedido ao bicho-da-seda durante séculos, para que surgissem novas e promissoras indústrias de seda.
Hoje, as seleções artificiais responsáveis pelo aprimoramento genético de animais e plantas são concluídas com muito maior rapidez do que há 4 milênios, quando os chineses se preocuparam em caprichar nas qualidades de seu bicho-da-seda. Um relacionamento biológico coloca, por exemplo, o gênero de mariposas conhecido como Antheraea quase no nível de grande produtora de seda das tradicionais Bombix. Pelo menos na Índia, esse tipo de mariposa já é responsável por uma notável indústria de seda montada sobre o que ali se denomina mariposa do tussah.
Os fios tecidos por suas lagartas são considerados de qualidade inferior aos produzidos pelas Bombix, não só pela coloração mais parda como também pela menor resistência. Mas isso não impediu que a Índia chegasse a faturar 10 milhões de dólares anuais nesta década só com a participação de indústrias tipicamente artesanais, que trabalham com os conhecimentos adquiridos ao longo de várias gerações em sociedades tribais. Atualmente, mais de 100 mil famílias se ocupam da fabricação do tussah, que serve para a confecção de um tecido muito difundido com o nome de shantung. Aproximadamente 1 milhão de famílias encontra emprego na indústria do shantung.
A distribuição geográfica das mariposas do gênero Antheraea se estende por todo o sudeste da Ásia e noroeste da Austrália, saltando depois para a América, desde o sul do Canadá até a Colômbia e uma pequena parte da Amazônia brasileira. As florestas que abrigam as populações da Antheraea estão sendo dizimadas para abrir espaço a pastagens e fornecer madeira de lenha, duas atividades menos lucrativas que a da produção de seda bem orientada numa mesma área. Aqui no Brasil apenas uma das quatro espécies de bicho-da-seda foi experimentada em cultivo.
A primeira notícia que se conhece da existência de seda brasileira data de 1810 e se refere a "uma boa seda produzida por um bicho indígena", provavelmente a Rothschildia aurota, vulgarmente conhecida por borboleta-espelho devido às quatro placas transparentes que possui nas asas. A resistência dos fios da aurota é superior à de muitas espécies da Antheraea, mas a tecelã brasileira perde para as demais porque enrola de maneira muito irregular a seda em torno do casulo e com isso impossibilita um perfeito desfiamento. Ainda assim, existem estudos para o aprimoramento de raças mais viáveis de bichos-da-seda brasileiros. Uma das grandes vantagens desse cultivo seria a sua integração com as plantações de mandioca, mamona, cajueiro, pessegueiro ou laranjeira, pois as lagartas se alimentam de todas essas plantas.

A seda verde da China.
A história da seda e dos bichos que a produzem está repleta de surpresas. A última delas aconteceu há pouco mais de uma década num território situado no noroeste da China, a Manchúria. Ali, junto às margens de um lago, foi encontrada uma nova espécie de bicho-da-seda que apresenta a notável característica de tecer seu casulo com fios de coloração esverdeada. O fio verde, que a princípio pareceu representar uma desvantagem frente ao exigente mercado da seda, acabou se revelando uma grande qualidade daquelas lagartas chinesas. Além de sua resistência superior à do fio tradicional, a seda verde conquistou de saída um lugar de destaque por enriquecer a indústria com novas possibilidades de combinações de fios em tecidos decorados.
Considerando a milenar história do cultivo da seda, a descoberta da nova espécie de lagarta tecedora ainda pode ser considerada recente. E, possivelmente, o comércio da seda verde ainda não atingiu a expressão que poderá conquistar no futuro. Na América do Sul, dentro de uma extensa região que compreende o noroeste da Amazônia, vivem algumas espécies de bichos-da-seda em estado selvagem. Talvez em breve tenhamos a surpresa de vê-los incluídos entre os mais cobiçados produtores de fios de seda do planeta.

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Teia de Aranha: Frágil apenas na aparência

Cientistas ingleses estão tentando produzir em larga escala os genes que capacitam as aranhas a tecer fios. O material deverá ser usado na indústria, uma vez que além de elástico é mais forte do que os fios de aço.
Um fio que aguenta pesos cinco vezes maiores do que fios de aço suportam e, de tão elástico, estica até dobrar de tamanho tem dado asas à imaginação de cientistas ingleses, que prevêem com ele um sem-número de utilidades para a indústria. O novo material, porém, é um velho conhecido de todos: o diáfano fio de seda das teias de aranha. Para produzi-lo em larga escala, estão sendo isolados genes que capacitam as aranhas a tecê-lo. Os genes deverão ser implantados em bactérias. Estas, então, passam a fabricar minúsculos grãos de seda, liberados quando as bactérias são sacrificadas numa solução química que rompe suas células. O liquido com a seda é filtrado, enquanto passa por uma agulha igual à de uma seringa, formando assim o fio.

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GEOGRAFIA E SOCIOLOGIA DO VOTO LULISTA

Duas semanas antes das eleições de 1º de outubro, as pesquisas de opinião divulgadas pelos principais institutos apontavam a tendência à reeleição do presidente Lula ainda no primeiro turno. Mas, sobretudo, revelavam as identidades regionais e sociais do voto em Lula – que é um fenômeno bem diferente do voto no PT. Os votos depositados nas urnas nunca acompanham, exatamente, as tendências evidenciadas em pesquisas das semanas anteriores. Mesmo assim, o panorama revelado pelas pesquisas é suficiente para definir os contornos da base social do presidente.
A pesquisa Ibope de projeção de um hipotético segundo turno, publicada a 11 de setembro, oferece dados discriminados por região e faixa de renda. Segundo essa pesquisa, Lula perdia para Geraldo Alckmin apenas na Região Sul. Na Região Sudeste, registrava-se empate técnico. No Norte/ Centro-Oeste, Lula abria folgada vantagem e, no Nordeste, o presidente parecia disputar sozinho a eleição.
O Nordeste é o segundo maior colégio eleitoral do país, com pouco mais de 34 milhões de eleitores. A vantagem excepcional de Lula na região era o fator que, isoladamente, podia dar-lhe a vitória no primeiro turno. Num “Brasil sem Nordeste”, o segundo turno apresentava panorama de virtual empate técnico. Isso significa que, desde a redemocratização do país, em 1985, pela primeira vez o Nordeste aparecia como componente absolutamente decisivo no destino final de uma eleição.
A força eleitoral de Lula no Nordeste resulta de uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Na região mais pobre do país se concentraram os investimentos dos programas sociais federais: Bolsa Família, Luz para Todos, crédito agrícola e outros.
Nos últimos anos a economia regional cresceu em ritmo apenas levemente superior à média brasileira, mas a injeção de recursos federais, especialmente através do Bolsa Família, provocou forte aumento do consumo das famílias mais pobres, que ampliaram as compras de alimentos perecíveis (leite e carne, principalmente), material de limpeza, higiene pessoal, perfumes, cosméticos e eletrodomésticos. O Nordeste experimenta uma “bolha de crescimento” inflada pelo aumento do consumo doméstico.
Segundo pesquisas de mercado, cerca de 60% dos seus habitantes passaram a consumir mais desde que passaram a receber as rendas do Bolsa Família.
A pesquisa do Ibope oferece mais que uma visão regional do voto lulista. O eleitorado do presidente concentra-se, marcadamente, entre os mais pobres. Na faixa de renda de até um salário mínimo, Lula tinha dois terços das intenções de voto e, na faixa de 1 a 2 salários, 55% das intenções de voto. Um empate técnico se registrava entre os eleitores de renda média. Alckmin vencia com folga na faixa de mais de 10 salários mínimos que, no discurso eleitoral do presidente, equivale aos “ricos” mas, de fato, é constituída principalmente pela classe média e inclui parte dos operários especializados.
Pode-se inferir facilmente da pesquisa, que se referia a um eventual segundo turno, que as intenções declaradas de voto nulo e branco refletiam, principalmente, o peso do eleitorado da candidata do PSOL, Heloísa Helena. Não é um acaso que a maioria desse eleitorado estivesse concentrado no Sudeste e nas faixas mais altas de renda.
A sociologia do voto também tem uma dimensão espacial. Enquanto a disputa não parecia tão desigual nos municípios das capitais, a vantagem de Lula era acachapante nos municípios periféricos das metrópoles e nas cidades do interior.
No discurso dos intelectuais petistas, a distribuição social e geográfica do voto tornou-se uma “prova” do suposto caráter progressista do governo Lula e de uma “identidade de classe” da política do presidente.
Naturalmente, no discurso dos  partidos de oposição, ressurgiram as velhas teses emboloradas segundo as quais os pobres “não sabem votar”.
Os dois argumentos são falsos. Todos, pobres e ricos, votam nos candidatos que parecem, numa determinada conjuntura política, corresponder melhor a suas expectativas de futuro. A revolta ou o desencanto vêm depois – e isso também vale para eleitores de todas as camadas sociais.
Fernando Collor foi eleito com ampla maioria entre os pobres. Fernando Henrique foi eleito e reeleito com votações consagradores nas faixas inferiores de renda.
Lula venceu em 2002 batendo facilmente Serra no voto da população pobre. Em si mesmo, o apoio dos que têm menos renda nada diz sobre a orientação política e econômica dos governos ou candidatos. O que não significa, é claro, que a distribuição social do voto seja irrelevante.
Mas o que distingue essa eleição é a concentração regional e social inédita do voto em determinado candidato. Lula aparece como uma espécie de unanimidade no Nordeste e nas faixas inferiores de renda. A rejeição ao presidente é um fenômeno do Centro-Sul e das camadas médias. A combinação, um convite ao salvacionismo e ao caudilhismo, não parece auspiciosa para o jogo da democracia.

Boletim Mundo n° 6 Ano 14