David F. Donavel
Para proteger os
filhotes da ameaça dos predadores, os animais marinhos recorrem a admiráveis
estratégias. O resultado e um equilíbrio entre as diversas populações de dar
inveja ao homem.
É primavera no hemisfério norte. Nas frias águas ao largo de
Nova Jersey, na costa leste dos Estados Unidos, inúmeras cavalas do Atlântico
(Scomber scombrus) nadam rumo ao norte, para alcançar as águas também gélidas
do Maine e das províncias canadenses, em busca de um local onde passar o verão.
E, pelo caminho, quase casualmente, essas criaturas desovam. As fêmeas liberam
em uma única temporada 500 mil ovos, que flutuam desamparados nas tépidas águas
da superfície do mar. Em consequência desse dispêndio aparentemente descuidado
e esbanjador de material reprodutivo, os ovos e os peixinhos já nascidos acabam
alimentando incontáveis animais marinhos, desde plânctons predatórios a
enchovas, bacalhaus e percas-listradas. Do meio milhão de ovos que uma fêmea grande
libera, em média, apenas dois filhotes sobrevivem até a idade adulta.
Enquanto a principal estratégia da cavala para assegurar a
sobrevivência de sua espécie é botar um número astronômico de ovos, outros
animais marinhos desenvolveram meios diferentes para obter o mesmo resultado alternativas que são, ao mesmo tempo, menos extravagantes e mais
interessantes. No Golfo do Maine, enquanto as cavalas seguem seu caminho entre
grandes cardumes predatórios, os humildes machos de uma espécie de peixe
escorpenídeo chamado em inglês lump ou lumpfish (Cyclopterus lumpus)
guardam ciosamente os ovos deixados por suas fêmeas. Os ovos formam um
aglomerado viscoso, colados a materiais empilhados, rochas ou outros resíduos
sólidos do fundo do mar.
Têm uma coloração rósea quando postos, mas escurecem
lentamente para o marrom, passando pelo amarelo, à medida que amadurecem.
Parecem-se com um pedaço de isopor quebrado.
O macho paira por perto, "soprando" constantemente
água sobre eles, para aeração e limpeza, o que também ajuda a afastar
predadores em potencial estrelas-da-mar, fanecas - que sempre
se aproximam demais. O lump não se alimenta durante o tempo em que os ovos
estão em incubação. O jejum algumas vezes o deixa fraco e vulnerável quando a
ninhada finalmente sai dos ovos e se une ao plâncton, começando a viver
por conta própria. O trabalho de ser pai desse bicho não é fácil, devido à
quantidade de predadores que habitam as águas do Golfo do Maine.
Infelizmente, o peixe foi contemplado recentemente com um
novo problema: os vendedores de frutos do mar descobriram que os ovos do lump
são um substituto aceitável e barato para o caviar do esturjão e,
consequentemente, aumentaram as dificuldades de sobrevivência da espécie. Como
não existem regulamentos de proteção da espécie, fica difícil prever o que lhe
poderá acontecer, caso o mercado para esse "caviar de pobre" seja
estimulado. Em águas tropicais, o diminuto sargentinho macho (Abudefduf
saxalitis), também conhecido no Brasil como paulistinha, desempenha um papel similar
ao do abnegado e assoberbado lumpfish.
Durante a maior parte do ano, o sargentinho é um sossegado
comedor de plâncton, habitante de bancos de areia, preocupado apenas com sua
própria vida. No entanto, quando chega a época da procriação, esse dócil animal
torna-se sombrio - no sentido literal e figurado. De fato, os sargentinhos
adquirem uma coloração azul-metálica - sinal para as fêmeas da área de que
chegou a hora do acasalamento - e -,,_ demarcam uma superfície plana no banco
de areia, a qual limpam com assiduidade e defendem com ferocidade. Nessa
superfície as fêmeas depositarão seus ovos. Um macho se acasalará com qualquer
fêmea que entre em seu território agressivamente vigiado e pode terminar a
temporada de procriação com até quatro fragmentos de .5 centímetros cada de
ovos de coloração púrpura escura.
Durante o período de incubação de uma semana, esses peixes
de 18 centímetros rechaçam as fêmeas e atacam qualquer coisa que se aproxime de
seus filhotes, incluindo mergulhadores. Quando não está ocupado afastando
intrusos, o macho dedica-se a limpar e a soprar água sobre os ovos que,
lentamente, perdem toda cor até darem vida a minúsculos e agressivos comilões
de plâncton. Os peixes não são os únicos a adotar formas de proteção de seus
ovos. Nas águas da Nova Inglaterra, alguns nudibrânquios, ou lesmas-do-mar,
caracóis sem conchas, depositam ovos em longas malhas gelatinosas perto ou
mesmo sobre hidróides ou tunicados - ambos invertebrados sésseis, isto é, sem
suporte - de que os filhotes se alimentarão quando os ovos se romperem. Outras
espécies de nudibrânquios programam a incubação de ovos para que o nascimento
dos filhotes coincida com a procriação anual de hidróides.
Quando esse seu alimento cresce, os ovos se quebram e as
recém-nascidas larvas de nudibrânquios encontram um conveniente
"jardim" de hidróides florescendo exatamente na época certa. Como a
metamorfose das larvas quase sempre depende dessa colonização nudibrânquia
entre os hidróides, tal coincidência é mais do que mera conveniência: é, ao
mesmo tempo, crítica para a sobrevivência da espécie e um exemplo da elegante
eficiência com que os relacionamentos na natureza são
muitas vezes arranjados. Com o crescimento dos filhotes de nudibrânquios, as
estações passam e, com a chegada do inverno, os hidróides morrem em
massa. Mas, a essa altura, os nudibrânquios já têm condições de diversificar
suficientemente sua dieta de forma a assegurar sua sobrevivência.
Um parente do nudibrânquio, uma espécie de caracol marinho
chamado em inglês moon snail (lunatia heros), passa a vida adulta vasculhando a
areia em busca de pequenos moluscos, gasterópodes e outras guloseimas. Ele
deposita seus ovos na superfície interna de um delicado colar semi-elástico e
translúcido. Esse colar é formado pelo caracol a partir de uma substância
mucosa secretada sob as patas, que ele modela contra a parte externa de sua
concha. Quem percorrer durante o verão qualquer praia arenosa da costa nordeste
dos Estados Unidos encontrará frequentemente colares de areia do moon snail.
Com certeza as pessoas a ficarão desapontadas ao tentar levá-los para casa,
pois os colares secos se desintegram ao mais leve toque. Esses colares de areia
aparentemente proporcionam uma forma de distribuição dos ovos sobre fundo
arenoso, de forma a evitar o atrito e permitir uma circulação adequada. Podem
também servir como camuflagem protetora.
Outro habitante comum das águas da Nova Inglaterra, o
caranguejo-de-pedra do Atlântico (Cancer irroratus) se acasala quando o macho
maior literalmente toma posse da fêmea. Ele a envolve em um abraço quase
protetor com suas pernas e pinças. Acasalamento completado, a fêmea guarda os
ovos fertilizados, carregando-os sob seu corpo, presos aos fios que crescem de
uma perna abdominal. Ocasionalmente, pode-se encontrar na praia um caranguejo fêmea carregado com grande quantidade de ovos
alaranjados e brilhantes a favor do oceano.
Quando os ovos estão prontos para se abrir, a fêmea se
levanta apoiada em suas pernas delgadas e permanece imóvel, enquanto as larvas
quase incolores deixam devagar seu corpo num movimento conjunto que parece uma
fumaça na maré. Observando atentamente, a impressão que se tem é de que esses
filhotes são diferentes dos caranguejos. Tanto assim que, ao serem descobertos
pela primeira vez, chegou-se a pensar que se tratava de uma espécie distinta.
Em pouco tempo, porém, eles se transformam em um tipo de larva claramente
identificável como caranguejo e, em seguida, alcançam a fase adulta. De todos
os invertebrados que habitam as águas pouco profundas da costa nordeste dos
Estados Unidos, possivelmente o mais detestado é o velho e incompreendido
caranguejo-ferradura (Lilmulus popyphemus). Em primeiro lugar, esse animal
semelhante a um tanque, que se move lentamente, não é um caranguejo mas um aracnídeo
marinho, ou seja, um tipo de aranha que se movimenta no mar, o último de sua
espécie no mundo, pois todos os seus parentes já foram extintos há muito tempo.
Os caranguejos-ferradura têm a reputação de serem criaturas perigosas por causa
de sua cauda espinhosa, de aparência repelente. Durante décadas, em lugares
como Cape Cod, no Estado de Massachusetts, foram tidos como destruidores dos
ricos e lucrativos leitos de criação de vieiras. Por isso, passaram a ser
rotineiramente dizimados, o que reduziu
em muito sua população.
Na verdade, os caranguejos-ferradura não são nada perigosos
e, em vez de colocar em risco a população de invertebrados, até contribuem para
intensificá-la ao movimentar as águas do fundo do mar. Felizmente, a maneira de
encarar esse tipo de caranguejo mudou e sua destruição está estancando. O
acasalamento do animal acontece durante a lua cheia, em junho. As fêmeas, bem
maiores do que os machos, muitas vezes aceitam mais de um parceiro durante o
período que antecede a colocação dos ovos. Os machos, para se assegurar de que
estão no local certo para a fertilização, prendem-se avidamente à parte
posterior das conchas da fêmea com de areia com duas pinças. A fêmea carrega
esses machos consigo até depositar os ovos na zona mais alta da maré; nesse
momento os machos se soltam para fazer a fertilização. Os filhotes são
diminutos, têm uma coloração arenosa e passam seus primeiros dias perto da
praia. Aos poucos. escurecem e se dirigem para águas mais profundas. Não
deveria ser surpresa, mesmo para quem estude de modo superficial o ambiente
marinho, o fato de existirem estratégias de procriação tão variadas e
elegantemente adaptadas às exigências ambientais para a sobrevivência das
espécies. Vale também notar que, por maiores que sejam as dificuldades
enfrentadas por uma determinada espécie para a proteção de seus filhotes, de
modo geral nenhuma delas se sai melhor - ou pior - do que a cavala, que parece
tão arrogante com relação à maternidade. A longo prazo, toda reprodução,
qualquer que seja a quantidade inicial de filhotes, tende a manter a
estabilidade das populações: o par que se acasala consegue assegurar a
reprodução de sua espécie. Com a ameaçadora exceção de uma espécie, o Homo
sapiens, o planeta conseguiu alcançar aquilo que os cientistas chamam
homeóstase, isto é, o estado de equilíbrio dos organismos vivos em relação ao
ambiente. Resta saber se o homem desejará ou poderá comportar-se de modo a
fazer parte desse equilíbrio. A sobrevivência da espécie humana e a de grande
parte do reino animal talvez dependam da resposta a essa questão.
Revista Super Interessante n° 033