Luiz Guilherme Duarte
Substituindo a luz
visível por calor, a termografia permite retratar até mesmo o ar. Essa técnica
tornou-se uma ferramenta de precisão nas mais diversas atividades.
Tudo o que certos fotógrafos esperam é uma calorosa recepção
— de imagens, bem entendido. São os caçadores de fotos termográficas, aquelas
criadas por computadores a partir do fraco calor emitido pelos seres vivos ou
por qualquer material. Eles podem ser encontrados nos mais diferentes
laboratórios, de hospitais a avançados centros de pesquisas. Conhecida desde
1950, essa tecnologia baseia-se num espectro de luz abaixo dos limites
visíveis, a radiação infravermelha, descoberta ainda em 1800 pelo astrônomo alemão naturalizado inglês William
Herschel (1738-1822). Ao contrário do processo fotográfico comum, que depende
dos raios de luz visíveis refletidos pelos objetos, a termografia vale-se da
radiação térmica emitida pelo movimento normal das moléculas que compõem os
materiais na forma de raios infravermelhos.
Em lugar do papel sensível à luz, termômetros especiais com
gases congelados próximo ao chamado zero absoluto, 273º C negativos (no qual
cessa todo movimento das moléculas) registram essas mínimas variações de
temperatura. Na verdade, doses mais altas de raios infravermelhos chegam a
provocar um leve aquecimento na pele e são muito úteis no tratamento de
contusões musculares — com o calor, os tendões relaxam e voltam a funcionar sem
dor. O claro e escuro das imagens convencionais é representado nesse sistema
por um código de cores, definido por computadores em função das leituras
ponto-a-ponto do termômetro. Geralmente, quanto mais quente a área lida, mais a
cor tende ao vermelho. A termografia teve uma acolhida calorosa nos mais
diversos campos. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, foi
desenvolvido um binóculo que usa esse sistema para permitir que se enxergue
melhor à noite.
Um canhão de
elétrons, parecido com aquele utilizado nos televisores, converte em imagens os
sinais de eletrodos sensíveis à luz infravermelha de uma lâmpada especial.
Aparelhos de detecção desse tipo de luz também são usados em mísseis
teleguiados para dirigir os projéteis a alvos quentes. “No campo da Medicina as
imagens termográficas servem para identificar a evolução de tumores no
organismo”, lembra o oncologista Flávio Franco Montoro, dono de uma das poucas
clínicas brasileiras que fazem esse tipo de exame. As células cancerosas
desprendem mais calor que as saudáveis, pois são mais irrigadas de sangue,
cujas células de defesa tentam destruí-las. Como o sangue é quente, um trecho
mais vermelho que o normal pode ser sinal de câncer. Os engenheiros mecânicos,
de seu lado, descobriram na termografia um método seguro de analisar o ponto de
fadiga das máquinas e estruturas. O princípio é simples: o desgaste provoca
aumento na vibração e conseqüentemente na temperatura dos componentes
metálicos. A cerca de 800 000 metros de altura, as antenas do satélite francês
Spot captam desde 1986 as radiações infravermelhas do solo, da vegetação e
mesmo da atmosfera brasileira, compondo preciosas fotos.
Essa radiação, um conjunto de ondas eletromagnéticas, é
codificada e retransmitida para outra antena em Cuiabá, no Mato Grosso, e dali
para o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, São
Paulo. De acordo com o interesse, um computador em terra pode selecionar ou as
imagens de minerais do subsolo, ou de desmatamentos ou de chuvas e ventos.
“Assim, é possível localizar áreas de seca ou plantações esgotadas”, exemplifica
o engenheiro Antônio Tebaldi Tardin , responsável pelo sensoreamento remoto no
Inpe. “A vegetação com pouca água e sem vida envia menos sinais e é mais escura
nos gráficos.” Mas o que aconteceria se uma foto desse tipo fosse feita em
casa, com leves correntes de ar? Essa é a pergunta que os técnicos franceses
procuraram responder com a criação do Centro Técnico para as Indústrias Aéreas
e Térmicas (Cetiat), na Universidade de Orsay, perto de Paris, onde se estuda o
movimento das correntes de ar.
O objetivo dos cerca
de cinquenta engenheiros do centro é resolver problemas cotidianos bastante
comuns, como o das secretárias que suportam correntes de ar condicionado nas
costas; cozinheiras que sufocam com o vapor das panelas, ou motoristas que
transpiram enquanto têm os pés congelados. Os métodos de termografia laser
empregados ali em estudos da aerodinâmica de carros, aeronaves e sistemas de ar
condicionado são considerados únicos no mundo.
Para tornar o vento
visível, os técnicos borrifam água próximo à fonte de ar e iluminam o local com
finíssimos raios laser. A massa de ar torna-se então uma espécie de fluido
colorido, cujos movimentos são gravados por uma câmara de vídeo ligada ao
computador. Este analisa as diferenças de luminosidade, converte-as em códigos
binários e dispõe na tela um retrato fiel e em cores da corrente de ar. Tão
certo deu a idéia que já está sendo utilizada na climatização do novo Teatro de
Ópera da Bastilha, em Paris, e para resolver os problemas de ventilação do
metrô de Caracas, na Venezuela.
Revista Super Interessante n° 035