quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

São Paulo: o cerco a Piratininga

Eduardo Bueno

Foi em 9 de julho de 1562 que a nascente São Paulo dos Campos de Piratininga - alçada à condição de vila apenas dois anos antes - resistiu ao ataque feroz e determinado de uma coligação de nações indígenas.
Nove de julho é provavelmente o dia mais importante da história de São Paulo. Ao contrário do que julga o senso comum (e a historiografia tradicional, essa que batiza ruas e avenidas e determina feriados), porém, o 9 de julho que de fato definiu o destino da cidade não ocorreu em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, mas 370 anos antes. Foi em 9 de julho de 1562 que a nascente São Paulo dos Campos de Piratininga – alçada à condição de vila apenas dois anos antes – resistiu ao ataque feroz de uma coligação de nações indígenas (carijós, guaianás,  guarulhos e tupiniquins rebeldes) contra suas frágeis defesas e paliçadas incipientes.
O vilarejo foi salvo por dois de seus mais genuínos pais-fundadores: o errático e misterioso João Ramalho, cara-pálida tornado índio, primeiro homem branco a habitar o planalto, e o sogro dele, Tibiriçá, o Vigilante da Terra, morubixaba, principal líder tupiniquim e que se aliara primeiro ao próprio Ramalho (dando-lhe a filha Bartira como mulher),, depois aos guerreiros e colonos portugueses desembarcados em 1532 e, a seguir, aos jesuítas, que começaram a chegar em 1552.
Quem desferiu o ataque foi Jaguaranho, ou Onça Feroz, espécie de Crazy Horse tupiniquim. O jovem e impetuoso guerreiro possivelmente agiu sob ordens de seu pai, Piquerobi, o Lambari Verde, líder da aldeia rebelde de Aruraí (localizada onde hoje fica São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo). O confronto adquire tons ainda mais dramáticos quando se sabe que, além de pai de Jaguaranho, Piquerobi provavelmente era irmão de Tibiriçá e do outro líder tribal que também se aliara aos jesuítas, o velho Caiubi, ou Flecha da Madeira.
As fatalidades da Guerra de Piratininga não se encerram no fragor de uma luta fraticida. O fato de São Paulo ter sido salva não só por Tibiriçá mas por João Ramalho configura uma ironia. Afinal, mesmo sendo o pioneiro inconteste na ocupação do planalto, Ramalho fora excluído do processo “civilizatório” da região logo após a chegada dos jesuítas. E essa exclusão se dera de forma tão completa que Santo André, onde Ramalho vivia, foi suprimida por ordem do governador-geral Mem de Sá, sendo incorporada a Piratininga menos de dois anos antes do ataque que poderia ter arrasado a frágil cidadela dos jesuítas.
João Ramalho e os jesuítas encontravam-se em lados opostos desde sempre. Em 1552, os filhos mamelucos do patriarca ameaçaram de morte o padre Leonardo Nunes, quando o primeiro jesuíta a subir a serra expulsou Ramalho da missa que celebrava na pequena ermida de Santo André, já que ele fora excomungado. Embora o padre Manoel da Nóbrega tenha conseguido, mais tarde, contornar o conflito e obter se não o apoio, pelo menos, certa neutralidade de João Ramalho, seus interesses sempre foram divergentes.
Ainda assim, no momento em que seu pequeno colégio e a vila que o circundava correram risco de ser varridos do mapa, os padres se viram forçados a recorrer a Ramalho. E, embora tenha vivido mais 18 anos após o ataque, ele nunca viria a ser mais do que mero vereador no vilarejo que salvou da devastação.
De todo modo, o personagem mais trágico, grandioso e paradoxal da Guerra de Piratininga foi Tibiriçá, o principal líder tupiniquim do planalto. A principio, ele decidira acolher e incorporar a seu grupo, como genro, o primeiro branco a dar com os costados em seu território tribal. Ninguém sabia quem João Ramalho era ou de onde viera. Mas todos logo souberam que ele havia chegado: pouco depois de desembarcar no lagamar de São Vicente, por volta de 1508, o enigmático estrangeiro tornou-se líder informal dos  tupiniquim e Tibiriçá não tomava decisão sem consultá-lo.
Na década de 30, influenciado por Ramalho, Tibiriçá firmou aliança também com o primeiro contingente de portugueses a chegar ao atual estado de São Paulo: o grupo liderado pelo fidalgo Martim Afonso de Sousa, futuro donatário da capitania e fundador de São Vicente. Mas o acordo mais duradouro, significativo e problemático estabelecido pelo líder tupiniquim foi selado com os jesuítas.
Tibiriçá não só permitiu que Nóbrega e Anchieta fizessem um colégio em suas terras como ajudou a “erguê-lo com as próprias mãos”, tornando-se “fundador, benfeitor e conservador da Casa de Piratininga”, de acordo com o relato de Anchieta. A conversão foi tão completa que, depois de alistar-se como um dos primeiros catecúmenos, o chefe indígena aceitou o batismo, adotando o nome de Martim Afonso Tibiriçá.
Mais tarde ele seria nomeado pelo Conselho Real membro da influente Ordem de Cristo, originária da antiga Ordem dos Cavaleiros Templários – sinal de prestígio inequívoco, e além de tudo rentável, já que o posto implicava recebimento de uma “tença”, ou pensão.
Ao contrário do que sustenta ou insinua a historiografia tradicional, porém, é evidente que Tibiriçá sempre agiu em defesa dos próprios interesses e, por extensão, dos de sua tribo. Não foi um mero joguete, um peão no tabuleiro da conquista colonial. Ao associar-se respectivamente com Ramalho, Martim Afonso e os jesuítas, julgava obter vantagens estratégicas, políticas e bélicas.
A questão é que o tiro saiu pela culatra. Primeiro, resultou no recrusdecimento dos ancestrais conflitos dos tupiniquins com os guaianás, carijós e tamoios. A seguir, em um rompimento interno, que confrontou o grupo de Tibiriçá com o de seu “irmão” Piquerobi e do filho deste, Jaguaranho. Por fim, como bem colocou o historiador John Manuel Monteiro, a aliança revelou-se “muito nociva” para Tibiriçá: “As mudanças nos padrões de guerra e as graves crises de autoridade, pontuadas pelos surtos de contágios, conspiraram para debilitar, desorganizar e, finalmente, destruir os tupiniquins”, escreveu o autor de Negros da Terra.
O início do fim de Tibiriçá e de seu povo desenrolou-se de forma dramática. Contrariados com a completa submissão do  morubixabas aos desejos dos jesuítas, um bando de rebeldes tupiniquins – possivelmente oriundos da aldeia de Ururaí, que era comandada por Piquerobi, e sob a liderança de Jaguaranho – aliou-se a outras nações indígenas e desferiu, em 9 de julho de 1562, um ataque-surpresa ao povoado jesuíta, erguido na confluência dos rios Tamanduateí e Anhangabaú, o exato local onde antes fora a taba de Tibiriçá.
Aos gritos de “jukaí karaíba!” (morte aos portugueses!), os indígenas, de acordo com o relato do padre José de Anchieta, “deram de manhã sobre Piratininga com grande corpo de inimigos, pintados e emplumados e com grandes alaridos, aos quais saíram logo a receber os nossos discípulos, que eram muito poucos, com grande esforço, e os trataram bem mal, sendo coisa maravilhosa que se encontravam às flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios. E,  o que é mais, dois filhos, que eram cristãos, estavam conosco contra seu pai, que era contra nós. De maneira que parece que a mão de Deus os apartou e os forçou a fazer isso sem que eles o entendessem”.
Segue o relato do padre: “As mulheres dos portugueses e os meninos, e também dos mesmos índios, recolheram-se a maior parte à nossa casa e igreja, por ser um pouco mais segura e forte, onde algumas das mestiças estavam toda a noite em oração com velas acesas ante o altar, e deixaram as paredes e os bancos bem tintos de sangue, que se tiravam com as disciplinas (o costume de açoitar-se como forma de penitência), o qual não duvido que pelejava mais rijamente contra os inimigos que flechas e arcabuzes”.
“Tiveram-nos em cerco dois dias, dando-nos sempre combate, ferindo muitos dos nossos. Mas dos inimigos foram muitos mais os feridos e alguns mortos, dentre os quais um que foi nosso catecúmeno, e fora quase capitão dos demais, o qual, sabendo que todas as mulheres se haviam de recolher à nossa casa, e que aí havia mais que roubar, veio dar combate pela cerca de nossa horta, mas aí mesmo achou uma flecha que lhe deu pela barriga e o matou, dando-lhe a paga, que ele nos queria dar, pela doutrina que lhe havíamos ensinado.”
Os historiadores que se dedicam a estudar a Guerra de Piratininga supõem que o “quase capitão” citado por Anchieta fosse o jovem Jaguaranho – dedução baseada no relato do também jesuíta Simão de Vasconcelos, que afirmou que o agressor “era filho de Araraig”, corruptela de Ururaí, nome da aldeia chefiada por Piquerobi.
Se, a exemplo dos Estados Unidos, a indústria cultural brasileira produzisse mitologia com base na própria história, seria instigante e revelador assistir a filmes e peças, ou ler romances e contos sobre a fundação de São Paulo e, mais ainda, sobre o episódio-chave de 9 de julho de 1562. Em obras conservadoras, Tibiriçá surgiria como herói abnegado e cristão, um “índio bom”, ao passo que Jaguaranho seria o selvagem sanguinário e cruel, o “índio mau”. Nas versões mais rebeldes, o quadro se reverteria: a Tibiriçá caberia o papel de “pelego”, um nativo acovardado e submisso, enquanto Jaguaranho seria alçado ao posto de líder tribal revolucionário, espécie de Che Guevara tupiniquim, de flechas e plumas.
No drama real de vidas humanas, em meio a complexidades muito maiores, Tibiriçá e Jaguaranho saíram derrotados. As decisões que tomaram, com toda a carga de emoção, angústia e reflexão que certamente exigiram, resultaram em um mesmo e único fim: os dois morreram, vitimas de suas próprias escolhas, e, com eles, exauriram-se as duas únicas e estreitas alternativas disponíveis para os tupiniquins – uma aliança frágil ou o conflito desigual com os europeus.
A morte de Tibiriçá, como a própria vida, revestiu-se de sobretons pesarosos e alegóricos. Contagiado em um dos tantos surtos epidêmicos que, após o surgimento dos aldeamentos jesuíticos, grassaram no planalto de Piratininga, o Vigilante da Terra morreu “de peste” – vitimado por “câmaras de sangue” – apenas cinco meses após a Guerra de Piratininga, no dia de Natal de 1562. Seu “passamento” na data em que se comemora o nascimento de Cristo evidentemente não passou despercebido pelos jesuítas, sendo mesmo saudado como uma dádiva de Deus para um devoto tão fervoroso e distinto.
Em carta ao superior da companhia, Diego Laynes, redigida em 16 abril de 1563, o padre Anchieta anotou: “Morreu nosso principal e grande amigo e protetor Martim Afonso, o qual depois de se haver feito inimigo de seus próprios irmãos e parentes por amor a Deus e à sua Igreja, e depois de lhe haver dado Nosso Senhor a vitória sobre seus inimigos, estando ele com grandes propósitos e muito determinado a defender a causa dos cristãos, e nossa Casa de São Paulo, que ele bem sabia haver sido edificada em sua terra por amor dele e de seus filhos, quis Deus conceder-lhe o galhardão por suas obras, dando-lhe uma doença de câmaras de sangue, da qual não havia melhora. No dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, morreu para nascer em nova vida de glória, como esperamos. Foi enterrado em nossa igreja, com muita honra”.
O corpo de Tibiriçá permaneceu sepultado entre os alicerces da primitiva igreja de São Paulo até 1896, quando uma tempestade fez desabar o prédio secular e mal conservado. Os restos mortais do líder tupiniquim foram transferidos então para a igreja do Coração Sagrado de Maria. Em janeiro de 1933, o eco dos canhões de outra guerra paulista – a Revolução Constitucionalista de 1932 – ainda podia ser escutado, quando, “por iniciativa de vários paulistas ilustres, com cooperação do clero e do Instituto Geográfico de São Paulo, foram os ossos do chefe índio trasladados para a cripta da nova catedral paulista”, a Sé.
O padre e historiador Fernando Pedreira de Castro, presente à solenidade, descreveu-a: “Aos 25 de janeiro de 1933, às 14 horas, o vigário geral dom Gastão Liberal Pinto, o doutor José Torres de Oliveira, presidente do citado instituto, e outras pessoas, receberam das mãos do padre Vicente Conde, a dita urna de mármore, a qual, depois de devidamente examinada e verificado seu conteúdo, foi de novo lacrada e trasladada com o acompanhamento de todos os presentes, para a cripta da nova catedral, tendo sido depositada numa das câmaras mortuárias ali existentes, ao lado das que abrigam os ossos dos bispos de São Paulo e do regente Feijó”.
Pedreira de Castro registrou ainda que, “ao abrir-se-lhe a sepultura, os ossos impressionaram a todos pelo tamanho e solidez. O cacique era de alentada estatura, robusto, dotado de força hercúlea”. Entre os que se alinharam à procissão estavam alguns dos maiores historiadores paulistas de então, como Afonso Taunay, Alfredo Ellis Jr. e Aureliano Leite, dispostos, como o padre Pedreira, a transformar Tibiriçá em uma espécie de paulista primordial, o pai de todos.
“Tibiriçá foi o sal da terra que se transfundiu e se perpetuou em centenas de milhares de criaturas, as quais se vêm espalhando, desde os primeiros dias coloniais até hoje, não apenas nessa poderosa unidade da federação, como em demais territórios brasileiros, tal qual, para o Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul; para o Norte, Rio de Janeiro e Minas Gerais; para Oeste, Mato Grosso e Goiás”, discursou Aureliano Leite. No momento em que São Paulo lutava contra o resto do Brasil, o discurso não poderia ser mais revelador.
Exatos 400 anos após sua morte, Tibiriçá continuava servindo de exemplo e metáfora – e sendo vítima até dos que o julgavam um herói. Em 25 de dezembro de 1962, para relembrar o quarto centenário do falecimento do morubixaba, o jornal O Estado de S. Paulo convidou paulistas eméritos para homenageá-lo. Entre os textos está o de Álvaro do Amaral, que afirma: “Ao se estudar a personalidade de Tibiriçá, chefe dos índios dos Campos do Piratininga, fica-se entusiasmado com suas qualidades morais, de que deu provas insofismáveis. Realmente, para um representante dos nossos silvícolas tão atrasados, que demonstravam ter o desenvolvimento intelectual próprio das mais selvagens raças humanas, é de estranhar encontrarem-se as inúmeras ocasiões em que demonstrou seu caráter reto, sua inteligência lúcida e seus sentimentos cristãos”.
Ao contrário dos demais tupiniquins, cujas cinzas foram sopradas pelo vento, seu “cacique” ganhou uma tumba cristã. Foi o único nativo ao qual se concedeu a suposta honraria. Mas quem pode garantir que no pomposo jazigo ele encontrou a paz de que não teve em vida? De todo modo, o silêncio ao qual Tibiriçá foi relegado durante as recentes comemorações dos 450 anos da cidade nascida do solo de sua aldeia tampouco o terá ajudado a encontrá-la.
Saiba mais: Livros
A Guerra de Piratininga, Benedito Prezia, FTD, 1991 - Obra inteiramente dedicada à guerra dos índios.
Os Indígenas do Planalto Paulista, Benedito Prezia, Edusp, 1997 - Análise dos índios paulistas vistos por viajantes, cronistas e missionários dos séculos 16 e 17.
Negros da Terra, John Manuel Monteiro, Companhia das Letras, 1994 - Abordagem da importância do bandeirantismo e dos índios na formação de São Paulo.
Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil, Serafim Leite (org.), Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954 - Reprodução das cartas dos primeiros jesuítas enviadas a seus superiores na Europa.
História da Companhia de Jesus no Brasil, Serafim Leite, Civilização Brasileira, 1950 - Compêndio de dez volumes sobre todo o movimento jesuítico no país.

Revista Aventuras na História n° 009

Marinha argentina admite assassinatos na ditadura militar

Leandro Narloch

Quatro mil vítimas e duas décadas depois, o Alto Comando da Marinha argentina reconhece: as Forças Armadas do país torturaram e assassinaram presos políticos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), em Buenos Aires, durante a ditadura militar de 1976 a 1983.
O almirante Jorge Godoy admitiu o fato em cerimônia pública, em março passado. “Sabemos hoje, pela Justiça, que a Esma, lugar destinado a manter-se ao serviço exclusivo da formação profissional dos nossos suboficiais, foi utilizado para a execução de atos qualificados como aberrantes perante a dignidade humana, a ética, a lei, convertendo-se num símbolo de barbárie e irracionalidade”, disse o chefe da Marinha argentina. Foi a primeira vez que um comandante da corporação reconheceu os assassinatos cometidos na escola. Segundo ele, “assim como não se pode esconder o sol atrás de uma peneira, não há argumentos para desculpar a execução daqueles atos violentos e trágicos”.
A Esma ficou conhecida como o maior centro de tortura da ditadura argentina. Pelo menos 4 mil dos 30 mil desaparecidos políticos argentinos tiveram a escola como último paradeiro. Do local, teriam saído os aviões para atirar corpos de presos no Oceano Atlântico. O prédio, agora, vai virar um museu, organizado em parceria com a organização Mães da Praça de Maio, que representa os familiares de desaparecidos políticos.

Revista Aventuras na História n° 009

Marketing faraônico

Jones Rossi

Arqueóloga acredita que as pirâmides serviam de propaganda para disfarçar a fragilidade dos faraós.
Todo mundo sabe qual é a profissão mais antiga do mundo. Já a segunda tem vários candidatos – entre eles os marqueteiros políticos. Para a arqueóloga americana Joyce Marcus, esses profissionais que foram tão importantes nas últimas eleições brasileiras existem desde o Egito Antigo. Em seu livro Theory and Practice in Mediterranean Archaeology (Teoria e Prática na Arqueologia Mediterrânea, inédito no Brasil) ela tenta provar que as grandes pirâmides egípcias não foram construídas como homenagem a deuses. Mas como propaganda dos faraós.
Comparando as maiores construções de vários períodos, a arqueóloga concluiu que a maioria delas foi erguida em tempos anteriores ao que se pode chamar de auge desses povos. Para Joyce, essa é a evidência de que os monumentos serviam, na verdade, para mostrar poder em períodos em que o progresso da civilização não bastava para satisfizer o povo e manter a civilização unida. A grande pirâmide de Queóps, por exemplo, surgiu no período denominado Reino Antigo, que vai de 2575 a 2134 a.C., pelo menos mil anos antes da  Reino Novo, era em que a civilização mais se expandiu. “Tratava-se de uma espécie de blefe, uma amostra de grandiosidade que não refletia o real poderio dos faraós”, diz Joyce. Tanto que, à medida que o Egito foi se consolidando, as pirâmides diminuíram de tamanho.
Para Júlio Gralha, professor do Núcleo de Estudos da Antiguidade da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, separar a política da religião do Egito Antigo não é tão fácil assim. Ou seja: ao propagandear-se como líder, o faraó também figurava como representante de um deus. “Imagine as grandes pirâmides brilhando num intenso branco ou tons derivados do vermelho-claro, sendo vistas a quilômetros. Para o povo, apenas uma divindade poderia tê-las construído.”
Explora mas faz
Queóps (2607 - 2573 a. C.)
Construiu a maior de todas as pirâmides, com 146 metros de altura e 230 de largura. Mas ficou para a história como um ditador que sacrificou o povo para construir suas estruturas colossais sem desenvolver a nação.
Faz o bem sem olhar a quem
Ahmés (1552-1526 a.C.)
Esse faraó iniciou o expansionismo e o poder bélico que marcou o Reino Novo egípcio (1550-1070 a.C.). Suas pirâmides, porém, não passam de 8 metros de largura.
Fé e trabalho
Ramsés II (1304-1237 a.C.)
Apesar de comandar o Egito por 67 anos durante o Reino Novo, época de grande expansão, o faraó Ramsés II não deixou grandes pirâmides de herança. Em compensação, construiu o templo de Abu Simbel, que tem quatro estátuas de 20 metros de altura na entrada.
O Egito não é mais aquele
Três mitos que caíram sobre o tempo dos faraós:
Pedreiros assalariados
As pirâmides foram construídas por camponeses assalariados recrutados de todos os territórios egípcios, e não por escravos. Apesar disso, o serviço era compulsório. Em casos de fuga, outro membro da família era recrutado em seu lugar. Recapturado, o fujão era punido com até seis meses de servidão.
De mau só a cara
A imagem bíblica do sofrimento dos escravos egípcios não se confirma historicamente. Os chamados “servos domiciliares” do Egito não tinham salário, mas também não eram punidos com chibatadas. E podiam ter propriedades, casar-se com pessoas livres e seus rebentos ainda eram beneficiados por um tipo de lei do ventre livre.
Povo tranqüilo
Apesar do Império egípcio ser conhecido como belicoso e expansionista, foi só a partir do Segundo Período Intermediário (1640 a 1532 a.C.), depois de 1 300 anos do início da civilização, que a dominação de outros povos começou para valer. E isso por influência dos povos mesopotâmios. Vieram deles as tecnologias de guerra do Egito, como bigas e o arco- e-flecha.

Revista Aventuras na História

IBM lança megasite sobre o Egito

Depois de três anos de trabalho e um investimento de 2,5 milhões de dólares, a IBM lançou em março um dos melhores sites de toda a rede mundial. Para sorte dos apaixonados por civilizações antigas, a página é toda dedicada ao Egito antigo, e não economiza recursos tecnológicos para descrever 5 mil anos da civilização. Além de mapas, fotos e habituais artigos, o felizardo internauta pode viajar pelos monumentos através de webcams e visões de 360 graus,  conhecer relíquias por meio de zooms e imagens em 3D, e mergulhar em animações que reconstituem a vida cotidiana do Egito antigo. Para o freqüentador fanático, a opção de montar sua própria coleção virtual está disponível. Em inglês, francês e árabe.
www.eternalegypt.org

Revista Aventuras na História n° 009

Saudade da favela

Favelas são um jeito brasileiro de morar com mais de um século de tradição. O site Favela Tem Memória mostra que os casebres e os morros, tanto relacionados ao crime organizado, também têm bons causos. A página traz depoimentos de moradores, fotos das primeiras ocupações, um glossário com a origem dos nomes das moradias e uma linha do tempo que descrevem muito bem a trajetória da favela no Brasil.
www.favelatemmemoria.com.br

Revista Aventuras na História n° 009

Jesuítas S.A.

Julia Moióli

A atividade dos jesuítas foi muito além da catequização de índios. Gestores de mão-cheia, deixaram  um vasto patrimônio quando foram expulsos do Brasil, em 1773. Em Negócios Jesuíticos (Edusp), Paulo de Assunção desvenda os cofres da Companhia de Jesus e mostra que os padres, longe da renda dos mosteiros europeus, não levavam tão a sério o pecado da usura. O livro detalha a rede de negócios dos jesuítas, desde o controle e o planejamento do cultivo de terras ao escoamento da produção, passando pela administração de trabalhadores assalariados e escravos.

Revista Aventuras na História n° 009

Odisséia dos sabores

Manuela Aquino

A fantástica luta pelas especiarias, poções que levaram nações ao mar e movimentaram o comércio em todo o mundo, está muito bem contada no livro Viagem ao Fabuloso Mundo das Especiarias (Record), de Rosa Nepomuceno. A jornalista carioca alterna aventuras da busca por pimenta, canela e outros ingredientes da história com informações científicas sobre eles. Para isso, Rosa criou uma viagem que começa no Mar Mediterrâneo, segue por todo continente africano, chega a terras orientais como a Índia e termina gloriosamente na América.
Revista Aventuras na História n° 009