sexta-feira, 1 de junho de 2012

Chopin: celulares eruditos

Lívia Lombardo

Quando Mendelssohn abraçou Chopin para cumprimentá-lo pelo sucesso de sua primeira apresentação pública em Paris, em 1832, jamais poderia imaginar que aquele jovem e talentoso músico, filho de um professor francês com uma polonesa, pudesse, 173 anos depois, virar uma febre entre os brasileiros. Sim, Chopin e sua Marcha Fúnebre são, hoje, os primeiros colocados no ranking dos ringtones eruditos mais baixados da Vivo, a maior operadora de telefonia celular do Brasil.
Atualmente, para ouvir uma sonata de Shumann ou uma ópera de Verdi, basta aguçar os ouvidos em algum restaurante ou chopping center. Certamente, um celular vai lhe proporcionar esse prazer - mesmo que apenas até a chamada ser atendida. Operadoras de telefonia celular como a Claro e a TIM também disponibilizam músicas eruditas para as campainhas. A lista de preferidos dos usuários é bem diferente. Clientes da Claro baixam mais a Nona Sinfonia de Beethoven. Os da TIM, o Bolero de Ravel. De acordo com a Takenet, que fornece ringtones para a Vivo, cerca de 5% das pessoas que trocaram o "triiim" por uma musiquinha preferem baixar uma obra clássica.
Ranking clássico
1º) Marcha Fúnebre
Nome da obra: Sonata para piano em Si bemol menor, Opus 35 nº 2
Autor e data: Frédéric Chopin, 1837
2º) Marcha Nupcial
Nome da obra: Abertura EM Mi menor para Orquestra, Opus 21
Autor e data: Felix Mendelssohn, 1853
3º) Ave Maria
Nome da obra: Ave Maria
Autor e data: Charles Gounod, 1853
4º) Russian Dance
Nome da obra: O Quebra-Nozes
Autor e data: Pyotr Llitch Tchaikovsky, 1892
5º) Chinese Dance
É outro trecho da mesma obra de Russian Dance

Aventuras na História n° 022

Filosofia ocidental: idéias na busca da verdade

Maria Carolina Cristianini

Dez nomes fundamentais da filosofia ocidental :
Palavra de origem grega que significa “amor à sabedoria”, a filosofia é considerada a atividade que usa a razão e a argumentação para alcançar a verdade. Vários foram os pensadores que desde o século 6 a.C., com suas reflexões, construíram o que chamamos de filosofia ocidental (as datas que marcam a linha são as de nascimento deles).
469 a.C. - Sócrates
Embora desde o século 6 a.C. nomes como Heráclito e Pitágoras já tentassem buscar o princípio material das coisas (physis), Sócrates é considerado o marco da filosofia – mesmo sem ter deixado obra escrita. Segundo ele, todo comportamento ilegal ou imoral é um erro, o conhecimento é a virtude e ninguém faz o mal por querer. Sócrates deixa o mundo físico de lado e se volta para a metafísica e a moral.
427 a.C. - Platão
É ele quem apresenta ao mundo as reflexões de Sócrates. Apontado como um dos pilares da filosofia ocidental, ele divide seu pensamento entre o mundo sensível (onde vivemos) e o das idéias (acessível somente para a alma), além de fundar sua própria escola, a Academia, onde transmitiria suas idéias para futuros filósofos.
384 a.C. - Aristóteles
Embora tenha sido seguidor e aluno de Platão na Academia, Aristóteles nunca foi seu discípulo incontestável – não concordava com a idéia defendida sobre o mundo superior e se concentrou nas ciências da natureza. Fundou o sistema-base dos estudos de lógica até o século 19, que utiliza o silogismo, como em: “Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”.
354 - Santo Agostinho
As reflexões do pensador são um marco na transição entre a filosofia praticada anteriormente e o período medieval (época em que a atividade esteve muito relacionada à teologia, suplementar à religião). Moldando as idéias platônicas de acordo com sua abordagem, combina a fé (fundamental para a filosofia cristã) e a razão (sem a qual a fé não se consolida).
1596 - René Descartes
É considerado o pilar da filosofia moderna e um dos responsáveis por libertá-la do pensamento teológico. Autor da frase “penso, logo existo”, elabora uma teoria racionalista e defende o dualismo em que mente e corpo têm naturezas distintas: a essência do “eu” seria o pensamento, e a do corpo, a extensão.
1632 - John Locke
Contrário ao pensamento de que o homem possui idéias natas, Locke funda o empirismo, sucedendo o racionalismo de Descartes – é autor de Ensaio Sobre o Intelecto Humano, uma das obras que mais colaboraram para essa escola. Sua atenção se volta para questões como as capacidades da mente e a natureza do conhecimento, influenciando o pensamento britânico da época.
1724 - Immanuel Kant
Suas reflexões surgem no momento em que a filosofia estava dividida entre as duas idéias anteriores: o empirismo de Locke (adotado na Grã-Bretanha) e o pensamento racional da Europa. O filósofo faz uma síntese das correntes: reconhece a idéia empírica de que a experiência é a origem das crenças e rejeita a afirmação de que verdades são determinadas apenas pela razão.
1770 - Friedrich Hegel
Filósofo idealista alemão influenciado pelo pensamento de Kant, Hegel acreditava que a mente ou o espírito constituíam o que chamava de realidade última. Suas idéias influenciam o pensamento europeu com a dialética do absoluto, sistema em que tudo estava inter-relacionado – filosofia, religião e arte formam meios de compreensão absolutos.
1844 - Friedrich Nietzche
Coloca em questão a história da filosofia, criticando os valores morais defendidos por Sócrates. Ataca a crença da realidade imutável e estimula a confiança no senso comum como uma forma eficaz de entender o mundo.
1905 - Jean-Paul Sartre
Símbolo da influência existencialista de Nietzsche, com Sartre a existência humana não necessita mais de justificativa exterior e o aqui e agora é a questão da vez. Sua pergunta primordial é: “O que é existir como ser humano?”. Publica uma das obras de referência do existencialismo, O Ser e o Nada, e descreve o que denomina a realidade dos homens de modo geral.

Aventuras na História n° 022

O gigante Kremlin

Endrigo Coelho

Bem no centro de Moscou está situado o Kremlin, o símbolo do Estado russo. A fortaleza foi fundada antes da cidade e conta com um complexo de belas construções, como a residência oficial do presidente da Federação Russa e o Museu do Kremlin.
Como tem oito sedes, o complexo todo é conhecido como “Museus do Kremlin” – no plural mesmo. A Sala das Armas guarda vestimentas dos patriarcas russos e bastante ouro e prata. A Catedral da Assunção preserva os bancos em que czares e czarinas rezavam. A Catedral do Arcanjo teve sua construção ordenada pelo primeiro grande príncipe moscovita, Ivan Kalita. Na Catedral da Anunciação, uma espécie de armazém guarda os tesouros das antigas famílias reais russas. A Igreja do Manto Sagrado de Nossa Senhora mantém uma galeria com esculturas em madeira dos séculos 15 a 19. No Palácio do Patriarca e na Igreja dos Doze Apóstolos, há uma exposição permanente de objetos pessoais dos czares. O museu conta ainda com o Campanário de Ivan, o Grande, cuja construção levou mais de 300 anos. Além disso tudo, coleções de sinos e objetos de guerra estão espalhadas por todo o Kremlin.
Em 2006, o complexo completa 200 anos. Apesar de alguns de seus tesouros serem bem mais antigos, a data de nascimento oficial é 10 de março de 1806, quando o imperador Alexandre I assinou um decreto que autorizava a transformação de depósitos em museus.
A herança dos czares
O complexo guarda tesouros da nobreza russa.
1. Canhão do czar- Construído em 1586 por ordem do czar Feodor I Ivanovich, o canhão tem quase 1 metro de calibre, 5,34 metros de comprimento e um tubo de 40 toneladas. A arma é toda ornamentada – tem, por exemplo, pequenas inscrições e uma imagem do czar. Apesar da imponência, nunca foi usada.
2. Campanário de Ivan- Não só de catedrais vive a Praça das Catedrais. É lá que está o Campanário de Ivan, o Grande. O complexo começou a ser construído há 500 anos, foi destruído pelas tropas de Napoleão em 1812 e reconstruído em 1814. Só saiu ilesa do ataque a torre principal, que tem 81 metros.
3. Sino gigante- O sinão é uma prova do poder dos czares. Mede 6,14 metros de altura por 6,6 metros de diâmetro e pesa 202 toneladas. Foi construído simplesmente porque o czar Alexey Mikhailovich quis. E ponto final. O maior sino do mundo nunca foi tocado e tem um charme especial: o “pedacinho” quebrado encostado no instrumento, que tem 11,5 toneladas.
4. Catedral do arcanjo- Essa jóia da arquitetura mundial é hoje uma espécie de “cemitério dos ilustres”. Algumas dinastias russas, como os Ryurikovich e os Romanov, estão enterradas ali. O primeiro czar, Ivan, o Terrível, e dois de seus filhos também estão sepultados na bela catedral, em um relicário especial, próximo ao altar.
5. Torre secreta- Os 38 metros da mais importante torre da fortaleza foram erguidos em 1485 para proteger o Kremlin de ataques pelo rio Moscou. O nome não foi dado por acaso: ela tem uma passagem secreta que atravessa o rio por baixo da terra e era usada para fugas e ataques surpresa.
6. Praça das catedrais- Nela, os turistas se esbaldam com tanta torre gótica. Na foto, a Catedral da Anunciação – que por 150 anos foi a “igreja oficial” da realeza. As catedrais da Assunção, do Arcanjo e a Igreja do Manto Sagrado de Nossa Senhora completam o circuito religioso.
7. A casa dos tesouros- Se em algum lugar do mundo existe mesmo um mapa do tesouro, o “X” deveria estar em cima da Sala das Armas. Seus nove salões são pequenos para tantas relíquias, que vão de vestidos de coroação à maior coleção de peças em ouro e prata feita por artesãos russos.
8. O ovo... Na Sala das Armas, dentro do segundo saguão, um tesouro chama a atenção logo na entrada: um ovo de Páscoa de 1906. Ele foi um presente do imperador Nicolau II para sua esposa, na Páscoa daquele ano. Chocolate? Que nada, a peça foi feita em ouro, prata e pedras preciosas pelo joalheiro russo Carl Fabergé.
9. ...E o galo- O quinto salão guarda alguns dos presentinhos que as autoridades de vários países europeus deram aos czares e imperadores da Rússia. Tem até um agrado de Napoleão Bonaparte dado ao imperador Alexandre I, em reconhecimento a um acordo de paz firmado entre os dois. Na foto, um galo de prata alemão, oferecido ao príncipe Ivan III.
10. As abóboras- O nono hall da Sala das Armas tem um quê de fábula. Ali ficam as carruagens produzidas pelos principais construtores da Europa. A mais antiga é a do czar Boris Godunov, do século 16, e a mais nova é a da imperatriz Catarina, a Grande, que data do século 18. O mais interessante nessa ala é que todas as carruagens permanecem em perfeito estado.

  Aventuras na História n° 022

OK?

Bruno Borges

Ok.: apesar de esse ser o americanismo mais difundido no mundo, sua origem é confusa. O primeiro registro é de 1839, quando um jornal de Boston usou a abreviatura humoristicamente, com o sentido de "all correct" (tudo bem). Explica-se: eles grafaram errado as  primeiras letras para brincar com a pronúncia, "oll korrect".
Conta-se também que, durante a Guerra da Secessão americana, que terminou em 1865, quando voltavam para o quartel sem sofrer nenhuma baixa, os soldados anotavam num quadro de avisos ou pintavam nas paredes "0 K", zero killed, ou seja "zero morto". Com o tempo, isso passou a significar "tudo bem".
Seja como for, o responsável pela popularização de 0K foi o presidente americano Martin Van Buren, que tentava se reeleger em 1840. Apelidado de Old Kinderhook (Velho Kinderhook) porque era nativo desta cidade, usou as iniciais 0K como slogan - e aproveitou o trocadilho com o sentido de "all correct". Apesar disso, não foi reeleito.

 Aventuras na História n° 022

A Vingança dos Sith: the end

Paulo Boccato

George Lucas encerra a maior saga de todos os tempos. Entenda por que Guerra nas Estrelas virou religião e mudou o curso da história do cinema.
Quantos anos você tinha em 1977, quando Guerra nas Estrelas ganhou as telas mundo afora? Já era adulto, adolescente ou ainda nem tinha nascido? Não importa. Independente da sua idade, você, como toda a galáxia, conhece a saga criada pelo diretor americano George Lucas. E, você, assim como o resto do planeta, sabe – ou pelo menos ouviu falar – o nome dos personagens dessa odisséia que mudou o curso da história do cinema: Darth Vader, Luke Skywalker, Obi-Wan Kenobi, princesa Leia, Yoda, C-3PO, R2-D2, Chewbacca... Para os mais, digamos, exagerados, Guerra nas Estrelas virou até religião. Literalmente. No último censo dos Estados Unidos, milhares de americanos declararam ser da religião “jedi”. Na Inglaterra, os “Cavaleiros de Jedi” ganharam reconhecimento oficial por parte das autoridades desde o censo de 2001. Às vésperas do lançamento mundial de A Vingança dos Sith, até segunda ordem o último filme da saga, só nos resta perguntar: por que, em nome de “jedi”?
Muito latim já se gastou nas últimas três décadas para explicar o êxito da saga. Mas só uma coisa é certa: o fanatismo em torno de Guerra nas Estrelas não tem explicação única – e muito menos óbvia. O melhor a fazer para entender o fenômeno George Lucas é partir do princípio – bem do princípio, quando o diretor tinha apenas 27 anos e alguns poucos filmes na bagagem (veja quadro na página 40). O primeiro roteiro – 13 páginas, exatamente – foi escrito em 1972. Na época, a história que o nerd californiano começava a rascunhar, ambientada em uma galáxia muito, muito distante e repleta de heróis de matinê, era um corpo estranho em Hollywood. O cinema vivia, então, tempos sisudos. A indústria cinematográfica transformava temas polêmicos em sucessos de bilheteria, motivada pela revolução comportamental dos anos 60 e pela crise de consciência americana gerada pela Guerra do Vietnã.
Gêneros clássicos, como o western, o musical e o filme de gângster, estavam sendo revistos sob um novo código, em filmes como Butch Cassidy, Cabaret, Bonnie & Clyde e O Poderoso Chefão. Temas urbanos, urgentes, repletos de uma nova realidade das ruas americanas, nada idealizada, eram vistos em produções como Um Dia de Cão e Taxi Driver. Discutia-se política, poder e comportamento em sucessos que vão de A Primeira Noite de um Homem a Annie Hall, de Todos os Homens do Presidente a Rede de Intrigas, de Um Estranho no Ninho a Cada um Vive Como Quer. O tipo perturbado, desajustado e rebelde, personificado em astros como Jack Nicholson, Al Pacino, Dustin Hoffman e Robert DeNiro, era o anti-herói preferido de diretores contestadores como Sidney Lumet, Mike Nichols, Milos Forman e Bob Rafelson.
Nesse cenário, a proposta de Lucas parecia – perdoem o trocadilho – coisa de outro planeta. Seu único recurso, então, foi usar a lábia para tentar convencer os executivos das majors, as empresas distribuidoras herdeiras do sistema de estúdio, que vinham dominando o cinema americano desde meados dos anos 10. O argumento era simples: “toda uma geração está crescendo sem ter acesso a nenhum tipo de conto de fadas, um gênero importante para que as crianças possam aprender a distinguir entre bem e mal, entre certo e errado”, repetia. Ao escrever o roteiro, Lucas teve como maior influência o livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, um ensaio sobre os mitos dos mais diferentes povos. “Com Guerra nas Estrelas, eu conscientemente tenho fixado minha idéia sobre recriar mitos e motivos mitológicos clássicos”, afirmou o diretor numa famosa entrevista ao jornalista Bill Moyers, na revista Time.
Só para esclarecer: o herói de Lucas, Campbell, parte do pressuposto de que grandes histórias são sempre baseadas na “jornada do herói”, onde o protagonista, inicialmente vivendo em um “mundo comum”, recebe um “chamado à aventura”. Após uma recusa inicial e quase sempre contando com uma “ajuda superior”, ele parte para uma jornada repleta de provações, tentações e obstáculos, até que retorna, triunfante, como um “senhor de dois mundos”. Guerra nas Estrelas transpunha essa estrutura para um universo atemporal e distante, onde um bando de rebeldes lutava com sabres de luz e naves espaciais contra um poderoso Império do Mal. Sendo que o bando de rebeldes incluía um fazendeiro jeca, uma princesa guerrilheira, um mercenário simpático e seu ajudante peludo, uma espécie de duende sábio, um espadachim da terceira idade e dois robôs atrapalhados, que se valiam da crença numa certa Força espiritual para combater aqueles que dominavam o lado negro dessa mesma Força. “Eu pus a Força para tentar despertar um certo tipo de espiritualidade em pessoas jovens – mais uma convicção em Deus do que uma convicção em qualquer sistema religioso”, disse à revista Time.
A Universal, que financiara o segundo longa de Lucas, American Graffitti, e a United Artists, distribuidora de grande parte dos filmes mais parrudos de então, desconversaram. Mas Alan Ladd Jr., da Fox, resolveu apostar no garoto e arranjou-lhe 50 mil dólares para desenvolver o projeto. Depois de várias alterações no roteiro – o tratamento original sequer incluía o personagem Darth Vader – Lucas tinha um calhamaço de 200 páginas nas mãos. Teve de cortar. E desenvolveu apenas uma pequena parte de todo o universo que criara, com a esperança de que um primeiro sucesso talvez possibilitasse a continuação da saga. No início de 1977, às vésperas da estréia do que viria a ser conhecido como Guerra nas Estrelas – Episódio IV: Uma Nova Esperança, a incerteza era geral. Os executivos estavam preocupados porque o filme havia estourado em 3 milhões de dólares seu orçamento inicial de 8 milhões, um custo mediano para a época. Filas quilométricas nas portas dos cinemas no dia da estréia, no entanto, derrubaram todos os medos.
Guerra nas Estrelas arrecadou 461 milhões de dólares em solo americano (a segunda maior bilheteria de todos os tempos, perdendo apenas para Titanic, em 1997), e 780 milhões de dólares em todo o mundo (a 13ª maior bilheteria, tendo segurado o primeiro posto até 1996, quando foi batida por Jurassic Park). Uma empresa de médio porte que havia assegurado a produção de bonecos baseados nos personagens do filme não deu conta do recado e teve que vender cupons prometendo a entrega dos brinquedos para meses depois. Com algumas semanas de exibição, fãs caracterizados como personagens do filme começaram a aparecer nas filas dos cinemas, iniciando uma onda de fã-clubes que chega hoje a dezenas de milhares em todo o mundo. Se os mitos sempre foram importantes para a construção da identidade dos povos em diferentes épocas, talvez o fenômeno Guerra nas Estrelas se explique porque, pela primeira vez na história, uma mitologia se construiu numa escala universal de valores e foi explorada em todas as suas possibilidades de consumo de massa. E, isso, empacotado com um novo universo visual, totalmente fascinante para a época.
Depois do filme, a própria indústria cinematográfica nunca mais foi a mesma. Como a história da humanidade, o cinema pode ser dividido em períodos: a Pré-História, com seus filmes de um rolo (máximo de 10 minutos) exibidos em qualquer buraco onde se acumulasse uma platéia ávida por novidades; a Era Clássica, iniciada por Nascimento de uma Nação (1915), de D.W. Griffith, que sintetizou a gramática cinematográfica, e a Era Moderna, inaugurada pelas invencionices do menino-prodígio Orson Welles, em Cidadão Kane (1941). Com a saga Guerra nas Estrelas, teve início o que podemos chamar de Era Contemporânea, com produções repletas de efeitos especiais, ação ininterrupta, continuações, altos orçamentos e com um olho na bilheteria e outro na indústria de licenciamentos e merchandising.
Paradoxalmente, esse fenômeno fortaleceu um sistema que a geração de Lucas se empenhava em derrubar, dando novo fôlego para que as majors  alcançassem um domínio e uma lucratividade no mercado mundial nunca vistos. Essas empresas viviam então um impasse mercadológico: tinham perdido o faro para o cinema de entretenimento, gerando uma brecha que possibilitou o surgimento de toda uma geração de cineastas contestadores, que se aproveitaram para impor um novo estilo de fazer filmes. Guerra nas Estrelas deu de bandeja a fórmula para o contra-ataque, mas é injusto culpar o filme por tudo que aconteceu depois. A crise das majors tinha derrubado o preço de suas ações, permitindo sua aquisição, a partir de meados dos anos 70, por grandes conglomerados, com muito dinheiro para ser gasto e centro de decisões difuso, onde fórmulas que permitiam horizontalizar os lucros – como a “inventada” por Guerra nas Estrelas – eram um bálsamo. Mas Lucas jamais colocou os filmes seguintes da série – O Império Contra-Ataca (1980), O Retorno de Jedi (1983), A Ameaça Fantasma (1999) e O Ataque dos Clones (2002), a serviço de um ideário corporativo, fato muito comum nos  anos 80, quando filmes como Rambo ou Top Gun eram a clara tradução do espírito belicista da Era Reagan, disfarçados sob o signo de muita ação e efeitos especiais.
As vésperas do lançamento mundial de A Vingança dos Sith, Lucas lidera uma outra revolução, talvez inaugurando uma nova era: a Era Digital, cujo marco inicial é justamente o episódio anterior, O Ataque dos Clones, rodado em sistema HDTV (vídeo digital de alta definição) sem qualquer utilização de película cinematográfica. Produzido a um custo de 115 milhões de dólares e com um número recorde de 2300 planos contendo, cada um, pelo menos um efeito especial, A Vingança dos Sith revelará finalmente como o jovem Anakin Skywalker se transformou no vilão Darth Vader e mostrará o nascimento de seus filhos, os futuros heróis Luke e Leia. A produção trará também todo um exército de Wookiees – a raça do carismático assistente de Han Solo, Chewbacca – para alegria dos fãs, além do ansiosamente esperado duelo de sabres entre Anakin e Obi-Wan Kenobi.

O bem contra o mal
Velhos mitos ganham roupa nova e viram os deuses e os diabos dos jovens.
Yoda
É a voz da sabedoria. Ele representa o mestre supremo das artes que caracterizam um jedi: controle total do corpo e da mente. Um buda de outra galáxia.
Luke Skywalker
Guerreiro corajoso, que vive um dilema: empunhar a espada do bem ou se bandear para o lado do pai, o vilão Darth Vader. Versão moderna de Aquiles, o guerreiro da Ilíada.
Obi-Wan Kenobi
Mestre de duas gerações de skywalkers. Ele tem uma vida tumultuada, repleta de lutas intermináveis pela justiça. É inspirado nos samurais.
Palpatine
O senhor das forças negativas. Ele atravessa a saga promovendo a discórdia e a morte. Foi inspirado em Nosferatu, o vampiro.
Stormtrooper
Os stormtroopers formam o grosso das forças do Império em toda a galáxia. São o braço armado do mal.
Darth Vader
É o maior representante do “lado escuro da Força”. Quem é ele na mitologia? Saturno, o Deus romano que devorou os próprios filhos.
Super-herói ou vilão?
Com Guerra nas Estrelas,George Lucas inventou o merchandising e o licenciamento no cinema.
Parte de uma geração egressa das escolas de cinema nos anos 1960, George Lucas vivia um momento crucial em sua carreira quando começou a escrever Guerra nas Estrelas. Após o fracasso da ficção científica THX 1138, ele se preparava para lançar um filme de baixo orçamento, American Graffitti, feito sob a desconfiança dos estúdios e a bênção de seu ex-sócio Francis Ford Coppola, que se estabelecia como novo menino-prodígio com o sucesso de O Poderoso Chefão. Lucas sabia que um novo fracasso poderia enterrar suas pretensões como diretor de cinema, aliás nada modestas: ele fazia parte de uma turma que, assumidamente, pretendia “transformar o sistema por dentro”. Ou seja, instaurar um novo equilíbrio no jogo de poder entre as majors e os realizadores independentes. Contrariando as expectativas, American Graffitti, que mostrava uma noite na vida de um grupo de adolescentes na cidade natal do diretor, fez um baita sucesso. Tendo custado 770 mil dólares, faturou cinco indicações ao Oscar e 115 milhões de dólares só nas bilheterias americanas. O sucesso deu a “Força” que Lucas precisava para buscar financiamento para seu novo projeto. Quando Guerra nas Estrelas explodiu, o cineasta tinha dado um nó nos executivos da Fox: ao negociar seu contrato, topara um salário de “apenas” 150 mil dólares e uma participação nos lucros reduzida a 40% em troca de manter 100% dos direitos de merchandising do filme. Com isso, Lucas lucrou mais de 3 bilhões de dólares com a venda de brinquedos, camisetas, games, bonés, pôsteres e outros produtos ilustrados pelos personagens da saga. E, desde então, direitos de merchandising se tornaram a parte mais importante dos contratos na grande indústria. Os detratores de Lucas o acusam de ser uma espécie de Darth Vader: alguém que se rendeu ao lado negro da “Força”, salvou o Império Galáctico do cinema hegemônico, infantilizou as platéias e atirou aqueles cineastas preocupados em realizar um cinema voltado para audiências adultas em uma resistência tão patética quanto a do pequeno grupo que se junta em torno do capiau Luke Skywalker com a missão de destruir a Estrela da Morte. Seus defensores (tirando os mais fanáticos, para quem Lucas tem poderes superiores ao próprio Mestre Yoda) contra-atacam: compará-lo a Vader seria o equivalente a comparar os Beatles aos Malvados Azuis (os vilões de “Yellow Submarine”) e dizer que eles infantilizaram a música, só porque souberam faturar em cima de faro mercadológico. Afinal de contas, como bem demonstram as artimanhas políticas em O Ataque dos Clones e a redenção final de Vader em O Retorno de Jedi, a linha entre Bem e Mal não é assim tão clara. A meta de “transformar o sistema por dentro” se cumpre por vias tortas: Lucas é hoje um cineasta totalmente independente.

 Aventuras na História n° 022

Procura-se arte roubada

Sérgio Miranda

O mercado de arte roubada já é a quarta atividade criminosa mais lucrativa. Mesmo obras dos grandes mestres, tão famosas que não têm compradores, continuam sendo roubadas. Conheça a lista das mais procuradas (e valiosas) telas que permanecem desaparecidas.
Imagine a cena: você é convidado para jantar na casa daquele seu amigo cheio da nota. Depois dos cumprimentos e um aperitivo, vocês passam à mesa. Enquanto você tenta se decidir se vai de vinho tinto ou branco... surpresa! Você dá de cara com a Mona Lisa na parede. Mesmo não sendo nenhum especialista em obras de arte você ia saber que há alguma coisa errada, né?
Todos os dias, pinturas, esculturas, cerâmicas, peças arqueológicas e objetos em ouro e prata são roubados de museus, galerias, palácios, hotéis ou até mesmo residências em alguma parte do mundo. No Brasil, as vítimas principais são as igrejas e mosteiros. Colocados à venda, a maioria não desperta  suspeitas e são revendidos com facilidade num mercado paralelo que inclui pequenas galerias, antiquários e colecionadores prontos para negociar objetos pouco conhecidos, não catalogados e muitas vezes nem identificados. De acordo com a Interpol (a organização policial que persegue criminosos além das fronteiras internacionais), esse mercado movimenta perto de 5 bilhões de dólares todos os anos e já representa a quarta atividade ilegal mais lucrativa no mundo, perdendo apenas para o contrabando de armas, o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. Mas o que dizer das obras-primas reconhecidas por qualquer mané em matéria de arte? Para onde elas vão?
É difícil imaginar que um colecionador de artes compraria um quadro de Leonardo da Vinci ou Pablo Picasso roubado e o colocaria na parede de sua sala de jantar. Ou achar que milionários excêntricos guardariam obras surrupiadas em cofres secretos atrás das paredes de mármore de suas mansões só pelo prazer solitário de apreciá-las. Segundo informações do escritório da Interpol em Londres, isso não passa de lenda. “Jamais foi registrada uma denúncia ou apreensão com essas características”, afirma a assessoria da entidade. Então por que “picassos” e “da vincis” continuam – ainda que raramente – sendo roubados?
A resposta é simples: pelo resgate. Na noite de 23 de maio de 2003, um homem escalou uma parede de 25 metros de altura e invadiu o Museu de História da Arte de Viena. Quarenta minutos depois, ele saiu pela mesma janela levando a última peça que restava da coleção de ourivesaria de Benvenuto Cellini (pintor e escultor italiano da Renascença), um saleiro feito por volta de 1550 e avaliado em 60 milhões de dólares (cerca de 150 milhões de reais). Três meses depois um pedido de resgate exigia 3,8 milhões de euros (ou quase 12 milhões de reais). Bem mais que a recompensa de 70 mil euros (ou 230 mil reais) que o governo austríaco oferece por informações sobre o roubo. A pequena escultura continua desaparecida.
A Interpol não gosta de admitir, mas o crescimento desse mercado paralelo está criando um tipo de agência especializada em encontrar e negociar com os criminosos a devolução das obras. Para a Interpol, isso também é crime. E, se descobertas, essas pessoas estão sujeitas às mesmas penas que os verdadeiros ladrões. Sem opções, no entanto, cada vez mais galerias e museus acabam recorrendo a esses “especialistas” em negociação com o crime organizado para tentar encontrar suas obras. Em 2001, a Tate Gallery de Londres conseguiu recuperar duas obras do paisagista Willian Turner – um dos mais importantes pintores do romantismo inglês – depois de gastar 3,5 milhões de libras (ou 16 milhões de reais) entre “recompensas” e custos legais. Recompensas assim mesmo, entre aspas, pois as autoridades policiais consideram esses pagamentos uma espécie de “resgate disfarçado”. Em 2004, dois outros casos em que se ofereceram “recompensas” não foram bem sucedidos, segundo a Interpol.
Segundo o cadastro da entidade policial existem atualmente cerca de 15 mil itens desaparecidos considerados de “grande valor”. Alguns deles avaliados em vários milhões de dólares, como a Madona do Fuso, de Leonardo da Vinci, avaliada em mais de 140 milhões de reais e pela qual seu proprietário, um milionário escocês, oferece uma recompensa recorde: 5 milhões de reais por qualquer informação que ajude a encontrar a tela roubada em agosto de 2003. Conheça nas páginas dessa reportagem as obras mais caras e famosas que continuam desaparecidas. E saiba também como elas desapareceram.
O Grito (1893)
Autor: Edvard Munch (1863-1944)
Data e local: 22 de agosto de 2004 - Museu Munch, em Oslo, Noruega
Preço avaliado: 117 milhões de reais
O roubo: De dia, durante o horário normal de visitação, dois homens encapuzados entraram no museu. Um deles, armado, rendeu os guardas e o outro recolheu duas obras de Munch, O Grito e Madona, sob o olhar atônito dos visitantes. As câmeras de segurança de um banco do outro lado da rua flagraram a fuga: com os quadros nas mãos, os ladrões saíram correndo pela rua, entraram num carro e se mandaram. No caminho deixaram uma das obras cair duas vezes. Em abril, a polícia norueguesa prendeu dois suspeitos de terem participado da ação. Um deles é o dono do carro da fuga, mas as obras ainda não foram localizadas. No começo de maio, o jornal Dagbldet, de Oslo, citando fontes “ligadas à polícia”, afirmou que as obras foram queimadas. A polícia norueguesa nega.
A obra: Munch pintou quatro versões deste quadro, que se tornou uma das mais famosas imagens do expressionismo. O desespero do personagem que aparece sobre uma ponte em Oslo é freqüentemente associado aos problemas enfrentados pelo próprio artista: sua mãe morreu quando ele tinha apenas 5 anos, uma de suas irmãs morreu de tuberculose e outra foi internada num manicômio.
Natividade com São Francisco e São Lourenço (1609)
Autor: Caravaggio (1572-1610)
Data e local: 1969 - Igreja de São Lourenço, Palermo, na Itália
Preço avaliado: 100 milhões de reais
O roubo: A falta de segurança do pequeno oratório da igreja facilitou o trabalho dos ladrões, que aproveitaram um momento de pouco movimento para subir no altar e retirar o quadro. Nunca ninguém foi preso pelo crime e as primeiras investigações indicaram a participação da máfia siciliana, que teria tentado vender a tela na década de 70 e, como não conseguiu, a teria destruído para eliminar as provas do roubo. Outra versão para o destino do quadro é a de que ele tenha sido destruído durante um terremoto, em 1980. Em 1997, o mafioso Francesco Marino Mannoia disse durante o julgamento do ex- primeiro ministro Giulio Andreotti, que esse iria receber o quadro das mãos da máfia, mas que a tela teria ficado arruinada quando tentaram separá-la da moldura. De qualquer modo, há alguns anos que uma cópia ocupa o lugar da tela original na igreja de São Lourenço.
A obra: Queridinho de nobres e religiosos de Roma (entre eles o próprio papa), Caravaggio fugiu para a Sicília (um lugarzinho ermo no início do século 17), supostamente para evitar uma acusação de assassinato: ele teria matado um sujeito que lhe foi cobrar uma dívida de jogo. Na ilha, ele ganhou a vida pintando cenas bíblicas e a vida dos santos por encomenda das igrejas da região. A Natividade é uma dessas obras, realizada pouco antes do artista morrer, em 1610.
Madona do Fuso (1500/10)
Autor: Leonardo da Vinci (1452-1519)
Data e local: 27 de agosto de 2003 - Castelo de Drumlanrig, na Escócia
Preço avaliado: 146 milhões de reais
O roubo: Num anúncio de 2001, uma agência de turismo de Edimburgo oferecia visitas monitoradas ao castelo de Drumlanrig, a residência do duque de Buccleuch, um dos homens mais ricos da Escócia. Pelo equivalente a 140 reais, o turista era levado aos aposentos e aos jardins da construção que tem quase 400 anos. Podiam ver ainda uma das coleções de arte mais representativas do país, com obras importantes, como trabalhos de Rembrandt e Holbein. Um acervo avaliado em cerca de 1,9 bilhão de reais. O ingresso incluía transporte, seguro-viagem e um lanchinho na volta. Em agosto de 2003, dois sujeitos resolveram aproveitar tantas facilidades para realizar outro tipo de negócio: o roubo. Misturados entre os visitantes, eles entraram no prédio e se esconderam dos guias. Simplesmente arrancaram o quadro da parede e saíram correndo pela porta principal. Foram vistos pela última vez entrando num Volkswagen Golf de cor branca.
A obra: Em 1992, um dos maiores especialistas na obra de Leonardo da Vinci, Martin Kemp, concluiu que a tela fora executada realmente por ele entre 1500 e 1510, sob encomenda do secretário de estado de Luís XII. A recompensa por qualquer informação, a maior já oferecida em casos de obras de arte, chega a 1,5 milhão de euros (ou 4,8 milhões de reais).
O Concerto (1664/67)
Autor: Vermeer (1632-1675)
Data e local: 18 de março de 1990 - Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, Estados Unidos.
Preço: 211 milhões de reais
Cristo na Tempestade sobre o Mar da Galiléia (1633)
Autor: Rembrandt (1606-1669)
Data e local: 18 de março de 1990 - Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, Estados Unidos
Preço: 150 milhões de reais
O roubo: Perto da meia-noite, dois policiais se aproximam de uma porta lateral do museu e dizem aos seguranças que precisam inspecionar o edifício já que aconteceu uma ocorrência nas imediações. Os guardas caíram nessa e abriram a porta. Dançaram: foram amarrados, amordaçados e ainda tomaram uma meia dúzia de sopapos. Usando máscaras e luvas, os ladrões ficaram mais de uma hora no edifício e, calmamente carregaram o porta-malas de seu carro com 11 quadros e dois objetos avaliados em 320 milhões de dólares, o que fez desse, o maior roubo de obras de arte da história. E o prejuízo poderia ter sido maior. Por distração ou desconhecimento, os larápios deixaram para trás O Rapto de Europa, de Ticiano, de longe a pintura mais valiosa nos Estados Unidos.
As obras - Por algum motivo inexplicável, Rembrandt é o artista da velha escola (anterior ao século 19) que mais tem pinturas incluídas na lista da Interpol de quadros roubados. O alto valor da avaliação dessa obra deve-se ao fato de ela ser a única paisagem marítima pintada pelo mestre holandês. Mais cara ainda, no entanto, é O Concerto, de Vermeer, a obra de arte roubada com a mais alta avaliação do mundo. Isso porque atualmente só restam 36 obras conhecidas do mestre holandês. A enigmática pintura roubada em Boston seria a trigésima sétima.
Santa roubalheira
No Brasil, arte sacra é o principal alvo
A capela de Santa Quitéria, perto de Ouro Preto, em Minas, está vazia. Avaliadas em 600 mil reais, foram roubadas do santuário – de uma vez só – 11 peças: sete imagens e quatro castiçais, todos esculpidos em madeira do século 18. Em Viana, no Espírito Santo, os moradores não ouvem mais as badaladas na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, que anunciavam o começo e o final dos dias. O sino sumiu. A matriz de São Caetano, em Mariana, Minas Gerais, perdeu dez santos de uma vez só. Um deles, uma imagem rara de São Benedito das Flores talhada no século 17, avaliada em mais de 100 mil reais. Quando estes roubos aconteceram? Como? Quem cometeu o sacrilégio? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem mesmo as datas do desaparecimento das peças sacras, o principal alvo dos ladrões de arte no Brasil, estão devidamente registradas. Já o destino das obras é conhecido: o forno – pelo menos as feitas de ouro ou prata. As demais vão parar nas coleções particulares em São Paulo e Rio de Janeiro, onde os bandidos aproveitam a falta de catalogação das obras para falsificar documentos e legalizar as peças. Um santo barroco do século 18 pode alcançar 150 mil reais em casas de leilão e antiquários. Desde 1997 o Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – do Ministério da Cultura, combate o tráfico de bens culturais e tenta localizar obras roubadas. Já catalogou mais de 900. Em 2003, conseguiu recuperar 167 obras barrocas, entre elas uma imagem de Nossa Senhora de Sant’Anna que iria a leilão com lance inicial de 400 mil reais.

Aventuras na História n° 022

Era dos Extremos: vivendo no limite

Fábio Metzer

Em Era dos Extremos, o escritor Eric Hobsbawm destrincha os acontecimentos do século 20
O que foi e qual o impacto do Socialismo soviético? Quando começou o declínio dos Estados nacionais? Por que ainda se fala em autodeterminação dos povos? E o que é esta tal revolução tecnológica- informacional ? Para entender o século 21, é preciso conhecer o século 20. Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos, esmiuça  esse período com a autoridade de quem viveu a época. Segundo ele, o século 20 começa em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, e termina em 1991, com o fim da União Soviética. Este breve século caracterizou-se por extremos. De um lado, o povo alcançou um padrão de vida até então inimaginável. Paradoxalmente, foi o período em que aconteceram as maiores catástrofes da História.
Hobsbawm divide o século 20 em três etapas: a “Catástrofe” (1914-1945), quando potências mundiais chafurdaram em um confronto bélico; a “Idade de Ouro” (1945-1973), quando se ergue um novo sistema, mais desenvolvido e fortalecido; e o “Desmoronamento” (1973-1991), que trata do desmonte dos Estados nacionais, da queda do bloco socialista e do desenvolvimento da tecnologia de informação.

Gangorra
Na primeira etapa do breve século, Hobsbawm relata a “Catástrofe”, ocasionada por duas guerras mundiais, que ele classifica como um embate só: a “Guerra dos 31 Anos” (1914-1945). Nessa etapa, os projetos nacionais das potências capitalistas européias entraram em choque. De um lado, França e Grã Bretanha, de outro, a desafiante Alemanha. Com o conflito, as velhas monarquias feudais – Império Áutro- Húngaro, Império Otomano e Rússia czarista – perderam seus territórios. Da primeira, surgiram novos Estados nacionais. A segunda foi retalhada entre França e Grã Bretanha. E a partir do que restou da terceira apareceu uma potência ideológica, a União Soviética. Com as mudanças no mapa tornou-se necessário um órgão internacional para regular as nações beligerantes. Nasceu, então, a Liga das Nações, que antecedeu a Organização das Nações Unidas (ONU).
Só que o medo da expansão socialista e a humilhação dos países derrotados da Primeira Guerra Mundial criaram o cenário para a ascensão do nazismo, que levou ao extremo ideais nacionalistas étnicos e desafiou as potências vencedoras, ignorando a Liga das Nações. Assim tornaram-se inevitáveis os confrontos expansionistas. Primeiro, na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), e depois durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O derramamento de sangue na Europa, – ou a Guerra dos 31 anos – consolidou a vitória de duas potências ideológicas rivais: Estados Unidos e União Soviética.
A segunda etapa do século começou com os vitoriosos da Segunda Guerra dividindo as áreas de influência do mundo. De um lado, o bloco socialista, e de outro, uma nova versão do capitalismo visando barrar o avanço comunista. No bloco capitalista, vivia-se uma era de industrialização privada, de investimentos no setor público, de consolidação das burocracias e de expansão do ensino público. Ou seja, uma releitura do modelo capitalista clássico, do economista John Maynard Keynes – o keynesianismo. No bloco socialista, o avanço industrial apoiou-se no planejamento estatal, com políticas de redistribuição de renda e burocratização do Estado.
Na chamada “Idade de Ouro”, houve um boom econômico nas sociedades capitalistas. As nações desenvolvidas criaram os “Estados de Bem-Estar Social”. Já os países subdesenvolvidos apostaram em projetos desenvolvimentistas, com rápida industrialização e grande melhora na qualidade de vida da população. O bloco socialista tornou-se o contraponto para os regimes ocidentais, oferecendo uma alternativa política. Isso fez com que os países capitalistas buscassem formas alternativas para se sustentar, ao mesmo tempo em que consolidavam suas instituições.
Nesse período de transição muitos Estados nacionais tornaram-se independentes. A liberdade resultou de dois fatores: a decadência dos projetos coloniais; e a nova ordem, liderada pelos Estados Unidos e pela União Soviética, que defendiam a independência em nome de seus interesses, e do princípio da autodeterminação dos povos, que regularia um novo Sistema Internacional de Estados Nacionais. Surge aí uma nova instituição, a ONU, que começou a ter um papel de legitimadora desse princípio, e de fórum de discussões entre os dois blocos políticos rivais.

Desmoronamento
A partir de 1973, muitas mudanças ocorreram: a revolução dos costumes, iniciada em 1968; a derrota dos Estados Unidos no Vietnã; a revolução da tecnologia de informação; a queda da União Soviética e a ascensão da China socialista na economia de mercado. Tudo isso revelou um novo momento, em que a velha ordem estava sendo questionada. A dinamização das economias em escala global alterou o equilíbrio entre as esferas de poder socialista e capitalista, dando início à fase do “Desmoronamento”. O modelo de Estados nacionais, criado a partir de 1780, e todos os seus avanços, estava sendo superado. A globalização atingia quase todos os países.
Nesse momento, a crise do mundo socialista já era visível. O bloco comunista não suportou a competição da economia global, com suas constantes flutuações. Certamente, Ocidente e Socialismo estavam amarrados a uma interdependência geopolítica. Mas o equilíbrio de forças alterou-se com a revolução tecnológica- informacional. A diferença entre os dois sistemas é que o capitalismo era mais flexível e se adaptou melhor à transição enquanto a rigidez do socialismo o tornou vulnerável. Sem o contraponto comunista, defensores da economia de livre mercado ganharam força. A partir dos anos 80, a desigualdade de renda aumentou e os mercados entraram na era da globalização.
O keynesianismo, defensor de investimentos diretos do Estado, sofreu uma derrota, na medida em que a desaceleração econômica não poderia mais gerar um crescimento nos lucros e rendas do Estado, enquanto as rendas e os lucros privados de grandes empresas cresceram. O ultraliberalismo, para Hobsbawm, porém, não podia ser uma alternativa. Experiências do Leste Europeu pós-comunista, por exemplo, causaram resultados catastróficos. Curiosamente, a economia que foi se tornando mais dinâmica foi a da China comunista, que combinou um sistema socialista com uma inserção capitalista no mercado.
O retrato de todas essas mudanças do breve século 20 foi a alteração da forma de trabalho e o crescimento do desemprego, que não é cíclico e, sim, estrutural. Indústrias foram transferidas do primeiro para o terceiro mundo. Ao mesmo tempo, um processo de automação fez com que a máquina substituísse o homem na produção. E mais: esse avanço tecnológico se deu com o aumento da eficiência e o barateamento da produção, expondo o trabalhador a salários baixos e à competitividade livre entre as nações. Os sindicatos perderam poder. Com os trabalhadores tornando-se desnecessários, a revolução tecnológica não criou empregos para compensar tantas mudanças. Diante dessa situação, desenvolveu-se uma economia informal.
Os efeitos para os países pobres foram devastadores, com o endividamento cada vez maior sem o crescimento econômico. E o que sobrou disso ? Com o desmoronamento dos Estados nacionais, formaram-se mini- Estados destituídos de mecanismos independentes para delimitar suas fronteiras, onde o étnico ou o religioso predomina sobre o universal. Existem, claro, defesas para este fenômeno. A União Européia se fez um Estado dos Estados, que administra questões comuns dos países europeus. Mas sua eficiência ainda não está comprovada. As instituições, como a ONU, não dão conta das mudanças. A ascensão da China como potência é insuficiente, diante da vantagem dos Estados Unidos. Enfim, a Era dos Extremos, bem vivida por Hobsbawm, termina e dá lugar a uma nova Era, feita de incertezas, em que novos desafios estão postos, novas questões são debatidas, mas velhos conceitos ainda predominam.

Aventuras na História n° 022