quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Como surge um deserto?


Para uma área ser considerada desértica, ela precisa reunir pelo menos dois elementos: solo arenoso e clima quente e seco, com baixíssimos índices de chuvas durante um longo período. Os desertos que existem hoje na Terra experimentam há milhares de anos uma média de chuvas menor que 250 milímetros por ano, um índice seis vezes inferior ao da cidade de São Paulo, por exemplo. Isso quer dizer que demora muito tempo para um deserto aparecer. "Portanto, não é verdade que as áreas desérticas estão avançando pela superfície da Terra durante as últimas décadas. A presença de areia, por si só, não caracteriza um deserto", afirma o geógrafo Roberto Verdum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A origem de tanta confusão é a compreensão errada do conceito de desertificação. No seu sentido correto, a palavra indica a expansão de terrenos arenosos pelo planeta - geralmente por causa do esgotamento dos solos - e não dos desertos. Mais: ao contrário do que se pensa, não é um fenômeno irreversível.
"Estudos recentes mostram que áreas que sofreram com a desertificação podem recuperar a cobertura vegetal quando termina o período de seca mais agudo", diz Roberto. Claro que isso não diminui a gravidade do problema. Em todo o mundo, estima-se que a desertificação atinja 1 bilhão de pessoas em cerca de 110 países, chegando a ameaçar um terço das terras do globo. O continente mais afetado é a África, onde 73% dos terrenos agricultáveis já sofreram algum grau de degradação. No Brasil, a desertificação avança sobre uma área de 1 milhão de quilômetros quadrados no semi- árido nordestino e no norte de Minas Gerais. Para combater o problema, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou a Convenção de Combate à Desertificação, um acordo internacional em vigor desde 1994 e assinado por mais de 180 países - o Brasil é um deles. Mas até agora os investimentos foram tímidos e não conseguiram impedir que as areias avancem a uma velocidade de 60 mil quilômetros quadrados por ano.

Da vida ao pó
Mau uso do solo é um dos principais fatores para a desertificação.
1. Em áreas com terrenos arenosos, a mata nativa é essencial para proteger o solo da degradação. As raízes das árvores sustentam a terra e retêm água, evitando a erosão. A situação começa a mudar quando a área é ocupada de maneira predatória. O desmatamento da vegetação nativa ou nas margens de rios, as queimadas, a agropecuária intensiva, o uso indiscriminado de agrotóxicos e as práticas inadequadas de irrigação podem iniciar o processo de desertificação.
2. Com a ocupação agrícola, parte da mata nativa é derrubada para dar lugar a plantações. Sem a proteção das raízes, o solo perde matéria orgânica e começa a ter camadas removidas. A cada nova cultura,  a aragem do terreno e a ação da chuva carrega nutrientes do solo e diminui sua espessura original. A terra nua sofre com a erosão e o leito dos rios diminui de volume com os deslizamentos de terra.
3. O mau uso do solo acaba com a produtividade nas terras baixas e força o agricultor a desmatar uma área na encosta para prosseguir com o plantio. Nessa região, os efeitos da erosão são ainda mais rápidos. As terras abandonadas só servem como pasto para o gado. Em alguns anos, a produtividade das encostas também diminui e a faixa plana já virou areia.
4. Em poucas décadas, a região fértil e verde dá lugar um terreno arenoso e improdutivo. Com a ação do vento e da água, toda a faixa do solo já desapareceu e só sobrou areia e rocha. Mas isso não significa que a área se tornou um deserto, porque a desolação tem remédio: basta desocupar a área para que gramíneas e capins mais resistentes voltem a aparecer. A recuperação total do solo, entretanto, pode demorar séculos.

Um continente que seca
Na África, área do tamanho de Minas Gerais está ameaçada.
A África é, de longe, o continente mais atingido pela desertificação. Na borda sul do deserto do Saara, uma região do tamanho do estado de Minas Gerais virou areia nos últimos 50 anos. Hoje, a ameaça de desertificação atinge quase dois terços do continente. Além das constantes secas, os solos sofrem com a substituição das lavouras de sustento por culturas de exportação desde os anos 40. O problema tem consequências sociais graves: nas próximas duas décadas, cerca de 60 milhões de pessoas devem deixar as terras atingidas pela desertificação, migrando para o norte da África ou para a Europa.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003

Como surge um incêndio florestal e como combatê-lo?


Rodrigo Ratier
Os incêndios mais destruidores aparecem com uma combinação explosiva de três fatores. Primeiro, um clima quente e seco, em que a umidade do ar não ultrapasse 20%. Segundo, a presença de alguma coisa que provoque a primeira fagulha, desde um relâmpago até um simples cigarro aceso. Por último, combustível para alimentar as chamas - e isso as florestas têm de sobra, com suas toneladas de madeira inflamável, arbustos e folhagens secas. Se estiver ventando muito, pior ainda: as correntes de ar são capazes de carregar uma folha flamejante por até 50 metros de distância. Isso gera desastres como o incêndio de Roraima em 1998, quando arderam 14 mil quilômetros quadrados de floresta, uma área quase dez vezes superior à da cidade de São Paulo. No país, 95% dos incêndios são causados pela ocupação desordenada da zona rural. "O corte de madeira abre clareiras no meio da floresta, diminuindo a resistência  do solo e a umidade da área. Mas o grande inimigo são as queimadas.
Nas  secas, elas fogem de controle e avançam sobre as áreas de floresta intocada", afirma o sociólogo Flávio Montiel, diretor de proteção ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A região que mais sofre com o problema é o chamado arco do desmatamento, uma faixa de 3 mil quilômetros de extensão e de até 600 quilômetros de largura, que vai do Pará ao Acre, nas bordas da floresta Amazônica. Para evitar os incêndios, o Ibama possui um sistema de quatro satélites que monitora os focos de calor nos territórios críticos. "Na suspeita, a ordem é destacar uma equipe para combater o fogo. Cada  minuto é precioso para evitar que o incêndio se alastre", diz o agrônomo Hélio Ogawa, do Instituto Florestal do Estado de São Paulo. As estratégias para vencer o incêndio incluem o combate com brigadas, aviões e helicópteros, ou ainda isolar a região em chamas para limitar os danos.

Operação mata-chamas
Luta contra o fogo conta com ataque aéreo e pode mobilizar até 500 homens

ÁGUA PORTÁTIL
Como a maioria das florestas fechadas impede o acesso de caminhões-pipa,o kit dos brigadistas contra as chamas inclui bombas d’água portáteis de 40 litros. Apesar de limitadas, elas são a melhor arma para eliminar focos de fogo oculto.

VASSOURA SALVADORA
Além de roupas protetoras, equipes de até 500 brigadistas de combate ao incêndio têm um equipamento essencial: a vassoura-de-bruxa, um bastão com tiras de lona que abafam as chamas e extinguem o fogo.

REDUZINDO O ESTRAGO
Quando o fogo avança rápido, a melhor estratégia é usar tratores para limpar uma faixa do terreno e cercar as chamas. Ao mesmo tempo, os brigadistas provocam incêndios controlados para reduzir o combustível disponível.

CONTRA-ATAQUE AÉREO
Aviões-tanque e helicópteros com capacidade para até 4 mil litros de água sobrevoam a área e despejam o líquido sobre o incêndio. Em casos graves, a água é misturada aos chamados retardantes, composto de óxido de ferro e fertilizantes que, em contato com as árvores, protege contra as chamas e diminui o ritmo da combustão da madeira.
1. Em condições de clima quente e seco, basta um relâmpago, um cigarro aceso ou uma simples fogueira abandonada para começar um grande incêndio florestal. Quando a mata começa a queimar, o ar quente das chamas tende a subir, criando um vácuo próximo à área verde.
2. O vazio deixado pela coluna de fumaça é rapidamente preenchido por uma corrente de vento fresco. O oxigênio alimenta a combustão e os sopros de ar transportam folhas flamejantes a até 50 metros de distância, ultrapassando rios e vales e espalhando o potencial de destruição do incêndio.
3A. Nas florestas podem ocorrer três tipos de incêndio. O mais frequente é o chamado fogo rasteiro, que avança pela superfície do solo, queimando arbustos, palha e capim seco. A grande quantidade de material inflamável funciona como um reservatório de combustível.
3B. O segundo tipo de incêndio é o fogo de copa, que consome as folhas das árvores e é o mais difícil de combater. Como as chamas podem estar a mais de 40 metros de altura, é preciso usar socorro aéreo ou derrubar a árvore para conter as chamas.
3C. O último tipo, o chamado fogo oculto, é o mais traiçoeiro. Esse fogo queima lentamente a parte interna de troncos e raízes como um carvão em brasa por até dez dias. Nessas situações, basta uma rajada de vento para recomeçar o incêndio.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003

Quem são as gueixas?


São mulheres da sociedade japonesa que se dedicam às artes e à preservação das tradições daquele país. Uma gueixa se especializa em canto, dança, música e poesia para oferecer à elite local sua companhia culta e sofisticada em festas e recepções. Elas são parte fundamental da cultura japonesa desde o final do século 17. "O papel das gueixas mudou várias vezes com o passar do tempo. No Japão moderno elas zelam pelas artes tradicionais. Ainda assim o papel delas é ambivalente: possuem um grande status na sociedade, mas ao mesmo tempo não são consideradas mulheres respeitáveis", diz a antropóloga americana Liza Dalby, que fez uma tese de doutorado e publicou um livro sobre o tema, Gueixa. Apesar de algumas gueixas realmente se tornarem amantes de seus dannas - uma espécie de patrocinador que banca o elevado custo de treinamento dessas mulheres -, não é correto confundi-las com prostitutas de luxo.
Também é falsa a idéia, bastante comum no mundo ocidental, de que elas são um estereótipo da mulher submissa, cujo objetivo na vida é satisfazer um homem. Na verdade, as gueixas têm existência muito independente e participam ativamente da vida social, sendo responsáveis por suas carreiras e sem terem as preocupações familiares das mulheres comuns, pois não costumam se casar. Uma garota se torna aprendiz de gueixa (maiko) por volta dos 17 anos, após estudar as artes tradicionais japonesas (como o origami), história, poesia e canto, aprender a tocar instrumentos musicais, ter aulas de postura e de tarefas domésticas. Todo esse treinamento é feito em casas chamadas oki-ya, nas quais o acesso é extremamente restrito para pessoas que não fazem parte desse mundo reservado das gueixas.

Visual simbólico
Roupa e até penteado têm significado especial
Deu branco
Há tempos as mulheres japonesas clareiam o rosto com um pouco de maquiagem branca. As gueixas exageram na dose para fazer valer a reputação de símbolos de beleza.
Afinadas
O shamisen é um antigo instrumento de cordas do século 17. Até há pouco tempo, todas as gueixas sabiam tocá-lo. Hoje não é mais obrigatório.
Pano pra manga
O quimono não só é a roupa de trabalho de uma gueixa como também permite identificar o grau de experiência dela. Aprendizes usam mangas mais longas.
Fio da suspeita
O jeito como elas prendem o cabelo repete penteados tradicionais do Japão. Pela praticidade, algumas gueixas usam uma peruca sobre o cabelo natural.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003

O que eram as chanchadas?


As chanchadas foram um gênero de filme brasileiro que teve seu auge entre as décadas de 1930 e 1950. Elas eram comédias musicais, misturadas com elementos de filmes policiais e de ficção científica. Esse tipo de humor, porém, não pode ser considerado  uma invenção brasileira, pois fitas assim também eram comuns em países como Itália, Portugal, México, Cuba e Argentina. Quando o gênero chegou por aqui, a crítica nacional o considerava um espetáculo vulgar, por isso ele foi apelidado de chanchada - palavra de origem controversa, mas que pode ter surgido na língua espanhola, significando "porcaria". A aversão dos críticos, no entanto, não prejudicou o sucesso de bilheteria desses filmes.
"Com seu humor quase sempre ingênuo, às vezes malicioso e até picante, a chanchada se impôs como um entretenimento de massa", diz o jornalista Sérgio Augusto, autor do livro Este Mundo é um Pandeiro - a Chanchada de Getúlio a JK. Para conquistar o público, as primeiras produções apresentavam grandes astros do rádio, como Carmen Miranda e Francisco Alves. Mais tarde, a dupla de comediantes Oscarito e Grande Otelo iria se tornar a sensação dessas fitas. Apesar da influência do cinema americano, que volta e meia tinha filmes sendo parodiados,  as chanchadas costumavam ser essencialmente brasileiras, tratando de problemas do cotidiano e fazendo humor com uma linguagem de fácil compreensão.
Segundo o diretor Carlos Manga, um dos mais importantes do gênero, a estrutura das histórias era dividida em quatro partes: mocinho e mocinha se metem em apuros; cômico tenta protegê-los; vilão leva vantagem; vilão é vencido. Mesmo com essa fórmula bastante simplista, o público lotou os cinemas brasileiros para assistir a chanchadas até meados da década de 50. O desenvolvimento da TV no país, o surgimento do cinema novo - um outro estilo de filme, mais politizado - e o desgaste natural do gênero fizeram com que as chanchadas fossem perdendo espaço. Mas elas entraram para história ao marcar um dos períodos mais produtivos do cinema nacional.
Dez filmes marcantes
Oscarito e Grande Otelo foram as grandes estrelas do gênero.
1933- A Voz do Carnaval, De Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro
Filme semidocumental, que mistura cenas reais com cenas gravadas. Estréia de Carmen Miranda no cinema.
1935- Alô, Alô, CarnavalL!, De Adhemar Gonzaga
Considerado um dos mais importantes musicais brasileiros. O filme traz grandes cantores da época, como Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis, soltando a voz.
1949- Carnaval no Fogo, De Watson Macedo
Um bandido (José Lewgoy) pretende dar um golpe em foliões durante o Carnaval. Com Oscarito e Grande Otelo, mistura ação, intriga policial, humor e música.
1950- Aviso aos Navegantes, De Watson Macedo
Oscarito embarca como clandestino num transatlântico. Durante a viagem, o comandante do navio recebe a notícia de que um espião internacional está a bordo.
1952- Carnaval Atlântida, De José Carlos Burle
História sobre as filmagens de um épico da Guerra de Tróia. Além das presenças de Grande Otelo e José Lewgoy, há um impagável Oscarito, travestido de Helena de Tróia.
1954- Nem Sansão nem Dalila, De Carlos Manga
Oscarito vive um barbeiro que, após um acidente de carro, vai parar no ano 1153 a.C., onde conhece Sansão e adquire os superpoderes desse personagem bíblico.
Matar ou Correr, De Carlos Manga
Sátira ao clássico faroeste americano Matar ou Morrer (1952). Oscarito interpreta o pistoleiro Kid Bolha, que enfrenta Jesse Gordon (José Lewgoy).
1957- De Vento em Popa, De Carlos Manga
Um rapaz (Cyll Farney) vai estudar física nuclear nos Estados Unidos para agradar seu pai, que sonha ver o filho construindo a primeira bomba atômica brasileira.
Absolutamente Certo, De Anselmo Duarte
Anselmo Duarte trabalha na impressão de listas telefônicas e sabe todos os números de São Paulo. Ele testa sua memória num programa de auditório.
1959- O Homem o Sputnik, De Carlos Manga
Os camponeses Oscarito e Zezé Macedo encontram um objeto estranho, semelhante ao satélite russo Sputnik. Uma das primeiras comédias sobre a Guerra Fria.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O que é a Convenção de Genebra? E o que são crimes de guerra?


Convenção de Genebra é o nome que se dá a vários tratados internacionais assinados entre 1864 e 1949 para reduzir os efeitos das guerras sobre a população civil, além de oferecer uma proteção para militares capturados ou feridos. A história desses tratados está associada ao suíço Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha. Dunant tomou a iniciativa de organizar esse tipo de acordo em uma convenção na cidade de Genebra, na Suíça, em 1864, que contou com a presença das principais potências européias. Após o primeiro encontro, várias outras convenções foram realizadas para ampliar e detalhar uma espécie de regulamento para a participação em uma guerra. A cidade de Haia, na Holanda, foi sede de dois dos encontros seguintes (em 1899 e 1907) e na Suíça mesmo foram assinadas outras três convenções (em 1906, 1929 e 1949).
"A aplicação dessas leis permanece insatisfatória, embora o artigo primeiro comum a todas as Convenções de Genebra estabeleça que é dever das nações cumprir os tratados", afirma o jornalista inglês Kim Gordon-Bates, porta-voz da Cruz Vermelha. Mesmo assim, os tratados serviram pelo menos para deixar claro o que o mundo considera inaceitável num conflito armado. Quem ultrapassa esses limites comete os chamados crimes de guerra. Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), por exemplo, foi montado o famoso Tribunal de Nuremberg, na cidade alemã de mesmo nome, onde foram julgados líderes nazistas acusados, entre outras coisas, de violarem as leis internacionais. Uma corte semelhante foi organizada em Tóquio para julgar os japoneses, aliados dos alemães no conflito.
"Esses tribunais confirmaram que indivíduos poderiam ser responsabilizados pela violação da lei internacional, estabelecendo que ordens superiores não eximiam um réu da responsabilidade", diz o jurista Peter John Rowe, da Universidade de Lancaster, na Inglaterra. Em 1998, um tratado assinado em Roma, na Itália, criou o Tribunal Penal Internacional, com a tarefa de julgar violações graves consideradas crimes de guerra. Hoje, o ex-ditador sérvio Slobodan Milosevic enfrenta esse tribunal, acusado por atos cometidos nos conflitos na antiga Iugoslávia na década de 1990.
O que é proibido
Há três tipos de infração envolvidos num conflito.
Crimes de guerra
• Assassinato ou maus-tratos da população.
• Deportações para trabalhos forçados.
• Assassinato ou maus-tratos de prisioneiros.
• Pilhagem de propriedade pública ou particular.
• Destruição indiscriminada de cidades e devastação sem necessidade militar.
• Assassinato de reféns.
Crimes contra a paz
• Planejar guerra de agressão ou em violação a tratados internacionais.
• Participar de plano comum ou conspiração para promover esses atos.
Crimes contra a humanidade
• Extermínio, escravização e outros atos desumanos antes ou durante uma guerra.
• Perseguições por motivos políticos, raciais ou religiosos.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003

Como era um cerco medieval?


O cerco era uma das táticas militares mais comuns da Idade Média. Em vez de travar uma sangrenta batalha campal, o exército que pretendia conquistar determinado castelo ou fortificação se posicionava em volta dessa construção, evitando que os inimigos saíssem do local. "Algumas técnicas básicas de um cerco, estabelecidas na Antiguidade, são empregadas até hoje. Eram atividades que consumiam tempo e recursos", diz o historiador australiano Stephen Wyley, um especialista em guerra medieval. Após estabelecer o cerco, o exército atacante tinha duas opções: manter a fortaleza bloqueada e esperar pacientemente uma rendição ou então organizar ataques para invadi-la. A primeira alternativa envolvia uma complicada logística para abastecer as tropas, além de grandes recursos para pagar os soldados responsáveis pelo cerco, que podia durar vários meses. Além disso, aliados do exército sitiado podiam aparecer para tentar resgatar seus companheiros.
Já a opção de invadir a fortaleza exigia o uso de máquinas de guerra, que podiam ser construídas no local ou já levadas desmontadas pelo exército atacante. Para quem se defendia, era preciso, antes de tudo, prevenir-se, investindo na arquitetura militar ao construir as fortificações. Muitos castelos eram erguidos em locais de difícil acesso, à beira de abismos ou no alto de colinas. Fossos em volta da construção e enchidos com água também ajudavam no isolamento, embora os inimigos pudessem usar terra ou galhos de árvores para tapá-los. Outra tática comum dos exércitos que lançavam o ataque era estimular traições ou rebeliões entre os sitiados, estratégias que ajudavam a vencer a batalha quase sem baixas.
Entrada forçada
Para invadir um castelo, muitas máquinas e estratégias eram usadas.
Tática de espera
O exército que atacava uma fortificação podia cercá-la, bloqueando totalmente seu acesso e obrigando os defensores a se render por falta de água ou comida. A vantagem dessa tática era o pequeno número de baixas para o exército invasor. O problema é que a espera podia durar meses, se as forças sitiadas tivessem um bom estoque de suprimentos.
Catapulta improvisada
A tecnologia de construção de catapultas, nascida na Antiguidade, perdeu-se com o tempo e era ignorada pelos exércitos medievais. Estes usavam uma máquina parecida, mas menos eficiente, chamada trebuchet, capaz de arremessar a 150 metros pedras de até 350 quilos.
Golpe baixo
Os invasores às vezes cavavam um túnel até os alicerces da muralha, escorando-o com madeira. Depois, ateavam fogo nela, abalando o alicerce e fazendo a muralha ceder. Para se defender, os sitiados cavavam outro túnel para interceptar os inimigos, travando combates na escuridão que eram um dos momentos mais terríveis de um cerco.
Subida arriscada
A alternativa mais perigosa para os invasores era escalar as muralhas com escadas. Para reduzir os riscos, eram construídas torres de madeira, que se deslocavam sobre toras ou rodas e protegiam os soldados, que usavam passarelas de madeira para ligar a torre à muralha. Os que conseguiam entrar abriam os portões.
Ou vai, ou racha
Na tentativa de arrebentar o portão ou abrir uma brecha na muralha, era usado o aríete, uma grande tora de madeira, com ponta de ferro, empurrada contra a fortificação por vários soldados. Para evitar as flechas e pedras lançadas do alto pelos inimigos, era comum o uso de uma cobertura de madeira, com teto reforçado por peles de animais e placas de ferro.
Chuva de flechas
Do alto das muralhas, arqueiros podiam atirar flechas contra os atacantes. Algumas flechas tinham fogo nas pontas para incendiar o acampamento inimigo.
Banho fervente
Para enfrentar os invasores, os sitiados também usavam óleo ou outros líquidos combustíveis que eram fervidos em grandes caldeirões de ferro e depois despejados nos rivais. Até mesmo esgoto, recolhido em fossas, podia ser lançado.
Último refúgio
Quando as muralhas eram rompidas, restava aos sitiados se trancar numa grande torre de pedra, que geralmente existia no centro das fortalezas e armazenava água e comida.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003

Como surgiu o espelho?


As primeiras superfícies capazes de refletir imagens começaram a ser feitas há cerca de 5 mil anos na antiga Suméria - região no atual Iraque, englobando áreas próximas à cidade de Bagdá. Os espelhos dessa época não produziam imagens nítidas, pois eram placas de bronze polidas com areia. Na Antiguidade, esses instrumentos de metal chegaram às mãos dos gregos e romanos e a partir daí foram se espalhando pela Europa até se tornarem conhecidos em todo o continente no final da Idade Média. "Até por volta do século 13, os espelhos eram feitos de metal polido, ligas de prata ou bronze duras o suficiente para agüentar o processo de polimento mecânico e não riscar facilmente", diz o engenheiro Hélio Goldenstein, da USP. Os primeiros espelhos de vidro só surgiriam no início do século 14, criados por artesãos de Veneza, na Itália, que desenvolveram uma mistura de estanho e mercúrio que, aplicada sobre um vidro plano, formava uma fina camada refletora.
Os espelhos venezianos eram famosos pela qualidade e seu método de fabricação era mantido em segredo. Mas, além do alto custo, a produção causava problemas aos artesãos, que se  contaminavam com mercúrio, material altamente poluente. "Só no século 19 foram descobertas formas de espelhar o vidro com prata química, sem a necessidade do mercúrio", afirma Hélio. A nova técnica, mais segura, simples e barata, popularizou os espelhos pelo mundo.

Revista Mundo Estranho Edição 15/ 2003