sábado, 10 de novembro de 2012

Julho na História


Maria Carolina Cristianini
1840- Aos 14 anos de idade, após receber a visita de uma comissão de deputados, Pedro II aceita assumir o governo brasileiro e presta juramento diante da Assembléia Geral (que reunia, em ocasiões especiais, os representantes da Câmara e do Senado). Pedro II tinha sido declarado imperador em 1831, após a abdicação de seu pai, Pedro I, mas não podia exercer o cargo por não ter 18 anos – em seu lugar, regentes se revezavam. A campanha para a antecipação da maioridade começara em abril de 1840. O país enfrentava uma série de revoltas nas províncias por conta da instabilidade política (como a Cabanagem) e, para resolver a crise e tirar os adversários conservadores do poder, os liberais resolveram entregar o governo a Pedro II. Tentaram mudar a situação legalmente, mas acabaram derrotados na Câmara. As conspirações então começaram. Quatro anos antes do previsto, o “golpe da maioridade” deu início ao Segundo Reinado.

Dia 23, no Rio de Janeiro
Eu me lembro

"Juro manter a religião Católica Apostólica Romana, a integridade e indivisibilidade do Império, observar e fazer observar a Constituição política da nação brasileira e mais leis do Império, e prover ao bem geral do Brasil, quanto em mim couber."
Trecho do juramento de Pedro II diante da Assembléia Nacional

100 a.C.- Nasce Júlio César, que se tornaria general e ditador romano. Segundo a mitologia, sua ascendência chegava a Julus, filho do príncipe troiano Enéias e neto da deusa Vênus.
Dia 12 ou 13, em Roma

306- Flavius Valerius Constantinus, conhecido como Constantino I, é proclamado Augusto (título que sugeria divindade) por suas tropas e se torna imperador romano – o primeiro a seguir o cristianismo. Governou até sua morte, em 337.
Dia 25, em Roma

1542- Guiado por índios guaranis, o navegador espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vaca descobre a foz do rio Iguaçu. Ele ia para o Paraguai quando viu as cataratas – às quais chamou de Cachoeira de Santa Maria.
Dia 15, no Paraná

1776- Um grupo liderado por Thomas Jefferson elabora e aprova a Declaração de Independência de colônias britânicas que passam a se chamar Estados Unidos da América.
Dia 4, na Filadélfia

 1825- Em homenagem a Simon Bolívar, que lutou pela independência do país em maio daquele ano, a Bolívia recebe seu atual nome. Antes, era conhecida como Alto Peru.
Dia 10, na Bolívia

1890- Aos 37 anos, o holandês Vincent van Gogh morre nos braços do irmão, Theo, dois dias depois de dar um tiro no próprio peito. Segundo cartas que Theo escreveu sobre o ocorrido, as últimas palavras do pintor foram: “A tristeza durará para sempre”.
Dia 29, em Auvers-sur-Oise, França

1984- O grupo dissidente da Frente Liberal sai do Partido Democrático Social, rompe com o governo militar e inicia negociações para lançar a candidatura do peemedebista Tancredo Neves à presidência da República.
Dia 5, em Brasília

Eu me lembro
"Eu era senador e, na época, meu nome era cogitado para candidato à presidência pelo PDS. Rompemos com o governo porque percebemos que o rumo dado à sucessão não era o desejado pelo país. Queríamos deixar claro que não aceitávamos aquele caminho. Naquele dia, formamos a Frente Liberal e houve muita tensão por não sabermos os desdobramentos, mas também muita expectativa porque era o melhor a fazer. Foi um dos movimentos da história republicana que permitiram a volta do Brasil a um estado de direito."

Marco Maciel, senador (PFL-PE)
2005- Quatro bombas explodem na capital inglesa. O atentado, atribuído à organização terrorista Al Qaeda, atinge três estações de metrô e um ônibus urbano. Cerca de 700 pessoas ficam feridas e 52 morrem.

Dia 7, em Londres
Eu me lembro

"Naquela manhã, peguei o metrô na estação King’s Cross, uma das atingidas. Por sorte cheguei ao meu destino antes das explosões. Pensei que fosse piada quando me disseram no trabalho que a cidade estava sendo atacada. Só acreditei quando vi as notícias e a carnificina pela internet. Foi um dia muito triste. No fim de semana seguinte, as ruas estavam vazias e o clima, pesado. Sou carioca, moro em Londres há dez anos e sempre gostei da segurança inabalável daqui, mas isso mudou. Hoje moro perto do trabalho e ando até lá. É mais seguro."
Karim de Oliveira, 33 anos, treinador técnico multilíngue

Aventuras  na História n° 035

Adolescência


Juliana Parente
Transformações no corpo não levavam a crises de rebeldia e transgressões.

Pêlos surgindo, espinhas pipocando, mudanças de voz, menstruação. As alterações físicas pelas quais passam as crianças com a chegada da puberdade são, há milênios, idênticas às de hoje. Mas as coincidências param por aí. Por um motivo muito simples: o conceito de adolescência como um limbo entre a infância e a idade adulta não existia até 300 anos atrás.
Os romanos passavam da infância para a idade adulta sem direito a períodos de adaptação ou amadurecimento psicológico. “As mudanças do corpo eram o único termômetro”, diz Pedro Paulo Funari, professor do departamento de História da Unicamp. Para os meninos, o marco era o aparecimento de pêlos. Bastava surgir uns fiozinhos de barba e o garoto era enviado ao Exército, onde ficava até os 35 anos. Nas meninas, a menstruação colocava fim instantâneo à infância: era hora de casar.
Isso não mudou na Idade Média, quando meninos eram tidos como homens pequenos que, para se tornar adultos, só precisavam fazer uma coisa: crescer. “A criança mal adquiria porte físico e era misturada aos adultos, partilhando com eles trabalhos e jogos”, escreve o historiador Philippe Ariès no livro História Social da Criança e da Família. Segundo ele, essa situação duraria até o século 17, quando a escola substituiu o sistema de aprendizagem, baseado na figura dos tutores e mestres de ofício. “As crianças deixaram de ser misturadas aos adultos e apareceram as salas de aula reunindo alunos em faixas etárias e níveis de aprendizado semelhantes.”
“Mesmo isso mudou pouco a vida das meninas, que continuou, até o século 19, dividida em duas fases: antes e depois do casamento”, diz o historiador Luiz Marques, da Unicamp.
Então a adolescência não é natural? Não. No começo do século 20, a antropóloga Margaret Mead realizou um estudo com habitantes de Samoa, na Polinésia. “Ela mostrou que a adolescência, tal como nós vemos hoje em dia, não passa de uma ficção, de uma construção cultural”, explica Sara Albieri, professora do departamento de História da USP. “Margaret provou que a rebeldia e a insatisfação consideradas típicas da idade não fazem parte da natureza humana. Elas são uma experiência social, não fisiológica.”

Aventuras na História n° 035

 

Entrevista: Michael Baigent


Como surgiu o interesse pelo Jesus histórico?
Michael Baigent – Não tinha um grande interesse em Jesus até escrever O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. A partir daí começamos a pesquisar as inconsistências do Novo Testamento e de que modo ele havia sido escrito e compilado. Percebi então a imensa quantidade de perguntas que precisavam de resposta.

E qual foi o próximo passo?
Fiz uma grande pesquisa sobre a vida política de Jesus. Ficou muito claro que a crucificação foi uma execução política. Também ficou claro que o movimento zelote, que lutava contra a dominação romana, precisava de um líder, um rei que descendesse de Davi. Jesus estava cercado de zelotes, incluindo aqueles que tinham como função matar pessoas. Documentos gregos também provam que Jesus foi crucificado entre dois zelotes, e não entre ladrões, como diz o cristianismo.

E quanto à possível união entre Jesus e Maria Madalena?
Em grande parte desses manuscritos há referências ao relacionamento muito próximo que Jesus manteve com mulheres que estavam entre seus seguidores e, mais especificamente, com Maria Madalena. No fim do século 2, alguns dos seguidores de Jesus passaram a satanizar o sexo feminino, criando um tipo de cristianismo que exclui as mulheres dos papéis centrais da Igreja. O que ocorreu a partir daí é essa bobagem centrada na dominação masculina que impede as mulheres de ocuparem o lugar de padres, bispos, papas.

O fundamentalismo religioso vai acabar um dia?
Não, pois estamos falando de um sistema rígido, como o cristão, por exemplo. O cristianismo limita as expressões de seus seguidores justamente porque eles [a Igreja] têm medo de que, se as perguntas certas forem feitas, o sistema irá entrar em colapso. Acredito que todo sistema rígido, que teme críticas, não tem futuro. Estou convencido de que o Vaticano irá ruir. E isso será uma boa coisa. Adoraria ver o papa se tornar apenas o bispo de Roma.

Aventuras na História n° 035

 

Os 400 anos de Rembrandt


Há exatos 400 anos, no dia 15 de julho de 1606, nascia em Leiden, na Holanda, Rembrandt van Rijn. Um dos mestres do barroco, ao lado de Caravaggio e Velázquez, Rembrandt conheceu, como poucos artistas em toda a história, o sabor do sucesso e a dor do esquecimento com intensidade.
O pintor foi bastante prestigiado na burguesia da Amsterdã do século 17, mas morreu pobre e com má fama, tanto moral quanto artística. Freqüentou as altas rodas, casou-se com uma jovem rica, morou numa das casas mais luxuosas da cidade (onde hoje funciona o Museu Rembrandt, que expõe, em 2006, cinco das 24 mostras espalhadas pelo país em homenagem à data). Teve uma vida próspera, construída com as encomendas que chegavam a seu ateliê.
Pintou de temas bíblicos a paisagens, mas foi a expressão dos sentimentos das pessoas, muitas delas simples e pobres, que o alçou à genialidade. “Não há, na história da pintura, artista que tenha penetrado tão profundamente, com tanta dúvida e angústia, no problema das relações entre o homem e o mundo”, escreveu o historiador de arte Pierre Cabanne em Rembrandt, da coleção “Grandes Mestres da Arte Européia”. O domínio da técnica do claro-escuro e o realismo provocante ficaram marcados na sua obra, com destaque para A Noiva Judia e Os Síndicos, além das três telas que ilustram esta página e dos cerca de 100 auto-retratos que mostram a bonança da juventude e a solidão da velhice.
Rembrandt morreu aos 63 anos, desprezado pelos clientes que não suportavam sua livre interpretação (muitas vezes ele ignorava seus pedidos e pintava como lhe convinha, distanciando-se do idealismo da arte clássica), endividado e marcado pela tragédia. Sua mulher morreu meses após dar à luz o quarto filho do casal, o único a chegar à vida adulta – mas que também viria a morrer pouco depois de se casar.

 Uma vida em três telas
Obras são retratos da fama à decadência.

Clássico da medicina
A primeira obra de prestígio de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (1632), deu fama imediata a ele. Para o historiador de arte Pierre Cabanne, nele o jovem artista “explora a morte para dar uma lição de vida”.

Ronda diurna
A Mudança de Guarda da Companhia do Capitão Frans Banning Cocq (1642), ou Ronda Noturna (embora a cena seja diurna), foi recebida friamente pelos soldados, talvez porque não tenham sido retratados numa pose heróica, mas numa banal ordem de marcha.

Herói caolho
A Câmara de Amsterdã encomendou a Rembrandt um painel em comemoração à independência da Holanda em relação à Espanha. Julius Civilis (1662) é um retrato ridicularizado de uma cena heróica. Rejeitado, o autor quase o destruiu.

Aventuras na História n° 035

M.A.S.H. e Band of Brothers: a guerra em capítulos


Mauro Tracco
Uma é comédia. A outra, drama. Com vocês, uma batalha entre as duas melhores séries de guerra da TV.

Não são apenas as empreiteiras, a indústria bélica e as companhias petrolíferas que lucram com as guerras: Hollywood já faturou muito em cima de praticamente todo conflito de alguma relevância. Mas, se costuma ser fácil haver bons filmes de guerra, é difícil ver esse tema originar boas séries para a TV. Duas exceções são as americanas M.A.S.H. e Band of Brothers, que se destacam por ter encontrado fórmulas distintas e bem-sucedidas de agradar público e crítica. Em 11 temporadas no ar, de 1972 a 1983, M.A.S.H. passou as últimas nove na lista das dez séries mais assistidas nos Estados Unidos. Já Band of Brothers, minissérie em dez capítulos que foi ao ar pela primeira vez em 2001, é a segunda produção do canal HBO com maior audiência até hoje (atrás de Família Soprano).
O tom escolhido é a principal diferença entre as duas séries. M.A.S.H., baseada no filme de mesmo nome dirigido pelo americano Robert Altman, ridiculariza a guerra e os militares. A comédia mostra o cotidiano de uma unidade médica móvel durante a Guerra da Coréia, na qual os cirurgiões estão mais preocupados em encher a cara e levar enfermeiras para suas tendas do que em servir seu país. Muitos elementos do filme foram preservados, como a total ausência de cenas de batalha, a sátira aos valores norte-americanos e o humor nonsense. Quando M.A.S.H. surgiu, o mundo assistia à Guerra do Vietnã, e o seriado era uma clara crítica a essa impopular ação militar norte-americana.
Em Band of Brothers a comédia dá lugar ao drama. A série nasceu do sucesso de O Resgate do Soldado Ryan, de 1998: após trabalharem juntos no filme, o diretor Steven Spielberg e o ator Tom Hanks resolveram, como produtores, levar ao ar outra saga ambientada na Segunda Guerra. Dessa vez, optaram por contar uma história real: a da 101ª Divisão Aerotransportada, a Companhia Easy. Com depoimentos de veteranos, Band of Brothers se baseia no livro homônimo do historiador americano Stephen Ambrose e glorifica os homens que derrotaram o nazismo. A série estreou em 9 de setembro de 2001, com 10 milhões de telespectadores. Após o ataque terrorista ocorrido dois dias depois, a audiência caiu 40%. Embora estivesse longe de ser um fracasso, os números decepcionaram a HBO, que investiu 120 milhões de dólares na série de TV mais cara da história.

 Aventuras na História n° 035

O fim dos samurais


Em 1868, o Japão estava mergulhado na Restauração Meiji. Apesar de só ser explicitamente citada no fim de Samurai do Entardecer, a revolução permeia todo o filme, que parte da micro-história de Seibei, um samurai que vive na miséria e é obrigado a cuidar das duas filhas, para abordar todo o fim da era dos xogunatos e da classe dos samurais.
Frutos de uma nova vida

Uma das consequências do envolvimento americano na Guerra do Vietnã foi o nascimento de várias crianças mestiças, frutos de relacionamentos das vietnamitas com soldados americanos. Uma Vida Nova retrata a vida de uma dessas crianças que, aos 17 anos, viaja a Saigon para procurar a mãe.
Aventuras na História n° 035

 

Marquês de Pombal contra o velho mundo


Haroldo Ceravolo Sereza e Joana Monteleone
Portugal e Brasil nunca mais foram os mesmos depois do governo do marquês, entre 1750 e 1777. Impiedoso, ele modernizou o arcaico império português. Odiado, acabou morrendo no ostracismo.

Em 1723, o português Sebastião José de Carvalho e Melo raptou Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, uma formosa viúva pertencente à mais alta elite de seu país. Casaram-se contra a vontade da família dela, que não via com bons olhos sua união com um obscuro membro da pequena nobreza. O matrimônio não gerou filhos, mas foi uma amostra da ousadia do homem que mudaria o destino de Portugal. O futuro marquês de Pombal era tudo, menos um romântico sonhador. Da mesma maneira que traçou com mão de ferro as linhas de sua vida pessoal, Carvalho e Melo conduziu os portugueses após um dos mais terríveis desastres naturais da história da humanidade: o terremoto de Lisboa, que devastou a capital portuguesa em 1755.
A figura do marquês entrou de modo ambíguo nos livros de história. Ora retratado como déspota esclarecido, ora como ditador sanguinário, muitos foram os adjetivos usados para descrever o poderoso ministro, que comandou Portugal durante o reinado de José I. Ninguém questiona, entretanto, o fato de que Pombal tornou-se um marco na história do império português – que, na época, incluía o Brasil. Nascido em 1699, Carvalho e Melo não deu mostras na juventude de que seria um grande líder. Por influência de seu tio Paulo de Carvalho, que dava aula na Universidade de Coimbra, ele conseguiu se matricular naquela instituição. Mas logo abandonou os estudos para entrar no exército, onde não conseguiu passar do posto de cabo. Desiludido, decidiu estudar Direito e História – o que lhe rendeu, aos 34 anos, um posto na Academia Real da História.
Depois do casamento, Carvalho e Melo se mudou de Lisboa para a vila de Soure, onde a família de Teresa tinha propriedades. Em 1738, graças a uma indicação do tio, ele conseguiu o posto de embaixador português na Inglaterra. Sua esposa, muito doente, não pôde acompanhá-lo e acabou morrendo no ano seguinte. Carvalho e Melo ficou na Grã-Bretanha por cinco anos, onde se mostrou um grande negociador e aproveitou para conhecer a fundo as instituições inglesas. Retornou a Portugal e, em 1745, foi enviado como diplomata à Áustria. Lá, casou-se pela segunda vez, desposando a condessa Maria Leonor Ernestina Daun.
O segundo casamento de Carvalho e Melo, abençoado pela imperatriz austríaca Maria Tereza, permitiu-lhe subir mais um degrau no complicado jogo de xadrez da corte portuguesa. Ao ver o ambicioso político se casar com uma conterrânea, a esposa de João V, Ana da Áustria, resolveu torná-lo seu protegido. Em 1749, após assumir o governo por causa do péssimo estado de saúde do rei, ela convocou Carvalho e Melo de volta a Portugal para fazer parte do ministério. Aos 50 anos, ele assistia ao início do auge de sua vida pública.
Com a morte de João V, em 1750, José I assumiu o trono e tomou as rédeas de um dos maiores e mais ricos impérios da Europa. Teve medo e, em vez de encarar a tarefa, preferiu a vida fácil das óperas e das caçadas. Deixou o trabalho pesado de governar nas mãos de seus assessores. Foi quando Carvalho e Melo tomou posse no cargo de secretário dos Negócios Estrangeiros, um dos três ministérios que concentravam as decisões do reino. Seus trunfos eram a experiência diplomática e um círculo de amigos que incluía eminentes cientistas, em especial membros da comunidade de expatriados portugueses – muitos deles tinham sido forçados a deixar o país por causa da Inquisição.
Quando dois terços de Lisboa ruíram com o terremoto, a situação ficou tão caótica que José I transferiu praticamente todo o poder para as mãos de seu ministro predileto. Carvalho e Melo coordenou o socorro às vítimas e rapidamente iniciou a reconstrução da cidade – afinal, era preciso que “se cuidasse dos vivos e se enterrassem os mortos”, conforme ele teria dito na ocasião. Em 1759, quando foi nomeado conde de Oeiras, o ministro já tinha se tornado praticamente um governante absoluto. O título sob o qual seria eternizado, marquês de Pombal, lhe foi dado por José I em 1769.

Lá e cá
Portugal dependia das riquezas brasileiras para sustentar os gastos luxuosos da corte. Em 1755, um jovem membro da Armada francesa, Chevalier des Courtils, resumiu a situação em seu diário de viagem: “Portugal é mais uma província do que um reino. Pode-se dizer que o rei de Portugal é um potentado das Índias que habita em terras européias”. E prosseguiu, atribuindo a grandeza do país apenas às suas colônias: “Os Estados vastos e ricos sob sua soberania no Novo Mundo, como o Brasil, o Rio de Janeiro, Bahia de Todos os Santos, Goa, a Madeira na África e os Açores na Europa, tornaram-no um príncipe considerável e colocaram-no entre as grandes potências européias, se considerarmos o valor de suas possessões”.
A dependência da metrópole com relação ao Brasil tornou-se tão aguda no século 18 que Luís da Cunha, um dos diplomatas e pensadores políticos portugueses mais influentes no período, anteviu a transferência da corte para o Rio de Janeiro (que ocorreria no século seguinte). Segundo ele, o rei tomaria o título de “Imperador do Ocidente” e nomearia um vice-rei para governar Lisboa. “É mais seguro e conveniente estar onde há abundância de tudo do que onde é preciso esperar pelo que se quer”, escreveu. Foi Pombal, aliás, quem tirou a sede do governo-geral brasileiro de Salvador, transferindo-a para o Rio em 1763.
Estava claro, portanto, que era preciso reorganizar todo o império para fazer frente à ascensão das outras potências européias. As chamadas “reformas pombalinas” mudaram drasticamente a economia do reino e das colônias. Inspirado em modelos mercantilistas ingleses, franceses e holandeses, Pombal criou várias companhias de comércio a partir de 1753: da Ásia, do Grão-Pará e Maranhão, da Pesca das Baleias, das Vinhas do Alto Douro e de Pernambuco e Paraíba. Controladas pelo Estado, elas comandavam as atividades econômicas e monopolizavam os negócios. A das Vinhas do Alto Douro, por exemplo, controlava a produção e a venda do vinho do Porto – produto do qual os ingleses eram os principais compradores.
No Brasil, a gestão de Pombal estimulou a diversificação agrícola. A colônia, que se dedicava essencialmente à produção de açúcar, passou a plantar mais arroz, tabaco, algodão e cacau. Ele também foi responsável pelo aumento na arrecadação de impostos sobre o garimpo – medida cada vez mais impopular, principalmente quando o ouro de Minas Gerais começou a se exaurir, a partir de 1760. Empenhado em taxar todas as riquezas que eram retiradas do solo brasileiro, Pombal aumentou a fiscalização nas capitanias (principalmente nos portos exportadores).
Nenhuma reforma de Pombal, no entanto, foi tão polêmica e tão importante quanto a expulsão dos membros da Companhia de Jesus, os chamados jesuítas, de Portugal, do Brasil e das outras colônias. Quando Pombal assumiu o governo, Lisboa era uma cidade rica, mas carola e conservadora. A maioria dos filósofos e escritores iluministas do século 18, quando precisava de um exemplo de superstição e atraso, recorria a Portugal. Voltaire chegou a escrever, sobre o governo de João V: “Quando queria uma festa, ordenava um desfile religioso. Quando queria uma construção nova, erguia um convento. Quando queria uma amante, arrumava uma freira” (de fato, João V teve inúmeros relacionamentos com religiosas).
A medida contra os jesuítas foi o ponto de partida de uma enorme mudança no sistema educacional, antes controlado por eles. Em 1759, Pombal criou a Aula de Comércio, escola destinada a formar homens capazes de atualizar as antigas práticas comerciais. No ano seguinte, tentou tornar os filhos da nobreza mais qualificados para exercer as altas funções do governo, fundando o Colégio dos Nobres – que foi um fracasso. Inspirado nas idéias iluministas, que circulavam havia muitos anos no resto da Europa, reformulou, a partir de 1772, a Universidade de Coimbra (onde costumavam estudar membros da elite colonial brasileira): tornou-a mais pragmática, valorizando as ciências naturais e criando a Faculdade de Filosofia e Matemática. No Brasil, carente de escolas, Pombal unificou a língua, tornando o português obrigatório em todo o território.

A queda
No período em que esteve no topo, Pombal acumulou poder, riquezas e inimigos. Com seus opositores, ele foi implacável: alguns foram condenados à prisão, outros, à morte. O caso mais emblemático de sua gestão foi a execução do marquês e da marquesa de Távora e do duque de Aveiro, em 1759, acusados de tramar um atentado fracassado contra José I no ano anterior. Ao permitir que eles fossem condenados à morte, Pombal deixou claro que seu poder não se sujeitava às antigas convenções e conchavos da política de Lisboa. Diante do ímpeto de Pombal, ser nobre não significava estar seguro.
Enquanto José I reinou, Pombal foi soberano. Mas, após a morte do monarca, em novembro de 1776, seu poder ruiu. Rapidamente, seus inimigos conseguiram neutralizar sua influência na corte. Demitido por decreto real no ano seguinte, acuado e sem apoio, Pombal foi forçado a abandonar a capital e partir para sua propriedade em Oeiras. A regente, a rainha dona Maria I (a mãe de João VI, que ficaria conhecida como “a Louca”), atendendo às solicitações do povo, proibiu o ex-ministro de sair de sua propriedade. A reclusão, entretanto, não foi suficiente para acalmar a reação dos nobres e populares que, durante anos, haviam tido que aceitar sua tirania. Muitos dos que haviam colaborado com o governo de Pombal foram exilados, presos, torturados ou mortos. Nas ruas de Lisboa, ecoavam palavras de ordem como: “Patrícios meus, clamai sobre o tirano/ saiba o mundo que foi o tal marquês/ ladrão, traidor, cruel e desumano”.
Renegado até pelos filhos, sozinho na enorme casa semi-abandonada, não tardou para que Pombal adoecesse. Velho e com lepra, ele lutou com abnegação nos processos movidos contra ele nos tribunais. Ainda possuía forças para escrever em sua própria defesa – incluindo nos textos vários elogios à monarca, numa vã tentativa de agradá-la. Em maio de 1782, ele descreveu seu estado numa declaração pública: “Presentemente me acho quase todo entrevado, sem poder pôr os pés no chão, nem sustentar-me sobre as pernas”. Cheio de dores e feridas no corpo, Pombal morreu logo depois, no dia 8 de agosto. Antes que seu corpo fosse embalsamado, passou por uma autópsia, assim descrita pelo historiador português João Lúcio de Azevedo em O Marquês de Pombal e a sua Época: “O coração, que abrigara tantos ódios, hipertrofiado, era enorme; o cérebro, onde nasceram ambições, também era volumoso”.
Até a invasão napoleônica de Portugal, no início do século 19, a memória de Pombal ficou no ostracismo. Mas, após João VI e sua corte transferirem para o Rio de Janeiro a sede do reino, em 1808, muitos portugueses com orgulho ferido recuperaram a imagem do ministro – como um grande líder que fora capaz de conduzir a nação.

 O dia em que a terra tremeu
Terremoto arrasou  Lisboa na época do marquês.
O primeiro dia de novembro de 1755 brindou Lisboa com uma linda manhã de outono. O ar estava tépido e as igrejas, apinhadas de gente – era o dia de Todos os Santos. “Súbito, um ronco vaporoso, enorme trovão subterrâneo. Cavalgada de ciclopes, que se aproxima em doida correria, arrastar de carros gigantes nos abismos da terra. Nos altares, oscilavam as imagens; as paredes bailam; dessoldam-se traves e colunas; ruem paredes, com o abafado som da caliça que esboroa, e de corpos humanos esmagados; no chão, onde os mortos repousam, aluem-se os covais para tragar os vivos.” Na descrição clássica do historiador português João Lúcio de Azevedo, o terremoto de Lisboa alcança todo seu terror e magnitude. Um dos maiores desastres naturais na história, o evento intrigou filósofos e cientistas durante o século 18 e marcou a ascensão do marquês de Pombal. Acuado e com medo das hordas famintas de sobreviventes, o rei, José I, de seu palácio em Belém, deu plenos poderes ao único de seus ministros que se mostrou capaz de lidar com a tragédia. Pombal não perdeu tempo. Ordenou que os saqueadores fossem sumariamente enforcados, fixou os preços dos alimentos e do material de construção nos níveis anteriores ao desastre e fez com que os corpos das vítimas fossem amarrados a pesos e jogados no oceano. Calcula-se que entre 8 mil e 30 mil pessoas tenham morrido na tragédia. Quem sobreviveu ao tremor teve de enfrentar o maremoto que veio depois – segundo escreveu o então cônsul britânico em Portugal, Edward Hay, as águas “elevaram-se de 6 a 9 metros”. As perdas materiais foram incalculáveis. O Real Teatro da Ópera, terminado no mês anterior, ficou em ruínas. Trinta e cinco igrejas desabaram sobre os fiéis que rezavam – o tremor ocorreu bem no horário da missa. Em uma única mansão da cidade, perderam-se 200 pinturas (incluindo um Ticiano e um Rubens) e uma biblioteca com aproximadamente 18 mil volumes. Depois do socorro às vítimas, Pombal convocou engenheiros e topógrafos e tratou logo de reconstruir a cidade. Lisboa, depois das ações do marquês, tornou-se um exemplo da arquitetura iluminista: traçados retos substituíram as antigas vielas medievais e edificações monumentais foram erguidas para sediar a administração pública. A Biblioteca Real foi reorganizada, a partir de aquisições de livros, mapas e documentos em toda a Europa. Quando a corte portuguesa veio para o Brasil, em 1808, o acervo foi trazido para o Rio de Janeiro – e a maior parte dele ainda está lá, guardada na Biblioteca Nacional.

Cruzada antijesuíta
Vista como obstáculo às reformas, ordem foi expulsa do império em 1759.
Para fortalecer seu governo absolutista, o marquês de Pombal comprou algumas boas brigas. A maior delas provavelmente foi contra a Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada na França em 1534. Pombal não nutria exatamente um sentimento anti-religioso. Buscava reduzir a influência do grupo, a parte mais poderosa da Igreja em Portugal. O ministro saiu vitorioso e, em 1759, conseguiu expulsar os jesuítas de todo o império português. A medida teve enorme repercussão no Brasil. No ano da expulsão, os 670 membros da Companhia de Jesus que viviam aqui comandavam as principais instituições educacionais da colônia: os colégios jesuíticos. Além disso, os jesuítas mantinham sob sua tutela milhares de índios – só nas missões guaranis, que ocupavam um território hoje dividido entre Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, chegaram a viver mais de 140 mil pessoas. Um dos argumentos usados por Pombal contra a ordem religiosa foi a recusa de jesuítas espanhóis em obedecer ao Tratado de Madri, de 1750, que os obrigava a entregar a Portugal as missões a oeste do atual Rio Grande do Sul. Segundo o marquês, os jesuítas incentivaram os índios a mergulhar numa rebelião contra os europeus que só seria controlada em 1767. No norte da América portuguesa, os religiosos bateram de frente com o governador do Maranhão e Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão de Pombal. Organizados pelos jesuítas, os índios muitas vezes se recusavam a se submeter às necessidades da coroa. A expulsão da Companhia de Jesus foi acompanhada por uma vingança pessoal. Pombal denunciou o padre Gabriel Malagrida à Igreja por heresia, se aproveitando do fato de que outro de seus irmãos, Paulo de Carvalho e Mendonça, era o inquisidor-mor de Portugal. Malagrida (que havia fundado o seminário Nossa Senhora das Missões, no Pará) era o maior inimigo do ministro entre os jesuítas. Condenado, o religioso foi enforcado e queimado em 21 de setembro de 1761. Mesmo fora de Portugal, a ordem religiosa não foi deixada em paz por Pombal: continuou sofrendo com seus ataques, agora no campo diplomático. Em 1773, a Companhia de Jesus acabou extinta pelo papa Clemente XIV. Ela seria restabelecida em 1814, mas sem o mesmo poder político de antes.

Aventuras na História n° 035