quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Pitágoras, Mercator, Franklin, Gutemberg...Invenções Perdidas

Pitágoras não foi o primeiro a perceber a relação entre os lados do triângulo reto. Nem foi Gutenberg quem inventou a tipografia. Conheça alguns dos verdadeiros pais de descobertas universais com quem a história não foi justa
por Tatiana Bonumá
A idéia de que as invenções e descobertas científicas podem alterar o rumo da história é apenas parte da verdade. De fato, os instrumentos, materiais e técnicas que o homem descobriu e dominou lhe deram condições para superar limites, impor-se diante da natureza e dos outros homens. Porém uma olhada mais atenta revela que o que muda tudo é o uso que determinado povo emprega à sua descoberta. Muito do que hoje é creditado aos vitoriosos gregos e romanos, já havia sido experimentado pelos extintos babilônicos e algumas das descobertas comemoradas pelos europeus, eram velhas conhecidas dos chineses.
O que é mais importante: a invenção ou seu uso? O que é mais revolucionário? O que muda, de fato, a história? “A utilização do conhecimento está ligada com o momento histórico e com aspectos culturais do povo que a absorve. Exprime a maneira como ele vê o mundo, o entende e o interpreta”, diz Ana Maria Alfonso-goldfarb, especialista em história da ciência e autora do livro Da Alquimia à Química.
Por isso, para ela, não faz muito sentido dizer quem inventou o quê e sim acompanhar o processo pelo qual o conhecimento gerou invenções e descobertas diferentes em cada local, em cada época.
Os triângulos da Babilônia
Recupere seus cadernos do primeiro grau, consulte os livros de geometria. Em todos eles vai encontrar o Teorema de Pitágoras, que de tão importante mais parece um mantra da trigonometria. Ele emana a seguinte verdade: em um triângulo com ângulo de 90 graus, o quadrado do lado maior é sempre igual à soma dos quadrados dos outros dois lado. Porém, antes mesmo de entender a equação, você saberá responder quem a desenvolveu. Como o próprio nome diz, Pitágoras, um filósofo e matemático grego fez o teorema por volta de 550 a.C.. “Pitágoras e seus discípulos formavam uma fraternidade esotérica, que se dedicava não só ao estudo da matemática, mas também ao ascetismo, que buscava a harmonia do cosmos baseada nas premissas de que tudo existe em conformidade com os números, sendo que a matemática é o princípio de todas as coisas”, explica Walter Carnielli, professor de história da ciência, da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo.
Assim, a equação vai além do triângulo e, na época, era mais um exemplo de harmonia entre os elementos. Tudo muito coerente, explicado e comprovado. Segundo Walter, esse é a afirmação matemática que mais recebeu demonstrações, foram feitas 370 provas. Porém, justamente o que parece mais óbvio – o teorema de Pitágoras é de Pitágoras – é o X da equação. “O filósofo grego não foi o primeiro a perceber a relação. Indianos, egípcios e babilônios já usavam essas triplas de números (que formam um triângulo retângulo) há pelo menos mil anos”, afirma o historiador Dick Teresi, em seu livro Lost Discoveries (Descobertas Perdidas, sem tradução em português). Os hindus, por exemplo, os utilizavam entre 800 e 600 a.C., para desenhar triângulos e trapézios, consideradas figuras nobres, nos altares de cemitérios, em reverência aos deuses.
Mas, a prova definitiva de que o teorema era conhecido antes de Pitágoras vem dos babilônios e data de 1800 a.C. “É um pedaço de barro conhecido por Plimpton 322, mantido na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Ali, estão gravados centenas de números alinhados três a três. Para entender a relação entre os números, basta aplicar o teorema do triângulo reto. Um deles, é sempre o quadrado da soma dos quadrados dos outros dois”, afirma Walter.
Os segredos da Terra plana
Poucas descobertas deram ao homem tanta sensação de domínio do planeta como o mapa-múndi. Porém, para chegar a um resultado eficaz, estudiosos tiveram que desvendar um enigma: como representar num plano a Terra que é esférica? Gerhard Kremer Mercator, matemático e geógrafo flamengo, ofereceu uma boa resposta, com o método de representação cilíndrica, em 1569. Para entender como ele fez isso, imagine uma luz que parte do centro de um globo colocado dentro de um canudo de papel. A imagem projetada do globo (Terra) no cilindro (mapa) permitiu, pela primeira vez, representar continentes, oceanos e meridianos numa superfície. Foi uma festa para a indústria da navegação.
O método, como não poderia deixar de ser, ganhou o sobrenome de seu inventor e ficou conhecido nos quatro cantos do mundo como “Projeção de Mercator”. Procure nas enciclopédias e nos livros didáticos. Mercator será sempre indicado como um importante nome na cartografia (o que realmente ele é!), aquele que deu um passo indispensável para se chegar ao mapa moderno (verdade!) e o primeiro a trabalhar com a projeção cilíndrica (aí o bicho pega!).
Os chineses, ótimos navegadores e acostumados a vencer longas distâncias, já haviam elaborado e aplicado o mesmo conceito há exatos 629 anos. A prova está arquivada na Biblioteca Britânica, em Londres. Um documento chinês de 940 d.C. mostra a esfera terrestre projetada sobre uma superfície, conseguida por meio da mesma técnica de projeção cilíndrica. Quanto ao impulso de desenhar mapas, pode-se afirmar que ela é quase tão antiga quanto o homem. Babilônios, egípcios, gregos e árabes esboçaram o mundo, cada um a sua maneira. O mapa mais antigo que se tem conhecimento é o Mapa de Ga-Sur, de 2500 a.C., encontrado na Mesopotâmia, que representa o Rio Eufrates e os acidentes geográficos ao redor, numa pequena placa de barro que cabe na palma da mão.
As misteriosas águas penetrantes
Atualmente, os ácidos preparados a partir de minerais, como o nítrico, o clorídrico e o sulfúrico, são de extrema importância. Esse último, por exemplo, é normalmente usado como índice para avaliar o grau de industrialização de um país. Eles são vastamente utilizados nas produções de plástico, borracha e fertilizantes, entre outras coisas. “Grande parte dos historiadores da química atribui a descoberta dos ácidos minerais a Geber, um lendário alquimista que teria vivido no século 13”, afirma Maria Helena Roxo Beltran, professora de história da ciência, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. Mas a referência mais antiga dos tais ácidos foi escrita por Vanoccio Biringucci, um artesão de Siena (na atual Itália). Em 1540, ele publicou um livro chamado De La Pirotechia, em que fornece uma descrição detalhada de como obter o que chamou de “águas penetrantes”, utilizadas na época para corroer metais.
No entanto, hoje se sabe que os árabes já utilizavam os ácidos minerais no século 9 e, antes ainda, eles já eram conhecidos na Mesopotâmia, em 1700 a.C. “Antigas gravações em pedra mostram que os assírios fabricavam um tipo especial de vidro vermelho que só é possível com a utilização de pequenas quantidades de ouro dissolvido em água-régia, uma mistura dos ácidos minerais nítrico e clorídrico”, afirma Ana Maria Afonso-goldfarb.
Onde os raios vão parar?
As pesquisas arqueólogicas em Pueblo, no deserto no Novo México, Estados Unidos, já revelou muita coisa importante e polêmica sobre os antigos moradores daquela região, os anasazi. Em 1997, pinturas rupestres datadas do século 7 indicaram que podem ter sido eles os primeiros inventores do pára-raios. Uma técnica extremamente simples, utilizada pelos antepassados dos índios americanos atraía as descargas elétricas, preservando suas cidades de prejuízos. “Eles não colocavam objetos pontiagudos, como altas lanças de madeira, em locais elevados e de grande incidência de raios, como forma de impedir sua propagação”, conta Amaury Carruzo, meteorólogo e diretor-científico do Instituto Ciênciaonline de Educação e Cultura.
Se não fossem os anasazi, ainda assim os americanos ficariam com o crédito por livrar casas e prédios dos raios. Na Filadélfia, no fim século 18 – um período fértil nos debates sobre fenômenos atmosféricos – o físico e inventor Benjamin Franklin, ficou famoso por comprovar a natureza elétrica dos raios com uma experiência tão conhecida como perigosa, realizada em 1752. Franklin saiu no meio de uma tempestade para empinar uma pipa, com uma chave presa em sua ponta e conseguiu atrair uma descarga elétrica. Com menos sorte, poderia ter sido carbonizado. Afortunado, acabou inventando – e patenteando – o pára-raios. O instrumento é constituído de um ou mais captores (lanças) de 04 pontas, montado sobre um mastro de metal. Este modelo é utilizado até hoje e chama-se captador Franklin.
Os Bastidores da imprensa
Quando se fala em técnicas de impressão, uma associação é imediata: o nome de Johannes Gensfleisch. O.k., talvez o nome nem tanto, mas o sobrenome é inconfundível: Gutenberg, que viveu entre 1399 e 1468. Seu invento consiste em um trabalhoso e elaborado método que ficou conhecido como tipografia. Ele juntava peças de metal esculpidas com letras em relevo, que eram organizadas para formar palavras. As folhas de papel eram colocados diretamente sobre elas e comprimidas contra o metal sujo de tinta. Depois de secar, a página estava pronta. Aí, para fazer páginas diferentes, bastava trocar as letras e as palavras, é claro. O negócio dava trabalho, mas muito menos que escrever tudo à mão. “A técnica dos caracteres móveis e o livro impresso trouxeram novas possibilidades para a difusão de conhecimento numa proporção até então inédita”, afirma Maria Helena, da PUC, de São Paulo.
Mas sem desmerecer tanto suor, paciência e dedicação, Gutenberg não foi o inventor da impressão. Mais uma vez, os chineses largaram na frente. Eles dominavam várias técnicas para imprimir textos e imagens, e, desde o século 7, eram impressores compulsivos de calendários, livros sagrados e poesias. O tipo móvel foi desenvolvido pelo chinês Pi Sheng, entre 1041 e 1048, e transformou-se no método mais tradicional pela facilidade em lidar com o material. A destreza chinesa para a tipografia era impressionante, mas invento nenhum seria o bastante para o desafio que tinham pela frente: lidar com a quantidade necessária de tipos móveis para dar conta do idioma chinês. Para um texto escrito no século 12, por exemplo, foram necessários cerca de 400 mil caracteres diferentes. Comparada com a missão dos chineses, nesse aspecto braçal, a missão de Gutenberg parece fichinha.
Os caminhos do sangue
Contestar o conhecimento aceito como verdadeiro pela maioria é sempre perigoso. Durante o Renascimento, então, era um ato de muita coragem e certa dose de insanidade. A época foi marcada justamente pela veneração das doutrinas clássicas e negá-las poderia colocar qualquer um em maus lençóis. A não ser que ele fosse amigo do rei. Esse era o caso de William Harvey, médico inglês casado com a filha do fisiologista da corte, que dedicou sua vida aos estudos do sistema vascular. Em 1568, publicou no livro Exercitatio Anatomica de Motu Cordis Et Sanguinis Animalibus uma descrição precisa do fluxo sangüíneo dos seres humanos e da real função do coração no corpo. “A publicação inicia o método experimental na fisiologia e inaugura o conceito de corpo humano como uma máquina mecânica e hidráulica, concepção que teria seu auge no século 18”, diz Luzia Aurélia Castañeda, professora do Centro de História da Ciência, na PUC, em São Paulo. Suas explicações são aceitas até hoje, mas foram agressivamente rejeitadas na época. William incomodou porque desbancou as teorias de Galeno de Pérgamo (131-201 d.C), fisiologista e cirurgião dos gladiadores, que acreditava que o sangue era formado no fígado e que se movia em fluxos e refluxos.
Porém, se na Europa ocidental as idéias de William eram chocantes, na China, elas eram antigas conhecidas. “Eles foram os primeiros a executar dissecações do corpo humano e descreverem corretamente o fluxo sangüíneo em O Livro Clássico de Medicina do Imperador Amarelo, dois mil anos antes da civilização ocidental”, diz Carlos Bella, coordenador do Instituto Ciênciaonline.
E, ao contrário do que se pensa, essas teorias não se perderam ao longo da história. Os europeus provavelmente já haviam tomado conhecimento das experiências chinesas no século 13. Contudo, sob a forte influência religiosa, a sociedade européia não parecia estar aberta para novos conceitos. Por isso, apesar da descrição do fluxo sangüíneo não ser propriamente uma novidade, William teve o mérito de incorporar uma experiência alheia para criar uma teoria absolutamente em relação ao pensamento de seus pares.
Made in China
Uma sociedade pragmática e avançada, a China foi um importante pólo de novas idéias e descobertas do mundo antigo.
Há mais de 110 inventos que partiram de lá para ganhar o mundo. A seguir, alguns exemplos.
Sismógrafo
O equipamento do ano 132 indicava até a direção da qual viria o tremor. Aparelho similar na Europa, só em 1855
Dinheiro
Eles criaram o papel-moeda no século 7. Na Europa, a Suécia foi a primeira a adotá-lo, em 1661
Bússola
Na China do século 4 a.C. ela era usada para equilibrar as energias dos indivíduos. Na Europa, chegou em 1232 e virou um importante instrumento de navegação
Whisky
Chang Hua descobriu o álcool destilado em 654. Na Europa, ele surgiu na Itália, no século 12
Porcelana
No século 3 ela já era feita na China. Os europeus a conheceram em 1500, mas só 200 anos depois aprenderam como fabricá-la

A Pilha mais velha do Mundo

por Luciana Pinsky
Depois dos bombardeios e saques durante a guerra do Iraque, os arqueólogos estão loucos para saber se entre o que foi salvo do Museu de Bagdá está um dos maiores mistério da arqueologia: uma bateria elétrica com mais de 2 mil anos. O objeto cilíndrico de 13 centímetros de altura foi encontrado em 1938 pelo arqueólogo alemão Wilhelm Konig, em Khujut Rabu, próximo a Bagdá. Só recentemente a professora Marjorie Senechal, do Smith College, Estados Unidos, conseguiu fabricar réplicas a partir do modelo descrito por Konig.
E elas funcionaram, gerando cargas elétricas que variaram entre 0,8 e 2 volts (uma pilha comum tem 1,5 volt).
Mas permanece a dúvida sobre se os antigos povos da Mesopotâmia dominavam a eletricidade. “Ainda não existe evidência de que a força elétrica era utilizada na época”, diz o professor Shozo Motoyama, diretor do centro de história da ciência da Universidade de São Paulo. O mais provável é que o equipamento fosse usado para gerar campos magnéticos, o que seria útil para fabricar jóias ou na medicina.

A Mulher de Cesar não basta ser Honesta, tem que Parecer Honesta

Por  Joanna de Assis
Hoje em dia, a afirmação é usada em palestras de marketing para dizer, por exemplo, que um restaurante deve ser como a mulher de César. De que adianta o estabelecimento ter comida de qualidade e bom atendimento, mas parecer uma espelunca? Na política, usa-se para dizer que os governantes, além de serem honestos, precisam agir como tal. A frase original surgiu após um escândalo em Roma, por volta de 60 a.C., envolvendo o homem mais poderoso do mundo, sua mulher e um nobre pretendente.
Pompéia vivia muito sozinha, enquanto o marido Júlio César passava meses com seus exércitos. É nesse cenário perfeito para as fofocas que surge Clódio, um nobre admirador da moça. “Numa noite, para conseguir se aproximar de Pompéia, ele entrou no palácio disfarçado, mas acabou se perdendo pelos corredores e sendo descoberto e preso”, diz a historiadora Maria Luiza Corassin, da Universidade de São Paulo.
O jovem foi levado ao tribunal e o próprio César convocado para prestar esclarecimentos. “Ele declarou ignorar o que se dizia sobre sua mulher e a julgou inocente”, afirma Maria Luiza. O penetra foi absolvido, mas Pompéia não se livrou do ostracismo e do repúdio do marido. Para quem o acusava de estar sendo contraditório, ao defender a mulher no tribunal e condená-la em casa, ele teria afirmado: “Não basta que a mulher de César seja honrada, é preciso que sequer seja suspeita”.



Leite de Pedra

Por  Maria Fernanda Almeida
Cientistas da Universidade de Bristol, na Inglaterra, detectaram resíduos de leite não humano em pratos de cerâmica localizados no norte da Grã-Bretanha. Datados de 6 mil anos atrás, essa é a primeira evidência de que os homens consumiam leite animal no início do período neolítico, conhecido como Idade da Pedra Polida.
Esse é um momento particularmente importante para o desenvolvimento do homem, quando ele deixa de se alimentar daquilo que encontrava na natureza e passa a cultivar seus próprios alimentos. “A principal novidade é que ao ordenhar um animal ele passa a ter uma fonte de alimentos muito mais sustentável do que ao abatê-lo”, diz Richard Evershed, da Universidade de Bristol, responsável pela pesquisa. “Além disso, para obter o leite, ele teve que domesticar os animais, tornando-os mais mansos e obedientes, o que possibilitou sua utilização como força de tração e transporte”, diz Evershed.
Além de alterar os hábitos alimentares, a criação de animais pode ter modificado a estrutura social dos grupos humanos primitivos, já que aumentou o número de pessoas que podiam se sustentar juntas. Afinal, a carne de uma vaca pode alimentar algumas pessoas por uma semana, já o animal domesticado garante comida por muito mais tempo. Evershed vê aí um novo modo de vida para o homem pré-histórico em que as relações familiares e sociais tornam-se mais complexas e se desenvolve a noção de propriedade.
Evershed está agora em busca de vestígios ainda mais antigos numa região conhecida como a Crescente Fértil, entre o norte da África e a Mesopotâmia, considerada o berço da Revolução Agrícola, de onde o hábito de consumir leite teria se alastrado para o Oriente Médio e a Europa.




Um Dia na História de Pompéia !

por Giba Stam
No século 1, prosperidade econômica, liberdade religiosa e uma profusão de opções de lazer e diversão faziam de Pompéia um dos locais mais agradáveis para se morar em todo o Império Romano. Suas terras férteis e clima temperado eram perfeitos para o plantio da uva, que movimentava a fabricação do vinho. A indústria de lã também era poderosa.
O porto às margens no Mediterrâneo estava sempre cheio: cargueiros partiam com trigo, vinho e objetos de bronze e prata e pesqueiros chegavam carregados. Nos mercados e no comércio de rua podia-se encontrar utensílios domésticos, espelhos, louças, roupas e perfumes. Havia também profissionais disponíveis no que se chama hoje de setor de serviços: médicos, pintores, condutores de mula, músicos e professores. No total, quase 12 mil homens e mulheres livres e 8 mil escravos estavam envolvidos em alguma atividade econômica. Com tanta gente ganhando e gastando dinheiro, não podiam faltar os banqueiros, as figuras mais ricas e poderosas da cidade.
Para os momentos de folga, o esporte era uma das atividades preferidas. Na cidade havia dois ginásios onde era praticado lançamento de disco, salto a distância e luta livre. Depois da malhação, homens e mulheres se revezavam nos salões de banhos: a seção completa dava direito a água aquecida, sauna a vapor e duchas frias. Limpinhos e relaxados, eles seguiam para seções de depilação (prática comum também entre os homens jovens) e massagem.
Pompéia possuía uma vida cultural e tanto. Os mais pobres freqüentavam o teatro a céu aberto, onde eram muito populares as sátiras, comédias e tragédias. Preferido pela aristocracia, o ambiente fechado do odeon abrigava shows de música e recitais de poesia. Mas nada atraía tanta gente quanto os combates dos gladiadores, que lotavam o anfiteatro, com capacidade para receber toda a população da cidade. Era uma paixão perigosa. Em um dos jogos, em 59 a.C., uma briga entre os hooligans locais e os visitantes de Nucéria, uma cidade das redondezas, fez o senado proibir os jogos em Pompéia por uma década.
Com tantas opções para a satisfação carnal, era necessário cuidar da alma. Em Pompéia predominava o sincretismo religioso e havia templos dedicados a deuses romanos, gregos e egípcios. Vênus, deusa do amor, era a mais homenageada, mas Mercúrio, deus do comércio, também estava presente em lojas e pousadas, muitas vezes ao lado da inscrição lucrus gaudium, que em latim quer dizer: lucro é alegria. Mesmo na hora de cultuar os deuses, os habitantes de Pompéia não deixavam de lado seus principais valores: amor, trabalho e boa vida.
O PERIGO MORA AO LADO
Erguendo-se 1277 metros acima do Golfo de Nápoles: o Vesúvio era um vizinho sempre visível no horizonte
RECURSOS HUMANOS
O setor de serviços era um dos mais movimentados da economia: de médicos a massagistas, todos tinham mercado
PÃO QUENTE A TODA HORA
A indústria de pão era uma das bases da economia de Pompéia e empregava um grande contingente de trabalhadores livres e escravos
 Das cinzas para a eternidade
A dolce vita de Pompéia acabou em 24 de agosto de 79. O Monte Vesúvio explodiu lançando lava e nuvens de gases sobre a cidade. Os habitantes morreram em poucas horas, mas a erupção, que durou três dias, soterrou tudo e todos sob 6 metros de rochas. As ruínas da tragédia foram encontradas no século 16, mas só foram escavadas em 1748. O que foi encontrado tornou-se o maior museu a céu aberto da antiguidade. A poeira penetrou em todos os espaços e ajudou a preservar intactos objetos, pinturas e inscrições nas paredes, que permitiram uma reconstrução inédita e detalhada da vida cotidiana da cidade e de seus moradores.
A poeira solidificada em volta dos corpos criaram moldes perfeitos para as mórbidas estátuas de gesso.



Gêngis Khan: A Fúria Mongol

Numa tribo nômade de uma das regiões mais remotas do mundo, nasceu aquele que lideraria um dos mais eficientes exércitos já reunido. Impiedoso e violento, ele conquistou o maior império que um só homem já dominou. Seu nome é Temudjin, ou Gêngis Khan
Por  Isabelle Somma
O ano é 1215. Zhongdu, capital do Império Jin, cai na segunda tentativa de invasão pelos mongóis. Um ano antes, um pesado tributo foi pago e os bárbaros das estepes se foram. Desta vez, porém, nem os muros de pedra com 12 metros de altura, nem a chuva de setas despejada pelos mais de mil arqueiros postados no alto das torres foi capaz de deter o cerco. Quem não fugiu se arrependeu. A cidade foi saqueada e destruída. Seus habitantes foram mortos ou escravizados. Zhongdu, mais tarde rebatizada como Pequim, foi mais uma vítima da máquina de guerra comandada por Gêngis Khan.
Em seus 72 anos de vida, o líder mongol amealhou o maior império em extensão que um único homem já conquistou, da costa do Oceano Pacífico ao Mar Cáspio. Seus descendentes chegaram à Europa e ao Golfo Pérsico. “É a carreira militar mais fulminante da história. É como se um chefe de uma tribo indígena brasileira conquistasse hoje a América do Sul”, afirma Mario Bruno Sproviero, professor de Língua, Literatura e Cultura Chinesas da Universidade de São Paulo. A comparação faz todo sentido. Além de dispersos geograficamente, os mongóis não possuíam leis escritas, na verdade não tinham sequer escrita. Não conheciam a agricultura e seus modos eram pouco civilizados mesmo para os padrões da época.
Não tomavam banho, comiam carne crua e viviam infestados de piolhos e outros parasitas. Na guerra, eram impiedosos: pilhavam seus vizinhos, matavam os homens com crueldade ímpar, raptavam as mulheres e escravizavam seus filhos.
Mas nem só o terror construiu o império de Gêngis Khan. Ele foi um líder carismático, com profundo senso de justiça. Atos de bravura conquistavam seu coração e os guerreiros mais valentes, mesmo entre os inimigos, eram recompensados com posições de comando em suas tropas. Por outro lado, os traidores eram castigados com a morte. O líder era grato até o último fio de sua barba aos amigos e respeitava a religião alheia, incorporando cristãos, budistas e muçulmanos em seus quadros. Valorizava o conhecimento a seu modo: entre os prisioneiros, aqueles que tinham profissões ou alguma habilidade eram enviados para Caracorum, fortaleza militar que servia de capital para os mongóis. Como escravos, que fique claro, mas vivos.
Temudjin, seu nome verdadeiro, nasceu por volta de 1165, à beira do Rio Onon, no noroeste da Mongólia, uma vastidão de terras planas e clima árido, ocupada pelos turcos até o século 12. Ali viviam diversas tribos nômades, organizadas em clãs. Entre as mais importantes estavam os tártaros, os caraítas, os merquitas, os naimanos, os quirquizes, os oirates e, é claro, os mongóis. Aos 8 anos de idade, após a morte se seu pai, Yesugai, envenenado pelos tártaros, Temudjin e sua família foram abandonados com poucas posses e alguns cavalos. Eles viviam da caça de pequenos animais, dos peixes do Rio Onon, da coleta de frutos e do leite das éguas. Aos 15 anos, Temudjin já almejava assumir a liderança da família, então composta pela mãe, três irmãos, a segunda esposa de seu pai e dois meio-irmãos. Um deles, Bekter, também era candidato ao posto de chefe do grupo. Temudjin sabia que nas estepes, a única forma de se livrar da concorrência era eliminá-la. Durante uma pescaria, ele matou o meio-irmão com uma flechada.
O jovem Temudjin não parou mais de eliminar quem tivesse a coragem, ou o azar, de cruzar seu caminho. Os laços familiares entre tribos e clãs tornavam constantes as rivalidades: mulheres, butins ou cavalos, eles só precisavam de um motivo, às vezes nem isso, para acender velhas vinganças.
Aos 18 anos, Temudjin entrou numa dessas refregas com os merquitas (leia quadro na página 39). Ele tinha poucas posses e nenhuma força fora de seu clã, e para enfrentar seus inimigos pediu ajuda a Toghrul, líder dos poderosos caraítas, e ao amigo Jamuka, influente chefe militar de um clã aliado. Juntos, eles reuniram cerca de 40 mil homens e, sob a liderança de Temudjin, derrotaram os merquitas. Naquela imensidão inóspita, porém, as alianças eram como os períodos do dia, não como as estações do ano. E aquele que era seu irmão pela manhã podia tornar-se seu pior inimigo ao cair da noite. Temudjin e Jamuka eram amigos desde crianças e chegaram a dividir a mesma ger (uma espécie de cabana leve, típica dos povos nômades) para enfrentar os invernos mais rudes. Agora adultos, ambos almejavam a mesma coisa: tornar-se o líder das estepes. Com a vitória sobre os merquitas, Temudjin havia conquistado a admiração de seus comandados e, portanto, mais poder que o amigo.
E, entre os mongóis, sempre que havia uma crise: havia uma guerra. Jamuka reuniu 30 mil homens de 13 tribos diferentes e atacou Temudjin, em 1187. Quem morreu atingido por flechas envenenadas ou golpes de lança foi considerado um sujeito de sorte. Os naimanos a comando de Jamuka ferveram os líderes das tropas de Temudjin em caldeirões. Os mongóis, que eram xamanistas, acreditavam que ao cozinhar seus inimigos, seus espíritos nunca iriam assombrá-los. Jamuka amarrou as cabeças de dois soldados mortos em seu cavalo e desfilou pelo campo de batalha. Uma mensagem de horror ao líder rival, que conseguira escapar.
A derrota obrigou Temudjin a quase dez anos de exílio, tempo que passou na China. Para voltar, ele só tinha uma alternativa: promover outra guerra. Com a ajuda do velho aliado, Toghrul, ele liquidou os tártaros, dando início a uma época de terror que lhe daria fortuna e fama entre as outras tribos. Temudjin tornou-se cada vez mais temido e poderoso. Em mais uma uma reviravolta, ele virou-se contra Toghrul e assumiu o controle dos caraítas.
Faltava agora acertar as contas com Jamuka. Catorze anos depois, eles voltaram a se encontrar e, dessa vez, o exército de Temudjin derrotou a força mais poderosa com que havia cruzado até então. Quando Jamuka percebeu que a batalha estava perdida, escapou acompanhado apenas por alguns de seus homens. Durante a fuga, sua escolta mudou de lado: Jamuka foi atacado e preso. Como Temudjin estava ficando muito poderoso e Jamuka cada vez mais isolado, seus homens decidiram se juntar ao vencedor, imaginando que ao entregar seu líder, ganhariam a gratidão do inimigo. Mas, para Temudjin, a traição era um ato imperdoável, mesmo quando isso o beneficiava. Ele prendeu todos e ordenou que fossem decapitados. Jamuka foi poupado para que visse a morte de seus traidores. Depois disso, também foi executado.
O soberano infinito
Após a morte de Jamuka, Temudjin era o líder de fato dos mongóis. Faltava tornar-se líder de direito. Em 1206, o ano do Tigre, um Kuriltai (uma espécie de assembléia), foi convocado entre os mandatários das dezenas de tribos que viviam nas estepes. À beira do Rio Onon, eles se reuniram e declararam que Temudjin passaria a ser chamado Chingis Khan (Gêngis é a versão persa do nome, que ficou famosa por terem sido eles os primeiros a relatarem sua história), que significa “soberano do oceano”. Não se sabe exatamente qual o significado do título, considerando que os mongóis não tinham lá muita intimidade com a água salgada. A explicação mais provável é a de que sendo o oceano a maior coisa que eles conheciam, chamar seu líder assim era compará-lo a algo sem fim, eterno. O soberano infinito.
O líder militar deixou momentaneamente a espada de lado para compilar uma série de leis chamada Yasak que, entre outras coisas, instituíam o serviço militar obrigatório a partir dos 15 anos e a condenação à morte em casos de furto e adultério. Pela primeira vez na história dos mongóis, um líder estava acima de todos os chefes tribais e de suas tradições e leis orais.
No ano seguinte, Gêngis Khan retomou suas campanhas militares, desta vez, levando suas ambições a lugares mais distantes. Sua motivação era conquistar terras para pastagens, saquear e fazer escravos. Era a única forma que conheciam de adquirir riquezas. Não comercializavam, não tinham muito o que vender a não ser cavalos. Seus cavalos, aliás, eram o ponto forte de seu exército, que além da excelente técnica para combate sobre montaria não possuía nenhuma outra característica peculiar. Não era especialmente bem armado nem utilizava estratégias inovadoras. No entanto, seus homens eram muito organizados e disciplinados. Generais e soldados comiam a mesma comida, usavam as mesmas roupas e armas. Isso fazia com que as lideranças fossem respeitadas. O avanço rápido e arrasador se deve, acima de tudo, ao terror que Gêngis Khan impunha em seus adversários. A matança provocada por suas tropas não se limitava ao campo de batalha. Os mongóis não negociavam rendição ou tratados de paz.
Quando entravam em combate, não poupavam nobres ou governantes e assassinavam populações inteiras, como aconteceu com os tártaros. Depois, destruíam tudo que não podiam carregar. A fama de implacável fez com que muitas cidades que estavam em seu caminho preferissem se render, pagar tributos e entregar mulheres e escravos, a correr o risco acabar sendo massacradas.
Em 1207, quando Gêngis Khan iniciou a longa campanha na China, seu nome já era conhecido. Foram sete anos até que chegasse às muralhas de Zhongdu. Com quase 1 milhão de habitantes, a capital dos Jin – que dominavam o norte da China, dividida após a queda da dinastia Tang – era cercada por imensos muros e centenas de postos protegidos por arqueiros. Ligações subterrâneas de abastecimento permitiram que a cidade resistisse até o ano seguinte. Em 1215, no entanto, Khan conseguiu romper o cerco e invadiu a cidade. Lá, sua tropa destruiu aquilo cuja utilidade não conhecia, ou seja, quase tudo. As mulheres foram levadas.
Os homens com habilidades especiais, como os artesãos, foram escravizados, e os demais sumariamente assassinados. Um massacre.
As incursões na China não aplacaram o apetite Gêngis Khan por novas conquistas. Pelo contrário. Em 1217, após sufocar uma rebelião dos caraquitais, ele entrou em choque com império muçulmano de Khwarazm – uma das possessões turcas na região que havia composto a Pérsia e que se estendia do Mar de Aral ao norte do Golfo Pérsico, na Ásia Central. Na época, esse era o maior poderio militar do continente asiático. No início, as relações entre Gêngis Khan e sultão Maomé II foram boas. Mas não seriam assim por muito tempo. Maomé acusou os mongóis de saquearem caravanas turcas que voltavam da China e, em represália, matou os embaixadores mongóis. Foi a gota d’água. Liderado pelo próprio Khan, um enorme exército de 200 mil homens invadiu o território Khawarazm. As cidades que resistiam acabaram como Bocara (no atual Uzbequistão), dizimada por uma série de incêndios. Os mongóis tomaram grande parte da região que corresponde hoje ao Irã e Turcomenistão.
Em Samarcanda, um dos mais prósperos centros urbanos da época, e onde morava o sultão, as baixas foram menores. A população teve de pagar um pesado tributo, mas 30 mil membros do exército derrotado foram mortos. Gêngis Khan destacou dois de seus melhores generais para capturarem o sultão, mas ele nunca seria pego, pois morreu doente em um esconderijo. Na perseguição, porém, os mongóis invadiram várias cidades do Reino da Rússia.
Laços de sangue
Gêngis Khan morreu no nordeste da China, em 1227, de causas desconhecidas. As especulações vão desde malária a ferimentos provocados por uma queda do cavalo. Sabe-se apenas que seu último desejo foi atendido. Seus restos mortais foram levados para a região onde nasceu e ali foram sepultados.
Mas nem a morte colocou fim às conquistas militares que Gêngis Khan iniciou. Tolui, o filho mais novo, obedeceu a tradição de seu povo e assumiu a regência. Dois anos depois, um Kuriltai foi convocado para que o escolhido por Gêngis, Ogodai (seu terceiro filho), ascendesse ao trono dos então poderosos mongóis.
A conquista da Rússia se concretizaria apenas na campanha iniciada em 1236. O novo Khan enviou o sobrinho Batu, neto de Gêngis Khan, para a Rússia, que na época era dividida em pequenos principados. Batu conquistou Moscou e Kiev, em 1240, e partiu para a Hungria e a Polônia. No ano seguinte, sem reforços e esgotado, o exército mongol voltou com a notícia da morte de Ogodai. Batu se estabeleceu no sul da Rússia e fundou a Horda de Ouro. O reinado ganhou este nome porque a sede do governo às margens do Rio Volga era uma enorme tenda recoberta com fios de ouro. Horda em mongol é tenda. Para os ocidentais, a palavra ganharia um novo significado, mais apropriada para designar o comportamento dos descendentes de Gêngis Khan: bando de malfeitores.
Na China, os combates prosseguiram ininterruptamente desde a tomada de Zhongdu. A região só seria definitivamente controlada, juntamente com a Península Coreana, em 1234, sob a liderança de Ogodai. O enorme império, no entanto, não sobreviveria ao seu tamanho e às divisões entre os descendentes de seu fundador. Tolui obteve a China. Batu, filho de Jochi, o primogênito de Gêngis, que morreu um ano antes do pai, ficou com a Rússia. Chagatai, o segundo da escadinha, ficou com cidades importantes como Samarcanda e Bocara. Mas não se pode datar exatamente o fim do império fundado por Khan, pois, se a oeste, suas terras seriam parcialmente conquistadas pelo líder turco Tamerlão, no século 14, a leste, o neto de Khan, Kublai, fundou a dinastia Yuan, que governou a China até a metade do século 14 e cuja influência sobreviveu aos anos.
Se a morte de Gêngis Khan não chegou a ser um alívio para seus opositores, também não o foi para os aliados. A última de suas histórias sobre a terra tornou-se uma lenda. Conta-se que para esconder o local do sepultamento (segundo a tradição mongol, quando um túmulo é violado, o espírito do morto deixa de proteger sua família), todos os coveiros e até aqueles que cruzaram o cortejo foram assassinados. Os soldados que executaram a tarefa permaneceram ao lado da tumba até que a vegetação cresceram à sua volta, ocultando a sua localização. Na volta para casa, os próprios guardas também foram mortos. O episódio é narrado no livro The Secret History of the Mongols (A História Secreta dos Mongóis, sem tradução em português), uma compilação de histórias sobre a vida de Gêngis Khan, escrito por autor desconhecido logo após a morte do líder.
Tamanho segredo se manteve preservado por oito séculos. Em 2001, um grupo de arqueólogos americanos anunciou a descoberta de um complexo de 20 túmulos de pedra a 321 quilômetros de Ulan Bator, capital da República Popular da Mongólia. Como eles estão próximos da região onde Gêngis Khan teria nascido e onde seu pai foi enterrado, há grandes chances de que ele realmente tenha sido enterrado no local. Mas a exploração do sítio arqueológico e a confirmação de que se trata do túmulo do órfão pobre que tornou-se o imperador de meio mundo, ainda depende da autorização do governo da Mongólia.
Mulheres e cavalos
Em toda a história de Gêngis Khan as mulheres raramente são citadas. Nas estepes, até um cavalo valia mais que uma companheira. Ele era mais do que o melhor amigo do homem, era um indispensável instrumento em batalhas, tanto para o combate, como para a fuga. O quadrúpede também era necessário no pastoreio, segunda atividade econômica dos mongóis, precedido, é claro, pela pilhagem. Homens e cavalos nunca se separavam. Já as mulheres eram deixadas para trás nos acampamentos, enquanto os homens passavam longos períodos de batalha ou caça. Por isso, perder a mulher para uma outra tribo era comum. Arrumar uma também não era lá muito difícil, naqueles dias. Os casamentos eram acertados entre os pais quando os noivos ainda eram crianças, no entanto, a forma mais simples de conquistar a companhia feminina era usar a força. Fosse nas guerras, quando os homens podiam incorporar novas esposas, ou simplesmente seqüestrando as jovens de outras tribos, uma prática corriqueira entre as tribos nômades.
O pai de Temudjin, Yesugai, roubara sua mãe da tribo dos merquitas. Vinte anos depois, o recém-casado Temudjin seria alvo da vingança. Sua noiva, Borte, foi levada pelos merquitas e para resgatá-la (fato não muito comum), ele se aliou a outras tribos para o serviço. A batalha abriu caminho para a liderança de Temudjin sobre os povos da região. Ele obteve sua esposa de volta, grávida. O fruto dessa gravidez, Jochi, foi o primogênito da família, mas sobre ele sempre ficaria a dúvida de ser ou não filho de Temudjin, motivo pelo qual ele foi excluído da linha de sucessão. Em 1225, Jochi morreria envenenado, provavelmente a mando do próprio pai. Gêngis teve ao todo seis mulheres mongóis e outras tantas estrangeiras, um número que pode não chegar à centena, mas certamente ultrapassa a metade disso.
Uma pesquisa realizada por geneticistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra, afirma que 16 milhões de homens, cerca de 0,5% da população masculina do mundo, possuem cromossomos Y característicos dos mandatários mongóis. Esses cromossomos carregam uma assinatura genética que descende de um único cromossomo fundador. Suspeita-se que ele seja de Gêngis Khan.
 O maior da história
1165
Data mais provável do nascimento de Temudjin
1183
Derrota dos merquitas e resgate da esposa Borte
1187
Perde a Batalha de Dalan Balzhut e se exila na China
1203
Vence o ex-aliado Toghrul e conquista os caraítas
1206
É proclamado líder mongol e recebe o título de Gêngis Khan
1214
Conquista o norte da China e Zhongdu (atual Pequim)
1220
Captura das cidades muçulmanas de Bocara e Samarcanda
1223
Os mongóis invadem o Reino da Rússia
1227
Morre doente durante a campanha de conquista da China
1234
Sob o comando de Ogodai, seu sucessor, o império atinge o auge

O Verdadeiro Rei Artur

Por  Giba Stam
As histórias de nobreza e cavalaria fizeram dele um mito na Idade Média. Um personagem da ficção, não da história. No entanto, alguns especialistas acreditam que ele teria de fato existido e que, por trás dos contos de magos e bruxas, talvez tenha havido um homem real. Quem era ele?
Não há quem não tenha ouvido falar, pelo menos uma vez, do rei Artur e de sua corte de jovens e bravos vassalos. Ostentando portentosas armaduras, combatendo pela honra de suas amadas e habitando grandes castelos, eles evocam os ideais da cavalaria, típicos da Idade Média. Da literatura às óperas, das artes plásticas ao cinema de Hollywood, poucos personagens mereceram tanta atenção e tornaram-se tão conhecidos. Mas, afinal, o rei Artur existiu?
Para responder a esta pergunta e encontrar o verdadeiro Artur teremos que voltar mais longe no tempo. Não adianta procurá-lo nos séculos 10 e 1, onde ele foi eternizado como um nobre cristão senhor de feudos. Esse Artur nunca existiu. A história do possível Artur começa na Bretanha (que corresponde hoje ao norte da França e ao Reino Unido). Ali viviam os celtas, um povo com origem no centro sul da Europa, que se espalhou pelo continente durante a Idade do Ferro, aproximadamente em 600 a.C. Guerreiros tribais violentos, eles não reconheciam nenhum poder fora de seu próprio clã. Com a ocupação romana, no século 1, no entanto, parte das tribos celtas foram sendo integradas ao império, entre eles estavam os bretões. Por cinco séculos, a Bretanha esteve sob o domínio romano que, além de trazer desenvolvimento para a região, protegia-a de invasões.
Com o declínio do império, Roma passou a retirar suas legiões e, no início do século 5, os bretões tornaram-se alvo do ataque de pictos e escotos, tribos também de origem celta que habitavam o norte da ilha, onde hoje é a Escócia e a Irlanda. Mas vinha pelo mar as maiores ameaças à paz na Bretanha: anglos, jutos e saxões, povos de origem germânica.
O Guerreiro Bretão
Desde o abandono das legiões romanas, os bretões vinham sofrendo derrotas e o avanço anglo-saxão parecia irreversível. Se haveria um herói na história desse povo, era uma boa hora para ele aparecer. Isso teria acontecido em 517, na batalha do Monte Badon, na qual os bretões conseguiram uma vitória decisiva contra os invasores.
De fato, a arqueologia comprova que na época que sucede a batalha, as invasões na Bretanha diminuíram e as tribos puderam desfrutar de uma certa paz que duraria algumas décadas. “Se Artur existiu, ele provavelmente combateu em Monte Badon. A lenda arturiana se remete ao mito da resistência e ao desejo de unificação. E a batalha em Badon é o único momento histórico comprovado em que isso de fato ocorreu”, diz Adriana Zierer, historiadora da Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro. Essa é a primeira coincidência entre mito e história.
Mas o certo é que o Artur de Monte Badon seria completamente diferente daquele que conhecemos pelos livros e filmes. “Os guerreiros da época eram extremamente violentos. Suas armas eram as espadas de ferro – uma curta e leve, outra pesadíssima e com quase um metro de lâmina – , machados rombudos e escudos. Os combates eram travados no chão, em meio a um corre-corre danado. As lutas eram corporais e rápidas: a estratégia era acertar uma forte pancada na cabeça ou nas costas do inimigo e derrubá-lo. Aí, a vítima não tinha mais chance: com uma espada mais curta e leve, ela era cortada preferencialmente na garganta, e deixada para sangrar e morrer” conta Ricardo Costa, historiador da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Os celtas usavam cavalos para tração, mas raramente para montaria. Nas batalhas, isso simplesmente não ocorria.
Os combates eram comuns na Bretanha decadente do século 5. O padrão de vida proporcionado pelo Império Romano, com construções de pedra e até aquecimento central, foi decaindo. A vida era extramamente rústica e as estradas que ligavam as cidades foram estragando, isolando as tribos. Os bretões não tinham unidade social ou religiosa: os clãs pouco se visitavam, não celebravam datas sagradas e mal comerciavam entre si, com exceção de trocas envolvendo cereais, roupas e calçados de couro. Viviam desconfiados de seus vizinhos, em clima de instabilidade política. As alianças entre os clãs eram raras as disputas por território, ou qualquer outra diferença, geralmente se resolviam no braço. A maioria das pessoas eram camponeses vivendo uma vida muito simples, em casas de pau-a-pique. As moradias tinham um buraco no teto para sair a fumaça e o fogo era usado tanto para cozinhar carnes e cereais quanto para esquentar o ambiente.
A faca era praticamente o único utensílio – garfos e colheres eram raros – e um chifre oco era usado como copo para beber. A elite que escapava dessa pobreza era composta por alguns bretões romanizados, que desfrutavam de um conforto um pouco maior, vivendo em habitações fortificadas de pedra e de madeira, que chegavam até a importar produtos finos como o vinho. Era nesse grupo de privilegiados que se formavam os guerreiros, e Artur teria vivido entre eles, onde aprendeu a usar a espada e a lança.
Essas são as poucas provas que a arqueologia conseguiu para reconstituir o mundo arturiano. A maioria dos artefatos do período, como objetos de madeira e tecidos, se decompuseram nos pântanos da região e a única coisa que sobrou mesmo foram os buracos da fundação das casas. No século passado houve um grande esforço para descobrir alguma coisa que comprovasse o mito de Artur. Em 1930, o arqueólogo Raleigh Radford, em missão oficial patrocinada pelo Ministério Britânico, escavou o Castelo de Tintegel, em Northern Cornwall, a 200 quilômetros de Londres. Acreditava-se que aquele seria o local onde Artur nascera. As pesquisas confirmaram que o local havia sido uma fortificação no século 6. Foram encontrados potes e vasos de cerâmica importada, indicando que se tratava de um raro entreposto comercial.
“Depois de 20 anos de trabalhos, a arqueologia não conseguiu provar que Artur foi concebido ali, mas mostrou que foram usados fatos reais na narrativa sobre ele”, afirma Geoffrey Ashe, historiador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, e autor do livro A Descoberta de Rei Artur.
Um Rei Latino
Para Ashe, um dos maiores e mais assíduos pesquisadores sobre o tema, existiu um Artur histórico e o nome dele é Riothamus, versão latina do título bretão “Rigothamus”, que quer dizer rei supremo. A melhor evidência de que Riothamus realmente existiu é uma carta do prefeito de Roma em torno de 470. “Esse era apenas um título, mas alguns relatos de época se referiam a ele como Artur, que poderia ser seu nome de batismo”, diz Ashe. Riothamus cumpre alguns requisitos para ser aceito como Artur: ele participou de campanhas militares na região que hoje corresponde ao País de Gales, fato também atribuído ao Artur das lendas, e lutou na guerra contra os invasores da Bretanha.
Mas se esse fosse o nosso homem, Artur teria nascido antes do que se imagina, durante o domínio romano. Ele teria sido educado, falaria latim, e poderia ter sido um rei de fato, não apenas um líder do período conturbado que se seguiu. Sabe muito pouco sobre Riothamus, mas um evento famoso ligado a ele foi o envio, a pedidos do imperador, de um exército de 120 mil homens para ajudar a defender Roma contra invasores visigodos. Tudo indica que Riothamus tinha uma aliança com Roma, um sinal claro de seu poder, mas certamente o evento não condiz com a imagem de um líder disposto a defender a Bretanha a qualquer preço. A tese de Ashe é instigante, mas está longe de ser consenso. Diante de tantas incertezas e da falta de material histórico confiável, o renomado historiador David Dumville, também da Universidade de Cambridge, exortou a hipótese do colega, e fez um apelo para que todos os historiadores abandonassem o assunto por completo.
O pedido funcionou e, nos últimos 20 anos, praticamente nenhum historiador da academia se aventurou a descobrir a identidade secreta do rei.
A Batalha de Badon foi o evento fundador do mito de que um líder bretão voltaria para unir todos os clãs contra os invasores. Se Artur esteve lá, jamais teremos certeza. No entanto, sabemos que depois dela, as lendas sobre esse guerreiro só aumentaram. Em um raro vestígio reconhecidamente histórico datado do século 6 – cerca de 100 anos depois de Monte Badon –, o livro De Excedio et Conquestu Britanniae (A Destruição Britânica e Sua Conquista, sem versão em português), escrito por um monge chamado Gildas, descreve a Bretanha como um país, subjugado pelos saxões. O religioso protesta contra os líderes locais, que faziam alianças com os estrangeiros para enfrentar escotos e pictos do norte, o que acabou abrindo espaço para a invasão. No fim, ele clama pela volta do guerreiro que havia vencido a Batalha de Badon. O único detalhe é que o nome desse líder não era Artur, mas Ambrósio Aurélio.
Artur mesmo, com esse nome, só apareceu no século 9, num relato conhecido como Historia Brittonum (História dos Bretões, sem versão em português) e atribuído a outro monge: Nennius. Ele conta 12 grandes vitórias de um líder corajoso e inteligentíssimo chamado Artur, que teria colecionado vitórias sobre os saxões, culminando com o triunfo em Monte Badon. Na década de 70, lingüistas e historiadores reviraram a obra de Nennius e não restou dúvida para ninguém de que ela é baseada no texto de Gildas. No entanto, a obra de Nennius apresenta novos componentes retirados de lendas celtas e galesas. Ele conta, por exemplo, que em uma batalha, Artur teria matado 940 inimigos com um só golpe. Essa era uma forma tradicional nas narrativas celtas: incluir feitos obviamente inverídicos fazia crescer a fama do guerreiro. A maior novidade acrescida por Nennius, o nome Artur, também tem uma referência na mitologia celta: uma coletânea de lendas sobre antigos heróis galeses chamada Mabinogion fala de um líder chamado Artur.
O Rei e sua corte
No século 12, seis séculos após o período em que teria vivido, Artur finalmente foi promovido de líder guerreiro a rei. A transformação aconteceu na obra Historia Regun Brittoniae (História dos Reis da Bretanha, sem tradução para o português), do clérigo Geoffrey Monmouth. Usando as fontes de que dispunha, como os escritos de Gildas, a tradição oral bretã e gaulesa e muita imaginação, Geoffrey fez o impossível: traçou a genealogia de todos os reis da Inglaterra desde 1100 a.C. Entre eles, Artur despontou como um dos mais importantes monarcas da Bretanha. Um rei deve ter uma rainha e Artur ganhou a companhia da Gueneviere e um castelo, localizado em Tintegel (aquele que foi localizado em escavações arqueológicas, na década de 70). Misturando fantasia e história, Monmouth vai criando, um a um, os ingredientes da lenda: Artur ora aparece lutando contra monstros e gigantes, ora é mortalmente ferido e retira-se para a ilha de Avalon, onde estaria situado outro mundo.
Também é mencionada a fonte mágica de seu poder, uma espada chamada Caliburn. O mago Merlin também fez sua estréia: foi ele quem profetizou o nascimento do rei.
O livro de Monmouth transformou o guerreiro bretão em príncipe da cristandade: corajoso, justo, respeitado e invencível. Seu objetivo, segundo Adriana Zierer, era legitimar o poder dos reis ingleses. A obra teve tanta influência que por 600 anos foi considerada a versão oficial da história britânica. Outra proeza foi ter transformado aquilo que os franceses consideravam um amontoado de histórias sem pé nem cabeça produzidos por bárbaros irracionais em algo que viria a ser uma das maiores fontes de inspirações para os artistas franceses. A História dos Reis Bretões deu origem a uma proliferação de romances conhecidos genericamente como “matéria da Bretanha”.
Na França, essa moda daria um novo impulso ao reinado de Artur. Chrètien de Troyes escreveu cinco livros sobre o rei e sua corte, nos quais introduziu personagens como os cavaleiros Percival e Lancelot, a mesa redonda em volta da qual se reuniam, o Graal e o castelo de Camelot.
“A adoção de Artur pela literatura francesa lhe deu um certo refinamento de costumes, com a introdução de conceitos como a civilidade, o casamento e a fidelidade”, afirma Teresa de Queiroz, historiadora da Universidade de São Paulo (USP). Outra novidade foi que os cavaleiros tornam-se os personagens mais atuantes. O rei deixa de se envolver nas lutas e aventuras, sendo consultado apenas para julgar a situação ou dar a palavra final. “Isso reflete muito bem o jogo de poder na época, onde o monarca começava a se fortalecer e a nobreza, sentindo-se ameaçada, tentava se reafirmar”, afirma a historiadora da USP.
Para ela, a Inglaterra precisava de um mito fundador e de um herói, assim como a França tinha Carlos Magno. Se esse herói era real ou não, não era tão importante. Mas vida na corte não parece ter feito bem ao nosso herói e Artur, o guerreiro bretão, o nobre cavaleiro, torna-se o marido traído. Gueneviere mantém um romance com Lancelot. Mas a infidelidade da rainha é apenas um ponto menor (e menos importante) do tratamento que Artur recebeu da literatura francesa. Para viver na França, maior país cristão da época, o rei passaria a lidar com a idéia de pecado, valores morais e uma conduta casta. A história de Artur passa por um processo de cristianização. Seu escudo passa a ostentar a imagem da Virgem Maria e o graal, um objeto sagrado na mitologia celta, foi transformado no cálice usado por Jesus Cristo na última ceia e “Há, ainda, uma clara associação entre a espada, fonte da força de Artur com a cruz, origem do poder da monarquia”, afirma Teresa.
Só em 1470 foi publicado o romance que daria ao rei Artur seu acabamento final, que conhecemos hoje.
Le Morte d`Arthur (A Morte do Rei Artur, sem versão em português), de Thomas Malory, reuniu todos os elementos anteriores para produzir uma narrativa coerente, onde todas as versões se encaixavam para dar aos britânicos o seu herói. O que ficou, afinal, foi um homem valoroso, de inegáveis força e senso de justiça. É como Artur vive no imaginário de seu povo e acabou sendo assim no mundo todo.
Brumas do passado
410
As legiões de guerreiros romanos abandonam a Bretanha
517
Data aproximada da Batalha de Badon, na qual os bretões venceram os invasores
539
Data da suposta morte de Artur, aos 96 anos, segundo a obra de Nennius
540
Gildas escreve o único documento histórico do período arturiano, De Excedio et Conquestu Britanniae
800
Artur é mencionado pela primeira vez em Historia Brittonum, pelo monge bretão Nennius
1138
A obra de Geoffrey de Monmouth transformou o guerreiro em rei cristão
1155
No livro Romance de Bruto, Robert Wace cria a Távola Redonda, símbolo de um governo justo e igualitário onse se sentavam os cavaleiros para discutir assuntos do reino
1470
Thomas Malory reúne todos os elementos criados pelo caminho e dá o formato final que conhecemos hoje
 O poder da espada
A espada era uma das armas favoritas dos celtas, que acreditavam que ela possuía poderes mágicos. Fiel, ela sempre esteve ao lado de Artur. Nos primeiros relatos, ela tinha o nome de Caladfwlch, palavra galesa derivada de Caladbolg, que quer dizer “duro corte”. No século 12, ela virou Caliburn e, enfim, na versão francesa, Excalibur. Mas, apesar das origens na mitologia, a lenda possui bases históricas. Ferido e à beira da morte, Artur pede ao cavaleiro Gilfrete que jogue sua espada no lago, para que ninguém mais a use. Esse, de fato, era um costume celta e diversas delas foram encontradas no fundo de lagos. A lenda de que Excalibur foi retirada de uma pedra também pode estar ancorada em fatos. Segundo o arqueólogo inglês, Francis Pryor, mil anos antes do tempo de Artur, as espadas ainda eram feitas de bronze. O metal derretido era posto em um molde de pedra e depois de duro era puxado do centro do molde.
O costume teria dado origem ao mito de que Artur seria rei ao tirar a espada da pedra. Uma outra teoria diz que a lenda surgiu quando Artur depois de matar inimigo saxão, tirou sua espada como demonstração de poder. O nome latim para pedra, a palavra “saxo”, é muito semelhante ao nome dado aos invasores germânicos, chamados de “saxon”.