segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sites de áudio: vozes do passado


Leandro Narloch
Site tem áudio de discursos que marcaram a história mundial.
A internet é um acervo quase infinito de sons que marcaram a história. Com o endereço certo e dois ou três cliques, você pode ouvir o presidente americano Franklin Roosevelt declarando guerra ao Japão durante a Segunda Guerra ou escutar Che Guevara falando da importância do trabalho voluntário em Cuba.
Entre os endereços especializados em divulgar raridades de discursos e fatos inesquecíveis, um dos melhores exemplos é o Free Info Society, um site de upload que permite que você envie seus arquivos para compartilhá-los pela internet. Na seção de discursos históricos, há 109 gravações de grandes momentos e personalidades da história mundial. Algumas delas:

Apolo 13
Em 13 de abril de 1970, a base da Nasa, a agência espacial americana, em Houston, recebeu um chamado dos tripulantes da Apollo 13: “Houston, temos um problema aqui”. Dois tanques dela explodiram. Com pouco oxigênio, os astronautas improvisaram aparelhos para voltar à Terra. Foram resgatados no mar quatro dias depois.

Ataque e contra-ataque
“Ontem, 7 de dezembro de 1941, data que ficará conhecida como ‘dia da infâmia’, os Estados Unidos foram repentina e deliberadamente atacados por forças aéreas e navais do Império do Japão”, diz Franklin Roosevelt, declarando guerra ao Japão e entrando na Segunda Guerra. Em agosto de 1945, num avião sobre o oceano Atlântico, o presidente americano Henry Truman anuncia o fim do conflito. “A primeira bomba atômica foi solta sobre a cidade de Hiroshima, uma base militar”, diz.

Einstein, o pacifista
Em 1950, durante uma entrevista, o criador da Teoria da Relatividade considera Gandhi a mente mais iluminada do século 20. “Nós devemos tentar fazer as coisas com seu espírito: não usar a violência para lutar por uma causa, mas pela não-participação em nada que você acredita ser mau”, diz.

Clique certo
Tubo do tempo

Os portais de partilha de arquivos de vídeo aumentam a cada dia seu conteúdo relacionado à história. Dá para achar muita coisa no You Tube (www.youtube.com) e no Google Video (video.google.com) – este exibe um arquivo com a íntegra do “Eu tenho um sonho”, discurso de Martin Luther King em 1963. Basta digitar “Luther King” para ele aparecer.
Outras línguas

Quem não é habituado com o idioma inglês pode se divertir em portais brasileiros. No site www.comunismo.com.br/sons.html, por exemplo, há um extenso arquivo de discursos de figurões da esquerda. A maioria está em espanhol, como o de Salvador Allende em 1973, pouco antes de ser derrubado por Pinochet. Já no CPDOC (www.cpdoc.fgv.br), há discursos de Getúlio Vargas.
Aventuras na História n° 035

São Paulo, chocolate, Napoleão, Brasil: curiosidades


Paulicéia oitocentista
Não se sabia do registro da visita de estrangeiros a São Paulo antes da primeira década do século 19. Até agora. Encontrado numa gaveta de uma livraria de Londres – e ainda inédito em inglês – pelo bibliófilo José Mindlin, o manuscrito Diário de uma Viagem da Baía de Botafogo à Cidade de São Paulo (José Olympio) é um relato delicioso da viagem do comerciante britânico William Henry May em 1810. Seu testemunho sobre São Paulo minimiza a imagem de inóspita da cidade naquela época.

Resista se for capaz
Há poucas coisas mais difíceis do que resistir a um chocolate. Durante quatro anos, o jornalista americano Mort Rosenblum entrevistou cultivadores, doceiros e degustadores para entender as engrenagens da indústria que movimenta 60 bilhões de dólares por ano. O resultado é o – com ou sem trocadilho – saboroso Chocolate – Uma Saga Agridoce Preta e Branca (Rocco). Não se culpe se durante a leitura você atacar tabletes da delícia – até a cor escolhida para a impressão do texto atiça a vontade.

O último dia de Napoleão
Depois de publicados tantos relatos sobre a batalha de 18 de junho, é razoável indagar com que base espero despertar novo interesse para o assunto que o público conhece de longa data.” O texto, de 1849, é do sargento Edward Cotton, das tropas anglo-aliadas que derrotaram Napoleão em Waterloo. Agora, 150 anos depois, o historiador britânico Andrew Roberts ainda tem o que contar sobre A Batalha de Waterloo (Ediouro) e os eventos do dia que encerrou o longo século 18.

Diplomata e desenhista
Benjamin Mary, primeiro embaixador da Bélgica a atuar no Brasil, entre 1834 e 1838, ficou impressionado com o que viu por aqui. Tanto que, em quatro anos, fez mais de 300 desenhos com temática brasileira. Em O Diplomata e Desenhista Benjamin Mary e as Relações da Bélgica com o Império do Brasil (Linha Aberta), há textos sobre a presença belga aqui e o comércio entre os dois países. Mas seu grande trunfo são os desenhos de Mary, especialmente os do Rio de Janeiro do século 19.

Aventuras na História n° 035

Mafalda, a pequena notável


Mariana Della Barba
Criada na Argentina, a menina Mafalda enfrentou a ditadura militar de seu país para falar de censura, feminismo, crises econômicas e política internacional. Virou um dos símbolos dos anos 70.

Sempre que pode, o cartunista argentino Quino diz não se arrepender de ter parado de desenhar Mafalda nove anos depois da primeira tirinha, quando seu personagem tinha um número crescente de fãs. Entretanto, ele admite que se arrepende de algo que fez nas primeiras tiras da personagem: ter criticado tão duramente a presidência de Arturo Illia, que comandou a Argentina entre 1963 e 1966. E não é que aquele governo tenha sido assim tão bom. Quino é que não sabia que, depois do golpe militar que encerrou o mandato de Illia, a situação iria piorar tanto.
Mafalda apareceu pela primeira vez em 29 de setembro de 1964, na mais importante revista semanal argentina da época, a Primeira Plana. No ano seguinte, as tiras passaram a ser diárias, veiculadas no jornal El Mundo. Em 1967 Mafalda foi para a revista semanal Siete Días Ilustrados, onde ficou até a última historieta, publicada no dia 25 junho de 1973. Suas 1 928 tiras já foram publicadas em mais de 20 idiomas, incluindo russo, polonês e norueguês. Praticamente todas essas histórias, que ainda saem em jornais ao redor do mundo, estão reunidas na hilária coletânea Toda Mafalda.
Depois do golpe, as histórias da personagem e de seus amigos revelam as diferentes fases da ditadura argentina: a ineficácia do governo, a crise econômica, o endurecimento do regime. Durante quatro governos militares, Mafalda não se intimidou e permaneceu questionando a situação do país e fazendo perguntas bombásticas a seus pais. Para acompanhar a trajetória desse difícil trecho da história argentina, Toda Mafalda é uma verdadeira enciclopédia. Apesar de já ser quarentona, a personagem continua muito atual quando o assunto é a insatisfação diante da realidade social e política da América Latina.

Mudança de ares
Enquanto permaneceu no comando da Argentina, Arturo Illia sofreu críticas de todos os lados. Era comum que, dada sua lentidão em tomar decisões, ele fosse comparado a uma tartaruga – justamente o animal de estimação que Quino deu a Mafalda e batizou de “Burocracia”. “De um lado, Illia foi um presidente honesto e cauteloso, que evitou transformações abruptas num momento em que nacional e internacionalmente elas significariam riscos grandes”, afirma Júlio Pimentel Pinto, professor de História da América Latina da Universidade de São Paulo. “De outro, teve uma atuação inexpressiva na condução da economia e da política interna e externa.” Apesar do cenário desanimador, os argentinos pelo menos estavam vivendo um período de liberdade – algo muito valioso num país que tinha assistido a golpes de Estado nas três décadas anteriores. A imprensa aproveitava para satirizar Illia, coisa que Quino fazia muito bem.
Isso tudo tinha data para acabar. Não tardou para que os militares tomassem o poder e resolvessem as coisas à sua moda: o general Juan Carlos Onganía assumiu a presidência em 1966, onde permaneceu até 1970. Seus colegas de farda ficariam no poder até as eleições de 1973. A ascensão dos militares foi, como de costume, acompanhada por repressão. Quino respondeu à nova realidade de várias formas. Uma das mais geniais foi a última personagem criada por ele para a turma de Mafalda. Filha de hippies e esquerdista, ela tem duas características que a tornam uma metáfora explícita: é muito pequenina (tem menos da metade do tamanho de Mafalda) e se chama Liberdade.

Crise sem fim
Durante os nove anos das aventuras da Mafalda, foram várias as crises econômicas presenciadas pelos argentinos e registradas por Quino. Em 1964, por exemplo, havia uma conjunção de desvalorização constante da moeda e fraco desempenho agrícola. A consequente recessão deixou desempregados quase um terço dos trabalhadores. Apesar de alguns períodos mais prósperos (como em 1966, quando a taxa de crescimento anual foi de 5,6%), o que predominou, como podemos ver em Toda Mafalda, foi a crise generalizada e a estagnação. Quando tomou o poder, o general Onganía lançou seu Plano de Estabilização e Desenvolvimento. Uma das principais medidas foi facilitar a entrada de produtos estrangeiros no país, o que causou a falência de centenas de empresas argentinas, incapazes de competir com os importados.
O personagem que Quino melhor usa para falar de economia é Manolito, que trabalha na mercearia do pai, frequentada pela turma de Mafalda. Seu sonho é ter uma cadeia de supermercados e ganhar muito, muito dinheiro – em busca desse objetivo, não é raro que ele tente enganar seus clientes. Manolito, que adora o modo como a inflação faz aumentar o preço das mercadorias que vende, vai muito mal na escola e não dá valor a “super fluosidades”  tais como as canções dos Beatles.

Repressão em alta
A partir de 1966, a Argentina viu sua liberdade ser dramaticamente reduzida. Estudantes viravam alvos da polícia, jovens desapareciam de um dia para o outro, jornais eram censurados  fenômenos bastante parecidos com o que ocorreu no Brasil e em outros países latino-americanos no mesmo período. As medidas autoritárias e impopulares do general Onganía, como o congelamento de salários, incomodavam muito os trabalhadores. Com a justificativa de combater o “comunismo”, o governo militar criou a Dipa (Direção de Investigação de Políticas Antidemocráticas) para perseguir, encarcerar e torturar militantes políticos e sindicais contrários ao governo. Onganía dissolveu partidos políticos e interveio nas universidades com ações violentas.
Dois episódios marcaram o aumento de violência do regime e foram, de maneira mais ou menos velada, retratados por Quino em tiras presentes em Toda Mafalda. O primeiro, ocorrido em 29 de julho de 1966, ficou conhecido como La Noche de Los Bastones Largos (ou “a noite dos cacetetes compridos”). Professores, diretores e alunos da Universidade de Buenos Aires foram arrancados das faculdades pela polícia, que tinha a ordem de não economizar no uso de seus bastones.
Três anos depois, um protesto semelhante aconteceu em Córdoba, com conseqüências ainda mais desastrosas. O ápice da truculência policial e militar foi batizado de Cordobazo e é considerado o equivalente argentino dos conflitos que marcaram o mês de maio de 1968 na França. Em 29 de maio de 1969, a maior manifestação de estudantes e trabalhadores já vista no país foi violentamente reprimida pelo exército (pois a polícia já havia se rendido diante da força dos manifestantes) e deixou dezenas de mortos e centenas de feridos. Marco na história recente da Argentina, o Cordobazo acabou tendo um efeito multiplicador, incitando manifestações país afora e enfraquecendo o regime militar.

Intragável censura
Mafalda odeia sopa. Todos os (muitos) dias que sua mãe insiste em lhe servir a iguaria, a menina faz questão de mostrar seu descontentamento. Esse foi um dos modos que Quino encontrou para manifestar seu desgosto com relação à ditadura. A sopa, segundo o cartunista, era “uma metáfora do autoritarismo militar”, assunto que não permitia abordagens muito diretas. Durante a ditadura, os veículos de comunicação que publicavam as tiras de Mafalda deixavam os limites bem claros: “Logo me advertiram que havia temas, como sexo, militares e repressão, em que não se podia tocar”, disse Quino em entrevista publicada no jornal argentino Clarín em 28 de julho de 2004.
Em Toda Mafalda, entretanto, existem tirinhas que dão a impressão de que os censores argentinos não eram assim tão rigorosos. Quino é bastante incisivo em certas alusões à tortura e à falta de liberdades democráticas, por exemplo. No fim dos anos 60, cartuns com esse conteúdo dificilmente poderiam ser publicados no Brasil – onde, após o Ato Institucional nº 5, de 1968, toda a produção jornalística e cultural foi ferozmente censurada. “Pode-se dizer que, no período que vai de 1968 até 1976, a censura foi um pouco mais branda na Argentina do que aqui”, diz o historiador Júlio Pimentel. “Entretanto, com o golpe militar argentino de 1976, a situação por lá ficou realmente complicada.” Quino acabou dando sorte, já que, nessa época, Mafalda não era mais publicada.

Mafalda se cala
Em 1973, Quino decidiu que era hora de deixar de desenhar Mafalda. Na época, ao se justificar, o cartunista disse que, diante do novo panorama argentino, a personagem teria de presenciar coisas que não suportaria. O curioso é que Quino não se referia a mais uma medida infeliz dos militares. A ditadura havia acabado e Héctor Cámpora havia sido eleito presidente em março daquele ano. O problema é que ele era um mero fantoche nas mãos de Juan Domingo Perón, líder populista que já tinha governado a Argentina por duas vezes. No exílio havia quase 18 anos, Perón tinha sido proibido pelos militares de se candidatar.
Em 20 de junho, Perón retornou ao país, vindo da Espanha. Uma recepção havia sido armada no Aeroporto de Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires. Mas o local acabou sendo palco de um sangrento confronto entre facções rivais de peronistas. O evento, que ficou conhecido como Massacre de Ezeiza, deixou um saldo desconhecido de mortos e feridos. O ex-presidente pousou em outro local, mas o estrago já estava feito, revelando a grave crise no peronismo. Como Quino suspeitava, o retorno de Perón (que em setembro, após a renúncia de Cámpora, voltaria a ser eleito presidente) traria instabilidade à Argentina. Cinco dias depois do massacre, Mafalda despediu-se de seus fãs. Quino só voltaria a desenhá-la raríssimas vezes, como numa campanha do Unicef (o Fundo das Nações Unidas para a Infância) realizada em 1977 para divulgar a Declaração dos Direitos das Crianças.

"M" de Mansfield
Quino criou Mafalda para uma campanha publicitária.
Foi só aos 7 anos, ao ingressar na escola primária, que o argentino Joaquín Salvador Lavado descobriu que não se chamava Quino. Haviam lhe dado esse apelido logo após o nascimento, em 17 de julho de 1932, para que não fosse confundido com seu tio Joaquín Tejón, que era desenhista publicitário. Além do primeiro nome, Quino compartilhou com ele desde cedo a vocação para o desenho. Aos 13 anos, enquanto retratava vasos e naturezas mortas na Escola de Belas Artes de Mendoza, o jovem descobriu a revista de quadrinhos Rico Tipo e decidiu que queria ver seus desenhos publicados nela. Em 1951, depois de ter abandonado a Belas Artes, Quino visitou todas as redações de Buenos Aires em busca de emprego como cartunista, sem sucesso. Só em 1954 ele veria seu primeiro desenho publicado, no semanário Esto Es. A partir daí, seus trabalhos passariam a sair em diversos veículos, incluindo a Rico Tipo – onde começou a colocar texto em suas tiras. Em 1960, se casou e passou a lua-de-mel no Brasil, onde entrou em contato com colegas e editores estrangeiros pela primeira vez. Dois anos depois, publicou a primeira compilação de seus desenhos. O cartunista criou sua mais conhecida personagem em 1963, para estrelar uma campanha publicitária da marca de eletrodomésticos  Mansfield (a empresa exigia que o nome de sua mascote também começasse com “M”). Como a campanha não vingou, Mafalda só apareceria no ano seguinte, na revista Primeira Plana – as tiras dessa época, consideradas ruins pelo próprio autor, não estão em Toda Mafalda. Hoje, mais de 30 anos após ter parado de desenhar regularmente sua mais famosa criação, Quino continua fazendo tiras que abordam temas como a vida moderna, o poder e a corrupção. Mas elas não têm personagens fixos.

Aventuras na História n° 035

Qual a diferença entre piratas, corsários e bucaneiros?


Danila Moura
No fundo, no fundo, todos são piratas. Corsários e bucaneiros são, portanto, tipos de piratas. Os piratas, versão marítima dos saqueadores que atacam caravanas comerciais desde que os povos negociam entre si, existem desde que existe o comércio marítimo. Os mais antigos registros vêm dos gregos. Em 730 a.C., eles já pilhavam navios fenícios e assírios, segundo relato de Homero, em Odisséia.
Porém a imagem que hoje temos dos piratas (e que aparece reproduzida aí ao lado) é a dos bandidos europeus dos séculos 17 e 18. Nessa época, a exploração das colônias na América e na África havia se tornado a principal atividade econômica mundial. Uma fortuna em ouro, prata, madeira, escravos e marfim, entre outras coisas, atravessava o Atlântico todos os anos. E é aí que aparecem os corsários. Países que não tinham suas próprias colônias (ou as tinham em número insuficiente para proporcionar grandes lucros), como Inglaterra, França e Holanda, incentivavam os ataques aos navios de outros países.
Para dar um ar oficial a esses atos de sabotagem, eles usavam a Carta do Corso, documento que liberava um capitão de navio e sua tripulação para perseguir e atacar qualquer embarcação que levasse a bandeira de um país inimigo. O saque deixava de ser crime, tornando-se uma atividade legal e tributável – desde que fosse em cima dos outros.
Bucaneiros, outro nome utilizado para esse tipo de atividade, é a forma como eram chamados os piratas franceses que aportaram na região da ilha de Hispaniola, atual Haiti, por volta de 1600. O nome vem do termo francês bucan, que designava a grelha com a qual defumavam carne. Esses piratas logo se apossaram da então colônia espanhola e criaram suas próprias regras, sem obedecer a ninguém – o que acabou atraindo gente de todo tipo para a região, incluindo ex- presidiários, escravos fugitivos e perseguidos da Inquisição Católica. Os bucaneiros foram expulsos em 1620, quando a Espanha resolveu dar um basta no que já estava se transformando em uma verdadeira terra de ninguém. Os piratas franceses escolheram então a ilha de Tortuga como novo destino. Lá, continuaram a praticar a pirataria, tendo as embarcações espanholas como alvo predileto. Toda a região das Antilhas ficou famosa pela violência bucaneira.

Aventuras na História n° 035

Cair no conto-do-vigário


Adriana Lui

Desde que existem os ingênuos, sempre houve alguém pronto a se aproveitar deles. Mas quando enganar o outro virou “conto-do-vigário”? Segundo Vasco Botelho do Amaral, autor do Grande Dicionário de Dificuldades e Subtilezas do Idioma Português, foi no século 19. Indo de cidade em cidade e apresentando-se como emissários do vigário, um grupo de malandros dizia-se portador de grande quantia em dinheiro, confiada a eles pelo próprio vigário e guardada numa mala pesadíssima. Para seguirem a viagem, coitados, precisavam de um lugar seguro para guardar o volume. Pediam em troca uma pequena soma em dinheiro, só como garantia. Não é que os portugueses caíam? Foram tantos que os golpes ficaram famosos e deram origem ao termo “vigarice” e seus derivados.
No Brasil, há uma versão segundo a qual, no século 18, uma imagem de Nossa Senhora era disputada por duas paróquias de Ouro Preto: a do Pilar e a da Conceição. O vigário da primeira sugeriu que a santa fosse colocada num burrico a meio caminho dos dois templos – a direção escolhida pelo animal definiria a igreja vencedora. O burro rumou para a igreja de Pilar. Também pudera, o bichinho pertencia ao vigário vigarista de lá.

Aventuras na História n° 035

Galeria Nacional de Arte


Adriana Maximiliano
Um lugar para se perder entre obras de Da Vinci, Monet e Van Gogh.
A National Gallery of Art (Galeria de Arte Nacional), localizada em Washington, Estados Unidos, é um labirinto de arte e história. Um lugar perfeito para se perder entre obras de nomes como Van Gogh, Leonardo da Vinci, Matisse e Monet.
Ela foi inaugurada em 1937, após a morte do colecionador de arte Andrew W. Mellon. Filho e neto de banqueiros, Mellon foi secretário do Tesouro e embaixador, mas seu grande sonho era dar aos Estados Unidos uma galeria nacional. Por isso, começou a colecionar arte nos anos 20 e doou todas as suas peças – 126 pinturas e 26 esculturas – para a instituição, além do dinheiro para a construção do primeiro prédio da galeria. Entre os destaques da coleção estavam 21 quadros de Rafael, Rembrandt e outros, que ele comprou do Museu Hermitage, de São Petersburgo, na Rússia. Com o tempo, centenas de outros colecionadores doaram obras de arte para a National Gallery.
A instituição é formada hoje por dois prédios, que abrigam mais de 110 mil objetos. Um móbile gigante do escultor americano Alexander Calder decora o lobby de um dos edifícios. Há quadros, fotografias, esculturas e esboços de artistas famosos espalhados por mais de 100 salas e corredores. Nos fins de semana, o cinema da galeria abre suas portas para o público. As atrações vão de desenhos japoneses a filmes mudos acompanhados de um pianista ao vivo. Tudo de graça.

Parede forrada
São mais de 110 mil objetos em dois prédios.

1. Na cova dos leões
Daniel na Cova dos Leões é muito mais do que uma música da Legião Urbana. A história do herói bíblico condenado a passar a noite com leões foi pintada por Peter Paul Rubens entre 1614 e 1616,e retrata o dia seguinte, quando Daniel agradece a Deus por ter sobrevivido.

2. Noite em claro
Pintor oficial do Império Napoleônico, Jacques-Louis David retratou o chefe em três quadros. O último, Napoleão em seu Escritório, é de 1812. Detalhes como o cabelo bagunçado, o relógio marcando 4h13 e as velas quase apagadas foram usados para mostrar que Napoleão teria passado a noite em claro, preparando o Código Napoleônico.

3. Lá vem a noiva
Para celebrar o noivado de Ginevra, a família Benci foi ao estúdio do escultor Andrea del Verrocchio, em Florença, e contratou um jovem pintor para fazer o retrato da moça. O nome do artista? Leonardo da Vinci. O quadro Ginevra de· Benci foi feito entre 1474 e 1478 e é um de seus primeiros trabalhos. Na ocasião, Ginevra tinha cerca de 15 anos e Da Vinci, pouco mais de 20.

4. filho de Madona
Entre centenas de obras da Galeria Nacional sobre o tema “Madona e a Criança”, uma se destaca. Pintada em 1508, Madona Niccolini-Cowper foi provavelmente o último quadro que o italiano Rafael pintou em Florença, antes de se mudar para Roma. A criança segura inquieta a roupa da mãe, como se quisesse ser amamentada.

5. A grande notícia
Em A Anunciação, Jan van Eyck pintou, entre 1434 e 1436, o momento em que Maria recebe do anjo Gabriel a notícia de que seria mãe de Jesus, segundo consta na Bíblia. Nos contrastes entre a parte superior e a inferior da igreja retratada, Eyck estaria mostrando a transição do Velho para o Novo Testamento.

6. Renoir aos montes
A Dançarina, de 1874, é um dos 78 trabalhos do francês Auguste Renoir expostos no museu –há quadros, esculturas e esboços do artista de 1870 a 1916. A obra mostra sua admiração por outros tipos de arte. Antes de ser pintor, Renoir fez parte do coro da Ópera de Paris.

7. Falta de cores
A Galeria Nacional tem 20 quadros do francês Henri Matisse. Feito em 1901, La Coiffure é o mais sensual, mas também o mais antigo e menos conhecido. A obra é curiosa mais pelo que não apresenta do que pelo que está nela: falta o colorido que marcaria o nome do artista e acabaria influenciando a pintura do século 20.

8. Tudo em família
Rembrandt e Rubens foram batizadoscom nomes de pintores famosos por causa da paixão do pai, Charles Willson Peale, pelas artes. Um acabou mesmo virando pintor, enquanto o outro foi parar dentrodo quadro. Rembrandt Peale quis pintaro irmão Rubens para comemorar seu sucesso como botânico – ele teria plantado o primeiro gerânio da América. Rubens Peale com um Gerânio é de 1801.

9. Deuses e ninfas seminuas
O quadro renascentista A Festa dos Deuses foi feito por Giovanni Bellini, em 1514, quando ele já tinha 88 anos. Maior pintor veneziano do século 15, Bellini morreria dois anos depois, mas sua obra seria retocada por outro mestre de Veneza, Ticiano, em 1529. No quadro, deuses da mitologia grega bebem vinho com ninfas seminuas. No canto direito, Príapo, deus da fecundidade, tenta levantar a saia da ninfa Lótis para violentá-la.

10. Tema repetido
Entre 1892 e 1894, o impressionista francês Claude Monet alugou um quarto perto da Catedral da cidade de Rouen, na França, e retratou-a em mais de 30 telas, em diferentes horários e estações do ano. A obra que está exposta na Galeria Nacional mostra a fachada oeste à luz do dia. Há outros 24 quadros de Monet nas paredes da galeria, inclusive outro que tem a catedral como tema.

Aventuras na História n° 035

Charles Darwin: o homem da evolução


Clarissa Passos
O naturalista inglês Charles Darwin foi criado como um lorde, mas prefere a linguagem coloquial para comentar o impacto de suas idéias e relembrar suas aventuras a bordo do navio Beagle.

Charles Robert Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809, na Inglaterra. Seu pai queria que ele seguisse a profissão dos homens da família, a medicina. Mas o curioso estudante, que colecionara insetos e pedras quando criança, não suportou a primeira cirurgia a que assistiu. O pai sugeriu, então, que se tornasse clérigo. No entanto, logo viu o rapaz embarcar como naturalista do barco inglês Beagle, cuja missão era mapear a costa sul-americana.
Resignado, o pai acabou fazendo investimentos que permitiram ao jovem não ter que trabalhar. Assim, Darwin pôde dedicar-se a pesquisar e desenvolver teorias. E que teorias! Com a publicação de A Origem das Espécies, ele concluiu que os seres evoluem por meio da chamada "seleção natural" - em que os indivíduos que nascem mais aptos às condições do ambiente prevalecem sobre os outros e passam suas características adiante. A idéia sacudiu o pensamento da época, acostumado a ver homens e animais como fruto da criação divina.
O senhor embarcou no Beagle aos 22 anos, em 1831, e viajou até 1836. A jornada forneceu a base das observações usadas para formular as teorias da evolução e da seleção natural. Mas A Origem das Espécies só foi publicado em 1859. Por quê?

CHARLES DARWIN - Minha filha, você pensa que uma teoria dessas surge assim, do nada? Não bastou embarcar no Beagle, dar um rolê pelos mares e continentes afora, olhar aí uma meia dúzia de passarinhos e tartarugas, voltar e tirar o homem da confortável posição de centro do Universo e rei da criação – que a Igreja se esmerou em lustrar por tanto tempo. Precisei desenvolver minhas idéias: cataloguei o que havia coletado, continuei observando os seres em seu meio e queimei muitos, muitos neurônios.
Pensei que o senhor fosse chegado ao linguajar da aristocracia inglesa, que se expressasse como um gentleman...

Ah, sim. Mas isso foi em vida, minha doce flor do campo. Depois que a gente bate a caçuleta e passa para o outro lado, fica mais relaxado, sabe?
Sei... Mas sigamos: o senhor esperava que sua teoria causasse tanta balbúrdia?

Lógico! Desconfiava seriamente de que o pessoal mais chegado à Igreja ia mesmo querer me pegar. E, naquela época, a teoria da criação representava muito mais que a simples idéia de que Deus criou o mundo e seus habitantes em seis dias e desde então a vida seguiu. Essa crença estava na base de quase tudo. Acreditar na evolução era coisa de ateu, revolucionário ou maluco.
O que achou da reação da sociedade?

Claro que a gente nunca espera se ver retratado com o corpo de um macaco, mas... Quer saber? Eu nem liguei para as caricaturas. Isso porque, antes de tornar públicas minhas idéias, pensei um bocado. Tive, inclusive, que superar minhas próprias crenças num Deus bondoso e benevolente, cuja expressão máxima seria a perfeição da criação. Conforme os anos foram se passando, uma coisa eu aprendi: o ser humano gosta de pensar que está acima dos animais, mas não é bem assim, não. Eu disse, em um dos meus livros, que “o homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével de sua origem primitiva”. Tô certo ou tô errado?
Como foi sua relação com o antropólogo, biólogo e geógrafo inglês Alfred Russel Wallace, que desenvolvia simultaneamente uma teoria semelhante à sua? Há quem diga que o senhor passou a perna nele...

Nada a ver. Ele foi um grande interlocutor e colaborador, trocávamos cartas. Isso acontece direto: mais de uma pessoa tem a mesma idéia ao mesmo tempo. Só levei a fama porque acabei publicando oficialmente antes dele.
Seu pai chegou a sugerir que o senhor virasse padre. O senhor acha que teria dado certo na carreira religiosa?

Imagina. Ia pegar mal à beça para um clérigo dizer que aquela história bíblica de “faça-se a luz” era uma papagaiada.
Como foi a viagem a bordo do Beagle?

Teve seus altos e baixos. Recolhi material suficiente para, depois, desenvolver uma teoria revolucionária. Por outro lado, eu enjoava que só vendo. E, hoje em dia, desconfiam que fui picado pelo barbeiro e contraí a doença de Chagas na América do Sul. Ninguém soube me curar, mas foi a viagem da minha vida.
O que o senhor acha dos debates atuais entre evolucionismo e criacionismo? E da teoria do design inteligente, que afirma que há uma inteligência superior por trás da evolução?

Cada um acha o que quiser. Mas é preciso que todos tenham acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade para escolherem como preferem responder à velha pergunta: “De onde viemos?”
Existe um prêmio, o Darwin Awards, que, segundo os organizadores, “honra aqueles que ajudaram a melhorar o gene humano matando a si mesmos”...

Ha, ha, ha! Boa piada, espero que não seja mal interpretada. Sei que algumas de minhas idéias foram bastante distorcidas pelo nazismo, por exemplo, que recorreu à seleção natural para fundamentar a eugenia. Isso me deixa fulo.
Sabe que correram boatos de que o senhor se converteu no leito de morte?

Besteira. Eu nunca fui ateu. Jamais neguei a existência de Deus. Só disse que a criação não ocorreu como a Bíblia prega. Minha esposa ficava meio ressabiada. Tinha medo de que minhas idéias impedissem a gente de se encontrar após a morte, no paraíso.
Falando no além, após seu enterro na Abadia de Westminster, em Londres, ao lado de Isaac Newton, seu filho declarou que imaginava as longas conversas que vocês dois teriam durante o descanso eterno. Sobre o que vocês falam?

Trivialidades, acredita? Nossa contribuição para a ciência já foi feita em vida. Agora, comentamos sobre o jogo do Arsenal ou trocamos receitas de peixe com batatas.

Aventuras na História n° 035