sábado, 10 de agosto de 2013

China: Império sem fim

Rodrigo Cavalcante

Quando a China se tornar a maior potência mundial, o país estará ocupando um lugar que já foi dele. Conheça a trajetória do Império Chinês - que, durante séculos, esteve muito à frente do Ocidente.
Em 1989, o mundo assistiu à derrocada dos governos comunistas. Hungria, Polônia, Bulgária, Checoslováquia, Romênia e Alemanha Oriental: um a um, eles foram caindo, assim como o Muro de Berlim. Em Moscou, a abertura promovida pelo líder Mikhail Gorbachev dava sinais de que a ânsia por mudanças estava escapando do controle das autoridades – o que levaria, dois anos depois, à extinção da União Soviética. Na China, porém, o desfecho de 1989 foi bem diferente.
Entre abril e junho, milhares de estudantes chineses acampados em frente à sede do governo, na praça da Paz Celestial, em Pequim, acreditaram que a onda de liberdade também chegaria ao país. A esperança foi enterrada na virada de 3 para 4 de junho, quando o exército “dispersou” os estudantes com seus tanques. Até hoje, ninguém sabe quantos morreram no massacre da praça da Paz Celestial (as estimativas oscilam entre 300 e 7 mil vítimas). Dezoito anos depois, é perturbador constatar que o governo chinês tenha alcançado sua meta: manteve a unidade da China e levou o país a um ritmo de crescimento tão espetacular que boa parte do mundo prefere esquecer a carnificina e pegar carona na pujança chinesa.
Mas como explicar, afinal, que mais de 1 bilhão de habitantes tenham sido controlados com tamanha facilidade após o exército atirar a sangue frio em estudantes? O que permite à China desafiar a lógica do Ocidente, aliando a repressão das liberdades individuais a uma economia de mercado agressiva? É provável que ao menos parte da resposta esteja no passado imperial do país. “Os chineses sempre tiveram a consciência de que foram o centro do mundo e de que apenas um poder unificado seria capaz de impedir a desintegração de seu gigantesco território”, diz o pesquisador Severino Cabral, fundador do Instituto Brasileiro de Estudos da China, Ásia e Pacífico (Ibecap) e membro permanente da Escola Superior de Guerra.
Hoje, os historiadores sabem que a unidade desse império já estava consolidada desde o século 3 a.C., quando a China se tornou uma potência sem concorrentes. A revelação foi confirmada por um dos mais importantes achados arqueológicos do século 20, feito por acaso nos arredores da cidade de Xiang, na China central, há pouco mais de 30 anos.

O primeiro imperador
Eles literalmente emergiram da terra. Ao escavar um poço nas cercanias de uma muralha, em 1974, um grupo de moradores da cidade de Xiang encontrou cabeças de estátuas. Em seguida, surgiram mais cabeças, troncos e membros, até arqueólogos concluírem que ali havia um exército com mais de 7 mil soldados de terracota em tamanho natural, ao lado de cavalos do mesmo material e armas de bronze. Pesquisadores concluíram que eles foram enterrados em nome do primeiro imperador da China, Shi Huangdi, da dinastia Qin (que durou de 221 a 210 a.C.). “Ele centralizou e fundou a base do que hoje chamamos de China”, afirmou Harry Gelber, professor de Relações Internacionais da Universidade de Boston e autor de diversos livros sobre a China, em entrevista publicada na edição de setembro da revista inglesa BBC History.
Para unificar a China, o imperador precisou controlar o poder dos governantes locais. Ele dividiu o Estado em 36 capitanias, cada uma liderada por um governante civil e com um comandante militar (havia também um inspetor imperial para fiscalizar o trabalho do governador). A escrita foi padronizada, assim como pesos, medidas e moedas. Mais de 6 mil quilômetros de estradas foram construídos – tanto quanto no Império Romano – e canais foram abertos para permitir a navegação pelos rios. Em matéria de inovação artística, a descoberta dos guerreiros de Xiang revelou uma sofisticação inimaginável para os padrões da época. “Até meados do século 20, historiadores da arte sequer acreditavam que existissem esculturas na China durante esse período”, escreveu o historiador americano John King Fairbank em seu clássico China – Uma Nova História.
Entretanto, de acordo com os historiadores, não foi apenas a centralização política a responsável pela unificação da China. O “cimento” da cultura chinesa seria reforçado por uma série de tradições filosóficas – sendo uma das mais importantes a do pensador chinês Kung Futsu, conhecido no Ocidente como Confúcio.

Hierarquia divina
Não há como entender a unificação da China sem o confucionismo. “Seria o mesmo que estudar o Ocidente sem levar em conta o papel do cristianismo”, compara o professor Harry Gelber. Mas, diferentemente do cristianismo, o confucionismo não é propriamente uma religião. Está mais para uma grande visão de mundo que inclui ética, ideologia política, orientações para o relacionamento familiar e outros princípios baseados nos ensinamentos de Confúcio, que viveu entre 551 e 479 a.C.
Confúcio se considerava um mensageiro de velhas tradições, resgatando as raízes de rituais que deviam ser seguidos por cidadãos e governantes. Na base do código confucionista está o respeito a uma hierarquia cósmica em que cada pessoa tem seu lugar e deve venerar quem lhe é superior e cuidar de quem lhe é inferior. “Os pais eram superiores aos filhos, os homens às mulheres, os reis aos súditos”, escreveu Fairbank. “Se todos cumprissem seu papel, a ordem social se conservaria.”
Para o imperador, é claro, o confucionismo assegurava a legitimidade de seu governo, baseado na idéia de mandato divino. Isso não significa, entretanto, que esse mandato não pudesse ser ameaçado. Caso o governante não aparentasse seguir corretamente o código moral confucionista, seu império poderia ser tragado pelo caos gerado por desequilíbrios cósmicos – o que fazia com que uma enchente, por exemplo, pudesse ser vista como uma prova de que o imperador, digamos assim, havia quebrado o decoro divino.
Desejando evitar esse tipo de dúvida, os imperadores se apropriaram do código confucionista e o levaram para dentro do Estado, fazendo com que as leis e o treinamento dos funcionários do Estado fossem inspirados nesses preceitos. Com o fim da dinastia Qin, esse sistema foi usado por seus sucessores. A começar pela dinastia Han (vigente entre 206 a.C. e 220 d.C.), eles preservaram a unidade da China e expandiram seu poder nos séculos seguintes.
Apesar de a dinastia Han ter tentado manter o controle sobre a venda de mercadorias, comerciantes enriqueceram com a exportação dos primeiros artigos chineses a ganhar fama mundial (veja o quadro abaixo). A rede de caminhos por onde esses produtos viajavam até a Europa seria conhecida mais tarde como a Rota da Seda, primeiro elo comercial entre a China e o Ocidente. Por ela passaram não apenas mercadores, mas novas idéias e religiões, como o budismo, que veio da Índia para, a partir do século 5, se somar ao confucionismo nos fundamentos do pensamento chinês.

Vanguarda mundial
Uma das mais importantes inovações nascidas na China soa um tanto burocrática, mas foi fundamental para o desenvolvimento do império. Durante a dinastia Tang (618-907), os funcionários do Estado passaram a ser contratados por meio de exames (semelhantes aos atuais concursos públicos), algo que só iria se generalizar no Ocidente lá pelo século 19. Inicialmente, o processo de recrutamento era apenas uma formalidade – já que, na prática, a linhagem familiar e os contatos sociais prevaleciam. Pouco a pouco, entretanto, os administradores foram se profissionalizando, o que aumentou a eficiência do governo chinês e ajudou a conduzir o país a uma espécie de “idade de ouro”, vivida do século 10 até o século 13 – período em que a Europa medieval passava pela “idade das trevas”.
Não foi por acaso que, no início do século 14, os relatos das viagens ao Oriente atribuídos ao veneziano Marco Polo maravilharam os europeus como se fossem livros de ficção. Ao chegar à China, em 1275, ele teve contato não apenas com a já famosa produção de seda e porcelana, mas com inovações como a bússola magnética, livros impressos, embarcações bem mais sofisticadas que as galeras mediterrâneas, explosivos, complexas redes de canais fluviais e uma indústria metalúrgica cuja produção anual de 125 mil toneladas somente seria equiparada pela Inglaterra no século 18, décadas após o início da Revolução Industrial. Parecia que o veneziano não havia retornado de uma visita ao Oriente, mas de uma viagem ao futuro.
Boa parte do que Marco Polo viu e relatou ainda eram os efeitos do renascimento tecnológico e cultural vivido durante a dinastia Song, que tivera seu auge no século 11. Mas esse apogeu não incluíra o campo militar: a inferioridade chinesa havia dado espaço para que a nação fosse invadida em 1234 e, quatro décadas depois, dominada pelos mongóis – quando Marco Polo esteve por lá, o imperador da China era o mongol Kublai Kahn. “Mas, ao contrário do que costuma acontecer nesses casos, foram os invasores que terminaram sendo absorvidos pela força da tradição chinesa, fazendo com que a corte incorporasse a cultura do império”, diz Severino Cabral. O fato é que, ao retomarem o poder com a dinastia Ming, em 1363, os chineses pareciam prontos (inclusive pela tecnologia naval) a dominar o mundo.
Em seu clássico Ascensão e Queda das Grandes Potências, o historiador americano Paul Kennedy escreveu: “De todas as civilizações do período pré-moderno, nenhuma parecia mais adiantada, nenhuma se sentiu tão superior quanto a China”. E completou: “Sua população considerável, de 100 milhões a 130 milhões de habitantes, em comparação com os 50 milhões da Europa no século 15, sua cultura notável, suas planícies férteis e irrigadas e sua administração unificada, hierárquica, gerida por uma burocracia confuciana bem educada, tinham dado à sociedade chinesa uma coesão e um requinte que constituíam motivo de inveja para todo visitante estrangeiro”. Diante desse diagnóstico, como explicar que pequenos países europeus, como Espanha e Portugal, viessem a superar a China na expansão de seus domínios pelo planeta?

A última dinastia
Eram cerca de 1350 navios de combate e 250 barcos destinados a viagens longas. Historiadores estimam que, no início do século 15, durante o período Ming, a China era a maior potência naval do mundo – para fazer uma comparação, a famosa armada espanhola reuniria, em 1588, pouco mais de 130 embarcações. Entre 1405 e 1433, os chineses empreenderam sete expedições de longa distância lideradas pelo almirante Zheng He. As viagens foram do sudeste asiático ao golfo Pérsico, chegando à costa oriental da África décadas antes de os portugueses se aventurarem por lá. De acordo com a polêmica tese do historiador inglês Gavin Menzies, autor de 1421 – O Ano em Que a China Descobriu o Mundo, uma das expedições de Zheng He teria inclusive chegado à América.
Menos de um século depois dessas expedições, os chineses perderam a dianteira naval para os europeus. De acordo com os historiadores, uma das explicações para o recuo da expansão marítima chinesa – e a conseqüente perda de sua liderança mundial – seria a excessiva centralização do poder. Uma única decisão do imperador decidia o destino de todo o enorme território chinês e inibia iniciativas individuais. Foi exatamente isso que aconteceu após as navegações de Zheng He. “A expedição chinesa de 1433 foi a última delas e três anos depois um edito imperial proibiu a construção de navios de alto-mar”, escreveu o historiador Paul Kennedy. “Apesar de todas as oportunidades que se ofereciam no além-mar, a China tinha decidido voltar as costas para o mundo.”
Uma razão para a retração naval teria sido a necessidade de concentrar esforços militares nas fronteiras do norte, onde os mongóis continuavam ameaçando invadir a China. Além disso, os burocratas chineses tradicionalmente viam o comércio como atividade pouco nobre. Para eles, as expedições deveriam ter caráter exclusivamente diplomático. “Com a vitória da anticomercialização e da xenofobia, a China retirou-se do cenário mundial”, escreveu o historiador John King Fairbank.
Mesmo após a dinastia Qing, iniciada em 1644, ter revigorado o país, a China não conseguiria mais acompanhar o crescimento das potências do Ocidente. “Nesse período, a China teve de se adaptar para tentar digerir a nova dinâmica iniciada com o advento da Revolução Industrial”, afirma o professor Severino Cabral. E isso aconteceu da pior forma possível. Durante o século 19, após diversas invasões, o país parecia prestes a se desintegrar: era controlado no norte pelos alemães, no centro pelos britânicos e no sudoeste pelos franceses. Nada menos que 50 portos chineses estavam nas mãos de estrangeiros.
Quando o último imperador, Pu-Yi, deixou o trono aos 5 anos após um motim de seus oficiais, em 1911, ninguém sabia como a China se manteria unida. Após as duas Guerras Mundiais e décadas de guerra civil, a China voltaria a encontrar um eixo unificador pelas mãos do líder comunista Mao Tsé-tung, que proclamou em 1949 a República Popular da China. “É inegável que o governo comunista se assemelha, em muitos aspectos, a uma nova dinastia”, diz Severino Cabral. “Com as reformas econômicas empreendidas por Deng Xiaoping [o sucessor de Mao] no fim dos anos 1970, a China tem desafiado aqueles que acreditavam que o capitalismo era incompatível com a ética confuciana.”
Uma das últimas vezes em que a estabilidade do regime centralizado foi posta em dúvida foi justamente quando os estudantes chineses saíram às ruas por mais liberdade, em 1989. Para a maioria do povo chinês, entretanto, o medo ancestral do caos e da desintegração do país aparentemente foi mais forte que a indignação pela morte daqueles jovens. Nos últimos 2 mil anos, afinal, o massacre da praça da Paz Celestial foi apenas mais um teste para um monolítico e milenar império que, às vezes, parece não ter fim.

Made in China
Séculos atrás, os produtos chineses já faziam sucesso no Ocidente.
No fim de 2004, a jornalista americana Sara Bongiorni resolveu fazer uma experiência inusitada: viver um ano com sua família sem consumir produtos importados da China. O resultado foi o livro A Year Without “Made in China” (“Um ano sem ‘feito na China’”, inédito no Brasil), em que ela revela as dificuldades que viveu no período. “Tecnicamente, é possível viver sem produtos chineses, mas sua vida não vai ser nada normal”, disse a jornalista em entrevista à revista americana Newsweek, em agosto deste ano. “Nós conseguimos, em parte, por sorte. Não tivemos que comprar um telefone celular novo que, até onde eu saiba, vem sempre da China.” Dois mil anos antes de os produtos chineses invadirem as prateleiras de todo o mundo, a China era invejada no Ocidente por seu pioneirismo. Para quem vive no século 21, talvez seja difícil imaginar a revolução que artigos como a seda e a porcelana provocaram no Ocidente. No caso da seda, sua leveza, brilho e textura tornaram-se ícones do desejo da elite romana no auge do império. A porcelana, por sua vez, representava o que havia de mais moderno na aliança entre design e tecnologia para o uso doméstico. O processo de vitrificação da cerâmica, efeito que torna os pratos lisos e fáceis de limpar, significou uma baita evolução para quem estava acostumado com a porosidade dos utensílios de barro, que absorviam os restos de alimentos.Além da seda e da porcelana, devemos aos chineses a invenção do papel (e do papel-moeda), da pólvora, da bússola e do leme em embarcações. Eles também desenvolveram a arte da impressão, a técnica para a construção de canais e, não menos importante, o hábito de beber chá. Toda essa criatividade tinha um preço: no fim da Idade Média, enquanto a burocracia chinesa lutava para impedir que algumas das técnicas de produção desses artigos fossem levadas para outras regiões, a “pirataria” correu solta: alguns séculos depois, os europeus não apenas haviam aperfeiçoado muitas dessas invenções como superariam os chineses em tecnologia.

A Cidade Proibida
Imensa residência oficial do imperador abrigava sua família e um séquito de concubinas e eunucos.
Em 1406, o chinês Yung Lo, terceiro imperador da dinastia Ming, ordenou o início da construção de um complexo para servir como sua morada oficial bem no centro de Pequim. Ele abrigaria também sua corte composta por eunucos, concubinas e herdeiros. Inaugurada 14 anos depois, a enorme residência, com 720 mil metros quadrados (ou metade de toda a área do parque do Ibirapuera, em São Paulo), fascinava quem só podia vê-la de fora. Mas aprisionava os que estavam dentro.
Ninguém mais, com a exceção de alguns conselheiros e militares autorizados, poderia entrar. Exceto o imperador e alguns poucos eunucos encarregados de abastecer o local, mais ninguém podia sair. Foi por essa razão que o palácio imperial – e suas milhares de dependências – ficou conhecido como Cidade Proibida.
Durante 491 anos, foi por detrás dos enormes muros da Cidade Proibida que a China foi governada por 24 imperadores. Em 1911, após uma revolta republicana, Puyi, o último imperador da dinastia Qing, abdicou do trono. Ele e sua corte permaneceram morando no local até 1924, quando foram expulsos. Um ano depois, a Cidade Proibida foi rebatizada de Museu do Palácio e aberta ao público pela primeira vez.

Celebração ao sol
A construção seguiu princípios da antiga arte chinesa do feng shui.

Uso restrito
Com mais de 35 metros de altura, o chamado Portão Meridional é o principal e o maior acesso à Cidade Proibida. A entrada principal, que fica bem ao centro, era restrita, utilizada somente pelo imperador. Além dele, a imperatriz podia usá-la no dia de seu casamento e os três principais intelectuais da China estavam autorizados a sair por ela após sua aprovação, feita por um exame.

Contra o fogo
Quase toda de madeira, a cidade vivia assombrada  com o risco de incêndios, causados por raios, lampiões ou premeditados por eunucos e oficiais que enriqueciam com as obras de reconstrução. Para preveni-los, centenas de barris de ferro com capacidade para 2 mil litros de água foram espalhados por todos os cantos.

Perpetuação da espécie
O imperador, considerado “filho dos céus”, tinha de produzir herdeiros. Por isso, mantinha enormes haréns – as concubinas tinham palácios só para elas. Até o reinado de Kangxi, que começou em 1661, não havia limites para a quantidade de concubinas (acredita-se que alguns imperadores chegaram a ter 3 mil). Kangxi, no entanto, limitou esse número para no máximo 100 – que não foi respeitado.

Área de lazer
O Jardim Imperial ocupa uma área de cerca de 12 mil metros quadrados e é o maior da Cidade Proibida. Exclusivo para a família real, era um dos locais prediletos dos imperadores para tomar chá, jogar xadrez e meditar. No centro do jardim há o Salão da Paz Imperial, templo construído em homenagem a uma divindade da água, chamada Xuan Wu, para que esta protegesse a cidade dos incêndios.

Muralha da china
Uma enorme muralha, com 10 metros de altura e 3,4 quilômetros de extensão, circunda toda a residência. Do lado de fora, foi construído um fosso com 52 metros de largura e 6 metros de profundidade. Era mais uma garantia de que ninguém entraria na Cidade Proibida sem a autorização do monarca.

A cor do imperador
Com exceção do Arquivo Imperial, que tem o telhado preto (cor associada à água, que protegia dos incêndios), todos os outros telhados da Cidade Proibida são amarelos, a cor do imperador, relacionada à prosperidade. Os telhados também tinham figuras de animais. A quantidade delas, de uma a dez, representava a importância de quem vivia no palácio. O da Harmonia Suprema, ou Salão do Trono, é o único com dez figuras.

 A vida dentro das muralhas
A morada girava em torno do poder, da beleza e de intrigas
Um decreto oficial declarava que estavam abertas as inscrições para a “seleção de consortes imperiais”. Era assim que as garotas chinesas virgens com ascendência nobre e idade entre 13 e 17 anos podiam se candidatar ao cargo de mulher do imperador. O processo seletivo era ferrenho. Milhares de beldades – foram 5 mil no reinado do imperador Xianfeng, entre 1850 e 1861 – eram examinadas por uma comissão da família imperial. O chefe dos eunucos, que representava o imperador, escolhia cerca de 200, que eram levadas ao imperador e à imperatriz- mãe, que selecionavam sete para ocupar o cargo de esposa oficial. As demais moças moravam na Cidade Proibida, mas como concubinas.
Ser escolhida, no entanto, não garantia poder – e muito menos uma vida feliz. Muitas concubinas passavam suas vidas inteiras presas na residência imperial sem dormir uma noite sequer com o imperador. Para evitar esse destino, centenas delas se aliavam aos eunucos em conspirações e intrigas para tentar conquistar o coração do imperador – e subir na hierarquia. Quando as conspirações eram descobertas, os castigos tendiam a ser cruéis. Eunucos costumavam ser executados por asfixia e concubinas, enforcadas com lenços de seda brancos. De forma geral, as famílias das mulheres, porém, estavam garantidas – elas recebiam uma pensão anual vitalícia.

Tudo sempre igual
Como era uma tarde normal na Cidade Proibida.

Tempo livre
Quando um imperador morria ou deixava o trono, todas as suas concubinas eram levadas para o Palácio da Tranquilidade Benevolente – e as novas ocupavam seus lugares. Sem nada para fazer, as concubinas velhas passavam o resto de seus dias cantando e rezando.

Oração a Buda
A residência das concubinas velhas era cheia de altares e estátuas de Buda. O ar tinha cheiro de incenso. Normalmente essas mulheres tornavam-se extremamente religiosas após a “aposentadoria” e acabavam transformando seus dormitórios em templos de adoração.

Cada noite com uma
O imperador passava cada noite com um concubina. Como não conhecia suas mulheres, ele aceitava sugestões dos eunucos – por isso, o processo de escolha era extremamente manipulado por eles, que recebiam subornos das próprias concubinas. Houve imperadores que basearam suas escolhas em retratos pintados por artistas imperiais.

Profissão difícil
Antes de cada refeição, um eunuco contornava a mesa com um par de pauzinhos, experimentando cada prato para se certificar de que não estavam envenenados. Havia mais eunucos que qualquer outro tipo de pessoa na Cidade Proibida – a quantidade variava, mas os imperadores da dinastia Ming chegaram a ter 90 mil cada um.

Paranóia real
O Palácio da Pureza Celestial foi a residência do imperador durante a dinastia Ming e o começo da Qing. Ele tinha nove quartos, cada um com três camas. Todas as camas eram arrumadas toda as noites. Para se prevenir de um ataque enquanto dormia, o imperador escolhia cada vez uma cama diferente.

Comer até cair
Noventa e nove pratos diferentes eram servidos em cada refeição, mesmo que houvesse uma única concubina para comer. Garras de urso ensopadas, legumes com fígado de veado, caramujos com pepino e alho e sangue de veado com ginseng eram alguns dos itens do variado – e bastante exótico - cardápio.

Aventuras na História n° 051

Paul Rusesabagina: Um herói de Ruanda

Sílvia Pacheco Haidar e Rodrigo Rezende

Usando um hotel de luxo como abrigo, Paul Rusesabagina conseguiu salvar 1268 vidas num dos piores genocídios da história. Hoje, após inspirar o filme Hotel Ruanda, ele alerta: a tragédia pode se repetir.
Ao abrir a porta de casa na manhã de 7 de abril de 1994, Paul Rusesabagina viu homens correndo pelas ruas de Kigali, a capital de Ruanda, empunhando facões lavados em sangue. Caído no quintal ao lado, com o rosto numa poça vermelha, estava Rukujuju, amigo de seu filho, cercado pelos corpos dos familiares. Rastejando, sobreviventes pediam ajuda. Rusesabagina, aterrorizado, fechou a porta. Ele sabia que, se tentasse socorrer os feridos, acabaria como eles. Era o início do genocídio mais intenso da história – nunca tantos foram liquidados tão rápido. Tudo começou após a morte do presidente Juvenal Habyarimana, cujo avião fora abatido por um míssil na noite de 6 de abril. O líder pertencia à etnia hutu e teria sido vítima de rebeldes de outro grupo étnico, os tutsis. Sob a influência de mensagens de ódio transmitidas pelo rádio, os hutus deram início ao genocídio tutsi. Em 100 dias, mais de 800 mil pessoas morreram.

Rusesabagina era gerente em uma rede de hotéis e conseguiu chegar a um deles, o luxuoso Mille Collines, em 12 de abril. Com a mulher e os dois filhos, ficou confinado durante 76 dias e deu abrigo a centenas de refugiados. No total, salvou 1268 pessoas – é como se tivesse pausado a carnificina por quatro horas. Para garantir a sobrevivência dos hóspedes, manteve relações cordiais com os líderes do genocídio, história que ficou famosa em 2004, ao ser contada no filme Hotel Ruanda.
Desde 1996, Rusesabagina vive exilado com a família na Bélgica. Tem uma transportadora e preside a Hotel Rwanda Rusesabagina Foundation, organização que auxilia sobreviventes do genocídio – em 2005, ganhou a Medalha Presidencial da Liberdade, um dos maiores prêmios concedidos pelo governo americano. Ele conversou com História por telefone, de Bruxelas. Atualmente, prefere analisar os motivos e conseqüências do genocídio a relembrar a barbárie que presenciou.

O senhor nasceu em 1954. Como era para uma criança viver num país dividido em dois grupos étnicos?
Paul Rusesabagina – Eu fui um garoto com muita sorte, pois nasci em uma família miscigenada. Meu pai era hutu e minha mãe, tutsi. Por isso sou hutu, porque em Ruanda a etnia é passada de pai para filho. Meu pai era um homem muito correto e gentil, que nunca se importou com essa divisão étnica. Ele sempre dizia aos filhos: “Ouçam, crianças, não se deve escolher um amigo pela etnia, e sim por ser uma pessoa do bem”. Eu tive a sorte receber uma boa educação, mas a maioria das outras crianças viveu em lares preconceituosos, tornando-se hutus e tutsis extremistas.

Qual é a origem do ódio entre hutus e tutsis?
Esses são os principais grupos étnicos que vivem em Ruanda, mas é uma questão controversa se essa divisão é meramente política e artificial. Nós falamos a mesma língua, compartilhamos as mesmas crenças, as mesmas tradições e, na maioria dos casos, temos a mesma aparência. Antes de os colonizadores chegarem, no século 19, os tutsis já eram os mais ricos e controlavam o país. Os hutus eram os mais pobres e escravos dos tutsis. Em 1885, ano da Conferência de Berlim, em que as nações européias que reivindicavam partes da África tomaram posse das terras, a região onde está Ruanda ficou sob o domínio dos alemães. Mas, quando eles perderam a Primeira Guerra, o comando foi transferido para a Bélgica. Para tirar o máximo proveito de Ruanda, levando o mínimo possível de homens para lá, os belgas elegeram os tutsis como “gerentes” de seu domínio. Daí para a frente, a separação racial tornou-se explícita. Cientistas foram enviados para comprovar a supremacia dos tutsis – que seriam mais altos, mais bonitos e mais inteligentes que os hutus. Em 1933, as pessoas de Ruanda receberam cartões que as identificavam como sendo de uma ou de outra etnia. A situação mudou em 1959, quando houve a Revolução Hutu (três anos após o levante, os belgas deixaram o país).

O que aconteceu com os tutsis após a Revolução Hutu?
Na Revolução, a maioria hutu tomou o poder e começou a matar os tutsis e tomar suas casas. Cerca de 250 mil tutsis deixaram o país e foram para Uganda, Burundi, Tanzânia e Congo. Eles organizaram uma força militar chamada Frente Patriótica de Ruanda, a FPR. Na década de 90, esses rebeldes atacaram Ruanda e chegaram ao poder em 4 de julho de 1994, com o fim do genocídio. O atual presidente do país, Paul Kagame, era um dos líderes da FPR.

Havia evidências, em 1994, de que um assassinato em massa estava para acontecer a qualquer momento?
Os tutsis rebeldes estavam organizando vários ataques em Ruanda, nas proximidades das fronteiras, matando civis e crianças hutus. Por outro lado, o governo de Habyarimana estava matando tutsis civis e qualquer cidadão que fizesse oposição a seu governo. Em outubro de 1993, Melchior Ndadaye, presidente de Burundi, foi morto por oficiais tutsis. Milhares de pessoas de Burundi e Ruanda ficaram assustadas e saíram de seus países. Porém, muitas delas voltaram em novembro do mesmo ano, cinco meses antes de o genocídio começar. A ONU havia mandado 2500 soldados para Ruanda. Quando vimos aqueles homens de capacete azul chegando, sentimo-nos muito mais seguros.

E como foi a atuação dessas forças de paz?
No início de 1994, o líder das tropas da ONU em Ruanda, Romeo Dallaire, descobriu que um genocídio estava sendo preparado: 1700 soldados da milícia hutu Interahamwe (“aqueles que lutam juntos”, na língua kinyarwanda) estavam sendo treinados para agir como um pelotão da morte contra civis e os soldados belgas da ONU, caso houvesse resistência. Além disso, entre janeirode 1993 e março de 1994, 500 mil facões foram importados por Ruanda. Dallaire falou com seus superiores em Nova York, mas recebeu a ordem de não interferir. Quem deu essa resposta foi o então chefe das missões de paz da ONU, Kofi Annan.

De que modo o rádio ajudou a aumentar a tensão?
A emissora RTLM foi inaugurada em agosto de 1993 e tocava música congolesa, um ritmo muito alegre. Todos em Ruanda escutavam essa rádio. As mensagens de ódio começaram timidamente, com algumas piadas. Mas aos poucos essas idéias foram entrando na consciência da população. Em abril de 1994, os recados já eram claros, como “matem seus vizinhos”. O que poucos em Ruanda sabiam é que a rádio estava ligada ao governo e que o principal acionista era o presidente Habyarimana. Durante o genocídio, a RTLM divulgava os nomes dos tutsis que deveriam ser mortos e diziam até mesmo onde eles estavam escondidos ou para onde estavam fugindo.

Por que tanta gente atendeu ao apelo dos extremistas?
Nós temos muitos problemas na África. Um dos mais sérios é a impunidade. Dos anos 60 em diante, muitas pessoas foram obrigadas a sair do país, enxotadas por vizinhos que tomaram suas casas e plantações, mas nunca foram punidos. Além da questão da impunidade, a população do país é muito pobre. Se você diz a uma pessoa que não tem nada “mate seu vizinho e pegue para você tudo o que ele tem”, ela o fará. Os locutores diziam coisas como: “Mate um vizinho e você ficará com o carro dele. Se matar dois vizinhos, ficará com dois carros”. Os adolescentes de Ruanda eram pobres, não tinham nada a perder e sabiam que não seriam punidos.

Na sua opinião, qual a principal causa do genocídio?
É simplista dizer que o genocídio foi causado apenas por ódio tribal. O motivo principal foi a política. Os líderes de Ruanda temiam perder o poder se o país fosse invadido pelos tutsis rebeldes. Mas o mais importante é que a população do meu país reconheça que também foi responsável por todos aqueles assassinatos. De acordo com o que vivi lá, posso dizer que os responsáveis pela carnificina não foram apenas os colonizadores. Nós, ruandeses, devemos parar de culpar os outros e começar a culpar a nós mesmos.

Como o senhor se sentia sabendo que a vida das pessoas refugiadas no hotel dependia quase exclusivamente de sua habilidade com as palavras?
Eu nem sequer tinha tempo para pensar nisso. Eram tantos problemas para resolver que não dava tempo de pensar se o que fazia estava certo ou errado. Nossa situação era precária. Não tínhamos água – precisávamos racionar a água da piscina –, não tínhamos eletricidade, a comida era escassa. Além disso, eu tinha de entreter os homens da milícia e do exército, conversar com eles, oferecer cerveja. Sempre tive em mente que nenhum ser humano é completamente bom ou completamente mau. Então, eu tentava enxergar o lado bom desses homens e usá-lo da melhor maneira possível para que eles deixassem em paz as pessoas no meu hotel. Quando eles ameaçavam os hóspedes, eu costumava dizer a eles: “Sei como você se sente. A guerra faz isso com as pessoas. Tome uma cerveja, vá para casa, descanse e volte amanhã”. Geralmente eles não voltavam.

Qual a explicação que o senhor dá para a recusa dos Estados Unidos em intervir no genocídio?
Há muitas razões. A África é um continente abandonado. Os africanos estão cada vez mais isolados e esquecidos. Até agora, o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, não está levando Ruanda a sério. Cerca de 800 mil pessoas morreram em três meses e o que o mundo disse a respeito? Nada. Fechou os olhos para Ruanda e abandonou o país. Além disso, não há riquezas naquela terra, não há petróleo lá. Só havia pessoas se matando.

Quais foram os piores erros que a ONU cometeu em Ruanda?
O pior erro que a ONU cometeu foi nos manter confiantes de que eles estavam lá, que iriam nos ajudar e que impediriam os assassinatos em massa. Por conta disso, muitas pessoas que saíram do país com medo do massacre acabaram voltando. Mas, quando 15 soldados belgas foram mortos no primeiro dia do genocídio, retiraram as tropas de paz de lá. Com isso, milhares de pessoas que se amontoaram em igrejas e escolas sob a proteção da ONU foram abandonadas à própria sorte. Aliás, nesses casos, a ONU até facilitou o trabalho dos assassinos, concentrando milhares de vítimas no mesmo local.

O que ocorreu depois que o genocídio acabou?
O genocídio acabou em 4 de julho de 1994, quando os tutsis rebeldes tomaram a capital, Kigali. Os assassinos que escaparam fugiram para o Congo e, de lá, foram para outros países. Alguns foram pegos em Ruanda pelos tutsis. Muitos desses morreram e outros estão na prisão. Agora são os tutsis que estão matando os hutus para se vingar. É o pior problema do país atualmente.

Você tem medo de que um novo genocídio aconteça em Ruanda?
Se o governo não mudar suas políticas, se nada for feito para que haja justiça em Ruanda e se os líderes do genocídio não forem punidos, definitivamente, antes do fim da próxima década, outro massacre acontecerá. Como eu disse, a matança nunca parou. Nós dizemos em Ruanda que a música ainda é a mesma, só mudaram os dançarinos.

No filme Hotel Ruanda, todas as cenas são fiéis à realidade?
O roteiro do filme é mais ou menos fiel ao que aconteceu. Mas alguns detalhes foram modificados. Muitas das cenas, por exemplo, são menos violentas do que houve na realidade. Também há um pouco de pura ficção. Há uma cena, por exemplo, que retrata a mim e à minha mulher no telhado do hotel. Isso nunca aconteceu, pois nós não íamos ao telhado. Também nunca falei para que minha mulher e meus filhos pulassem de lá, caso o hotel fosse invadido.

Você pretende voltar a Ruanda?
Minha casa nunca será em outro país a não ser em Ruanda. Só saí de lá porque quase fui morto. Depois do genocídio, o país estava miserável. Não havia empregos, ninguém tinha dinheiro para nada. Os tutsis rebeldes que chegaram ao poder eram os únicos que podiam ter bens. E eles queriam tudo o que havia sobrado. Eu era gerente de hotel e eles queriam meu emprego, minha casa, tudo. Em 6 de setembro fez 11 anos que estou na Bélgica. Mas voltar a morar em Ruanda será sempre meu sonho.

Aventuras na História n° 051

O empate da Batalha de Eylau

Fabiano Onça

“Que massacre! E sem resultado.” Atribuída ao marechal francês Michel Ney, a frase resume bem a batalha de Eylau. Após derrotar a Prússia, em 1806, Napoleão Bonaparte partiu para liquidar o último inimigo de seu império: a Rússia. O encontro ocorreu em fevereiro de 1807, na aldeia de Eylau (perto da atual cidade russa de Bagrationovsk). Na noite do dia 7, os franceses começaram a tentar tomar a vila dos russos. Pela manhã, as escaramuças dariam lugar a uma batalha campal.
Mesmo com os marechais Ney e Davout ainda a caminho de Eylau, Napoleão tomou a iniciativa do combate. Às 8h, enviou os regimentos do marechal Soult num ataque frontal. A resposta russa foi uma violenta investida contra a esquerda francesa, obrigando Soult a recuar. Napoleão usou então sua única reserva de infantaria, os homens do marechal Augereau. Foram massacrados pela artilharia russa.
Escondido na torre de uma igreja, Napoleão deu sua última cartada: lançou ao ataque os cerca de 11 mil homens do marechal Murat, numa das maiores cargas de cavalaria da história. A iniciativa ajudou os recém-chegados soldados de Davout a equilibrar o jogo. Com a aparição dos homens de Ney, às 22h, os russos bateram em retirada. As exaustas tropas de Napoleão, contudo, não tentaram persegui-los. Para um imperador acostumado a épicas vitórias, Eylau foi um trágico empate.

 Reforços
Para ir além da batalha.

Propaganda pesada
Mestre em exibir suas conquistas para o povo francês, Napoleão tentou vender uma boa imagem da carnificina de Eylau. Para começar, ditou suas impressões a um alemão que, depois, daria entrevistas à imprensa francesa como “testemunha” da batalha. Em seguida, Napoleão lançou um concurso em que pintores tiveram que retratar Eylau a partir de esboços oficiais. O vencedor foi Antoine-Jean Gros, com Napoleão no Campo de Batalha de Eylau (hoje no Museu do Louvre, em Paris).

Dragões a pé
Os dragões eram a maior parte da cavalaria francesa em Eylau. Se seus colegas couraceiros tinham armaduras pesadas e lutavam montados, os dragões usavam os cavalos para chegar ao campo de batalha, mas lutavam a pé, com armas de fogo. Essa tropa mista, que unia traços de infantaria e cavalaria, serviu de inspiração para nossos Dragões da Independência – que fazem a guarda do presidente da República.

Cunhados coragem
O intrépido Joachim Murat, líder do lendário ataque de cavalaria, era marido de Carolina, irmã mais nova de Napoleão. Em 1808, recebeu dele o título de rei de Nápoles. Quatro anos depois, entretanto, Murat traiu o imperador, abandonando a liderança do exército francês (que se retirava da Rússia) para defender seu reino na Itália. Derrotado, acabou fuzilado pelos austríacos em 1815.

Aventuras na História n° 051

Enola Gay: o avião que lançou a bomba de Hiroshima

Maria Fernanda Ziegler

Dona-de-casa da Flórida emprestou seu nome ao avião da bomba atômica.
Às 8h15 do dia 6 de agosto de 1945, um clarão silencioso subiu aos céus da cidade de Hiroshima, no Japão. Pelo menos 100 mil pessoas morreram no primeiro ataque a bomba atômica da história, uma tragédia que provocou formas inéditas e terríveis de sofrimento e marcou o fim da Segunda Guerra.
A bomba de urânio 235, intitulada Little Boy, custou 2 bilhões de dólares em pesquisa e nunca havia sido testada. Ela foi lançada do bombardeiro americano B-29 número de série 44-86292, avião escolhido dois meses antes pelo coronel Paul Tibbets, que o pilotou no dia do ataque. O oficial batizou a aeronave de Enola Gay, nome de sua mãe, uma dona-de-casa da Flórida.
O ataque, do ponto de vista técnico, foi um sucesso. O avião decolou às 2h45 da base aérea de Tinian, uma ilha a 2 400 quilômetros do Japão, e às 14h58 já estava de volta. No dia 9 de agosto, o Enola Gay serviu de avião de apoio no ataque a Nagasaki e, no ano seguinte, Tibbets o levou a Kwajalein, um atol nas Ilhas Marshall que servia de base de testes de bombas atômicas nos anos 40 e 50.
Devido a seu valor histórico, o governo decidiu preservar o Enola Gay. O avião passou por bases aéreas na Califórnia, Arizona, Texas e Maryland, onde ficou 24 anos. Em 1984, o Museu Nacional Aeroespacial, em Washington, iniciou um projeto de restauração da aeronave que durou dez anos. Em 1995, ela foi o centro da controvérsia em uma mostra no museu que lembrava os 50 anos da bomba. A exposição irritou grupos pacifistas americanos e japoneses por não chamar atenção para os horrores causados pela bomba atômica. Mesmo criticada pela imprensa, a mostra durou até 1998.
Desde 2003, o bombardeiro está exposto em um prédio anexo ao aeroporto de Dulles, em Washington. De acordo com Dik Daso, curador do Museu Aeroespacial, “o Enola Gay deve permanecer por um bom tempo lá”.

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Alfred Bernhard Nobel: O sueco explosivo

Clarissa Passos

Além do prêmio mais célebre do mundo, Nobel nos deixou a dinamite.
Alfred Bernhard Nobel nasceu em 1833, na fria Suécia, e morreu em 1896, no aprazível clima mediterrâneo de San Remo, na Riviera Italiana. Entre uma coisa e outra, construiu um império de indústrias químicas a partir da invenção da mortífera dinamite, patenteada por ele. Poço de contradições, Nobel foi cientista, empresário, escritor e poeta. Definia-se como avesso à humanidade, mas doou sua fortuna para premiar os nomes de maior destaque em algumas áreas (Física, Química, Medicina, Literatura, Paz e, mais tarde, Economia). Cada condecorado recebe, além de uma medalha de honra ao mérito e a cidadania sueca, um cheque de cerca de 1,4 milhão de dólares. Mas de onde veio tanta generosidade? Ele falou sobre esse e outros temas numa entrevista a História, por ocasião dos 140 anos da dinamite, inventada em 1867.

Para começar, uma dúvida: como é que se pronuncia seu sobrenome? É “Nóbel” ou “Nobél”?
Alfred Nobel – “Nobél”, por favor.

Ufa, obrigada! Agora vamos à entrevista: como o senhor conseguiu passar de cientista a homem de negócios?
Versatilidade é meu nome do meio.

Pensei que fosse Bernhard.
Ok, esse é o do registro, mas... ah, esquece. Atribuo o sucesso à educação que recebi. Depois de ir à falência na Suécia, meu pai mudou-se para a Rússia, onde fundou uma fábrica de minas terrestres. Com a Guerra da Criméia, o dinheiro começou a entrar e o velho investiu na minha educação e na de meus irmãos, feita em casa, por professores universitários. Eu falo cinco línguas e, desde cedo, me interessei por explosivos.

Uma de suas experiências com nitroglicerina levou seu irmão caçula à morte, numa explosão em 1864...
Só eu sei o quanto isso foi terrível.

Mas poucas semanas depois o senhor retomou a pesquisa!
Ué, e ficar parado ia trazer Emil de volta?!

Quando o senhor descobriu a dinamite, é verdade que um colega sugeriu batizá-la de “massa de vidro explosiva”?
É, sim. Esse pessoal não tem visão de mercado... Eu me inspirei no grego antigo: “dinamite” vem de dynamis, que significa força.

Por que o senhor nunca se casou?
Talvez tenha sido minha natureza workaholic – como eu disse uma vez, meu lar é onde eu trabalho, e eu trabalho em qualquer lugar. Todo mundo sabe que eu caí de amores pela Bertha [von Suttner, secretária do cientista em 1876]. Mas ela estava comprometida. Mesmo assim, trocamos cartas até o fim da minha vida. Grande figura, a Bertha... Foi uma grande líder pacifista da Europa. Ela até recebeu o Nobel, em 1905.

Como sua família reagiu ao saber que sua herança seria usada na criação do Nobel?
Olha, eles não gostaram muito não. Ragnar, meu assistente, teve de correr pela Europa inteira – eu tinha contas em cinco países – para reunir a grana num banco sueco e fazer valer minha vontade. O coitado levou até uma arma, porque minha família estava atrás dele. Eles tentaram barrar a decisão na justiça. Por causa disso, apesar de eu ter morrido em 1896, o primeiro Nobel só foi entregue em 1901.

O senhor inventou o prêmio para deixar uma boa imagem para a posteridade?
Hummm... confesso que ter lido aquela manchete horrorosa num jornal francês me deprimiu um bocado. Eles deram meu obituário por engano, sob o título “O mercador da morte está morto”. Não achei legal, sabe? Pô, minha invenção tanto serve para matar como para construir. Taí o Canal do Panamá, aberto às custas de muita dinamite...

Não é meio estranha a lista de vencedores do Nobel da Paz? Tem desde a Madre Teresa até gente como o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger...
Pois é, o Kissinger levou o Nobel porque fez o acordo de paz com o Vietnã naquele ano. O Le Duc Tho, responsável pelas negociações do lado vietnamita, teve a decência de recusar o prêmio. Já o Kissinger... Bem, não querendo me fingir de morto, mas eu não tenho nada a ver com isso.

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Jesse James: O gatilho mais rápido do Oeste

Flávia Ribeiro

Filme mostra relação do mítico pistoleiro Jesse James com seu assassino.
Quando seu filho mais famoso morreu, em 1882, a americana Zerelda James mandou gravar em sua lápide: “Em memória de meu amado filho, assassinado por um traidor e covarde cujo nome não merece aparecer aqui”. Banido do túmulo do mítico Jesse James e das lendas forjadas no Velho Oeste, o nome do assassino ganhou destaque no título do novo filme de Brad Pitt, "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", dirigido por Andrew Dominik. A relação entre o pistoleiro mais rápido do Oeste, vivido por Pitt, e o jovem Ford, interpretado por Casey Affleck, é a alma do filme.
A história de Jesse James não é nova para os fãs de faroeste. Entre 1865 e 1882, o bando liderado por ele e seu irmão Frank James aterrorizava o Oeste americano. O período era posterior à Guerra de Secessão (1861-1865), perdida pelo Sul escravocrata. Vindos de uma família dona de escravos, Frank, que lutou ao lado dos Confederados (estados do Sul), e Jesse se viram de repente num mundo de valores diferentes, mas com pouco controle por parte do governo. Nesse cenário, bandos armados de ex- combatentes sulistas começaram a ganhar fama com pequenas guerrilhas, que logo se transformaram em assaltos a bancos, diligências, trens e fazendas. Como o do ex- oficial sulista William Clarke Quantrill e o de Bloody Bill Anderson, dos quais os irmãos James fizeram parte antes de formar sua própria quadrilha.
O filme mostra Frank e Jesse com 39 e 34 anos, respectivamente, já bandidos famosos e experientes. Diferentes do jovem Robert Ford, de 19 anos, que se junta ao bando. Fã de Jesse, mas cheio de inveja e ressentimento, Robert acerta o pistoleiro pelas costas, de olho na recompensa de 10 mil dólares oferecida por sua cabeça. O filme é baseado no romance homônimo de Ron Hansen. Ford, diz o filme, só queria ser igual a James: famoso, com seu nome conhecido por todos. Mas, como se sabe, não conseguiu nem mesmo ser citado na lápide de sua vítima.

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A malhação de Judas

Vitor Orlando Gagliardo

Uma nova tradução do Evangelho de Judas afirma que ele é - sim - um traidor.
Judas Iscarotes foi, nos últimos 2 mil anos, sinônimo de traidor. Ano passado, seus pecados pareciam perdoados. Uma tradução feita de seu evangelho, que passou muito tempo perdido em uma caverna no deserto egípcio, revelava que ele não havia, como se acreditava, apunhalado Jesus pelas costas. Só que a redenção durou pouco. Pesquisadores revelam agora que houve um erro na tradução dos manuscritos. E ela ocorreu justamente na parte em que Judas virava mocinho.
Os manuscritos do Evangelho de Judas – que ganharam agora uma versão romanceada em português lançada pela Bertrand Brasil, O Evangelho Segundo Judas, do escritor britânico Jeffrey Archer e do teólogo australiano Francis J. Moloney – foram originalmente escritos em copta, há cerca de 1700 anos. A tradução deles, após anos de pesquisa, foi apresentada em abril de 2006 pela Fundação Mecenas, da Suíça. E trazia uma revelação bombástica: em vez de traidor, Judas emerge como um herói. Ou seja, ele teria entregado Jesus aos soldados romanos, que o crucificariam depois, atendendo a um pedido do próprio.
Um ano e meio após a revelação de sua tradução, o evangelho ainda causa polêmica. Uma corrente de historiadores – tão competentes quanto os que traduziram o documento – discorda da versão publicada em 2006. “Desde a publicação do Evangelho de Judas, eu e meus colegas temos feito diversas reuniões para discutir o texto, sua tradução, edição e interpretação”, afirma Louis Painchaud, professor da Faculdade de Teologia e de Ciências da Religião da Universidade de Laval, no Canadá. “Percebemos que a reconstrução textual de certas passagens lacunosas estavam equivocadas. E também que havia erros na tradução de outras passagens e que, por fim, a interpretação de certas expressões continha diversos contra-sensos.”
Um dos principais equívocos apontados é quanto à tradução da palavra grega daimon, relacionada a Judas e seu evangelho. Os responsáveis pela tradução – o filólogo e arqueólogo suíço Rodolphe Kasser, o especialista em copta americano Marvin Meyer, o professor de história eclesiástica alemão Gregor Wurst e o historiador americano Bart Ehrman – utilizaram a palavra “espírito” (“Tu, décimo terceiro espírito, por que te esforças tanto?”, diz o evangelho de Judas). “Traduziram daimon como ‘espírito’ baseando-se na significação da palavra quando é utilizada na literatura platônica. Isso significaria que Judas seria um ser espiritual ou celeste”, diz Painchaud. “Mas, na realidade, a palavra daimon no contexto da literatura cristã primitiva designa sempre seres dos infernos ou diábolicos, ou seja, demônios.”
O historiador André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concorda com Painchaud. Para ele, o evangelho traduzido cai em contradição por si só ao montar a figura de Judas. “Se por um lado temos um Judas com acesso aos mistérios divinos, por outro temos um Judas apontado como um demônio”, diz. O historiador Birger Pearson, professor de Estudos Religiosos da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, tem a mesma opinião sobre a ambigüidade do Evangelho de Judas. “Não concordo com a tradução publicada de Judas como um herói. Mas não estou certo quanto a ele ser um vilão”, afirma. “Claramente, é o receptor confidencial das revelações de Jesus e é representado como possuidor do conhecimento de quem Jesus é – e que é negado aos ‘doze’.”
Um dos tradutores da Fundação Mecenas, Bart Ehrman, diz não estar interessado em um debate público sobre o tema, mas mantém a versão publicada: “Penso que Judas é definitivamente um herói. É superior a todos os apóstolos nesse texto”.

Briga de gigantes
As principais divergências entre a tradução de 2006 e a Bíblia
Evangelho de Judas

• O mal da vida é a ignorância.
• Só o conhecimento salva.

• Judas diz que Jesus é do reino imortal de Barbelo (mundo divino).
• Judas, um herói, trai Jesus a pedido dele.

• Jesus é mais bem-humorado: aparece sorrindo em algumas passagens.
• Os apóstolos tinham ciúmes da relação próxima de Judas com Jesus.

• Jesus morre para libertar seu espírito desse mundo maligno.
• Jesus, libertado por Judas, segue para seu verdadeiro lugar: o mundo divino.

• Sobre a morte de Judas, não há menção.
Novo Testamento

• O mal é o pecado.
• Só a fé salva.

• Jesus é o Messias, filho do deus vivo.
• Judas é um traidor.

• Não há citação sobre Jesus rindo. O riso está sempre ligado a seus opositores.
• O relacionamento entre Jesus e os 12 apóstolos era o melhor possível.

• Jesus morre para livrar os homens dos pecados.
• Jesus é crucificado e ressuscita no terceiro dia.

• Há duas versões: Judas se mata ou cai de cabeça, que se racha ao meio.
Aventuras na História n° 051