quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Um sonho americano

Zbigniew Brzezinski foi assessor de Segurança Nacional no governo de Jimmy Carter (1977-80) e é um dos maiores especialistas em problemas da Rússia nos Estados Unidos. Recentemente, Zbig, como é conhecido, publicou na conceituada revista Foreign Affairs um ensaio sobre a Eurásia no equilíbrio mundial de poder. As idéias que ele contém, a respeito do futuro da Rússia, expressam mais que um ponto de vista pessoal  refletem expectativas e revelam orientações estratégicas de parte ponderável da elite política americana.
O ensaio é acompanhado por um mapa que sintetiza tais expectativas. Nele, uma “Rússia confederal” aparece espremida entre uma “Europa Atlântica”, a ocidente, estrategicamente vinculada aos Estados Unidos e alargada pela inclusão de Estados do antigo bloco soviético, e uma “Grande China”, a oriente, cuja influência se difunde pelo leste e sudeste asiáticos . A confederação russa de Brzezinski seria constituída por três entidades  geopolíticas frouxamente associadas: uma Rússia européia, limitada a leste pelo rio Ob, uma República Siberiana, entre o Ob e o rio Lena, e uma República do Extremo Oriente, entre o Lena e o Oceano Pacífico.
No cenário previsto (ou desejado?), a prioridade da Rússia seria a sua modernização econômica, abandonando-se qualquer pretensão ao estatuto de grande potência. Essa Rússia “descentralizada” estaria mais apta para desenvolver suas “vocações econômicas” (entenda-se: a exportação de recursos naturais como petróleo, diamante, ouro, minerais em geral, madeiras). Ao mesmo tempo, estaria menos disposta a aventuras imperiais.
Atrás do ensaio, é possível divisar a orientação proposta pelo autor. De acordo com ela, o Ocidente deveria consolidar uma parceria estratégica com a China e, ao mesmo tempo, favorecer as forças centrífugas que agem no interior da CEI e da Rússia atual. Especificamente, caberia favorecer qualquer alternativa viável ao nacionalismo grão-russo e incrementar acordos de financiamento e cooperação econômica com as repúblicas periféricas da CEI e as autoridades regionais da Federação Russa. É um programa e tanto.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

UMA NOVA “DOUTRINA MONROE”?

Claudio Camargo
Quase dez anos após a morte da União Soviética, renasce das cinzas a Grande Rússia. Nas próximas eleições parlamentares e presidenciais, o nacionalismo grão-russo dará as cartas.
Quase dez anos depois da implosão da União Soviética, a Rússia se encontra mergulhada numa das mais graves crises econômicas de sua história. As eleições para a renovação da Duma (Parlamento), em dezembro, deverão fortalecer ainda mais a oposição nacionalista e comunista, num avant-premiére do pleito presidencial do ano que vem. Parece lógico supor que, assim como o vírus separatista destruiu a União Soviética quando o poder central se enfraqueceu, ele paire, ameaçador, sobre os domínios da Federação Russa. Com as feridas da sangrenta guerra na Chechênia ainda por cicatrizar, Moscou enfrenta agora a fúria dos rebeldes fundamentalistas islâmicos na república autônoma do Daguestão, apoiados por chechenos. A suspeita de que estes separatistas estariam por trás da recente onda de devastadores atentados terroristas em Moscou só fez aumentar a impressão de que a entropia russa é um fato irreversível.
Mas, contra as aparências, uma análise mais profunda revela que a Federação Russa não só não corre o risco de se esfacelar como está, paulatinamente, reconstruindo a sua hegemonia sobre a maior parte das antigas repúblicas soviéticas. Isso vem ocorrendo desde 1993, quando Moscou se convenceu de que fizera concessões demais ao Ocidente em troca de quase nada e passou a adotar uma política externa mais afirmativa. Com exceção dos Estados Bálticos (Lituânia, Estônia e Letônia), países que não pertencem à Comunidade de Estados Independentes (CEI) e se acercam do duplo guarda-chuva protetor formado pela OTAN e pela União Européia, as antigas repúblicas soviéticas vêm descobrindo, às vezes amargamente, que não têm outra opção senão a esfera de influência russa. Quanto aos separatistas do Daguestão, ninguém acredita que eles tenham qualquer perspectiva de vitória.
Belarus: uma tentativa fracassada de sedução
O caso mais flagrante de “reconversão” é o da Belarus. Independente desde 1991,  tentou aproximar-se de Washington e do Ocidente para contrabalançar a influência de Moscou. O governo de Minsk fez de tudo para seduzir Wall Street. Aceitou até desmantelar seu arsenal nuclear em troca de assistência financeira americana. A escassez da ajuda reverteu o quadro. Já em 1994 foi eleito presidente Aleksandr Lukachenko, que defendia sem papas na língua a unificação com a Rússia. No ano seguinte, um plebiscito aprovou com surpreendentes 84% dos votos a integração econômica com a Rússia. O passo seguinte foi a fundação da Comunidade das Repúblicas Soberanas, eufemismo retórico para a adoção de políticas econômica e externa unificadas.
Na Ucrânia, a mais poderosa e rica república da CEI depois da Rússia, o ímpeto nacionalista perdeu muito de seu fôlego original. Primeiro, o país teve que devolver seu arsenal nuclear  que era o terceiro do mundo  a Moscou. É verdade que em troca de créditos ocidentais.
Depois, Kiev engoliu goela abaixo a exigência de Moscou de entregar 70% dos navios da estratégica frota do mar Negro, arrendando aos russos a base de Sebastopol, na Criméia.
Humilhação na Geórgia
Na Geórgia, o caminho de volta beirou a humilhação.
Engolfados por lutas intestinas pelo poder e por guerrilhas separatistas nas regiões da Ossétia do Sul e Abkházia, os georgianos foram obrigados a recorrer aos russos para botar ordem na casa. O orgulhoso Eduard Shevardnadze, ex-chanceler de Gorbachev e atual presidente da Geórgia, teve que baixar a crista e aderir à CEI para obter apoio do Kremlin. Em 1994, Shevardnadze e Boris Yeltsin assinaram um acordo de cooperação econômico-militar no qual a Rússia obteve o direito de manter bases na Geórgia. Já as repúblicas de maioria islâmica, na Ásia Central e no Cáucaso, que esperavam maior apoio da Turquia, agora parecem render-se à força centrípeta de Moscou..
‘‘E uforia durou muito pouco’’
“A euforia durou muito pouco”, explica o historiador Walter Laqueur, no seu O fim de um sonho. “As repúblicas que deixaram a União estão enfrentando dificuldades ainda maiores que a Federação Russa. Em conseqüência, os países do Cáucaso e da Ásia Central que insistiram na separação estão novamente tentando uma aproximação com Moscou”.
Para Laqueur, “entre os dirigentes russos uma nova postura de afirmação emergiu com relação ao “exterior próximo” (as ex-repúblicas soviéticas). Entre os extremistas, ela se manifestou como a necessidade de reincorporar as repúblicas. Entre os moderados, evidenciou-se no desejo de proteger milhões de russos étnicos que vivem fora da Rússia, ou de considerar o “exterior próximo” como uma esfera de influência russa, algo semelhante a uma Doutrina Monroe russa não-declarada”.
Esse consenso político abrangente tende a se expressar, na próxima Duma, com força ainda maior que na atual. E o presidente a ser eleito em 2000, qualquer que seja, sairá das fileiras do nacionalismo, a orientação largamente dominante nas elites políticas russas.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

FANTASMA DE 1929 ASSOMBRA A GLOBALIZAÇÃO

Um mercado financeiro (por exemplo, uma Bolsa de Valores) nada mais é que um sistema refletor de expectativas sobre a evolução dos lucros das empresas. Afinal, cada ação é apenas um contrato que promete participação nesses lucros. Quando as perspectivas da economia são boas, os investidores querem ter alguma participação  nos lucros crescentes. Compram ações e, assim, essas ações se valorizam. Esse processo tem uma grande virtude: oferece às empresas uma fonte de captação de recursos alternativa aos empréstimos bancários.
Num mercado otimista, as empresas podem “abrir seu capital”, ou seja, emitir certificados que garantem aos compradores uma participação nos lucros. Com esses recursos, elas investem, tornam-se capazes de lucrar mais, e retribuem aos investidores que compraram suas ações.
O lado perverso é que os mercados de ações oscilam ao sabor de notícias e condições que nada têm  a ver com a maneira como cada uma das empresas é administrada, usa tecnologia, expande seu mercado ou gerencia mão-de-obra. Os valores na Bolsa sobem e descem se um ministro cai, se estoura um escândalo no governo, se aparecem novos indicadores sobre a economia e, o que é freqüente, se há manipulação do mercado por grandes especuladores.
‘‘Esquizofrenia’’ capitalista
Entre o tamanho do mercado real e as expectativas do mercado financeiro infiltra-se um potencial desacordo, que alguns economistas descrevem com um termo da psicanálise: esquizofrenia. É como se o capitalismo fosse um sistema com duas personalidades que se reforçam, a real e a financeira, mas que também podem entrar em conflito, aproximando a sociedade de uma espécie de suicídio coletivo.
A grande expansão da Bolsa de Nova Iorque, no início do século, foi motivada por causas semelhantes às que se observa hoje em dia (quando novamente Wall Street se valoriza aparentemente sem limite). Novas tecnologias e, principalmente, novos mercados abriam horizontes de crescimento sem precedentes para as empresas. Já naquela época, havia uma internacionalização semelhante à globalização atual. Desde meados do século XIX, a industrialização criava novos produtos e oportunidades de emprego.
Bélgica, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Japão, Suécia e Rússia pareciam tornar universal o modelo de desenvolvimento que havia prosperado sobretudo  na Grã-Bretanha nas décadas anteriores.
O mercado mundial tornava-se uma espécie de fronteira sem limites para a expansão de empresas e nações.
Em 1854, a Grã-Bretanha já exportava mais de 20% de sua produção e detinha 40% do mercado mundial de produtos manufaturados. Havia uma queda brutal nos custos de transporte, em especial desde a introdução das ferrovias, por volta de 1860, e do uso em larga escala de navios a vapor, depois de 1870. Na virada do século XX, a Grã-Bretanha já exportava 7% do PIB. Para se ter idéia da importância disso, hoje os Estados Unidos exportam 11,4% do PIB.
O cenário era, portanto, favorável à expansão econômica e as Bolsas, em especial a de Nova Iorque, refletiam esse impulso. Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18), quando a Europa perdeu definitivamente a capacidade de liderança global, Wall Street foi ainda mais estimulada, pois o mundo inteiro passava a depender da expansão dos Estados Unidos. A crise de 29, foi uma ducha de água fria num mundo financeiro que parecia condenado à euforia. Mostrou que se vivia aquela esquizofrenia entre o lado real e o lado financeiro.
O espelho partido
Fenômenos políticos como o nacionalismo, o nazismo e o comunismo, as lutas sindicais, as greves e as revoluções fazem parte da história econômica do século XX. A dinâmica da economia não é determinada apenas por novas tecnologias, administração eficiente de fábricas, redução de custos de transporte e abertura de novos mercados. Ela é condicionada pela ação de Estados, pelas pressões da sociedade, pela cultura política e por interesses estratégicos. E as formas de organização do mercado de trabalho e da legislação social não são iguais em toda parte. Dependem de processos de negociação que variam com as condições políticas, sociais e culturais.
É como se, ao lado da esquizofrenia entre o real e o financeiro, existisse outro tipo de cisão, de fratura na organização das nações: de um lado, o capital, de outro, o social. De um lado, o impulso para acumular lucros, reinvesti-los na produção ou distribui-los para os acionistas, num movimento sem fim de valorização e expansão de empresas e mercados. De outro, tudo o que se pode imaginar sob o termo “social” e que foge ao controle de cada empresa isoladamente. A história do século XX é a história da expansão e multiplicação dos mercados de massa. Ao mesmo tempo, é a história da organização das sociedades em que trabalhadores, consumidores, minorias, setores e regiões se mobilizam para influenciar o modo como os mercados funcionam.
As crises financeiras – como as bolhas especulativas e as quebras de Bolsas – são episódios que funcionam como espelhos dessa tensão entre duas histórias, a história do capital e a história social. Quando os conflitos se tornam inadministráveis, não há tecnologia ou habilidade gerencial que resolva. Em geral, ocorrem processos conhecidos como “queima de capital”. Sonhos de enriquecimento, empresas que pareciam promissoras, regiões que se acreditava “emergentes” podem sucumbir repentinamente. Não é por acaso que a atividade de adivinhação da riqueza futura no mercado financeiro seja conhecida como “especulação”, de especular, ou seja, refletir como num espelho. Na crise, o espelho se quebra e ninguém sabe ao certo o que é real e o que é virtual. Em geral, seguem-se vários anos de azar.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

VONTADE DE POTÊNCIA NA BACIA DO ÍNDICO

Unidade na diversidade. Talvez essa idéia exprima, melhor que qualquer outra, o que é a Índia. Considerada a maior democracia do mundo, a Índia exibe vasta diversidade religiosa, uma multiplicidade de línguas e dialetos, contrastes paisagísticos extremos . É espantoso que um país com características tão díspares tenha conservado sua integridade territorial, apesar das inúmeras ameaças internas e externas.
Um dos cimentos da unidade é a organização federal do país, materializada nos 25 estados e sete territórios que gozam de estatutos políticos distintos. A estrutura geopolítica interna assenta-se sobre uma complexa divisão de direitos e obrigações entre o governo federal e as 32 unidades territoriais, detalhada pela Constituição.
Os assuntos da alçada do governo central abrangem a política externa e a defesa, as comunicações e os transportes e o comércio nacional. Os estados exercitam direitos soberanos nos assuntos de ordem pública, agricultura e saúde. A planificação econômica, a política demográfica, a educação e a produção de energia fazem parte de uma lista de competências compartilhadas entre o governo federal e os estados. A intricada engenharia política federal tem ensejado reivindicações de autonomia regional e contestações dos limites geográficos de estados e territórios.
Apesar das ameaças à sua integridade  territorial , a Índia tem ambiciosas metas estratégicas para o século XXI. A principal consiste em se firmar como grande potência do Oceano Índico. Planos de investimento destinam-se a projetar o poder da marinha nacional e estabelecer uma “ordem indiana” para além de suas zonas tradicionais de influência (Sri Lanka e Ilhas Maldivas). Essa estratégia leva em conta a presença da numerosa diáspora indiana em vários países da orla do Índico. Do ponto de vista geopolítico, a nova prioridade serviria como contraponto às fontes de ameaças continentais: a China e o Paquistão.
Boletim Mundo Ano 7 n° 5

Diário de Viagem- NO CORAÇÃO DA ÍNDIA MERIDIONAL

Raquel Moreira Leite
Foi um vasto roteiro pelos estados de Karnataka, Andra Pradesh e Tamil Nadu, todos no sul do país, geograficamente dominado pelo Planalto do Decã. Também foi o inverno mais quente de minha vida, em torno de 300C.
É muito fácil encontrar uma palavra para definir a Índia – multidão. O bilhão de habitantes não pode ser abstraído. Não existe lugar onde uma multidão de pessoas não esteja se comprimindo entre carros, carroças, “motor riquixá”, vacas sagradas, porcos, cachorros, carros de boi. Foi, em certo sentido, uma viagem de volta ao passado, pois a Índia mantém formas de produção, de organização social e econômica de, no mínimo, 50 anos atrás.
Ficamos hospedadas em casas de rotarianos. Mesmo nessas residências com banheiros modernos, conservam-se costumes tradicionais como o banho tomado com um  balde e caneca. Quando há chuveiro, ele permanece sem uso. O motivo: “Economia de água”. Claro: as chuvas de monções concentram-se em quatro meses, no verão, enquanto a seca dura por todo o resto do ano. Meus anfitriões, um casal jovem com uma filha de seis anos, não pretendem ter outros filhos  segundo eles, o exemplo de controle populacional tem que partir das castas superiores.
É notória a submissão da mulher ao homem. Uma vez, disseram-me que a mulher indiana gosta de servir seu marido. Em todas as casas nas quais fiquei hospedada, os casamentos foram arranjados pela família, por critérios de castas e condições econômicas. Mulheres com instrução universitária, em geral, trabalham apenas em casa. As universidades indianas, todas públicas, são exemplos de investimentos com baixos retornos. As famílias abastadas têm muitos empregados. Uma vez, nos explicaram: “eles nos servem 24 horas por dia”. Em geral, os empregados dormem no chão do corredor ou na cozinha, embrulhados em um cobertor.
A primeira aventura foi uma viagem de 14 horas num velho trem para Hyderabad. A teia de ferrovias rasga todo o país. Precários e inseguros, os trens são uma das principais heranças da colonização britânica. Alojados no sleeper wagon, apertados entre as bagagens e os dois bancos, começamos a pensar na noite de sono quando o guia nos mostrou que sobre nossas cabeças, num pequeno espaço, surgiriam seis camas. Dormimos engavetados. Antes, encaramos pela primeira vez a experiência de comer com as mãos, como sempre fazem os indianos. Mais tarde, deixamos de estranhar esse hábito.
Longe das imagens de cartão-postal
A partir de Hyderabad, seguindo pelas terríveis estradas da rodagem para o coração da Índia, começamos a sentir saudades da viagem de trem. Nas décadas do pós-guerra, quando os países subdesenvolvidos engajaram-se na “corrida para o desenvolvimento” baseada em empréstimos no exterior, a Índia seguiu outro caminho. O país não se endividou, mas hoje apresenta problemas seríssimos de infra-estrutura. Um deles são as estradas de rodagem.
Nesses pequenos caminhos, não pode haver pressa. Na ausência de postos de serviço, “fertilizamos” os campos indianos com nossas necessidades. Em alguns lugares, os agricultores jogam os cereais sobre o leito das estradas, para que os automóveis separem os grãos.
Nas longas horas sacolejando pelas estradas pode-se observar a organização de um espaço regional dominado por paisagens agrícolas e pela mineração. Os processos de plantio são rudimentares. A terra é preparada com arados de tração animal ou humana. Não vi tratores. A policultura tropical destina-se ao mercado interno.
Com exceção de Chennai e Bangalore visitei cidades de porte médio e pequeno, para os padrões indianos.
Todas  caracterizam-se  pela precária infra-estrutura urbana.
Poucas ruas são asfaltadas, não há calçadas e o tráfego  é caótico. Os carros, ao som estridente das buzinas, abrem caminho entre os transeuntes e estacam quando encontram uma vaca impassível. Nas cidades menores, residências de classe média e favelas compartilham um espaço urbano pouco segregado. O esgoto corre a céu aberto, para delícia dos porcos que circulam sem cerimônia, livres de qualquer risco em virtude da proibição religiosa do consumo de sua carne entre hindus e muçulmanos.
A religião tornou vegetarianos  mais de dois terços dos indianos. Segundo o proprietário de uma siderúrgica: “É a forma mais barata de alimentação”. A comida indiana, extremamente apimentada, é um caso à parte. Desde cedo, as crianças ingerem pimenta em grande quantidade.
O condimento tem ação bactericida e ajuda a controlar os efeitos do consumo das águas não tratadas do país.
As formas de organização da produção, arcaicas, assentam-se largamente sobre o trabalho manual, que aparece em todas as atividades: engenhos de açúcar, minas de ferro, metalúrgicas. O trabalho infantil está em toda parte.
Numa indústria de seda pura que visitei, uma menina de 12 anos, linda, vestida com um sari rosa, trabalhava durante horas agachada junto à água fervente. Sem luvas, as mãos nuas, separava  o casulo da seda.
Um dia, convidaram-me para entregar um prêmio a  habitantes de uma favela envolvida em um programa de alfabetização. Como boa brasileira, dei dois beijos na primeira das premiadas, que me fitou assustada. Depois, mulheres e crianças que não participavam do projeto formaram longa fila para que eu as beijasse. Um professor, mais tarde, explicou-me que aquelas pessoas nunca esqueceriam o grande acontecimento, pois fazem parte do grupo dos párias e não são, jamais, beijadas por pessoas de castas superiores, às quais presumivelmente eu deveria pertencer.
Boletim Mundo Ano 7 n° 5

CULTURA, AMBIENTE E POLÍTICA NA AMAZÔNIA EQUATORIANA

Eduardo Campos
País de apenas 283 mil km2, pouco maior que o estado de São Paulo, o Equador abriga em seu território três compartimentos paisagísticos bem distintos – a estreita costa do Oceano Pacífico, a Cordilheira dos Andes (que criva o país de norte a sul) e a floresta amazônica (a oeste). Típico representante do Terceiro Mundo, a pauta de exportações equatoriana assenta-se sobre o petróleo, a banana, o camarão, o cacau e o café. A redução acentuada dos preços dos seus produtos de exportação no mercado mundial aprofunda os efeitos da crise financeira internacional.
A população equatoriana, pouco superior a 12 milhões de habitantes, divide-se etnicamente em 55% de mestiços, 25% de indígenas, 10% de negros e 10% de brancos. Esta última minoria forma a elite dirigente desde os tempos coloniais. Recentemente, a vida política do país conhece uma série de manifestações de grupos indígenas que, através de bloqueios de estradas, interrompem o sistema de transportes terrestres e exigem atenção governamental para os seus interesses e valores.
Os ameríndios equatorianos reivindicam o direito de acesso à terra e o fim da política de aumentos de preços dos combustíveis, que encarece os produtos agrícolas e solapa a competitividade dos camponeses do país. Em julho, um ato conjunto reuniu camponeses  e taxistas, revelando a importância vital dos preços dos combustíveis na atual conjuntura equatoriana.
A selva devassada
História e geografia conferiram  identidade étnica, cultura e estilos de vida singulares a cada grupo indígena do Equador. Todos eles identificam-se mais fortemente à suas comunidades étnicas que ao Estado equatoriano. Por isso, ultrapassando as fronteiras de grupo, os ameríndios criaram associações como a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie).
Entre os princípios da Conaie estão a demarcação e o retorno às antigas terras comunitárias, o reconhecimento do quíchua como língua oficial e a compensação por perdas ambientais causadas por companhias petrolíferas. Essa última solicitação acentuou-se nos últimos anos devido à descoberta e prospecção do petróleo no chamado Oriente equatoriano, dominado pelo ecossistema da floresta amazônica.
A luta dos ameríndios estabelece o significado social das recentes teorias sobre o desenvolvimento sustentável, que enfatizam a importância da variável ambiental nas discussões sobre o crescimento econômico. No caso do Equador, país pobre e exportador de gêneros diretamente ligados ao cultivo do solo, a sustentabilidade espacial da exploração do ecossistema amazônico é condição indispensável para a própria sobrevivência das etnias e culturas ameríndias.
Como alternativa à exploração predatória da floresta  amazônica, algumas tribos vêm realizando o chamado “turismo étnico-ecológico”, no qual o turista tem a oportunidade de se hospedar por alguns dias numa típica aldeia indígena e vivenciar as relações cotidianas que se estabelecem entre a comunidade e o meio natural. Sabendo do risco de terem seus hábitos profundamente alterados por essa atividade, os índios sempre utilizam o dialeto quíchua e ensinam diariamente as suas tradições às crianças na escola mantida pela comunidade. Danças, rituais e cerimônias, praticados constantemente, integram em bases regionais as aldeias pertencentes à mesma etnia.
O maior grupo étnico indígena, constituído por mais de 2 milhões de pessoas, é o Quíchua das Montanhas, que vive nas vertentes e altiplanos da Cordilheira dos Andes. Os representantes mais conhecidos do grupo são os otavalenhos (da cidade de Otavalo). Seu artesanato, famoso mundialmente, e sua elevada organização política os tornaram uma das mais prósperas e respeitadas comunidades indígenas da América Latina. Cerâmicas, tapetes e roupas otavalenhas são vendidos no mercado internacional e a cidade recebe muitos turistas todos os dias, principalmente aos sábados, quando acontece uma grande feira em praça pública.
Uma ponte entre dois mundos
Em Otavalo, tradição e modernidade se encontram. Entre os indígenas, há líderes comunitários, advogados, médicos e políticos. Dirigindo modernas camionetas importadas, mas trajando suas vestimentas tradicionais e cultuando cerimônias que remontam ao império Inca, os índios de Otavalo conduzem seus objetos artesanais para o mercado. Na comunidade, é muito nítida a percepção de que a prosperidade do grupo está associada à preservação de seus modos de vida e do meio ambiente do qual extraem grande parte da matéria-prima.
A adaptação das comunidades indígenas à economia de mercado e à globalização é fonte de acesos debates.
A alternativa apresentada pelos críticos consiste no resgate dos modos de vida ancestrais e no isolamento diante dos fluxos contemporâneos de mercadorias e informações. Nessa utopia de retorno a um passado pré-colombiano, abriga-se o mito da “idade de ouro”, anterior a todos os males. Ela também deixa transparecer um outro mito  o do “bom selvagem” –, que infiltrou-se no imaginário ocidental desde o romantismo.
Os críticos estão errados. Os ancestrais dos otavalenhos foram muito mais intensa e dolorosamente explorados na época colonial e nem por isso abandonaram suas principais tradições. Hoje, a sua cultura e identidade dependem da adaptação ativa e inteligente ao ambiente político do Estado equatoriano e aos fluxos econômicos da globalização.
A experiência dos ameríndios da Amazônia equatoriana revela os laços que interligam a participação política da comunidade, a preservação de sua identidade cultural e a sustentabilidade ambiental das atividades econômicas.
Nesse sentido, ela representa uma negação direta de duas tendências simétricas do pensamento sócio-político contemporâneo: o reducionismo ecológico intransigente, que concebe o ambiente como santuário intocável, e o economicismo estreito, que enxerga no ambiente uma fonte inexaurível de recursos naturais.
Boletim Mundo Ano 7 n° 5

O “XADREZ” DO PODER DAS TROCAS GLOBALIZADAS

O comércio mundial está estruturado em torno de quatro pólos: Europa ocidental, América Anglo-Saxônica, Japão e Ásia. Os três primeiros correspondem aos países desenvolvidos.
A enorme importância da Ásia no intercâmbio global de mercadorias  deve-se ao crescimento dos Novos Países Industrializados (NPIs), ou ‘‘Tigres Asiáticos”, e da China como plataforma de exportação. Na Ásia encontram-se também os países do Golfo Pérsico, que se especializaram na exportação de petróleo. A análise dos eixos estruturantes do comércio mundial revela a hegemonia dos países desenvolvidos.
A Europa ocidental constitui o maior pólo comercial do mundo e apresenta um intercâmbio multi direcional, mas cerca de 60% das suas trocas com outras áreas estão dirigidas para a Ásia e a América Anglo-Saxônica. Isoladamente, a posição de principal parceiro comercial é ocupada pelos Estados Unidos. Esse tradicional intercâmbio transatlântico realça a importância das relações econômicas entre a União Européia e os Estados Unidos. Já as trocas com o Japão são relativamente modestas, menos significativas que o comércio com o Leste europeu e a CEI.
A América Anglo-Saxônica constitui o segundo maior pólo comercial. O papel que desempenha expressa, essencialmente, o peso dos Estados Unidos no intercâmbio global.
Cerca de 60% das suas trocas estão dirigidas para a Ásia e a Europa ocidental. Num segundo plano, aparecem as trocas, bastante significativas, com a América Latina e o Japão. A política comercial dos Estados Unidos reconhece a importância do intercâmbio com a América Latina, que é alvo da estratégia de construção da Alca .
O Japão só é superado pelos Estados Unidos e pela Alemanha no comércio mundial.
O crescimento das trocas com os NPIs e a China Popular, nas últimas décadas, reflete-se no predomínio do eixo de intercâmbio com a Ásia, que corresponde a quase metade do comércio japonês. Em seguida, aparece o intercâmbio com os Estados Unidos.
A Ásia é o único vetor decisivo do comércio mundial formado por países subdesenvolvidos.
O intercâmbio da área, muito elevado, organiza-se nas direções da Europa ocidental, América Anglo-Saxônica e Japão. Isso revela a dependência dos NPIs e da China em relação aos mercados dos países desenvolvidos. Fenômeno semelhante ocorre, em menor escala, com os exportadores petrolíferos do Golfo Pérsico.
Os eixos de estruturação do comércio mundial revelam a persistência das áreas de influência estabelecidas no final do século XIX. A África, cuja participação nas trocas internacionais é muito pequena, mantém intercâmbio significativo apenas com as antigas metrópoles coloniais européias. A América Latina, com peso muito maior nos fluxos globais de mercadorias, direciona o seu intercâmbio principalmente para a América Anglo-Saxônica e, em segundo plano, para a Europa ocidental.
A transição para o sistema de mercado aprofundou a integração da CEI e dos países do Leste europeu à economia global. Mas o crescimento do comércio orienta-se uni-direcionalmente: os antigos países socialistas funcionam, do ponto de vista das trocas de mercadorias, como apêndice da UE.
O comércio entre áreas do mundo subdesenvolvido é insignificante. Dependentes do capital, das tecnologias e dos mercados dos países desenvolvidos, essas áreas funcionam como fornecedoras de manufaturados de baixo valor agregado e produtos primários para a Europa ocidental, a América Anglo-Saxônica e o Japão.
A teoria econômica clássica sustenta que a abertura comercial é uma vantagem em si mesma. O consumo de produtos importados mais baratos elimina setores improdutivos da economia nacional, direcionando os recursos para aplicações mais eficientes, em função de suas vocações históricas e naturais. Esse princípio é o fundamento teórico para a abertura comercial unilateral – mesmo num ambiente de elevadas restrições exteriores ao intercâmbio, seria vantajoso derrubar as barreiras nacionais.
Na prática, as estratégias dos Estados conciliam economia clássica a postulados mercantilistas, em função de interesses definidos politicamente. Washington pressiona por rápidas reduções tarifárias nos setores de alta tecnologia e de serviços, onde se concentram as suas vantagens comparativas, enquanto usam e abusam de medidas protecionistas nos setores industriais tradicionais. Na Rodada Uruguai, uniu-se ao Grupo de Cairns para combater os subsídios agrícolas europeus e recuperar mercados perdidos de cereais. Após a reforma da PAC, parece ter perdido interesse em novas negociações agrícolas, que colocariam em risco seu próprio aparato de subsídios.
Para a UE, as barreiras não-tarifárias representam instrumentos de defesa de variados interesses internos. Servem de escudo para seus agricultores contra a concorrência dos transgênicos americanos e dos cereais canadenses e argentinos. Funcionam como proteção para a sua indústria automobilística, ameaçada pelos japoneses. E limitam a concorrência representada por produtos industriais asiáticos e brasileiros. Além disso, a UE quer assegurar a continuidade dos acordos comerciais privilegiados que mantém com antigas colônias da África, do Pacífico e do Caribe.
O Brasil pretende liderar um vasto bloco de países subdesenvolvidos. Sua estratégia consiste em aprofundar a liberalização agrícola e as propostas de legitimação de políticas de estímulo industrial que abrangem inúmeros subsídios disfarçados. Os negociadores do país preparam-se para evitar, tanto quanto puderem, o avanço das negociações nos setores de alta tecnologia e de serviços. Para isso, podem costurar alianças táticas com o diabo e a avó do diabo.
No mundo real da política internacional, ainda se ouvem os ecos das doutrinas mercantilistas do século XVI, que interpretavam o comércio como um jogo de soma zero. Na Rodada do Milênio, atrás dos argumentos dos negociadores, essas vozes roucas se misturarão, estranhamente, às de Adam Smith e David Ricardo. E muitos passados falarão no presente.
Boletim Mundo Ano 7 n° 5