sábado, 1 de janeiro de 2011

Desigualdade Econômica Cria Muro Invísivel

Cerca de um pouco mais de 30% dos imigrantes são intra-comunitários.  Originam-se, em sua maioria, da Europa mediterrânea e dirigem-se, preferencialmente, para as áreas ao norte. São exemplos desses imigrantes os portugueses que migram para a França e os italianos do Sul que rumam para o norte de seu país ou Alemanha.
A conjunção do aumento da pobreza com o crescimento da onda migratória faz com que os mais ricos tendam a erguer barreiras, “muros” invisíveis para deter os mais pobres. O racismo, a violência, a intolerância, a xenofobia e o renascimento do nazifascismo são os aspectos mais visíveis deste processo.
As águas de Gibraltar não podem se transformar num Muro de Berlim, nem a Cortina de Ferro da CEE num sucedâneo da extinta Cortina de Ferro – diz o escritor espanhol  Juan Goytisolo. Caso este apelo não ganhe força, o mais provável é que a “Europa unida, próspera e  democrática” vá se mostrar um sonho de uma noite de verão.

Comunidade Européia Traça Novas Fronteiras no Velho Mundo

A chamada nova ordem internacional vem apresentando como uma de suas características principais a estruturação do mundo em mega-blocos  econômicos, que substituíram o esquema da Guerra Fria marcado pela bipolaridade entre as superpotências.
Três Mega - blocos econômicos podem ser identificados na atualidade: um sediado na Europa, conhecido como Comunidade Econômica Européia (CEE), um comandado pelos Estados Unidos na América do Norte (o Nafta, North America Free Trade Agreement), e outro estruturado em torno do Japão no Estremo Oriente.
A CEE é o que se encontra no estágio mais avançado de integração. Foi também, o primeiro a se constituir, logo após a Segunda Guerra Mundial.
Sempre existiram ideais de unidade política no continente europeu. No entanto, as tentativas de união sempre foram feitas sob o comando de uma só nação, usando a força como recurso. O Império de Carlos Magno, a Europa napoleônica ou a hitleriana ilustram bem essas  tentativas.
E Europa que emergiu dos escombros da Segunda Guerra Mundial apresentava condições para que os antigos ideais de unificação pudessem ser retomados.
Só que nesse momento materializava-se a idéia de que a complementariedade  econômica poderia  apresentar muito mais vantagens do que a integração pela força.
A Comunidade Européia representa o estágio mais avançado de integração da economia já alcançado numa união de países . O primeiro passo dado no sentido da maior integração da Europa foi dado em 1952 com a criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca), formada por seis países: França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo.
A idéia inicial era a de se partir de um setor econômico, o siderúrgico, para se iniciar um processo mais amplo que poderia levar a uma possível integração política.
A escolha do setor siderúrgico estava ligada ao fato de que esta indústria era muito importante tanto para a França como para a Alemanha. Devido à tradicional rivalidade entre esses dois países, era essencial que o controle da Ceca fosse exercido por um poder acima dos países e dentro de um conjunto maior de Estados.
Em 1957, os seis países da Ceca assinaram o Tratado de Roma que deu origem à Comunidade Econômica Européia (CEE) e à Comunidade Européia de Energia Atômica (Euratom).
A Ceca, a CEE e a Euratom são três organizações distintas, cada uma com seu tratado de criação e suas próprias instituições. Em 1967, estas organizações se fundiram sob a denominação genérica de Comunidades Européias.
A CEE (também chamada de Mercado Comum Europeu, ou simplesmente CE, Comunidade Européia) era a mais importante dessas organizações, e tinha uma série de objetivos, entre os quais o de abolir gradativamente as limitações para a livre circulação de indivíduos, mercadorias, capitais, e serviços – as chamadas quatro liberdades fundamentais.
O número de países-membros da CEE, a partir dos anos 70, começou a crescer com a adesão da Grã- Bretanha, Irlanda e Dinamarca (1973), da Grécia (1981) e de Portugal e Espanha (1986). Estava formada então a Europa dos Doze.
No início dos anos 80, constatava-se que a Europa parecia estagnada do ponto de vista econômico e vinha perdendo terreno no contexto mundial.
Partindo-se desta constatação, tentou-se  buscar  as causas daquilo que estava impedindo a construção de um mercado comum. Foi elaborado, então, o chamado Livro Branco, que identificou cerca de 300 barreiras ao livre comércio, e estabeleceu um prazo para que os obstáculos fossem removidos. A data  determinada era o último dia de 1992.
Em 1986, o Tratado de Roma foi alterado pela assinatura do Ato Único Europeu, cujo objetivo
era  facilitar as decisões que o funcionamento de um mercado único exigia.
A principal inovação trazida pelo Ato Único Europeu foi a mudança nos critérios das decisões. Antes dele, as decisões só eram postas em prática por votação unânime dos representantes dos países-membros.
A partir de então, as decisões começaram a ser tomadas por maioria simples dos  votantes. Isso agilizou significativamente as tomadas de decisões.
Entre 9 e II de dezembro de 1991, os chefes de Estado e de governo dos países-membros da CEE  se reuniram na cidade holandesa de Maastricht e firmaram um tratado que aprovou uma série de metas com o objetivo de formar o mercado único.
O Tratado de Maastricht foi decisivo no processo de implantação da integração econômica e monetária da Europa dos 12 O Tratado de Maastricht, que substituiu o Tratado de Roma como documento básico da CEE, tinha como alguns de seus pontos principais:
• a implementação  de uma moeda comum até 1999;
• a normatização de uma polícia externa comum;
• o estímulo a uma política comum de defesa.
Esse tratado fixou também um calendário ambicioso para a concretização de uma unidade econômica e monetária, além da união política a mais  longo prazo.
Um dos passos mais importantes para a União Econômica e Monetária (UEM) foi o de prever a adoção de uma moeda única, o ECU (European Currency Unity), até 1999. O ECU, por enquanto, é apenas uma moeda de referência. De acordo com o plano, deverá substituir as moedas nacionais até a data limite de 1 de janeiro de 1999, embora os países que já estiverem aptos possam adotá-la a partir de 1997.
O ECU é uma espécie de cesta de todas as 12 moedas dos países da CEE, segundo o peso econômico de cada um deles .
No primeiro dia do ano de 1993 foi implantada a primeira parte de um processo muito mais amplo e cheio de dificuldades. Foram abolidas, por enquanto, as restrições à livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capitais entre os doze países componentes da CEE.
Não foi criada, portanto, uma nova nação – algo como os Estado Unidos da Europa, que seria formada por mais de uma dezena de Estados, com uma única moeda, um só Exército ou uma só língua oficial. Em 1º de janeiro de 1993 foi apenas dado um passo que indica um caminho a ser seguido.
A partir de janeiro de 1993, os países da CEE deram um passo importante no processo de integração econômica que, superadas todas as imensas dificuldades, poderá levar a uma integração política até o final do século.
Na hipótese mais otimista, o processo de integração não se limitará aos doze “sócios” da comunidade. Poderá atingir o conjunto do continente europeu – a Europa unida “do Atlântico aos Urais”, velho sonho do ex-presidente francês, Charles de Gaulle, também defendido por Mikhail Gorbatchov sob a forma de uma “Casa Comum Européia”.
Assim como vários sinais apontam para a desintegração da CEE, outros, ao contrário, mostram uma tendência  globalizadora. Em 1º de janeiro de 1993, por exemplo, entrou em vigor um acordo que tem como objetivo integrar mais sete países à CEE até 1999.
Estes países, pertencentes à Associação Européia de Livre Comércio (Aelc ou Efta – European
Free Trade Agreement) são Áustria, Suécia, Finlândia, Islândia, Noruega e Liechtenstein, que formarão o Espaço Econômico Europeu (EEE). A Suíça, mesmo fazendo parte da Aelc, decidiu, em plebiscito em dezembro, não aderir ao EEE.
Existem outros candidatos a novas vagas na CEE, a maioria deles oriundos do ex-bloco socialista. Os mais fortes candidatos são a Hungria, a República Tcheca, a Eslováquia, a Polônia, Chipre, Malta, Turquia e os países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia).
Na hipótese mais otimista, a Rússia acabará integrando-se ao processo. Seria a consolidação da Europa como espaço jurídico homogêneo.
Disparidades regionais de natureza econômica e social, encontradas em todas as partes do mundo, também marcam a CEE. Constituem, aliás, uma das maiores ameaças à estratégia de integração social, política e econômica da Europa dos Doze até o fim do século.
Essas diferenças regionais não representam um dado novo. O dado mais grave, e aparentemente paradoxal, é que elas tenderão a se acentuar – e não a diminuir – com a entrada em funcionamento do mercado interno e a supressão das fronteiras nacionais. É cada vez maior o abismo que separa os ricos e os  pobres no interior de cada país da comunidade. Em 1975, estimava-se que os pobres correspondiam  38 milhões de pessoas. Hoje, eles ultrapassam 50 milhões.
Como explicar este fenômeno?
O aumento da pobreza é  resultado,principalmente, da exacerbação da concorrência  internacional que levou as empresas a um novo tipo de organização para fazer frente aos novos desafios da economia mundial. Nos esforços para elevar a produtividade, foram introduzidas medidas de automação das linhas de produção, informatização do setor de serviços e corte deficitários.
Uma das conseqüências dessa nova estruturação foi o aumento das demissões, com o conseqüente aumento do desemprego (estima-se que existam hoje na CEE 6 milhões de pessoas desempregadas há muito tempo).
Além  disso a modernização tecnológica rejeita aqueles que não se adaptam aos novos tempos.  Junta-se  a isso o fato de que os sistemas de proteção social se mostram cada vez menos adequados às novas realidades.
A conseqüência final dessa conjunção de fatores leva ao que vem se chamando de “cultura da pobreza”, marcada pelo aumento da delinqüência, da violência, da formação de guetos – são situações e cenários ideais para o florescimento e crescimento da xenofobia e do racismo.
Numa tentativa de corrigir as distorções econômicas e sociais mais graves dentro da CEE, nos últimos  cinco anos os países-membros mais ricos investiram cerca de 87 milhões de dólares nas regiões mais pobres – que correspondem à totalidade da Grécia, de Portugal, da Irlanda, da Irlanda do Norte, e de amplas áreas da Espanha e Itália, além da ilha da Córsega. Nessas regiões, o Produto Interno Bruto (PIB) é 75% inferior à média comunitária. Nelas residem cerca de 20% dos mais de 340 milhões de habitantes da CEE.
Mas as desigualdades não são resultado apenas de problemas estruturais da economia dos países mais pobres. Para complicar os problemas sociais são agravados pelo fenômeno da imigração intra e extra  comunitária – pobres de dentro e de for a da CEE que buscam nos países ricos formas de melhorar suas miseráveis vidas.
Existem na CEE cerca de 8 milhões de imigrantes oriundos de for a da comunidade. Destes, pelo menos 3 milhões estão em situação ilegal. Apesar de todas as restrições já existentes, chegam quase 500 mil pessoas (imigrantes e refugiados) a cada ano aos países da CEE.
A Europa dos anos 50 estava ligada a uma ideologia liberal e democrata cristã.
É por este motivo que ela não era muito limitada. A esquerda era contra, o mundo protestante anglo-saxão e escandinavo não davam a mínima. O novo rumo da Europa é conseqüência da crise radical de todas essas ideologias. Porque já não se sabe mais o que quer dizer comunismo ou liberalismo. O aspecto apaixonante do que estamos construindo é que vamos inventar, se é que existem, ideologias inteiramente diferentes.
Os rótulos já passaram da data de validade.
(Umberto Eco, Como inventar um continente, Folha de S. Paulo, World Media,
Ano  Zero, 20/12/92, pág. 18)

Primo Pobre do Primo Pobre

No final de janeiro, as autoridades portuguesas impediram a entrada de vários brasileiros em Portugal, sob a alegação que iriam procurar emprego ilegalmente naquele país. Os incidentes geraram reações iradas, permeadas pelo amargo sentimento deixado por um passado colonial.
Mas – para além das reações emocionais, que nada explicam o rigor do governo português apenas refletia a situação criada na Europa-93.
Portugal é uma espécie de “primo pobre” da comunidade dos doze, quase que apenas tolerado pelos mais ricos. Nesta condição, tem todo o interesse em respeitar, estritamente, as regras do jogo, o que implica limitar o acesso de imigrantes.
Nesse sentido, os brasileiros representavam uma “ameaça”.
Além de oferecer seus próprios atrativos para brasileiros desempregados ou aventureiros, Portugal corria o risco de tornar-se numa espécie de “porta de entrada” de brasileiros para outros países da CEE.
O Brasil é o primo pobre do primo pobre. Daí a necessidade de Portugal “endurecer” a política de controle de portos, mesmo que isso pudesse custar um distanciamento entre os dois países.
Não se trata, aqui, de pretender “justificar” a atitude francamente despótica do governo português. Afinal, o episódio apenas mostra mais uma vez que a Europa dos Doze mais se assemelha a uma fortaleza “assaltada por bárbaros” do que o “mercado livre” com que os mais eufóricos sonhavam.

Os Fluxos Migratórios não são Totalmente Caóticos

De forma geral, cerca de  65% dos imigrantes vêm do “sul” da Europa. Turcos e iugoslavos, por exemplo, dirigem-se preferencialmente para a Alemanha. Os africanos do norte preferem a França. Caribenhos, Hindus e paquistaneses a Grã-Bretanha. A razão para estas preferências têm explicação de natureza histórica. Em geral, os imigrantes de países que no passado foram colonizados por determinada potência, buscam agora esta potência por dominarem, em alguma medida, o seu idioma e costumes.

Nova Moscou Exibe Luzes, Mercado e Hiper-Inflação

José Arbex Jr.
No dia 3 de dezembro de 1991, os presidentes da Rússia, Belarus (antiga Bielorrússia) e Ucrânia decretavam o fim da União Soviética e lançavam as bases para a criação da Comunidade de Estados Independentes (CEI). Em seguida, as demais repúblicas que compunham a União Soviética (com exceção da Geórgia e dos três Estados do Báltico, Estônia, Letônia e Lituânia) aderiram à Comunidade.
Um ano depois, o futuro da CEI configura-se incerto.
Economicamente, a queda do Produto Interno Bruto (PIB, soma total das riquezas produzidas) foi generalizada para todos os Estados integrantes da Comunidade (variando de 12% a 30%). A queda dos salários variou de 10% a 50%.
A passagem de uma economia centralizada para uma economia de mercado está cobrando um alto preço para as populações da CEI. Muitos já sentem saudades dos “bons tempos” do comunismo.
Outro aspecto a ser destacado refere-se aos conflitos envolvendo povos, etnias e  nacionalidades da ex-URSS. Com a criação da CEI, estes conflitos não deixaram de existir. Ao contrário, se ampliaram, especialmente nas regiões do Cáucaso e da Ásia Central.
Na Ásia central, localizam-se as repúblicas muçulmanas do Casaquistão, Uzbequistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Quirguistão. Como suas fronteiras não foram bem definidas historicamente, são disputadas por um mosaico de dezenas de povos que habitam a região há séculos ou milênios. É o que vem acontecendo junto às fronteiras do Uzbequistão, Tajiquistão e Quirguistão.
ISLÂMICOS TENTAM TOMAR O PODER
O fim do comunismo também deixou seqüelas não resolvidas em relação, por exemplo, à questão religiosa, durante décadas reprimida. O Tadjiquistão virtualmente implodiu, como conseqüência  dos conflitos que, em 1992, opuseram dirigentes do antigo regime (ex-líderes comunistas que venceram eleições diretas) aos líderes nacionalistas -religiosos.
Fora isso,  existem na região importantes minorias de origem russa, e contingentes de tropas do antigo Exército Vermelho que ainda não puderam ser retiradas. Para complicar ainda mais o xadrez  político regional, o fundamentalismo islâmico-iraniano, a caótica situação interna do Afeganistão e as afinidades históricas e culturais entre os povos da Ásia Central e a Turquia agem como força de desagregação política, ao mesmo tempo em que as intenções da CEI e, especialmente da Rússia, atuam no sentido inverso.
Estão aí ingredientes que poderão levar a Ásia Central a conflitos que ultrapassarão em muito as fronteiras da região.
Pa r a  G o r b a t chov,  d e m o c r a c i a e  j u s t i ç a  s o c i a l  d e v e m  s e r  a  prioridade
de  q u a l q u e r   i d e o l o g i a  o u  s i s t e m a

Ex-URSS Deixa Legado de Crise

EX-URSS DEIXA LEGADO DE CRISE
Desagração   ameaça a CEI ao final do primeiro ano de sua formação
Nunca pensei que fosse ver Moscou tão iluminada como naquela gelada noite outonal de 26 de novembro de 1992. Durante os quase três anos em que vivi na capital russa (1988-90), como correspondente da Folha de S. Paulo, habituei-me à melancólica escuridão de suas ruas, jamais perturbada por luminosos e comércio, típicos do “capitalismo”. Agora, as luzes e outdoors são as mais óbvias evidências das transformações que causaram o fim da União Soviética. O caos político, a hiperinflação e a explosão social latente compõem a outra face, nada brilhante, do drama na Rússia pós-comunista.
“IELTSIN É STALIN ÀS AVESSAS”, DIZ GORBATCHOV
Era a primeira vez em dois anos que eu voltava a Moscou. No dia seguinte, entrevistaria o ex-presidente Mikhail Gorbatchov, que se preparava para visitar a América Latina. A entrevista, publicada na Folha em 28 de novembro, aconteceu na Fundação Gorbatchov, centro de Moscou. Sorridente e aparentando sua habitual firmeza de propósito, o arquiteto da perestroika atribuiu ao presidente russo, Boris Ieltsin, a maior cota de responsabilidade pela crise. “Ieltsin que decretar o capitalismo, com a privatização acelerada da economia, como Stalin quis decretar o socialismo, estatizando terras e propriedades nos anos 30.
Ieltsin é um Stalin às avessas.”
O salário mensal médio de um moscovita qualificado (médico, engenheiro, técnico) era, à época, equivalente a 18 dólares, suficientes para comprar 8 quilos de tomate. É evidente que, nestas condições, todos são obrigados a recorrer ao mercado negro e à economia informal (o “quebra-galho” com que os brasileiros estão habituados). As indústrias, todas estatais, estão sendo privatizadas de forma selvagem: as “máfias” e poderosos grupos organizados acabam comprando a maioria das ações das empresas.
O monopólio estatal está apenas sendo substituído pelo poder de grupos econômicos.
Na rua, as pessoas falam com ironia e irritação da nova situação, em que têm total liberdade política, mas tudo é cada vez mais caro. Após décadas de economia totalmente subsidiada e preços congelados, o estouro da hiperinflação (de pelo menos 2.000% em 1992) e desemprego aparecem como monstros para a população russa. Pouca coisa herdada do comunismo permanece, de fato, inalterada após as reformas que liquidaram a URSS.
Uma delas, ironicamente, é o Mausoléu de Lênin, fundador do Estado soviético, solidamente instalado no centro da Praça Vermelha. O passeio descuidado de turistas e prostitutas bem ali, diante do mausoléu, daquela testemunha silenciosa de um passado que acaba de se esgotar, cria uma espécie de tênue melancolia.
O tremular da bandeira nacional russa na torre do Kremlin, o frio da noite e as torres retorcidas da catedral de Basílio, o Venturoso, construídas no século 16 por Ivan, o mais terrível de todos os czares, emolduram o mausoléu e tornam qualquer reflexão sobre o futuro ainda mais incerta, quase que como se tudo fosse uma miragem do tempo. “Ieltsin é um Stalin às avessas”. E a Rússia ainda pagará novo tributo à História.

Editorial Muro de Berlim

A queda do Muro de Berlim, em 3 de novembro de 1989, removeu da vida das pessoas o espectro de Stalin. Ponto culminante das revoluções democráticas que varreram os regimes totalitários da Europa oriental, aquele evento parecia anunciar um horizonte de maior liberdade, uma convivência humana isenta dos fanatismos ideológicos, da intolerância e da violência política.
Apenas dois anos depois, na mesma Alemanha (agora reunificada), ressurge um  outro espectro. Atrás de suásticas desafiadoras e dos bandos de desqualificados que apedrejam imigrantes e incendeiam os seus abrigos, delineiam-se as feições de Hitler. É como se das cinzas do totalitarismo stalinista renascesse o totalitarismo gêmeo, o par oposto e simétrico que foi o nazismo.
Mas não vale culpar a “alma alemã”.
A intolerância e violência difundem-se nas campanhas de “purificação étnica” na Bósnia, nas manifestações extremistas de Le Pen na “civilizada” França, nos separatismos xenófobos emergentes na Itália e na Bélgica.
Neste ponto, aliás, o Brasil nada fica a dever. Apesar de um  certo “folclore” segundo o qual não há racismo ou preconceito neste país, a violência de Estado atinge em cheio os mais pobres, de maioria composta por negros e nordestinos. Como trágica demonstração disso, permanece impune o genocídio praticado pela PM na Casa de Detenção do  Carandirú, em São Paulo.
Mas culpar todo um povo pelo racismo- por exemplo, os alemães – é raciocinar no interior da lógica perversa do preconceito. Afinal, partiu dos próprios alemães a senha democrática: perto do Natal, todos os times de futebol trocaram as grifes dos patrocinadores pela frase estampada na camisa – “Meu amigo é um estrangeiro”.