terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Greenpeace- Poluição mata

Roberto Kishinami
Na América Latina estão as cidades de maior índice de poluição do ar em todo o mundo. Em todas elas, as principais fontes de poluição são os autos particulares que transportam, em média, menos de dois passageiros por viagem.
A campeã mundial de poluição do ar é, sem sombra de dúvida, a Cidade do México. Ali, há um programa oficial (chamado “hoy no circula”) em que os carros deixam de circular em determinados dias da semana, através de sistema de rodízio. O programa ocorre durante todo o ano e baseia-se nos números finais das placas. O programa mexicano não obteve sucesso: continuam ocorrendo dias em que a poluição é tão severa que as atividades de escolas, governo e indústrias são suspensas até que a poluição volte aos níveis considerados aceitáveis. A Cidade do México tem 20 milhões de habitantes e uma frota circulante de 3 milhões de automóveis.
A cidade de São Paulo não fica atrás na poluição do seu ar. São 10 milhões de habitantes e uma frota de 3 milhões de automóveis. A concentração de substâncias tóxicas no ar é pior na Cidade do México, por causa de sua geografia: está cercada de montanhas, o que dificulta a dispersão pelos ventos. Estudos da Faculdade de Medicina da USP, sobre a mortalidade por doenças do sistema respiratório, mostram uma correlação muito forte entre o aumento dos índices de poluição e da mortalidade de crianças e idosos.
Os mesmos estudos mostram que a correlação é mais forte por particulados no caso dos idosos, enquanto a mortalidade de crianças está estatisticamente correlacionada aos índices de óxido de nitrogênio.
Quem já não sofreu a experiência de passar o dia com os olhos ardendo, as narinas e a garganta irritadas, a cabeça doendo? Quem mora em São Paulo sabe que tudo isso é causado pela poluição do ar. Sabe também que os congestionamentos, o ruído dos veículos, a fuligem preta dos caminhões, a cor cinzenta dos edifícios, a chuva ácida etc. são as principais marcas da metrópole.
Qual a solução? Em todo mundo, duas direções opostas têm sido tentadas. Uma, o aumento do transporte coletivo e público, juntamente à inibição do uso de carros particulares e individuais. Outra, a construção de complexas obras viárias para aumentar a velocidade de circulação dos carros, na esperança de que menor tempo de viagem resulte em menor poluição.
Entre as duas, a primeira orientação tem alcançado melhores resultados e seu exemplo mais completo é a cidade de Curitiba (PR), tida como exemplo de planejamento urbano. Na segunda alternativa, pode-se citar São Paulo, onde os investimentos em obras viárias consumiram quase R$ 1 bilhão, segundo dados oficiais, ao passo que o investimento em novas alternativas de transporte público não chegaram  a 10% deste valor.
Boletim Mundo Ano 4 n° 1

Guerra pela água, uma questão do século XXI

Nelson Bacic Olic
Nos próximos anos, a obtenção de água para consumo passará a se constituir em problema geopolítico de primeira grandeza. Se as guerras do século XX tiveram como causas principais as diferenças ideológicas, religiosas, políticas e econômicas, as do século XXI, poderão ser causadas também pela escassez de água. Isso já vem assumindo contornos dramáticos na Ásia Central e Oriente Médio, onde a água é naturalmente escassa.
Os últimos acordos de Israel com jordanianos e palestinos têm contemplado itens que se referem à partilha de recursos hídricos da bacia do rio Jordão. As “intermináveis” negociações entre os governos sírio e israelense têm esbarrado no problema do controle de afluentes do Jordão, cujas nascentes se localizam nas colinas de Golã, território conquistado por Israel à Síria na Guerra dos Seis Dias (1967).
Atualmente, cerca de 250 milhões de pessoas em 26 países enfrentam faltas  constante de água. Por volta de 2020, esse problema atingirá cerca de 3 bilhões de pessoas em mais de 50 países; quase 8 bilhões habitarão o planeta, a maioria vivendo em aglomerações urbanas. Com isso, crescerá a demanda por mais comida e energia. Com base no que já acontece hoje, parte expressiva dos recursos hídricos continuarão comprometidos pelos danos causados pela ação humana ao meio ambiente, especialmente no que se refere à poluição e desmatamento. Um complicador a mais será o acirramento da disputa entre o consumo doméstico, industrial e agrícola pelo uso da água.
Uma das principais fontes de obtenção de água para consumo são os rios. Alguns países dependem quase em 100% dos recursos hídricos, como o Egito em relação ao Nilo; a bacia do rio Jordão fornece 60% da água consumida em Israel e supre cerca de 75% das necessidades da Jordânia.
Das 214 grandes bacias hidrográficas do mundo, 75% têm áreas compartilhadas por dois países e 25% delas por grupos de três até 10 países. Como não existe uma legislação internacional clara sobre o assunto, são raros os casos em que países estabelecem acordos de utilização de recursos hídricos comuns. Por conta disso, podem ser identificadas no mundo dezenas de áreas potencialmente “hidro conflitivas”.
Boletim Mundo Ano 4 n° 1

Diário de Viagem- Relatos do horror no país de Pinochet

A paisagem impressionante da Cordilheira dos Andes, com o Aconcágua na janela do avião, anunciava a chegada ao Chile. Fiquei recordando os motivos que sempre me levaram a evitar aquele país, de tão estranha geografia, espremido entre os Andes e o Pacífico. A leitura dos crimes da ditadura do general Augusto Pinochet, filmes como Missing, de Costa-Gavras, e A Casa dos Espíritos, baseado no livro de Isabel Allende, tinham deixado a imagem de um lugar marcado pela barbárie.
Mas, após assistir a O Carteiro e o Poeta, uma interpretação poético-cinematográfica da vida de Pablo Neruda, pensei que a terra dominada por Pinochet tinha também uma história de intensa vida cultural, marcada por hábitos e valores preservados ao longo dos séculos por camponeses e indígenas.
Essa intensidade se refletiu nos dois prêmios Nobel de Literatura conquistados pelo Chile: Gabriela Mistral, em 1946, e o próprio Neruda, em 1971.
Depois de tudo, e apesar de Pinochet, valia a pena conhecer esse país.
As décadas de 60 e 70 foram marcadas, na América Latina, pelo confronto entre os nacionalistas e os conservadores, estes vinculados aos interesses político-militares de Washington. A vitória foi quase sempre dos conservadores: além de Cuba, as exceções foram a década do governo sandinista na Nicarágua (1979-89) e o próprio Chile, durante o curto governo socialista de Salvador Allende (1970-73). O Chile era um dos raros países de longa tradição democrática, iniciada na década de 30. Nas eleições de 1970, a vitória coube à Unidade Popular, uma frente liderada por Allende que reunia socialistas, comunistas, radicais e democratas. Allende tornou-se o primeiro presidente socialista do continente que chegava ao poder pela via eleitoral, com apenas pouco mais de um terço dos votos.
Salvador Allende, um marxista especial
Allende foi um marxista especial. Defendia a convivência das reformas sociais com a democracia política. No poder, nacionalizou as minas de cobre e os grandes bancos, expropriou terras e aumentou salários. As reformas encontraram feroz oposição no Congresso. Latifundiários, financistas e industriais boicotaram impiedosamente o governo socialista.
As associações patronais, com apoio da classe média, trabalhavam para produzir o caos econômico.
Tramava-se, com o apoio de Washington, a desestabilização de Allende.
No Chile daquela época, vigorava o mito do profissionalismo das Forças Armadas, da sua subordinação  às leis e ao poder civil. No dia 11 de setembro de 1973, o mito desmoronou com o golpe militar que derrubou o presidente, liderado pelo comandante do Exército, Augusto Pinochet.
O Palácio de La Moneda, sede do governo, foi bombardeado.
Allende, de capacete e metralhadora, tentou resistir. No fim, suicidou-se no palácio em chamas (ou, pelo menos, esta é a versão oficial dos fatos). Nos dias que se seguiram ao golpe, instaurou-se no país um clima de terror e pesadelo. Milhares de pessoas foram conduzidas ao estádio Nacional, onde foram torturadas, mutiladas e, finalmente, assassinadas. Entre as vítimas mais conhecidas, estava o cantor Victor Jara, que teve suas duas mãos quebradas pelos torturadores. Contam aqueles que presenciaram seus últimos momentos que Jara ainda encontrou forças para cantar Unidos  Venceremos, o hino da Unidade Popular.
A ditadura de Pinochet durou quase dezessete anos. Os  assassinatos de opositores e as violações dos direitos humanos tornaram-se regra. A lista de mortos e “desaparecidos” não parou de aumentar. Os presídios receberam os sobreviventes. Pinochet foi e ainda é considerado persona non grata na maioria dos países.
Apesar da democratização, as sombras do terror de Pinochet ainda sufocam o Chile
Apesar do retorno à vida institucional, em 1990, o país não reconquistou a democracia plena. O Chile permanece sob a tutela de Pinochet, que segue sendo o Comandante em Chefe do Exército. Constatei logo que as ditaduras tornam as pessoas mais desconfiadas: os chilenos parecem ter medo das sombras. A população ainda teme o Dina (Departamento de Inteligência Nacional), mesmo que ele já tenha mudado de nome, para Serviço Nacional de Informação - curioso como a palavra inteligência é freqüentemente profanada por brucutus sanguinários.
Qualquer chileno com mais de trinta anos viveu intensamente a polarização ideológica do governo Allende. O país continua dividido. Não é difícil encontrar partidários do obscurantismo.
De uma senhora, elegantemente vestida e carregada de jóias, ouvi longos elogios para o chefe do Exército. Inflamada, ela dizia que Pinochet “erradicou o câncer do marxismo”, “salvou a tradição cristã” e “trouxe crescimento econômico”.
De fato, nos últimos anos o crescimento do PIB foi o mais rápido da América Latina e para 1995 se estima uma taxa de 8%. Claro que isso não garantiu melhor distribuição da renda: ao contrário, o modelo econômico concentrador tornou ainda mais evidente o “apartheid” social. Santiago impressiona pela quantidade de edifícios modernos, mas também pela divisão da cidade entre ricos e pobres.
A elite de origem criolla (brancos descendentes dos colonizadores espanhóis) mora nos “bairros altos”. Feições, roupas e hábitos são tipicamente europeus. Multiplicam-se os carros importados, os edifícios de arquitetura arrojada, as mansões, os jardins.
Nos “bairros baixos”, onde estão as favelas e as ruas carentes de estruturas sanitárias, os rostos arredondados e cabelos escuros evidenciam a origem indígena da maioria da população pobre. Os mestiços são 68% do país.
O nome de uma das principais avenidas de Santiago, nos “bairros altos”, é 11 de Setembro (data do golpe pinochetista). Passando por ela, comentei com o motorista do táxi como incomodava a denominação tétrica. Ele informou que o nome antigo voltará e que a data, feriado nacional até o ano passado, não será mais comemorada. Também deixou claro que a troca das placas não apagaria o passado.
Ao nos deixar na antiga casa de Pablo Neruda, onde hoje funciona uma fundação cultural, sorriu, cúmplice, e fez o sinal da vitória com os dedos, antiga saudação da Unidade Popular. Aquela casa, explica um jovem bem-humorado e irônico, foi invadida pelos ‘‘gorilas’’ de Pinochet na madrugada do golpe. Destruíram boa parte de seu acervo -objetos e obras de arte do mundo inteiro,reunidos durante anos pelo poeta.
Os derrotados de 1973 têm muito a contar. Muitos chilenos perderam parentes e amigos durante a longa repressão. Foram 30 mil assassinados nos seis meses seguintes ao golpe. O relato dos fatos pelos que viveram as atrocidades é diferente da leitura de livros: as pessoas não choram sobre estatísticas.
‘‘Ainda me lembro do matraquear das metralhadoras e das pilhas de cadáveres em Santiago’’ (dono de um restaurante, sobre o dia do golpe)
De uma fraternal garrafa de vinho, ouvimos comovidos a  memória da barbárie. O dono do restaurante nos contou que era criança no dia do golpe. Ele lembra o matraquear das metralhadoras e as pilhas de cadáveres que amanheciam nas ruas de Santiago. Naquela noite, ouvimos várias histórias pavorosas.
Mas aqueles homens e mulheres não perderam a alegria. Todos continuavam achando repugnantes as ditaduras, mas sabem que existem poetas e música, além do vinho e da boa comida. No aeroporto, poucos antes de embarcar de volta, lendo um livro do Neruda, encontrei essa poesia. Compartilho-a agora com vocês:
“Não só é a luz que cai sobre o mundo
a que alonga em teu corpo
sua neve sufocada, mas também se desprende
de tua claridade como se fosses acesa por dentro
Debaixo da tua pele vive a lua.”
Boletim Mundo Ano 4 n° 1

Arafat tenta salvar paz abalada pelo terror

Jayme Brener
Tarde fria de janeiro em Nablus, uma das mais ajeitadas cidades da Cisjordânia, ocupada por Israel em1967.
Ato em homenagem ao terrorista palestino Yahya Ayash, o “engenheiro”, morto semanas antes por uma bomba que o serviço secreto israelense plantou em seu telefone celular. Milhares gritam “morte aos judeus”.
Os oradores prometem que “novos engenheiros surgirão, para explodir bombas em ônibus israelenses”. No fim do ato, os repórteres conversam com a multidão.
- Em quem você vai votar na eleição de 20 de janeiro? - “Em Iasser Arafat”, diz o rapaz bigodudo, que leva na cabeça uma faixa verde, identificação dos fundamentalistas muçulmanos.
Para quem está chegando ao Oriente Médio, a cena é surrealista. Como é possível o mesmo sujeito que berra “morte aos judeus”, jurar lealdade a Arafat, o líder da Organização pela Libertação da Palestina, que assinou a paz com Israel? Arafat, aquele que depois do assassinato do premiê israelense Itzhak Rabin, no ano passado, disse: “Perdi um sócio no processo de paz”.
Cenas como essa acontecem todos os dias na região. Mostram como são estreitos os caminhos que separam a paz da guerra, o terror da negociação, o inimigo do amigo.
A grande maioria dos cerca de 2 milhões de palestinos da Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental apóia o processo de paz. Nas eleições de janeiro, Arafat ganhou a presidência, com 88,1% dos votos em um pleito razoavelmente democrático. Seu partido, a Al Fatah, controla o Parlamento.
Mas embora esta seja a primeira perspectiva real de paz para o Oriente Médio, após meio século de guerras, essa não é “a” paz que os palestinos desejariam.
A assinatura do acordo entre Israel e a OLP, em 1993, aconteceu em um momento de enfraquecimento da liderança palestina, que apoiara o iraquiano Sadam Hussein na Guerra do Golfo (1990-91). Sadam foi surrado por uma coalizão chefiada pelos Estados Unidos. Sobraram escoriações para a OLP, resignada a um acordo de paz bastante favorável a Israel.
Até agora, a autonomia palestina limitava-se a Gaza e a sete cidades da Cisjordânia.
Tropas israelenses ainda patrulham grande parte da Cisjordânia e protegem os cerca de 120 mil colonos judeus ali entrincheirados.
Assim, ainda que a maioria aplauda a paz, muitos vibram com o terrorismo contra Israel, cometidos pelos fundamentalistas Hamas e Jihad.
Quem amarra esse feixe de contradições é um baixinho, careca escondida por um hata, o lenço palestino quadriculado, e barba eternamente por fazer. Arafat, engenheiro, 66 anos, é a história do povo palestino, de seus acertos e erros, de sua esperança e desespero. Ao abrir mão de uma vida confortável como empreiteiro no Kuwait e liderar um punhado de nacionalistas na tomada do comando da OLP, nos anos 60, ele deu um passo decisivo para romper com a histórica dependência dos palestinos em relação aos regimes árabes.
Arafat comandou guerrilha e terrorismo.
Tornou-se sinônimo de ataques a alvos civis em Israel, mas fez a sua causa entrar nas TVs e manchetes dos jornais lidos à hora do café, em todo o mundo. Foi derrotado ao tentar criar Estados  palestinos paralelos na Jordânia e no Líbano, nos anos 70/80. Longe de seus compatriotas que sofriam as barbaridades da ocupação israelense na Cisjordânia e Gaza, viu nascer, em 1987 -fora de seu controle-, a Intifada, o levante popular palestino. Mas, conseguiu evitar que a liderança da Intifada ficasse com os fundamentalistas.
Quando o mundo olhava com simpatia os garotos palestinos, mortos ao atirarem pedras contra os gorilas israelenses, Arafat pisou na bola e apoiou Sadam contra o Kuwait. Novamente, Arafat parecia estar com seu povo, que enxergava em Sadam a vingança contra Israel.
Há quase três anos, Arafat conseguiu mais uma vez interpretar as emoções dos palestinos, quando aceitou negociar a paz. A paz possível. A decisão, motivada pelas seguidas derrotas da OLP, ironicamente acabou transformando-se em sua maior vitória. O Estado palestino independente, que Israel sequer menciona, é só uma questão de tempo. Rabin, general linha-dura, foi morto por um terrorista judeu, por ousar admitir a independência palestina.
Ao conquistar o respaldo de nove em cada dez eleitores, em janeiro, Arafat conseguiu uma enorme injeção de combustível, para continuar funcionando com pólo de unificação do que não parece ser unificável: guerra e paz. Ele é hoje a imagem da complexa construção da nacionalidade palestina. Resta saber se o edifício que Abu Amar - “pai construtor”, o nome de guerra de Arafat- está erguendo sobreviverá ao outro “engenheiro”
Dormindo com o inimigo
Difícil dizer, no Oriente Médio, quem são os inimigos e aliados de cada personagem. Arafat está engajado na paz com Israel, mas não pode abrir mão do terror da Hamas, que serve como força de pressão, para que Israel seja mais generoso nas concessões. Só que o terror tem que estar sob controle, de forma a evitar que o premiê trabalhista israelense Shimon Peres perca as eleições de maio para o partido de direita Likud, o que faria a paz entrar em passo de cágado com reumatismo.
Peres tem em Arafat um aliado para deter Hamas e Jihad. Por isso, tem que fazer concessões à OLP. Mas precisa reagir com violência aos atentados terroristas, sob o risco de perder votos dos que ainda torcem o nariz para os palestinos.
Quanto à Hamas, se não explodir seus petardos, perderá o apoio dos militantes palestinos mais críticos à tática gradual de Arafat, especialmente os jovens.
Só que, se exagerar nas bombas, estará desgastando de vez os trabalhistas e batendo de frente com Arafat, o chefão.
O Oriente Médio assemelha-se a um barco, em que todos querem movimentar-se sem  virá -lo de vez. No frágil timão estão o muçulmano Arafat e seu amigo / inimigo, o judeu Peres.
Boletim Mundo Ano 4 n° 1

Atentado do IRA dramatiza o impasse irlandês

“O processo de paz para a Irlanda do Norte está encerrado. O que temos que fazer é reconstruí-lo.” Com essas palavras, Gerry Adams, líder do Sinn Fein (braço político do IRA) analisava as conseqüências do ato terrorista praticado pelo IRA (Exército Republicano Irlandês). No dia 9 de fevereiro, uma bomba “plantada” por militantes do IRA explodiu num ônibus em Londres deixando como saldo duas vítimas fatais e mais de 100 feridos. Até o final do mês, outras duas bombas assustaram a população londrina. Essa organização, criada durante a Guerra Anglo-Irlandesa (1918-21) tenta, através da luta armada, conseguir a independência da Irlanda do Norte e a reunificação com a República da Irlanda.
A ilha da Irlanda localiza-se na porção norte ocidental da Europa, separada da ilha da Grã-Bretanha pelo canal de São Jorge.
Politicamente, está dividida da seguinte forma: grande parte constitui a República da Irlanda (Irlanda do Sul, ou Eire), Estado-membro da União Européia, com capital em Dublin; seis condados da porção setentrional formam a Irlanda do Norte (Ulster), parte integrante da Grã-Bretanha, com capital em Belfast .
A presença britânica na ilha da Irlanda tem oito séculos, embora seu domínio formal só tenha acontecido a partir de 1801, quando ela foi incorporada ao Reino Unido da Grã-Bretanha. O domínio veio acompanhado de maciças migrações de britânicos, em sua maioria protestantes, que se instalaram no Ulster, empurrando os irlandeses, majoritariamente  católicos, ao sul ou induzindo-os a migrar, especialmente para os Estados Unidos. Foi por conta desses fatos que, no século XIX, os protestantes se tornaram a maioria da população do Ulster.
Em 1918, eclodiu a Guerra Anglo- Irlandesa, que teve como conseqüência a criação do Estado Livre da Irlanda do Sul, em 1922. Vinte e sete anos depois, ele se transformaria numa república independente.
Contudo, os seis condados setentrionais, onde cerca de 56% da população eram constituídos por protestantes, continuaram ligados à Coroa Britânica. A minoria católica do Ulster, um pouco mais de 40%, nunca aceitou esse estatuto político. O governo do Eire disse sim à partilha da Irlanda, considerando-a o preço a ser pago pela independência.
Com o Eire independente, o IRA perdeu muito de sua força e só ao final dos anos 60 voltou a ser mais atuante, notabilizando-se por organizar manifestações na defesa dos direitos civis da minoria católica da Irlanda do Norte. Os católicos exigiam, principalmente, o fim da legislação eleitoral discriminatória. Essas manifestações ensejaram choques cada vez mais freqüentes entre as duas comunidades religiosas, especialmente nas cidades de Belfast e Londonderry. Perdendo o controle da situação, o governo do Ulster solicitou a presença de tropas britânicas, que passaram a  ser consideradas pelo IRA como tropas de ocupação.
A situação se radicalizou a partir de 30 de janeiro de 1972, no chamado Domingo Sangrento (Bloody Sunday), quando soldados britânicos abriram fogo contra manifestantes católicos desarmados causando inúmeras vítimas. Durante as duas décadas seguintes, o IRA tentou não só organizar a resistência católica contra a ocupação britânica mas também promover atentados à bomba, tanto na Irlanda do Norte, quanto na Inglaterra.
Esses atentados o transformaram numa das mais temidas organizações terroristas da Europa. Ao mesmo tempo, as forças de repressão britânicas tornaram-se cada vez mais agressivas o mesmo acontecendo com organizações terroristas protestantes do Ulster.
A espiral de violência só pareceu se deter em agosto de 1994, quando o IRA anunciou unilateralmente um cessar-fogo, abrindo perspectivas para uma solução negociada para o conflito. Contudo, depois de dezessete meses, as negociações preliminares chegaram a um impasse porque os britânicos condicionavam o avanço do processo de paz à exigência de que o IRA se desfizesse de seu arsenal, estimado em pelo menos 100 toneladas de armas. Uma comissão internacional criada para acompanhar o problema divulgou recentemente um relatório em que constata que essa exigência era inaceitável, propondo a abertura de negociações substanciais, paralelas à deposição das armas.
O problema tem  um outro nó difícil de ser desatado. Londres considera que uma reunificação da Irlanda estaria condicionada a um plebiscito realizado exclusivamente no Ulster, onde a maioria protestante quase certamente produziria resultado favorável ao estatuto atual. Por isso, tanto o IRA como o próprio governo do Eire pretendem que o plebiscito envolva todos os habitantes da ilha. Nesse caso, a ampla maioria católica da Irlanda do Sul jogaria um peso decisivo para o resultado.
Há um quarto de século a violência política acumula cadáveres na Irlanda do Norte e em Londres. Já são mais de 3 mil vítimas. A retomada da lógica do terror ameaça engrossar ainda mais essa estatística trágica.
Boletim Mundo Ano 4 n° 1

Na era da “globalização”, Estado-Nação ainda move os peões do xadrez mundial

Voltou à moda profetizar a morte do Estado nacional. Analistas políticos e econômicos, historiadores, sociólogos e geógrafos têm se dedicado, nos últimos anos, a construir cenários do futuro nos quais o Estado-Nação ocupa um lugar apenas marginal na política internacional. É um curioso paradoxo que isso ocorra precisamente quando o nacionalismo, sob as mais variadas formas, retoma impulso e energia que pareciam perdidos, reafirmando o seu papel crucial.
O pioneiro da nova onda foi Francis Fukuyama, cientista político americano que emergiu do anonimato, há alguns anos, proclamando o “fim da história”. No embalo da queda do Muro de Berlim e da desmoralização dos regimes comunistas da União Soviética e leste europeu, Fukuyama comemorava a suposta vitória final da ordem liberal do Ocidente e o conseqüente encerramento do conflito ideológico que, desde a Revolução Russa de 1917, parecia condicionar a hostilidade entre as potências. Sob essa perspectiva, o pós-Guerra Fria estaria isento de disputas geopolíticas e, em geral, da rivalidade dos Estados: sobraria lugar apenas para a concorrência econômica entre empresas.
O otimismo de Fukuyama sofreu logo a crítica do pessimista Samuel Huntington, da Universidade de Harvard, que enxergou no futuro o pesadelo do “confronto de civilizações”.
Para ele, o mundo do pós-Guerra Fria estaria prestes a se fragmentar em zonas culturais hos- tis umas às outras, cada uma delas fechada no casulo das suas certezas absolutas e avessa ao diálogo.
A Europa Ortodoxa assumiria o espaço abandonado pelo bloco soviético, agonizando a oposição histórica que a separa da Europa Ocidental liberal, de tradição protestante ou católica. O confucionismo desenharia um círculo de valores morais isolando a Ásia do Ocidente.
O islamismo fundamentalista traçaria outro círculo, em volta do mundo árabe, tornando-o ainda mais inacessível e atiçando os ressentimentos e os ódios. Onde Fukuyama vê branco, Huntington vê preto, mas nenhum dos dois enxerga um lugar destacado para o Estado: na tese do primeiro, ele se dissolve no liberalismo globalista triunfante; na do segundo, nos blocos de culturas supranacionais.
A mesma melodia é tocada em outro tom pelos que se preocupam com a globalização econômica. O argumento, nesse caso, consiste em focalizar a fragilidade do Estado nacional diante das novas realidades financeiras, monetárias, comerciais e tecnológicas que tendem a integrar os mercados e restringir o poder de comando dos governos. Os fluxos de mercadorias e capitais, os mercados financeiros globais, as estratégias mundiais das grandes corporações tudo isso, potencializado pela revolução da informática, estaria dissolvendo as fronteiras econômicas do Estado. A configuração de blocos econômicos supranacionais - e especialmente o projeto da União Econômica e Monetária Européia - parecem ilustrar decisivamente a tese de que o velho e bom Estado-Nação sofre de senilidade avançada.
A moda, todos  sabemos, é cíclica. Assim como a mini-saia e a calça boca-de-sino retornaram, depois de um intervalo de vinte ou trinta anos, a nova profecia representa uma reciclagem de si própria. Na década de 50, auge da Guerra Fria, John Herz fez escola ao teorizar o “falecimento” do Estado-Nação. Seguindo as tendências da época, ele construiu o raciocínio em termos estratégicos e militares, acentuando a permeabilidade das fronteiras nacionais às poderosas tecnologias bélicas da era nuclear. O Estado, incapaz de proteger o seu território da ameaça representada pelos mísseis balísticos, não teria outra alternativa senão ceder a sua soberania a grandes alianças político-militares, de caráter internacional, como a Otan ou o Pacto de Varsóvia. Despido da soberania, o poder estatal perdia a sua alma e razão de ser.
Agora, como antes, os profetas estão errados. Quando Charles de Gaulle, há  exatos trinta anos, retirou a França do comando militar unificado da Otan, estava oferecendo um desmentido prático da tese de Herz: o general afirmava a prioridade do Estado francês e o seu apego absoluto à soberania, que passava a se alicerçar no arsenal nuclear nacional. Quando Fukuyama celebra o fim do conflito ideológico, ele se esquece que nem mesmo durante a Guerra Fria a rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética se estruturava em torno de idéias ou concepções de mundo: como evidenciou o confronto sino-soviético, o que estava em jogo, em todos os casos, era o equilíbrio de poder e a segurança dos Estados. Quando os Estados árabes, apesar de toda a retórica dos governos, estão mais longe do que nunca de formar a confederação tantas vezes projetada, e quando uma corrida armamentista ameaça elevar a tensão que separa os Estados asiáticos, as zonas culturais de Huntington perdem a maior parte do seu encanto original.
A globalização econômica - uma expressão que está na crista da onda - é uma realidade.
Mas, ao contrário do que sugerem as aparências, cada um dos progressos na direção da integração dos mercados é fruto de uma decisão política dos Estados. Foi assim com a desregulamentação dos mercados financeiros, na década passada, sob o influxo das políticas liberais de Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Foi assim com a ampliação da União Européia e a queda das barreiras nas fronteiras dos países-membros. No segundo semestre, novamente, os Estados da UE estarão reunidos para rever as decisões do Tratado de Maastricht, em particular o cronograma crítico de implantação da projetada moeda única. Os Estados fazem a globalização - e podem desfazê-la.
Os Estados Unidos e a União Soviética foram as superpotências do século XX. Os Estados Unidos -ameaçados na sua hegemonia econômica- e a Rússia -ameaçada no seu poder geopolítico e integridade territorial- promovem eleições presidenciais nos próximos meses.
Não são acontecimentos corriqueiros. Desta vez, o que está em jogo é nada menos que o reposicionamento dos mais poderosos Estados do planeta no tabuleiro desarrumado do mundo pós- Guerra  Fria.
Europa inventou o Estado nacional
As terras emersas do globo dividem-se em 184 Estados. O de maior área, a Rússia, ocupa mais de 17 milhões de km2 . Há cinco com áreas que compreendem de 7 a 10 milhões de km2: Canadá, China, Estados Unidos, Brasil e Austrália.
No outro extremo, 65 Estados têm áreas inferiores a 50 mil km2, menores que a Paraíba. Entre estes, estão os Estados insulares do Pacífico (como Samoa Ocidental, com menos de 3 mil km2) e do Caribe (como Santa Lúcia, com cerca de 600 km2). Mas todos eles compartilham a mesma alma, que os faz pertencer à família dos Estados: todos têm território e exercem a soberania.
O Estado territorial não existiu sempre é uma criação mais ou menos recente.
A sua origem encontra-se na Europa renascentista, quando as monarquias absolutas empreenderam a centralização do poder político, golpeando e destruindo os particularismos feudais. As terras do reino, até então submetidas aos poderes locais, dos nobres e das cidades autônomas, tornavam-se domínio dos monarcas.
As fronteiras, formadas por faixas imprecisas e pontilhadas de enclaves territoriais, transformaram-se em limites lineares. A sede do poder político, que flutuava de uma cidade a outra acompanhando os deslocamentos dos reis, fixou-se em capitais permanentes.
No Estado territorial renascentista, a soberania confundia-se ainda com a propriedade. O mundo medieval, que continuava funcionando como alicerce das novas monarquias, retardava a separação entre o poder e o pertencer. As terras do reino eram patrimônio do monarca.
A esfera pública e a privada permaneciam integradas na pessoa do soberano e Luís XIV podia proclamar a sua identidade com o Estado: L’État c’est moi.
O casamento era uma estratégia diplomática, abrindo caminho para a expansão de território, força e prestígio das dinastias.
O matrimônio substituía a guerra, quando não conduzia a ela.
As esferas  pública e privada separaram- se apenas com o advento do Estado nacional. Na Inglaterra, esse foi um lento processo de subordinação do monarca à vontade dos cidadãos, expressa através do Parlamento. Na França, foi uma erupção revolucionária que decapitou o monarca, instalando a república (do latim res publica, ou coisa pública). O Estado- Nação faz o poder derivar do povo, que se torna assim a fonte e o titular da soberania. Na teoria política, a transição foi antecipada por John Locke (1632-1704), Montesquieu (1689-1755) e Jean-Jacques Rousseau (1712-78). Locke defendeu a limitação do poder real. Montesquieu construiu o sistema da separação dos poderes, distinguindo a administração (Executivo) da produção de leis (Legislativo) e do controle da sua aplicação (Judiciário). Rousseau ergueu a bandeira da democracia, investindo contra o absolutismo.
O cidadão tomava o lugar do súdito.
O Estado-Nação é uma invenção européia que migrou para todos os continentes. Ele se aclimatou melhor na América do Norte, onde a Revolução Americana de 1776 prefigurou a explosão francesa de 1789. Na América Latina, foi instalado pelas baionetas rebeldes de Bolívar e San Martin, mas se enraizou no chão lavrado pelas elites aristocráticas coloniais. No Brasil, confundiu-se com a Coroa e a escravidão, misturando a modernidade à tradição e perpetuando o princípio da desigualdade.
No mapa do mundo, o traçado imaginário das fronteiras assinala a existência real dos Estados. Nem sempre as nações desenharam as fronteiras dos seus Estados. Na África, por exemplo, o traçado dos limites foi imposto pelo colonizador europeu, nas últimas décadas do século passado. Os Estados africanos, atormentados por guerras tribais e pelo deslocamento de milhões de refugiados, vivem a sua história nos recipientes inventados pelos outros.
Mas a insatisfação com os recipientes fornecidos pelo passado está um pouco em todos os lugares. Na antiga União Soviética, cuja implosão recente originou quinze Estados de tamanho e poder muito desiguais, entre os quais uma Rússia que tateia o novo entorno para redescobrir o seu lugar no mundo. Nos Bálcãs, onde o incêndio étnico que consumiu a Iugoslávia ameaça reacender nas cinzas desarrumadas dos pequenos Estados, emanados de uma paz injusta. Na Irlanda dividida, cuja parte norte conhece há décadas o renitente conflito entre católicos e protestantes .  Na Palestina, onde dois povos e duas religiões disputam a mesma terra, santa para todos eles. O mundo dos Estados é o leito das paixões e atrocidades humanas, mas não se conhece outro.
Boletim Mundo Ano 4 n°1

60 anos da Guerra Civil (1936-39) - Sombra de Franco envolve a Espanha

Seis décadas após a “última cruzada ibérica”, eleições atestam o peso do passado e a força da tradição na democracia espanhola
Elaine Senise Barbosa
Há 60 anos, a Guerra Civil Espanhola (1936-39) incendiava a Península Ibérica. O regime republicano, que derrubara a monarquia, não conseguiu impedir que o federalismo implodisse a unidade territorial. O conflito dividiu o país e terminou com a implantação de uma ditadura pelo generalíssimo Francisco Franco (1939-75), que resgatou a integridade do Estado e restaurou a monarquia. Hoje, democratizada, a Espanha ainda exorciza o fantasma da Guerra Civil.
As explicações para a Guerra Civil podem ser agrupadas em duas vertentes.
Para a primeira, a Guerra foi um “ensaio geral” da Segunda Guerra que se aproximava.
A Espanha dividira-se politicamente: de um lado, a Frente Popular, composta pelos partidos republicano, socialista e comunista, e apoiada pelos anarquistas; de outro, a Falange, representante das forças ligadas à Igreja, da aristocracia encastelada no Exército e dos monarquistas. A FP, democraticamente eleita, propunha a reforma agrária, a laicização do Estado e a concessão de direitos políticos às províncias autonomistas (Catalunha, País Basco e Galícia). Contra isso, a Falange iniciou um levante armado,  em julho de 1936.
Franco obteve o apoio de Mussolini e Hitler, que aproveitaram para testar as novas armas que planejavam utilizar em outras guerras. Em março de 1937, a cidade basca de Guernica foi destruída pelo bombardeio aéreo  das esquadras italiana e espanhola. Em abril de 1939, Franco tomava o poder num país devastado. Em setembro, eclodia a Segunda Guerra.
Essa interpretação suscita algumas questões: por que a Espanha franquista permaneceu neutra durante o conflito mundial ao invés de integrar-se ao Eixo? Por que os vitoriosos aliados não promoveram a derrubada de Franco, convivendo com o ditador até sua morte? As respostas só podem ser encontradas olhando a Guerra Civil por  um outro ângulo, que revela o principal: o franquismo foi, antes de tudo, um fenômeno espanhol.
Esta é a outra vertente de interpretação: a Guerra Civil foi a expressão de poderosas correntes subterrâneas do passado.
De um lado, os influxos de modernização sempre estiveram associados aos “estrangeirismos” -a brilhante cultura árabe na Idade Média, as práticas capitalistas mais arrojadas na Idade Moderna, o Iluminismo do séc. XVIII e, no séc. XX, os movimentos republicanos e de esquerda.Por outro lado, o ‘‘autenticamente nacional’’ liga-se à tradição -o espírito forjado pela Cruzada Ibérica contra os muçulmanos. Desta luta secular nasceu o Estado espanhol, que unificou os Reinos Cristãos, sustentado pela Igreja Católica. Durante a Idade Moderna, a Inquisição preservou a unidade, combatendo os “estrangeirismos” -qualquer posição contrária ao binômio Monarquia/Igreja. Nesse sentido, Franco foi o último cruzado ibérico, e com um curioso detalhe geográfico: enquanto os cruzados dirigiam-se do norte para o sul, Franco veio do Marrocos para a Espanha. Da base militar africana que ecoava a longínqüa Reconquista, partiria o comandante da Cruzada contemporânea, contra as novas heresias: o Comunismo e a República.
Banidos os infiéis dos novos tempos, Franco indicou Juan Carlos de Bourbon à sucessão. Em 1975, o ditador desaparecia, depois de uma demorada agonia. Em 1976, coroado rei, Juan Carlos iniciou a redemocratização. Convocou as lideranças políticas para uma acordo que, entre outras coisas, legalizaria os partidos e convocaria eleições. O Pacto de la Moncloa, assinado em 1977, assegurava a manutenção da monarquia.
Desde 1982, o governo foi ocupado pelo Partido Socialista de Felipe González, que, reeleito sucessivamente quatro vezes, jamais discutiu o sistema de governo. No quadro da monarquia, foram negociadas e cedidas autonomias às províncias, quebrando o ímpeto separatista. No País Basco, o ETA, agrupamento separatista radical, isolou-se em meio a uma furiosa campanha de atentados.
A vitória do PP de José Maria Aznar não significa uma impossível volta do franquismo. Mas representa a permanência de uma tradição antiga, o lado sombrio da história espanhola. O invólucro da monarquia, que assegura a unidade do Estado contra o separatismo, abriga, agora, a alternância no poder das duas tendências que se chocaram há 60 anos. O que as une é um consenso negativo, o silêncio sobre o tema proibido da República. Na Espanha, a sublimação se tornou o fundamento da vida política.
Novo premiê é neto de embaixador de Franco
Nas eleições gerais de 3 de março, o Partido Popular (PP) de José Maria Aznar derrotou o Partido Socialista de Felipe González, premiê desde 1982. Na “era Gonzalez”, os herdeiros do franquismo substituíram o velho líder Manuel Fraga Iribarne pelo jovem Aznar (cujo avô foi embaixador de Franco), eleito chefe de governo.
A vitória do PP é resultado da combinação de vários fatores: a multiplicação dos episódios de corrupção no governo; o escândalo gerado pela descoberta de que um ex-ministro de González teria adotado o uso de métodos ilegais no combate aos separatistas bascos; o índice de desemprego superior a 20%, o maior da União Européia, e o fim da longa era de crescimento econômico que garantiu o prestígio dos socialistas.
A vitória do PP não foi uma surpresa. Em 1994, o partido já havia vencido as eleições ao Parlamento europeu; em 95, chegou ao poder nas principais cidades e governos regionais. Mas ela assinala uma dupla reviravolta. Como aconteceu na França, um ciclo de poder socialista cede lugar ao conservadorismo. Além disso -e mais importante-, a direita espanhola, herdeira da Guerra Civil de 1936-39, adquire plena cidadania política.
Elaine Senise Barbosa  pós-graduanda em História Social na USP