terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Crise e angústia na Ásia

Na China, ditadura mistura Marx e Confúcio
Eleições em Taiwan provocam reação militar de Pequim, mas política de “um país e dois sistemas” é reafirmada
Newton Carlos
A diáspora chinesa  perderá parte substancial e bilionária com a incorporação de Hong Kong ao território mãe, a 1º de julho de 1997. Depois será a vez de Macau, colônia portuguesa ao lado.
E Taiwan, “província rebelada”, segundo o jargão oficial da China? As turbulências no estreito entre o continente e a ilha, com disparos de foguetes que poderiam resultar em acidentes de difícil controle, acabaram fortalecendo a idéia de que o estatuto atual ainda vai prevalecer por muito tempo, tendo em vista interesses mútuos capazes, como foi visto, de navegar com segurança em águas encrespadas.
O Time, de Londres, chegou a prever desembarque de tropas chinesas em alguma ilhota despovoada de Taiwan, como forma de “acentuar” a disposição de agir militarmente, mas nem isso aconteceu.
Taiwan tem  capitais e a China tem mão de obra, conjunção ideal numa Ásia com ambições de tornar-se o motor econômico do universo no terceiro milênio. A ilha, reconhecida como um dos “Tigres Asiáticos”, mas sem identidade política própria, tem 25 bilhões de dólares investidos nas Zonas Econômicas Especiais do continente, estrelas do milagre chinês. Especialistas dizem que a China pode se tornar uma mega-Cingapura nos próximos quinze anos, se os seus índices de crescimento se mantiverem.
A comparação com Cingapura, cidade- Estado quase totalmente computadorizada, sob a guarda de regime autoritário que continua a aplicar castigos corporais, agrada a Pequim, esperançosa de que o fenômeno asiático se submeta aos ensinamentos de Confúcio. Embora no passado comunismo e confucionismo tenham se estranhado, agora se tornam mais do que convenientes valores como o sacrifício da liberdade em troca do bem-estar, o conformismo e a obediência hierárquica.
Cingapura se enquadra nisso, com seus computadores e chicotes, mas não Hong Kong e Taiwan, e essa é a espinha cravada no regime comunista chinês, razão maior da crise recente no estreito de Formosa.
Com as primeiras eleições diretas para presidente, realizadas em março, Taiwan assume, bem ou mal, padrões de democracia aceitáveis pelo Ocidente, enquanto no continente prossegue a repressão feroz a dissidentes. Aumentam as pressões da Europa e Estados Unidos na questão dos direitos humanos e a Anistia Internacional lançou campanha mundial de denúncia da China, onde existem oficialmente 2.678 presos acusados de “crimes contra-revolucionários”. Foram 1.147 execuções no primeiro semestre de 1995, três vezes mais do que no resto do mundo. A “abertura” em Taiwan tem muito a ver com cobranças redobradas aos chineses.
Também Hong Kong é parte da espinha. O atual governador inglês, Chris Patten, talvez o último da era colonial, procura deixar um legado de reformas democráticas bastante modestas, já que ele continua a ser a instância final das decisões.
Para a China, no entanto, elas são espantalho.
Nas eleições de setembro do ano passado para o Conselho Legislativo de Hong Kong, o Partido Democrático, do advogado Martim Lee, ganhou 12 das 15 cadeiras em disputa, com 72% dos votos. O partido pró-China ficou com duas. “As eleições mostraram que o povo de Hong Kong quer uma democracia verdadeira”, proclamou o vitorioso Lee, acusado pelos chineses de “traidor” e “sedicioso”.
Há o compromisso, por parte de Pequim, de manter o “modo de vida” de Hong Kong pelo menos durante 50 anos.
Seria a política de “um país e dois sistemas”, confirmada agora em março pelo Partido Comunista. Mas já se fala que “desonras do passado precisam ser expurgadas”, sem que se saiba muito bem o que isso significa.
Para contrabalançar as dificuldades políticas, o regime comunista trata de se aproximar da bilionária comunidade dos negócios de Hong Kong. “Estamos interessados em negócios e não em política, Hong Kong é uma sociedade econômica”, disse um dos 12 bilionários que em dezembro cruzaram a fronteira para encontrar-se com Jiang Zemin, o manda-chuva chinês. Confucionismo na versão cingapurense, do agrado da China.
Ventos da diáspora acabariam colocando a China no caminho de uma “quinta modernização”, como pede o dissidente histórico Wei Jingsheng ? O Partido decidiu abrir a China para o mundo exterior visando a “quatro modernizações”: na agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa nacional. A quinta seria a democracia, sem a qual “tudo o mais falhará”, segundo Wei. “Trata-se de um político romântico”, reage Xiao Gongqin, da Universidade de Xangai. Intitulando-se um realista “neoautoritário”, Gongqin argumenta que a China, em transição política e econômica, “precisa de mãos duras para evitar o caos”. Contra a democracia, pesam na China a tradição confuciana, espertamente reeditada, massas rurais quase em estado primitivo, classe média fraca, cultura política moldada em regras imperiais.
Maerle Goldman, professor da Universidade de Boston, escreve que “nas tradições chinesas não existem aspectos que possam promover a democracia”. A diáspora, portanto, é que estaria saindo dos trilhos.
A diáspora chinesa na Ásia oriental e meridional compreende mais de 50 milhões de habitantes. Em Taiwan e Hong Kong - as “Chinas exteriores” - eles são quase a totalidade da população. Em Cingapura, formam uma clara maioria, mas também representam minorias numerosas na Malásia e Tailândia. Porém, o que impressiona é a sua participação nas economias locais. A abertura  econômica da China Popular possibilita a conexão dos impérios empresariais da diáspora chinesa com o continente, dinamizando os negócios em toda a macro-área da Ásia-Pacífico.
Boletim Mundo Ano 4 n° 2

Crise na União européia- Interesses de Estados nacionais colidem com as metas globais de Maastricht

Conferência Intergovernamental dos 15 membros da UE, instalada em março, em Turim, assinala enfraquecimento do eixo franco-alemão e enfrenta a resistência britânica
O desafio do novo século começa a ser enfrentado pela União Européia. A 29 de março, os ministros do exterior dos quinze Estados da UE instalaram em Turim, Itália, a Conferência Intergovernamental destinada a rever o Tratado de Maastricht. Prevista para durar nada menos que dezoito meses, a reunião deve encarar os dois problemas permanentes da construção européia: a ampliação geográfica do bloco supranacional e o aprofundamento da integração.
O sonho europeu nasceu em 1952, com a criação da Comunidade do Carvão e do Aço (CECA), e consolidou-se com o Tratado de Roma, de 1957, que estabeleceu a Comunidade Econômica Européia (CEE). De lá para cá, os seis Estados pioneiros transformaram-se em quinze, e cada uma das sucessivas ampliações geográficas colocou novos desafios. O ingresso da Áustria, Suécia e Finlândia, em 1995, assinalou o desaparecimento dos neutralismos impostos pela guerra fria e pela “cortina de ferro”. A integração aprofundou-se em 1992, com a supressão da maior parte das barreiras remanescentes à circulação de mercadorias, capitais, serviços e pessoas e a instalação do Mercado Único. Na mesma época, o Tratado de Maastricht substituiu o de Roma como documento constitutivo da comunidade, que passou a se chamar União Européia.
Em Maastricht, foram desenhadas as novas e ambiciosas metas, da união monetária e das políticas externa e de defesa comuns, a serem alcançadas até o final do século. Em Turim, as metas voltam à mesa de negociação, junto com as candidaturas à integração de Estados do leste e do Mediterrâneo.
O comboio europeu foi movido, desde a CECA, pelo motor franco-alemão.
O eixo Paris-Bonn, que só não funcionou no período gaullista, propulsionou cada um dos grandes passos da construção comunitária.
Agora, porém, ele começa a falhar.
Na França, o governo de Jacques Chirac, herdeiro da tradição nacionalista do general De Gaulle, enfrenta o espectro do desemprego e da instabilidade social. Figuras políticas destacadas começam a defender uma inversão das prioridades, com a transferência da ênfase no equilíbrio das contas públicas e no combate à inflação para o crescimento econômico e a proteção dos empregos nacionais. No governo e na oposição, levantam-se vozes pedindo o relaxamento dos rígidos critérios estabelecidos em Maastricht para a entrada em vigor da moeda única ou o adiamento dos prazos.
A classe política teme uma nova onda de greves generalizadas, como a que eclodiu em dezembro passado.
Por outro lado, a Alemanha de Helmut Kohl continua a defender o cronograma de Maastricht, apesar da profunda crise que afeta a sua economia. Como o relaxamento de critérios é rejeitado pelo Bundesbank (o poderoso e autônomo Banco Central), resta ao chanceler enveredar pelo complicado caminho da “Europa em velocidades variadas”, que possibilitaria a adesão de um núcleo de meia dúzia de países à união monetária no prazo previsto, enquanto os demais prosseguiriam correndo atrás dos “critérios de Maastricht”. Na mesma linha europeísta, os alemães favorecem a rápida incorporação pelo menos de alguns candidatos do leste e do  Mediterrâneo .  É claro que a ampliação numérica dos Estados da UE viria acompanhada pelo fortalecimento das instituições européias, como o Parlamento de Estrasburgo, e pelo fim do direito de veto nacional, que hoje permite bloquear qualquer decisão mais séria.
Nos anos 60, Charles De Gaulle pisou fundo no freio do comboio europeu.
Refletindo o nacionalismo francês, o general opunha-se ao aumento dos poderes da Comunidade e reclamava o respeito à soberania dos Estados nacionais. A “Europa das Pátrias” gaullista deveria se estender “do Atlântico aos Urais”, ignorando a própria realidade geopolítica da “cortina de ferro”, mas não poderia em nenhuma hipótese colocar em discussão os poderes dos Estados. Ironicamente, esta é hoje, em um ambiente mundial muito diferente, mais ou menos a posição britânica: “sim” à ampliação geográfica, “não” ao aprofundamento da integração.
Londres, que exigiu uma cláusula de exceção em Maastricht, desobrigando-se de adotar a futura moeda única, também não quer ouvir falar de política externa comum e sequer considera a proposta francesa de nomeação de uma figura de grande projeção para coordenar as posições européias diante do mundo. John Major, acossado pelos “eurocéticos” de seu  partido, defende a rápida inclusão de novos Estados, mas dirá “não” a todas as propostas de aumento dos poderes das instituições européias e se apegará com fidelidade canina ao sacrossanto direito de veto. Londres não acredita em nada que se pareça com uma “Europa federal”, embora se delicie com a idéia limitada de um mercado comum tão vasto quanto possível.
A Comunidade Européia foi um fruto da guerra fria. O temor inspirado pela União Soviética soldou os destinos da França e da Alemanha Ocidental, e chegou a arrastar para a Europa o desconfiado submarino britânico. A Conferência de Turim reúne os Estados de uma outra Europa, que não precisam deixar de lado os interesses nacionais em nome do perigo comum. A missão dos quinze governos é provar que a integração não depende da Guerra Fria.
Não é nada fácil.
Boletim Mundo Ano 4 n° 2

Imagem e valor na era da Globalização

O império das marcas
Nelson Blecher
Quando você bebe uma Coca-Cola, compra uma malha da Benetton ou liga o aparelho para assistir à MTV, você não apenas escolheu um refrigerante, uma roupa e uma emissora de TV, mas se associou a uma comunidade global. Em dezenas de países, jovens da sua idade, igualmente influenciados pela mídia, fizeram opções semelhantes naquele mesmo dia. A possibilidade, gerada pelas novas tecnologias de telecomunicações, de espalhar marcas de produtos e serviços por um enorme número de países, ampliou de forma jamais vista o valor dos logotipos. A isso se chama ganhos de escala: é incomparavelmente maior o lucro de empresas com capacidade de vender suas mercadorias em muitos países do que as que estão limitadas a um só mercado.
Estamos ingressando em uma era já batizada de economia simbólica, em que o valor de um produto não é mais medido pelos custos de matéria-prima ou dos funcionários envolvidos na produção. O patrimônio mais valorizado, agora, é a capacidade de criação e de reprodução dos bens em escala global. Um programa de computador desenvolvido pela Microsoft de Bill Gates pode alavancar infinitas vezes mais lucros com custos bem inferiores aos dos automóveis da linha de montagem de Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística.
“A marca passou a valer mais do que a tecnologia em si mesma, pois  tornou-se uma garantia de qualidade ou um ‘padrão’’’, afirma o economista Gilson Schwartz. “Quem consegue criar novos padrões, novas marcas, pode criar novos mercados ou conquistar os já existentes.”
Eis um exemplo: para incorporar aos seus domínios a indústria de alimentos Kraft, na década de 80, a americana Philip Morris pagou dez vezes mais pelos logotipos estampados em seus queijos e sorvetes do que pelos prédios e equipamentos da companhia.
É por tudo isso que as empresas gastam fortunas em publicidade. Para que suas marcas sejam cada vez mais familiares aos consumidores. As marcas que não se comunicam tendem a desaparecer,  perder força ou cair no esquecimento. Segundo a revista americana Fortune, os executivos da  Coca-Cola costumam brincar que se de uma hora para outra todas as fábricas do refrigerante instaladas em mais de cem países desaparecessem, bastaria obter um empréstimo de US$ 100 bilhões junto aos bancos para rapidamente reconstruí-las. Tal é a força da marca mais valiosa do mundo, cujo valor é estimado em US$ 39 bilhões pela Financial World. Na lista anual dessa publicação, a segunda marca mais valorizada é a do cigarro Marlboro (US$ 38,7 bilhões). Outro estudo, da Young & Rubicam, revelou que em uma constelação de 8.500 marcas, Coca-Cola é a que brilha mais forte.
Não por acaso, empresas de informática ocupam lugar de destaque. São vinculadas a esse setor de crescimento explosivo seis das dez marcas que escalaram posições em 1995. Isso reflete o poderio e o dinamismo do setor, traduzido por sucessivos lançamentos de novos produtos.
Foi no período pesquisado pela revista que a Intel lançou o chip (unidade de memória) Pentium. A Microsoft, estimada em US$ 11,7 bilhões, não apenas passou a valer 31 mais que em 1994, como foi apontada como a marca mais bem administrada.
A construção de uma marca forte exige anos de investimentos. Ainda assim há o risco de seguir para a coluna dos perdedores. Um levantamento da Copernicus, uma consultoria de marketing de Massachusets, aponta que menos de 10% dos novos produtos são bem-sucedidos o suficiente para permanecer no mercado americano nos dois anos seguintes ao do lançamento. No Brasil, o risco é menor, já que o número de produtos em exposição nas gôndolas é inferior aos 20 mil lançados nos EUA a cada ano. Dos 570 produtos que surgiram por aqui em 1989, 24% não estão mais à venda.
Veja só: são necessários cerca de US$ 100 milhões para se lançar uma nova marca de refrigerante nos Estados Unidos.
Em outras indústrias, a taxa de fracasso pode ser ainda maior: apenas 1% dos novos produtos introduzidos nas cadeias de fast-food são bem-sucedidos.Em certos casos, nem a providência de consultar previamente os consumidores pode dar garantia.
O McDonald’s não decolou as vendas do McLean (hambúrguer diet) mesmo tendo detectado a preferência por produtos mais saudáveis. O caso mais antológico de fracasso foi o da New Coke, que havia sido submetida ao crivo de 190 mil consumidores.
Participar da economia global será um fator diferenciador para as empresas na virada do milênio. Veja o caso da Benetton, uma potência no ramo do vestuário. Seu faturamento atinge US$ 2 bilhões anuais.
É um negócio sustentado por 7 mil lojas, a maioria sob licenciamento, estabelecidas em quase cem países. Suas 14 fábricas espalham-se pela Itália, França, Espanha, Estados Unidos e Brasil. Para produzir acima de 80 milhões de peças anuais, processa 100 milhões de quilômetros de fios  metragem equivalente a mais de 2.500 voltas em torno do planeta. É também a maior consumidora mundial de lã.
O sucesso da Benetton deve-se à prática, pioneira no setor, de combinar produção em escala elevada com a volatilidade no mercado da moda. Sua operação é facilitada pelo emprego farto de tecnologia. As encomendas chegam às fábricas através da rede de computadores. Só então as peças semi prontas, confeccionadas em teares automatizados, são tingidas com as cores da moda.  Daí o slogan “United Colors of Benetton”. A publicidade heterodoxa da Benetton, apoiada por verba de US$ 80 milhões anuais, vem causando polêmica há uma década, desde que o anúncio “Todas as cores do mundo”, que estampava a foto de um grupo de jovens loiros e negros, fora recusado por revistas sul-africanas. O grupo ganhou uma ação movida contra a Agência Francesa de Luta Contra a Aids, que reivindicava indenização por causa de anúncios em que a expressão HIV Positivo aparecia gravada na nádega do modelo. A Benetton é a indústria que mais aposta em imagens (quase nunca relacionadas aos produtos) para fixar sua marca associada a questões sociais.
Algumas companhias brasileiras já estão se aventurando a romper as fronteiras nacionais para garantir um espaço ao sol. É este o caso da Cervejaria Brahma, que depois de fincar sua bandeira na Venezuela e na Argentina, avança para outros países latino-americanos. A Sadia vende suas carnes industrializadas em remotos países do Oriente Médio, como o Kuwait e Emirados Árabes. Talvez você não saiba, mas uma das marcas de café mais vendidas na Rússia traz o aval da Cacique, uma empresa paulista.
Boletim Mundo Ano 4 n° 2

Crise do comunismo- O nome da Rosa

Julieta - Apenas o teu nome é o meu inimigo. Tu és o teu ser, não um Montecchi. O que é Montecchi? não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte do corpo de um homem. Então, seja outro nome! O que há em um nome? aquilo a que chamamos rosa, teria o mesmo perfume ainda que seu nome fosse outro (...)
Romeu - Acato tuas palavras: chama-me apenas amor, e eu serei rebatizado. Nunca mais serei Romeu.
O que há em um nome? Que poder é esse que o nome tem, de gerar discórdias e paixões, de construir e destruir impérios? Essas perguntas continuam a atormentar a humanidade, quatro séculos depois que William Shakespeare escreveu Romeu e Julieta (encenada pela primeira vez em 22 de julho de 1596), uma das mais belas peças de amor de toda a história.
O poder do nome: não foi outra a questão colocada pelos comunistas da Rússia, quando eles fizeram aprovar no Parlamento de seu país, em março, uma moção pela ‘‘volta’’ da União Soviética. É claro que a URSS não ‘‘voltará’’ por decreto. A URSS era uma ditadura de partido único (o Comunista) que agregava 14 países além da Rússia; era economicamente regida por leis socialistas (economia e finanças estatizadas, planificação da produção estabelecida por metas quinqüenais, subsídio total aos serviços básicos de educação, saúde, transporte e moradia), e era socialmente dividida entre burocratas privilegiados (os membros do partido) e o resto da população. A URSS acabou em dezembro de 1991 (quando foi criada a Comunidade de Estados Independentes, CEI), não por decreto, mas porque seu modelo foi esgotado. A URSS sucumbiu às suas próprias contradições.
Propor a ‘‘volta da URSS’’ significa, portanto, pretender que a história retroceda. Ainda assim -e isso é que é estranho-, os nomes ‘‘comunista’’ e ‘‘União Soviética’’ continuam a causar impacto no mundo.
Comunista, atualmente, significa muitas coisas diferentes. Na Rússia, designa um grupo político cada vez mais fortalecido pela crise, já que os modelos privatizantes e neoliberais adotados pelo presidente Boris Ieltsin mostram-se incapazes de oferecer soluções reais ao problema crucial do desemprego, da criminalidade e queda vertiginosa do nível de vida. Na China, comunista é o partido que ainda está no poder, e que agrega uma máfia corrupta .
Os comunistas chineses combinam liberalização econômica com uma feroz ditadura (responsável, por exemplo, pelo massacre de 2 mil estudantes na Praça da Paz Celestial, em junho de 1989). Em Cuba, comunista é o regime encarnado por Fidel Castro, líder da revolução de 1959 e ditador desde aquela época. Neste caso, especificamente, o termo tem uma forte conotação antiamericana, já que Washington elegeu Castro para o posto de Demônio-Chefe, ao lado dos islâmicos Sadam Hussein, Muamar Gadafi e o já falecido aiatolá Khomeini.
Na Itália, os comunistas têm chance de ganhar o poder nas próximas eleições gerais, embora com outro nome (Partido Democrata de Esquerda). Caso isso aconteça, eles oferecerão um curioso contraponto aos processos verificados recentemente na Espanha e na França, que tiraram do poder os socialistas e deram a vitória à direita mais conservadora (representada, respectivamente, por José Aznar e Jacques Chirac).
Se em cada um desses casos a palavra comunista tem significado distinto, em nenhum ela se identifica com sua origem, estabelecida por Karl Marx no Manifesto Comunista de1848.
À época, comunismo designava um movimento organizado do proletariado, cujo objetivo era promover a revolução à escala mundial e implantar um novo sistema -mais justo e solidário- em substituição ao capitalismo. Comunismo, hoje, não guarda semelhança sequer com a concepção leninista, anunciada no início deste século, segundo a qual um partido fortemente centralizado (o‘‘partido de quadros’’) conduziria a humanidade ao paraíso do igualitarismo. Tudo isso acabou.
O que há, então, nesse nome, que ainda causa tanto impacto? Talvez seja o fato de que sobrevivem os problemas que provocaram o surgimento do comunismo. A pobreza e a desigualdade nunca foram resolvidas -ao contrário, tendem a aumentar. A ‘‘doença’’ foi mais forte que a suposta ‘‘cura’’.
Na comovente história dos jovens de Verona, a rosa poderia mudar o nome, mas manteria o seu perfume. Em nossa história, o comunismo fracassou como sistema, e até serve de rótulo a regimes corruptos e partidos oportunistas. Mas, independente do uso que dele se faça, o nome remete a uma utopia, a uma espécie de perfume característico do espírito: o da rebeldia contra as injustiças (haverá sentimento mais humano?).
Não importa, nesse sentido, a intenção dos políticos quando eles falam em ‘‘trazer de volta a URSS’’. Não é da demagogia que a moção extrai sua força, mas de algo muito mais importante e profundo. Desse algo que encontra ressonância na alma e que, ao fazê-lo, atribui ao nome o seu poder.
Boletim Mundo Ano 4 n° 2

E D I T O R I A L- Jerusalém

Jerusalém e Asquelom, 25 de fevereiro: 26 mortos. Jerusalém de novo, 3 de março: 18 mortos. Tel Aviv, 4 de março: 14 mortos. Os assassinos foram terroristas suicidas, pessoas desconhecidas, portando sacolas com dinamite e pregos. Em Jerusalém, as cargas mortais foram detonadas na linha de ônibus número 18. Em Asquelom, num ponto de ônibus. Em Tel Aviv, na calçada, após uma tentativa frustrada de entrar num shopping-center lotado de mulheres e crianças que compravam fantasias para o feriado religioso do Purim. As vítimas compartilham uma característica dos assassinos: são pessoas anônimas.
Aí está o horror maior - na morte cega, distribuída ao acaso.
Os terroristas não agiram sozinhos. Não são loucos, mas elos de uma corrente macabra. A cada um deles, um xeque, na segurança do seu esconderijo, prometeu as graças divinas e todos os prazeres de 72 virgens no paraíso da outra vida. Cada um deles detonou a sua bomba cumprindo um plano prévio, em lugares e horários definidos por uma facção do Hamas que persegue um objetivo político: a destruição do processo de paz no qual se engajaram a OLP e o Estado de Israel. O historiador Arnold Toynbee, escrevendo em 1972 sobre a chacina do Setembro Negro que vitimou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, apontou a inutilidade política do terror: “Essas ações produzem o efeito contrário ao desejado por quem as perpetra.” Desastrosamente, as reações do governo de Israel à onda de atentados parecem estar desmentindo o historiador.
Retomando práticas abolidas progressivamente depois do início do processo de paz, Israel bloqueou não apenas o trânsito de palestinos entre a Cisjordânia e Gaza e o seu território como também toda a circulação entre as cidades e povoados palestinos. Centenas de milhares de palestinos foram impedidos  de chegar aos locais de trabalho em Israel, ou de se abastecer ou visitar parentes. Casas de familiares dos terroristas foram dinamitadas, deixando-os desabrigados. A teoria da punição coletiva e o método do terror de Estado ressurgiram pelas mãos de um Shimon Peres acossado pela disputa eleitoral com o Likud.
O que Israel faz não é igual ao que fazem os terroristas suicidas. Mas a filosofia oculta nessas reações guarda uma perigosa semelhança: assim como os homens-bomba não escolhem seus alvos, o Estado de Israel trata todo o povo palestino como inimigo, ignora direitos humanos básicos e deflagra uma guerra cega. Os xeques do Hamas agradecem.
Boletim Mundo Ano 4 n°2

Os homens escrevem os nomes de Deus

onde estás, que não respondes?”
Paulo César de Carvalho
Formada por múltiplas influências culturais, todas colocadas sob tensão pelo dominante catolicismo lusitano, a literatura brasileira jamais  concluiu a busca de sua identidade, jamais construiu a face de seu próprio Deus. Nesse sentido, a questão colocada por Castro Alves é um emblema e um desafio
A embarcação se aproxima do litoral recortado de Eldorado. Dentro dela, barbudos portugueses se acotovelam, feios e sujos. As imagens se sucedem em ritmo frenético, captando a nova terra descoberta. Paulo Autran porta um estandarte, de terno e gravata; Clovis Bornay reverencia uma enorme cruz, fantasiado de destaque de escola de samba; a ala dos índios é distribuída pela praia;os lusitanos procuram um lugar ao sol. Em meio a uma dança ritualística, num quadro de exaltação que antecipa o carnaval, o Brasil é batizado na “festa” de celebração da Primeira Missa. O Eldorado do cineasta Glauber Rocha é o palco onde se inicia nossa história, contada pelo mestre do “Cinema Novo” neste seu filme Terra em Transe ( 1967 ).
É aí que as culturas se plasmam: a gênese da formação da cultura brasileira. É aí que o Deus branco, loiro e de olhos azuis se encontra com os deuses de cabelos lisos e negros como as asas da graúna (os orixás de cabelo pixaim chegariam mais tarde): a liturgia lida em latim se segue do som dos tambores tribais. A idéia de mistura já se faz presente neste “batuque divino” pagão-cristão que inaugura o Brasil, nesta missa-carnaval rezada-cantada nesta igreja-sambódromo a céu aberto. Mas a fusão não teve nada de pacífica. Latim não rima com tambor. O português olha boquiaberto para o índio; o índio mira espantado o ser fantasiado do que aprenderia chamar civilização. Estranhos lado a lado, olham-se de lado. E fazem a guerra, que terminará com a vitória do colonizador. Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Mais adiante o colonizador trará para a “Terra brasilis” o negro escravo, com seus atabaques e orixás. Novo ingrediente no barril da mistura de deuses. Sincretismo. A religiosidade brasileira, feita de todos esses elementos, misturados sob grande pressão, é enigmática. É na Literatura, sobretudo, que encontramos os registros da formação de nossa religiosidade. Vamos, por essa razão, nos deter em sua análise.
Século XVI - Literatura de Formação: A gênese da literatura brasileira é determinada pela lógica do colonizador, que é a lógica da exclusão do outro, de tudo que lhe é estranho. Este é o germe do que se chamaria, no século XIX, “darwinismo social”, ou seja, a justificativa ideológica para a suposta superioridade do homem europeu, branco e católico, sobre os outros povos e fés.
Alfabetizar e catequisar os silvícolas descritos por Pero Vaz de Caminha em sua Carta do Achamento do Brasil a D. Manuel. As cartas dos jesuítas (que compõem, ao lado da de Caminha, o “Quinhentismo” tupiniquim), de conteúdo catequético, relatam as missões da Companhia de Jesus. Mas o convencimento dos novos “fiéis” nem sempre se valeu do Verbo: não dando resultado a palavra do jesuíta, entrava em cena a espada do português.
Século XVII - Barroco: O mestre da oratória barroca conceptista (estilo fundamentado no engenhoso jogo de idéias e conceitos) Padre Vieira escreve peças sobre a arte de convencer, sobre o papel do pregador, como se nota no célebre Sermão da Sexagésima. Embora empenhado na missão civilizatória empreendida anos antes por seus pares (Vieira também foi educado pela Companhia de Jesus), não poupa esforços por se lançar na defesa dos índios presos e explorados por colonos maranhenses no Sermão de Santo Antônio aos Peixes. Democrático em termos: ao lado dos índios contra os colonos, mas desejoso por impor sua fé aos nativos. Outro nome da época, o brasileiro Gregório de Matos, tem poemas que mostram o enraizamento da fé religiosa na cultura.
Em  A Jesus Cristo Nosso Senhor, o poeta busca a clemência divina diante de seus descuidos terrenos: Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,/ Da vossa alta clemência me despido(...) Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,/ Cobrai-a; e não queiras, pastor divino,/Perder na vossa ovelha a vossa glória. Não havendo perdão, não há, também, Deus. A exaltação religiosa fica evidente quando, em Minas Gerais, encontramos os santos barrocos de Aleijadinho.
Arrependimento, sentimento de culpa, penitência, perdão, comunhão: elementos que passam a fazer parte da consciência do povo em formação.
Século XVIII - Arcadismo: O que temos de mais significativo quanto ao que ora discutimos está na poesia épica. Mais precisamente, em Basílio da Gama: o longo poema Uruguai(1769) toma por mote a guerra dos portugueses contra os índios dos Sete Povos das Missões. Ao lado dos índios, estavam os jesuítas espanhóis, em terras que a Espanha deveria entregar a Portugal em troca da Colônia do Sacramento. Basílio se coloca ao lado de Portugal, rendendo homenagens à empreitada civilizatória do Marquês de Pombal, vendo os jesuítas como vilões, à medida que estimulavam os índios a enfrentar os portugueses, que chegavam para reconquistar o território. O grande herói, nas linhas da perspectiva “nativista” da época, ou seja, de valorização do “homem natural”, é o silvícola. Interesses políticos e religiosos em cena.
Difícil é saber o que seria menos nocivo ao aborígene: o português ou o jesuíta espanhol. O poeta viveu o que era dilema de alguns no “setecentismo” brasileiro: a formação cultural européia diante da rústica realidade nacional. Em termos emprestados de Oswald de Andrade, o poeta enfrentou o dilema de viver entre a “floresta” e a “escola”. Já a lírica árcade nada tem a ver com isso: trabalha com os deuses da Antiguidade, com o paganismo da mitologia grega.
Século XIX, primeira metade - Romantismo: Instaura-se no mundo uma descrença generalizada, o spleen, ou “tédio”, que acomete principalmente os jovens, nascendo das decepções com as promessas da Revolução Francesa . Todos se voltam para o casulo do “eu”, em atitude de introversão. Abandona-se o paganismo da Antigüidade Clássica, retomando-se o Deus medieval.
Como afirma Gonçalves de Magalhães, em Suspiros Poéticos e Saudades (obra que introduz em 1836 o movimento no Brasil): na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus e os prodígios do Cristianismo.
As leis da Igreja, contudo, são condenadas quando se opõem ao individualismo sentimental. É o caso do celibato sacerdotal, “espécie de amputação espiritual”, atacado por Bernardo Guimarães em O seminarista (influenciado por Eurico, o presbítero, do português Alexandre Herculano). Deus já está, queiram ou não, tão presente que Castro Alves chega a cobrar-lhe atitude diante das desumanidades praticadas contra os negros escravizados -Deus, Senhor dos Desgraçados, dizei-me...
Século XIX, segunda metade - Realismo /Naturalismo: Afinado com o “cientificismo” da época, nega o irracionalismo e a subjetividade dos românticos. Deus diminui consideravelmente de tamanho diante das verdades científicas. O português Antero de Quental dá o norte: Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungente quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida.
O ser humano e as necessidades da carne ganham destaque, questionando-se, agora mais objetivamente, o celibato, como em O mulato, de Aluísio Azevedo, e O missionário, de Inglês de Sousa (obras identificadas com O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós). O homem, filho da complexa sociedade industrial, é o grande tema.
Século XIX, final - Simbolismo: Repudia o Realismo e suas manifestações racionais, científicas. Nega a sociedade tecnológica que, como diz o crítico Alfredo Bosi, prometera o paraíso mas não dera senão um purgatório de contrastes e frustrações.
Contra a automatização do indivíduo, faz renascer as tendências metafísicas e espirituais. Como no Romantismo, o que importa é a “realidade subjetiva”. Contudo, não se trata do “eu” sentimentalóide  deste  valoriza-se a profundidade da alma. Como vemos em Cruz e Sousa, não há referências a um Deus específico  de algum credo -busca-se a sublimação espiritual, a diluição da alma nas regiões etéreas, no espaço infinito. Em Cárcere das almas tal desejo se evidencia: Ah! Toda alma num cárcere anda presa,/soluçando nas trevas, entre as grades/ Do calabouço olhando imensidades,/Mares, estrelas, tardes, natureza. Se Deus não aparece textualmente, seus ecos se percebem no teor de espiritualidade da composição.
Século XX -Modernismo: Oswald de Andrade, dentro do seu projeto de “redescobrir o Brasil”, faz menção explícita, no Manifesto Antropófago (1928), à indesejada presença “civilizatória” jesuíta -Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema- e sugere uma mudança de humor nativa com a chegada lusitana -Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade. A crítica bem-humorada à religião, nas linhas do “primitivismo”de 22 (releitura do índio em nossa história), é contestada pelo grupo Festa (1926), que se apoiava no “espiritualismo das forças interiores”. Este defende o canto do corpo e do espírito, do homem e de Deus, em nome do otimismo  e do encanto diante da “graça”da vida -um canto de equilíbrio entre valores materiais e espirituais. O modernismo dos anos 30 (segunda fase), destaca a atmosfera de um espiritualismo católico em Murilo Mendes, Jorge de Lima e Cecília Meireles. A “cosmovisão”do primeiro, por exemplo, aparece em versos como: Eu amo a minha família sobrenatural,/ (...) E todos ajuntando novos membros ao corpo/ De que o Cristo Jesus é a cabeça/ Irradiarão as palavras do Eterno. Jorge extrai da Bíblia imagens e verborragia. É uma religiosidade que briga em nome de Deus por humanidade e justiça: Não dividamos o mundo./ Dividamos Cristo:/ Todos ressuscitarão iguais.Mas, curiosamente, fala também do sincretismo religioso afro (a religiosidade dos negros com as influências locais), destacando o folclore caboclo e negro: Ai Bahia de Todos os Santos,/ até nos pecados das comidas,/ você botou nome santo?
Os santos de todos os terreiros habitam também as páginas do baiano Jorge Amado, internacionalmente famoso pelas exóticas ‘‘especiarias’’ com que tempera seus textos. É criador de tipos humanos que representam a influência do negro na construção da religiosidade terreiro, candomblé, Mãe Menininha do Gantois.
Já Guimarães Rosa, talvez o maior dos romancistas contemporâneos, foi além da exploração de componentes folclóricos: sua religiosidade transcende os credos, de certo modo é ‘‘universal’’. Explorou um ‘‘misticismo’’ ligado à investigação das dúvidas existenciais, os segredos da vida, da morte, do amor.
Nos anos 60/70, sob o impacto do movimento hippie e da contracultura, a religiosidade buscou inspiração no misticismo oriental e outras manifestações não-cristãs. Encontramos desde o ateísmo de um Ulisses Tavares (O diabo, amigo,é que deus não existe), até o taoísmo de Bashô nos haikais de Paulo Leminski.
Hoje, diante de um vazio que chamamos de ‘‘crise das ideologias’’, apela-se para as soluções esotéricas de um Paulo Coelho, para as promessas de sorte portadas por gnomos e duendes, para a proteção dos querubins e arcanjos de uma Mônica Buonfiglio. Sinal dos Tempos.
Boletim Mundo Ano 4 n° 1

As várias faces da religiosidade nacional

Se eu quiser falar com Deus...”
Quem não assistiu, em fins de 1995, à ‘‘guerra santa’’ televisiva entre católicos e evangélicos?
A palavra que empregamos, não à toa, é “assistir”, no sentido de “ver”, “presenciar”. Este verbo transitivo indireto nos remete à idéia de “espetáculo”, sugerindo-nos uma posição passiva de espectador diante dos fatos, do ‘‘show’’.
O que é que católicos e evangélicos têm a ver com show televisivo? Aparentemente,nada. Mas, com as novas tecnologias, a palavra de Deus passa a chegar aos lares por canais diferentes: o Senhor dos evangélicos é captado pela Record do bispo Edir Macedo; o dos católicos tem passaporte pela  Globo de Roberto Marinho.
O ponto alto da ‘‘guerra’’ foi o chute na imagem da Padroeira do Brasil, alimentando papos, rodas e ânimos, do botequim ao Congresso Nacional.
O impacto da agressão à imagem da santa mostra como, por um lado, somos um povo inundado de religiosidade, e, por outro, como é falsa a idéia de que vivemos em uma democracia de credos. Todos os dias somos convidados a falar com Deus, de todas as maneiras possíveis. Optamos pelas formas que mais nos convêm, que mais reforçam a idéia do Deus que achamos ser o mais justo, o “nosso” Deus.
E excluímos o Deus dos outros. Na maior parte do tempo, fazemos isso de maneira inconsciente.
Simplesmente, seguimos a tradição, os hábitos da família, o gosto cultural.
No começo do dia, se o rádio de casa está ligado, é mais ou menos inevitável ouvir a “Ave-Maria”. Chegando ao colégio, se religioso, provavelmente mais uma oração. Se a escola fizer parte da rede pública, eventualmente ministrará aula de Religião, caso sejam aprovados projetos em trâmite no Legislativo. Pode ser que a aula seja de História e comece com trechos da Carta de Pero Vaz Caminha e escritos jesuíticos, para mostrar que a civilização veio em boa hora para os índios pagãos. Na aula de Literatura, você poderá rezar na cartilha de um Jorge de Lima ou Murilo Mendes, lendo poemas em tom de evocação da divindade.
Nos museus de arte, é certo que veja obras sacras. Igualmente inevitável é encontrar a religião no cinema nacional, seja sob a forma “popular” e diluída no cotidiano (Mazzaropi), seja como tema e objeto de reflexão (O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, ou Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha). Também o teatro dialoga com a religião, para criticá-la (Nelson Rodrigues) ou incorporando seus aspectos mais mitológicos e messiânicos (Vereda da Salvação, de Jorge de Andrade). Outras peças são “profanas”, como Mistérios Gozozos, adaptação feita pelo diretor Zé Celso de O Santeiro do Mangue (Oswald de Andrade). Mas a temática religiosa nem sempre é cristã: Madame Blavatsky (Plínio Marcos) explora a Teosofia.
A música popular brasileira é rica em referências religiosas. O sincretismo é traduzido pelo samba e enredos de carnaval; Vinicius de Moraes invoca as entidades africanas (Meu Pai Oxalá); a música-oração aparece em autores como Herivelto Martins (Ave Maria no Morro); Cartola blafesma (Sim); o Deus de Tom Jobim aparece no canto dos pássaros, na beleza das matas; Chico Buarque recorre ao Cálice cristão; Roberto  Carlos entoa Jesus Cristo; Renato Teixeira canta a religião do sertanejo em Romaria, imortalizada por Elis Regina; Luiz Gonzaga apela a Deus contra a seca (Asa Branca); Gilberto Gil indaga sobre a existência de Deus em Procissão.
Após os anos 60, graças à adoção do misticismo oriental operada pela contracultura, a religiosidade passou a incorporar a meditação, o uso de incensos e caminhos ‘‘alternativos’’ na busca da “verdade”. Esse momento é refletido, por exemplo, nas músicas de Gilberto Gil Retiros Espirituais e Se eu quiser falar com Deus, nos livros de Paulo Coelho, nos Florais de Bach, nos anjos de Mônica Buonfiglio.
Os evangélicos televisivos são um fenômeno relativamente recente. Sua mensagem rompe com a tradição, com a inércia cultural, e por isso causa estranheza. Eles surgiram com o desenvolvimento dos meios eletrônicos de comunicação. Assimilaram os componentes da formação religiosa e os traduzem segundo a linguagem mais adequada à mídia. Nas páginas seguintes, vamos investigar um pouco mais, através da Literatura, os ingredientes formadores da religiosidade brasileira e verificar como a mídia os instrumentaliza em seu próprio beneficio.
Boletim Mundo Ano  4 n° 1