segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CHECHÊNIA, ALIÁS, EURÁSIA

Guerra é a ponta do iceberg da disputa de interesses entre Moscou e Washington pelo controle das riquezas da região.
Washington acusa Moscou de adotar uma política ‘‘imperialista’’ contra a Chechênia. William Safire, um dos principais porta-vozes dessa linha de acusação, diz que a guerra traduziu ‘‘a velha vontade imperialista russa de dominar as fontes e as linhas de abastecimento de petróleo e gás iranianos e da bacia do mar Cáspio, e, com isso, garantir uma influência forte sobre a vida econômica de seus adversários.”
Isso é incontestável. Só que Safire não contou toda a história.
Os cinco países da bacia do Cáspio - Azerbaijão, Cazaquistão, Irã, Rússia e Turcomenistão - possuem reservas estimadas em 200 bilhões de barris de petróleo e um volume comparável de gás. Apenas Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão contêm mais petróleo e gás do que o Golfo. As cinco maiores empresas petrolíferas americanas (Chevron, Conoco, Texaco, Mobil Oil e Unocal) concluíram ou estão concluindo acordos com esses países (exceto o Irã) para explorar suas reservas.
Não por acaso, em 1992, o senador americano Robert Dole declarou que as “preocupações” dos Estados Unidos quanto às reservas de petróleo e gás mundial haviam se ampliado da região do Golfo “rumo ao norte, incluindo o Cáucaso, o Cazaquistão e a Sibéria”. E cinco anos depois, o senador Sam Brownback fez aprovar uma nova resolução, conhecida como “Estratégia da Rota da Seda”, segundo a qual os Estados Unidos deveriam “ampliar a sua presença” na bacia do Cáspio.
Mas mesmo isso ainda é só parte da história. Em 1992, o Pentágono adotou uma resolução, o Defense Planning Guidance (Guia de Planejamento de Defesa), que estabelece, como um de seus objetivos centrais, “neutralizar” e “impedir o renascimento” da rival Rússia. Isso tinha, como conseqüência, “ampliar a presença” americana na ex-URSS, nos Bálcãs e no antigo Leste europeu.
É a perspectiva defendida por Zbigniew Brzezinski, ex-chefe do Conselho de Segurança dos Estados Unidos.
Brzezinski explicita três razões para “neutralizar” a Rússia: é o país que liga a Europa à Ásia, é dona de vastos recursos naturais e, sendo instável do ponto de vista político, pode permitir que novos movimentos comunistas ou nacionalistas tomem o poder, assim como provar-se incapaz de conter a “expansão islâmica”.
A “conquista da Eurásia” é a pedra angular de sua estratégia. “Cerca de 75% da população mundial vive na Eurásia, que possui a maior parte dos recursos naturais do planeta... Ali estão 60% do PIB do planeta e cerca de 75% das reservas conhecidas de energia... Depois dos EUA, as outras seis maiores economias e os seis maiores investidores em armas estão localizados na Eurásia. Todos os poderes nucleares, exceto um, estão ali localizados." (ZB, "The Grand Chessboard: American Primacy and its Geostrategic Imperativs", NY, Basic Books, 1997).Esses são os interesses do "imperialismo russo", mas também a causa da intervenção não menos "imperialista" dos Estados Unidos nos Bálcãs (em particular, durante a Guerra de Kosovo) através da Otan. Se a Chechênia está causando tal comoção, é apenas por estar situada sobre um dos principais oleodutos que ligam a Rússia ao mar Negro, passando pelo Bósforo, na Turquia, e chegando ao mar Mediterrâneo.
Boletim Mundo Ano 8 n° 1

DOLARIZAÇÃO PROJETOU SOMBRA DO “CHAVISMO” NO EQUADOR

Newton Carlos
De início pareceu uma revolução: na linha de frente estavam a Confederação das Nacionalidades Indígenas (Conaie) e militares sublevados. À diferença de “insurreições” indígenas passadas, que lutavam por direitos de cidadania e reafirmação do direito à terra, o levante de janeiro colocou em questão o próprio regime político.
Criou um “governo de salvação nacional”, que não viveu sequer dois dias, mas com forte incidência emocional e, talvez,  importantes repercussões futuras na atormentada vida do Equador.
Os indígenas, 40% dos 13 milhões de habitantes, em geral vivendo abaixo da linha da miséria, experimentaram o “sabor agridoce da utopia”, escreveu um historiador equatoriano. Sua confederação surgiu em 1986, com a ambição, praticamente realizada, de representar todas as comunidades. Age como partido político, com seus próprios candidatos, e elabora projetos do interesse das comunidades. Em 1989, por exemplo, conseguiu-se o aval do governo para um projeto de ensino bilíngüe (espanhol e algum dialeto) nas escolas. Ultimamente, concentra-se na busca de alternativas ao neoliberalismo.
Os indígenas colocaram a ‘‘questão democrática ’’ no Equador
Com este último, foram cinco os “levantamentos” indígenas, conduzidos sem a participação direta dos partidos políticos. Ferdinando Villavicencio, um dos líderes da rede de organizações “Seguro camponês”, que apoiou o “levantamento”, diz que “pela primeira vez foi colocada no Equador a questão de uma nova democracia”. O aditivo de peso foi a incorporação de coronéis do exército, que se juntaram aos indígenas como porta-vozes de uma “nova moralidade”, projetando a sombra do “chavismo” no Equador.
O que é o “chavismo”? Segundo uma definição, o movimento liderado pelo coronel Hugo Chávez, eleito presidente da Venezuela em oposição aos partidos tradicionais e seu sistema de poder, seria um produto “de ímpeto populista contrário à globalização, aos ajustes negociados com o FMI, à corrupção e ao neoliberalismo”.
A sombra do “chavismo”, projetada da Venezuela para o Equador, apressou a intervenção dos Estados Unidos.
A falsa adesão da cúpula militar, que se mostrou facilmente administrável pelos americanos, afastou os coronéis e minou a rebelião. Sintomaticamente, o Congresso equatoriano, desalojado de seu prédio em Quito sob ocupação pelos indígenas, acabou se reunindo em Guayaquil, no prédio do Banco Central. Ali, diante da impossibilidade de volta do desmoralizado presidente Jamil Mahuad, formalizou, em 22 de janeiro, a posse do vice-presidente Gustavo Noboa, sob a proteção do estado-maior das Forças Armadas. Uma das primeiras promessas do novo governo foi a de manter o projeto de dolarização da economia do país. O FMI teria se oferecido para fornecer os dólares necessários à “irrigação” do projeto.
O naturalista alemão Humboldt chamou o Equador, no século passado, de “mendigo sentado em sacos de ouro”. Em 1967, jorrou petróleo no lago Agrio, perto da fronteira com a Colômbia. O país “bananeiro” conseguiu, em 1972, entrar para o clube privilegiado da OPEP e suas arcas se encheram de reservas em dólares. Onde foi parar todo esse dinheiro, se o país está hoje literalmente quebrado?
Do fundo de uma prisão, no entanto, Jaime Salazar, ex-deputado acusado de subversão, denunciou que “grande parte das divisas está sendo consumida com o pagamento de mercadorias contrabandeadas”.
‘‘Direita’’ e ‘‘esquerda’’ criam contas secretas, participam do contrabando e frustram as expectativas
Não só isso. Engordaram ainda mais as contas secretas em paraísos bancários. A Hebbo Vistazo, de Quito, lembra que nos últimos 20 anos o Equador teve oito presidentes, de “todas as tendências”. Não existiu uma única cor do universo político “que não houvesse passado pelo palácio” e isso inclui as esquerdas. Quais os resultados?
Nada mais do que frustrações, em meio a duas coisas mais do que familiares: populismo e corrupção”, disse a revista.
Nos últimos cinco anos, um vice-presidente, Alberto Dhaik, fugiu do país depois de acusado de apropriação indébita de dinheiro público, razões similares levaram o presidente Abdalá Bucaram a refugiar-se no Panamá e seu sucessor, Fabián Alarcón, foi preso e solto sob fiança. Mahuad aparentemente não freqüentou esse submundo do poder, mas não escapou dos efeitos da transformação do Equador em “zona de desastre”.
Alguém disse que “a elite equatoriana provocou mais danos ao país do que a soma das catástrofes naturais”.
Os equatorianos vivem sob ameaças fumegantes de vulcões ativos e na expectativa do próximo terremoto. O vulcão Guaga Pichincha, por exemplo, cobre Quito com nuvens de cinzas. Entre fevereiro e março do ano passado, o Estado equatoriano assumiu dívidas de cinco bancos quebrados. Diante da ameaça de colapso do Banco do Progresso, um dos maiores grupos financeiros privados, o governo congelou por um ano as contas bancárias dos clientes.
Em meio a reduções salariais, aumentos de tarifas, “flexibilização” das leis trabalhistas, e desemprego acima dos 17% oficiais, a aversão a Mahuad subiu para os andares de cima. Diante da desvalorização de 197% do sucre, a moeda nacional, a dolarização começou a ser discutida.
Ela estabilizaria o modelo receitado pelo FMI, cujo objetivo maior é garantir os pagamentos das dívidas externas.
Existe a convicção de que essa “saída” será aconselhada a todos os países nos quais o “modelo” esteja em perigo, como é o caso da Argentina.
Boletim Mundo Ano 8 n° 1

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

GRANDEZA, DECADÊNCIA E COLAPSO DA VENEZUELA PETROLEIRA

Newton Carlos
A velha Venezuela, uma democracia elitista e corrupta assentada nas rendas petrolíferas e no paternalismo estatal, não existe mais. Ainda não existe, contudo, uma nova Venezuela. O país vizinho, que compartilha extensa fronteira com uma Colômbia em convulsão, atravessa experiência singular. A eleição que conduziu Hugo Chavez à presidência e, logo depois, a vitória esmagadora dos partidários de Chavez nas eleições para a Assembléia Nacional Constituinte assinalam o ocaso das velhas instituições de Estado. Segundo o presidente, começou uma “revolução pacífica”. Aqui, a história do colapso do Estado venezuelano.
Venezuela, ou “pequena Veneza”, foi o nome dado à região do lago Maracaibo pelos primeiros exploradores europeus. Seria um dos tesouros do universo, com montanhas de ouro e prata. Mas, passada essa primeira fantasia mineral, começou a exploração agrária e o resultado seria uma catástrofe demográfica entre índios dizimados pelo trabalho brutal e as doenças levadas pelos colonizadores.
Numa segunda fase, sobretudo na parte caribenha, prevaleceu a mão-de-obra de negros escravos, submetidos ao poder de brancos fechados em círculos oligárquicos.
Em 1805 o “ayuntamiento” da cidade de Caracas aceitou criar uma escola, com a condição de que o professorado fosse todo branco “puro”. De 1810 a 1830, a Venezuela forneceu a maioria dos homens que combateram com Bolívar na Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.
Perdeu um quarto de sua população e só em 1850 voltou a ter população igual à de 1810. Depois das guerras, sucederam-se os caudilhos. O mais notório deles, José Vicente Gomez, o “tirano dos Andes”, governou de 1908 a 1935. Em seu tempo surgiu a Venezuela do petróleo, em associação com capitais britânicos, holandeses e americanos. Cheio de dólares, Gomez martirizou o país até morrer na cama.
Na primeira fase colonial, a riqueza foi a cana-de-açúcar.
O petróleo apareceu na pauta de exportações em 1917, mas café e cacau continuaram na cabeça. Em 1922 os jornais venezuelanos anunciaram “verdadeira explosão de petróleo no campo de La Rosa”. Era o primeiro de muitos. A mudança foi tal que a Venezuela viria a importar quase todos os alimentos que consome. Com as riquezas do petróleo, e também de muito ferro, uma febre imigratória ajudou a impulsionar o processo de miscigenação.
Depois de sufocar a Venezuela agrária, o petróleo financiou esperanças e perversidades na política.
Um partido dito moderno e de centro-esquerda, filiado à Internacional Socialista, a Ação Democrática (AD), entrou em cena na presidência de Medina Angarita, eleito em 1941 e derrubado em 1945, na onda antinazifascista.
O criador da AD, Rômulo Bétancurt, assumiu como presidente provisório e porta-voz de vagas idéias anti-oligárquicas. Levou o país a eleições livres em 1947, vencidas pelo novelista Rômulo Gallegos. Caracas tornou-se, por pouco tempo, a capital cultural da América Latina.
Gallegos ficou  10 meses em palácio. Oficiais corruptos, latifundiários obstinados e grandes negociantes colocaram em seu lugar uma junta militar. O petróleo pagou as contas.
Em 1953, um Congresso constituinte nomeou presidente o general Perez Jimenez. A Venezuela tornou-se peça do anticomunismo da Guerra Fria, e Jimenez, um ditador corrupto. O “jimenezismo” foi um tempo de suntuosas obras viárias. Veio à tona, saído do clericalismo, o Comitê de Organização Política e Eleitoral Independente (Copei), partido democrata-cristão. Jimenez foi derrubado em 1958 por um confuso conglomerado, que abrangia AD, Copei, sindicatos e militares. Elegeu-se Bétancurt e, desde então, AD e Copei se alternaram no poder, na mais duradoura “continuidade democrática” do continente, até que apareceu Hugo Chavez.
DESIGUALDADE E CORRUPÇÃO IMPLODIRAM INSTITUIÇÕES POLÍTICAS
O que foi a “continuidade democrática” da Venezuela, ao longo da qual o contingente de pobres ultrapassou a metade dos 23 milhões de habitantes do país? O grande paradoxo venezuelano é o abismo entre a opulência do Estado, saqueado por uns poucos, e a miséria da maioria. Caracas é caso único: a massa de miseráveis amontoados em favelas ao seu redor é maior do que a população da cidade e a violência urbana é a maior do mundo.
Entre 1976 e 1995, as exportações de petróleo renderam ao Estado US$ 270 bilhões. Mesmo assim, pouco se fez em matéria de infra-estrutura e se alargaram as escandalosas desigualdades sociais. Cerca de 70% dos venezuelanos sobrevive abaixo da linha de pobreza.
O desemprego atinge 21% da população ativa. A economia informal é o refúgio de 48%. Dois milhões de crianças estão na miséria, 200 mil não tem outro recurso senão a mendicância.
A Venezuela chegou ao topo de sua riqueza em 1976, com o choque dos preços do petróleo. O presidente na época, Carlos Andrés Perez, da AD, nacionalizou a indústria petrolífera e criou a “Petróleos de Venezuela”, que se tornou, com mais de três milhões de barris diários, a segunda maior produtora mundial.
Pouco foi investido em industrialização. O Estado preferiu assegurar a passividade do cidadão por meio de uma economia assistencial. Enquanto isso, os governos, da AD ou do Copei, se serviam da imensa riqueza petrolífera para corromper, por meio de subsídios, isenções fiscais e privilégios.
Somas gigantescas foram dilapidadas na megalomania dos grandes projetos. Ao mesmo tempo, era contraída enorme dívida externa, equivalente a 60% do PIB.
Apesar das nacionalizações, o Estado continua controlando o ferro, alumínio, eletricidade, petróleo e numerosas atividades industriais e agrícolas. A economia é uma das mais estatizadas do mundo. Com todo esse dinheiro, os três poderes do Estado se enfurnaram na corrupção, enquanto o peso da dívida impunha a adoção de políticas de “ajuste”do FMI. Foram essas políticas que detonaram o “Caracazo”, a explosão popular em Caracas, reprimida de modo sangrento, depois da posse, em 1988, de mais um governo de Carlos Andrés Perez, destituído em 1993 e condenado por corrupção.
Perez se elegera presidente pela primeira vez em 1972, em plena euforia do petróleo. Dezesseis anos depois, no seu segundo governo, o barril de miséria começava a transbordar. Com o monopólio da dobradinha ADCopei em crise, ganhou a presidência em 1993 o “independente” Rafael Caldera, um dos fundadores do Copei, com o qual rompera. Os dois grandes partidos, há muito, tinham deixado de lado as diferenças ideológicas.
Estabeleceu-se entre eles um sistema de colaboração recíproca.
Perder eleições não significava perder privilégios.
Caldera representou uma primeira ruptura, com o ingresso no governo de um partido de esquerda, o Movimento ao Socialismo (MAS), e uma tentativa fracassada de distanciar-se do FMI. Na condição de ministro da Fazenda, um ex-guerrilheiro, Teodoro Petkoff, administrou o “ajuste” econômico negociado em 1996.
Num gesto considerado ousado, o presidente octogenário anistiou o ex-coronel Hugo Chávez, que em 1992 tentara um golpe à frente de 11 batalhões e apoio de estudantes de esquerda da Universidade de Valência. O Movimento Bolivariano de Chavez criticava a corrupção, denunciava as desigualdades sociais e se insurgia contra a “ditadura dos mercados financeiros”.
Da cadeia, onde o coronel permaneceu por dois anos, à presidência e à avalanche de votos para uma Constituinte com a tarefa de “refundar a república”, foi mera questão de tempo. “A velha política e os velhos partidos estão mortos, só falta sepultá-los”, garante Chavez.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

Diário de Viagem- EU VI QUANDO O MURO CAIU...”

José Arbex Jr.,
9 de novembro de 1989, 18h45, Sala de Imprensa do Departamento de Relações Exteriores da Alemanha Oriental. Gunter Schabowski, chefe do Comitê Municipal do Partido Comunista de Berlim Oriental declara encerrada uma entrevista coletiva a cerca de 300 correspondentes estrangeiros. Um dos jornalistas ainda encontra brecha para fazer uma última pergunta: “O governo pretende tomar alguma atitude em relação aos milhares de berlinenses que querem passar para o lado ocidental?” Em tom casual, como quem faz uma declaração totalmente corriqueira, Schabowski responde: “Como? Vocês não sabiam?
Está aberta a passagem para todos os que queiram se dirigir a Berlim Ocidental.” A tradução disso era: caiu o Muro de Berlim!
A primeira reação é de perplexidade, seguida de uma enxurrada de perguntas nervosas e incrédulas. Em seguida, todos os correspondentes se retiram da sala, nervosos, comunicam a grande notícia aos seus jornais, emissoras de TV e rádio, e se dirigem rapidamente ao “Checkpoint Charlie”, o mais famoso posto fronteiriço do muro (o nome Charlie corresponde à letra C no jargão de pilotos e rádio amadores americanos). O inacreditável acontece diante dos olhos de todos. É tudo verdade. A passagem está livre, apesar de ainda haver fiscalização de fronteira. O Muro de Berlim acaba de ruir.
Ainda incrédula, a multidão enfrenta o frio noturno e se dirige ao Muro de Berlim
A notícia espalha-se por Berlim Oriental com espantosa rapidez. Em poucos minutos, as vias públicas que conduzem ao muro ficam abarrotadas por pequenos e poluidores automóveis Trabants (“trabi”, na gíria local) ou por pessoas a pé. Paira, ainda, um estranho silêncio na noite fria (pouco acima de zero grau): todos temem que de um momento para o outro a situação volte à sua normalidade repressora. Um resto de incredulidade impede, ainda, que a euforia simplesmente aconteça. Uma velhinha desce de seu apartamento de chinelo, usando só um sobretudo de lã sobre a camisola, apesar do frio. Teme perder a chance de pisar no “outro lado”.
Berlim, nos dois lados, não dormirá esta noite. Uma Berlim contempla a outra, e o reconhecimento da alteridade, numa  operação mágica de oposição de planos, destaca aquilo que há de idêntico nas duas. A festa na rua recupera, momentaneamente, o clima frenético da antiga capital da Alemanha. Começa a ser superada a ruptura geopolítica da cidade. Durante horas a fio, milhares e milhares de alemães-orientais passam para o outro lado, onde cada um recebe do governo a quantia de 100 marcos  (equivalentes a US$ 55) como símbolo de boas-vindas. Essa quantia, cedida mediante a apresentação de passaporte alemão-oriental, era tradicionalmente garantida a todos os alemães-orientais que conseguissem ultrapassar o antes quase intransponível muro.
O carnaval começa na Kurfurstendamm (avenida principal de Berlim Ocidental, mais conhecida como Ku’damm), feito de fogos de artifício, de beijos e abraços de casais e famílias que se reencontram após anos de separação, ou de pura euforia coletiva. Não há como ficar indiferente.
Carnaval sim, mas carnaval germânico, bem entendido. Basta dizer que ninguém, nem os mais bêbados, ultrapassa a faixa reservada aos ônibus, até que seja dada permissão para isso. Há uma incrível ordem no meio da euforia.
O ‘‘carnaval’’ na Ku’damm intensifica a estranheza, a sensação onírica de que algo extraordinário estava acontecendo naquela noite
Isso só faz aumentar a estranheza, a sensação onírica de que algo extraordinário acontece diante de nossos olhos.
Os postos fronteiriços colocados ao longo do muro logo se tornam insuficientes para dar vazão ao fluxo de pessoas.
Em comum acordo, as prefeituras das duas  Berlim começam a abrir passagens. O processo escapa ao controle das autoridades, e o muro começa a ser furiosamente destruído. No início, há até incidentes com a polícia alemã- oriental. Mas nada pode conter a mistura de fúria e euforia da multidão.
O cenário parece extraído de algum livro maluco de ficção. Jovens armados de pás e picaretas arremetem,  furiosos, contra o muro de cimento, estimulados por gritos de milhares de pessoas. Toda vez que uma laje cai, o fato é celebrado como num ritual bárbaro de luta e conquista.
É o poder do herói sobre a presa. Só que, desta vez, o monstro não está dentro do labirinto - como o Minotauro de Creta -, mas é o próprio labirinto. Os jovens sentem-se investidos da aura coletiva de Teseus contemporâneos.
Impessoais e implacáveis, as escavadeiras enviadas pelo governo alemão-ocidental para abrir oito novas passagens são também saudadas como instrumentos de redenção.
São adoradas em sua missão heróica. As lajes que caem do lado oriental estão todas pichadas, cada centímetro quadrado. Milhões de turistas ao longo dos anos deixam ali a impressão de suas memórias, os “baby I Love you”’, os “I was here” e também as palavras de ordem contra o muro e o regime.
Em algum momento, uma laje com a caricatura  do odiado ex-dirigente Erich Honecker cae sob o impacto de uma picareta. Os aplausos são tremendos, como se se tratasse de uma espécie de vudu político, com a propriedade de destruir, ou, talvez, de causar dor ao próprio Honecker. Ao destruir o Muro de Berlim - metáfora da dilaceração da alma de uma nação - os jovens buscam reconstruir sua própria integridade psicológica. Nesse contexto, mesmo os fatos mais prosaicos, os diálogos e gestos mais rotineiros parecem emanar de um sonho. As horas passam muito rapidamente, e ainda muito devagar.
A precipitação de fatos históricos causa confusão na percepção normal da passagem do tempo. Éramos partícipes de um filme que narra, em algumas horas, ou minutos ou segundos a epopéia de uma nação, do planeta no século XX. Em síntese, o tempo vivido adquire uma dimensão mitológica.
Presenciei tudo isso, como correspondente do jornal “Folha de S. Paulo” – o próprio relato que acabo de expor foi extraído de várias reportagens e crônicas por mim enviadas ao jornal, do local em que tudo acontecia. Lembro-me perfeitamente bem de que, à época, eu tinha plena consciência de que estava vivendo eventos de dimensões singulares, de importância crucial para os rumos de toda a humanidade. Como todos  as outras pessoas que receberam em cheio o impacto daqueles dias alucinantes, fiquei embriagado sem ter bebido uma única gota de álcool.
Era simplesmente inacreditável, tudo aquilo, e no entanto a coisa toda acontecia.
Tornava-se impossível separar a percepção dos eventos de ordem pessoal, estritamente vinculados à esfera subjetiva, do  grande significado histórico (isto é, público) que aqueles acontecimentos tinham para todos. Ou, para utilizar uma expressão de Eric Hobsbawn (A Era dos Extremos), acontecia ali um cruzamento entre o evento público e a pequena história individual:
“(...) Os acontecimentos públicos são parte da textura de nossas vidas. Eles não são apenas marcos em nossas vidas privadas, mas aquilo que formou nossas vidas, tanto privadas como públicas. Para este autor, o dia 30 de janeiro de 1933 não é simplesmente a data, à parte isso arbitrária, em que Hitler se tornou chanceler da Alemanha, mas também uma tarde de inverno em Berlim, quando um jovem de quinze anos e sua irmã mais nova voltavam para casa, em Halensee, de suas escolas vizinhas em Wilmersdorf, e em algum ponto do trajeto viram a manchete. Ainda posso vê-la, como num sonho.”
Como num sonho, eu vi e ainda posso ver quando o Muro caiu. Mas aquela não foi nem a primeira e nem seria a última vez que algo assim acontecia em minha vida.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

A EUROPA EM DOIS TEMPOS

Durante quase 45 anos, entre o final da Segunda Guerra Mundial (1939-45) e a queda do Muro de Berlim, em 1989, as fronteiras políticas européias pareceram imutáveis, entalhadas no aço dos atlas da Guerra Fria. Nessas décadas, o continente europeu, bipartido estratégica, militar e ideologicamente em blocos antagônicos, foi o principal cenário do confronto global entre os Estados Unidos e a União Soviética.
A arquitetura geopolítica da Europa da Guerra Fria originou-se nas conferências de Yalta e Potsdam, em 1945. Na primeira, realizada pouco antes da rendição da Alemanha nazista, redefiniram-se as fronteiras da União Soviética, que reincorporou os territórios perdidos na Primeira Guerra Mundial. Lá, também, esboçou-se o que viria a ser, em poucos anos, o bloco soviético na Europa Oriental, legitimando-se o poder dos partidos comunistas nos países que haviam sido libertados do jugo alemão pela ofensiva do Exército Vermelho.
A Conferência de Potsdam, realizada pouco depois do término das hostilidades no teatro de guerra europeu, definiu o futuro da Alemanha derrotada. Lá, organizaram-se as zonas de ocupação no território alemão e os setores de ocupação em Berlim.
Desse modo, surgia o alicerce para a divisão da Alemanha em dois Estados, concretizada em 1949, e assentava-se, simbolicamente, o primeiro tijolo do Muro de Berlim, edificado em 1961.
Esses eventos históricos acabaram por produzir uma fronteira geopolítica na Europa, separando os Estados alinhados com Washington dos que passaram a gravitar em torno de Moscou. Nos lados opostos da Cortina de Ferro, estabeleceram-se a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 1949, e o Pacto de Varsóvia, em 1955. Nasciam, ao mesmo tempo, a Europa Ocidental e a Europa Oriental .
A Cortina de Ferro dissolveu-se entre com a queda do Muro de Berlim. A onda de choque gerada reverberou sobre as fronteiras políticas, redesenhando parte significativa do mapa da Europa. Em 1990, a reunificação alemã desmantelou o eixo central da divisão geopolítica do continente e produziu um novo território para o Estado unificado por Bismarck.
Em dezembro de 1991, a implosão da União Soviética gerou 15 repúblicas formalmente soberanas, das quais 12 pertencem à Comunidade de Estados Independentes (CEI). No mesmo ano, iniciou-se a decomposição da Iugoslávia. A tragédia balcânica, que ainda não terminou, foi a fonte de cinco novos Estados. Em 1992, o chamado “divórcio de veludo” vitimou mais uma das entidades surgidas da desagregação do império Áustro-Húngaro, partindo a Tchecoslováquia em duas entidades políticas.
Dez anos depois da queda do Muro de Berlim, uma Otan ampliada representa, no mapa estratégico europeu, a principal herança da Guerra Fria. As fronteiras dessa organização política e militar, os limites da União Européia e os da CEI formam as cicatrizes estratégicas mais profundas na face do continente. A mobilidade dessas linhas, cuja dinâmica contrasta com a estabilidade da antiga Cortina de Ferro, reflete a complexidade de uma Europa que não é mais a de Yalta e Potsdam.
Breve glossário econômico do fim do século
As palavras mudam mais que o mundo e algumas palavras mudam o próprio mundo.
Conheça o significado de quatro das palavras mais usadas no debate econômico da última década:
Globalização: de longe, a palavra mais usada para fazer referência ao conjunto de transformações que, nos últimos dez anos, criaram a sensação generalizada de maior importância do comércio internacional, avanço tecnológico, influência de empresas multinacionais, redefinição dos mercados de trabalho, explosão das tecnologias de informação e desprestígio do nacionalismo. Alguns preferem a palavra “mundialização”, outros ficam com a antiga “internacionalização” e os mais críticos acreditam que tudo não passa de uma fantasia para esconder o velho “imperialismo”. Atrás de cada uma dessas variantes esgueiram-se ideologias políticas em conflito.
Financeirização: alguns economistas usam esse termo para indicar o fenômeno de subordinação da vida econômica ao império das instituições financeiras que, atuando num mercado globalizado e instantâneo, valorizam e desvalorizam moedas, produtos, tecnologias e países. Em geral, quanto mais se usa a palavra, menos se gosta do fenômeno.
Competitividade: é a capacidade de uma empresa competir com outras empresas, num país ou em escala internacional, medida não apenas em termos de produtividade (ou seja, redução do custo de produção e portanto possibilidade de produzir mais com menos recursos, aumentando o potencial de lucros), mas também em termos de qualidade, marca, domínio de mercados, poder financeiro e velocidade de inovação. Trata-se de palavra cultuada como um deus pagão por empresas e governos.
Neoliberalismo: virou uma espécie de expressão pejorativa para designar a defesa intransigente e extremada do liberalismo, ou seja, da supremacia dos interesses individuais sobre as necessidades coletivas, do mercado sobre o Estado, da liberdade empresarial sobre o controle social das atividades econômicas. Palavra usada por nacionalistas e esquerdistas, nunca por liberais.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

PRIMEIRA DÉCADA PÓS-MURO CORROEU AS ESPERANÇAS DE 1989

O historiador Eric Hobsbawm não deixou por menos: o seu Era dos Extremos, publicado em 1994, trazia como subtítulo “o breve século XX (1914-1991)”. Desse modo, ao conhecido consenso historiográfico segundo o qual nosso século começou atrasado, no ano em que eclodia a Primeira Guerra Mundial, adicionava-se a conclusão de que ele terminou adiantado, no ano em que desaparecia a União Soviética.
A torrente de transformações dos “três anos mágicos” a queda do Muro de Berlim, em 1989, a reunificação alemã, em 1990, e a implosão do império vermelho, em 1991  era interpretada como a inauguração de uma nova era.
Aqueles anos foram um tempo de grandiosas esperanças. A supressão da Cortina de Ferro pareceu abrir caminho para a edificação de uma Europa livre de blocos estratégicos e militares. As visões do francês De Gaulle  a Europa unida “do Atlântico aos Urais”  e do russo Gorbachov – a “Casa Comum Européia” – estariam a um passo de transitar da esfera dos sonhos para a da geopolítica. A Rússia poderia, finalmente, integrar-se à “grande família do Ocidente”, retomando uma velha tradição celebrada nos salões da corte, em 1051, através do matrimônio de Ana de Kiev com Henrique da França e no campo de batalha, em 1814, através do cerco de Paris pela Santa Aliança anti-napoleônica.
FMI e nacionalismo na Rússia
O cenário europeu mudou radicalmente desde a queda do Muro de Berlim . Mas as esperanças dos “três anos mágicos” diluíram-se nas cruas realidades da política de poder.
O Ocidente perdeu a Rússia, nos sentidos econômico  e estratégico. No início de 1992, quando a administração reformista e liberal de Yegor Gaidar contava com vasta simpatia popular, o FMI adiou a concessão de créditos novos, concentrando-se apenas em garantir a rolagem da dívida externa russa. Nos anos seguintes, os reformistas foram sendo marginalizados, enquanto as máfias consolidavam seu controle sobre uma economia em ruínas.
Quando o FMI forneceu, enfim, um pacote de empréstimos de 10 bilhões de dólares, na primavera de 1996, seu único propósito consistia em garantir a reeleição de Boris Yeltsin.
Do ponto de vista estratégico, a decisão de expandir a Otan para a Europa centro-oriental  definida em meados da década e concretizada em 1998, com a admissão da Polônia, República Tcheca e Hungria  enterrou de uma vez as elites políticas pró-ocidentais na Rússia. O bombardeio da Iugoslávia, na primavera de 1999, provavelmente entrará para a história como marco de encerramento de um ciclo, no qual inflaram-se  e destruíram-se as esperanças de uma integração russa ao concerto do Ocidente.
Atualmente, sobre o pano de fundo do colapso econômico e de uma crise social tão profunda quanto a que desatou a Revolução de 1917, os nacionalistas, na direita e na esquerda do espectro político, reorganizam em bases imperiais as relações entre a Rússia e a CEI .
 Uma nova cicatriz geopolítica começa a aparecer na Europa, separando a esfera de influência de Moscou da maior parte do continente.
Euforia e pânico
A Guerra Fria não foi apenas o tempo do conflito Leste-Oeste, mas também o da cisão Norte-Sul. A descolonização afro-asiática, derivada em grande medida da corrosão do poder das velhas potências européias, evidenciou os fenômenos da pobreza e do subdesenvolvimento. Uma coalizão heterogênea de líderes nacionalistas  o comunista iugoslavo Tito, o pan-arabista egípcio Nasser, o neutralista indiano Nehru e o populista indonésio Sukarno  edificou o  movimento dos Países Não-Alinhados, cuja identidade cristalizava-se na oposição à dupla polaridade das superpotências.
Os geógrafos, sempre propensos a criar rótulos abrangentes, sintetizaram essas linhas de ruptura através das  expressões Primeiro Mundo, Segundo Mundo e Terceiro Mundo. O encerramento da Guerra Fria vitimou essas representações
geopolíticas e as ideologias que elas sustentavam.
Na última década, o socialismo e o nacionalismo econômico cederam lugar às estratégias de abertura dos mercados e atração de investimentos internacionais.
O vocabulário da globalização universalizou-se, expressando a hegemonia política das idéias econômicas liberais .
Os fluxos de investimentos externos percorreram um ciclo de euforia e colapso, entre 1991 e 1998. Na primeira fase desse ciclo, os investimentos externos financiaram o crescimento das economias do leste e sudeste da Ásia, América Latina e Europa centro-oriental. A China tornou-se o segundo maior receptor de investimentos internacionais, atrás apenas dos Estados Unidos. Poucos resistiram à tentação de profetizar a ascensão do “leão chinês” ao posto de Grande Timoneiro do Oriente . Em Kuala Lumpur, a capital da Malásia, o início da construção da Petronas Tower, projetada como o mais alto arranha-céu do mundo, simbolizou os sonhos efêmeros de grandeza daqueles anos.
Na segunda, a reversão dos fluxos golpeou devastadoramente os mercados financeiros e as moedas das chamadas “economias  emergentes”. O primeiro sinal de perigo soou no México, em 1994. Em 1997, os “Tigres asiáticos” sucumbiram na tormenta. Depois, a Rússia e o Brasil. Hoje, a “exuberância irracional” da Bolsa de Nova Iorque, na expressão de Alan Greenspan, o poderoso presidente do Fed, o Banco Central americano, faz com que alguns recordem os anos que precederam o crash de 1929.
A‘‘paz’’ de Bretton Woods
No pós-guerra, a economia capitalista internacional estruturou-se em torno do Sistema de Bretton Woods, que estabeleceu paridades fixas entre o dólar e o ouro.
Esse mecanismo garantiu um ambiente de estabilidade cambial, ao longo de quase três décadas. No início dos anos 70, as paridades fixas foram abandonadas, pois as reservas de ouro dos Estados Unidos não eram mais capazes de fornecer lastro para a imensa quantidade de dólares em circulação na economia mundial. O dólar, e todas as demais moedas, passaram a flutuar livremente.
A explosão dos fluxos de capitais, na década de 90, revelou a instabilidade extrema do sistema de livre flutuação cambial.
As crises no México, na Ásia, na Rússia e no Brasil foram precipitadas e agravadas por terríveis colapsos cambiais, que refletiram a contradição entre a globalização financeira e as moedas nacionais.
Na União Européia, a unificação monetária serviu como pára-raios contra a tempestade dos fluxos financeiros. No resto do mundo, em particular nos países subdesenvolvidos, não existem pára-raios. A tempestade continua e ameaça provocar o naufrágio do Mercosul.
“Nova ordem mundial” – essa expressão foi cunhada por George Bush, o presidente americano durante a queda do Muro de Berlim e a implosão do império vermelho. É uma profecia assentada sobre as percepções paralelas de um mundo ordenado e liderado pelos Estados Unidos.
Dez anos depois, sobram razões para dúvidas.
No portal do novo século, talvez seja melhor inscrever aquilo que disse um dia Sam Goldwyn, o antigo magnata do cinema: “Nunca profetize, especialmente sobre o futuro”.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6

CHINA 2020, EPICENTRO DA ÁSIA ORIENTAL

João Batista Natali
Cenário hipotético projeta, no horizonte de duas décadas, a emergência de uma superpotência capaz de reduzir até o Japão à condição de satélite geopolítico
Há pouco menos de 15 anos, economistas e militares americanos e asiáticos reuniram-se na Coréia do Sul para esboçar um diagnóstico sobre o perfil que a Ásia apresentaria por volta de 2020. Desse exercício de futurologia saiu uma hipótese já naquele momento bastante ousada: o Japão, ainda hoje incontestável epicentro regional, se tornaria o mais domesticado de um conjunto de “tigres” que gravitariam em torno da China. A China, por sua vez, desfrutaria da condição de única e verdadeira potência econômica e militar do Pacífico oriental.
Há muitas condicionantes para que essa previsão se concretize. Mas é certamente por conta da existência dessa hipótese nos cálculos estratégicos dos Estados Unidos que as administrações Reagan, Bush e Clinton têm sido tão condescendentes para com aquele país gigantesco.
Essa condescendência de Washington vai muito além das conveniências do tempo da Guerra Fria, quando as rivalidades entre Pequim e Moscou eram estimuladas a fim de reduzir as chances de reunificação do “mundo comunista”.
1978: começa a ‘‘modernização’’
A chamada modernização da China se iniciou em 1978, com a autorização da abertura de empresas privadas.
Mao Tsetung estava morto havia dois anos e o “neomaoísmo” de Hua Guofeng naufragara na ponta final de um processo que já havia vitimado o “Bando dos Quatro”. Esse grupo de dirigentes comunistas, reunidos em torno de Jiang Qing, viúva de Mao, tentou impor a preservação da ortodoxia marxista e do fechamento em copas da economia e da diplomacia chinesas. Depois das condenações contra os ortodoxos, o homem forte, reabilitado entre as vítimas da Revolução Cultural (1966-1970), era Deng Xiaoping.
O novo “timoneiro” não perdeu tempo. Em 1978, reformulou o sistema de preços e salários, libertando-o do arbítrio da burocracia estatal e tornando-o dependente da aplicação interna da lei da oferta e da procura. No ano seguinte, deflagrou uma descoletivização maciça da propriedade rural, estimulando o ressurgimento da pequena produção camponesa. Estavam lançadas as bases para que a chamada “economia socialista de mercado” se tornasse política oficial, em 1992.
A China tem hoje 1,24 bilhão de habitantes. Se cada chinês comprar um walkman, o país estará consumindo algo como o PIB da Bélgica. Se a compra for de uma geladeira, será algo como o PIB do Brasil. E se cada chinês comprar um terço de um Uno Mille, já se movimentará o equivalente ao PIB do Japão. Com uma escala demográfica dessa amplitude, faltariam à China apenas capital e tecnologia. São justamente os ingrediente que têm sido injetados maciçamente em suas veias de dez anos para cá. Em média, o país recebeu 43 bilhões de dólares anuais, nos três últimos anos. São investimentos canalizados sobretudo para as províncias litorâneas próximas a Hong Kong, que aliás concentram a metade dos “novos ricos” chineses, assim chamados por terem uma renda anual superior a 12.500 dólares (a média nacional é de 3.300 dólares).
É claro que esse modelo de crescimento gera desigualdade social inédita durante as décadas de socialismo ortodoxo. Há 160 milhões de camponeses desempregados.
Nas grandes cidades, estariam desempregadas algo como 25 a 31 milhões de pessoas. Embora as estatísticas oficiais sejam bem pouco confiáveis, elas também demonstram que, hoje, as 1,3% famílias mais ricas controlam 32% da riqueza, enquanto as 44% mais pobres possuem apenas 3% da renda nacional.
A manutenção de um modelo de iniqüidade tão gritante, inexistente há duas décadas, só seria viável sob uma estrutura política absolutamente autoritária, capaz de reprimir qualquer veleidade reivindicativa daqueles situados na base da pirâmide de rendas. Essa gente deve permanecer desarticulada em nome da modernização e da paz social. Em países como a Malásia ou a Indonésia, a repressão a essa válvula social ocorreu pelas mãos de regimes ditatoriais de direita. Na Indonésia, o mecanismo repressivo entrou em colapso no ano passado. Na China, o modelo é similar, mas sob a ditadura de “esquerda” do Partido Comunista. É ele que gestiona o retorno explícito ao capitalismo, ritmando a falência em cascata de pequenas e médias estatais ineficientes.
A China não tem pressa em privatizar suas 119 mil estatais
A China contaria ainda com 118 mil estatais. Não tem pressa em privatizar. Prefere não incorrer no mesmo erro que a Rússia, que desmontou o Estado sem que uma estrutura alternativa de capital pudesse assumir seu lugar, abrindo caminho para as máfias ocuparem o vácuo econômico e político, prosperando às custas do empobrecimento da sociedade. O regime chinês quer empresas competitivas, com padrão de gestão ocidental, capazes de operar agressivamente no mercado externo. É em parte pelo sucesso desse modelo que o país acumula hoje reservas cambiais de 141 bilhões de dólares. E é também por meio dele que surgiu uma nova classe de businessmen  os que têm telefone celular, automóvel, uma residência confortável e roupas de grife  que tende a crescer e a comandar, sob a tutela do partido único, a decolagem da poderosa fera asiática. Uma fera capaz teoricamente de, a longo prazo, domesticar o Japão, que possui apenas um décimo da população chinesa e que este ano, mesmo assim, ainda será capaz de produzir 3,4 vezes mais riquezas.
A poderosa China do futuro abrangeria Taiwan, talvez num sistema de autonomia semelhante ao concedido a Hong Kong. E aprofundaria ainda mais os laços com a próspera diáspora chinesa que controla vasta parcela das economias de Cingapura, da Malásia, da Tailândia e do Vietnã. Vale a pena manter relações sólidas com uma fera como essa.
Há 50 anos, Mao fundava a China vermelha
O ano de 1949 foi um dos mais “quentes” da Guerra Fria. Foi o ano em que a União Soviética testou sua primeira bomba atômica e no qual nasceu a Alemanha Oriental, como reação ao estabelecimento da República Federal Alemã. Foi também o ano em que os comunistas tomaram o poder na China.
Desde o fim dos anos 20, os comunistas eram uma das principais forças políticas no cenário chinês, atuando em aliança com Chiang Kaishek, o líder do partido nacionalista Kuomintang. Mas um massacre de 5 mil operários pró-comunistas, em 1927, em Xangai, selou o fim da aliança. Com o ataque japonês à Manchúria chinesa, em 1931, a aliança foi reconstituída, para explodir outra vez no final da Segunda Guerra Mundial. No vácuo de poder deixado pela retirada das forças de ocupação japonesas, os comunistas avançaram para a vitória.
No primeiro dia de outubro de 1949, há 50 anos, uma multidão saudava, em Pequim, o líder Mao Tsetung, que viria a se tornar o “Grande Timoneiro” da República Popular da China.
A vitória de Mao assustou o Ocidente. Era meio caminho andado para que os comunistas chineses ajudassem seus companheiros de ideologia a chegarem ao poder na Indochina, Indonésia e Filipinas, onde as estruturas de poder também não haviam sido reconstruídas, após o fim da ocupação japonesa.
A chegada de Mao ao poder também daria o sinal para o início do conflito na Coréia, país dividido, desde a derrota dos japoneses, entre um regime comunista estabelecido na porção norte e o governo pró-americano do sul. Acima de tudo, o triunfo vermelho na China parecia inclinar o mundo, de vez, rumo ao confronto entre capitalismo e comunismo.
Derrotado por Mao Tsetung, Chiang Kaishek liderou a migração de milhões de refugiados para a ilha de Taiwan, 170 quilômetros ao largo do litoral chinês. Na província, sob a proteção dos Estados Unidos, constituiu o regime rebelde da República da China. Mao, por sua vez, construiu um regime comunista inspirado na União Soviética, com quem romperia em 1960. Hoje, sob o “capitalismo vermelho” dos sucessores de Deng Xiaoping, a imagem do “Grande Timoneiro” tornou-se adorno exótico de bonés, chaveiros e isqueiros vendidos para turistas do mundo todo.
Boletim Mundo Ano 7 n° 6