sexta-feira, 2 de setembro de 2011

COMÉRCIO BRASILEIRO LUTA PARA DIVERSIFICAR ACORDOS E PARCERIAS

Brasil ocupa posição quase insignificante no comércio mundial, mas procura liderar grupo de países em desenvolvimento nas negociações da OMC.

O ano de 2004 tem se mostrado favorável ao comércio exterior brasileiro. As estimativas apontam para um volume de exportações que atingirão, no final do ano, cerca de 85 bilhões de dólares. Comparando-se com 2003, registra-se até agora crescimento de 16% das exportações e incremento de 20% das importações – um sinal da retomada do crescimento econômico.
O comércio externo do Brasil vem apresentando sucessivos saldos comerciais positivos desde 2001, depois de seis anos de saldos negativos . A seqüência de déficits foi rompida em 2001, por conta da combinação de uma série de fatores internos e externos.
Em primeiro lugar, a crise financeira que se abateu sobre o país, em 1999, resultou em forte desvalorização do real, o que acabou invertendo o sinal da balança comercial. A expressiva queda no nível de atividade econômica contribuiu para um recuo ainda maior das importações. Em segundo lugar, o governo adotou uma política agressiva de conquista de novos mercados para as exportações, estreitando laços comerciais com países como China, Índia, África do Sul e Rússia. Em parte como resultado dessa estratégia de diversificação de parceiros comerciais, entre janeiro e maio de 2004, as áreas de maior crescimento de nossas exportações foram a África (52%), a Europa Oriental (40%), o Oriente Médio (21%) e a Ásia (19%).
Outros fatores também têm contribuído para o aumento de nossas exportações, como o reaquecimento da economia americana, a consolidação da posição da China como grande potência comercial, a recuperação econômica da Argentina, nosso principal parceiro no Mercosul, e a elevação dos preços das commodities (produtos primários).
Por fim, há ainda algum crescimento das exportações de produtos industrializados, que possuem maior  valor agregado. Em 2003, os vinte principais produtos de nossa pauta de exportações representavam cerca de metade de nossas vendas para o exterior. Além das tradicionais commodities (soja, minério de ferro, açúcar,café e carnes), essa lista inclui também automóveis, aviões e aparelhos transmissores como celulares. Contudo, a expansão da participação dos produtos industrializados nas vendas externas perdeu velocidade na década de 90 e os produtos primários ou semi-manufaturados continuam a representar parcela excessivamente grande da pauta de exportações.
O crescimento das exportações registrado nos últimos anos parece expressivo, mas não é. De fato, na última década, o comércio exterior brasileiro expandiu-se mais devagar que o comércio mundial. Isso significa que a participação do país no mercado global continuou a declinar . O Brasil, hoje a 15ª maior economia do mundo, representa apenas 1% do comércio mundial. Para se ter uma idéia do que isso significa, basta lembrar que a “pequena” Coréia do Sul realiza exportações duas vezes maiores que as brasileiras.
O Brasil é um global trader, ou seja, uma economia que apresenta vários eixos distintos e expressivos de comércio exterior. Na atualidade, o intercâmbio externo nacional se estrutura sobre quatro eixos principais. O primeiro é o da União Européia, responsável por cerca de 25% do total. Em seguida, aparece nosso principal parceiro individual, os Estados Unidos, com aproximadamente 24%. Com expressão menor, mas forte incremento recente, encontra-se a Ásia (16%), um eixo em que se destaca a parceria com a China. O último eixo significativo corresponde ao Mercosul (8%). A Argentina é, hoje, o terceiro parceiro comercial do país .
A política comercial brasileira enfrenta, há alguns anos, a encruzilhada da Área de Livre Comércio das  Américas (Alca). Os governos FHC e Lula têm reagido ao projeto dessa zona hemisférica de livre comércio por meio da abertura de processos de negociação em várias frentes. O objetivo final parece ser o de negociar o ingresso do país e do Mercosul na Alca em condições menos desvantajosas que as que se apresentam atualmente.
A primeira frente é a do fortalecimento do Mercosul, abalado pelas crises financeiras e econômicas no Brasil (1999) e na Argentina (2001). O bloco é, hoje, um arremedo de união aduaneira, com regras comuns perfuradas por inúmeras exceções. A recente crise comercial entre Brasil e Argentina, relacionada às restrições impostas pelos argentinos às exportações de eletrodomésticos brasileiros, é mais um capítulo das controvérsias entre os parceiros e um nítido sintoma da fraqueza do bloco.
A segunda frente é a da ampliação do Mercosul.
A idéia é unir ao bloco do Cone Sul a Comunidade Andina das Nações (CAN, composta por Peru, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela), mais o Chile, criando-se uma Área de Livre Comércio Sul-Americana (Alcsa). O acordo, idealizado em 1998, deveria entrar em vigor em 1º de julho de 2004 mas foi adiado por mais dois meses. A meta seria negociar com Washington a partir de uma plataforma comum sul-americana.
Na prática, isso está longe de acontecer. O Chile, por exemplo, já se rendeu aos encantos de um acordo comercial bilateral com os Estados Unidos.
A terceira frente é a criação de uma zona de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia.
Todavia, esse acordo tem evoluído a passos de tartaruga, em virtude, especialmente, da questão dos subsídios agrícolas. Assim como os Estados Unidos, a União Européia não se dispõe a negociar, num quadro bilateral, a liberalização do comércio de produtos agrícolas.
Isso indica que o acordo entre o Mercosul e os europeus provavelmente terá pequenas ambições.
A quarta frente, aberta nos últimos dois anos, é uma nova ofensiva destinada a mudar a paisagem das negociações globais no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC). No interior dessa perspectiva foram criados o G-3 ou IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e o G-20, grupo que congrega diversos países em desenvolvimento e que procura impedir que a Rodada de Doha seja concluída – como o foi há uma década a Rodada Uruguai – por um acordo baseado exclusivamente nos interesses dos Estados Unidos e da União Européia.

Boletim Mundo Ano 12 n° 4

A CHINA TORNOU-SE UMA REDE GLOBAL

Gilson Schwartz

Durante muitos anos a economia chinesa foi visualizada como uma rede que se estendia além da China, envolvendo pólos em várias regiões da Ásia e mesmo no Pacífico norte-americano. Assim como a Índia, que estabeleceu laços e fluxos migratórios com a Califórnia, muitos empreendedores chineses foram incubados na cultura empreendedora do Vale do Silício.
O foco em desenvolvimento local teve na China uma versão mais planificada: as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). Essas zonas de desenvolvimento capitalista produziram, com estratégias agressivas de exportação baseadas na exploração de mão-de-obra barata, oportunidades de investimento para indústrias e empresas integradoras estrangeiras.
As novas oportunidades foram se consolidando, no interior da rede chinesa propriamente dita mas também fora da China, contribuindo para o redesenho das fronteiras nos mercados mundiais. É interessante comparar a evolução das exportações chinesas entre 1995 e 2002 com as vendas externas dos Novos Países Industrializados (NPIs), um conjunto composto por países em desenvolvimento, e do Japão, uma economia madura com forte investimento acumulado em estratégias exportadoras.
O desempenho da máquina exportadora japonesa oscilou ao longo do período, sofrendo mais diretamente os impactos da crise asiática de 1997 e depois do fim da bolha especulativa na economia americana, em 2000.
Os NPIs parecem acompanhar as oscilações da performance exportadora japonesa, igualmente sintonizada no vigor do mercado comprador dos Estados Unidos. De modo geral, tanto o Japão como os NPIs reproduzem os altos e baixos do conjunto do comércio mundial. A China, entretanto, é a exceção. É o único país nesse grupo que continuamente ampliou o valor de suas exportações de mercadorias .
É importante lembrar que a desvalorização competitiva da moeda chinesa foi apontada por muitos analistas como o primeiro choque a partir do qual propagou-se a crise asiática no final dos anos 90. O fato é que, depois de 1997, quando eclodiu a crise do “baht” (a moeda tailandesa) e sobreveio o efeito dominó de quebras financeiras e políticas na Ásia, a China passou ao largo da crise global, manteve a estabilidade de sua moeda e ampliou o seu espaço como potência exportadora.
A questão decisiva é: como os chineses fizeram isso? Dois aspectos combinam-se para explicar o sucesso econômico e comercial chinês: sua própria rede asiática e o uso estratégico de investimentos e financiamentos, criando oportunidades de comércio.
Os dados de comércio inter e intra-regional revelam que é enorme a densidade dos fluxos dentro da própria Ásia. O padrão é o mesmo revelado pelo mapa dos investimentos chineses. Investimentos que cresceram em paralelo ao crescimento do comércio exterior chinês e muitas vezes como seu braço estratégico. A tal ponto o comércio e o investimento exterior chinês caminham juntos que, pela primeira vez, a China despontou na lista das “Top 5” fontes globais de fluxos de investimento no período 2004-05, batendo até o Japão. A China já parece, para muitos países em desenvolvimento, em especial os que praticamente quebraram depois da crise asiática, como a segunda fonte mais importante, atrás apenas dos Estados Unidos.
A presença de empresas transnacionais chinesas amplia a expectativa de aumento de seus investimentos.
A média anual de investimentos chineses no exterior ultrapassou os US$ 2 bilhões nos anos 90. A garantia de acesso a recursos naturais e a mercados, assim como a aquisição de ativos estratégicos (como tecnologia e marcas famosas), são os principais fatores que motivam essa onda de investimentos chineses no mundo, alcançando 160 países. Entre 1979 e 2002, os investimentos diretos chineses no exterior implantaram perto de 7 mil projetos.
Quase 60% do valor desses fluxos tiveram como destino a própria Ásia .
A evolução da rede de comércio para uma rede de investimentos, finanças e serviços de integração global é o caminho natural. Quando a presença de produtos chineses começa a ganhar escala, em mercados como o dos Estados Unidos, a própria presença no mercado passa a exigir investimentos locais, por exemplo  em redes locais de distribuição.
A nova integração financeira chinesa aos mercados globais é, igualmente, um efeito do investimento externo realizado na China. Os volumes e a intensidade foram também responsáveis por um efeito demonstração e ampliação de possibilidades de investimento chineses  no exterior. Isso também significa acesso crescente a fontes externas de financiamento, o que levou as autoridades chinesas a ampliar o zelo com a supervisão bancária no período recente.

Boletim Mundo Ano 12 n° 4

EXISTE UMA “NOVA GEOGRAFIA DO COMÉRCIO MUNDIAL”?

Apesar de ainda limitado a um  certo  número de países, há sinais encorajadores de que uma fonte significativa de crescimento global está sendo gerado no Sul. Este novo acontecimento está contribuindo para criar uma nova geografia do comércio mundial.
Acentuamos a importância das iniciativas para facilitar o surgimento de novos centros dinâmicos de crescimento no Sul através de passos adicionais para a integração dessas economias emergentes com outros países em desenvolvimento. Isso pode ser alcançado (...) por meio de um Sistema Global de Preferências Comerciais mais abrangente entre os países em desenvolvimento (...).
(Unctad XI, “O espírito de São Paulo”, 13-18 de junho de 2004)

A XI Sessão da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), recentemente realizada em São Paulo, ecoou as esperanças de Lula, anunciando “uma nova geografia do comércio mundial”. Essa “nova geografia” estaria sendo desenhada pelo crescimento econômico dos países do Sul e pela ampliação dos fluxos de intercâmbio Sul-Sul.
À primeira vista, Lula e a Unctad registram os sinais de uma grande novidade.
A participação dos países desenvolvidos no comércio mundial saltou de cerca de 63% para nada menos que 72% entre o imediato pós-guerra e o início da década de 90, mas retrocedeu, no último decênio para algo em torno de 65%. Ou seja: a globalização proporcionou ao resto do mundo as condições para um significativo avanço, em detrimento dos países desenvolvidos.
Entretanto, uma análise mais apurada revela que essa é uma formulação simplista, pois a expansão da parte do Sul no comércio mundial deve-se, essencialmente, ao salto das exportações asiáticas. Uma parte menor dessa expansão é fruto do crescimento das exportações da América Latina e da CEI e Europa Oriental. Por outro lado, as exportações do Oriente Médio apresentam desempenho fraco e as da África continuam a retroceder em direção à insignificância.
A verdade encontra-se nos detalhes.
A participação da CEI e Europa Oriental (isto é, do antigo bloco soviético) alcançou seu zênite nos anos 70, entrou em queda livre no momento da implosão da União Soviética e apresentou apenas moderada recuperação no último decênio. Hoje, continua inferior ao patamar de 1948. A participação da América Latina certamente cresceu no último decênio, mas após recuar assombrosamente entre o pós-guerra e o início da década de 90. Hoje, a parte  latino americana nas exportações globais é menos que a metade daquela de 1948. Apenas a Ásia exibe aumento da participação no comércio mundial, quando se comparam os números atuais com os do pós-guerra. Na ponta do lápis, enquanto a parte latino americana foi cortada pelo meio, a asiática praticamente dobrou!
Uma lente de aumento ajuda a traçar as fronteiras da “nova geografia do comércio mundial”. A expansão asiática é um produto combinado do aumento excepcional das exportações dos Novos Países Industrializados (NPIs) e da China. A Índia é, por enquanto, apenas uma promessa. A expansão latino-americana deve-se, quase toda, ao significativo aumento das exportações do México, pois as duas outras grandes economias da região – o Brasil e a Argentina – apresentam trajetórias declinantes . Isso significa que a “nova geografia”  cantada em prosa e verso circunscreve-se, no essencial, à Ásia oriental e ao México.
Rigorosamente, nem isso. Lula e a Unctad não se referiram simplesmente ao comércio originado nos países em desenvolvimento, mas aos fluxos comerciais Sul-Sul, ou seja, entre países em desenvolvimento.
Esse critério elimina o México dos domínios da “nova geografia” comercial, pois toda a expansão do intercâmbio mexicano na última década decorre da sua incorporação ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). Hoje, esse país comporta-se, no território comercial, como um satélite dos Estados Unidos, que consomem 89% das suas exportações e fornecem mais de 63% das suas importações. Menos de dez anos depois de ingressar no Nafta, o México passou a disputar com a Coréia do Sul o posto de segunda potência comercial entre os países em desenvolvimento, mas essa condição reflete a captura do país pela teia de investimentos das empresas transnacionais americanas.
O caso da Ásia oriental é diferente: nada menos que 35% das exportações dos países asiáticos em desenvolvimento direcionam-se para outros países asiáticos em desenvolvimento. Os NPIs emergiram como potências comerciais na primeira etapa da globalização, entre 1973 e 1993. O salto da China começou nos anos 80, mas ganhou as alturas na segunda etapa da  globalização, que se iniciou em 1993. O “milagre chinês” mudou o panorama do comércio asiático.
No início da sua arrancada, os NPIs gravitavam em torno do mercado comprador de bens de consumo dos Estados Unidos e dependiam de importações de bens de capital do Japão. Funcionavam, sobretudo, como nexos na rede global da microeletrônica e informática que liga a superpotência da América do Norte à grande potência econômica asiática. Hoje, os NPIs estão muito mais integrados a uma densa rede macro-regional asiática. A Coréia do Sul exemplifica esse perfil. Perto de 40% das suas exportações direcionam-se para outros países asiáticos em desenvolvimento (entre os quais a China, com quase 15%), contra uma parte de 20% que segue para os Estados Unidos. No sentido inverso, quase 50% das suas importações originam-se de outros países asiáticos em desenvolvimento, contra 20% do Japão e 15% dos Estados Unidos.
A China, por sua vez, orienta quase 34% das suas exportações para outros países asiáticos em desenvolvimento, contra parcelas de 21% e 15% respectivamente para os Estados Unidos e o Japão. Inversamente, importa cerca  de 38% do total de outros países asiáticos em desenvolvimento, mas apenas 18% do Japão e 9% dos Estados Unidos. Isso significa que o dínamo chinês está integrando o mercado asiático. Atrás dessa revolução encontra-se a rede de investimentos que conecta a China ao seu entorno asiático .
Todos os dias, a mídia seleciona novos adjetivos para exprimir surpresa e espanto diante da “nova China”. Mas uma perspectiva mais ampla coloca as coisas nos seus lugares. Segundo estimativas do historiador da economia Angus Maddison, a Ásia representava 60% da produção manufatureira mundial em 1801. A China, sozinha, tinha 30% do total, e a Índia, 15%. No pós-guerra, em 1953, refletindo os efeitos de um século e meio de Revolução Industrial européia, a participação asiática havia declinado para apenas 17%, e a parte do leão cabia aos japoneses. Em 1973, a parte da Ásia tinha atingido 24%, mas quase todo o aumento decorria da vigorosa reconstrução japonesa.
Hoje, a Ásia detém 38% da produção industrial global – e a expansão não pode ser atribuída ao Japão: a China, sozinha, participa com 12% e a Índia, com 5%.
Para onde vai a Ásia? E para onde vai a China? O futuro é imprevisível, mas uma boa dica é olhar para o passado. Por exemplo, para 1801.

Boletim Mundo Ano 12 n° 4

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL GRAVITA EM TORNO DA POLÍTICA EXTERNA

Newton Carlos

John Kerry distancia-se da Doutrina Bush e prega o multilateralismo, mas repete o discurso da Casa Branca sobre poder militar, terror e armas de destruição em massa.
Conteúdo mais ou menos igual, ênfase diferente, foi a reação de Rob Watson, jornalista veterano no perímetro conhecido como “bandit belt”, a intimidade de Washington, quando John Kerry lançou seu programa de política exterior. A prioridade número um do candidato democrata será impedir que terroristas ponham as mãos em armas de destruição maciça. “É difícil imaginar que Bush tenha algum problema com isso”, escreveu Watson, ou com a afirmação de que os Estados Unidos “devem continuar sendo o poder militar supremo no mundo”.
Sobre o Iraque, Kerry, nessa hora solene, falou pouco. Publicações da inteligência liberal, como o Village Voice, reclamam da falta de uma posição “consistente” em relação à retirada das tropas americanas.
Outras, mais à esquerda, como a Counterpunch pedem mais firmeza. Kerry carrega o peso de voto favorável no Senado à invasão do Iraque. Pode argumentar que foi levado a isso por informações da Casa Branca que só depois se comprovou serem falsidades, envolvendo armas de destruição maciça e associação com terrorismo.
O peso talvez se reduza, mas não evaporará..
Diante de pressões no matizado campo de oposição a Bush, um assessor de Kerry saiu-se com a pergunta: “por que falar muito do Iraque?”. Deu a impressão de que o melhor é deixar que Bush se afunde por conta própria, sem que Kerry se arrisque a dar passos em falso numa questão que pode definir as eleições presidenciais de novembro. Bem ou mal, no entanto, num delicado jogo de nuances, ou de conteúdo versus ênfase, Kerry diz coisas que não estão no coração de Bush.
Críticas ao unilateralismo e ao uso de força “antes de esgotados os recursos à diplomacia”. Reabilitação das alianças dos Estados Unidos na Europa e pelo mundo afora. Nada de guerras isoladas.
Pode parecer pouco, mas o fato é que essas frases simples tocam no âmago da Casa Branca de Bush.
Os republicanos reagem falando de política externa “típica” dos democratas, caracterizada por um multilateralismo “soft”, digamos frouxo, e alguma fé na ONU.
O contraponto republicano é uma diplomacia mais ideológica, repleta de teorias e “grandes visões”, levadas aos extremos pelo governo Bush. A equipe que assessorou o candidato Bush e depois se instalou no poder em Washington, conhecida como os “vulcans”, inspirados no deus do fogo, é o oposto da que assessora Kerry, composta de tecnocratas experimentados e não de ideólogos.
“Vulcans” e neoconservadores passaram a dar as cartas em Washington com o seu projeto de criação de um “novo século americano”. O primeiro objetivo é evitar o que é codificado como “re-emergência”. Os Estados
Unidos não devem tolerar que reapareça um novo “poder hostil” e muito menos que ele domine regiões cujos recursos sejam suficientes “para gerar poder global”.
Golfo Pérsico é muito petróleo e a idéia de invadir e subjugar o Iraque é antiga na cabeça dessa gente.
Donald Rumsfeld, secretário da Defesa, foi um dos signatários de carta ao ex-presidente Bill Clinton pedindo a “remoção de Saddam Hussein do poder”. Mesmo sem autorização do Conselho de Segurança da ONU.
A partir dessa “grande visão” unilateral, de tecido sobretudo ideológico, foi montada a doutrina da “guerra preventiva”, ou Doutrina Bush, como “instrumento legítimo” de política externa. Os Estados Unidos outorgam a si próprios o direito de atacar primeiro, diante de mera suposição de que o outro vai atacar.
Henry Kissinger, sempre à disposição dos poderosos, se ofereceu para promover a incorporação da Doutrina Bush ao direito internacional, alegando que se trata de algo revolucionário. Derruba um princípio, consagrado, de mais de três séculos, o da não-intervenção em  assuntos internos de outros Estados. Os primórdios desse princípio datam de 1648, quando foi assinado o Tratado de Westfália.
Uma das palavras de ordem de Kerry joga por água abaixo a Doutrina Bush: “Back ONU”, ou volta à ONU, promete Kerry. A Carta da ONU adota com vigor, como um de seus pilares, o princípio da não intervenção.
Estabelece que um país só pode atacar outro em caso de agressão e com a necessária autorização do Conselho de Segurança. O oposto da Doutrina Bush. “Volta à ONU” é retorno ao multilateralismo, às decisões tomadas de acordo com a comunidade internacional, cujo comportamento seria levado em consideração em Washington. Não o é com Bush.
Margaret Thatcher dizia que não existem sociedades, apenas indivíduos. Os falcões de Bush dizem que não existe comunidade internacional, apenas países, cada qual tratando de si com o pleno uso da força que tiver. O “back ONU” de Kerry embute o reconhecimento de que é preciso considerar interesses coletivos.
Em tudo isso reside uma diferença fundamental: a de que os democratas e os falcões de Bush vêem o mundo e a natureza das ameaças aos Estados Unidos de modos diferentes. Kerry admitiria que a segurança dos americanos depende muito mais de alianças, do multilateralismo, do que de ataques preventivos, do unilateralismo O caos no Iraque e a busca, retardatária e desesperada, de algum apoio na ONU comprovariam isso.
Os neoconservadores de Bush, em sua “grande visão” de um Oriente Médio menos islâmico e mais ocidental, a partir de um Iraque invadido e “democratizado”, se dizem neo-wilsonianos. Aqui estaria uma aparente contradição.
O presidente Woodrow Wilson, um democrata eleito em 1912 e reeleito em 1916, foi um internacionalista que engajou os Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial e se propunha a tornar o mundo “seguro para a democracia”. A nata intelectual de um governo republicano assume um intervencionismo de tradição democrata.
Mas, ao contrário de Wilson, que ergueu a bandeira da criação da Liga das Nações, os neoconservadores abominam a sua sucessora, que é a ONU.
Conteúdos semelhantes, mas profundas diferenças de método. Os tecnocratas de Kerry, à diferença dos ideólogos de Bush, dizem que derrubadas violentas de governos e a imposição pela força de mudanças radicais “quase nunca resultam em democracia ou em maior abertura ou em sociedade civil fortalecida”. Podem, pelo contrário, produzir violência e repressão. Afirmam os conselheiros de Kerry: “Não queremos violência e repressão no Oriente Médio. Queremos vê-lo transformado numa ampla área de civilização.” Já os neoconservadores de Bush se movimentam de modo imprevisível entre a defesa retórica da democratização e ações práticas orientadas por um neo-imperialismo, sem nenhuma posição intelectual coerente, a não ser a opção preferencial pelo uso da força.
Não é uma oposição entre o dia e a noite, mas é uma divergência notável.

Boletim Mundo Ano 12 n° 4

POLÍTICA DE BUSH DESESTABILIZA O ORIENTE MÉDIO

A Doutrina Bush prometia um Iraque estável e democrático, num Oriente Médio reformado. Mas resultou em caos no Iraque ocupado, na crise da ordem monárquica na Arábia Saudita e em mais sangue na Palestina.

29 de junho: o presidente George Bush anuncia a decisão de “devolver aos iraquianos” a administração de seu próprio país, dois dias antes da data planejada. O posto de primeiro-ministro foi entregue a Iyad Alawi, um iraquiano notoriamente vinculado à comunidade de informações dos Estados Unidos. O anúncio, feito durante uma reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), é inesperado mas não surpreendente, devido à sistemática resistência de guerrilheiros iraquianos (que, até o início de julho, causara mais de mil baixas entre as forças de ocupação), ao escândalo causado pela divulgação das fotos de cenas de tortura de iraquianos praticadas por soldados americanos e à ausência de perspectiva de uma saída política que Bush pudesse apresentar como vitoriosa, às vésperas das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Pior ainda: além de não estabilizar ordem alguma no Iraque, a ocupação aumentou extraordinariamente as tensões na vizinha Arábia Saudita, cuja monarquia já não consegue conter a oposição fundamentalista, e agravou o conflito entre israelenses e palestinos, graças ao apoio de Washington à política de Ariel Sharon.
22 de maio: o cineasta e jornalista Michael Moore recebe a Palma de Ouro, o mais alto prêmio do Festival de Cinema de Cannes, por seu documentário “Fahrenheit 9/11”, sobre a administração Bush antes e depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. O filme revela os vínculos da família Bush com a de Osama Bin Laden, retoma a denúncia da fraude no estado da Flórida (governada por Jeb Bush, irmão do presidente), que teria sido decisiva na condução de Bush à Casa Branca, e constrói sua figura como a de um sujeito despreparado para governar qualquer coisa, autoritário, desequilibrado, fanático religioso e intolerante. Ao receber o troféu, Moore é aplaudido de pé, durante vinte minutos, fato sem precedentes na história do festival. Nas primeiras três semanas de exibição nos Estados Unidos, seu filme rende uma bilheteria estimada em 100 milhões de dólares, cifra jamais obtida, nem de longe, por qualquer outro documentário. Após cada exibição, formam-se, espontaneamente, nas ruas e bares, grupos que debatem apaixonadamente os fatos exibidos.
As cenas, aparentemente, nada têm a ver uma com a outra.
Mas ambas são faces de uma mesma moeda: o fracasso da Doutrina Bush.
Logo após os atentados de 11 de setembro, quando a poeira levantada pelos escombros das torres gêmeas ainda pairava sobre as ruas de Manhattan, Bush pronunciou um famoso discurso, em rede nacional de televisão, em que afirmava: “Aqueles que não estão do nosso lado estão com os terroristas”. Era uma chantagem: a nação e o mundo deveriam apoiar incondicionalmente a “guerra ao terror” movida pela Casa Branca. Não haveria alternativa possível. O discurso causou grande impacto: Bush obteve aprovação quase unânime do Congresso para deflagrar a operação militar no Afeganistão, no início de outubro de 2001. Apenas uma deputada da Califórnia, a democrata e ex-hippie negra Barbara Lee, ousou votar contra. No mesmo mês, Bush fez aprovar a Lei Patriótica (Patriotic Act) que, na prática, suspendia a garantia das liberdades públicas consagradas por mais de dois séculos de vigência da Constituição aprovada na Convenção de Filadélifia, em 1776. Depois, veio o ataque ao Iraque, em março de 2003, quando Bush ignorou solenemente a ONU, os aliados da OTAN (particularmente, França e Alemanha) e os milhões que se manifestaram, em todo o mundo, no dia 15 de fevereiro.
Nada parecia capaz de deter a moto niveladora colocada em movimento pela Casa Branca. Até que os soldados de Bush começaram a morrer às dezenas no Iraque, numa situação de guerra de guerrilha prolongada.
Evidenciou-se o óbvio: seria impossível estabilizar, no Iraque, qualquer governo central aliado de Washington no curto ou médio prazo. Decorridos seis meses da invasão, o problema passou a ser como organizar a retirada com o menor prejuízo possível, de preferência salvando alguma coisa para a disputa presidencial.
A revelação das fotos de tortura funcionou como a gota d’água. Bush invadira o Iraque sob os pretextos de encontrar e eliminar o suposto arsenal de armas de destruição em massa que teria sido construído por Saddam Hussein, e acabar com um ditador que torturava seus adversários. Bush nunca encontrou o tal arsenal (que não existia, como concluiu, em 9 de julho, uma comissão do Senado) e suas próprias forças, agora, encarregavam-se de torturar os iraquianos. Era a completa desmoralização.
Mas a Arábia Saudita reserva “surpresas” ainda mais graves. Começa a tornar-se cada vez mais público  e Michael Moore contribui para isso – que Osama Bin Laden era freqüentador íntimo da monarquia saudita, a mais fiel aliada de Washington no Oriente Médio; que ele e a Al Qaeda foram armados e treinados pela CIA, nos anos 80, para combater as tropas da União Soviética que ocupavam o Afeganistão; e que o fundamentalismo islâmico foi amplamente instrumentalizado pela Casa Branca em Kosovo (na antiga Iugoslávia) e na Chechênia (no Cáucaso russo), após o “período afegão”.
Durante sete décadas, a monarquia saudita viveu de seu prestígio como guardiã dos locais mais sagrados do Islã, e como parte integrante da seita fundamentalista wahabita. Agora, a “guerra ao terror” de Bush, impregnada de sentimento anti-islâmico, produziu um crescente distanciamento entre os fundamentalistas e a monarquia que os financiou. O apoio da monarquia saudita à política de Bush destruiu os pilares da ordem interna no reino que detém quase um quarto das reservas mundiais de petróleo. Há mais de um ano, a Arábia Saudita é palco de atentados fundamentalistas, que têm o apoio de parte significativa da população que não se beneficia dos petrodólares. A monarquia parece prestes a perder o controle sobre o país. E se as tensões degenerarem em guerra civil? E se o governo for tomado pelos fundamentalistas?
Bush ocupará também a Arábia Saudita?
E há a situação explosiva em Israel e nos territórios ocupados. Ariel Sharon defende a manutenção dos assentamentos na Cisjordânia, a continuidade das obras do muro que divide a Palestina em “bantustões” (cuja construção foi condenada pelo Tribunal Internacional de Haia, em 9 de julho), a política de assassinatos seletivos de líderes palestinos, o método de destruição de casas, a violência indiscriminada do exército contra a população civil. Faz tudo isso com o apoio de Bush. O resultado, todos já conhecem: multiplicação dos atentados a bomba, novas mortes, mais sangue, mais violência.
O que virá depois de Bush?

Boletim Mundo Ano 12 n° 4

BRASIL COMANDA A FARSA DA PAZ NO HAITI

Há 35 anos, no dia 16 de julho de 1969, 20h17, hora de Greenwich, exatas 17h17 no Brasil.
Centenas de milhões de pares de olhos vidrados assistiam pela TV – ao vivo! – ao astronauta americano Neil Armstrong descer pela escada do módulo espacial Eagle, transportado pela nave Apollo 11, e dar os primeiros passos, desajeitados, na superfície da Lua. Atrás dele viria o colega Edwin Aldrin. O terceiro astronauta, Michael Collins, permaneceu em órbita lunar e ajudou a plantar a Star and Stripes, a
bandeira americana em um novo território. A Terra não era suficiente para a Guerra Fria entre americanos e soviéticos. Ela chegava ao espaço e, com a “conquista da Lua”, os Estados Unidos assumiam a ofensiva.
Na verdade, a disputa pelo espaço começou com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, quando Estados Unidos e União Soviética, as superpotências vencedoras, arrebanharam cientistas, projetos e planos do programa alemão de foguetes, o mais evoluído do mundo, que tivera início em 1935. A disputa pelo espaço
na verdade fazia parte de algo muito maior – a luta pela hegemonia mundial entre as grandes potências nucleares.
Mas não se tratava “apenas” de uma corrida para ver quem conquistaria primeiro o espaço. Quem desenvolvesse mais rapidamente a tecnologia de foguetes
espaciais levaria vantagem no aperfeiçoamento de mísseis balísticos militares, capazes de carregar, através dos continentes e oceanos, ogivas nucleares que explodiriam no território do inimigo. Apenas oito anos antes do passeio de Armstrong na Lua, o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear, por conta da instalação de mísseis soviéticos em Cuba, pertinho dos Estados Unidos.
E não por acaso, o cientista Wernher Von Braun, um dos chefões do desenvolvimento das bombas-voadoras V1 e V2 alemãs, que fizeram grande estrago em Londres durante a Segunda Guerra Mundial, foi o pai do programa espacial americano.
A União Soviética saiu na frente da correria, ao lançar o primeiro satélite espacial, o Sputnik 1, em 1957.
No mesmo ano, os soviéticos colocaram no espaço o primeiro ser vivo, a cadelinha Laika, a bordo do Sputnik 2. Eram os melhores momentos da potência comunista que apostava na “coexistência pacífica” pois, nas palavras célebres do seu líder Nikita Kruschev, “alcançaria e ultrapassaria” o nível econômico dos Estados Unidos.
O gol de placa soviético viria, porém, em 1961, quando a sonda Venera chegou a Vênus e o país colocou o primeiro homem em órbita terrestre. O cosmonauta Yuri Gagarin ganhou as manchetes mundiais ao berrar, emocionado, pelo rádio de bordo: “a Terra é azul!”. Era a primeira vez que um ser humano contemplava o planeta inteiro, uma imagem hoje banalizada pela mídia.
Assustados, nos anos seguintes, os Estados Unidos pisaram firme no acelerador de seu programa espacial, investiram fortunas e jogaram todo o peso da sua liderança tecnológica. No ano do vôo de Gagarin, o presidente John Kennedy anunciou a meta de colocar um astronauta na Lua em uma década. A União Soviética foi ficando para trás. 1969 foi o cumprimento da promessa de Kennedy. Depois, eufórico com o sucesso do foguete Apollo 11, o governo americano prometeu desembarcar um astronauta em Marte em 1985. Isso não ocorreu, principalmente porque a economia soviética enfraqueceu- se bastante nos anos 80 e a Casa Branca reduziu os gastos com o programa espacial. É verdade que, em 1971, a União Soviética havia colocado em órbita a primeira estação espacial, a Salyut, seguida pela americana Skylab, em 1973. Isso daria outro rumo à exploração do espaço, com o surgimento de uma nova geração de naves, os ônibus espaciais. Mas, a essa altura, a capacidade de investimento dos soviéticos no setor havia caído bastante.
É preciso estabelecer uma diferença entre os programas espaciais das duas superpotências. Embora elas tivessem um mesmo objetivo – desenvolver simultaneamente as tecnologias espacial e militar –, havia uma diferença fundamental entre os dois programas.
Para os americanos, tratava-se também de uma disputa de mercado: desenvolver tecnologias que, transplantadas para o âmbito civil, pudessem gerar grandes lucros às suas empresas. E um dos gargalos da economia soviética era exatamente o fato de que as altíssimas tecnologias espaciais e militares geradas por seus cientistas não eram transformadas em vantagens de mercado. O tradutor e ensaísta Boris Schnaidermann sintetizou esse dilema, certa vez, com a frase: “A União Soviética é capaz de construir o míssil mais moderno do mundo mas não consegue criar uma torradeira que preste”.
No fim das contas, foi o modelo americano que deu certo. A corrida espacial, no lado dos Estados Unidos, traduziu-se ao longo das décadas em novas tecnologias de telecomunicações e informática que asseguraram que o país se conservasse como a mais importante economia do mundo. Quando Armstrong dava seus passinhos na Lua, naquele fim de tarde brasileiro de 1969, não sabia que, além de cravar um golaço para Tio Sam na corrida especial e na Guerra Fria, estava também inaugurando uma era de grandes negócios.

Boletim Mundo Ano 12 n° 4

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

UM TIRO NO ESCURO

Um atentado terrorista em Sarajevo, na Bósnia, levou, há 90 anos, ao início da Primeira Guerra Mundial. A guerra que ninguém queria e que ninguém conseguiu evitar.

Chegou a hora de as grandes nações acalmarem-se, ocupando-se com objetivos pacíficos.
Ou então, virá uma explosão que ninguém deseja e que não beneficiará ninguém.
(Bethmann-Hollweg, chanceler alemão, junho de 1913)
O estudante de origem sérvia Gavrilo Princip teve seus 15 minutos de fama. No dia 28 de junho de 1914, depois de uma série de trapalhadas que o haviam feito desistir e ir tomar uma cerveja em uma taberna de Sarajevo, ele percebeu, bem à sua frente, o carro do herdeiro do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando. Princip sacou o revólver e atirou, matando o herdeiro de 51 anos. Saiu correndo e entrou em um cinema, onde seria preso. Morreu quatro anos depois, quase junto com o fim da grande guerra, de tuberculose, esquecido num campo de prisioneiros sérvios, antes de completar 30 anos.
Os tiros do desconhecido Gavrilo Princip precipitaram a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914- 1918), que matou nove milhões de pessoas, deixou 21 milhões de feridos, destruiu quatro impérios – Alemanha, Rússia, Austro-Hungria e Turco-Otomano – além de abrir as portas para o surgimento do primeiro Estado socialista do mundo, na antiga Rússia dos czares, e somar prejuízos hoje calculados em US$ 200 bilhões.
Ações individuais ou atos terroristas que aceleram a roda da história têm sido comuns, ao longo dos séculos. Há pouco tempo, em setembro de 2000, o então aspirante a primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, resolveu “passear” na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, um dos lugares sagrados para os muçulmanos, cercado por centenas de soldados. A provocação fez explodir uma nova rebelião palestina e detonou junto grande parte das perspectivas de paz no Oriente Médio.
Lá atrás, a própria visita do arquiduque a Sarajevo, na Bósnia, foi uma provocação diante dos sérvios, que compunham grande parte da população local. Ele decidiu inspecionar manobras militares no dia 28 de junho de 1914. Mesmo dia em que, no longínquo ano medieval de 1349, uma grande coalizão destruiu o reino sérvio independente do rei Dusan.
A ação terrorista funciona, então, como uma centelha que incendeia um paiol de pólvora preparado há muito tempo. Acontece que, no caso de Gavrilo Princip, os tiros disparados por  seu velho revólver na capital da província austro-húngara da Bósnia-Herzegovina precipitaram uma guerra que nenhum dos principais estadistas europeus desejava. E que ninguém conseguiu evitar, pois as suas raízes já estavam fincadas numa Europa dividida por alianças rivais.
O conflito era previsível. A Europa, então o centro da economia mundial, havia liderado a Revolução Industrial, tendo à frente a Grã-Bretanha, França, Alemanha e Bélgica. Senhores do mundo, as grandes empresas sediadas nesses países exportavam capitais, criando ferrovias, usinas elétricas ou empresas de navegação na Argentina, Brasil, Austrália, Índia ou África do Sul.
De olho em fontes de matérias-primas para suas indústrias famintas, as potências européias dividiram entre si a África, como se fosse uma pizza, ao final do século XIX. Alemanha e Itália, que haviam alcançado sua unificação nacional apenas na segunda metade do século XIX, chegaram tarde a essa divisão. Sentiam-se injustiçadas. Os alemães derrotaram os franceses na Guerra Franco-Prussiana de 1870, espalhando na Europa o temor pela pujança da economia germânica e, na França, o revanchismo pela perda da Alsácia e da Lorena. Em duas ocasiões, 1905 e 1911, França e Alemanha quase voltaram ao campo de batalha, a pretexto de disputas envolvendo o Marrocos. Por esses anos, a França já tinha articulado com a Grã-Bretanha e a Rússia a Entente, enquanto a Alemanha e o Império Austro- Húngaro formavam a aliança das Potências Centrais.
O Império Turco-Otomano, rival da Rússia, acabaria associando-se às Potências Centrais.
Três dos quatro grandes impérios europeus –Austro-Húngaro, Turco-Otomano e Russo – viam crescer, junto com o liberalismo que acompanhou a Revolução Industrial, reivindicações de nações oprimidas dentro de seus territórios, exigindo o direito de falar o “seu” idioma, erguer a “sua” bandeira ou praticar a “sua” religião.
O nacionalismo era a verdadeira religião da época.
Cada império, é claro, tratou de articular-se a grupos nacionalistas que tentavam arrancar de impérios rivais a sua independência. Assim, o governo da pequena Sérvia fomentava grupos nacionalistas sérvios, na tentativa de criar um novo Estado a partir das províncias eslavas dos impérios Austro-Húngaro (incluindo a Croácia e a Eslovênia) e Turco (partes da Bósnia- Herzegovina). Um desses grupos era a Jovem Bósnia, ao qual Gavrilo Princip pertencia. Para ganhar força, a Sérvia aliara-se governo russo, também eslavo.
Durante as décadas de tensão que precederam a Primeira Guerra Mundial, os gigantes da Europa haviam construído exércitos imensos. A maior parte dos países do continente adotou o serviço militar obrigatório entre 1870 e 1914. Qualquer impasse no delicado equilíbrio europeu levava à mobilização geral de milhões de soldados.
O perigo era iminente. Os chefes de Estado sabiam disso e tratavam de evitar o confronto definitivo.
Disputas “quentes”, como a que envolveu a Grã- Bretanha e a Alemanha, no início da década de 1910, em torno da construção da ferrovia Berlim-Bagdá, terminavam em acordos. Mesmo após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, houve intensos movimentos diplomáticos para evitar a guerra. Todos os estadistas se manifestaram contra o conflito.
O problema é que os tiros de Princip incendiaram uma mistura terrível de alianças, exércitos e generais prontinhos para uma guerra que todos acreditavam poder vencer em pouco tempo, e de ódios nacionalistas que inflamavam multidões cansadas de séculos de opressão.
Poucas semanas depois do atentado de Sarajevo, mobilizadas as tropas, raros foram os estadistas – de esquerda ou direita – que tiveram a coragem de se opor a um conflito que entusiasmava as massas. Os militares tomaram o lugar dos políticos na condução da política externa européia. Nas palavras do historiador britânico A. J. P. Taylor, “os estadistas tornaram-se prisioneiros de suas próprias armas. Os grandes exércitos, organizados para prover segurança e preservar a paz, carregaram as nações para a guerra...”. Os tiros de Gavrilo Princip haviam atingido um alvo muito maior do que o peito de Francisco Ferdinando.

Boletim Mundo Ano 12 n° 3