quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

GEOPOLÍTICA ANGLO-AMERICANA MOLDOU O GOLFO PÉRSICO

Ao longo do século XX, a Grã-Bretanha e, mais tarde, os Estados Unidos definiram a  rquitetura política e estratégica do “Oriente Médio petrolífero”.

Newton Carlos
No começo da década de 1920, a Grã-Bretanha assumiu o controle, por mandato da Liga das Nações, das províncias de Bagdá, Mosul e Basra, o trio que resultou no Iraque.
Ganhava impulso a corrida pelo domínio do petróleo do Oriente Médio por parte da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e das “sete irmãs”, as grandes corporações ocidentais (Exxon, Royal Dutch Shell, British Petroleum, Texaco, Mobil, Socal, hoje Chevron, e Gulf Oil). O primeiro a tratá-las como “sisters” foi Mattei, chefe da estatal petrolífera da Itália, que tentou quebrar o oligopólio e teve morte suspeita num desastre de avião.
Empresas privadas queriam não só extrair, regular os níveis de produção e impor os preços de um dos melhores negócios do mundo. Mas, a questão maior era a submissão do Oriente Médio aos objetivos políticos e estratégicos britânicos. Estavam em pauta tanto estratégias de poder nacionais quanto a sede corporativa de faturamento.
As corporações ocidentais interessavam-se, sobretudo, por fontes seguras de petróleo barato.
O primeiro ciclo, dominado pelos britânicos, durou 32 anos, de 1918 a 1950. Foi por desatenção dos britânicos que os americanos conseguiram sua primeira concessão na Arábia Saudita, nos anos 30. Mais tarde, com o declínio da Grã-Bretanha e a ascensão dos Estados Unidos, os interesses privados ficaram, afinal, de mãos livres no universo petrolífero.
A disputa anglo-americana desenrolou-se como um dueto, muitas vezes desafinado, os britânicos com projetos imperiais, os americanos só pensando em negócios. O ponto de partida foi a “revitalização” nos anos 20, feita por Londres em função de razões de Estado, da Turkish Petroleum Company (TPC), da qual brotou a Iraq Petroleum Company. As províncias que formaram o Iraque pertenceram ao Império Turco-Otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial (1914-18).
A TPC foi comprada em 1918 por capitais britânicos (majoritários), holandeses e alemães. O Império Turco-Otomano agonizava e a companhia conseguiu o direito de explorar o petróleo do Iraque. A operação com a TPC incorporou-se ao esforço por estabilizar uma nova colônia, o Iraque, e acabou sendo usada para convencer a França a aceitar uma “nova ordem” no Oriente Médio.
No fim da guerra, os franceses absorveram a porção alemã da TPC. Na conferência de San Remo, em 1920, a Grã-Bretanha reconheceu a França como parceira, especialmente do Iraque. Os Estados Unidos, marginalizados, protestaram. Londres aceitou que injeções de capitais americanos no Iraque poderiam servir aos interesses políticos britânicos. Mas se queixavam de que o Departamento de Estado americano atuava em nome dos interesses de empresas (Mobil e a Exxon).
A Grã-Bretanha usou a TPC e sua sucessora, a Iraq Petroleum Company, na construção de alianças imperiais, ignorando o poder crescente dos Estados Unidos.

A HORA E A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS
Numa conjuntura de redução acentuada das reservas internas de petróleo, Washington adotou uma política petrolífera mais agressiva no Oriente Médio. Franklin Roosevelt tornou-se o autor da primeira tentativa de inserção do governo americano no corpo de acionistas de uma empresa petrolífera, a California Arabian Oil Company.
Washington também tentou negociar um acordo anglo-americano regulamentando a produção de petróleo no Oriente Médio. Fracasso rotundo em ambos os casos.
Os detalhes dessas tentativas revelam o entrechoque das prioridades de política externa com os interesses dos produtores independentes de petróleo americanos. Em 1943 Harold Ickes, secretário do Interior de Roosevelt, propôs a criação de uma agência federal que comprasse o controle acionário da empresa dona das reservas petrolíferas sauditas. Três anos antes, Roosevelt tinha se recusado a ajudar a monarquia saudita, em crise financeira.
Ickes não desistiu. “O petróleo saudita é tão importante para a segurança nacional que é desejável um controle governamental direto”, afirmaria pouco depois. Foi um Deus nos acuda. Resistência feroz da indústria petrolífera e, também, de setores do governo. Projetos intervencionistas não passavam nem pela porta do secretário de Estado, Cordell Hull.
Tampouco foi aceita a alternativa de um acordo “regulatório” com os britânicos. Outro esquema de Roosevelt, reagiu um executivo petrolífero, “destinado a fortalecer o Estado, transformando-o num super cartel, em detrimento da empresa privada.” Todo o Texas, cheio de produtores independentes, mobilizou-se contra o pacto.
Mas, no exterior, valia o intervencionismo militar favorável às corporações americanas. Em 1952, a CIA conseguiu pela primeira vez derrubar um governo estrangeiro, o de Mohammad Mossadegh, que nacionalizara o petróleo do Irã.
Em 1960, com cinco membros iniciais, foi criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). “Um cartel contra o cartel”, o das “sisters”, disse um dos pais da idéia, o venezuelano Perez Alonso. Exportadores com perspectiva de controle de 90% do mercado faziam história, segundo Alonso. Mas, no fim, os interesses de Washington e das corporações petrolíferas acomodaram-se com os da OPEP. A convergência foi possibilitada pela aliança estratégica entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita.
Nos anos 70, americanos e sauditas imaginaram um “modelo”. Foi feita uma nacionalização “pactuada” da Arabian American Oil Company, a Aramco, sucessora da antiga California Arabian Oil Company. Os estrangeiros abriam mãos do controle da extração, desde que ficassem com garantia de fornecimentos suficientes para continuar dominando os mercados. O “modelo” sofreu um “susto” quando a OPEP interrompeu, temporariamente, o fornecimento de petróleo ao Ocidente, como retaliação ao apoio de Washington a Israel, na guerra de outubro de 1973. Mas, a reação ameaçadora do presidente americano Richard Nixon e do seu secretário de Estado, Henry Kissinger, recolocou a OPEP no eixo.
A estabilidade da monarquia saudita e a segurança das reservas de petróleo do Golfo Pérsico formam, até hoje, o verso e o reverso da política de Washington para o “Oriente Médio petrolífero”.
No fim das contas, é por isso que os Estados Unidos não desistem do Iraque.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

VALSA DOS CLIMAS PODE SER A CHAVE DA EVOLUÇÃO BIOLÓGICA

José Arnaldo Favaretto

A Biogeografia explica a distribuição dos grupos de seres vivos pelo planeta.
Um exemplo: os tucanos, que de tão “brasileiros” transformaram-se em símbolo de nossas florestas tropicais. Existem diversas espécies de tucanos, e cada uma é encontrada em determinadas regiões .
Cada ser vivo tolera parâmetros ambientais (como temperatura, salinidade, pluviosidade, luminosidade, pH etc.) dentro de uma certa faixa, às vezes muito larga. As moscas domésticas, por exemplo, são encontradas na savana africana, a quase 40oC, ou no Ártico, em temperaturas próximas de 0oC. Quando um ecossistema reúne características que permitem a sobrevivência de uma espécie, então ele pode ser o seu hábitat. O tucano da espécie R. ariel vive na Floresta Amazônica, na Mata Atlântica e em algumas áreas de cerrados, mas não no Domínio da Caatinga.
As condições ambientais mudam, tanto no “tempo comum” quanto no “tempo profundo”, ou seja, o tempo geológico, que escapa à nossa percepção mas deixa marcas nas rochas, nos fósseis e na vida. As alterações cíclicas da órbita terrestre, a deriva continental, a elevação de cordilheiras ou seu desgaste pelos agentes erosivos são eventos potencialmente capazes de afetar as condições climáticas.
Pesquisadores dos climas do passado investigam a espessa camada de gelo das calotas polares, retirando cilindros progressivamente mais profundos. Amostras de gelo de diferentes idades guardam indícios dos paleoclimas e evidenciam as fortes oscilações de temperatura experimentadas pelo planeta. Os climas são agentes da seleção natural. Alterações climáticas afetam a distribuição da vida e podem ter desempenhado importante papel na evolução.
O “esquenta-e-esfria” e o “seca-emolha” alteram os ecossistemas e as condições de sobrevivência dos organismos.
Em cinco dos seis maiores episódios de extinção em massa, é possível identificar correlação com alterações climáticas (em geral, um intenso resfriamento do planeta).
Esses períodos de resfriamento são seguidos por períodos de aquecimento, nos quais a quantidade de espécies aumenta.

A EXPLOSÃO CAMBRIANA E A AVENTURA HUMANA
Um dos maiores desafios para a biologia evolucionista é a explosão cambriana, um verdadeiro “big bang” da vida. Há cerca de 570 milhões de anos, a vida unicelular que caracterizou o Pré-Cambriano explodiu em uma plêiade de formas complexas.
Quando a explosão terminou, estavam presentes quase todos os grupos de animais existentes hoje na Terra. E tudo ocorreu em “apenas” 10 milhões de anos (menos de 0,2% do tempo de vida do planeta)!
Algumas hipóteses para o florescimento da vida na explosão cambriana associam-se a alterações climáticas. O final do Pré-Cambriano caracterizou-se por intenso resfriamento, que deu à Terra feições de uma “bola de neve” (Snowball Earth). Com o aquecimento que se seguiu, cresceu maciçamente a população de organismos marinhos unicelulares e fotossintetizantes, o que elevou a concentração de oxigênio na atmosfera. A eficiência energética dos processos respiratórios aumentou, permitindo o desenvolvimento de formas maiores e mais sofisticadas, capazes de produzir carapaças, conchas, esqueletos e outras estruturas protetoras, que imprimiram suas marcas no registro fóssil.
Nos últimos 50 mil anos, o Homo sapiens experimentou algumas oscilações climáticas, e uma delas foi uma rigorosa glaciação, que provocou o congelamento dos oceanos e uma regressão marinha. Essa regressão expôs partes do leito oceânico, criando “pontes” entre continentes. Aproveitando uma dessas pontes, povos asiáticos atravessaram o estreito de Behring (então um “corredor” seco de 1.600 quilômetros) e chegaram à América do Norte.
Quando isso ocorreu? Para alguns, há 35 mil anos; para outros, em algum momento entre 24 mil e 9 mil anos; finalmente, há os que defendem que ocorreram diversas ondas migratórias.
Há aproximadamente 20 mil anos, no fim da glaciação, teve início uma onda de transgressão marinha que aumentou o nível médio dos oceanos em mais de 100 metros, em todo o mundo. As águas do mar invadiram as bordas continentais expostas desde a última regressão. Seguiu-se um período de relativa estabilização nos níveis atuais, o que parece ter acontecido entre 5 e 10 mil anos atrás, quando surgiram as primeiras concentrações urbanas, na maioria em áreas litorâneas.
Por volta de 800 d.C., iniciou-se um período de moderado aquecimento, que reduziu a superfície congelada dos oceanos boreais e facilitou a navegação por latitudes elevadas do Hemisfério Norte. Aproveitando as condições favoráveis, os vikings botaram os barcos na água e colonizaram terras norte-americanas. A Groenlândia tem um nome sugestivo: Greenland, “Terra Verde”, pois ficava coberta de vegetação durante a maior parte do ano.

EVOLUÇÃO, CLIMA E POLÍTICA
Para um grupo de cientistas – os “climatologistas céticos” – a atual onda de aquecimento global é parte de um dos ciclos normais de oscilação da temperatura, e não decorrente da ação humana . Esse tem sido um dos argumentos do governo Bush para não aderir ao Protocolo de Kyoto, que restringe a emissão de gases de efeito estufa.
Não é apenas em efeito estufa que essa turma parece não acreditar. No meio da atual maré criacionista, que assola governos e até escolas, a explosão cambriana tem sido apontada como evidência irrefutável de um momento supremo da “criação”. Argumentam seus defensores que tal aumento súbito da biodiversidade só pode ter sido obra de uma entidade superior. “Se não conhecemos a explicação, é porque ela não existe; então deixem que a religião e a fé explicam”. Conversa fiada! Por conta disso, muita gente boa queimou nas fogueiras do Santo Ofício. A ciência honesta prefere simplesmente dizer que ainda não temos certeza do que exatamente ocorreu e por que ocorreu.
Clima e vida associam-se em intricados mecanismos de feedback, não totalmente compreendidos. Em um artigo publicado na revista Nature, o geólogo James White afirmou: “Se a Terra tivesse um manual de instruções, no capítulo referente ao clima e à temperatura viria escrito: Não toquem nesses botões!” Pense nisso ao escolher seu próximo modelo de automóvel e, principalmente, na hora de votar.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

A CIÊNCIA DO AQUECIMENTO GLOBAL

Nos Estados Unidos, o verão de 1988 foi um inferno. As planícies centrais sofreram sob a maior seca de que se tem notícia. As safras perdidas, o rebaixamento das águas do rio Mississipi e os registros de cinco anos muito quentes na década de 80 reativaram a discussão sobre o aquecimento global.
A teoria do efeito estufa não era nova. Em fins do século XIX, alguns cientistas elaboraram seus fundamentos. Eles constataram que o dióxido de carbono (CO2) e outros gases como o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O) desempenham a função, essencial para o desenvolvimento da vida, de reter na atmosfera parte do calor recebido pelo planeta. E intuíram que a “estufa natural” seria intensificada pelo aumento da concentração atmosférica dos gases gerados pela queima de lenha, carvão e petróleo.
A política ambiental ganhou novo impulso nos anos 70. Sob o influxo da “crise do petróleo”, nasciam na Europa os “partidos verdes”. Em 1975, cientistas formularam a tese atual sobre o efeito estufa e previram um aumento de cerca de 30C, na temperatura média global, no horizonte de 2050. O dióxido de carbono era encontrado em concentrações de 290 partes por milhão (ppm) em 1880, mas já atinge as 370 ppm. O metano, no mesmo intervalo, saltou de 800 partes por bilhão (ppb) para 1.700 ppb. O óxido nitroso, de 285 ppb para 315 ppb. A maior parte do aumento ocorreu a partir da década de 60.
Os registros globais de temperatura tornaram-se mais acurados. Eles mostram que a Terra experimentou aquecimento médio entre 0,50C e 1,00C ao longo do século XX.
Dados colhidos por satélites sugerem que a primavera começa cerca de uma semana “adiantada”. Aves migratórias parecem deslocar-se antecipadamente para as altas latitudes, permanecendo lá por mais tempo. O nível médio dos oceanos apresentou aumento secular de 10 a 25 centímetros. O Instituto do Ártico sustenta que a massa total das geleiras do planeta conheceu redução de 25%. A massa da calota polar da Antártida sofreu redução de 1,5% a cada década, nos últimos 50 anos, um período no qual a temperatura média do continente austral elevou-se em 2,50C.
Em 2001, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC), um corpo científico consagrado ao tema, revisou as projeções de 1975 e elaborou um modelo que prevê aquecimento de 0,50C a 2,50C até 2050 e entre 1,40C e 5,80C no horizonte de 2100. Mesmo um valor intermediário nessa faixa provocaria um cortejo de conseqüências potenciais assustadoras, como o derretimento parcial das calotas de gelo polares e dos glaciares de altitude, com transgressão marinha e inundações devastadoras em cidades costeiras como Nova York, Tóquio, Londres e Buenos Aires.
O aquecimento global tende a gerar mudanças generalizadas nos climas e ecossistemas, nas potencialidades agrícolas dos solos e na distribuição mundial das pragas e dos vetores de doenças. A maioria dessas mudanças teria impactos negativos, mas há exceções. Um estudo científico, por exemplo, projeta que a Passagem Noroeste, que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico pelos canais marítimos do Ártico canadense, estará livre de gelo praticamente o ano inteiro a partir do final da próxima década. A nova rota ártica substituiria a rota pelo Canal do Panamá, reduzindo em 7 mil quilômetros o trajeto entre a Europa e a Ásia.

EM BUSCA DE PROVAS
Durante a ECO-92, quando se discutia a Convenção sobre Mudanças Climáticas, as divergências científicas a respeito do aquecimento global funcionaram como instrumentos de argumentação dos Estados Unidos, o país que liderava a frente de rejeição a um tratado rigoroso. Mas as dúvidas desmoronaram no decênio seguinte.
Os registros térmicos revelaram que a década de 90 foi ainda mais quente que a anterior, e a mais quente de toda a história de medições. O verão europeu de 2003 conheceu ondas pavorosas de calor. Londres ardeu a 380C. No dia 10 de agosto, um domingo, o papa João Paulo II dirigiu-se aos fiéis, exortando-os a “pedir fervorosamente ao Senhor que conceda à sedenta terra o frescor da chuva”. Na França, cerca de 10 mil pessoas morreram em conseqüência do calor excessivo.
Os climas variam no tempo geológico e mesmo no tempo histórico. As evidências do aquecimento global, por si mesmas, não demonstram que suas causas têm origem antrópica. Mas a hipótese do aquecimento por causas essencialmente naturais, esgrimido por Washington e sustentado por cientistas céticos, encontra-se em crise terminal. Atualmente, a maioria esmagadora da comunidade científica concorda com a tese de que as atividades humanas desempenham papel decisivo no aumento secular da temperatura.
A mais recente evidência da tese foi exposta num artigo de Tim Barnett, um cientista do Instituto de Oceanografia, de La Jolla, Califórnia. Seguindo direção diferente da maior parte dos pesquisadores, Barnett decidiu investigar o aquecimento oceânico, não o atmosférico. Sua justificativa é poderosa: a água tem capacidade muito maior de reter calor que o ar e, portanto, deve guardar a parte principal do aquecimento global verificado nas últimas décadas.
Barnett construiu modelos de computador das variações estatísticas nas temperaturas oceânicas que poderiam ocorrer como resultado apenas da ação de fatores naturais e modelos das variação que resultariam de uma combinação de fatores naturais e antrópicos. Em seguida, comparou as variações de temperaturas observadas em relação a valores de 1960, em seis bacias oceânicas.
Os resultados impressionam . Os oceanos estão se aquecendo da superfície para o fundo. Na superfície, verifica-se aquecimento em torno de 0,50C em relação aos valores de 1960. A partir de 700 metros de profundidade, não se verificam variações significativas. As mudanças térmicas nas primeiras sete centenas de metros são significativas e, em todos os casos, coincidem com a faixa de variação resultante da interferência de fatores antrópicos.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

PROTOCOLO DE KYOTO É A APOSTA NA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

OS NEGÓCIOS JÁ DESCOBRIRAM QUE É POSSÍVEL REDUZIR EMISSÕES DE SUAS OPERAÇÕES. CONTRA O SENSO COMUM, A BRITISH PETROLEUM PERCEBEU QUE SERIA CAPAZ DE ALCANÇAR A SUA META ORIGINAL DE REDUZIR SUAS EMISSÕES 10% ABAIXO DOS NÍVEIS DE 1990 SEM CUSTO. DE FATO, A COMPANHIA ACRESCENTOU CERCA DE US$ 650 MILHÕES EM VALOR ACIONÁRIO POIS A MAIOR PARTE DAS REDUÇÕES DECORREU DA ELIMINAÇÃO DE VAZAMENTOS E DESPERDÍCIO. OUTRAS EMPRESAS – COMO A GERADORA ELÉTRICA ENTERGY, A MONTADORA TOYOTA E A GIGANTE DA MINERAÇÃO RIO TINTO – TÊM EXPERIÊNCIAS SIMILARES. A MENSAGEM NOTÓRIA DESSES EXPERIMENTOS É QUE A EFICIÊNCIA PODE, SIMULTANEAMENTE, GERAR LUCROS E REDUZIR EMISSÕES.

(JOHN BROWNE, CHEFE-EXECUTIVO DA BRITISH PETROLEUM, “BEYOND KYOTO”, FOREIGN AFFAIRS, JULY/AUGUST 2004, P. 26)

Foram nada menos que oito anos de árduas negociações mas, finalmente, em fevereiro entrou em vigor o Protocolo de Kyoto. A administração George W. Bush rejeitou o tratado em 2001, colocando em risco a sua implementação legal. Mas a Rússia, depois de vacilar , referendou-o.
A decisão russa assegurou o número mínimo de países para que o tratado pudesse vigorar.
O percurso até o Protocolo de Kyoto tem como ponto de partida a adoção da Convenção sobre Mudanças Climáticas Globais pela ECO-92, no Rio de Janeiro, em 1992. Os países desenvolvidos comprometeram-se a congelar, até o ano 2000, suas emissões de “gases de estufa” nos níveis de 1990. Mas não se fixaram limites nacionais compulsórios para emissões e o compromisso não se revestiu de valor jurídico.
O protocolo representou uma resposta ao fracasso da convenção, atestado pelo aumento significativo das emissões nos países desenvolvidos. E também traduziu a ansiedade gerada pela massa de dados científicos que corroboravam a tese da responsabilidade humana no aquecimento global .
Os compromissos assumidos em Kyoto são ambiciosos, mas flexíveis. Os países desenvolvidos concordaram com cortar suas emissões em 5,2%, em relação aos níveis de 1990, no período entre 2008 e 2012. Os países do Terceiro Mundo não têm metas compulsórias de redução de emissões, mas, em princípio, aceitaram a futura fixação de metas, válidas para depois de 2012.

EUA E AUSTRÁLIA: ESTRANHOS NO NINHO
A grande inovação é o sistema de comércio de créditos de emissões entre países. O tratado admite que países impossibilitados de atingir suas metas adquiram créditos de emissões de outros países. Os vendedores desses créditos são países que reduziram suas emissões além da meta fixada ou países do Terceiro Mundo com projetos de redução de suas próprias emissões.
Estados Unidos e Austrália são os dois países desenvolvidos que não ratificaram o protocolo. Pouca gente sentirá falta dos australianos. Mas os Estados Unidos representam, isoladamente, quase um quarto das emissões mundiais de “gases de estufa”.
Alguns analistas asseguram que Kyoto tornou-se irrelevante após a retirada americana. É uma avaliação simplista.

O MEIO AMBIENTE COMO NEGÓCIO
O senso comum interpreta o Protocolo de Kyoto como um fim em si mesmo. Imagina-se que a redução de emissões prevista no tratado possa frear o processo de aquecimento global. Sob essa perspectiva, a retirada americana impediria que se atinjam as metas globais de redução de emissões.
A interpretação não tem sentido. Os “gases de estufa” permanecem na atmosfera durante séculos. Assim, uma redução de emissões conseguida nos próximos anos terá pouco impacto sobre o aquecimento global no século XXI. Além disso, mesmo se os Estados Unidos ratificassem o protocolo amanhã, as emissões mundiais provavelmente aumentariam no horizonte de 2012, pois os países do Terceiro Mundo (entre eles, gigantes como China, Índia e Brasil) têm participação significativa e crescente na queima global de combustíveis fósseis.
A aposta de Kyoto é na inovação tecnológica.
Ao estabelecer limites compulsórios às emissões dos países desenvolvidos, o tratado gera um “imposto” sobre a queima de combustíveis fósseis. Assim, indiretamente, estimula a pesquisa e aplicação de novas tecnologias, tanto no campo da produção energética quanto no da eficiência no uso da energia.
Tudo parece banal quando se olha para os projetos de drenagem e aproveitamento de “gases de estufa” em aterros sanitários. Mas isso é um detalhe na paisagem.
Kyoto aposta numa revolução na indústria automobilística, com a substituição do velho motor a combustão interna por células de combustível limpas ou quase limpas (que já equipam protótipos de montadoras japonesas, européias e americanas). Também estimula a aposentadoria das usinas térmicas a carvão ou diesel, muito mais “sujas” que as usinas a gás natural.
Os negociadores de Kyoto sabiam que, nas próximas décadas, as emissões globais de “gases de estufa” podem ser duplicadas se as economias da China e da Índia continuarem a crescer nos ritmos atuais. A solução para esse problema não é tentar limitar o crescimento econômico dos países pobres, mas fornecer-lhes tecnologias energéticas radicalmente diferentes das atuais. No grande desenho de Kyoto, essa seria a função dos países desenvolvidos.

EUROPEUS NA LIDERANÇA
Os países europeus assumiram, desde o início, a liderança na elaboração do tratado. Quando Bush anunciou a retirada americana, os europeus aumentaram a pressão sobre a Rússia, até conseguirem a adesão de Moscou. Há dois meses, a União Européia abriu processo contra quatro de seus integrantes (Itália, Finlândia, Bélgica e Grécia) que resistem a introduzir o sistema de comercialização de créditos de carbono. A Europa interpreta Kyoto como oportunidade de saltar à dianteira de um novo campo da revolução tecno- científica.
Nos Estados Unidos, predomina a ambivalência. Bill Clinton assinou, relutantemente, o Protocolo de Kyoto. Bush abriu fogo contra o tratado desde a primeira campanha eleitoral. Há um século, o petróleo molda a economia americana e, há mais de três décadas, ocupa lugar central nas estratégias mundiais de Washington . Na atual administração, o presidente e o vice-presidente são “homens do petróleo”, obsessivamente voltados para a segurança das jazidas da Arábia Saudita e do Iraque.
Onde os europeus enxergam oportunidade, eles enxergam custo.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

CÉLULAS-TRONCO DIVIDEM OPINIÃO NO BRASIL

Fernando Altemeyer Júnior

Na verdade, a ciência faz parte da procura do transcendental que é comum a outras tantas atividades culturais: arte, música, literatura” (Ilya Prigogine). Nós podemos ou não nos valer de células-tronco embrionárias para pesquisas e cura de doenças graves? Esta é a questão.
Assim se pronunciou sobre ela o cardeal arcebispo da Bahia, Dom Geraldo Majella Agnelo: “O debate a respeito das células-tronco foi conduzido no plano emocional, envolvendo pessoas doentes que, justamente, se apegam a qualquer esperança de cura. Por desinformação ou por interesses não revelados, curas obtidas em decorrência do uso de células-tronco adultas foram atribuídas a células embrionárias humanas.”
A cientista Alice Teixeria Ferreira, professora de Biofísica na Unifesp, afirmou: “Cabe aqui referir que a notícia disponível no meio médico especializado é no sentido de que a anemia, designada por ‘anemia de Fanconi’ vem sendo tratada, desde 2001, pelo Dr. Pasquini, com células-tronco de cordão umbilical, que são células-tronco adultas. Não se conhece qualquer relato científico de cura com células tronco embrionárias humanas.”
A Lei de Biossegurança é um problema científico, político ou ético? Ou, os três conjuntamente? No campo do saber humano, as ciências e a ética religiosa, produzem, tanto aquelas quanto esta, conhecimentos que pertencem a duas diferentes ordens ou lógicas. Uma deve reconhecer o estatuto da outra. É necessário superar a ignorância existente quer na ciência quer na religião.
Não há avanço científico que esteja acima de um ethos cultural e social, pois toda ética deve falar à totalidade da existência humana, e  portanto, também à ciência e às suas conquistas, particularmente as tecnológicas. A ética estimula os cientistas em sua árdua missão, especialmente em seus momentos de genialidade, e pede aos cientistas que a ajude a superar categorias morais obsoletas e inumanas.
As ciências constroem seu saber a partir do experimento e a ética, enquanto discurso articulado da moral religiosa, faz seu caminho bebendo no poço da Revelação. Esta distinção de naturezas, de objetos e de método, suficientemente evidente em nossos dias, não foi sequer aventada ou compreendida no parto da ciência moderna.
Acreditava-se, erroneamente, que todas as narrativas bíblicas deviam ser tomadas ao pé da letra: criação do mundo em seis dias, Eva tirada da costela de Adão, Josué parando o Sol em sua trajetória ao redor da Terra e, enfim, a refutação de evidências ancestrais, ainda que incompreendidas, quanto ao heliocentrismo, que resultaram na condenação infame de Galileu Galilei (1564- 1642) e, em termos diabólicos, na consumação do divórcio entre cientistas e teólogos.
O próprio Galileu procurou manter as narrativas dentro de seu universo lógico e qualificou o avanço científico como digno de credibilidade. Galileu diz em uma de suas cartas: “Tal doutrina (heliocêntrica) não é, portanto, ridícula, visto ser sustentada por grandíssimos homens e, embora o número destes seja pequeno, em comparação com os seguidores da opinião comum, isto é prova, antes, da dificuldade de ser compreendida do que de sua futilidade”.
Estes trágicos erros de interpretação foram fonte de graves conflitos, como podemos ver ainda contra Charles Darwin e, mais recentemente, contra Pierre Teilhard de Chardin. Pouco a pouco vamos resolvendo os impasses.
A autonomia da ciência, conquistada a duras penas na cristandade frente a certo obscurantismo cristão, é hoje perfeitamente reconhecida pela Igreja, tanto no universo quanto nas universidades confessionais. “É certo que a investigação científica tem suas próprias leis, às quais deve ater-se” (papa João Paulo II).
A ética religiosa cristã insiste que a ciência deve estar a serviço de toda a humanidade e da busca comum da verdade. E que entre elas não deve haver oposição mas sim uma mútua relação e complementaridade.

CONCEITOS EM DEBATE
O que dizem alguns cientistas? Resumidamente, os que aprovam o uso de células-tronco embrionárias dizem que estas são apenas material biológico, um aglomerado de células, portanto um objeto que, se devida e cientificamente aproveitado, passaria a ter utilidade social e de reposição terapêutica.
O que dizem alguns religiosos? Eis a opinião de Dom Geraldo Majella Agnelo: “A compreensão que a Igreja tem da dignidade da vida humana abrange todos os estágios de seu desenvolvimento, desde os momentos iniciais, no ventre materno, até os momentos finais da aventura terrena. A vida humana tem um valor sagrado, ela é inviolável. Quando se abre exceção a esta regra, a vida humana passa a ser considerada um bem do qual se pode dispor, passa a ser tratada de acordo com a utilidade que tem, podendo ser negociada, ferida, destruída, segundo os interesses dominantes. Aprovar uma lei que fere a vida, permitindo o uso de embriões para retirar deles as células-tronco não somente terá como conseqüência a destruição de uma grande quantidade de vidas humanas em seu estágio inicial, quando é mais indefesa e vulnerável, mas cria uma mentalidade que se difunde e penetra no quotidiano: todos aprenderão que se pode destruir uma vida sempre que isto traga alguma vantagem.”
As ciências podem, e muito, beneficiar e purificar a reflexão religiosa e sua práxis moral através de seu método rigoroso e de suas conclusões específicas, como temos podido evidenciar nestes últimos séculos, quer na antropologia quer na lingüística, ou ainda nas freqüentes propostas dos modelos astrofísicos e cosmológicos.
E também na superação dos erros grosseiros, crenças supersticiosas, obscurantismos existentes em muitas comunidades religiosas. Um exemplo destes erros foi a declaração do Papa Leão XII contra o uso da vacina da varíola, que ele qualifica de bestial, feita em 1829: “Quem  quer que recorra à vacina deixa de ser filho de Deus ... a varíola é um juízo de Deus ... A vacina é um desafio lançado ao céu.”
Mas não esqueçamos do que disse Einstein: religião sem ciência é cega, e ciência sem religião é aleijada. Ou da mensagem de Henri de Lubac: “Quanto mais espessa é a ignorância mais acredita ser possuidora da verdade”.
A ética religiosa não é lesiva à atividade científica, mas o diálogo é difícil. Devemos chegar à síntese de Blaise Pascal: “Pensar faz a grandeza do homem. O homem não é mais que um caniço, o mais frágil da natureza, mas é um caniço pensante. Dois excessos: excluir a razão e não admitir nada além dela. Se nós submetermos tudo à razão, nossa religião não terá nada de misterioso ou de sobrenatural.
Mas, se nós formos contra os princípios da razão, nossa religião será absurda e ridícula.”

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA

Renan Antunes de Oliveira

Você é um jovem estudante brasileiro bem informado? Então pense e responda rápido: três coisas que você lembra de ter ouvido falar da Indonésia. Tsunami tem que estar na ponta da língua; o vulcão Krakatoa é um must do Discovery Channel; e a ilha de Bali, aquele lugar mágico, refúgio preferido dos pirados do planeta.Mais alguma coisa? Difícil, não é?
Na noite da sexta-feira, 11 de março, invertemos a pergunta. Queríamos saber o que sabia do Brasil um grupo de 12 jovens, idades variando entre 14 e 21, sendo 10 rapazes e duas garotas – elas, por serem muçulmanas, foram proibidas de sair nas fotos. A escolha deles pra este quis foi por acaso, feita num barzinho da periferia de Tangerang, cidade perto da capital Jacarta. O som que atraiu o repórter foi o de um violão. Aí, da porta aberta veio um grito: ´´Mister!´´ (os indonésios chamam assim todos os ocidentais).
Entro na espelunca. As moscas desocupam um canto da mesa. Antes de me sentar eu passo o dedo nela, era pura gordura – felizmente, já estava dura, encrostada.
Parada para uma digressão: os indonésios não têm os mesmos hábitos de higiene dos brasileiros. A feira deles é uma coisa tão imunda que vai além da imaginação.
Tem porcos disputando as ruelas entre as bancas de frutas, comida servida em papel jornal, bares sem água, gente fazendo cocô nas calçadas – simplesmente dantesco.
Continuando, naquele bar, papo vai e vem, eles revelando suas preferências. O da viola gosta de Guns N'Roses. Artíka (assim soa o nome dela), 19, consegue entrar na conversa, coisa que meninas, lá, ficam de fora – para dizer que adora Madonna. É expulsa da roda pelos “machistinhas” presentes.
Corto o papo furado e pergunto então o que é que eles conhecem de Brasil.
“Ronaldo” é o primeiro lembrado, num grito compartilhado pôs três ou quatro.
Um  quinto carinha é mais sintético e diz “futebol”. As palavras se sucedem desordenadas. A turma ri bastante de si mesma e de cada resposta. Os indonésios têm aquela ingenuidade que a gente só vê, no Brasil, naqueles índios de beira de estrada.
Samba”, diz o carinha do violão.
“Woman”, é alguém querendo dizer a mulher brasileira. “Cófi” para café, e um engraçadinho completa “Koffi Anan”, o nome do secretário-geral da ONU que soa como sendo nosso pretinho. Outro lasca “Bety La Fea”, mas o repórter nem tenta explicar que ela não é produto nacional.
“Novela”! “Bay watch”! - isto eles devem ter visto na TV da mesma forma que nós brasileiros vimos. “Beach” - e alguém enrola a língua tentando dizer “coracapana”.
“Carnaval”, berra uma mocinha, pronuncia correta – as letras do nosso alfabeto soam iguais por lá.
Bem, se vocês se julgam espertos, eis aqui uma lição: os indonésios acertaram oito coisas sobre nós, e nós apenas três sobre eles. Ok, quatro, se alguém lembrou do dragão de Komodo, aquele enorme lagarto carnívoro de uma das 200 mil ilhas do arquipélago da Indonésia.
Lagartos carnívoros? É, existem. São maiores do que crocodilos, parecem pré-históricos, por isso o pessoal os chama de dragões. Um grupo de turistas australianos desceu lá por engano, anos atrás. Na manhã seguinte o barqueiro que foi buscá-los só encontrou uma máquina fotográfica, uma barraca vazia e um par de botas.
Na certa, foram comidos pelos dragões.

Uma tradição de ditadura e violência
Demétrio Magnoli

O brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 42 anos, instrutor de vôo no Rio de Janeiro, foi preso em agosto de 2003 no aeroporto de Jacarta com 13,4 quilos de cocaína escondidos em seu equipamento de asa delta. Em maio último, a Corte Suprema da Indonésia confirmou a pena de morte imposta por um tribunal do país.
Um outro brasileiro, o paranaense Rodrigo Gularte, preso em julho do ano passado, também no aeroporto de Jacarta, com seis quilos de cocaína em sua prancha de surfe, foi condenado à morte num tribunal de primeira instância. O presidente Lula encaminhou solicitação de clemência para Moreira ao governo indonésio e o Itamaraty acompanha o desenrolar do caso de Gularte. Mas a conjuntura política da Indonésia não oferece motivos de esperança aos brasileiros.
O arquipélago da Indonésia, que se estende em arco entre os oceanos Índico e Pacífico, tem área de 1,9 milhão de km2 e abriga cerca de 240 milhões de habitantes, a quarta maior população do mundo. A Indonésia é o mais pobre dos Tigres Asiáticos, com PIB per capita de US$ 3.200 (no Brasil, está em torno de US$ 7.600).
A Indonésia foi islamizada a partir do século XV por mercadores provenientes do norte da Índia. Hoje, os muçulmanos representam quase 90% da sua população, o que confere ao país a condição de maior centro demográfico do mundo islâmico.
Portugueses instalaram entrepostos no arquipélago no século XVI, mas a Companhia das Índias Orientais acabou por estabelecer seu domínio no século seguinte. A colônia holandesa foi ocupada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, o líder nacionalista Ahmed Sukarno proclamou a independência mas a Holanda só se retirou depois de enfrentar quatro anos de guerrilha.
Em 1965, agitações comunistas provocam violenta reação das forças armadas. O banho de sangue termina com 300 mil mortos, a queda do governo Sukarno e a transferência do poder, no ano seguinte, para o general Suharto. O novo regime, apoiado pelos Estados Unidos, converte-se em ditadura pessoal e cleptocrática, sustentada pelos militares.
A ditadura de Suharto dura até 1998, quando uma onda incontrolável de protestos populares força a renúncia do presidente. As primeiras eleições livres conduzem ao poder Megawati Sukarnoputri, a filha de Sukarno. Nas eleições presidenciais do ano passado, Sukarnoputri não consegue um segundo mandato. No seu lugar, assume o general Susilo Bambang Yuahoyono, eleito com 60% dos votos. O novo presidente, um antigo associado ao regime de Suharto, fez do combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas a sua plataforma eleitoral.
No início do seu governo, Sukarnoputri resistiu à pena de morte mas, nos últimos meses de mandato, autorizou diversas execuções. Sob o governo de Susilo Bambang, dificilmente haverá clemência a condenados por tráfico de drogas. Quando o juiz anunciou a sentença de morte do brasileiro Gularte, ativistas de um movimento antidrogas instalados na platéia irromperam em aplausos. Na triste tradição da Indonésia, a pena é cumprida com o esmagamento do crânio pela pata de um elefante. Nos últimos tempos, porém, tem sido utilizado o método “civilizado” do fuzilamento.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

OH! CAMILLA!

As trapalhadas, histórias e escândalos que envolvem integrantes da família real inglesa fazem a delícia da imprensa britânica e, em menor escala, da mundial. Quem não se recorda das grandes manchetes sobre a vida e a morte de Lady Di, por exemplo?
O escândalo do momento refere-se ao anunciado casamento do príncipe Charles, herdeiro do trono, ex-marido de Lady Di e namorado de Camilla Parker-Bowles. A perspectiva do matrimônio divide a Igreja Anglicana e a opinião pública, pois Charles e Camilla mantinham relações sexuais antes do fim dos respectivos casamentos. O príncipe divorciou-se em 1997, dois anos depois da amante.
Mas o fascínio exercido pela família real não é recente. A origem mítica da Inglaterra é atribuída aos feitos do rei Arthur e de sua corte, reunida em torno da famosa mesa redonda. Arthur, o portador de Excalibur, protegido e inspirado por Deus e pelo mago Merlin, teria sido o responsável pela unificação definitiva de uma multiplicidade de pequenos reinos espalhados pela Bretanha, logo após a queda do Império Romano (século V, início da Idade Média), consolidando a vitória sobre os inimigos saxões e irlandeses.
Muitos séculos depois, já no Renascimento, o maior dramaturgo de todos os tempos, William Shakespeare (1564-1616), inspirou-se na corte para escrever suas célebres tragédias. “Macbeth” explora as conseqüências da ambição desmedida do ocupante do trono; “Rei Lear” conta a história do rei bom, porém insensato, que, ao dividir o poder entre três filhas, gerou uma guerra civil; “Hamlet” é o príncipe paralisado por um desejo de vingança que conduz o próprio reino à destruição; “Júlio César” explora o tênue fio que separa a grandeza da mesquinhez; “A Tempestade” conta a saga do nobre Próspero, sábio o suficiente para desprezar o poder.
Várias outras peças do bardo de Stratford tratam diretamente da história da Inglaterra: a trilogia sobre Henrique VI, as peças “Ricardo I”, “Ricardo II” e “Ricardo III”, “Rei João”, as duas partes sobre Henrique IV e, finalmente, “Henrique VIII”. Mesmo alguns de seus trabalhos mais líricos, como “Romeu e Julieta”, abordam as relações entre indivíduos face ao poder de Estado e o simbolismo mobilizado por laços de sangue.
As peças de Shakespeare refletem o momento crucial, repleto de dúvidas e ansiedades, da transformação do Reino Unido – cuja formação foi iniciada com a Batalha de Hastings, em setembro de 1066, e a subseqüente submissão, três anos depois, do reino da Escócia – em Estado moderno, dotado de um aparato militar, jurídico e burocrático centralizado, cuja estabilidade dependia, substancialmente, da figura do rei.
O período foi marcado, sobretudo, por Ricardo III, derrotado em 1485 por Henrique VII, que iniciou a era dos Tudor. Seu sucessor, Henrique VIII, rompeu com a Sé romana e criou a Igreja Anglicana, usando como pretexto o desejo de se divorciar de Catarina de Aragão e casar-se com Ana Bolena, atitude proibida pelo papa. Durante as quatro décadas de seu reinado, Henrique VIII remodelou completamente a máquina do Estado, atribuiu maior importância ao Parlamento, incorporou o reino de Gales ao sistema administrativo britânico, estabeleceu o reinado da Irlanda.
Com intuição extraordinária, Shakespeare percebeu aquilo que hoje são favas contadas: a história da formação e consolidação do Reino Unido como Estado moderno é indissociável da história da família real. Mesmo no período mais recente, quando a própria existência do reino foi seriamente ameaçada pelo ataque nazista, coube principalmente à rainha Elizabeth (1900- 2002), mãe de Elizabeth II, manter elevado o moral da resistência britânica.
Ao contrário de outras famílias reais, ela se recusou a abandonar o seu país. Eis sua resposta a uma indagação sobre se retiraria de Londres as duas filhas pequenas durante os bombardeios aéreos alemães:
“As meninas não partirão a não ser que eu parta. Eu não partirei a não ser que o rei o faça. E, de qualquer modo, o rei não partirá sob nenhuma circunstância.”
Na monarquia, os assuntos do reino confundem-se com as atitudes e opções individuais dos principais integrantes da família real. O público e o privado jamais se separam plenamente – exatamente por isso não é fácil criticar o assédio e os mexericos da mídia. Fica, então, a pergunta:
o que você acha, Charles tem ou não o direito de se casar com Camilla?

Boletim Mundo n° 2 Ano 13