quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

GEOPOLÍTICA ANGLO-AMERICANA MOLDOU O GOLFO PÉRSICO

Ao longo do século XX, a Grã-Bretanha e, mais tarde, os Estados Unidos definiram a  rquitetura política e estratégica do “Oriente Médio petrolífero”.

Newton Carlos
No começo da década de 1920, a Grã-Bretanha assumiu o controle, por mandato da Liga das Nações, das províncias de Bagdá, Mosul e Basra, o trio que resultou no Iraque.
Ganhava impulso a corrida pelo domínio do petróleo do Oriente Médio por parte da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e das “sete irmãs”, as grandes corporações ocidentais (Exxon, Royal Dutch Shell, British Petroleum, Texaco, Mobil, Socal, hoje Chevron, e Gulf Oil). O primeiro a tratá-las como “sisters” foi Mattei, chefe da estatal petrolífera da Itália, que tentou quebrar o oligopólio e teve morte suspeita num desastre de avião.
Empresas privadas queriam não só extrair, regular os níveis de produção e impor os preços de um dos melhores negócios do mundo. Mas, a questão maior era a submissão do Oriente Médio aos objetivos políticos e estratégicos britânicos. Estavam em pauta tanto estratégias de poder nacionais quanto a sede corporativa de faturamento.
As corporações ocidentais interessavam-se, sobretudo, por fontes seguras de petróleo barato.
O primeiro ciclo, dominado pelos britânicos, durou 32 anos, de 1918 a 1950. Foi por desatenção dos britânicos que os americanos conseguiram sua primeira concessão na Arábia Saudita, nos anos 30. Mais tarde, com o declínio da Grã-Bretanha e a ascensão dos Estados Unidos, os interesses privados ficaram, afinal, de mãos livres no universo petrolífero.
A disputa anglo-americana desenrolou-se como um dueto, muitas vezes desafinado, os britânicos com projetos imperiais, os americanos só pensando em negócios. O ponto de partida foi a “revitalização” nos anos 20, feita por Londres em função de razões de Estado, da Turkish Petroleum Company (TPC), da qual brotou a Iraq Petroleum Company. As províncias que formaram o Iraque pertenceram ao Império Turco-Otomano, derrotado na Primeira Guerra Mundial (1914-18).
A TPC foi comprada em 1918 por capitais britânicos (majoritários), holandeses e alemães. O Império Turco-Otomano agonizava e a companhia conseguiu o direito de explorar o petróleo do Iraque. A operação com a TPC incorporou-se ao esforço por estabilizar uma nova colônia, o Iraque, e acabou sendo usada para convencer a França a aceitar uma “nova ordem” no Oriente Médio.
No fim da guerra, os franceses absorveram a porção alemã da TPC. Na conferência de San Remo, em 1920, a Grã-Bretanha reconheceu a França como parceira, especialmente do Iraque. Os Estados Unidos, marginalizados, protestaram. Londres aceitou que injeções de capitais americanos no Iraque poderiam servir aos interesses políticos britânicos. Mas se queixavam de que o Departamento de Estado americano atuava em nome dos interesses de empresas (Mobil e a Exxon).
A Grã-Bretanha usou a TPC e sua sucessora, a Iraq Petroleum Company, na construção de alianças imperiais, ignorando o poder crescente dos Estados Unidos.

A HORA E A VEZ DOS ESTADOS UNIDOS
Numa conjuntura de redução acentuada das reservas internas de petróleo, Washington adotou uma política petrolífera mais agressiva no Oriente Médio. Franklin Roosevelt tornou-se o autor da primeira tentativa de inserção do governo americano no corpo de acionistas de uma empresa petrolífera, a California Arabian Oil Company.
Washington também tentou negociar um acordo anglo-americano regulamentando a produção de petróleo no Oriente Médio. Fracasso rotundo em ambos os casos.
Os detalhes dessas tentativas revelam o entrechoque das prioridades de política externa com os interesses dos produtores independentes de petróleo americanos. Em 1943 Harold Ickes, secretário do Interior de Roosevelt, propôs a criação de uma agência federal que comprasse o controle acionário da empresa dona das reservas petrolíferas sauditas. Três anos antes, Roosevelt tinha se recusado a ajudar a monarquia saudita, em crise financeira.
Ickes não desistiu. “O petróleo saudita é tão importante para a segurança nacional que é desejável um controle governamental direto”, afirmaria pouco depois. Foi um Deus nos acuda. Resistência feroz da indústria petrolífera e, também, de setores do governo. Projetos intervencionistas não passavam nem pela porta do secretário de Estado, Cordell Hull.
Tampouco foi aceita a alternativa de um acordo “regulatório” com os britânicos. Outro esquema de Roosevelt, reagiu um executivo petrolífero, “destinado a fortalecer o Estado, transformando-o num super cartel, em detrimento da empresa privada.” Todo o Texas, cheio de produtores independentes, mobilizou-se contra o pacto.
Mas, no exterior, valia o intervencionismo militar favorável às corporações americanas. Em 1952, a CIA conseguiu pela primeira vez derrubar um governo estrangeiro, o de Mohammad Mossadegh, que nacionalizara o petróleo do Irã.
Em 1960, com cinco membros iniciais, foi criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). “Um cartel contra o cartel”, o das “sisters”, disse um dos pais da idéia, o venezuelano Perez Alonso. Exportadores com perspectiva de controle de 90% do mercado faziam história, segundo Alonso. Mas, no fim, os interesses de Washington e das corporações petrolíferas acomodaram-se com os da OPEP. A convergência foi possibilitada pela aliança estratégica entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita.
Nos anos 70, americanos e sauditas imaginaram um “modelo”. Foi feita uma nacionalização “pactuada” da Arabian American Oil Company, a Aramco, sucessora da antiga California Arabian Oil Company. Os estrangeiros abriam mãos do controle da extração, desde que ficassem com garantia de fornecimentos suficientes para continuar dominando os mercados. O “modelo” sofreu um “susto” quando a OPEP interrompeu, temporariamente, o fornecimento de petróleo ao Ocidente, como retaliação ao apoio de Washington a Israel, na guerra de outubro de 1973. Mas, a reação ameaçadora do presidente americano Richard Nixon e do seu secretário de Estado, Henry Kissinger, recolocou a OPEP no eixo.
A estabilidade da monarquia saudita e a segurança das reservas de petróleo do Golfo Pérsico formam, até hoje, o verso e o reverso da política de Washington para o “Oriente Médio petrolífero”.
No fim das contas, é por isso que os Estados Unidos não desistem do Iraque.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

Nenhum comentário:

Postar um comentário