quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA

Renan Antunes de Oliveira

Você é um jovem estudante brasileiro bem informado? Então pense e responda rápido: três coisas que você lembra de ter ouvido falar da Indonésia. Tsunami tem que estar na ponta da língua; o vulcão Krakatoa é um must do Discovery Channel; e a ilha de Bali, aquele lugar mágico, refúgio preferido dos pirados do planeta.Mais alguma coisa? Difícil, não é?
Na noite da sexta-feira, 11 de março, invertemos a pergunta. Queríamos saber o que sabia do Brasil um grupo de 12 jovens, idades variando entre 14 e 21, sendo 10 rapazes e duas garotas – elas, por serem muçulmanas, foram proibidas de sair nas fotos. A escolha deles pra este quis foi por acaso, feita num barzinho da periferia de Tangerang, cidade perto da capital Jacarta. O som que atraiu o repórter foi o de um violão. Aí, da porta aberta veio um grito: ´´Mister!´´ (os indonésios chamam assim todos os ocidentais).
Entro na espelunca. As moscas desocupam um canto da mesa. Antes de me sentar eu passo o dedo nela, era pura gordura – felizmente, já estava dura, encrostada.
Parada para uma digressão: os indonésios não têm os mesmos hábitos de higiene dos brasileiros. A feira deles é uma coisa tão imunda que vai além da imaginação.
Tem porcos disputando as ruelas entre as bancas de frutas, comida servida em papel jornal, bares sem água, gente fazendo cocô nas calçadas – simplesmente dantesco.
Continuando, naquele bar, papo vai e vem, eles revelando suas preferências. O da viola gosta de Guns N'Roses. Artíka (assim soa o nome dela), 19, consegue entrar na conversa, coisa que meninas, lá, ficam de fora – para dizer que adora Madonna. É expulsa da roda pelos “machistinhas” presentes.
Corto o papo furado e pergunto então o que é que eles conhecem de Brasil.
“Ronaldo” é o primeiro lembrado, num grito compartilhado pôs três ou quatro.
Um  quinto carinha é mais sintético e diz “futebol”. As palavras se sucedem desordenadas. A turma ri bastante de si mesma e de cada resposta. Os indonésios têm aquela ingenuidade que a gente só vê, no Brasil, naqueles índios de beira de estrada.
Samba”, diz o carinha do violão.
“Woman”, é alguém querendo dizer a mulher brasileira. “Cófi” para café, e um engraçadinho completa “Koffi Anan”, o nome do secretário-geral da ONU que soa como sendo nosso pretinho. Outro lasca “Bety La Fea”, mas o repórter nem tenta explicar que ela não é produto nacional.
“Novela”! “Bay watch”! - isto eles devem ter visto na TV da mesma forma que nós brasileiros vimos. “Beach” - e alguém enrola a língua tentando dizer “coracapana”.
“Carnaval”, berra uma mocinha, pronuncia correta – as letras do nosso alfabeto soam iguais por lá.
Bem, se vocês se julgam espertos, eis aqui uma lição: os indonésios acertaram oito coisas sobre nós, e nós apenas três sobre eles. Ok, quatro, se alguém lembrou do dragão de Komodo, aquele enorme lagarto carnívoro de uma das 200 mil ilhas do arquipélago da Indonésia.
Lagartos carnívoros? É, existem. São maiores do que crocodilos, parecem pré-históricos, por isso o pessoal os chama de dragões. Um grupo de turistas australianos desceu lá por engano, anos atrás. Na manhã seguinte o barqueiro que foi buscá-los só encontrou uma máquina fotográfica, uma barraca vazia e um par de botas.
Na certa, foram comidos pelos dragões.

Uma tradição de ditadura e violência
Demétrio Magnoli

O brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 42 anos, instrutor de vôo no Rio de Janeiro, foi preso em agosto de 2003 no aeroporto de Jacarta com 13,4 quilos de cocaína escondidos em seu equipamento de asa delta. Em maio último, a Corte Suprema da Indonésia confirmou a pena de morte imposta por um tribunal do país.
Um outro brasileiro, o paranaense Rodrigo Gularte, preso em julho do ano passado, também no aeroporto de Jacarta, com seis quilos de cocaína em sua prancha de surfe, foi condenado à morte num tribunal de primeira instância. O presidente Lula encaminhou solicitação de clemência para Moreira ao governo indonésio e o Itamaraty acompanha o desenrolar do caso de Gularte. Mas a conjuntura política da Indonésia não oferece motivos de esperança aos brasileiros.
O arquipélago da Indonésia, que se estende em arco entre os oceanos Índico e Pacífico, tem área de 1,9 milhão de km2 e abriga cerca de 240 milhões de habitantes, a quarta maior população do mundo. A Indonésia é o mais pobre dos Tigres Asiáticos, com PIB per capita de US$ 3.200 (no Brasil, está em torno de US$ 7.600).
A Indonésia foi islamizada a partir do século XV por mercadores provenientes do norte da Índia. Hoje, os muçulmanos representam quase 90% da sua população, o que confere ao país a condição de maior centro demográfico do mundo islâmico.
Portugueses instalaram entrepostos no arquipélago no século XVI, mas a Companhia das Índias Orientais acabou por estabelecer seu domínio no século seguinte. A colônia holandesa foi ocupada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, o líder nacionalista Ahmed Sukarno proclamou a independência mas a Holanda só se retirou depois de enfrentar quatro anos de guerrilha.
Em 1965, agitações comunistas provocam violenta reação das forças armadas. O banho de sangue termina com 300 mil mortos, a queda do governo Sukarno e a transferência do poder, no ano seguinte, para o general Suharto. O novo regime, apoiado pelos Estados Unidos, converte-se em ditadura pessoal e cleptocrática, sustentada pelos militares.
A ditadura de Suharto dura até 1998, quando uma onda incontrolável de protestos populares força a renúncia do presidente. As primeiras eleições livres conduzem ao poder Megawati Sukarnoputri, a filha de Sukarno. Nas eleições presidenciais do ano passado, Sukarnoputri não consegue um segundo mandato. No seu lugar, assume o general Susilo Bambang Yuahoyono, eleito com 60% dos votos. O novo presidente, um antigo associado ao regime de Suharto, fez do combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas a sua plataforma eleitoral.
No início do seu governo, Sukarnoputri resistiu à pena de morte mas, nos últimos meses de mandato, autorizou diversas execuções. Sob o governo de Susilo Bambang, dificilmente haverá clemência a condenados por tráfico de drogas. Quando o juiz anunciou a sentença de morte do brasileiro Gularte, ativistas de um movimento antidrogas instalados na platéia irromperam em aplausos. Na triste tradição da Indonésia, a pena é cumprida com o esmagamento do crânio pela pata de um elefante. Nos últimos tempos, porém, tem sido utilizado o método “civilizado” do fuzilamento.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

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