quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

CÉLULAS-TRONCO DIVIDEM OPINIÃO NO BRASIL

Fernando Altemeyer Júnior

Na verdade, a ciência faz parte da procura do transcendental que é comum a outras tantas atividades culturais: arte, música, literatura” (Ilya Prigogine). Nós podemos ou não nos valer de células-tronco embrionárias para pesquisas e cura de doenças graves? Esta é a questão.
Assim se pronunciou sobre ela o cardeal arcebispo da Bahia, Dom Geraldo Majella Agnelo: “O debate a respeito das células-tronco foi conduzido no plano emocional, envolvendo pessoas doentes que, justamente, se apegam a qualquer esperança de cura. Por desinformação ou por interesses não revelados, curas obtidas em decorrência do uso de células-tronco adultas foram atribuídas a células embrionárias humanas.”
A cientista Alice Teixeria Ferreira, professora de Biofísica na Unifesp, afirmou: “Cabe aqui referir que a notícia disponível no meio médico especializado é no sentido de que a anemia, designada por ‘anemia de Fanconi’ vem sendo tratada, desde 2001, pelo Dr. Pasquini, com células-tronco de cordão umbilical, que são células-tronco adultas. Não se conhece qualquer relato científico de cura com células tronco embrionárias humanas.”
A Lei de Biossegurança é um problema científico, político ou ético? Ou, os três conjuntamente? No campo do saber humano, as ciências e a ética religiosa, produzem, tanto aquelas quanto esta, conhecimentos que pertencem a duas diferentes ordens ou lógicas. Uma deve reconhecer o estatuto da outra. É necessário superar a ignorância existente quer na ciência quer na religião.
Não há avanço científico que esteja acima de um ethos cultural e social, pois toda ética deve falar à totalidade da existência humana, e  portanto, também à ciência e às suas conquistas, particularmente as tecnológicas. A ética estimula os cientistas em sua árdua missão, especialmente em seus momentos de genialidade, e pede aos cientistas que a ajude a superar categorias morais obsoletas e inumanas.
As ciências constroem seu saber a partir do experimento e a ética, enquanto discurso articulado da moral religiosa, faz seu caminho bebendo no poço da Revelação. Esta distinção de naturezas, de objetos e de método, suficientemente evidente em nossos dias, não foi sequer aventada ou compreendida no parto da ciência moderna.
Acreditava-se, erroneamente, que todas as narrativas bíblicas deviam ser tomadas ao pé da letra: criação do mundo em seis dias, Eva tirada da costela de Adão, Josué parando o Sol em sua trajetória ao redor da Terra e, enfim, a refutação de evidências ancestrais, ainda que incompreendidas, quanto ao heliocentrismo, que resultaram na condenação infame de Galileu Galilei (1564- 1642) e, em termos diabólicos, na consumação do divórcio entre cientistas e teólogos.
O próprio Galileu procurou manter as narrativas dentro de seu universo lógico e qualificou o avanço científico como digno de credibilidade. Galileu diz em uma de suas cartas: “Tal doutrina (heliocêntrica) não é, portanto, ridícula, visto ser sustentada por grandíssimos homens e, embora o número destes seja pequeno, em comparação com os seguidores da opinião comum, isto é prova, antes, da dificuldade de ser compreendida do que de sua futilidade”.
Estes trágicos erros de interpretação foram fonte de graves conflitos, como podemos ver ainda contra Charles Darwin e, mais recentemente, contra Pierre Teilhard de Chardin. Pouco a pouco vamos resolvendo os impasses.
A autonomia da ciência, conquistada a duras penas na cristandade frente a certo obscurantismo cristão, é hoje perfeitamente reconhecida pela Igreja, tanto no universo quanto nas universidades confessionais. “É certo que a investigação científica tem suas próprias leis, às quais deve ater-se” (papa João Paulo II).
A ética religiosa cristã insiste que a ciência deve estar a serviço de toda a humanidade e da busca comum da verdade. E que entre elas não deve haver oposição mas sim uma mútua relação e complementaridade.

CONCEITOS EM DEBATE
O que dizem alguns cientistas? Resumidamente, os que aprovam o uso de células-tronco embrionárias dizem que estas são apenas material biológico, um aglomerado de células, portanto um objeto que, se devida e cientificamente aproveitado, passaria a ter utilidade social e de reposição terapêutica.
O que dizem alguns religiosos? Eis a opinião de Dom Geraldo Majella Agnelo: “A compreensão que a Igreja tem da dignidade da vida humana abrange todos os estágios de seu desenvolvimento, desde os momentos iniciais, no ventre materno, até os momentos finais da aventura terrena. A vida humana tem um valor sagrado, ela é inviolável. Quando se abre exceção a esta regra, a vida humana passa a ser considerada um bem do qual se pode dispor, passa a ser tratada de acordo com a utilidade que tem, podendo ser negociada, ferida, destruída, segundo os interesses dominantes. Aprovar uma lei que fere a vida, permitindo o uso de embriões para retirar deles as células-tronco não somente terá como conseqüência a destruição de uma grande quantidade de vidas humanas em seu estágio inicial, quando é mais indefesa e vulnerável, mas cria uma mentalidade que se difunde e penetra no quotidiano: todos aprenderão que se pode destruir uma vida sempre que isto traga alguma vantagem.”
As ciências podem, e muito, beneficiar e purificar a reflexão religiosa e sua práxis moral através de seu método rigoroso e de suas conclusões específicas, como temos podido evidenciar nestes últimos séculos, quer na antropologia quer na lingüística, ou ainda nas freqüentes propostas dos modelos astrofísicos e cosmológicos.
E também na superação dos erros grosseiros, crenças supersticiosas, obscurantismos existentes em muitas comunidades religiosas. Um exemplo destes erros foi a declaração do Papa Leão XII contra o uso da vacina da varíola, que ele qualifica de bestial, feita em 1829: “Quem  quer que recorra à vacina deixa de ser filho de Deus ... a varíola é um juízo de Deus ... A vacina é um desafio lançado ao céu.”
Mas não esqueçamos do que disse Einstein: religião sem ciência é cega, e ciência sem religião é aleijada. Ou da mensagem de Henri de Lubac: “Quanto mais espessa é a ignorância mais acredita ser possuidora da verdade”.
A ética religiosa não é lesiva à atividade científica, mas o diálogo é difícil. Devemos chegar à síntese de Blaise Pascal: “Pensar faz a grandeza do homem. O homem não é mais que um caniço, o mais frágil da natureza, mas é um caniço pensante. Dois excessos: excluir a razão e não admitir nada além dela. Se nós submetermos tudo à razão, nossa religião não terá nada de misterioso ou de sobrenatural.
Mas, se nós formos contra os princípios da razão, nossa religião será absurda e ridícula.”

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

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