quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

VALSA DOS CLIMAS PODE SER A CHAVE DA EVOLUÇÃO BIOLÓGICA

José Arnaldo Favaretto

A Biogeografia explica a distribuição dos grupos de seres vivos pelo planeta.
Um exemplo: os tucanos, que de tão “brasileiros” transformaram-se em símbolo de nossas florestas tropicais. Existem diversas espécies de tucanos, e cada uma é encontrada em determinadas regiões .
Cada ser vivo tolera parâmetros ambientais (como temperatura, salinidade, pluviosidade, luminosidade, pH etc.) dentro de uma certa faixa, às vezes muito larga. As moscas domésticas, por exemplo, são encontradas na savana africana, a quase 40oC, ou no Ártico, em temperaturas próximas de 0oC. Quando um ecossistema reúne características que permitem a sobrevivência de uma espécie, então ele pode ser o seu hábitat. O tucano da espécie R. ariel vive na Floresta Amazônica, na Mata Atlântica e em algumas áreas de cerrados, mas não no Domínio da Caatinga.
As condições ambientais mudam, tanto no “tempo comum” quanto no “tempo profundo”, ou seja, o tempo geológico, que escapa à nossa percepção mas deixa marcas nas rochas, nos fósseis e na vida. As alterações cíclicas da órbita terrestre, a deriva continental, a elevação de cordilheiras ou seu desgaste pelos agentes erosivos são eventos potencialmente capazes de afetar as condições climáticas.
Pesquisadores dos climas do passado investigam a espessa camada de gelo das calotas polares, retirando cilindros progressivamente mais profundos. Amostras de gelo de diferentes idades guardam indícios dos paleoclimas e evidenciam as fortes oscilações de temperatura experimentadas pelo planeta. Os climas são agentes da seleção natural. Alterações climáticas afetam a distribuição da vida e podem ter desempenhado importante papel na evolução.
O “esquenta-e-esfria” e o “seca-emolha” alteram os ecossistemas e as condições de sobrevivência dos organismos.
Em cinco dos seis maiores episódios de extinção em massa, é possível identificar correlação com alterações climáticas (em geral, um intenso resfriamento do planeta).
Esses períodos de resfriamento são seguidos por períodos de aquecimento, nos quais a quantidade de espécies aumenta.

A EXPLOSÃO CAMBRIANA E A AVENTURA HUMANA
Um dos maiores desafios para a biologia evolucionista é a explosão cambriana, um verdadeiro “big bang” da vida. Há cerca de 570 milhões de anos, a vida unicelular que caracterizou o Pré-Cambriano explodiu em uma plêiade de formas complexas.
Quando a explosão terminou, estavam presentes quase todos os grupos de animais existentes hoje na Terra. E tudo ocorreu em “apenas” 10 milhões de anos (menos de 0,2% do tempo de vida do planeta)!
Algumas hipóteses para o florescimento da vida na explosão cambriana associam-se a alterações climáticas. O final do Pré-Cambriano caracterizou-se por intenso resfriamento, que deu à Terra feições de uma “bola de neve” (Snowball Earth). Com o aquecimento que se seguiu, cresceu maciçamente a população de organismos marinhos unicelulares e fotossintetizantes, o que elevou a concentração de oxigênio na atmosfera. A eficiência energética dos processos respiratórios aumentou, permitindo o desenvolvimento de formas maiores e mais sofisticadas, capazes de produzir carapaças, conchas, esqueletos e outras estruturas protetoras, que imprimiram suas marcas no registro fóssil.
Nos últimos 50 mil anos, o Homo sapiens experimentou algumas oscilações climáticas, e uma delas foi uma rigorosa glaciação, que provocou o congelamento dos oceanos e uma regressão marinha. Essa regressão expôs partes do leito oceânico, criando “pontes” entre continentes. Aproveitando uma dessas pontes, povos asiáticos atravessaram o estreito de Behring (então um “corredor” seco de 1.600 quilômetros) e chegaram à América do Norte.
Quando isso ocorreu? Para alguns, há 35 mil anos; para outros, em algum momento entre 24 mil e 9 mil anos; finalmente, há os que defendem que ocorreram diversas ondas migratórias.
Há aproximadamente 20 mil anos, no fim da glaciação, teve início uma onda de transgressão marinha que aumentou o nível médio dos oceanos em mais de 100 metros, em todo o mundo. As águas do mar invadiram as bordas continentais expostas desde a última regressão. Seguiu-se um período de relativa estabilização nos níveis atuais, o que parece ter acontecido entre 5 e 10 mil anos atrás, quando surgiram as primeiras concentrações urbanas, na maioria em áreas litorâneas.
Por volta de 800 d.C., iniciou-se um período de moderado aquecimento, que reduziu a superfície congelada dos oceanos boreais e facilitou a navegação por latitudes elevadas do Hemisfério Norte. Aproveitando as condições favoráveis, os vikings botaram os barcos na água e colonizaram terras norte-americanas. A Groenlândia tem um nome sugestivo: Greenland, “Terra Verde”, pois ficava coberta de vegetação durante a maior parte do ano.

EVOLUÇÃO, CLIMA E POLÍTICA
Para um grupo de cientistas – os “climatologistas céticos” – a atual onda de aquecimento global é parte de um dos ciclos normais de oscilação da temperatura, e não decorrente da ação humana . Esse tem sido um dos argumentos do governo Bush para não aderir ao Protocolo de Kyoto, que restringe a emissão de gases de efeito estufa.
Não é apenas em efeito estufa que essa turma parece não acreditar. No meio da atual maré criacionista, que assola governos e até escolas, a explosão cambriana tem sido apontada como evidência irrefutável de um momento supremo da “criação”. Argumentam seus defensores que tal aumento súbito da biodiversidade só pode ter sido obra de uma entidade superior. “Se não conhecemos a explicação, é porque ela não existe; então deixem que a religião e a fé explicam”. Conversa fiada! Por conta disso, muita gente boa queimou nas fogueiras do Santo Ofício. A ciência honesta prefere simplesmente dizer que ainda não temos certeza do que exatamente ocorreu e por que ocorreu.
Clima e vida associam-se em intricados mecanismos de feedback, não totalmente compreendidos. Em um artigo publicado na revista Nature, o geólogo James White afirmou: “Se a Terra tivesse um manual de instruções, no capítulo referente ao clima e à temperatura viria escrito: Não toquem nesses botões!” Pense nisso ao escolher seu próximo modelo de automóvel e, principalmente, na hora de votar.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

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