A teoria do efeito estufa não era nova. Em fins do século XIX, alguns cientistas elaboraram seus fundamentos. Eles constataram que o dióxido de carbono (CO2) e outros gases como o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O) desempenham a função, essencial para o desenvolvimento da vida, de reter na atmosfera parte do calor recebido pelo planeta. E intuíram que a “estufa natural” seria intensificada pelo aumento da concentração atmosférica dos gases gerados pela queima de lenha, carvão e petróleo.
A política ambiental ganhou novo impulso nos anos 70. Sob o influxo da “crise do petróleo”, nasciam na Europa os “partidos verdes”. Em 1975, cientistas formularam a tese atual sobre o efeito estufa e previram um aumento de cerca de 30C, na temperatura média global, no horizonte de 2050. O dióxido de carbono era encontrado em concentrações de 290 partes por milhão (ppm) em 1880, mas já atinge as 370 ppm. O metano, no mesmo intervalo, saltou de 800 partes por bilhão (ppb) para 1.700 ppb. O óxido nitroso, de 285 ppb para 315 ppb. A maior parte do aumento ocorreu a partir da década de 60.
Os registros globais de temperatura tornaram-se mais acurados. Eles mostram que a Terra experimentou aquecimento médio entre 0,50C e 1,00C ao longo do século XX.
Dados colhidos por satélites sugerem que a primavera começa cerca de uma semana “adiantada”. Aves migratórias parecem deslocar-se antecipadamente para as altas latitudes, permanecendo lá por mais tempo. O nível médio dos oceanos apresentou aumento secular de 10 a 25 centímetros. O Instituto do Ártico sustenta que a massa total das geleiras do planeta conheceu redução de 25%. A massa da calota polar da Antártida sofreu redução de 1,5% a cada década, nos últimos 50 anos, um período no qual a temperatura média do continente austral elevou-se em 2,50C.
Em 2001, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPPC), um corpo científico consagrado ao tema, revisou as projeções de 1975 e elaborou um modelo que prevê aquecimento de 0,50C a 2,50C até 2050 e entre 1,40C e 5,80C no horizonte de 2100. Mesmo um valor intermediário nessa faixa provocaria um cortejo de conseqüências potenciais assustadoras, como o derretimento parcial das calotas de gelo polares e dos glaciares de altitude, com transgressão marinha e inundações devastadoras em cidades costeiras como Nova York, Tóquio, Londres e Buenos Aires.
O aquecimento global tende a gerar mudanças generalizadas nos climas e ecossistemas, nas potencialidades agrícolas dos solos e na distribuição mundial das pragas e dos vetores de doenças. A maioria dessas mudanças teria impactos negativos, mas há exceções. Um estudo científico, por exemplo, projeta que a Passagem Noroeste, que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico pelos canais marítimos do Ártico canadense, estará livre de gelo praticamente o ano inteiro a partir do final da próxima década. A nova rota ártica substituiria a rota pelo Canal do Panamá, reduzindo em 7 mil quilômetros o trajeto entre a Europa e a Ásia.
EM BUSCA DE PROVAS
Durante a ECO-92, quando se discutia a Convenção sobre Mudanças Climáticas, as divergências científicas a respeito do aquecimento global funcionaram como instrumentos de argumentação dos Estados Unidos, o país que liderava a frente de rejeição a um tratado rigoroso. Mas as dúvidas desmoronaram no decênio seguinte.Os registros térmicos revelaram que a década de 90 foi ainda mais quente que a anterior, e a mais quente de toda a história de medições. O verão europeu de 2003 conheceu ondas pavorosas de calor. Londres ardeu a 380C. No dia 10 de agosto, um domingo, o papa João Paulo II dirigiu-se aos fiéis, exortando-os a “pedir fervorosamente ao Senhor que conceda à sedenta terra o frescor da chuva”. Na França, cerca de 10 mil pessoas morreram em conseqüência do calor excessivo.
Os climas variam no tempo geológico e mesmo no tempo histórico. As evidências do aquecimento global, por si mesmas, não demonstram que suas causas têm origem antrópica. Mas a hipótese do aquecimento por causas essencialmente naturais, esgrimido por Washington e sustentado por cientistas céticos, encontra-se em crise terminal. Atualmente, a maioria esmagadora da comunidade científica concorda com a tese de que as atividades humanas desempenham papel decisivo no aumento secular da temperatura.
A mais recente evidência da tese foi exposta num artigo de Tim Barnett, um cientista do Instituto de Oceanografia, de La Jolla, Califórnia. Seguindo direção diferente da maior parte dos pesquisadores, Barnett decidiu investigar o aquecimento oceânico, não o atmosférico. Sua justificativa é poderosa: a água tem capacidade muito maior de reter calor que o ar e, portanto, deve guardar a parte principal do aquecimento global verificado nas últimas décadas.
Barnett construiu modelos de computador das variações estatísticas nas temperaturas oceânicas que poderiam ocorrer como resultado apenas da ação de fatores naturais e modelos das variação que resultariam de uma combinação de fatores naturais e antrópicos. Em seguida, comparou as variações de temperaturas observadas em relação a valores de 1960, em seis bacias oceânicas.
Os resultados impressionam . Os oceanos estão se aquecendo da superfície para o fundo. Na superfície, verifica-se aquecimento em torno de 0,50C em relação aos valores de 1960. A partir de 700 metros de profundidade, não se verificam variações significativas. As mudanças térmicas nas primeiras sete centenas de metros são significativas e, em todos os casos, coincidem com a faixa de variação resultante da interferência de fatores antrópicos.
Boletim Mundo n° 2 Ano 13
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