domingo, 1 de janeiro de 2012

MOSCOU EM TEMPO DE EUFORIA

Carlos Serapião Jr.

Falar sobre Moscou num breve artigo é para mim difícil. Porque já tenho tanta estrada de Moscou, onde vivi dois anos e meio entre 1994 e 1997, passei férias praticamente todos os anos desde então e agora, novamente, moro na cidade há oito meses. Além disso, sou casado com uma russa e temos duas filhas. Não dá para resumir num artigo minha relação com Moscou ou como vejo e penso a capital da Rússia, atualmente. Melhor escolher apenas uns pontos pouco usuais e emitir algumas opiniões.
Não pretendo mencionar números do tipo população, renda per capita etc. Isto se encontra na Internet. Vou citar apenas uma estatística, para se ter uma idéia da revolução pela qual passa a Rússia: a economia cresce 6,5% ao ano desde 1999, surfando a alta mundial dos preços do petróleo e do gás natural, que representam parcela substancial das exportações do país. Moscou concentra boa parte desse crescimento, por ser capital política, econômica e cultural – uma soma de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.
Na Rússia, dois sinais de prosperidade de uma cidade são o percentual de carros importados e a quantidade de novos prédios residenciais. Em Moscou, esse percentual deve estar na faixa de 80% do total e os condomínios de luxo pululam por toda parte. É a segunda melhor capital da Europa para novos projetos imobiliários, após Istambul. Há dez anos, quando morei aqui como diplomata (hoje trabalho no setor privado, em comércio exterior), no máximo 10% da frota era formada por importados.
E não me lembro de ter visto muitos prédios em construção.
Outra coisa: não havia nenhum shopping center na cidade, exceto o GUM da Praça Vermelha, que era bem fraquinho.
Hoje, Moscou deve ter quase o mesmo número de shoppings de São Paulo, certamente mais do que no Rio de Janeiro.
Além das lojas para consumo de classe A, que se aglomeram no centro, onde há todas – rigorosamente todas – as melhores grifes européias. Como as fortunas russas têm mais ou menos uma década, há uma febre consumista extraordinária, exibicionista, narcisista.
Nas amplas avenidas de Moscou ou nas ruelas do centro antigo, Porsche Cayenne e outros modelos do gênero são figurinhas fáceis – como, digamos, o Pajero Full em São Paulo. A classe média também é emergente e está se vestindo cada vez melhor, sendo coisa do passado as pessoas se vestirem de maneira mais ou menos uniforme na Rússia, sobretudo em Moscou. O padrão é quase europeu das melhores cidades, com uma diferença interessante: em Moscou, vê-se nas ruas muito mais gente jovem!
Uma coisa que não mudou, porque sempre funcionou muito bem, é o metrô moscovita: onipresente e de alta eficiência.
Claro, é lotadíssimo nos horários de pico, mas a população é tão acima da média de bonita, que um passeio nesses horários é recomendável. Para o moscovita, o metrô é opção relativamente confortável nos dias de trânsito infernal, do qual curiosamente muitos aqui parecem se orgulhar, como sinal de progresso.
No quesito restaurantes, a capital russa ainda deixa a desejar. A quantidade e a variedade já é enorme, mais do que no Rio de Janeiro, menos do que em São Paulo.
Mas a classe média, que é no fundo quem carrega o piano do capitalismo em qualquer país, ainda não tem o hábito de sair a comer como, por exemplo, em Buenos Aires. Há exceções, cada vez mais freqüentes, de restaurantes com boa relação preço- qualidade, o que requer arte e tradição.
Assim, vai levar algum tempo até Moscou conquistar excelência nisso.
Por ser um tema urgente no Brasil, falemos de segurança. Segundo a ONU, a Rússia é um país violento, logo após Colômbia e Venezuela, tecnicamente empatado com o Brasil. Mas a violência aqui não atinge as pessoas aleatoriamente. Ela está concentrada em guerras em fronteiras remotas, nas disputas mafiosas e em acertos de contas em geral. Não se parece com a violência urbana no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Pode-se caminhar na rua à noite sem sobressalto, salvo abordagem da própria polícia para pedir documentos, mas sem arma apontada.
Agora alguns lugares imperdíveis, além da Praça Vermelha: a Universidade Estatal de Moscou, a Catedral de Cristo Salvador (que tem uma enorme cúpula de ouro maciço), a galeria Tretchakóvsky (sobretudo a ala dos pintores realistas russos dos século XIX), o restaurante Pushkin, um dos mais sofisticados de Moscou, e o Mosteiro de Novodévchy, no centro-sul da cidade. A ir a algum shopping, sugiro o Mega, onde a loja âncora principal é a IKEA.
Jim O’Neill, do banco de investimentos Goldman Sachs, inventou a sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) para destacar aquelas que seriam as novas grandes potências da globalização. Uma visita a Moscou evidencia que, por aqui, todos os que estão ganhando dinheiro acreditam na profecia de O’Neill. É um giro e tanto nas expectativas de um país que há apenas uma década estava desacreditado, e que conhece ciclos sucessivos de euforia e depressão.

Boletim Mundo n° 1 Ano 15

CINCO ESTRATÉGIAS ENERGÉTICAS

Roberto Candelori

Os níveis de emissões de gases de estufa dependem da combinação de fontes de energia de cada país. É assunto de alta política, sob influência cada vez maior da “diplomacia climática”.
Desenvolvimento econômico e consumo de energia são quase sinônimos. Energia significa, na era industrial, sobretudo combustíveis fósseis – e, desde meados do século XX, principalmente petróleo. Portanto, as emissões de gases de estufa per capita são diretamente proporcionais ao PIB per capita das nações. Certo?
Nem tanto. As emissões per capita de CO2 nos Estados Unidos giram em torno de 20 toneladas métricas ao ano mas na França elas não ultrapassam 6,5 toneladas métricas. Como explicar uma diferença tão acentuada entre países desenvolvidos?
O petróleo, já chamado de “ouro negro”, continua a representar um elemento estratégico fundamental para o desenvolvimento das nações. Mas as matrizes energéticas nacionais apresentam profundas diferenças, que refletem a diversidade de recursos naturais disponíveis e também as políticas estratégicas adotadas pelos Estados. Investiguemos cinco casos exemplares.
Estados Unidos, campeão do efeito estufa Maior economia do mundo, os Estados Unidos, com apenas 5% da população do globo, consomem um quarto de todo o petróleo produzido no planeta. Sua matriz de energia baseia-se na queima de combustíveis fósseis, que responde por cerca de 85% da energia consumida.
Mesmo assim, os Estados Unidos se recusaram a assinar o Protocolo de Kyoto. Mas agora o presidente George W. Bush anunciou o programa “Vinte em dez”: o governo quer que o consumo de gasolina do país diminua 20% nos próximos dez anos. O etanol seria responsável por 75% da compensação dessa redução.
O Japão, sem paletó e gravata O Japão tem na queima de combustíveis fósseis, principalmente o petróleo, o eixo da sua matriz energética.
Signatário do Protocolo de Kyoto e detentor de uma das maiores economias do mundo, com um PIB que gira em torno de 4,6 trilhões de dólares, o Japão aparece entre os grandes emissores de gases de estufa. Mas suas emissões per capita são menores que as americanas, em virtude do peso maior da fonte nuclear.
O país se comprometeu a cortar suas emissões de gases de estufa em 6% até 2012. Até aqui, adotou apenas medidas tímidas. Numa iniciativa inusitada o presidente da Toyota Motor, a maior companhia do Japão, propôs em 2005 uma campanha nacional para convencer os cidadãos a poupar energia abandonando os paletós e gravatas no verão.
Essa “revolução indumentária” teria o propósito de reduzir o consumo nacional de ar condicionado.
A França e a alternativa nuclear Importante membro da União Européia e defensora ferrenha das metas de redução de emissões, a França preconiza ações enérgicas para conter o avanço do efeito estufa. O presidente Jacques Chirac declarou recentemente que “a carência cada vez maior de recursos e a luta contra o aquecimento global exigem uma revolução no nosso modo de produção e consumo”. Foi além e sugeriu nada menos que um comitê global de governança sobre o clima, algo que Washington jamais aceitará.
A França singulariza-se, entre as grandes potências globais, pelo peso dominante das usinas nucleares na sua matriz energética. A geração de energia nessas usinas não libera gases de estufa. Os ambientalistas sempre apontaram os riscos associados aos resíduos radioativos (o “lixo nuclear”) e combateram o programa elétrico francês. Mas, atualmente, abriu-se uma notável dissidência: o cientista James Lovelock, autor da Hipótese de Gaia e um ícone de movimentos “verdes”, pronunciou-se favorável à estratégia nuclear.
A China, ainda na era do carvão A China transforma-se, gradativamente, numa das maiores potências mundiais e já preocupa outros gigantes, como Estados Unidos e Japão. O volume das suas exportações tem aumentado, nos últimos anos, em ritmo vertiginoso, superior a 30%, inundando o planeta com manufaturados baratos.
Evidentemente, a demanda por energia aumenta em velocidade similar e, com ela, as emissões de CO2.
A matriz energética chinesa reflete o passado da era industrial, baseando-se no carvão mineral, o mais “sujo” dos combustíveis fósseis, e na queima doméstica de lenha e fezes de animais. Mas, nos últimos cinco anos, duplicaram as importações de petróleo.
O futuro das emissões globais de gases de estufa depende, em grande parte, da evolução da matriz chinesa.
A substituição do carvão consumido no país por petróleo é insustentável, dos pontos de vista econômico e ambiental. A introdução de fontes “limpas”, em larga escala, mudaria a face do país e do mundo.
O Brasil, líder na biomassa Na matriz energética brasileira, os derivados de petróleo respondem por mais de 40% da energia consumida.
A queima de óleo diesel impulsiona a maior parte do transporte nacional. Mas são as queimadas e o desmatamento os grandes vilões brasileiros no palco das emissões globais de gases de estufa.
Mas o Brasil também se distingue positivamente. A fonte hídrica responde por 15% do total e a biomassa, por mais de 25%. Por enquanto, o consumo de biomassa baseia-se no álcool de cana e na queima de carvão vegetal e lenha. Mas o país aposta na exportação de energias alternativas, principalmente os biocombustíveis.
No passado recente, as estratégias energéticas nacionais organizaram-se apenas ao redor de cálculos de custos e dos projetos de poder geopolítico. Atualmente, a escolha da matriz energética exige o compromisso com a busca de recursos de baixo impacto ambiental. Eis um dos grandes desafios do século XXI.
Boletim Mundo n° 1 Ano 15

PROTOCOLO OU ENCRUZILHADA DE KYOTO?

Dez anos após a assinatura, o acordo que prevê a redução das emissões de gases que causam o efeito estufa avançou pouco. E, de acordo com o IPCC, ele é insuficiente para reduzir mudanças climáticas.

O Protocolo de Kyoto completa seu décimo aniversário diante de uma dupla encruzilhada. Avançou pouco a redução das emissões de gases de estufa e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que as suas metas são incapazes de impedir mudanças climáticas de peso, com graves conseqüências para a vida no planeta.
Assinado em 1997, o Protocolo entrou em vigor em fevereiro de 2005, sob ferrenha oposição dos Estados Unidos, o maior emissor individual de gases de estufa. O presidente americano George W. Bush retirou-se do acordo em 2001, sob o argumento de que suas metas compulsórias de emissões feriam os interesses econômicos de seu país. Bush também protestava contra os termos do acordo, que não previa metas específicas de redução de emissões para os países em desenvolvimento.
Segundo o acordo, o mundo deveria alcançar, entre 2008 e 2012, uma redução de 5,2% nas emissões dos seis gases que comprovadamente aceleram o efeito estufa. Para que o Protocolo entrasse em vigor, deveria ser ratificado por países que respondem por, no mínimo, 55% das emissões de gases. Isso só foi possível após a adesão da Rússia, o terceiro maior emissor mundial em 2004, que buscava uma maior aproximação com a União Européia.
A Europa sempre foi o grande contraponto aos Estados Unidos, lutando pela ratificação do Protocolo, que contou com a adesão de 141 países, inclusive o Brasil.
Foi o Brasil, aliás, que sugeriu uma cláusula engenhosa do acordo. Trata-se do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que prevê a possibilidade de países industrializados financiarem projetos de seqüestro de carbono (como a recuperação de matas) em países em desenvolvimento.
Esses projetos são computados nas metas de redução de emissões dos países avançados.
Acontece que as reduções obtidas até agora, pelos países industrializados aderentes ao Protocolo, foram modestas. Enquanto isso, os Estados Unidos aumentaram suas emissões em 10% nos últimos dez anos e, entre os chamados países emergentes, as emissões de gases de estufa aumentam rapidamente.
Mesmo a Europa, discursos à parte, pouco progrediu nas metas estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto. Em fevereiro, o diretor do Programa da ONU para o Ambiente, Achim Steiner, declarou que a Europa “não está fazendo sua parte”. Segundo Steiner, se o ritmo atual for mantido, apenas quatro países da União Européia terão atingido os objetivos definidos pelo acordo em 2012.
Mas o Protocolo defronta-se com uma segunda encruzilhada, de acordo com os estudos mais recentes do IPCC. O relatório do organismo, divulgado no início deste ano, prevê a necessidade de impedir a liberação de 650 bilhões de toneladas de CO2 (de um total estimado em 1,4 trilhão) até 2100 para evitar um aumento médio da temperatura global de 4,50C no período, o que causaria elevação do nível médio dos mares de 18 a 59 centímetros, com efeitos trágicos para as áreas costeiras em todo o planeta Mas nem tudo são más notícias, quando se tratados dez anos da assinatura do Protocolo de Kyoto. Nos Estados Unidos, muitas empresas e estados estão embarcando na redução voluntária da emissão de gases. A Califórnia, por exemplo, anunciou sua disposição de reduzir em 30% as emissões até 2016. O motivo é simples: em um país conhecido pela força dos consumidores, a opinião pública começa a cobrar de empresas e autoridades uma contribuição para um planeta mais limpo. Empresas vistas como “ecologicamente corretas”, experimentam altas maiores em suas ações cotadas em bolsas de valores.
Há também sinais evidentes de uma nova postura do governo Bush. Enroscado na guerra do Iraque petrolífero, e buscando uma menor dependência das importações de combustíveis fósseis, o governo começa a incentivar o uso de fontes de energia menos poluentes. Na América do Sul, Bush articula o acordo do etanol com o Brasil, a fim de criar um contrapeso à influência da Venezuela.
Ao mesmo tempo, esboça um acordo sobre emissões de gases de estufa com países da Ásia/Pacífico, de modo a abrir uma alternativa à liderança européia na “diplomacia climática” global.
Os europeus, comprometidos politicamente com o sucesso do Protocolo, têm que reagir a tempo de salvá-lo da falência anunciada. A União Européia anunciou, em janeiro, que pretende cortar em 20% as emissões de CO2 até 2020, em relação aos números de 1990. Daqui a pouco mais de uma década, 10% de todos os automóveis que rodam em suas estradas deverão queimar biocombustíveis.
No discurso, a Europa vai mais longe e propõe um corte de 30% nas emissões até 2020, desde que os outros países desenvolvidos – leia-se Estados Unidos – também adotem a meta ousada.
No futuro próximo, o mapa das emissões de gases de estufa sofrerá mudanças profundas. Antes de 2020, a China ultrapassará os Estados Unidos, tornando-se o maior emissor de CO2. A Índia, que já está ultrapassando o Japão, deixará a Rússia para trás em 2020 e assumirá a terceira posição mundial. Calcula-se que, em 2030, as emissões totais dos países em desenvolvimento superem as do mundo industrializado.
O novo mapa das emissões implica mudanças na política internacional para o clima. Se o Protocolo de Kyoto tiver uma segunda versão, os chamados países emergentes – China, Índia, Brasil e México, principalmente – serão inevitavelmente pressionados a adotar limites compulsórios de emissões. Por sorte, justamente nesses países se concentram as melhores oportunidades de redução de emissões, pois o crescimento da infra-estrutura industrial e energética poderia ocorrer já, com o uso de tecnologias “limpas”. No fundo, atrás dos discursos ambientais, esconde-se a corrida rumo a essas tecnologias – uma disputa que toca nos interesses econômicos vitais das grandes potências globais.

Boletim Mundo n° 1 Ano 15

HUMANIDADE CONTROLA O CLIMA GLOBAL, AFIRMA O IPCC

O AQUECIMENTO DO SISTEMA CLIMÁTICO É INEQUÍVOCO E AGORA É EVIDENTE POR MEIO DE OBSERVAÇÕES DE AUMENTOS NAS TEMPERATURAS MÉDIAS GLOBAIS DA ATMOSFERA E DOS OCEANOS, FUSÃO GENERALIZADA DE NEVE E GELO E ELEVAÇÃO GLOBAL DO NÍVEL MÉDIO DO MAR. (...) A MAIOR PARTE DO AUMENTO DAS TEMPERATURAS MÉDIAS GLOBAIS DESDE MEADOS DO SÉCULO XX É, MUITO PROVAVELMENTE, RESULTANTE DA ELEVAÇÃO DAS CONCENTRAÇÕES DE GASES DE ESTUFA PRODUZIDAS POR FONTES ANTROPOGÊNICAS. (...) INFLUÊNCIAS HUMANAS PERCEPTÍVEIS ATUALMENTE SE ESTENDEM A OUTROS ASPECTOS DO CLIMA, INCLUSIVE AQUECIMENTO OCEÂNICO, TEMPERATURAS MÉDIAS CONTINENTAIS, TEMPERATURAS EXTREMAS E PADRÕES DE VENTOS.

(IPCC, CLIMATE CHANGE 2007: THE PHYSICAL SCIENCE BASIS, FEVEREIRO DE 2007)

Talvez este não seja o ano mais quente da história dos registros de temperatura, mas certamente o relatório publicado em fevereiro pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é o mais quente de todos os alertas climáticos produzidos pelos cientistas.
A constatação de aumento nas concentrações atmosféricas de gases de estufa (especialmente dióxido de carbono, o CO2, metano, o CH4, e óxido nitroso, o N2O) não é nova. Também não é exatamente novo o reconhecimento de que as temperaturas globais conheceram aumento no século XX e, em particular, ao longo das últimas décadas. Corrigindo e completando dados divulgados em relatórios anteriores, o IPCC revela que, no período de 12 anos entre 1995 e 2006, 11 anos estiveram entre os 12 mais quentes desde 1850, quando se iniciaram os registros térmicos de alcance global. Também informa que nos cem anos entre 1906 e 2005 ocorreu aumento de 0,740C nas temperaturas médias globais.
As verdadeiras novidades do relatório encontram-se no grau de certeza proclamado a respeito das causas do aquecimento global e das previsões de elevação das temperaturas ao longo do século XXI.
O IPCC sustenta que, com alto grau de probabilidade:
● As atividades humanas, e não fatores naturais, são as principais responsáveis pelo aquecimento global observado.
● O padrão registrado de aquecimento da troposfera e resfriamento da estratosfera deriva da emissão de gases de estufa e da rarefação da camada de ozônio, dois processos ligados às atividades humanas.
● A redução da massa de gelo no planeta decorre também do aquecimento global e deve-se às interferências antropogênicas sobre o sistema climático.
● As interferências antropogênicas já provocam mudanças em padrões de circulação das massas de ar no hemisfério norte e aumento de tempestades extra-tropicais.
● O aumento das temperaturas médias nas noites mais quentes e mais frias e nos dias frios é um efeito do aquecimento global e está ligado às atividades humanas.
Os cenários projetados pelo IPCC para o aquecimento global variam entre o preocupante e o assustador. Numa hipótese tão otimista quanto irrealista, baseada no pressuposto da manutenção constante das emissões de gases de estufa nos níveis de 2000, ocorreria aumento das temperaturas médias globais de 0,10C por década, o que significa uma elevação térmica de 10C em 2100. Nesse caso, as interferências antropogênicas no sistema climático que já ocorreram continuariam, inercialmente, a provocar aquecimento.
Os outros cenários, mais realistas, apontam para um aquecimento global de 1,80C a impressionantes 4,00C em 2100.
Esses cenários dependem de combinações complexas de fatores naturais e antropogênicos. Mas, segundo a lógica dos modelos utilizados pelo IPCC, os fatores antropogênicos têm peso maior na evolução do sistema climático.
A cobertura da mídia tratou o relatório como um consenso científico indiscutível. Uma grande companhia petrolífera anunciou que financiará estudos de economistas ou cientistas ambientais dispostos a contestar o IPCC.
Mas, ao contrário do que parece, há cientistas independentes que, sem financiamento de gigantes do petróleo ou do governo americano, discordam do relatório.
Os cientistas dissidentes não contestam as informações factuais sobre temperaturas globais e, portanto, reconhecem que as últimas décadas foram marcadas por uma nítida tendência de aquecimento. O que eles discutem são as causas do aquecimento e as projeções sobre o comportamento do sistema climático.
Esses críticos do IPCC não concordam que seja razoável afirmar, com um elevado grau de confiança, que os fatores antropogênicos são decisivos para o aquecimento global. O relatório atual, como os anteriores, subestimaria o peso de fatores naturais decisivos, como a dinâmica das massas de ar e correntes marítimas.
As dúvidas não são descabidas. A revista americana Time, na capa de sua edição de 10 de setembro de 1945, um mês após a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial, exibia um desenho da Terra suando, acompanhado pela manchete “O mundo está fervendo”. É que a década anterior havia sido a mais quente de toda a história registrada. Contudo, três décadas mais tarde, no 31 de janeiro de 1977, a capa da mesma revista trazia a manchete “O grande congelamento”, que remetia a um artigo no qual discutia-se uma aparentemente clara tendência ao resfriamento global. O ciclo se fechou no 3 de abril de 2006, quando a capa da Time expunha a foto de um urso polar encurralado pela fusão dos gelos árticos e as páginas internas reproduziam o alarme do aquecimento global.
As capas da Time obedeceram ao ritmo de um processo natural, descoberto em 1997, que atrai a atenção de muitos cientistas insatisfeitos com as explicações da moda. O processo é a Oscilação Decadal do Pacífico (ODP), um ciclo comprovado ao longo do século XX de mudanças na temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico. A ODP alterna fases quentes e frias com duração de cerca de três décadas. Nas fases quentes, as águas oceânicas registram picos de aquecimento superiores a 20C e os fenômenos El Niño são mais freqüentes e intensos que os La Niña. Nas fases frias, registram-se picos de resfriamento também superiores a 20C e os fenômenos La Niña são mais freqüentes e intensos que os El Niño.
A ODP atravessou uma fase quente entre 1925 e 1946, que influenciou o sistema climático e expressou-se na capa da Time do final da Segunda Guerra Mundial. Entre 1947 e 1976, verificou-se a fase fria da ODP. Na reta final dessa fase, a Time não falou sozinha. Menos de três anos antes de sua capa sobre o “grande congelamento”, no 30 de junho de 1974, o jornal O Estado de S. Paulo anunciou, em letras garrafais, que “A Terra caminha para uma nova era glacial”. Depois de 1977, começou uma nova fase quente, que estaria perto do seu final ou já teria terminado. Na interpretação de parte dos críticos do IPCC, está se confundindo o “aquecimento global” com essa fase quente da ODP.
As médias térmicas do período 1965-1975 são, de modo geral, um pouco menores que as do período 1937-1946. Já as médias de 1995-04 são geralmente maiores que as de 1940-1980. Essas informações não representam prova definitiva de coisa nenhuma, mas podem ser interpretadas como indícios do impacto da ODP nas temperaturas globais.
Os críticos do IPCC não formam um grupo homogêneo e nem todos atribuem a mesma importância à ODP. A maioria deles concorda que as emissões antropogênicas de gases de estufa interferem no sistema climático global. Mas o ponto que os une é o ceticismo diante da noção de que a humanidade assumiu o controle do clima planetário.
O futuro próximo dirá quem tem razão.
Mas não deixaria de ter graça a leitura de uma profecia da “nova era do gelo” numa Time de algum dia de 2035...

O APOCALIPSE, SEGUNDO O IPCC
Nossa Terra está degenerada nesses últimos tempos. Há indícios de que o mundo está rapidamente chegando ao fim.” A avaliação guarda indisfarçável semelhança com certas passagens do relatório do IPCC sobre o aquecimento global – ou, pelo menos, com as sínteses do relatório difundidas pela mídia. Mas a profecia apocalíptica foi escrita há quase cinco milênios e está gravada num tablete de argila da civilização assíria, de aproximadamente 2800 a.C.
A última frase do tablete assírio oferece os “indícios” do fim do mundo: “Suborno e corrupção generalizaram-se”. Embora esse traço esteja presente entre nós, ele separa conceitualmente a profecia ancestral do texto do IPCC, que faz parte de uma tradição recente na qual o apocalipse tem causas ecológicas. Fogo e inundações assinalariam o encerramento da era do pecado e o início do Milênio, na maioria das profecias apocalípticas cristãs. O ecologismo apocalíptico contém esses elementos narrativos, o que talvez explique a sedução que exerce sobre o grande público.
A capa da revista Life de setembro de 1993 trazia a manchete: “O ano do tempo assassino. Por que a natureza enlouqueceu?” Nos doze meses anteriores, os Estados Unidos haviam experimentado os desastres provocados pelo furacão Andrew, na Flórida, por uma forte tempestade de inverno que atingiu toda a costa leste e por extensas inundações na bacia do Mississipi, no Meio Oeste. Sob o impacto desses eventos, e dos alertas científicos sobre o aquecimento global, o público não se espantou diante da incrível manchete que acusava a natureza de insanidade, atribuindo-lhe uma vontade assassina.
Não é fácil romper com raízes cravadas no subsolo cultural. O ambientalismo nasceu com o movimento romântico, que se ergueu no fim do século XVIII, como reação às Luzes. Os românticos adoravam um passado idealizado, pleno de pureza e avesso à racionalização da natureza. Eles contestavam o progresso, contrapondo-lhe o universo das emoções, a sensação do sublime, a força da tradição. Civilização e natureza, na abordagem romântica, funcionam como pólos opostos: a primeira é perdição; a segunda, refúgio e salvação.
O romantismo americano, especialmente com o escritor e filósofo Henry David Thoreau (1817-62) está diretamente associado ao pensamento ambientalista. Thoreau defendia a conservação dos recursos naturais e a preservação de ambientes e paisagens em terras públicas. Foi um dos precursores de passatempos recreativos “ecológicos”, como a canoagem e caminhadas em trilhas selvagens. Thoreu fazia parte do movimento transcedentalista, que valorizava a experiência sensível e a intuição individual.
Entre eles, alguns radicais, que viriam a influenciar o movimento hippie dos anos 1960, propunham a formação de comunidades naturalistas e o vegetarianismo.
Ralph Waldo Emerson (1803-82), ensaísta e poeta, amigo de Thoreau, liderou o movimento transcedentalista e tornou-se o ponto de referência intelectual de John Muir (1838-1914), o “pai” dos parques nacionais americanos e fundador do Sierra Club, a mais antiga das organizações ambientalistas. Muir foi um geólogo amador e um pioneiro no estudo do trabalho de erosão dos glaciares, no vale de Yosemite, na Califórnia. A partir dele, o romantismo ecológico estabeleceu uma sólida ponte com o pensamento científico.
O relatório do IPCC faz parte do discurso científico, está recheado por um amplo aparato de modelagem computadorizada e se veste nas roupagens da estatística de probabilidades. Mesmo assim, está ligado por fios invisíveis à tradição do pensamento ambiental, que se desenvolveu na sopa do romantismo e da adoração de um “mundo natural” intocado que só existe na imaginação da humanidade. Além disso, a recepção pública do relatório não poderia deixar de expressar a coleção de preconceitos do ambientalismo popular.
O ambientalismo popular é uma mercadoria vendida na tevê, no cinema, nos jornais e revistas. Suas “verdades” simplórias – “a Amazônia é o pulmão do mundo”, “a natureza enlouqueceu”, “a Terra está doente”, “precisamos salvar o planeta” – tornaram-se componentes de um repertório cultural bem conhecido, que identifica o aquecimento global em praticamente qualquer evento meteorológico, como uma tempestade tropical, os dias muito quentes do verão, as noites sem brisa ou as chuvas torrenciais que redundam em inundações urbanas.
Noticiando o relatório do IPCC, o jornal O Estado de S. Paulo escreveu que o aquecimento global seria, agora, um fenômeno irreversível. A palavra “irreversível” não consta do relatório – e não seria escrita por um cientista. Tudo é reversível, na escala do tempo geológico. Há uns 12 mil anos, encerrou-se a glaciação mais recente e provavelmente caminhamos, no longo prazo, para outra glaciação. As previsões científicas sobre o aquecimento global são probabilísticas, ou seja, incorporam uma margem de erro – que, no caso, é bastante significativa.
Sobretudo, a tradução do relatório pela mídia virtualmente ignorou os cientistas que discordam do IPCC. Mas eles existem e também são gente séria. Mas gostamos muito de apocalipse. Especialmente na sua versão ecológica...

Boletim Mundo n° 1 Ano 15

O REI MORREU, VIVA O REI!

O venezuelano Chávez parece herdar a mística de líder providencial que cercou Fidel Castro. Um e outro, contudo, fazem parte de uma tradição autoritária que não se limita à América Latina.

Há, Certamente, mais do que uma simples coincidência cabalística no fato de que Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, tenha surgido como um novo líder, uma nova referência ideológica de esquerda na América Latina, na mesma época em que se anuncia a morte do presidente (ou, como preferem alguns, ditador) cubano Fidel Castro.
Se o velho líder é um remanescente da Guerra Fria, quando o mundo era dividido em “esferas de influência” controladas pelos Estados Unidos e pela hoje extinta União Soviética, o candidato a substituí-lo, seu admirador confesso, é resultado de uma realidade geopolítica e ideológica bem mais complexa. Mas trata-se, em ambos os casos, da construção de uma figura messiânica, de um profeta que promete encarnar as supostas virtudes da nação, do “povo” e de “nuestra América”.
Ou, em outros termos: tanto Fidel quanto Chávez expressam, de maneiras distintas, uma determinada relação política entre o dirigente político e a sociedade que ele pretende representar, marcada pela idéia de que um líder, um “homem forte”, ousado, decidido e identificado com as aspirações populares poderá resolver os problemas sociais e econômicos da nação. Nesse sentido abrangente, não há nada de novo no front. A figura do “grande líder” percorre a história da América Latina. Basta pensar em Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Domingo Perón, na Argentina, se queremos ficar no século XX e restritos a uma área geográfica próxima.
Mas não se trata de um fenômeno especificamente latino-americano. Durante duas décadas, a partir do final dos anos 20 do século passado, Josef Stalin encarnou, na União Soviética, a figura do “pai dos povos”. Era o senhor absoluto do Partido Comunista (PCUS) e controlava com mão de ferro as instituições de governo. Sua vontade era lei, sua palavra era definitiva.
Uma máquina incessante de propaganda o descrevia como um sujeito infalível, a própria encarnação da Revolução Russa de 1917, o depositário das esperanças de toda a humanidade. Essa máquina de propaganda foi definida como “culto à personalidade” pelo sucessor de Stalin, Nikita Kruschev, que denunciou parte dos seus crimes no 20º Congresso do PCUS, em 1956.
Na Alemanha, entre 1932 e 1945, Adolf Hitler, o representante maior das supostas virtudes da raça ariana e da “pureza germânica”, também acumulou poderes ilimitados. Os soldados juravam fidelidade ao Führer (chefe máximo), e não ao país ou às instituições. Como Stalin, Hitler era também objeto do culto à personalidade do líder. Processos mais ou menos semelhantes aconteceram, ao longo do século passado, na Itália de Benito Mussolini, no Portugal de Oliveira Salazar, na Espanha de Francisco Franco, apenas para citar os casos mais conhecidos.
Outros exemplos se multiplicam aos borbotões na Ásia, na África, no Oriente Médio. Mesmo nos Estados Unidos, freqüentemente citado como o país de democracia mais estável do planeta, os presidentes Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt acumularam poderes extraordinários, quase ditatoriais, em nome da necessidade de conduzir o país à vitória na guerra (e, no caso de Roosevelt, também reconstruir os Estados Unidos após a Grande Depressão de 1929). Mas nem Wilson, nem Roosevelt foram cercados pelas engrenagens do culto à personalidade.
Não se trata, em hipótese nenhuma, de traçar um sinal de igual ou sequer de semelhança entre todos esses governos, regimes e líderes. Isso seria um disparate. Ainda assim, uma lei geral emerge desses processos históricos: o acúmulo de poderes nas mãos de um governante, não importa as razões, sempre acontece às custas da democracia, cujo pressuposto básico é o equilíbrio entre os poderes. Quanto mais democrática, participativa e equilibrada é uma sociedade, menor a possibilidade de um “pai dos povos” instalar-se no poder. “Infeliz é o país que precisa de heróis”, disse o grande dramaturgo alemão Bertolt Brecht.
Podemos, agora, voltar à América Latina: aqui, é a debilidade estrutural das instituições democráticas que permite a multiplicação incessante e recorrente de “caudilhos” e salvadores da pátria. Tal debilidade não tem nada a ver com um suposto “destino” ou “caráter nacional” latino-americano, mas com causas históricas concretas, incluindo a desigualdade social e a dependência econômica em relação aos países centrais da economia capitalista.
Mas, novamente, tampouco é apenas na América Latina que a democracia faz água. Se o século XX foi tão pródigo em situações que demandaram extrema concentração de poder, em todo o planeta, e se nada indica que o século XXI vá ser muito diferente (basta pensar no tremendo poder acumulado por George Bush para travar a suposta “guerra contra o terror”), é a própria possibilidade da representação democrática que está em questão.

Boletim Mundo n° 1 Ano 15

UM SLOGAN EM BUSCA DE UM PROJETO

Newton Carlos
O que é o “socialismo do século XXI” ? Hugo Chávez e seus seguidores não têm uma resposta, mas sabem que precisam procurá-la.
Quando conquistou um segundo mandato, em dezembro de 2006, o presidente Hugo Chávez disse que o socialismo, em sua versão venezuelana, significa “no político mais democracia e no econômico mais desenvolvimento coletivo, com a finalidade de satisfazer as necessidades dos povos e não para que uma minoria se enriqueça em detrimento da vida das maiorias empobrecidas e miseráveis”.
Desde então não se para de debater o significado desse vago enunciado, que ganhou o rótulo de “socialismo do século XXI”. O que veio à tona como espinha dorsal do chavismo chegou a ser considerado “mais um slogan” pelo ministro do Exterior brasileiro, Celso Amorim, tal a ausência de conteúdo.
Chávez aparece, ao mesmo de tempo, como líder de direita e de esquerda. Exibe um discurso populista e se cercou de expoentes da velha guarda comunista dos anos 1960, como José Vicente Rangel, seu ex-vice presidente, e de ex-guerrilheiros como Ali Rodriguez, que chegou a ocupar o cargo governamental de maior importância estratégica, o de ministro do Petróleo. “Em Chávez coexistem de modo constante tensões idealísticas e o mais puro pragmatismo”, foi o que disse outro ex-guerrilheiro, Teodoro Petkoff, hoje um misto de jornalista e político de dura oposição a Chávez.
Com a liderança da tentativa de golpe em 1992 Chávez representou o papel de herói momentâneo de estudantes universitários e de uma esquerda radical e igualmente golpista. O próprio Chávez tinha como seu ponto de partida a teoria da “árvore de três raízes”. A origem mais remota foram “ensinamentos” não só de Simon Bolívar, mas especialmente de seu “educador”, Simon Rodriguez, e de Ezequiel Zamora, caudilho federalista do fim do século XIX.
Simon Rodriguez insistia na necessidade de a América Latina buscar soluções próprias. “A América Espanhola é original e originais tem de ser suas instituições e seu governo e também seus meios de fundar um e outro. Ou inventamos ou erramos.”, proclamou o professor de Bolívar. O presidente venezuelano estaria procurando inventar para não errar?
Já Ezequiel era um admirador das revoluções “liberais” européias. Falava com freqüência de “liberdade, igualdade e fraternidade” e, em sua insurgência federalista, empregou “slogans” como “terra e homens livres, eleição popular e horror à oligarquia”. Passado e presente se confundem num universo cada vez mais ampliado de divagações.
Chavistas anunciam inclusive uma “guerra de baixa intensidade, interna e com os americanos”. Mas a pergunta permanece: o que é o “socialismo do século XXI”, citado por Chávez como alternativa à morte? Socialismo ou morte, jurou em sua posse.
O jornal Tal Qual, de Caracas, fez a pergunta a chavistas e não chavistas. Resposta de Aurora Morales, partidária de Chávez: “Para nós, o socialismo do século XXI nasce de uma necessidade concreta. O modelo unipolar, a grande concentração do capital transnacional, a voracidade com que o Império atua em escala mundial nos levou a tomar essa postura.” Nesse caso, o socialismo de Chávez poderia ser sintetizado como antiamericanismo.
Também França e Suécia, lembrou um intelectual da oposição, são contra um país erigido em Império. Poderiam ser fontes de inspiração de Chávez? Um porta-voz do Centro Internacional Miranda, oficialista, admitiu que “só sabemos o que não deve ser o socialismo do século XXI”. Não será “uma economia baseada no capitalismo de Estado, nem um sistema totalitário fechado. Não queremos parecer com Cuba.”
Afinal, a grande definição. “O socialismo do século XXI não tem nada a ver com os dos séculos XIX e XX”, segundo Rodolfo Sanz, personalidade do círculo do poder.
Tudo indica que, até agora, imagina-se o “novo socialismo” a partir do financiamento público de cooperativas e de empresas capitalistas de propriedade estatal. Mas, para entender o fenômeno Chávez, é preciso identificar com clareza os seus adversários, inclusive George W. Bush.
Um acadêmico americano escreveu que Chávez não existiria sem Bush e seu anti-chavismo primário, que incluiu o patrocínio de um fracassado golpe de Estado.
O chavismo surgiu com a derrocada da muito elogiada “mais longa continuidade democrática do continente”, que a Venezuela conheceu a partir da queda da ditadura de Perez Jimenez, em 1958. Por várias décadas alternaram-se no poder a Ação Democrática, que se dizia social-democrata, e o Copei, um partido social-cristão.
Ao longo desse período, o contingente de pobres ultrapassou a metade da população.
Criou-se o grande paradoxo venezuelano: o abismo entre a opulência do Estado, regado a petróleo e saqueado por uns poucos, e a miséria da grande maioria. Somas gigantescas foram dilapidadas na megalomania dos grandes projetos. Com o dinheiro do petróleo os três poderes do Estado chafurdaram na corrupção, enquanto o peso da dívida externa, incompreensível diante do faturamento bilionário das exportações, provocou um conjunto de medidas de “ajuste” econômico, ditadas pelo FMI.
Essas medidas resultaram no “caracazo”, que assinalou o fim da estabilidade política venezuelana. Caracas explodiu em protestos populares em 1988, pouco depois da posse de Carlos Andrés Perez, da Ação Democrática. Os protestos foram sufocados, às custas de muitas mortes. Um Perez desmoralizado enfrentou a tentativa de golpe de Chávez em 1992, mas foi destituído em 1993 e condenado por corrupção em 1994. Estava aberto o caminho para a ascensão de um líder que ocupa o lugar simbólico de “salvador da pátria.
Chávez usa o dinheiro do petróleo em políticas sociais.
É essa mudança histórica que explica a mobilização de amplos setores pobres em favor de um militar transformado em caudilho e com ambições à eternidade. O populismo tem, apenas, resultados imediatos. A eternização do poder do caudilho pode depender de um projeto mais sofisticado e mais consistente, como o tal “socialismo do século XXI”. Desde que o rótulo seja preenchido com algum conteúdo...

Boletim Mundo n° 1 Ano 15

O IRÃ, NA MIRA DE ISRAEL

Há dois anos, Meir Dagan, o chefe do Mossad, o serviço secreto israelense, compareceu ao Parlamento de seu país para declarar que o programa nuclear do Irã alcançara o ponto de “não-retorno”. A projeção era de que o Irã teria armas atômicas em 2010. Naquele momento, Israel já havia “vazado” para a imprensa um plano de ataque às instalações atômicas do Irã, caso a República Islâmica prosseguisse buscando a bomba. O plano envolveria um ataque combinado de caças-bombardeiros F-15 e da força terrestre de elite Shaldag.
Tudo previsto. Até porque Israel tem no currículo a destruição do reator nuclear iraquiano Osirak, em 1981, levada a cabo pela Força Aérea. Tudo previsto. No papel, é claro: uma intervenção militar israelense no Irã seria operação militar de altíssimo risco e representaria um golpe duro nas perspectivas de paz no Oriente Médio para as próximas décadas.
As dificuldades começam pela geografia. As instalações nucleares do Irã – com destaque para as plantas de Natanz e Arak e o reator de Bushehr – ficam centenas de quilômetros mais longe do que o Osirak iraquiano. Espertos, os técnicos iranianos construíram as três plantas a centenas de quilômetros uma da outra, o que transforma um ataque simultâneo em pesadelo de logística. Também não seria tranqüilo para os israelenses pilotarem seus aviões pelo espaço aéreo da Jordânia, Arábia Saudita e Turquia. E as defesas aéreas do Irã são muito mais avançadas que as do Iraque de 1981. Um desembarque por terra parece ainda mais improvável.
Outro problema grave é que, segundo cientistas que participaram do programa nuclear do Iraque e depois deixaram o país, o ataque a Osirak representou apenas um golpe momentâneo. Quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, em 1990, seus cientistas estavam muito perto de produzir uma bomba-A.
O programa atômico iraniano tem história.
Graças às reservas de petrodólares, o Irã construiu nos últimos 20 anos uma ampla teia de parcerias – com a China, Rússia, Paquistão, Coréia do Norte e Ucrânia – para alcançar a bomba-A. E foi o maior beneficiário do desmantelamento parcial dos antigos estoques de armas atômicas da União Soviética, por conta da aliança com as repúblicas islâmicas da ex- URSS. O pai do programa atômico iraniano foi Abdul Qhader Khan, que chefiou programa semelhante no Paquistão.
O Irã é, também, o maior freguês de mísseis de origem russa e norte-coreana. O Shehab-2, uma variante do Scud-C russo, transporta carga de 700 quilos à distância de 500 quilômetros e pode atingir bases americanas no Iraque, Kuwait, Catar e Omã.
O Shehab-3, variante do Nodong norte-coreano, poderia transportar ogivas nucleares à distância de 1,3 mil quilômetros, atingindo as cidades de Tel Aviv e Haifa, em Israel, e o reator nuclear israelense de Dimona.
Esses mísseis estão prontinhos para uso.
O programa iraniano é uma ameaça real a Israel. Mas, se os israelenses têm possibilidades reduzidas de suprimi-lo, o que pretendem com suas ameaças de ataque?
Ao que tudo indica, a batalha verbal tem dois objetivos: refrear a corrida nuclear do Irã e forçar as potências mundiais, principalmente os Estados Unidos, a adotarem medidas reais de contenção.
Israel, aliás, já fez isso. Às vésperas da Guerra do Golfo, em 1991, os israelenses chegaram a ameaçar um ataque nuclear “reduzido” contra Saddam Hussein. O ataque não existiu, mas a ameaça talvez tenha surtido efeito: os Estados Unidos de fato invadiram o Iraque, que lançou mísseis contra Israel mas não utilizou suas armas mais assustadoras, como ogivas carregadas com armas químicas.
O curioso é que o governo iraniano, apesar das freqüentes ameaças contra Israel, provavelmente pretende apenas usar o poderio nuclear como força de dissuasão, para evitar um hipotético ataque dos Estados Unidos. Parece que, como Israel, o Irã elabora planos de ataque para jamais atacar - e, sim, para ganhar pontos no equilíbrio regional de poder.
Mas as corridas armamentistas têm sua própria lógica e nem sempre podem ser controladas.
Na Europa do início do século XX, as potências armaram-se até os dentes. Ninguém queria ir à guerra, até que um evento acidental acionou as máquinas de matar.
Veio a Primeira Guerra Mundial, que deixou 60 milhões de mortos.

Boletim Mundo n° 1 Ano 15