quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

100 Anos de Sonhos

28 de dezembro de 1895: os irmãos Louis e Auguste Lumière,inventores do “cinématographe”, fazem a primeira exibição pública de cinema, no Grand Café, em Paris. Naquele dia, foram projetados filmes curtos, em preto e branco, de cenas captadas com a câmara parada e sem som.
Um destes filmes -um trem chegando à estação- assustou os espectadores, que acharam que poderiam ser atropelados pela locomotiva. Inaugurava-se, assim, há cem anos, a era do cinema.
Em sua origem, o cinema era um instrumento a serviço da ciência, prestando-se ao estudo dos movimentos. Os filmes eram breves e não contavam histórias. A invenção do ‘‘cinématographe’’ foi resultado do trabalho de muitos cientistas que, desde o século 17, idealizavam aparelhos que os ajudariam a estudar o movimento dos planetas e dos animais. Um mágico teatral parisiense, Georges Méliès, foi o primeiro a usar o cinema como espetáculo, sem preocupações científicas, lançando, em 1902, o filme ‘‘Viagem à Lua’’. Em 1915, o cineasta americano D. W. Griffith, com ‘‘Nascimento de uma Nação’’, de três horas de duração, dá aos filmes uma estrutura narrativa complexa, trabalhando a seleção de imagens e sua organização numa seqüência temporal na montagem. Griffith inventou o estúdio cinematográfico e o sistema de ‘‘estrelas’’ que consagrariam Hollywood como a maior produtora e exportadora mundial de filmes, conta o professor Nicolau Sevecenko, em artigo exclusivo para T&C.
Hollywood criou e exportou os seus ícones e sonhos de Rodolfo Valentino a Harrison Ford, de Mary Pickford e Theda Bara a Marylin Monroe e Sharon Stone. Clássicos como ‘‘Cidadão Kane’’ (Orson Welles), ‘‘Casablanca’’ (Michael Curtiz), ‘‘Apocalypse Now’’ (Francis Coppola), ‘‘Manhattan’’ (Woody Allen) e ‘‘Blade Runner’’ (Ridley Scott) são a vitrine de uma produção imensa, que inclui, apenas para citar alguns filmes, épicos (‘‘E o Vento Levou’’, ‘‘Ben Hur’’), musicais (com Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly), comédias (com Jerry Lewis, Buster Keaton, Charles Chaplin), fantasia (Walt Disney), suspense (Alfred Hitchcock) e as superproduções atuais (‘‘Guerra nas Estrelas’’ de George Lucas, ‘‘ET’’ e ‘‘Indiana Jones’’ de Steven Spielberg, e o filme mais caro de todos os tempos, “Waterworld”, de Kevin Costner, de US$ 200 milhões, lançado em julho).
O monopólio de Hollywood jamais foi sequer arranhado pelas linguagens e estilos produzidos na Europa (do expressionismo alemão dos anos 20 ao lirismo contemporâneo do italiano Federico Fellini). Ao contrário, acabou incorporando alguns de seus melhores produtores. No Brasil, grandes estúdios chegaram, no máximo, a fazer paródias dos filmes de Hollywood (as ‘‘chanchadas’’, no caso da Companhia Atlântida) ou tentaram fazer filmes “sérios’’ e “politizados”, mas sem sucesso comercial (caso dos estúdios Vera Cruz). O ator, diretor e produtor Mazzaropi, que de ‘‘tonto’’ e ‘‘caipira’’ só tinha a cara, obteve um sucesso significativo, com uma série de comédias leves, produzidas nos anos 50-60, sobre a vida e as atribulações do ‘‘jeca’’.

A agitação dos anos 60, de certa forma sintetizada pela contracultura, levou ao surgimento do ‘‘cinema novo’’ em vários países, incluindo o Brasil. O “cinema novo” pretendia ser alternativa a Hollywood. Despojado, sem verbas, tratava de temas políticos e sociais. Na Alemanha, por exemplo, um “cinemanovista” foi Rainier Fassbinder, cujo filme ‘‘As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant’’ é um retrato da decadência moral burguesa. No Brasil, destacaram-se Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e Ruy Guerra (v. T&C nº 2). Outra vertente de vanguarda foi o cinema ‘‘underground’’ (subterrâneo), marginal. O artista pop Andy Warhol, por exemplo, filmou durante 8 horas a fio o prédio Empire State (em Nova York), com câmara fixa e sem som, apenas capturando interferências do acaso.
A versão brasileira, batizada de “udigrudi”, criou filmes “sujos”, “feios”.
Representam esta vertente Júlio Bressane (‘‘Matou a Família e Foi ao Cinema’’, 1969) e Rogério Sganzerla (‘‘O Bandido da Luz Vermelha’’, 1968).
Mas, depois de tudo, não importa se o filme é de Hollywood,‘‘underground’’, vanguarda ou comercial: ir ao cinema é um mágico ritual que se repete há 100 anos. Já se encontra de tal maneira presente em nosso cotidiano, que não nos damos mais conta desse jogo de sedução. No escurinho do cinema, o estalar do projetor demarca (ou abole?) a fronteira entre o mundo real e o fictício. O ronco da máquina anuncia que a fábrica de sonhos está a todo vapor. E convida a um vôo nas asas do grande pássaro da imaginação.
Boletim Mundo Ano 3 n° 4

O Meio e o Homem- A terrível destruição da guerra nas cidades

Em dezembro de 1994, tropas russas invadiram a Chechênia, república autônoma que pertence à Federação Russa. Com pouco mais de 1 milhão de habitantes, localiza-se na porção setentrional do Cáucaso, entre os mares Negro e Cáspio. A crise teve origem em 1991,quando os chechenos, aproveitando-se da desintegração da URSS, proclamaram unilateralmente sua independência da Rússia. Até o fim de 1994, Moscou fizera “vistas grossas” ao fato.
O objetivo principal dos russos era tomar a capital Grozni, centro da resistência dos chechenos. Mas eles cometeram uma série de erros militares.
A tática para tomar Grozni consistia, primeiramente, em bombardear a cidade com a aviação e artilharia pesada, e depois enviar blindados. Só que estes não foram apoiados por tropas de infantaria. Foram, por isso, imobilizados em pequenas ruas cheias de escombros, e se tornaram presas fáceis dos chechenos. Grozni só seria tomada depois de meses de bombardeios, que, praticamente, a reduziram a escombros.
Esse exemplo comprova que exércitos regulares, normalmente, não estão preparados para combater em áreas urbanas. Diferentemente do que ocorre em campo aberto, os exércitos, nas cidades, têm que usar as vias de circulação existentes; quando construções e prédios precisam ser desimpedidos, as tropas são obrigadas a se dividir. Os civis representam um obstáculo e um perigo a mais, especialmente se armados. Mas, as áreas urbanas não podem ser ignoradas. São centros políticos e econômicos vitais, ainda mais com o avanço da urbanização, no último século. Possuem inúmeros alvos estratégicos, como fábricas, estradas, pontes etc.
Nos combates urbanos, muitas vezes a luta se verifica rua a rua, casa a casa. Os defensores têm uma série de vantagens, advindas do melhor conhecimento do espaço. Podem for fortificar certos edifícios, bloquear ruas, colocar atiradores em lugares estratégicos e até retirar as placas de localização, causando enorme confusão para os invasores. Os atacantes, quase sempre, têm que tomar prédio por prédio, sofrendo grandes baixas.
Muitos exércitos passaram por este tipo de envolvimento, como os americanos no Vietnã, os britânicos na Irlanda do Norte, os israelenses no Líbano. Paradoxalmente, os russos que tiveram enormes sacrifícios em tomar Grozni, foram protagonistas, em 1942/43, de uma encarniçada batalha contra os nazistas, na antiga cidade de Stalingrado, hoje Volgogrado. Para muitos historiadores, ao derrotar os alemães em Stalingrado, os russos mudaram os destinos da Segunda Guerra.
Nelson Bacic Olic
Boletim Mundo Ano 3 n° 4

Greenpeace- França ressuscita pesadelo nuclear no atol de Mururoa

Ruy de Goes
Neste ano, em que se cumpre o 50º aniversário da bomba de Hiroxima (em 6 de agosto), o governo francês anunciou a intenção de realizar novos testes nucleares, rompendo uma moratória acordada pelas potências nucleares em 1992. Seriam 8 explosões nucleares nos atóis de Moruroa e Fangataufa, colônias francesas no Pacífico Sul. A decisão, anunciada em maio pelo recém-eleito presidente Jacques Chirac, provocou protestos em todo o mundo. Por um lado, a iniciativa francesa ocorre no momento em que se buscam novos compromissos rumo ao desmantelamento dos arsenais nucleares globais; por outro, aponta-se o risco de contaminação nuclear do oceano, causada pelos perigosos elementos radioativos produzidos pela bomba nuclear.
Mais de 170 testes atômicos já foram realizados nos dois atóis (entre 1960 e 1991, a França detonou 204 bombas em testes). O núcleo dos atóis transformou-se num imenso depósito de lixo atômico  totalmente sem controle e com poder radioativo muitas vezes superior ao do acidente de Chernobyl. A estrutura dos atóis é de basalto, com ocorrência de fissuras, o que indica a possibilidade de vazamento do material radioativo, constatou a missão científica Tazieff, de 1982. Segundo outra missão, a Atkinson, a continuação dos testes aumenta a possibilidade de vazamento do material radioativo.
Em 1987, o cinegrafista Jacques Cousteau encontrou enormes Em claro indício de que teme a ação do Greenpeace, o governo francês declarou, no final de julho, que não divulgaria a data exata para a realização dos testes nucleares. Há uma boa razão para a cautela. Numa situação semelhante à atual, em 10 de julho de 1985, agentes  secretos franceses afundaram outro navio do Greenpeace, também chamado Rainbow Warrior, que estava aportado em Auckland, Nova Zelândia, causando um escândalo internacional. Paris aprendeu a lição, mas pela metade.
Boletim Mundo Ano 3 n° 4

Agonia do Socialismo Castrista

Capital estrangeiro vai decidir os destinos de Cuba
Há cinco anos, Cuba ingressou no “período especial”. O eufemismo, criado pelo Partido Comunista, designa a crise terminal de um sistema apoiado sobre dois pilares: a estatização geral da economia e o influxo de subsídios soviéticos.
A Revolução de 1959, que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista e conduziu Fidel Castro ao poder, derivou do nacionalismo ao alinhamento integral com a antiga União Soviética. Sob o fogo do bloqueio econômico e das ameaças militares dos Estados Unidos, o regime castrista aninhou-se no escudo protetor de Moscou, transformando a ilha na vitrine caribenha do socialismo.
A economia pré-industrial e dependente das exportações de açúcar foi atada politicamente ao bloco soviético. Por três décadas, o comércio administrado e os empréstimos perdoados transferiram cerca de 5 bilhões de dólares anuais da superpotência comunista para a vitrine caribenha.
A ‘‘festa’’ acabou em 1991, com a implosão soviética. Cuba perdeu o petróleo barato, os mercados garantidos para as exportações agrícolas e os empréstimos subsidiados. A decretação do “período especial” assinalou o início da jornada que conduz a ilha ao seu ambiente original: a América Latina, o Caribe, a miséria. Do outro lado do estreito da Flórida, os emigrados cubano-americanos de Miami, que somam 1,2 milhão, aguardam a conclusão política dessa trajetória: o reingresso do país na esfera estratégica dos Estados Unidos.
A ditadura castrista manobra para iludir o destino. Há um ano, a liberação da posse de dólares inaugurou as reformas econômicas, cuja meta consiste no estabelecimento de uma parceria entre o Estado e o capital estrangeiro. Nas condições do bloqueio econômico americano, os capitais europeus -especialmente espanhóis- assumem a vanguarda dos investimentos na ilha, concentrados no setor do turismo. A “via chinesa” escolhida por Fidel Castro implica a substituição gradual da moeda nacional -o peso, atado à lógica da economia estatal pelo peso convertible, atado ao dólar na cotação de 1 para 1. A redução brutal da oferta de produtos em pesos cubanos divide a população em duas classes, separadas pelo critério da posse de dólares: a miséria absoluta ronda a maioria que só tem acesso à moeda em extinção.
A nova economia do dólar ergue, aos poucos, uma ponte sobre o estreito da Flórida. O mercado negro que floresce na ilha, ao lado das 145 atividades privadas familiares recém-liberadas, transferem imperceptivelmente o controle da economia para os emigrados de Miami. A médio  prazo, é lá que se encontra a chave do futuro de Cuba. Fidel sabe disso: emissários do regime já negociam, secretamente, com os líderes moderados da emigração e com o governo de Bill Clinton.
Boletim Mundo Ano 3 n° 4

Diário de Viagem- Caça aos dólares em Havana

Elaine Senise Barbosa, 29 anos, historiadora e professora do Colégio Augusto Laranja, de São Paulo, viajou a Cuba.
Um olhar superficial sobre Cuba pode fazer sonhar com a utopia. Em Havana, as primeiras atenções recaem sobre as ruas - limpas, sem lixo ou esgotos abertos, com praças e árvores seculares, indicando uma cidade que não sofreu grandes transformações urbanísticas. Os casarões que compõem a paisagem, onde raríssimos são os prédios que ultrapassam 5 ou 6 andares, desvendam um passado de riquezas que foi abandonado pela burguesia cubana e americana nos anos sub sequentes à chegada de Fidel Castro ao poder. Hoje, são habitadas por populares, que pagam um pequeno aluguel ao Estado. As crianças, saudáveis e com bons dentes, brincam pelas ruas sempre calçadas, mesmo que o tênis esteja velho e rasgado de um lado a outro. A propaganda governamental sobre os benefícios médicos alcançados pelo regime é incontestável: toda criança recebe um litro de leite por dia até os 6 anos, além de vacinas, acompanhamento pediátrico, creches, escolas.
Cuba é governada pelo Partido Comunista, presente em cada quarteirão através dos CDRs (Comitês de Defesa da Revolução). As pichações oficiais nos muros são sempre palavras de ordem de cunho nacionalista - evocando José Martí, primeiro líder da Independência ou enaltecendo a Revolução.
É curioso notar que o nome de Fidel e sua imagem pouco aparecem. No seu lugar, as imagens de Martí e Che Guevara funcionam como os rostos e vozes que, subrepticiamente, legitimam o “Comandante em Chefe”. Um olhar mais acurado revela que o sonho da Revolução se desvanece e dá lugar a um país em crise.
A carência de energia e combustível transparece na frota de automóveis. Os carros - velhíssimos, americanos da década de 50 ou russos dos anos 60 e 70 - quebram freqüentemente e a persistência em fazê-los funcionar é explicada pelo insuficiente sistema de transporte público nacional. Os guáguas, como são chamados os ônibus, são velhos, demoram muito a passar e estão sempre lotados. O transporte popular na ilha são as bicicletas, chinesas. A falta de divisas para a importação de petróleo reduziu a 10 litros mensais a cota de gasolina dos proprietários de automóveis. Resultado: os únicos congestionamentos que existem são nas filas de ônibus; a ausência de barulho de aceleradores e freadas, o ar puro, criam uma paisagem pitoresca. Na Autopista Nacional e na Carretera Central, as mais importantes rodovias, pode-se andar por vários minutos sem cruzar-se um único automóvel ou caminhão.
Entrar em contato com os turistas é, hoje, o esporte nacional: todos precisam obter dólares para viver. O sistema de empregos é irreal, trabalha-se em turnos de 24 ou 48 horas, que mascaram um desemprego imenso. A média salarial gira entre 150 a 200 pesos cubanos por mês que, se fossem convertidos no câmbio negro, representariam 5 ou 6 dólares. Com este dinheiro adquire-se a libreta - uma por mês - que dá direito de adquirir nas bodegas - que só abrem aos sábados - os alimentos básicos. As cotas estabelecidas são insuficientes: todos concordam que a comida dá para, no máximo, 15 dias. Roupas e sapatos, só nas tiendas, em dólares. O que mais se pede ao turista que transita pelas ruas é sabonete. Nafalta, a solução é tomar banho com detergente... Na madrugada e pela manhã, vê-se inúmeras bóias, dessas de câmara de pneu, adentrando o mar bem em frente ao Malecón, a avenida principal de Havana: são jovens e adultos tentando uns peixes para o almoço.
O Estado tem no turismo a principal fonte para obtenção de divisas. Atrai capital estrangeiro,sobretudo espanhol, para sóciedades em empreendimentos hoteleiros. Restaurantes, bares, aluguel de carros, tudo é estatal e não se admite concorrência privada. Foram liberadas certas atividades privadas, mas nada que “desvie” o grosso dos dólares do turismo. A venda de charutos (os puros) e rum nas ruas, e o uso de carros particulares como táxis são algumas das atividades ilegais presentes em toda a Ilha,escudadas nas propinas pagas para os policiais. A prostituição generaliza-se. Disse-me uma senhora: “são as prostitutas mais baratas do mundo, tem bom nível cultural e assistência médica garantida”. No bar do Restaurante Pátio, um grupo de turistas franceses cantava a Internacional, o hino comunista, acompanhados de prostitutas...
Outro lado da crise manifesta-se na dilapidação e no desvio de recursos: todos desviam produtos das empresas onde trabalham para vender no mercado negro, inclusive gasolina, que nos ofereceram por 40 cents de dólar, enquanto o preço oficial é de 90 cents. Há uma saturação generalizada que se reflete nas críticas abertas que se fazem ao governo. Ao perguntar, numa tienda, qual era o rum preferido de Fidel, o atendente mostrou uma garrafa do uísque Chivas Regal. Na rua, um jovem que vai começar o serviço militar obrigatório de 2 anos diz que o dinheiro de Cuba está nos cofres suíços, na conta de “los dos hermanos”. Ele se referia ao “Comandante em Chefe” e ao sucessor, Raúl Castro.
Boletim Mundo Ano 3 n° 4

De Novo o efeito estufa- Contra o CO2, ambientalistas querem diminuir o uso do carro

 Lerda, burocrática e submetida às pressões dos países ricos, ONU mostra-se incapaz de combater a poluição, cujos efeitos são agravados com a chegada do inverno
Wagner Costa Ribeiro
No inverno, as temperaturas mais baixas combinam-se a uma névoa de fumaça nos grandes centros urbanos; indústrias são momentaneamente desativadas diante de índices elevados de poluição; ressurgem as campanhas recomendando o não uso dos automóveis, os maiores responsáveis pela emissão de CO2 que encontra dificuldades para se dispersar, afetando a qualidade de vida da população.
Esse quadro descreve, socialmente, o ciclo do ‘‘efeito-estufa’’, a retenção do calor refletido pela superfície da Terra pelos gases estufa, entre eles o CO2.
Segundo muitos especialistas, as conseqüências do efeito-estufa repercutem em todo o planeta. Sua intensificação elevaria as temperaturas da Terra, podendo causar catástrofes ambientais, como o descongelamento das calotas polares e o aumento do nível dos oceanos, alagando territórios e cidades. Esta é uma das premissas que norteiam a discussão em torno das mudanças climáticas globais.
Para tratar deste assunto, foi realizada uma série de reuniões preparatórias à Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio, em 1992.
Naquela ocasião, foi firmada a Convenção de Mudanças Climáticas (CMC), que serve de medida para as relações internacionais no campo das mudanças climáticas globais. Os países que ratificaram a CMC realizaram, em março, a Primeira Conferência sobre Mudanças Climáticas, em Berlim . Esta reunião tampouco atingiu resultados expressivos.
Assim, pouco se avançou, três anos após a Conferência do Rio cujo maior mérito talvez tenha sido o de alertar a opinião pública sobre a problemática ambiental.
Sequer o consenso dos pesquisadores em torno do aumento da temperatura no planeta permitiu a aprovação de propostas mais avançadas, como a dos países insulares e da Alemanha.
Estes, defenderam a redução em 20% dos índices de CO2 até 2005,em relação ao total emitido em 1990.
Mas, foi aprovada a manutenção dos níveis de emissão de CO2 de 1990 no ano 2000 pelos países desenvolvidos -os que mais emitem gases estufa, graças, principalmente, à queima de combustível fóssil (derivados de petróleo).
Além disso, foi instituído um grupo de trabalho para elaborar um plano de controle das fontes que contribuem para o aquecimento global. A discussão do relatório deste grupo será em Tóquio, em 1997.
Os formadores de opinião da sociedade civil, incluindo lideranças de organizações não governamentais (ONGs), expressaram sua decepção com os resultados da conferência.
Porém, há que se ter cautela. Criticar as deliberações é uma coisa. Outra, é atacar o fórum em que elas são geradas.
A estratégia ambientalista deve pautar-se por ampliar o interessa da opinião pública pelo tema, e não esvaziar uma instância de deliberação.
Seria um erro não assumir que, ao menos, já há um fórum para debater o tema das mudanças climáticas.
O reconhecimento de novos atores no campo das relações internacionais é um fato incontestável. Este reconhecimento levou, inclusive, à inserção de ONGs na arena das decisões, desde as reuniões preparatórias para a Rio-92. A questão é como intervir, considerando-se o ambiente político desfavorável, em que as propostas avançadas são sistematicamente derrotadas.
No cinqüentenário da ONU, acumulam-se as evidências de que há inúmeros problemas no que se refere à forma pela qual as decisões são assumidas naquela instituição. A morosidade excessiva (cuja marca maior são as inúmeras reuniões que pouco ou nada decidem), acompanhada de ingerências das potências hegemônicas, gera inquietude nos que se alarmam com questões ambientais.
Os maiores opositores de medidas mais rígidas para o controle de gases-estufa na atmosfera são parte dos países desenvolvidos e os países produtores de petróleo. Ou seja, aliam-se os que produzem e consomem carros (com todo o peso que possui a indústria automobilística na geração de divisas e de empregos, num quadro de desemprego estrutural e mundialização da produção) àqueles que extraem a matéria-prima para produção do combustível.
Para alterar esta situação, é preciso atingir todos os que utilizam carros e combustíveis fósseis, por exemplo.
Assim, o apoio às campanhas que regulamentam o uso automóveis, privando os  de circular nas metrópoles em alguns dias da semana, ou mesmo a introdução de novos hábitos como o de dar e receber carona, devem ser somados às lutas pela melhoria do transporte coletivo. Com menos carros nas ruas, teremos menos problemas ambientais. É pouco, mas, sem dúvida, é a ação de mais longa duração, uma vez que aborda o usuário, aquele que tem a decisão de sair de carro ou de usar outro meio de transporte.
Wagner Costa Ribeiro é professor do Depto. de Geografia da USP
Boletim Mundo Ano 3 n° 4

As Oscilações da Política externa brasileira

Casa Branca sufoca sonho de “potência regional
De Getúlio Vargas a Itamar Franco, as eventuais tentativas brasileiras de exercer uma política externa independente, afirmando uma posição de liderança na América Latina, foram abortadas por Washington
Newton Carlos
6 de março de 1953: o presidente da Argentina, Juan Perón, escreve a Getúlio Vargas dizendo ser “necessário nos unir diante de futuro incerto”.
Vargas responde, lamentando “dificuldades que impedem o início de entendimentos”. Em fevereiro de 1954, seis meses antes do suicídio de GV, o embaixador americano no Brasil filtra para os jornais documento secreto de seu governo analisando os ‘‘riscos para as democracias do continente’’ de uma aliança argentino-brasileira anti-Washington. Em setembro de 1955, cai Perón.
Na época, a Argentina tinha peso (42% do total das linhas férreas sul-americanas e 55% dos automóveis), e ainda desfrutava dos saldos do não envolvimento direto na Segunda Guerra. Perón ofereceu a Vargas 1,5 milhão de toneladas de trigo. Os americanos contaram com aliados entre diplomatas e militares brasileiros para bloquear a aliança. Argumentos não faltavam. O Brasil havia lutado contra o nazismo, com o qual a Argentina flertou. Mas importou bastante o fato de que se tratou de iniciativa argentina, em oposição, portanto, à “vocação” brasileira de potência regional.
O fracasso da empreitada peronista não sepultou sentimentos favoráveis a que os países latino-americanos assumissem maior independência face a Washington. Reações iradas à visita do então vice-presidente Richard Nixon, em 1958, abriram espaço para que o Brasil tomasse a iniciativa, com a Operação Pan americana. ‘‘É preciso criar algo mais profundo e algo mais duradouro em favor do nosso destino  comum”, escreveu, em maio de 1958, o então presidente Juscelino Kubitschek, ao chefe de Estado americano Dwight Eisenhower.
Em outra carta, ao presidente Arturo Frondizi,  da Argentina, JK defendeu a necessidade de melhorar as condições de vida de “todas as zonas subdesenvolvidas da nossa comunidade”. Caberia a Jânio Quadros, sucessor de JK, avançar no terreno ainda virgem da independência diplomática. Em sua primeira e única mensagem ao Congresso, Jânio, embora registrando que “a posição ideológica do Brasil é ocidental e não variará”, pregou a “ neutralização do conflito ideológico”, disse que o Brasil “não pode ignorar a vitalidade e o dinamismo dos Estados socialistas” e falou dos “pontos de contato entre Brasil e os povos da África e Ásia”. Além de condecorar “Che” Guevara, herói da Revolução Cubana e inimigo de Washington, encontrou-se com Frondizi, em Uruguaiana, numa reunião impregnada de fantasias de independência. JQ renunciou, em agosto de  1961, sete meses após sua eleição, alegando estar submetido a pressões ‘‘terríveis’’.

João Goulart, seu sucessor, votou contra a expulsão de Cuba da OEA, colocou o Brasil na linha de frente do Grupo dos 77 (dos países subdesenvolvidos da Ásia, África e América Latina), e contribuiu de modo decisivo para que se instalasse a Unctad (conferências de comércio e desenvolvimento), que acirrou o confronto norte-sul. Mas, o golpe de 1964 depôs Goulart e trouxe o “alinhamento automático”: o que é bom para Washington é bom para o Brasil, disse, textualmente o ex-chanceler Juracy Magalhães. Cuba foi expulsa da OEA, com o voto do Brasil, o único grande país latino-americano a mandar tropas para a República Dominicana, invadida em 1965 pelos Estados Unidos em nome da contenção do comunismo.
O governo Costa e Silva (março de 1967 a agosto de 69) traria surpresas. O Brasil foi dos mais ativos na convocação da conferência só de países latino-americanos em Vina del Mar (Chile), em março de 68. O “Consenso de Vina del Mar” afirmava a necessidade de “modificações importantes nas relações com os demais membros da comunidade internacional”.
Dizia que os interesses latino-americanos “não são idênticos aos dos Estados Unidos, e tendem a ser progressivamente contraditórios”. O governo Médici (outubro de 69 a março de 74) foi caracterizado pela paralisia e isolamento.
Com Geisel (março de 74 a março de 79),instalou-se o “pragmatismo responsável”, o Brasil como “país do Ocidente e do Terceiro Mundo”.
Criou-se um “dual track” (duas vertentes, Ocidente e Terceiro Mundo) a partir de conflitos com os Estados Unidos, sobretudo na disputa de mercados árabes de armas. Sedimentaram-se fantasias atômicas. O Brasil, certo de que os petrodólares financiariam o desenvolvimento de sua indústria bélica, concluiu um acordo de cooperação nuclear com a Alemanha e denunciou o tratado de assistência militar de 1952 com Washington. O Brasil não podia continuar “imóvel” diante da recusa americana a repassar “tecnologia sensível” para armas convencionais e nucleares. Mas o governo seguinte, do general Figueiredo (março de 79 a março de 85), viu-se envolvido com a crise da dívida. O discurso diplomático quase se limitou a criticar “rígidas políticas de austeridade que possam destruir bases econômicas dos países latino-americanos” e a denunciar o “baixo nível de cooperação internacional”.
O governo Sarney, a partir de 1985, definiu como prioridade uma política latino-americana, sobretudo de relações com a Argentina, com a qual foram assinados 10 protocolos de cooperação, abrindo o processo de integração que daria no Mercosul, e acordo de inspeção recíproca de instalações nucleares.
E também de entusiasmo com a China. O governo Collor iniciou a abertura do mercado nacional (incluindo o de informática), e admitiu que o Brasil  tinha  planos para fazer testes nucleares (no ‘‘buraco’’ da base aérea de Cachimbo, por ele fechado).
Os governos de Itamar e Cardoso reiteraram e reiteram a prioridade das políticas de integração mais amplas, da criação de “vastas áreas de livre comércio”, o que, em última instância, confluiria com os novos interesses americanos, nos quais a geoeconomia substitui a velha geopolítica.
Boletim Mundo Ano 3 n° 4