sábado, 31 de dezembro de 2011

GLOBALIZAÇÃO COMERCIAL EXIBE GEOMETRIA TRIPOLAR

União Européia, Estados Unidos e o triângulo Japão-China-NPIs dominam os intercâmbios mundiais de mercadorias. O Brasil está excluído dos grandes fluxos de comércio.

Na Organização Mundial de Comércio (OMC), cada país tem um voto. Mas, no comércio mundial, a igualdade está ausente: cinco potências ou grupos de países controlam 63% das exportações e 68% das importações globais.
Estados Unidos, União Européia, Japão, China e Novos Países Industrializados (NPIs, ou Tigres Asiáticos) dominam os fluxos internacionais de mercadorias.
Os Estados Unidos ocupam o lugar de maior potência comercial do mundo, mas seu intercâmbio externo caracteriza-se por um desequilíbrio estrutural expresso no imenso saldo negativo da balança comercial, que atingiu US$ 707 bilhões em 2004.
As exportações americanas dividem-se em três direções principais: os parceiros do Nafta (Canadá e México), com 37% do total; a Ásia (especialmente Japão, China e Tigres Asiáticos), com 26%; e a Europa, com 23%. As importações seguem as mesmas direções, mas em proporções diferentes: 37% do total provêm da Ásia; 27% do Canadá e México; 21% da Europa. Os saldos negativos aparecem em todas as direções, mas a sua magnitude é maior no intercâmbio com a Ásia.
A União Européia (UE), tomada em conjunto e excluindo-se o intercâmbio intra-europeu, apresenta exportações um terço maiores que as americanas, mas importações 16% menores. Os intercâmbios com a América do Norte, em primeiro lugar, e com a Ásia, em segundo, concentram a maior parte do comércio inter-regional europeu. Mas o comércio intra-regional é muito maior que a soma das trocas com América do Norte e Ásia.
Isso significa que a expressão “Fortaleza Europa” tem fundamento, ao menos no terreno econômico. A pujança do comércio intra-europeu é um dos pilares da moeda comum da UE, contribuindo para que o euro permaneça mais ou menos imune às flutuações do dólar. A relativa auto- suficiência comercial da UE é a plataforma que permite a seus negociadores de comércio ignorarem as pressões pela redução de subsídios agrícolas. A “Europa dos 25” pode passar muito bem sem a OMC – e praticamente proclama isso a cada reunião de negociações multilaterais.
O Japão perdeu a posição de maior potência comercial asiática para a China. A maior parte de suas exportações (51%) e de suas importações (50%) destinam-se à Ásia ou originam-se da Ásia. A China é, de longe, o maior fornecedor das importações do Japão. Mas, isoladamente, os Estados Unidos são o maior destino de suas exportações.
A China ocupa uma posição estratégica na rede global de fluxos de mercadorias. As suas importações provêm principalmente do Japão e dos NPIs, enquanto as suas exportações têm como maior mercado os Estados Unidos, seguidos de longe pela UE.
O intenso intercâmbio regional asiático precisa ser desvendado. As empresas  japoneses e dos NPIs fornecem máquinas, equipamentos e tecnologias para as empresas instaladas na China, que têm participação dominante de capitais estrangeiros (americanos e japoneses, em especial). Essas empresas instaladas na China manufaturam, utilizando mão-de-obra barata, bens industriais destinados aos Estados Unidos. Uma parcela decisiva do saldo comercial negativo americano é formada pelo fluxo de importações de produtos chineses, que são fabricados em grande parte por empresas americanas e japonesas.
A geometria comercial da globalização é tripolar. Um desses pólos é a “Fortaleza Europa”. O segundo são os Estados Unidos, com seus fluxos multi- direcionais e um grande fluxo de importações proveniente dos fabricantes internacionais sediados na China. O terceiro é a Ásia (na verdade, o triângulo com vértices no Japão, nos NPIs e na China), que realiza trocas produtivas intra-regionais e exporta bens industriais em grande quantidade para os Estados Unidos.
O resto do mundo compõe uma vasta periferia do comércio global. Nessa periferia, excluindo-se os fornecimentos petrolíferos do Golfo Pérsico, destacam-se apenas algumas potências comerciais secundárias: Comunidade de Estados Independentes (isto é, sobretudo a Rússia), Brasil, Índia e México.
A Comunidade de Estados Independentes (CEI) exporta principalmente combustíveis fósseis (petróleo e gás natural) e matérias-primas minerais para a Europa. A Rússia ocupa um lugar de exportador especializado no comércio mundial e depende, mais do que nunca, do mercado formado pela UE.
O Brasil apresenta comércio multi- direcional, dividido entre os eixos da América Latina, Estados Unidos e UE. Contudo, as exportações industriais concentram-se na América Latina. Do ponto de vista global, o Brasil é, essencialmente, um exportador de bens agropecuários para a Europa, os Estados Unidos e, em menor escala, a China.
A Índia não se destaca no comércio de mercadorias mas sim no de serviços. Na última década, ela firmou-se como parceiro importante dos Estados Unidos nos intercâmbios de tecnologia da informação (TI) e, em menor escala, de audiovisual e serviços financeiros.
Esses intercâmbios indianos de serviços apresentam expansão na Ásia e na Europa.
O México não é um global trader (comerciante global). O seu comércio exterior exibe magnitude relativamente grande mas concentra-se numa única direção: os Estados Unidos. Em 2004, os Estados Unidos foram o destino de 89% das exportações do México. Isso confirma a percepção de que a economia mexicana configura um espaço anexo da economia americana.
A análise da geometria comercial da globalização tem conseqüências desanimadoras para a política brasileira de comércio exterior. Dois de nossos parceiros no G-4 (China e Índia) podem solucionar seus problemas comerciais fora da OMC, em negociações regionais (na Ásia) ou bilaterais (com os Estados Unidos).
O terceiro parceiro (África do Sul) é irrelevante no tabuleiro do comércio mundial, o que se aplica também à maior parte do G-20 (o grupo de países em desenvolvimento que se articulam nas negociações da OMC).

Boletim Mundo n° 5 Ano 14

IMPASSE AGRÍCOLA FERE DE MORTE A RODADA DE DOHA

Falta de acordo entre europeus e americanos provoca a suspensão nas negociações globais da OMC. O Brasil, que apostou tudo na “rodada do desenvolvimento”, aparece entre os grandes derrotados.

Fracassou uma das grandes apostas da política brasileira de comércio exterior. Era a Rodada de Doha, ciclo de negociações globais, sob a égide da Organização Mundial de Comércio (OMC), iniciada na capital dos Emirados Árabes em 2001. No encontro de ministros realizado em Genebra, em julho, o ciclo foi suspenso indefinidamente, devido à falta de consensos mínimos sobre reduções de subsídios e tarifas de importações agrícolas. O fracasso em Genebra ameaça implodir a Rodada, pois em 2007 expira o direito concedido pelo Congresso americano ao presidente George Bush para firmar acordos de comércio.
A Rodada de Doha foi definida como a “rodada do desenvolvimento”, pois a liberalização do comércio global deveria partir da redução drástica dos entraves ao comércio agrícola, o que beneficiaria sobretudo os países em desenvolvimento. O impasse, que pode ser fatal, decorre do fato de que União Européia e Estados Unidos, as duas maiores potências comerciais do mundo, não aceitaram fazer cortes drásticos nos subsídios aos seus agricultores e pecuaristas. Em conseqüência, o chamado G-4, grupo composto por China, Índia Brasil e África do Sul, recusou discutir reduções nos impostos sobre a importação dos produtos industrializados.
Mas, se todos os países sentem que poderiam sair perdendo com a liberalização comercial, por que continuam a negociar? A questão é que a redução das barreiras poderia gerar novos negócios de US$ 126 bilhões a US$ 260 bilhões por ano. Uma fortuna.
Então, por que as partes não se sentam e chegam a um acordo? O problema é que os fluxos de comércio gerados pela liberalização representariam um benefício genérico, para todos. E os cortes nos subsídios iriam doer em bolsos específicos, como o dos agricultores produtores de soja e algodão americanos e o dos produtores de laticínios e carne na França, por exemplo.
O setor de laticínios, sozinho, recebe subsídios de US$ 40 bilhões ao ano nos países desenvolvidos. Cada barra de manteiga exportada pela União Européia embute no preço 50% de subsídios: é um anabolizante e tanto. Graças aos impostos de importação, um queijo mineiro paga entre 200% e 300% de seu preço para entrar no Canadá.
E a manteiga argentina morre com uma tarifa de importação de 500% para chegar à mesa dos consumidores japoneses.
O protecionismo agrícola tem, evidentemente, ardorosos defensores nos países desenvolvidos.
Este ano haverá eleições presidenciais no Brasil e legislativas nos Estados Unidos e em meia dúzia de países europeus. Qual é o governo ou partido que vai querer levar a fama de ter prejudicado seus agricultores e pecuaristas, beneficiando a concorrência internacional?
Como explicar ao público interno que as perdas reais e imediatas serão mais do que compensadas por vantagens futuras impalpáveis?
Durante a Rodada de Doha, os Estados Unidos aceitaram reduzir os subsídios agrícolas domésticos em 53%, enquanto a União Européia admitiu cortes de 39%. Mas não se iluda com os números, apresentados simplificadamente para consumo do grande público. A pauta de negociações de Doha listava 750 divergências, exceções e “jeitinhos” para que os cortes fossem muito menos expressivos do que parecem. Quando soube da sugestão americana completa, o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, ficou bravo. “Na prática, a proposta dos Estados Unidos reduziria os subsídios domésticos para US$ 22 bilhões ao ano. Mas, hoje, eles são de US$ 18 bilhões.
Haveria, então,  um aumento nos subsídios”, afirmou. Ele é do ramo e sabe fazer as contas. Ele só não disse que a mesma lógica vale, é claro, para as propostas apresentadas pela União Européia.
O governo Lula tentou assumir uma posição de liderança internacional, articulando o G-4 e ajudando a dar rumo ao G-20 (o grupo de países em desenvolvimento que tenta agir em conjunto na OMC). Além disso, o aumento do comércio internacional de produtos agropecuários conferiria impulso à economia brasileira. Política e economicamente, o Brasil aparece entre os principais derrotados com o início do naufrágio da Rodada de Doha.
O país tem hoje 55 milhões de hectares de área cultivada, quase a metade com soja, mais 220 milhões de hectares de pastagens. O agrobusiness responde por 30% PIB brasileiro, por 39% das exportações e por 37% dos empregos. As exportações têm sido fundamentais para o equilíbrio das contas externas brasileiras. Ano passado, a balança comercial fechou com superávit recorde de US$ 44,8 bilhões. De acordo com a OMC, a eliminação total dos subsídios agrícolas, prevista originalmente para 2013, permitiria ao Brasil um ganho líquido de US$ 3,5 bilhões ao ano.
É fácil, mas enganoso, contabilizar as perdas em dólares.
O maior impacto do fracasso de Doha para o Brasil é estratégico. O impasse das negociações globais desvia o sistema de comércio para a busca de acordos regionais e bilaterais. Nesse tabuleiro, o que vale não são regras uniformes e relativamente equilibradas, como prometia a “rodada do desenvolvimento”, mas o jogo bruto do poderio comercial de cada país.
O Brasil experimentou o gosto do jogo bruto nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas e entre Mercosul e União Européia. Desde que os ministros abandonaram a sala de reuniões de Genebra, em meio a recriminações mútuas, o Itamaraty tenta se acostumar com a idéia do retorno aos tabuleiros regionais. Não é um bom negócio, mas não há nenhum outro à vista...

Boletim Mundo n° 5 Ano 14

GLOBAL TRADER OU REGIONAL TRADER?

O Comércio exterior brasileiro atravessou, nos últimos dez anos, dois momentos distintos. Entre 1995 e 2000, o país apresentou déficits comerciais constantes e, entre 2001 e 2005, sucessivos superávits em sua balança comercial. Os dados já divulgados dos primeiros oito meses de 2006 confirmam a expectativa de mais um ano superavitário. Na última década, as exportações cresceram, em média, cerca de 9% ao ano. No último qüinqüênio, o ritmo de crescimento médio anual saltou para 21%.
Esse importante aumento das exportações decorre de uma combinação de fatores favoráveis. Entre eles, destacam- se o forte crescimento da economia mundial, a taxa de câmbio favorável (entre 1999 e 2005), o ganho de produtividade das empresas e o baixo crescimento do consumo interno. O último fator revela que nem sempre a expansão das exportações é algo a ser comemorado...
Todavia, uma análise mais apurada do fenômeno indica que as exportações brasileiras cresceram mais pela quantidade de bens exportados do que pelo valor dos produtos comercializados. Isso significa que o Brasil encontra dificuldades para subir a “escada tecnológica” do desenvolvimento econômico.
As mercadorias exportadas podem ser divididas em dois grandes tipos, segundo a intensidade de capital e conhecimento investidos na sua produção: os bens diferenciados ou industriais (mercadorias de maior valor agregado) e as commodities, isto é, matérias-primas agrícolas e minerais.
Os bens diferenciados subdividem-se em quatro categorias:
● alta tecnologia (aviões, telecomunicações, produtos de informática, farmacêuticos);
● média-alta tecnologia (veículos, maquinas, equipamentos mecânicos, elétricos, produtos químicos);
● média-baixa tecnologia (produtos metálicos, aço, cerâmica, vidro e borracha);
● baixa tecnologia (têxteis, cigarros, calçados, couros).
As commodities, por sua vez, abrangem três categorias: os produtos do agronegócio, os bens minerais e os combustíveis.
Os produtos diferenciados representam atualmente cerca de 53% das exportações brasileiras e as commodities, 47%. É neste último grupo de produtos que o Brasil vem se destacando como um dos principais produtores mundiais.
Somos o país da soja, do café, do açúcar, do algodão, da carne bovina e suína, das aves... Aproximadamente 70% das exportações brasileiras de bens diferenciados referem-se a produtos de média- alta e média -baixa tecnologias, enquanto os produtos de alta tecnologia participam com apenas 7%. No que se refere às commodities, o agronegócio engloba cerca de dois terços do total exportado, seguido de longe pelos bens minerais, com 13%.
Os destinos das exportações brasileiras diversificaram-se nas últimas décadas. Contudo, cerca de 65% das exportações dirigem-se para três grandes mercados, em proporções mais ou menos equivalentes: América Latina, União Européia e Estados Unidos.
A combinação das estatísticas sobre os tipos e categorias de produtos exportados e sobre os destinos das exportações evidencia que:
1. As exportações para a América Latina concentram-se em produtos de média- alta tecnologia.
2. As exportações para a União Européia concentram-se em produtos de baixa tecnologia e commodities.
3. As exportações para os Estados Unidos concentram-se em produtos de baixa e média- alta tecnologia.
4. Como acontece no caso da União Européia, as exportações para a Ásia concentram-se em produtos de baixa tecnologia e commodities.
No caso especial da China, a estrela maior da economia internacional e o quarto maior parceiro comercial individual do Brasil, tais produtos representam mais de 75% do total. Embora o Brasil venha mantendo superávit comercial em relação à China desde 2001, nos últimos dois anos o tamanho desse superávit conheceu rápida redução. O perigo reside no fato de que as principais importações brasileiras de produtos chineses incidem sobre máquinas, aparelhos e materiais elétricos, bens de maior valor agregado do que as matérias-primas que exportamos para a China.
O Brasil apresenta-se, orgulhosamente, como um global trader (comerciante global). As estatísticas solicitam um pouco de humildade: somos um global trader apenas no que se refere às commodities. Em relação aos produtos diferenciados, o Brasil é, quase exclusivamente, um regional trader.

Boletim Mundo n° 5 Ano 14

CHINA ANUNCIA MONUMENTAL PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DE ÁGUAS

Nelson Bacic Olic

Atualmente, cerca de 60% dos habitantes do planeta têm disponibilidade insuficiente de água, enquanto que quase 8% da população mundial já vive afetada por grave escassez. O cenário futuro não é otimista: estima-se que em 2050, cerca de 4 bilhões de seres humanos viverão sob escassez crônica do chamado “ouro azul”.
O espectro da escassez de água preocupa, em diferentes graus, quase todos os países. Mas China e Índia são casos especiais, pois abrigam cerca de um terço da humanidade. A população indiana cresce num ritmo bem mais acelerado e deverá ultrapassar a chinesa nas próximas décadas. Em ambos os países a população rural é mais numerosa que a urbana: cerca de 60% dos chineses e um pouco menos de 70% dos indianos vivem no meio rural.
A agricultura é o setor econômico que mais utiliza recursos hídricos. Cerca de 70% da água utilizada é destinada a esse setor. O restante vai para uso industrial (20%) e doméstico (10%). Se a China exibe participação setorial não muito distante da média mundial (67%, 26% e 8% respectivamente), na Índia o setor agrícola apresenta consumo bem superior (mais de 80%).
Em termos de utilização de águas subterrâneas, o consumo per capita na Índia é cinco vezes maior que o verificado na China. Outra diferença encontra-se na situação dos recursos hídricos superficiais.
A dependência de água renovável vinda de fora do país na Índia é de 34%, enquanto na China é de apenas 1%. Isso se deve ao fato de que os principais rios chineses – o Yang-Tsé- Kiang, o Huang-Ho e o Sikiang terem a totalidade de suas bacias hidrográficas no interior da China, ao contrário do que ocorre com as bacias do Ganges e, especialmente, do Indo, que se estendem apenas parcialmente em território da Índia.
Entre suas nascente, no Tibete chinês, e a foz, no Paquistão, país onde localiza-se a maior parte de seu curso, o Indo atravessa um pequeno trecho da Caxemira indiana.
Todavia, alguns dos principais afluentes da margem esquerda do Indo têm parte considerável de seus cursos em território indiano. Nessa região, o maior perímetro irrigado do mundo, os dois países colaboram na utilização conjunta das águas fluviais, o que contrasta com a tensão geopolítica e militar que contamina a maior parte do seu relacionamento.
Já o Ganges, rio sagrado para o hinduísmo, corre quase integralmente no território da Índia. O país só não tem soberania em sua foz, um grande delta que ocupa parte considerável do território de Bangladesh. O programa de controle das águas num vale sujeito a desastrosas inundações requer maior colaboração entre os dois Estados. Contudo, antigas desavenças sobre a barragem indiana de Farakka e a partilha das águas bloqueiam a cooperação.
Bangladesh, um Estado muito pobre e pouco preparado para enfrentar desastres naturais, é especialmente vulnerável às inundações no amplo delta.
A China também enfrenta desafios hídricos significativos. Na porção centro-ocidental do país, área de domínio de climas áridos e semi-áridos e de população rarefeita, a questão da escassez é natural.
Na parte oriental, onde se concentra a maior parte da população e as principais regiões urbano-industriais, há diferentes dificuldades regionais.
A região meridional concentra cerca de três quartos dos recursos hídricos do com destaque para a bacia do Yang Tsé-Kiang. Ao norte, na bacia do Huang-Ho, onde os climas são mais secos, a escassez de água já é uma realidade.
Nessa área, responsável pela geração de mais de 60% das riquezas agrícolas, a irrigação intensiva já tem conseqüências dramáticas. Em 1972, pela primeira vez na milenar história do país, o rio Huang-Ho secou e deixou de chegar ao mar por 15 dias. Em 1997, ele deixou de correr para o mar por 226 dias.
É por isso que o governo chinês desenvolve o maior projeto de transposição de águas do mundo, que se destina a captar águas do sul e transferi-las para o norte. O projeto grandioso envolve a construção de três canais sul-norte, interligando quatro dos maiores rios do país, com conclusão prevista para 2050.
Nem tudo são rosas. Especialistas estimam que pelo menos 250 mil pessoas deverão ser reassentadas e chamam a atenção para o fato de que o projeto atende a uma pequena parcela do déficit de água da região. É um alerta importante para projetos semelhantes em outras partes do mundo.
Boletim Mundo n° 4 Ano 14

NOVA ZELÂNDIA, ARQUIPÉLAGO GLOBALIZADO

Regina Araujo e Raul Borges Guimarães

Os habitantes da Nova Zelândia chamam a si mesmo de “kiwis”, nome de uma estranha espécie de pássaro que se tornou símbolo do país e da fruta que eles inventaram.
Existem cerca de 4 milhões de “kiwis”, a maior parte dos quais concentrados em duas cidades: Auckland, o principal centro financeiro e de serviços e Wellington, a capital política, ambas na Ilha do Norte. Entretanto, uma parte importante das riquezas nacionais é gerada no campo. As belíssimas paisagens rurais do país são dominadas por mais de 43 milhões de ovelhas, que dividem os pastos com cerca de 12 milhões de vacas e quantidades respeitáveis de veados. Na Nova Zelândia, os vilões do efeito estufa não são os automóveis ou as fábricas, como acontece no resto do mundo, mas os animais: o gás emitido durante o processo digestivo do gado é responsável por cerca de metade de todo o gás metano emitido no país. As autoridades locais já pensaram inclusive em criar um imposto ambiental sobre a flatulência dos animais, mas a medida foi rechaçada pelos produtores rurais...
Para um viajante brasileiro, tudo soa estranho e encantador, a começar pela natureza. Auckland é na verdade um “campo de vulcões”. A baía sobre a qual a cidade foi erguida é pontilhada de inúmeras ilhas de origem vulcânica, muita delas formadas a apenas poucos milhares de anos.
Em toda parte, estranhas formações vegetais e rochas magmáticas expostas anunciam a “juventude” geológica do lugar.
Além de ser uma das capitais mundiais dos esportes náuticos, Auckland funciona como principal nó das ligações entre a Nova Zelândia e o resto do mundo – em especial a Austrália e os países da Bacia do Pacífico. Por isso, os povos genericamente chamados de “pacíficos”, de traços marcadamente asiáticos, representam cerca de 15% da população da cidade.
A importância de Auckland na rede de relações externas no país é sintetizada no emblema de seu aeroporto internacional: “onde a Nova Zelândia toca o mundo”. A globalização é um elemento da paisagem, na qual de destacam edifícios inteligentes de empresas de consultoria e de prestação de serviços, a maior parte deles na área portuária em rápido processo de modernização.
Aqui, como em toda a parte, a inserção urbana nas redes globalizadas aqueceu o mercado imobiliário e favoreceu a especulação.
Estivemos em um congresso internacional dedicado à Geografia da Saúde em Waiheke, uma das maiores ilhas da baía de Auckland, transformada em pólo turístico de fim de semana para os habitantes da cidade. Como acontece em grande parte dos encontros científicos realizados no país, o congresso foi aberto em maori, a língua dos nativos. Além disso, incluiu a visita a uma das centenas de tribos maoris espalhadas pelo país.
O respeito às tradições dos nativos é um dos traços da cultura neozelandesa: topônimos maoris são utilizados na maior parte das estradas, cidades e povoados do país; e os maoris ocupam um espaço significativo da vida política social e política local. Mas o encontro entre a população maori e os colonizadores ingleses não foi exatamente cordial: ao longo do século XIX, os maoris ofereceram resistência cerrada à ocupação de suas terras. Em 1840, os principais chefes tribais assinaram uma espécie de tratado de paz com a Coroa Britânica, o Tratado de Waitangi, que até hoje é considerado o documento fundador da nação neozelandesa. Por meio dele, os britânicos asseguram o controle político sobre a nação, mas garantiram aos maoris o direito de conservar o controle sobre suas terras e seus recursos.
Apesar do tratado, os episódios de violência e de confisco de terras maoris prosseguiriam nas décadas seguintes.
Devido às doenças trazidas pelos europeus, contra as quais os maoris não tinham imunidade, tais como febre tifóide e tuberculose, a população maori conheceu acentuado declínio. Estima-se que quando James Cook aportou na Nova Zelândia, em 1773, existiam entre 125 e 150 mil maoris espalhados nas ilhas que hoje pertencem ao país. No final do século XIX, a população maori era de apenas 43 mil pessoas!
No século XX, no entanto, a população nativa conheceu grande surto de crescimento, devido às políticas públicas de saúde e ao arrefecimento da violência. O renascimento maori é um dos fenômenos mais significativos da história neozelandesa recente. Mesmo assim, as condições de vida e de saúde dos 320 mil maoris que atualmente existem no país ainda são bastante inferiores às vigentes na população de origem britânica.
Durante o congresso, os pesquisadores neozelandeses apresentaram trabalhos que analisavam a saúde da perspectiva do local: vizinhança e comunidade eram os conceitos chaves de seus trabalhos. Esta escala de abordagem faz todo o sentido para um país pequeno e com apenas poucos milhões de habitantes, mas soa estranha para os pesquisadores brasileiros. Enquanto os neozelandeses mostraram seus esforços para definir os limites da vizinhança, os brasileiros estavam preocupados em estabelecer os limites das grandes regiões de saúde, cada uma delas abrigando uma população muitas vezes superior à população total da Nova Zelândia.
Terminado o congresso, partimos de Auclkand em direção à Wellington, passando por uma inusitada combinação de planícies ocupadas por pastos, cordilheiras montanhosas e crateras vulcânicas que abrigam imensos lagos. Um complexo sistema de falhas tectônicas atravessa a Ilha do Norte. Nos diversos parques temáticos instalados no centro da ilha, o tectonismo se transforma em espetáculo de gêiseres e águas quentes coloridas pelos mais diversos metais. A cidade de Rotorua, centro do roteiro termal, exala um cheiro de enxofre forte o suficiente para tirar o sono dos turistas desavisados...
Em Wellington, a Nova Zelândia é sobretudo inglesa. As marcas da colonização estão em toda a parte: nos edifícios vitorianos, na feição dos habitantes, dos pubs noturnos. No Museu Nacional Te Papa, entretanto, reencontramos a diversidade cultural e natural que caracteriza este país tão particular. A natureza, os esportes radicais, as tradições maoris e chegada dos colonizadores estão brilhantemente sintetizadas no acervo, que inclui um jogo interativo no qual se explicam as condições ofertadas pelo governo às pessoas do mundo inteiro que desejem emigrar para lá. Alguém se candidata?

 Boletim Mundo n° 4 Ano 14

UMA RECEITA EXPLOSIVA NO CORAÇÃO DA EUROPA

Nesta noite, com a decisão da maioria dos habitantes de Montenegro, a independência do país foi renovada.
Agora temos um Estado”, declarou, em 21 de maio, o primeiro-ministro Milo Djukanovic, principal líder da campanha pela separação de seu país da república balcânica da Sérvia e Montenegro. A opção pelo “sim”, decidida em referendo, conquistou pouco mais do que os 55% dos votos necessários para consumar a separação.
Montenegro, naquela data, deu o passo definitivo para emergir das antigas repúblicas que integravam a Iugoslávia, tornando-se o mais jovem país do velho continente.
A Iugoslávia foi um Estado multinacional constituído por sérvios, montenegrinos, croatas, eslovenos, bósnios muçulmanos, macedônios, albaneses e húngaros étnicos. A separação de Montenegro não é o ato final da sua desagregação: no futuro próximo, a província sérvia de Kosovo, de maioria albanesa, sob protetorado da ONU desde 1999, deve tornar-se um país independente.
Mas a separação de Montenegro é um caso singular, pois a “invenção” da nação montenegrina é um fenômeno muito recente e inseparável da interferência da União Européia (UE).
O resultado do referendo mostrou, claramente, que a questão da independência dividiu e ainda divide seriamente os 700 mil montenegrinos. Os oponentes da separação incluindo políticos, líderes da Igreja Ortodoxa e camponeses das regiões montanhosas situadas no interior – defendiam a preservação dos vínculos culturais, familiares, econômicos, políticos e históricos com a Sérvia. Os montenegrinos compartilham com os sérvios a religião cristã ortodoxa, o alfabeto cirílico e a língua; cerca de 30% consideram-se, de fato, sérvios. As correntes que defenderam o “não” alegavam que a separação implicaria, necessariamente, uma perda cultural sem razão e sem propósito.
Em contrapartida, os defensores da separação – a maior parte dos montenegrinos e albaneses que vivem nas regiões litorâneas – alegavam que a separação permitiria uma integração mais rápida com a UE, com todos os supostos benefícios econômicos implicados.
Há tempos, Montenegro foi capturada para a “área de influência” da UE – e, mais particularmente, da Alemanha. Em 1996, Montenegro substituiu sua moeda pelo marco alemão e depois adotou o euro.
Além disso, no campo estritamente político, o grau de ingerência da UE nos assuntos da antiga província pode ser facilmente demonstrado pelo fato de que as normas para a realização do referendo foram redigidas em Bruxelas, a “capital européia”.
Existirá mesmo uma “nação montenegrina”, separada da Sérvia, com uma identidade própria, autônoma e capaz de caracterizar a existência de um novo país? Nada indica isso.
Além das práticas cotidianas que configuram a identidade de um povo – religião, idioma, alfabeto –, Montenegro ainda compartilha com a Sérvia uma história intensa, iniciada na segunda década do século XX.
Após a derrocada do Império Otomano (do qual fazia parte), ao final da Primeira Guerra Mundial (1914-18), Montenegro integrou-se, junto com a Sérvia, ao reino dos eslavos do sul, base sobre a qual Josip Broz Tito conduziu o processo de constituição da Iugoslávia, ao final da Segunda Guerra Mundial (1929-45). E mais: em 1992, quando a Iugoslávia “explodiu”, sob o impacto da queda do Muro de Berlim, os montenegrinos, também em plebiscito, reiteraram sua união com os sérvios.
Apesar de tudo isso, a UE favoreceu a decisão de separação de Montenegro, por uma questão estratégica de longo alcance geopolítico e histórico. Trata-se de aprofundar o “cordão sanitário” europeu em torno da Rússia, que tem na Sérvia um tradicional e fiel aliado.
Os estrategistas europeus, assim como os militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ainda consideram a Rússia uma potência continental rival, que preserva a sua extraordinária força em termos de recursos naturais, extensão geográfica e arsenal nuclear.
Mas, ao puxar o cobertor para cobrir a cabeça, a UE corre o sério risco de deixar desprotegidos os pés.
Se a independência é uma reivindicação legítima para uma província de 700 mil habitantes, também o será para catalães e bascos da Espanha, corsos da França e valões da Bélgica, comunidades que jamais abandonaram a perspectiva de constituir um país autônomo, com muito mais argumentos e legitimidade do que os montenegrinos. Bruxelas acendeu o pavio dentro do depósito de pólvora.
Boletim Mundo n° 4 Ano 14

ENTRE OS ESTADOS UNIDOS E A AMÉRICA LATINA

Nas eleições presidenciais, dois Méxicos se confrontaram. A divisão ao meio do eleitorado atualizou os antigos dilemas de um país que já não contesta o alinhamento básico com a superpotência do norte.

Em meio às incertezas da contagem de votos das eleições presidenciais no México, em julho, jornalistas em Washington foram surpreendidos com a entrada em cena, para falar das repercussões no universo oficial dos Estados Unidos, de um representante do Conselho de Segurança Nacional. O esperado era que se manifestasse alguém do Departamento de Estado, como em geral acontece em casos como esse. As eleições mexicanas estariam sendo encaradas  pelo governo Bush como questão de segurança nacional?
Veio à lembrança o ruidoso “caso Zimmerman”, assunto de livro da historiadora Barbara Tuchman.
O México é tão intrinsecamente ligado aos Estados Unidos que é difícil vê-lo como capaz de criar problemas para seu vizinho todo-poderoso e, muito menos, como país que possa ameaçar o bem-estar dos americanos, além das ações de traficantes e das pressões migratórias, mesmo elas com o seu lado “positivo” – o de fornecer mão-de-obra barata e disposta a pegar no pesado. Mas, na época da Primeira Guerra Mundial (1914-18), um telegrama assinado por Zimmerman, diplomata alemão de alta patente, deu pistas para a identificação de manobras da Alemanha com o objetivo de conseguir influência no México.
Com as grandes potências a caminho da Segunda Guerra Mundial (1939-45), o México nacionalizou o petróleo e os Estados Unidos não reagiram irados, como era esperado... Importava sobretudo preservar a política da boa-vizinhança, tendo em vista a catástrofe que se aproximava. Aí temos, portanto, antecedentes não muito distantes de um México tratado em Washington como peça da segurança nacional.
A história estaria se repetindo? Gabinetes oficiais da capital americana estariam imaginando um México como possível ninho de “células” sob mira dos cruzados da “guerra ao terror”? O Partido da Revolução Democrática (PRD), dissidência do Partido Revolucionário Institucional (PRI) – o aparato político dominante ao longo de 71 anos, um antro de máfias – teve entre seus criadores Cuautemóc Cárdenas, descendente de Lázaro Cardenas, comandante da nacionalização do petróleo e cuja efígie ainda hoje tira o sono dos americanos.
Nas eleições de julho, o PRD apresentou um candidato “competitivo”, López Obrador, com discurso diferente do de Felipe Calderón, do governista Partido de Ação Nacional (PAN). Calderón exibiu uma folha de serviços “impecável”, que inclui o papel de “leal oposição” ao velho PRI.
Com sua bancada o PAN ofuscava a imagem de regime de partido único e acabou sendo o beneficiário imediato do fim do reinado do PRI. Em 2000, o PAN elegeu Vicente Fox, de quem Calderón, formado na universidade americana Harvard, foi ministro. Ambos têm a visão de um livre mercado absoluto. Obrador, ao contrário, imagina um Estado “forte” subsidiando os setores mais pobres da população.
Um participante de um painel da BBC de Londres disse que as eleições no México foram de esquerda contra a direita, de pobres contra ricos e de norte contra o sul.
Direita, ricos e norte certamente significam, na cabeça do autor da declaração, os Estados Unidos, cuja forte presença no processo político mexicano não é possível escamotear. Houve cenas de promiscuidade explícita. O presidente Fox apresenta-se como “irmão” de George W. Bush.
Calderón tornou-se garantia de um governo ao sul do rio Grande “articulado com o que pensa Washington”. Obrador, por outro lado, poderia esticar até as margens do rio Grande a chamada “onda de esquerda” que, segundo setores em Washington, toma conta da América Latina. Mas nem Obrador e nem o mais esquerdista dos mexicanos consegue escapar do fato, e de seus imperativos, de que o México está “inserido” na política interna americana.
Há 6,2 milhões de mexicanos vivendo ilegalmente nos Estados Unidos. O dinheiro enviado por essa gente (US$ 20 bilhões em 2005) é a segunda fonte de renda do México. Só perde para o petróleo.
O jornal Washington Post escreveu que o México é o “subtexto” do debate sobre imigração nos Estados Unidos. O México exportaria menos pobres, e isso interessa aos americanos, se crescesse com maior rapidez, fossem criados mais empregos e melhorado o padrão de vida da população.
Desde 1990, os mexicanos representam entre 20% e 25% de todos os imigrantes nos Estados Unidos.
As causas não são misteriosas. Em 1970 a renda média dos sul-coreanos era a metade da dos mexicanos. Em 2004 constatou-se inversão brutal: a Coréia do Sul já apresentava o dobro da renda per capita do México... A renda per capita no México avança, em média, apenas 0,5% ao ano.
Obrador prometeu na campanha eleitoral melhorar o padrão de vida (palmas americanas) subsidiando (uivos americanos) quem ganha menos de US$ 800 mensais.
É o dilema dos Estados Unidos e seus afilhados mexicanos. Com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), as exportações mexicanas dispararam, em oito anos as indústrias cresceram 54% e a inflação permaneceu sob controle, mas os salários se reduziram.
“Bom para as corporações, um fracasso para os trabalhadores”, é a sentença de Obrador. Ele não defende ruptura com o Nafta. Nenhuma grande corrente política mexicana defende isso. Mas acha necessário “aperfeiçoar” mecanismos de cooperação para o desenvolvimento. Não só livre comércio, não só obediência aos mercados, também um Estado em condições de investir no social.
O sul contra o norte faz algum sentido.
Há quem ache que inchações da “onda esquerdista” (no caso do México sob o impulso de Obrador) colocaria em jogo a própria correlação de forças da América Latina com os Estados Unidos. Calderón é a continuidade total e Obrador passou a impressão de uma certa continuidade na economia, com um diferencial importante: o uso de “excedentes” em políticas públicas de atendimento aos mais pobres.
Mas, no campo político e das relações externas, Obrador representou o desejo de maior aproximação com o restante da América Latina.
Em outubro haverá preenchimento de vaga de membro provisório no Conselho de Segurança da ONU. A Venezuela é candidata. Os Estados Unidos fazem dura campanha contra e promovem a Guatemala.
O governo Fox, que só termina em dezembro, já anunciou que a Guatemala terá o voto do México. Se Obrador fosse o vitorioso, não endossaria esse voto. O México de Fox promove o Programa de Integração Energética Meso-Americana, ou seja, entre México e América Central.
O objetivo é contrapor-se, na esfera do petróleo e do gás, ao eixo Venezuela- Cuba-Bolívia. A iniciativa mexicana conta, é claro, com total apoio da diplomacia americana.. Obrador, ao que parece, não está nessa. A própria secretária de Estado americana Condoleezza Rice, lançou uma estratégia de isolamento de Chávez. Calderón representa um sim a ela; Obrador, talvez um não. A vitória do primeiro, ainda contestada pelo segundo, não é um detalhe na política internacional.

Boletim Mundo n° 4 Ano 14