Sempre que pensamos em viajar, imaginamos um lugar com paisagens deslumbrantes, um lindo pôr-do-sol, praia, montanha, ou ainda uma maravilhosa viagem cultural ou esportiva. Imaginar, porém, um lugar cercado de água por todos os lados nos remete, no mínimo, a situações de naufrágio.
Minha experiência foi um tanto diferente de ambos os exemplos. Em março, embarquei em uma plataforma de petróleo, algo realmente incomum. Tive o privilégio de vivenciar esta experiência única, mesmo não sendo uma viagem de passeio.O objetivo era fazer um diagnóstico sobre os serviços de hotelaria e gastronomia offshore oferecidos nas plataformas de Macaé, foco da empresa onde trabalho atualmente.
Situada 182 quilômetros a norte do Rio de Janeiro, diante da Bacia de Campos, a cidade de Macaé tornou-se, após a instalação da Petrobrás, em 1978, um dos mais importantes centros urbanos fluminenses e um lugar estratégico para o empreendimento energético do país. Para se ter uma idéia, quase todas as grandes empresas petrolíferas mundiais tem bases em Macaé, como a Hulliburton, Schlumberger, Smith, entre outras. A Bacia de Campos é hoje o maior laboratório de águas profundas e sub-profundas do mundo, porque nela se testam, continuamente, soluções tecnológicas e pioneiras visando a obtenção de resultados práticos na produção do petróleo. Da Bacia de Campos saem 96% do petróleo offshore brasileiro e 80% de todo o petróleo produzido no país.
A aventura começou logo no embarque.
O heliporto de Macaé apresenta intensa movimentação de táxis aéreos que transportam todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, vivem e trabalham nas plataformas. Embarquei em um helicóptero similar ao desses filmes de guerra, que transporta aproximadamente 25 pessoas.
Para tanto, foi necessário fazer um curso rápido de salvatagem (procedimento de salvamento), para a hipótese lúgubre e improvável de que o aparelho caia no mar e reste algum sobrevivente.
Os vôos levam em média cinqüenta minutos e, depois disso, aterrissei em uma plataforma tipo FPSO (Floating, Production, Storage and Offloading) que são navios com capacidade para processar e armazenar o petróleo. Era um dos maiores já ancorados na América Latina, com capacidade para processar cerca de 200 mil barris de petróleo por dia.
Nos primeiros minutos após o desembarque, todos – tripulação e visitantes – são encerrados em uma espécie de cabine de pressurização, para reequilibrar a pressão após o vôo e, também, para tentar fazer as pazes com a maresia. De qualquer forma, fui obrigada a ingerir dois comprimidinhos milagrosos contra enjôo, sintoma típico de marinheiros de primeira viagem. Numa outra sala, são distribuídos os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), exigência para a permanência em ambientes como estes, e fui apresentada à Baleeira, pequena embarcação também utilizada no salvamento em situações de emergência na plataforma.
Apesar das dificuldades de acesso e logística, a hotelaria marítima é bem completa: recepção, hospedagem, lavanderia, alimentação, rádio-telefonia, bem como lazer e fitness. Tudo na tentativa de compensar a pressão psicológica associado ao trabalho prolongado nas plataformas. As cabines de hospedagem são pequenas e não há luxo, mas há conforto e extrema limpeza além de tudo estar preso ou colado no chão e nas paredes, também a fim de prevenir acidentes. E, o melhor de tudo, quase inacreditável: o chuveiro é bem quentinho!
O refeitório é um dos pontos de encontro e lazer mais procurados por todos os embarcados. Não é para menos: são servidos seis tipos de refeições ao dia, mais do que qualquer hotel de luxo habitualmente oferece: café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar, ceia e chá noturno.
Todos os eventos ocorrem no refeitório.
Na minha estadia, presenciei um dos mais completos rituais festivos dos últimos meses, envolvendo churrasco com banda de música e festa dos aniversariantes do mês. Como conseqüência previsível de tudo isso, o departamento de recursos humanos da Petrobrás constatou um alto índice de obesidade a bordo e, na tentativa de amenizar o problema, implantou os programas de fitness.
Ainda no quesito lazer e entretenimento, há salões de jogos, cinema, sala de leitura e até piscina. Sob um certo ângulo, distraídos, arriscaríamos classificar esta plataforma como um verdadeiro resort marítimo! Sarcasmos à parte, ciclos sucessivos de humor também podem ser observados entre os embarcados, distantes dos familiares e amigos, isolados no oceano.
Também é perceptível a preocupação ambiental a bordo: a todo momento, sinais ndicam os padrões e regras sobre o descarte de suprimentos, produtos e dejetos.
Do ponto de vista ecológico, as plataformas funcionam como ilhas artificiais e tendem a agregar, em torno de si, uma vasta diversidade de peixes e organismos marinhos. Na minha viagem, avistei um golfinho a poucos metros da plataforma.
Ao cair a tarde, contemplei longamente a imensidão azul, um espetáculo à parte capaz de encher os olhos até do mais exigente observador. Após uma boa e longa noite de sono, efeito ainda dos comprimidos tomados anteriormente, e diagnóstico realizado, era hora de retornar ao continente.
Nesse ponto, mesclaram-se as sensações conflitantes de êxtase pela experiência emocionante e alívio de pisar em terra firme novamente.
Boletim Mundo n° 4 Ano 15
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