Um exemplo é Nada de Novo no Front, do diretor Lewis Milestone (1895-1980), película ganhadora do Oscar de melhor filme e diretor em 1930. Baseado no livro homônimo do escritor alemão Erich Maria Remarque (1898-1970), publicado em 1929, é considerado por uma multidão de críticos como o melhor filme de guerra anti-bélico da história do cinema. Remarque foi perseguido pelo nazismo e sua obra queimada em praças públicas na Alemanha. Hitler cassou-lhe a nacionalidade alemã em 1933, o que o levou a fugir para os Estados Unidos e se naturalizar americano em 1939.
A obra de Milestone retrata a Primeira Guerra Mundial (1914-18), vista pelos olhos de um soldado alemão que vai para o front imbuído de enorme patriotismo e conhece o horror. O filme oferece duas mensagens: um inocente não sobrevive num campo de batalha e na guerra não há vencedores, apenas vencidos.
Dada a época em que foi realizado, o filme é em branco e preto, sem os espetaculares efeitos especiais das películas atuais. Mas um artista não precisa disso: nas cenas de combates, a câmera faz o papel dos olhos de soldados que manejavam metralhadoras e atiravam nas tropas atacantes. Essa técnica influenciou diversos filmes realizados mais tarde.
A cena final do filme de Milestone é maravilhosamente poética e teve como base as últimas linhas do livro de Remarque: “Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranqüilo em toda a linha de frente que o comunicado se limitou a uma frase: 'Nada de novo no front'. Caiu de bruços e ficou estendido como se estivesse dormindo.
Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito. Tinha no rosto uma expressão tão serena que quase parecia estar satisfeito de ter terminado assim.”
O impacto da obra de 1930 transparece em filmes como Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957), O Mais Longo dos Dias (Ken Anakin, 1962), Cruz de Ferro (Sam Peckinpah, 1976), Agonia e Glória (Samuel Fuller, 1980) e, mais recentemente, O resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998).
A Alemanha foi o foco das duas grandes guerras do século XX e do evento histórico que encerrou a Guerra Fria. Para a maioria das pessoas do mundo, a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, foi um acontecimento geopolítico de grande magnitude. Para os alemães representou mais do que isso: o reencontro de uma nação consigo mesma. Dois filmes alemães, A Promessa (Margarethe Von Trotta, 1995) e Adeus, Lênin! (Wolfgang Becker, 2003), lançam olhares distintos sobre o tema.
O primeiro é uma espécie de Romeu e Julieta da Guerra Fria e cobre o período que vai da construção do Muro, em 1961, até sua queda. O enredo conta as desventuras de um casal de namorados que, ao tentar fugir de Berlim Oriental para a parte ocidental da cidade, acaba se separando: ele fica na parte oriental e ela, na ocidental. O casal consegue se reencontrar na Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga, em 1968, quando um movimento reformista tentava desenhar uma “face humana” no socialismo, mas os dois são obrigados a se separar novamente em função das circunstâncias políticas. No fugaz encontro em Praga é gerado um filho. O casal só se reencontrará novamente na hora da queda do Muro, mas as cenas finais abrem-se para múltiplas interpretações.
Já Adeus, Lênin! se passa entre os meses que precedem e os que sucedem a queda do Muro de Berlim e mostra a velocidade das mudanças ocorridas na Alemanha Oriental nesse curto período. Tem como foco uma família formada por uma mulher e um casal de filhos. Christiane, a mãe, comunista fervorosa, sofre um enfarte e fica em coma durante oito meses, só despertando após a reunificação das Alemanhas. Enquanto ela convalesce em seu quarto, não podendo passar por dissabores, seus filhos e vizinhos desdobram-se para lhe oferecer a fantasia de que nada havia mudado na Alemanha. A operação de montagem de uma realidade ilusória resulta em situações absolutamente hilariantes. É memorável a cena em que Christiane vê, da sua janela, uma enorme estátua de Lênin sendo retirada por um helicóptero.
Trata-se de uma imagem clássica, que condensa a mensagem do filme. Divertidos, comoventes e profundos A Promessa e Adeus, Lênin! São filmes inesquecíveis e nostálgicos que falam dos sonhos e da utopia de toda uma geração.
Boletim Mundo n° 3 Ano 15
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