quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

GUERRAS E REVOLUÇÕES NO CINEMA

Um velho ditado assevera que a primeira vítima de uma guerra é a verdade. Também é voz corrente que a história dos conflitos é quase sempre contada pela ótica dos vencedores. De certa forma, grande parte dos filmes que tratam de guerras segue este padrão. Mas há obras cinematográficas que experimentam outros ângulos.
Um exemplo é Nada de Novo no Front, do diretor Lewis Milestone (1895-1980), película ganhadora do Oscar de melhor filme e diretor em 1930. Baseado no livro homônimo do escritor alemão Erich Maria Remarque (1898-1970), publicado em 1929, é considerado por uma multidão de críticos como o melhor filme de guerra anti-bélico da história do cinema. Remarque foi perseguido pelo nazismo e sua obra queimada em praças públicas na Alemanha. Hitler cassou-lhe a nacionalidade alemã em 1933, o que o levou a fugir para os Estados Unidos e se naturalizar americano em 1939.
A obra de Milestone retrata a Primeira Guerra Mundial (1914-18), vista pelos olhos de um soldado alemão que vai para o front imbuído de enorme patriotismo e conhece o horror. O filme oferece duas mensagens: um inocente não sobrevive num campo de batalha e na guerra não há vencedores, apenas vencidos.
Dada a época em que foi realizado, o filme é em branco e preto, sem os espetaculares efeitos especiais das películas atuais. Mas um artista não precisa disso: nas cenas de combates, a câmera faz o papel dos olhos de soldados que manejavam metralhadoras e atiravam nas tropas atacantes. Essa técnica influenciou diversos filmes realizados mais tarde.
A cena final do filme de Milestone é maravilhosamente poética e teve como base as últimas linhas do livro de Remarque: “Tombou morto em outubro de 1918, num dia tão tranqüilo em toda a linha de frente que o comunicado se limitou a uma frase: 'Nada de novo no front'. Caiu de bruços e ficou estendido como se estivesse dormindo.
Quando alguém o virou, viu-se que ele não devia ter sofrido muito.  Tinha no rosto uma expressão tão serena que quase parecia  estar satisfeito de ter terminado assim.”
O impacto da obra de 1930 transparece em filmes como Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957), O Mais Longo dos Dias (Ken Anakin, 1962), Cruz de Ferro (Sam Peckinpah, 1976), Agonia e Glória (Samuel Fuller, 1980) e, mais recentemente, O resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998).
A Alemanha foi o foco das duas grandes guerras do século XX e do evento histórico que encerrou a Guerra Fria. Para a maioria das pessoas do mundo, a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, foi um acontecimento geopolítico de grande magnitude. Para os alemães representou mais do que isso: o reencontro de uma nação consigo mesma. Dois filmes alemães, A Promessa (Margarethe Von Trotta, 1995) e Adeus, Lênin! (Wolfgang Becker, 2003), lançam olhares distintos sobre o tema.
O primeiro é uma espécie de Romeu e Julieta da Guerra Fria e cobre o período que vai da construção do Muro, em 1961, até sua queda. O enredo conta as desventuras de um casal de namorados que, ao tentar fugir de Berlim Oriental para a parte ocidental da cidade, acaba se separando: ele fica na parte oriental e ela, na ocidental. O casal consegue se reencontrar na Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga, em 1968, quando um movimento reformista tentava desenhar uma “face humana” no socialismo, mas os dois são obrigados a se separar novamente em função das circunstâncias políticas. No fugaz encontro em Praga é gerado um filho. O casal só se reencontrará novamente na hora da queda do Muro, mas as cenas finais abrem-se para múltiplas interpretações.
Já Adeus, Lênin! se passa entre os meses que precedem e os que sucedem a queda do Muro de Berlim e mostra a velocidade das mudanças ocorridas na Alemanha Oriental nesse curto período. Tem como foco uma família formada por uma mulher e um casal de filhos. Christiane, a mãe, comunista fervorosa, sofre um enfarte e fica em coma durante oito meses, só despertando após a reunificação das Alemanhas. Enquanto ela convalesce em seu quarto, não podendo passar por dissabores, seus filhos e vizinhos desdobram-se para lhe oferecer a fantasia de que nada havia mudado na Alemanha. A operação de montagem de uma realidade ilusória resulta em situações absolutamente hilariantes. É memorável a cena em que Christiane vê, da sua janela, uma enorme estátua de Lênin sendo retirada por um helicóptero.
Trata-se de uma imagem clássica, que condensa a mensagem do filme. Divertidos, comoventes e profundos A Promessa e Adeus, Lênin! São filmes inesquecíveis e nostálgicos que falam dos sonhos e da utopia de toda uma geração.

Boletim Mundo n° 3 Ano 15

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