quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

“ASCENSÃO PACÍFICA” DA CHINA IMPULSIONA ALIANÇA EUA-ÍNDIA

Os chineses promovem a estabilidade no Extremo Oriente, mas investem na modernização militar. Em Washington, os neoconservadores apontam na China o grande rival estratégico do século XXI.

Power shift (“Mudança no poder”) é uma coletânea de ensaios acadêmicos de intelectuais ocidentais cujo ponto de partida é o reconhecimento de que as “placas tectônicas” da geopolítica asiática movem-se rapidamente e a China retoma seu papel histórico de “Império do Centro” – ou seja, de principal potência da Ásia. O livro faz sucesso nos círculos diplomáticos chineses, que cunharam a expressão “ascensão pacífica” para descrever a trajetória do seu país e já não temem um isolamento provocado por excessos de ambição.
Uma “estrela vermelha sobre o Oriente” – a expressão, muitas vezes usada por Mao Tsé-tung, evidenciava uma política de projeção da influência chinesa na Ásia. O regime maoísta, instalado em 1949, perseguiu desde o início o poder geopolítico e militar.
A intervenção chinesa na Guerra da Coréia (1950-53), contra as tropas americanas, foi um instrumento para pressionar a União Soviética a transferir tacnologias e indústrias bélicas para a China. Poucos anos depois, as crises provocadas pelo governo maoísta no Estreito de Formosa, com o bombardeio de ilhotas desabitadas pertencentes a Taiwan, tinham a finalidade de criar um impasse nuclear com os Estados Unidos – e, assim, convencer os relutantes soviéticos a acelerar o programa nuclear chinês.
As ambições incontidas de Mao Tsé-tung ricochetearam e se voltaram contra os interesses chineses. O cisma sino-soviético, originado pela decisão de Moscou de interromper a colaboração nuclear com os chineses, em 1960, assinalou o início de um período de isolamento internacional da China. A guerra de fronteira entre China e Índia, em 1962, foi vencida pelos chineses, mas conduziu à deflagração do programa nuclear indiano. A China deu apoio logístico e militar ao Vietnã do Norte, na Guerra do Vietnã, até a retirada americana, em 1973, mas nem isso dissolveu a velha rivalidade sino-vietnamita. Em 1969, forças chinesas e soviéticas envolveram-se em combates ao longo do rio Ussuri, na fronteira da Manchúria, expondo os riscos de uma guerra total entre as potências comunistas.
O isolamento foi rompido apenas no início dos anos 70, com a célebre visita do presidente americano Richard Nixon a Pequim. Naquele momento, os chineses firmaram com os Estados Unidos um pacto anti-soviético que criou um sentimento de segurança para o regime maoísta e propiciou a Washington a chance de utilizar a China como contraponto ao poder da União Soviética na Ásia.
Deng Xiaoping, o sucessor de Mao, não escondia o temor de um retorno ao isolamento – e sempre pregou uma política externa realista e modesta. Os chineses definiram como objetivos prioritários a reincorporação do enclave colonial britânico de Hong Kong, obtida em 1998, e o estabelecimento de negociações para, num horizonte de décadas, alcançar a reunificação com Taiwan.
A estratégia da “ascensão pacífica” converteu a China num fator de estabilidade no complexo cenário geopolítico da Ásia. A expansão econômica chinesa depende da manutenção de um ambiente favorável aos fluxos de investimentos e comércio com o Japão e os Tigres Asiáticos. Em nome da segurança militar, os chineses não admitem que o Japão desenvolva um arsenal nuclear.
Para evitar que isso aconteça, Pequim participa ativamente do esforço internacional destinado a reverter a nuclearização da Coréia do Norte. No fim das contas, de modo aparentemente paradoxal, os chineses torcem pela continuidade da presença de forças americanas no Japão e na Coréia do Sul, pois essa é a garantia de que os dois países não procurarão garantir sua segurança pela criação de armas nucleares próprias.
Nos anos 60, em virtude de sua rivalidade com a Índia, a China consolidou uma aliança com o Paquistão e, mais tarde, contribuiu decisivamente para que os paquistaneses adquirissem armas nucleares.
Agora, Pequim busca desanuviar suas relações com a Índia. Há quatro anos, os chineses estimularam a abertura de negociações indo-paquistanesas sobre a disputada Cachemira e cessaram de declarar apoio incondicional às reivindicações do Paquistão.
Mas as declarações tranquilizadoras da China não eliminam as desconfianças. Segundo Lee Kuan Yew, a mais destacada liderança política de Cingapura, “ascensão pacífica” é uma expressão contraditória. “Por que não denominar isso como um renascimento, um retorno a uma idade de ouro quando a poesia, a pintura, o vestuário, a música e o teatro floresceram?” Pequim parece não concordar com a visão idílica de Yew: em janeiro, num teste bem sucedido, um míssil chinês destruiu um antigo satélite meteorológico em órbita e, neste ano, entrou em vigor um novo aumento de 18% do orçamento militar. Além disso, nos estaleiros da China, evolui a passos largos o empreendimento de construção de uma frota de embarcações de guerra oceânicas.
A futura frota precisa de bases. Os chineses engajaram-se na construção de estradas, portos e oleodutos em Mianmar e no Paquistão, em cooperação com os governos desses países, para conectar o sul da China ao Golfo de Bengala e ao Mar Arábico. Há analistas que interpretam tais iniciativas como um “laço estratégico” que se fecha sobre a Índia. O governo indiano não sustenta, oficialmente, essa análise. Mas investe no desenvolvimento de mísseis com alcance de 5,5 mil quilômetros – que obviamente não têm como alvo o Paquistão.
Em Washington, o vice-presidente americano Dick Cheney classifica a ascensão chinesa como o principal desafio de longo prazo para a segurança dos Estados Unidos.
Os neoconservadores concordam e clamam por uma política abrangente de “contenção” da China. O governo de George Bush já reconheceu a Índia como potência nuclear, firmou um pacto de cooperação com os indianos no campo do uso pacífico da energia nuclear e passou a defender o ingresso conjunto do Japão e da Índia no Conselho de Segurança da ONU.
Não é uma “nova Guerra Fria”. Ao menos, ainda não é.
Boletim Mundo n° 3 Ano 15

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