quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

NOVAS POTÊNCIAS ASIÁTICAS TRILHAM CAMINHOS DIVERGENTES

VOLTAR A PEQUIM OU XANGAI APÓS UM INTERVALO DE POUCOS ANOS É UMA EXPERIÊNCIA ESTONTEANTE. DEPOIS DE ATRAVESSAR AEROPORTOS NOVOS EM FOLHA, NOVAS VIAS EXPRESSAS O TRANSPORTAM PARA A CIDADE. OCASIONALMENTE, ENTRE OS NOVOS ARRANHACÉUS, ASSOMA UM EDIFÍCIO CONHECIDO, ISOLADO NA SELVA DE CONCRETO. (...) UM RETORNO A DELHI OU MUMBAI, EM CONTRASTE, É UMA EXPERIÊNCIA TRANQUILIZADORA, EMBORA FRUSTRANTE. A ÚNICA GRANDE INOVAÇÃO NOS AEROPORTOS (...) É UM SISTEMA DE FILA MELHORADO NAS SALAS SUPERLOTADAS DE IMIGRAÇÃO. AS RUAS PARA A CIDADE, À NOITE, ESTÃO CONGESTIONADAS DE CAMINHÕES (...).
NOS CONGESTIONAMENTOS, DEFICIENTES FÍSICOS E JOVENS MÃES COM BEBÊS NO COLO ESMOLAM À JANELA DOS AUTOMÓVEIS. EXISTEM NOVOS EDIFÍCIOS E AVENIDAS E, EM DELHI, UMA ESPLÊNDIDA NOVA LINHA DE METRÔ. MAS AS CIDADES SÃO AINDA ELAS MESMAS.

(SIMON LONG, THE ECONOMIST, 3 DE MARÇO DE 2005)
Índia e e China formam as duas últimas letras do já célebre acrônimo BRIC. O que as distingue do Brasil e da Rússia, as duas letras iniciais, não é apenas o seu incomparável poderio demográfico mas, acima de tudo, as posições que ocupam na ordem geopolítica da globalização. China e Índia são os pólos catalizadores da expansão econômica da Ásia.
No espelho do PIB per capita, é notável a divergência entre os rumos seguidos pelas duas potências. Entre 1820 e 1950, a Índia experimentou um crescimento oscilante, enquanto a China regredia persistentemente.
Depois disso, a Índia regrediu, enquanto a China experimentou um impressionante salto à frente.
O salto chinês realizou-se inteiramente no último quarto de século, após a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, com a abertura econômica deflagrada poucos anos depois. Desde 1984, o crescimento da China supera em muito o da Índia. O PIB per capita das duas potências, ajustado pela paridade do poder de compra, era praticamente idêntico em 1990. Em 2004, o PIB per capita indiano era pouco mais de metade do chinês.
Nada disso significa um fracasso da Índia.
Desde 1992, o PIB indiano cresce a taxas anuais superiores a 4% - algo de fazer inveja ao país que responde pela primeira letra dos BRIC. A divergência entre os PIB per capita chinês e indiano é acentuada pelo comportamento demográfico das duas potências.
O fenômeno tem profundidade histórica: desde o início do século XX, a população indiana representa pouco mais de 15% da população mundial, enquanto a população chinesa, que equivalia a mais de um quarto do total global, hoje equivale a cerca de um quinto.
Ao longo do século passado, a China conheceu a maior crise de fome causada por motivos políticos na história humana, entre 1958 e 1961, quando o chamado Grande Salto Adiante de Mao Tsé-tung devastou a agricultura do país e deixou algo como 30 milhões de mortos. Nas últimas três décadas, o radical programa de controle da natalidade chinês pode ter reduzido o incremento populacional em até 300 milhões de pessoas. A população chinesa deve começar a diminuir na década de 2020 e, em meados do século, provavelmente será ultrapassada pela população indiana. Isso significa que o PIB per capita da Índia continuará sendo o menor entre os BRIC por muito tempo. Em compensação, os indianos evitarão a “crise demográfica” cuja sombra já se projeta sobre a China.
A idade média dos chineses é de 33 anos, contra 26 na Índia. A PEA da China atingirá sua magnitude máxima, em torno de 930 milhões, no fim de 2009 e declinará depois, chegando a 835 milhões em 2025. No mesmo período, crescerá significativamente a participação dos idosos na população total. Nenhum país do mundo, com PIB per capita ainda relativamente baixo, enfrentou envelhecimento tão rápido da sua população.
Os modelos de modernização divergem tanto quanto as dinâmicas demográficas. Entre 1979 e 2004, a China absorveu US$ 560 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, mais que qualquer outro país. Os investimentos estrangeiros na Índia só decolaram a partir de 1994 – e seus montantes anuais, embora já significativos, nem sequer se aproximam dos da China.
Na fase inicial, entre 1985 e 1996, cerca de dois terços dos investimentos na China originaram-se nas comunidades empresariais chinesas de Hong Kong, Taiwan e Macau. Depois, ampliou-se a participação dos investimentos japoneses, sul-coreanos, americanos e europeus. A indústria exportadora chinesa, especialmente nos setores da eletrônica, da informática e das telecomunicações, é controlada pelos capitais estrangeiros. Na Índia, o motor principal da modernização são os investimentos domésticos, concentrados no setor de softwares, que geraram empresas de nível mundial.
O contraste entre os dois modelos reflete-se na evolução da composição do PIB. A China é um “país fábrica”, com economia assentada sobre a sua vasta economia industrial. A Índia é uma “economia de serviços”, com um brilhante setor exportador que se destaca sobre o pano de fundo de milhões de grandes e pequenas empresas arcaicas. As vantagens da China repousam na sua imensa força de trabalho barata, mas com níveis satisfatórios de educação básica. As vantagens da Índia, na sua elite de profissionais qualificados que estabeleceram redes de relações universitárias e empresariais nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.
Existem semelhanças de fundo, atrás de tantas diferenças. A primeira é que as duas potências asiáticas desempenham a função de nexos especializados nos circuitos da globalização. A China alcançou a posição de segundo exportador mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, e figura como principal fornecedor de bens manufaturados – de brinquedos a componentes de computadores. A Índia, por sua vez, converteu-se num dos principais fornecedores de serviços para a indústria global de informática.
Mas o paralelo não deve ser exagerado.
A China realiza cerca de 6% das exportações mundiais e perto de 5,5% das importações, funcionando como elo entre a Ásia e o Ocidente. Suas exportações de manufaturados destinam-se, majoritariamente, aos Estados Unidos e à União Européia mas suas importações de bens de capital provêm, essencialmente, do Japão e dos Tigres Asiáticos. O processamento e montagem de componentes importados representa mais de metade das exportações chinesas. Em contraste, as correntes de comércio da Índia ainda não atingem 1% do total mundial.
A segunda semelhança encontra-se na pobreza e nas desigualdades regionais.
Cerca de 35% dos indianos e 17% dos chineses vivem com menos de um dólar por dia. A subnutrição ainda afeta 140 milhões de chineses e 210 milhões de indianos. A taxa de mortalidade infantil da Índia é de 65 por mil; a da China, de 30 por mil. Nas duas potências, alarga-se o abismo entre as regiões mais ricas – as províncias costeiras na China, os estados do sudoeste na Índia – e as mais pobres.
A China notabiliza-se pela unidade cultural da sua etnia dominante. A Índia é um caleidoscópio cultural. Há quem diga que a China voltará a ser uma grande potência, enquanto a Índia será sempre, apenas, uma grande democracia.
Mas democracia é um trunfo para superar tensões provocadas pelas desigualdades sociais. Eis uma desvantagem estrutural da China.

UNIDADE E DIVERSIDADE
Índia e China, países cujas populações são formadas por civilizações antiqüíssimas, apresentam um alto índice de uniformidade étnica e religiosa, forjada ao longo de milênios de miscigenação cultural e trocas comerciais.
Certo? Errado. Totalmente errado, no caso da Índia, e um pouco menos do que isso, no da China.
O país que hoje conhecemos como Índia é o remanescente de um imenso território colonial criado pelo império britânico, entre os séculos XVII e XIX,  que englobava também o atual Paquistão e Bangladesh. Em 1947, a Índia conquistou a independência, juntamente com o Paquistão, que se tornou um país autônomo. Finalmente, em 1971, Bangladesh separou-se do Paquistão.
Na Índia, a população viveu, durante séculos e séculos, dividida em pequenos grupos, não raro em aldeias que, mesmo quando geograficamente próximas umas das outras, não estabeleciam canais de comunicação. Como resultado desse longo processo histórico, surgiram no país pelo menos 97 línguas mãe e três mil variações lingüísticas.
É claro que o colonizador britânico impôs o inglês como língua franca.
Com a independência, colocou-se o problema: qual idioma nativo, se algum, deveria substituir o imposto pelo colonizador? Após duas décadas de muitas lutas motivadas por tensões étnicas, foram reconhecidos 23 idiomas oficiais, incluindo o hindi (falado pelo hindus, que representam cerca de 40% da população, e concentrados no norte do país) e o inglês.
Esse arranjo, obviamente, não eliminou as tensões, até porque os hindus mantêm uma constante pressão no sentido de impor o seu idioma e os seus valores ao resto do país. Em certo sentido, regiões inteiras da Índia podem ser metaforicamente descritas como grandes barris de pólvora étnica, esperando apenas algum incidente cultural mais grave para explodir. Mas a Índia é também a maior democracia do mundo, do ponto de vista demográfico. Na hora do voto, cada indiano reconhece-se como um cidadão, igual a todos os demais.
Na China continental, a questão apresenta-se de forma diferente. A imensa maioria da população (cerca de 90%) é constituída pelo grupo étnico han, formado a partir de uma poderosa dinastia que governou o país por quatro séculos, entre os anos 206 a.C. e 220 d.C. Sob a dinastia Han, a China tornou-se um Estado confucionista, e desenvolveu tremendamente o seu comércio e a sua indústria. Essa foi a base material e religiosa que, praticamente, transformou “chinês” e “han” em sinônimos.
É claro que, por abrigar um número tão vasto de seres humanos sob uma mesma designação genérica, “han” tornou-se um conceito bastante fluido, elástico e difuso, quase que um estado de espírito sustentado por algumas práticas universais antigas – por exemplo, os preceitos religiosos e filosóficos confucionistas e o uso da escrita. Ainda assim, a China reconhece, oficialmente, a existência de outras 55 etnias que não se sentem representadas pelo grupo han.
Nos anos 60, Mao Tsé-tung lançou um vasto programa de alfabetização, como parte da chamada Revolução Cultural. Para tanto, adotou o chinês han simplificado, que utiliza “apenas” os 2 mil símbolos mais empregados na comunicação cotidiana, de um sistema que compreende mais de 50 mil símbolos.
Com isso, impôs o han aos demais grupos étnicos, que somam juntos algo como 70 milhões de habitantes.
A relativa uniformidade da população chinesa, quando comparada à grande diversidade da população indiana, apresenta-se como uma vantagem para o governo central de Pequim. Isso não significa ausência de tensões étnicas na China continental. Basta lembrar os conflitos com o Tibete, ou as minorias que tiveram os seus direitos violados pelo maoísmo.
Boletim Mundo n° 3 Ano 15

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