A fixação de povos nômades em regiões próximas de grandes rios, remonta ao período Neolítico (6000-2500 a.C.), quando o homem passou a fabricar instrumentos e praticar uma rudimentar agricultura. Assim surgiram as chamadas civilizações hidráulicas, cuja existência só pode ser entendida em função dos rios que as alimentavam. Entre as mais conhecidas estão aquelas que se ergueram ao longo do vale do rio Nilo e na planície da Mesopotâmia, drenada pelos rios Tigre e Eufrates.
Outras importantes civilizações, como a chinesa e hindu, também se desenvolveram nas proximidades de importantes cursos fluviais como os rios Hoang-Ho (Amarelo) e Yang Tsé-Kiang (Azul), na China, e Ganges e Indo, na Índia e Paquistão. Junto às margens e deltas desses rios ainda hoje são encontrados os maiores adensamentos de populações rurais – os “formigueiros humanos”,na linguagem da geografia da população.
Essas áreas correspondem também a alguns dos principais bolsões de pobreza do mundo atual.A sua base produtiva está assentada, há séculos, no cultivo do arroz, realizado logo após o início das intensas chuvas da monção de verão. O sistema agrícola é intensivo por trabalho, baseado na ampla utilização da força de trabalho e quase nenhuma aplicação de capital.
O regime climático das monções é responsável pela dinâmica do trabalho agrícola. Durante o inverno do hemisfério norte, existe pouca atividade. A partir do início do verão, toda a força de trabalho disponível, inclusive mulheres, crianças e idosos, é utilizada nas atividades rurais. Nas planícies, deltas e vales dominados pelo cultivo do arroz, as altas densidades rurais levaram a um excessivo parcelamento de terras, o que deu origem a uma estrutura fundiária marcada por minúsculas propriedades.
A escassez atual e futura de água preocupa, em diferentes graus, quase todos os países do mundo. No entanto, essa questão se coloca de forma dramática para a China e a Índia, os dois países mais populosos do mundo, que concentram cerca de um terço da população do planeta. A população indiana cresce num ritmo bem mais acelerado e deverá ultrapassar a chinesa nas próximas décadas. Cerca de 60% dos chineses e um pouco menos de 70% dos indianos ainda vivem no campo, especialmente concentrados junto aos vales e deltas dos grandes rios.
Na Índia, os rios de maior destaque são o Indo e o Ganges. Entre suas nascentes no Tibete chinês e sua foz no Paquistão, onde está a maior parte de seu curso, o Indo atravessa um trecho da Cachemira indiana. Nessa região, alguns dos afluentes da margem esquerda do Indo têm parte considerável de seus cursos em território indiano. Curiosamente, nessa área, que é o maior perímetro irrigado do mundo, a questão da utilização conjunta das águas fluviais encontrou solução satisfatória, o que não se verifica em relação a outras questões geopolíticas que envolvem o Paquistão e a Índia.
Já o Ganges, rio sagrado para o hinduísmo, corre quase integralmente no território da Índia. O país só não exerce soberania sobre o seu curso inferior, que se abre num grande delta e drena parte considerável do território de Bangladesh. O controle das águas do Ganges, num vale sujeito a constantes inundações, é motivo de atrito entre os governos dos dois países, que divergem sobre a construção de barragens e a partilha das águas. Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, é especialmente vulnerável a inundações, algumas delas de proporções bíblicas.
Na China, os principais rios correm, grosso modo, no sentido oeste-leste. Na parte centro-oriental, onde se concentra cerca de 90% da população e as principais regiões urbano-industriais, distinguem-se as bacias do Yang Tsé-Kiang, mais ao sul, e do Hoang-Ho, mais ao norte. A primeira, onde se situa a hidrelétrica de Três Gargantas, que disputa com Itaipu a condição de maior usina do mundo, concentra cerca de três quartos dos recursos hídricos da China.
Na bacia do Hoang-Ho, bem menos úmida, cultiva-se cerca de 60% da produção agrícola chinesa. Durante milênios, as enchentes desse rio causaram destruição e mortes. A enchente de 1887 vitimou quase um milhão de pessoas. O fundamento natural da agricultura do Hoang-Ho são os solos férteis de loess, uma argila muito fina e amarelada, de origem eólica, proveniente das regiões áridas e semi-áridas do norte e oeste do país, que é transportada pelo rio e sedimenta-se no vale após as inundações. Ao longo dos séculos, os chineses desenvolveram uma série de procedimentos e artifícios (diques, sistemas de canais e drenagem, terraceamento) para controlar as cheias e aperfeiçoar a produção agrícola.
Todavia, o crescimento da população, a intensidade e a má gestão do uso dos recursos hídricos provocaram drástica redução do volume de água do Hoang-Ho. Durante a estação seca de 1972, pela primeira vez na milenar história do país, o grande rio não chegou ao mar durante 15 dias e, em 1997, ele deixou de correr para o mar por 226 dias. Por esse motivo, o governo chinês iniciou o maior projeto de transposição de águas do mundo, a fim de captar água do sul úmido e transferi-la para o norte, onde o “ouro azul” é cada vez mais escasso.
O projeto envolve a construção de três canais sul-norte interligando quatro dos maiores rios do país. A previsão é que a obra seja concluída apenas em 2050. Especialistas estimam que a obra faraônica deslocará pelo menos 250 mil pessoas. Mesmo assim, dificilmente resolverá o déficit de água da região. É um alerta para projetos semelhantes em outras partes do mundo – como o desvio de águas do rio São Francisco, no Nordeste brasileiro.
Boletim Mundo n° 3 Ano 15

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