Volto à cidade de Bogotá depois de dez anos sem visitá-la. A capital colombiana parece, à primeira vista, mais ordenada e melhor cuidada. Trata-se de uma cidade simpática, animada, e dotada de uma feição muito peculiar. Localizada a 2.700 metros de altitude, numa superfície de aplainamento extensa (la sabana), na face oriental da cordilheira dos Andes, a antiga Santa Fé foi o centro político e administrativo do Vice-Reinado de Nova Granada, polarizando toda a porção setentrional do império hispânico na América do Sul.
A importância histórica da cidade pode ser aferida nas imponentes construções existentes no bairro da Candelária, onde o rico patrimônio colonial está bem melhor cuidado do que se encontrava uma década atrás. O investimento na recuperação dos imóveis, processo ainda em execução, foi elevado. A aparência das áreas públicas, tanto dos prédios governamentais quanto das praças, denota uma rotina de manutenção sistemática. Alguns edifícios novos circundam o casario colonial sem romper a harmonia da paisagem. As sedes da Biblioteca e do Arquivo Nacional destacam-se por suas linhas arrojadas.Museus, centros culturais e bares completam a caracterização do bairro. Nas ruas, jovens, turistas, e efetivos militares fazendo patrulhamento, com a tropa dando a impressão de já ter sido assimilada na vida urbana.
A partir da Candelária, erguida no piemonte, a cidade se estrutura num padrão urbanístico bem diferenciado. Para o sul, os bairros mais populares e, em seus limites, o grande acampamento camponês dos recém-chegados, isto é, os refugiados internos da violência política que assola o mundo rural colombiano. Para o norte, o centro comercial tradicional da cidade, com o comércio formal e informal disputando o espaço das ruas com uma multidão de transeuntes e o tráfego congestionado. Em seguida, aparece o “centro novo”, marcado pelos edifícios de escritório do setor de serviços e das atividades financeiras.
No “centro novo”, pessoas e construções transpiram um refinamento quase ausente do centro tradicional – e nisso Bogotá não se distingue de tantas metrópoles brasileiras. Adentra-se no mundo da classe média colombiana, que viveu o seu “milagre econômico” nas últimas décadas.
Depois de uma seqüência de bairros residenciais urbanisticamente bem estruturados, ainda na direção norte, surge a “cidade global” – os shopping-centers, as discotecas, as lojas de “grifes” (Dolce & Gabanna, Louis Vuitton, Armani, etc.).
Neste setor, toda a paisagem dá a impressão de atualidade, isto é, de ter sido construída recentemente. A polícia substitui o exército no patrulhamento, a presença policial é intensa. Nas ruas, o contingente local da “aldeia global” passeia com ar despreocupado e divertido. Mais adiante, já nas fronteiras nortistas da mancha urbana, condomínios fechados de alto padrão parecem compor uma paisagem que extravasa pelas autopistas.
Como dizia Rousseau, o contato com a gente de um lugar é mais importante que sua fruição estética. No geral, as pessoas valorizam a segurança, e concordam que a cidade está melhor cuidada e mais tranqüila para viver. Contudo, a variedade e seletividade dos lugares são bem ressaltadas por todos: afinal, existem “zonas perigosas”, nas quais não se deve “andar à noite”.
O hotel onde me hospedei, o tradicional Tequendama (de propriedade do exército e administrado pela rede Holiday Inn), no bairro da Macarena, limite entre o centro velho e o novo, apesar do movimento intenso durante o dia, não é um bom sítio para se caminhar com o cair das horas.
O “norte” e a “zona rosa”, em particular, eram os destinos mais recomendados para um turista como eu. Nessa porção da cidade é possível ter idéia da riqueza financeira que se movimenta em Bogotá e da cultura cosmopolita que a acompanha.
Numa livraria, numa galeria de arte e num café, é fácil captar a plena inserção da Colômbia na modernidade contemporânea.
O biótipo predominante nessas ruas não remonta às populações autóctones andinas nem a afro-descendentes. No geral, a política não é o tema central das conversas num universo societário bastante cordial e amistoso entre as pessoas.
Nenhum de meus interlocutores defendeu ou elogiou o governo de Álvaro Uribe, que aposta numa solução militar para os desafios da guerrilha e do narcotráfico.
Vários manifestaram seu desacordo com a condução da política colombiana.
A submissão aos “interesses americanos” foi apontada por alguns como causa da discórdia social que reina no país.
O tema dos direitos humanos parece calar fundo na crítica aos paramilitares, isto é, às milícias ilegais associadas por inúmeros laços ao Exército e aos órgãos de segurança interna. Sobre a guerrilha, um silêncio eloqüente poderia ser lido em vários sentidos: reverência, medo, simpatia filosófica, reprovação, etc. Difícil penetrar nesse imaginário político, no geral pouco explicitado: um mau assunto para uma boa conversa.
Dez anos atrás, as bombas explodiam e falava-se muito do “cartel de Medellin”, a outrora poderosa organização do narcotráfico colombiano. Na época, em entrevista à imprensa, um dirigente do cartel de Cali definiu seus concorrentes como “arcaicos”, argumentando que sua empresa pautavase pela “ordem do mercado”. Hoje, em Bogotá, a paz parece reinar. Mas a guerra continua, fora dos limites da cidade.
No cenário da capital, aparentemente serena, a miséria não é tão drástica (ou tão visível), para os olhos de um brasileiro. De todo modo, meras impressões sobre a paisagem de Bogotá não são um guia seguro para investigar a conjuntura política e social da Colômbia.
Boletim Mundo n° 3 Ano 15
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