quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ISRAEL MANTÉM O IMPASSE COM OS PALESTINOS

Inauguramos uma nova era com um novo governo, capaz de dar um basta aos sofrimentos do nosso povo. Chegamos a um resultado útil para a nossa gente”, declarou Mahammoud Abbas, em 8 de fevereiro, em Meca. O presidente da Autoridade Palestina (AP) e chefe do grupo Fatah se referia a um acordo pela formação de um governo de unidade nacional, assinado com o Hamas (representado no governo pelo primeiro-ministro Ismail Hanieh) e patrocinado pela monarquia saudita. O documento que dá base ao acordo, intitulado Declaração de Meca, foi assinado pelo próprio Abbas e por Khaled Mechal, líder do Hamas, que atualmente vive na Síria. “Nosso compromisso com o acordo é total”, declarou Mechal. Lutas entre os dois grupos rivais deixaram pelo menos 30 mortos, entre 25 de janeiro e o início de fevereiro.
O novo acordo proíbe o derramamento de sangue palestino, afirma a necessidade da unidade nacional e adota o diálogo como único meio de resolver os conflitos.
A última cláusula, em particular, é de grande importância, já que o Hamas jamais abandonou oficialmente a pretensão de destruir pelas armas o Estado de Israel, cuja existência não reconhece. Com o anúncio do acordo, os palestinos esperavam convencer os países e organizações integrantes do Quarteto (Estados Unidos, Rússia, União Européia e ONU) a suspender um boicote econômico que estrangula ainda mais a combalida economia da AP. O governo passou a ser formado por nove ministros do Hamas e sete do Fatah, ao passo que três pastas foram entregues a ministros independentes: Finanças, Relações Exteriores e Interior.
Por uma ironia histórica, a ascensão do Hamas ao poder foi resultado não previsto de manobras e pressões feitas pelos Estados Unidos e Israel, em 2003, no sentido de obrigar o então presidente palestino Yasser Arafat a criar o cargo de primeiro- ministro. O objetivo era enfraquecer o poder absoluto exercido por Arafat. Três anos depois, o Hamas obteve uma espetacular vitória eleitoral, ao conquistar 76 das 132 cadeiras do Parlamento, adquirindo o direito democrático de nomear o primeiro- ministro.
Em resposta, os integrantes do Quarteto e Israel – isto é, os mesmos que reclamam o respeito à democracia – declararam não reconhecer o novo governo e iniciaram o boicote aos palestinos. Israel, em particular, operou uma série de detenções humilhantes de parlamentares palestinos, demonstrando seu solene desprezo para com as instituições democráticas da AP.
Atualmente, 41 deputados palestinos (dos quais, 37 integrantes do Hamas) estão em prisões israelenses.
Os Estados Unidos já declararam que não pretendem reconhecer o novo governo palestino, até que o Hamas admita explicitamente o direito à existência de Israel, enquanto os europeus ensaiam passos nesse mesmo sentido. O governo israelense mantém sua postura intransigente. Nada de novo no front. Israel jamais aceitou sem ressalvas qualquer resultado expresso pelas urnas palestinas. Mesmo Arafat, líder inquestionável de seu povo, exerceu os últimos meses de seu mandato cercado por tropas comandadas por Ariel Sharon e teve o seu quartel general reduzido a escombros por um bombardeio incessante.
No plano diplomático, Israel reconheceu a existência de uma nação palestina, nos Acordos de Camp David (1979) e o direito dos palestinos a um Estado, nos Acordos de Oslo (1993). Contudo, paradoxalmente, Israel parece incapaz de reconhecer, na prática, a plena legitimidade de um governo palestino – qualquer que seja ele e seja qual for o modo com que foi escolhido.
Trata-se, no mínimo, de uma cínica manobra diplomática. No máximo, é uma expressão de um não-reconhecimento da própria nação palestina. Num caso ou no outro, a recusa permanente só pode provocar conseqüências trágicas para os dois povos que vivem na região.

Ironias da história
O Hamas (abreviação, em árabe, de “Movimento de Resistência Islâmica”) nasceu no calor da Primeira Intifada (“revolta das pedras”), no final dos anos 80, com o objetivo de criar um Estado baseado em leis islâmicas, em todo o território onde hoje está Israel e nos territórios ocupados da Cisjordânia e Gaza. A ironia reside no fato de que o governo israelense viu com bons olhos o nascimento do Hamas: à época em que foi criado, o movimento aparecia como uma oportunidade de dividir a opinião pública palestina e diminuir a autoridade incontrastável do histórico líder Yasser Arafat.
O mesmo tipo de cálculo foi feito, em outros países do Oriente Médio, pelas monarquias e ditaduras árabes, que apoiaram o surgimento de grupos religiosos fundamentalistas, com o objetivo de combater uma crescente influência de movimentos árabes nacionalistas e de esquerda. Por exemplo, nos anos 70, o então presidente egípcio Anuar Sadat permitiu a formação de partidos religiosos islâmicos, para combater a crescente influência de nacionalistas inspirados pelo discurso pan-arabista de seu antecessor, Gamal Abdel Nasser. Sadat acabou sendo assassinado por um desses grupos, em 1981, três anos após ter assinado a paz com Israel.

Boletim Mundo n° 3 Ano 15

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