Deixando de lado o debate complexo sobre o que poderia ser o “socialismo do século XXI”, a idéia de “bolivarianismo” já é, por si só, bastante polêmica. À primeira vista, Bolívar – um líder militar carismático e de formação culta, membro de uma rica família venezuelana – foi, de fato, um herói de dimensões quase míticas da luta pela independência dos povos latino americanos.
Mas a história não é tão simples assim.
Em 1821, Bolívar impôs uma decisiva derrota militar à Coroa espanhola, e proclamou a criação da Grã-Colômbia, no território até então conhecido como Vice-Reino de Nova Granada (formado pelos atuais Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá), da qual se tornou presidente. Em 1826, no auge de sua trajetória como “Libertador”, acumulou também as presidências do Peru e da Bolívia.
Naquele mesmo ano, reuniu o Congresso do Panamá, com sessões entre 22 de junho e 15 de julho de 1826. O congresso aprovou um Tratado de União, Liga e Confederação Perpétua entre os Estados hispano-americanos; a cota que caberia a cada país para a organização de uma força militar de 60 mil homens para a defesa comum do hemisfério; a adoção do princípio do arbitramento na solução dos desacordos interamericanos; o compromisso de preservar a paz continental; a abolição da escravidão.
Se, em termos ideológicos, o Congresso constituiu uma espécie de marco histórico do nacionalismo latino-americano, politicamente foi um fracasso. Compareceram apenas os representantes da Grã- Colômbia, Peru, México e Províncias Unidas de Centro-América (isto é, os países direta ou indiretamente já sob influência de Bolívar).
Os Estados Unidos enviaram observadores, mas tinham seus próprios planos expansionistas e temiam a difusão de movimentos de abolição da escravidão. O Brasil, nem se fala: a monarquia era contrária a regimes republicanos e temia a propagação das idéias antiescravistas.
O imperador D. Pedro I mantinha ótimas relações com Metternich, primeiro-ministro da Áustria e dirigente da Santa Aliança que agregava as monarquias absolutistas européias.
Com o passar do tempo, Bolívar também passou a enfrentar a resistência daqueles que o apoiavam, divididos por interesses contraditórios e projetos próprios de dominação e poder. Assim, a Grã-Colômbia desapareceu logo após a sua morte, em 1830. As repúblicas hispano-americanas ingressaram num longo período de turbulência, pontilhado por guerras de fronteira.
Os admiradores de Bolívar ressaltam suas qualidades como “visionário” e amante dos povos latino-americanos. Os seus críticos, porém, observam que Bolívar sempre manteve suas lutas nos limites aceitáveis para a elite criolla, isto é, descendente dos espanhóis, reservando um lugar apenas secundário e subordinado a mestiços, negros e indígenas. Nesse sentido, o “povão” permaneceria como espectador e “bucha de canhão” dos jogos de interesses praticados pelas elites.
Para o revolucionário alemão Karl Marx, Bolívar apenas pretendeu “modernizar” as relações políticas e econômicas da América Latina com o mundo: apostava, por isso, em manter boas relações com o capitalismo industrial britânico, descartando a anacrônica monarquia espanhola, sem jamais pretender uma revolução popular. Marx o acusava, mesmo, de usar escravos libertos em suas tropas, como forma de atenuar o perigo de uma revolução como a que ocorreu no Haiti.
Mais complicado, ainda, é o uso do “bolivarianismo” como plataforma política no mundo contemporâneo, quando sabemos que o próprio conceito de América Latina foi uma criação do imperador francês Bonaparte III na década de 1860. Em sua disputa com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos pela dominação do espólio deixado pelo decadente império espanhol, na segunda metade do século XIX, Bonaparte inventou uma suposta América de identidade latina, em oposição a uma outra América, anglo-saxônica.
Claro que, nesse quadro determinado por interesses geopolíticos, nada se dizia dos negros trazidos da África, nem dos povos originários (indígenas).
Haverá mesmo uma América Latina? Os caminhos apontados por Bolívar constituirão, de fato, o melhor caminho para a conquista da suposta unidade latino-americana?
E, mesmo que se responda positivamente a ambas as questões: seria Chávez a encarnação, no mundo contemporâneo, dos ideais defendidos por Bolívar?
O problema está posto. Quem se candidata a responder?
Boletim Mundo n° 4 Ano 15
Nenhum comentário:
Postar um comentário