quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ELOGIO DO CHAVISMO EVIDENCIA CRISE IDEOLÓGICA DA ESQUERDA

Demétrio Magnoli

O colapso político da elite tradicional venezuelana abriu espaço para o chavismo.
Mas o novo regime não toca nas estruturas da economia do país e golpeia a democracia para eternizar o poder do caudilho.

Hugo Chávez e o chavismo são produtos do colapso político da elite dirigente tradicional da Venezuela e de seus partidos históricos. O fracassado golpe militar de Chávez, em 1992, acelerou a crise que corroía aquela elite desde o caracazo, a onda de protestos populares de fevereiro de 1989 selvagemente reprimidos pelo governo de Carlos Andrés Perez. A primeira eleição do oficial militar conspirador, em 1998, não representou a vitória de um programa “bolivariano” ou, muito menos, socialista: o povo pobre votou no candidato que desafiava os poderosos de sempre, corrompidos até a medula.
A consolidação do regime chavista foi, também, obra da putrefação da elite tradicional.
No início de 2002, o empresariado e a burocracia da estatal de petróleo PDVSA promoveram uma greve nacional para desestabilizar o governo eleito. Em abril daquele ano, um segmento do empresariado associou-se a uma camarilha militar para deflagrar um golpe de Estado, que contou com o apoio e o estímulo de Washington. A derrota da tentativa golpista selou a sorte da antiga elite.
Na Venezuela, toda a economia gira em torno das exportações de petróleo. A história do país não pode ser separada do gráfico dos preços do barril de petróleo. A democracia elitista e bipartidária alcançou seu zênite na década de 1970, no auge do boom petrolífero. O caracazo refletiu a crise econômica gerada pela queda dos preços iniciada em meados da década de 1980.
Uma forte recuperação dos preços acompanhou a consolidação do chavismo.
O regime de Chávez, ao longo de uma década, não tocou nos fundamentos da economia venezuelana. O país continua a depender, exclusivamente, das receitas geradas pelo petróleo. A “revolução bolivariana” consiste no uso político das rendas petrolíferas com as finalidades de conservar o apoio dos pobres ao regime e conquistar adeptos no exterior. Os programas sociais chavistas – as “missões bolivarianas” – não incorporam os pobres à economia e não revolucionam os serviços públicos de educação ou saúde. São vastos empreendimentos assistencialistas irrigados pelos recursos das exportações.
A adesão da Bolívia e da Nicarágua à Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), o eixo anti-americano formulado por Chávez e Fidel Castro, decorre apenas da distribuição de recursos financeiros venezuelanos aos governos de Evo Morales e de Daniel Ortega.
O caudilho Chávez não é um caudilho comum, pois tem uma doutrina. O seu “bolivarianismo” é uma apropriação e uma falsificação do pensamento de Bolívar para sustentar um empreendimento geopolítico anti-americano: a “Petro-América”.
Trata-se, nos termos utópicos do sonho chavista, de unir a América Latina em torno dos recursos energéticos venezuelanos e sob a liderança internacional do próprio Chávez. A ambição não tem limites e não reconhece realidades geopolíticas: o caudilho venezuelano procura costurar uma articulação mundial com a Rússia, a China e o Irã. Apesar da fanfarra de uma esquerda sem princípios e sem rumo, Chávez é um componente periférico da política mundial.
Na Venezuela, contudo, Chávez é o núcleo da vida política e econômica nacional.
O seu “socialismo do século XXI”, jamais explicado, não tem a pretensão de abolir a propriedade privada, a lógica do lucro, o sistema capitalista. Mas parece cada vez mais propenso a imitar o “socialismo real” do século XX na esfera da organização do Estado. A democracia não serve ao caudilho que almeja o poder eterno e absoluto.
Graças ao desvario da oposição, que boicotou as últimas eleições parlamentares, os chavistas controlam inteiramente a Assembléia Nacional. Mesmo assim, o caudilho pediu – e obviamente conseguiu – a aprovação da “lei habilitante”, um instrumento que lhe permite governar por decreto durante 18 meses. Nas cidades, o regime cria conselhos populares que, sob o rótulo enganoso da “democracia participativa”, funcionam como correias de transmissão do poder central. As rendas do petróleo financiam emissoras de tevê estatais e rádios supostamente comunitárias, que ecoam as palavras do caudilho.
As mediações institucionais entre o governante e os cidadãos se esvaziam aos poucos, desidratando a democracia.
Chávez quer se identificar com a nação.
A RCTV, emissora privada de oposição, não foi fechada porque aderiu ao golpe fracassado de 2002, mas unicamente por não se curvar à vontade de Chávez. A Venevisión, emissora privada do magnata mexicano Gustavo Cisneros também apoiou o golpe. Ela segue no ar, agora sem concorrência, pois seu proprietário firmou uma aliança com o caudilho. No Brasil, PT e PSOL apoiaram oficialmente o fechamento da RCTV. Eles têm saudades do “socialismo real” do século XX e ainda choram a queda do Muro de Berlim.
No “socialismo real” do século XX, o partido único e o Estado se identificavam e fundiam, de modo a subordinar toda a vida política às diretrizes emanadas do poder. O chavismo está longe disso e ainda não parece planejar a extinção dos partidos de oposição. Mas o avanço no rumo do totalitarismo já começou, com a proclamação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Constituído por ordem do presidente, o PSUV não é propriamente um partido, mas o braço político e ideológico do Estado. Em julho, mais de 5,3 milhões de pessoas, um quinto da população total da Venezuela, solicitavam ingresso no partido oficial.
O Estado tem o monopólio da força e controla grande parte da economia e dos empregos do país. Quando o Estado cria um partido, a democracia começa a fenecer.
A esquerda que adora Chávez é a mesma que um dia adorou Stalin, Mao Tsétung e Fidel Castro. Não aprendeu nada e não esqueceu nada.

Boletim Mundo n° 4 Ano 15

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