quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

EU SOU NEGUINHA?

Lidyane de Souza

Em 2006, ingressei no Mestrado em Direitos Humanos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com importante histórico de luta pelos direitos humanos e abertura aos movimentos sociais, o que determinou a sua vitória num concurso promovido pela Fundação Ford (FF). A instituição filantrópica premiou com incentivos financeiros três projetos de mestrado no Brasil. A previsão de cotas raciais no projeto, que reserva cinco das 12 vagas a negros e índios, também foi decisiva para a premiação, porque coerente com a linha de ações afirmativas adotada pela FF.
No ato de inscrição para a seleção do mestrado, ofereceram-me uma ficha de auto declaração racial, que recusei, pondo em xeque, mesmo que não intencionalmente, o sistema de reserva de vagas. O meu ato produziu um desconforto inicial. Não se compreendia, genericamente, por que uma negra não se utilizava das cotas. Além disso, a minha renúncia atingia um interesse do curso, pois o preenchimento das vagas destinadas aos cotistas justificava, de certo modo, a existência da própria reserva.
Contudo, as conseqüências ultrapassaram o desconforto inicial, pois no interior do curso, os alunos exprimiam o o modelo radicalizado do debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas para afro-brasileiros.
Nesse modelo, ou se está a favor dos afro-brasileiros (leia-se: a favor do Estatuto e das cotas), ou se está contra eles.
Caso a pessoa seja considerada negra, tanto pior: ou é uma pessoa engajada e comprometida com a causa de seu povo, o povo negro, ou é negro que não se reconhece como tal, uma pessoa alienada.
A dicotomia é reforçada pelo governo federal sempre que justifica tais ações afirmativas como compensatórias da escravidão, pois recupera as castas de brancos senhores e de negros escravos, ignorando a grande parcela miscigenada da população. Aliás, a miscigenação no Brasil é um fato e, tão violenta quanto o seu início, é a sua contemporânea desconstrução através da manipulação de dados raciais. Com isso, não sustento a existência de uma suposta “democracia racial”, nem nego o fato de um cárcere ser mais negro que uma universidade. Reconheço a existência do racismo, porém nada me convence de que a escravidão seja “compensável”. E mesmo que as políticas públicas para afro-brasileiros precisem identificar seus destinatários, parece-me desnecessário coagir toda uma população a declarar e documentar a sua raça.
A situação criada na minha turma de mestrado, em particular, me fez perceber que, uma vez presente este modelo radicalizado do debate, as diversas vozes sobre o assunto só são reconhecidas se previamente localizadas em um dos pólos deste antagonismo desvairado: a favor das cotas ou contra os negros. O pior é que, nessas discussões, a raça do interlocutor surge como primeira informação a ser buscada.
“Uma negra que não se assume”. Tornei-me alvo de preconceito, que funcionava como chave de interpretação das minhas ações ou omissões. Por essa razão, me vi constrangida a pensar na minha própria identidade nos termos reducionistas da dicotomia negro versus branco.
E, também, me convenci a tornar pública a minha conclusão, pois estas questões assumiram uma relevância maior que o próprio fato de não ter feito uso das cotas raciais.
Infelizmente, este modo simplório de perceber um problema extremamente complexo tornou-se autorizado a partir da chancela do governo federal. O Estatuto da Igualdade Racial ainda está no Congresso mas, para dar apenas um exemplo, um novo usuário da Biblioteca Central da UFPB, em agosto de 2006, era obrigado a declarar ao Cadastro a sua cor ou raça a fim de adquirir o direito de tomar livros emprestados. O maniqueísmo consagrou-se a ponto de que uma afirmação da ministra Mathilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – “Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco” – foi extraída de seu contexto e utilizada contra ela, no curso da polêmica sobre as políticas raciais. Na outra ponta, a antropóloga Yvonne Maggie, co-organizadora do livro Divisões perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo, que reúne artigos de orientações diversas, mas todos contra as cotas raciais, declarou-se amedrontada com as ameaças que recebeu, pouco antes do lançamento.
Na base de tudo isto está a intolerância, que a história já provou ser extremamente perigosa e taticamente estúpida, com que os mais extremistas conduzem uma falsa democratização deste debate. Esses extremistas convertem toda a diversidade de opiniões e posições presentes na sociedade nas duas categorias que inventaram. Para não reproduzir este mesmo discurso cruel, é preciso estar atento: ser contra as cotas raciais, ou não utilizá-las, não significa ser racista ou, depreciativamente, “não se assumir negro”.
Hoje, no Brasil, qualquer pessoa que não seja branca, parece estar coagida a declarar-se negra. Não se percebe, porém, que o nosso “politicamente correto” é uma importação irrefletida de uma das teorias das mais racistas que já existiram, proveniente dos Estados Unidos, segundo a qual basta uma gota de sangue negro para “contaminar” um branco.
E então, eu sou neguinha?

Boletim Mundo n° 4 Ano 15

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