quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A HORA E A VEZ DOS CAÇADORES DE RECOMPENSA

Bernardo Wahl de Araújo Jorge

A temática dos mercenários está nas manchetes dos estudos de segurança internacional atuais. A Guerra do Iraque ilustra o emprego em massa de milícias privadas para tarefas como o treinamento de forças locais e a segurança de instalações e de deslocamento de executivos. Estaria o Estado perdendo o “monopólio da violência legítima” – a sua característica definidora, de acordo com Max Weber?
Sim: é uma tendência que pode ser observada.
Para melhor compreendê-la, um bom início é estudar os mercenários, que não são algo de novo na História. Eles eram muito comuns na Idade Média, por exemplo.
A caça a recompensas tem longa tradição nos Estados Unidos, desde o Oeste selvagem e a Guerra Civil (1861-65). Segundo as leis americanas, os caçadores de recompensa têm autorização para invadir a casa de um fugitivo, antes ou depois de seu julgamento. Podem, até mesmo, invadir a casa de terceiros para capturá-lo. Um dos mais famosos caçadores de recompensa foi David Cook, que começou sua carreira seguindo o rastro de espiões confederados para a Cavalaria, durante a Guerra Civil.
No final de sua carreira, já havia realizado mais de três mil detenções.
Após os atentados de 11 de setembro de 2001, Washington lançou globalmente a “guerra ao terror”. O inimigo é a Al-Qaeda, comandada por Osama bin Laden – a organização se utilizou dos métodos do terrorismo para deflagrar uma guerra assimétrica contra o “Grande Satã”. A “guerra ao terror” não é um conflito internacional “clássico”, clausewitziano, isto é, de um Estado contra outro. Trata-se de um Estado combatendo uma organização transnacional, o que torna tudo muito mais complexo – mas, também, mais interessante.
Na antiga tradição da caça à recompensa, o governo americano ofereceu a soma astronômica de US$ 25 milhões para quem repassasse informações relevantes sobre o paradeiro e os movimentos futuros de Osama bin Laden.
Para o recebimento do montante, não seria necessário, portanto, capturar ou eliminar o líder do grupo que atacou os Estados Unidos. Nessas condições, além dos mercenários, rádio-amadores e hackers, por exemplo, também poderiam se candidatar ao prêmio.
É aí que entram em cena os Bounty Hunters (“caçadores de recompensa”). Um soldado do Special Air Service britânico e um veterano das Forças Armadas afirmaram terem informações de que os Bounty Hunters montaram operações particulares para “caçar” bin Laden em sua base no Afeganistão. Em diversas ocasiões, o FBI recebeu dos mercenários informações detalhadas sobre bin Laden.
A “caçada” começou antes mesmo do 11 de setembro, em virtude dos atos de terror conduzidos pela Al-Qaeda nos anos 90. De acordo com jornais árabes, em 1997 uma grande força mercenária, com helicópteros e aviões cargueiros Hércules C-130, chegou ao Paquistão com a missão de assassinar ou prender o líder terrorista. Veículos Toyota cruzaram a fronteira com o Afeganistão para colocar em prática a dimensão terrestre da operação.
A ironia é que, mesmo antes de Osama bin Laden se tornar o inimigo número um dos Estados Unidos, mercenários já atuavam no Afeganistão. Juntamente com unidades de Forças Especiais britânicas e americanas, eles armaram e treinaram a resistência afegã contra a invasão soviética, entre 1979 e 1989. Assim, em um primeiro momento, os Bounty Hunters lutaram ao lado do saudita bin Laden.
Quando os soviéticos foram expulsos do Afeganistão e o contexto internacional se alterou, com o fim da Guerra Fria, inverteram-se as fidelidades e aliados se tornaram inimigos. Então, mercenários se mobilizaram para resgatar mísseis Stinger que haviam sido fornecidos aos afegãos pelo Ocidente durante a guerra contra a União Soviética.
Não obtiveram sucesso e tais armas poderosas continuaram a fazer parte do arsenal do Taleban, o grupo islâmico fundamentalista que governou o Afeganistão até a ofensiva americana de 2001.
A guerra é global. Por isso, não é apenas no Oriente Médio e no sul da Ásia que os mercenários estão agindo.
Eles também atuam próximos de nós, brasileiros. Os Estados Unidos iniciaram, em 1992, o chamado Plano Sul, que, até o momento, materializa-se na forma de 17 instalações militares americanas, para operações ou coleta de informações, em países da América do Sul como Chile, Peru, Equador, Colômbia e Paraguai. Além dos soldados regulares, o Plano Sul mobiliza mercenários, recrutados por empresas que atuam na área de segurança.
O Brasil precisa ficar atento ao seu entorno estratégico de interesse imediato, formado basicamente pela América do Sul e pelo Atlântico Sul. Mas empresas especializadas também recrutam seus mercenários por aqui. Uma reportagem recente mostrou que uma consultoria contratava reservistas brasileiros para lutarem na Guerra do Iraque.
Talvez David Cook devesse ser convocado pois, em 2007, ainda não há nenhum sinal do paradeiro de Bin Laden. Ao que parece, o evasivo líder do terror está vencendo os caçadores de recompensa. Alguém se dispõe a tentar ganhar os US$ 25 milhões? Ou será que nem tudo pode ser comprado?

Boletim Mundo n° 3 Ano 15

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