segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A PONTE ESCRAVISTA DO ATLÂNTICO

No 25 de Março de 1807, há 200 anos, começou o declínio do tráfico internacional de escravos, uma tragédia de cujas entranhas emergiram as sociedades contemporâneas da América e da África. Naquele dia, a lei de abolição do comércio de seres humanos proposta por William Wilberforce e finalmente aprovada pelo Parlamento britânico recebeu o selo real. Ainda demoraria mais de quatro décadas até que, com a Lei Eusébio de Queiroz, os navios negreiros encerrassem o longo ciclo do tráfico Atlântico, iniciado no século XVI.
Atrás da figura de Wilberforce estavam os religiosos abolicionistas britânicos que, desde 1787, denunciavam incessantemente os horrores de um negócio que a sociedade européia preferia ignorar. No total, 12 milhões de escravos foram retirados da África com destino às Américas – e cerca de 10,5 milhões chegaram vivos ao fim do trajeto.
A maior transferência demográfica forçada da história concentrou-se em adultos em idade reprodutiva e teve repercussões profundas nos dois lados do Atlântico. A população da África, estimada em 100 milhões em 1600, permaneceu mais ou menos estagnada até 1850. Quando o projeto de Wilberforce se converteu em lei, a população de origem africana perfazia 2,5 a 3 milhões no Caribe, 2,5 milhões no Brasil e 2 a 2,5 milhões nos Estados Unidos. Entre 1815 e 1850, sociedades antiescravistas dos Estados Unidos e da Jamaica impulsionaram um fluxo de retorno de escravos libertos, que originaria os Estados da Libéria e da Serra Leoa.
Os parlamentares britânicos votaram a abolição movidos por razões morais mas, também, pela razão geopolítica. Em 1791, eclodiu a revolução dos escravos na colônia francesa do Haiti. Os revolucionários, liderados por Toussaint L’Ouverture, derrotaram as tropas francesas e, em seguida, uniram-se ao governo jacobino da França que acabava de abolir a escravidão para derrotar as forças invasoras britânicas e espanholas.
Logo depois, sob Napoleão, os franceses capturaram L’Ouverture, que morreu no cárcere. Mas a insurreição não se deteve, expulsou novamente os franceses, proclamou a república e, em 1804, libertou meio milhão de escravos. Os eventos no Haiti estimularam revoltas na Jamaica e ensinaram à Grã-Bretanha que o Império e a escravidão não sobreviveriam juntos.
Wilberforce e L’Ouverture são as duas faces inseparáveis da história da derrocada do tráfico atlântico, que foi um elo crucial de um sistema econômico, não um empreendimento racial. O escravo era uma mercadoria e, como tal, precisava ser “produzida” antes de ingressar na esfera do comércio.
Os europeus, como regra, não caçavam ou capturavam africanos, mas os adquiriam na segurança dos entrepostos e fortalezas costeiras que mantinham em conluio com reinos africanos.
A carga humana era fornecida pelos reinos negreiros africanos, que vendiam aos traficantes os prisioneiros de guerra, os criminosos, os endividados e os indesejáveis em geral.
Os historiadores já demonstraram que o comércio internacional de escravos provocou acentuada redução na pena de morte na África Ocidental, em função do valor comercial do escravo. Provou-se, ainda, que o desenvolvimento do tráfico atlântico intensificou e disseminou a escravidão nas sociedades africanas. O negócio do tráfico estendeu suas ramificações na África, tornando-se a mais importante fonte de renda para as chefias dos “reinos negreiros”, que especializaram- se na caça ao homem e no transporte dos cativos até os portos.
Os mais poderosos “reinos negreiros” emergiram na região do Golfo da Guiné, na África Ocidental. Na segunda metade do século XVIII, o maior deles era o reino Ashanti, na atual Gana. Pouco mais tarde, a hegemonia transferiu-se para o reino do Daomé, na atual Nigéria. Os chefes do Daomé mantinham estreitas relações com os traficantes luso-brasileiros estabelecidos no Rio de Janeiro e, na hora da independência brasileira, os sócios de ambos os lados do Atlântico tentaram incorporar o “reino negreiro” ao Império do Brasil.
Em troca de escravos, os chefes de reinos recebiam mosquetes, pólvora, roupas, cavalos, metais, aguardente e tabaco. Estima-se que, no final do século XVIII, a corrente de comércio do Golfo da Guiné, constituída por escravos e marfim, chegou a movimentar 3,5 milhões de libras anuais.
Na época, a corrente de comércio total da Grã-Bretanha girava em torno de 14 milhões de libras anuais. O tráfico escravista sustentou elites significativas nos reinos africanos, que podiam enviar seus filhos para estudar em universidades européias. Mais de 20 anos após a Lei Eusébio de Queiroz, o soberano ashanti Zey dirigiu uma carta ao rei da Inglaterra solicitando a retomada do comércio de escravos.
No Brasil do século XIX, os comerciantes de escravos formavam um setor respeitado da elite econômica e política. Os grandes traficantes possuíam navios e armazéns próprios, protegidos por seguros bancários, e se dedicavam a negócios diversificados, que abrangiam fazendas e companhias de exportação e importação.
No seu Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (Companhia das Letras, 1997), o historiador Manolo Florentino demonstra que o comércio escravista representava, para a economia brasileira, mais que as exportações totais e quase tanto quanto as importações de manufaturados. Eis o motivo pelo qual o Império do Brasil resistiu durante décadas às pressões britânicas, convertendo-se no pilar derradeiro da ponte escravista do Atlântico.
Boletim Mundo n° 2 Ano 15

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