Quem somos e como fizemos um ano de Aventuras na História.
Fazer revista é bom demais. Começar uma revista do zero é melhor ainda. Mas uma revista não surge do zero absoluto, do nada. No nosso caso, nascemos da constatação de que as matérias com abordagem histórica publicadas na Super faziam sucesso. Muito sucesso. Três delas estão entre as dez capas mais vendidas nos 16 anos da revista.O diretor de redação da Super, Adriano Silva, é o pai da idéia. Me chamou, num fim de tarde, numa quinta-feira, e falou: “Celsão, senta um minuto aí”. Apesar de meu pouco tempo de casa, eu já havia aprendido que, quando ele faz isso, geralmente quer apenas conversar, trocar idéias, bater-papo. Eu havia cobrido as ausências de dois editores, meus amigos Denis Russo e Rodrigo Vergara. Eles já haviam voltado, reassumido suas funções e eu achava que meu período na Super se encerrava. Achava que esse seria o assunto. Não levei nem caneta. Não anotei nada daquela conversa, mas lembro quase tudo de cor. Adriano também não fazia anotações e, de repente, abriu uma de suas indefectíveis pastinhas de plástico, repleta de cópias de recortes de revistas estrangeiras, resenhas de livros, e-mails etc. E, para minha completa surpresa, disse: “Vamos fazer uma revista de história?” É difícil, hoje, colocar a pontuação correta nessa frase. Até agora eu não sei bem se foi uma pergunta ou uma afirmação. Porque Adriano é assim, às vezes faz perguntas que parecem afirmar e vice-versa. Uma pergunta dele sempre tem um grau de confiança que afirma, e suas afirmações sempre deixam margem para uma resposta. Por isso, quando falei “Claro que vamos”, parecia que já tínhamos um acordo antigo, não pareceu um convite, ou um desafio. Mas era.
Fazer uma revista é bom. Fazer uma revista do zero dá um trabalhão. Primeiro, fui estudar tudo que tinha parecido pelo mundo afora. (O jornalista José Ruy Gandra, que cuida de custom publishing na Abril, havia nos trazido de uma viagem as revistas sobre história que há na Europa. Obrigado, Zé!). Depois conversei com gente do meio. Falei com historiadores e outros jornalistas. “Por que não havia uma revista mensal de história no Brasil?”, eu perguntava. Ouvi todos os tipos de explicação. Nenhuma me convencia. Eu pensava: “Ué, seremos a primeira, então”.
Foi assim que inauguramos esse segmento novo no mercado editorial do país. Fazer uma revista inédita é um desafio. Entre outras coisas, é preciso descobrir qual é o interesse do leitor e, do ponto de vista de negócio (fazer revista também é business), auferir a demanda do mercado por determinado tema, fazer pesquisas, testar o produto. Não fizemos nada disso. Tínhamos a experiência de sucesso da Super. E botamos nossas fichas nisso. A idéia era fazer um especial. E fizemos uma revista. Acho que deu certo. E que isso é só o começo.
Os números
• 99 Layer é “camada” em inglês. No mundo do designer, layer é uma ferramenta de um programa de computador chamado Photoshop e que funciona assim: aplicamos um layer para cada inserção de textos, ilustrações, fotos, sombreados etc. A combinação dessas camadas é a imagem que você vê numa página. Quanto mais layers, mais complexo é o trabalho. Em agosto de 2003, a Débora estabeleceu um recorde: 99 layers. E olha que esse é o máximo que a máquina agüenta. “Daí o computador empaca e o único jeito é apagar layers para criar outros e continuar trabalhando”, ela explica.
• 45 pronuncia-se assim: “quareeeeeeenta e cinco minutos, segundo tempo...”, imitando um locutor de futebol. É o jeito de dizer que não há mais tempo para nada. É a frase predileta durante o fechamento.
• 51 ilustradores trabalharam conosco, nesse ano. Artistas que fazem desta uma revista única. Talentos como o de Renato Alarcão, Marcelo Gomes e Alê Abreu. E, é claro, de Rogério Nunes, que fez a matéria de capa desta edição.
• 44 jornalistas, historiadores, antropólogos, sociólogos e médicos já escreveram em Aventuras na História. Gente que deixou saudades, como o historiador Décio Freitas, escritores consagrados, como Moacyr Scliar e Eduardo Bueno, e jornalistas experientes, como Xico Sá e Lemyr Martins.
Dicionário da redação
Nem sempre é fácil entender o que se passa numa redação de revista. Se você, leitor, aparecesse por aqui iria precisar de um dicionário para se comunicar.
Redação: é o lugar onde é feita a revista. Por extensão, também é o conjunto de pessoas que a fazem.
Texto: a definição “conjunto de palavras” não basta. Aqui, texto é a boa e velha reportagem. Pode-se também dizer que fulano é do “texto” (quem escreve) em oposição a sicrano, que é da “arte” (quem desenha).
Design: é muito mais que a boa e velha diagramação. É a programação visual de todos os elementos que compõem uma página de revista.
Matéria: é a soma de design e texto.
Nota: é uma matéria menor. Um texto mais curto, geralmente parte de uma seção da revista.
Pauta: é um projeto de matéria.
Info: é o apelido do infográfico. A explicação é do Iria: “Infográfico é informação mais ilustração. É um veículo visual usado para explicar invenções, batalhas, teorias, jogos, acidentes ou estruturas de prédios, máquinas e seres humanos. Um infográfico é informativo e explicativo ao mesmo tempo”.
Contra- intuitividade: é uma qualidade. Uma das palavras-chave na Família Super. Um adjetivo que define nossas matérias quando elas surpreendem o leitor, seja pelo tema abordado, seja pela linguagem utilizada ou pelo enfoque.
Fechamento: é quando a data de entrega da revista se aproxima e todo mundo – editores, designers e revisores (e todos os santos, amém!) – se reúne para concluir as matérias.
Hora do louco: ocorre no fechamento e é quando não há mais tempo para chorumelas.
Famiglia
Débora Bianchi, editora de arte, e eu estamos desde o começo. Juntos, já havíamos trabalhado na Super. O jornalista Leandro Narloch fez sua estréia em agosto de 2003 e, em dezembro, foi contratado. Bernardo Borges também chegou em agosto e, em seguida, veio a Daniele Doneda. Ela com passagens pela Mundo Estranho e ele um versátil estagiário da Família Super. O último a se integrar ao time foi justamente o mais antigo de Super. O mister infografia: Luiz Iria.
Batizado
Não podia ser só “História”. Assim, com letra maiúscula e ponto final. O nome não traduzia o que queríamos ser. Além disso, era preciso mostrar, logo de cara, que seríamos diferentes dos livros didáticos. Aqui, a história viraria uma cápsula do tempo e nela iríamos ao passado, em viagens fantásticas por lugares perdidos, para conhecer gente interessante. Essa era a receita. Mas isso eu anotei! E tenho até hoje o papelzinho onde rabisquei as primeiras idéias. Nenhuma delas vingou, é verdade. Mas quase!
AH!
Em maio, comecei uma campanha interna para chamar Aventuras na História por um apelido mais curto, mais chamativo. Minha idéia: AH! (assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo). Até agora, não convenci ninguém. E você, leitor, o que acha?
Espelho, espelho meu
O espelho é o objeto que a gente olha para enxergar a si mesmo. É claro. Mas dá uma olhada aí no que nós chamamos de espelho. É o diagrama que usamos para conseguir enxergar o andamento de todas as páginas da edição, onde ficam marcadas as matérias, números de páginas e localização. É definido no início da edição, mas pode mudar com a entrada de anúncios e troca de matérias, por exemplo. A edição com mais versões de espelho foi a 8 (Jesus Cristo), com cinco versões!
Auto- ajuda
Em fevereiro de 2003, recebemos de presente da Marcinha (Márcia Bindo), que trabalha na revista Vida Simples, um joguinho chamado Mensageiros Angelicais. Trata-se de um saquinho com vários cartõezinhos e, em cada um, tem um anjinho e uma palavra. Tornou-se moda na redação. Meio brincando, meio falando sério, todo mundo tirava um cartão, para ver qual era a mensagem daquele dia: simplicidade, responsabilidade, entusiasmo, harmonia e assim por diante. Os prediletos eram alegria ou amor. Meiguinho, né?
Que pauta é essa?
Pela internet, li no jornal inglês The Guardian sobre um novo livro a respeito da colaboração do povo alemão com o governo nazista de Hitler. Gostei do tema e o incluí na pauta. Aí importamos o livro e o entregamos para o repórter. Depois de ler tudo ele nos disse: “O livro é ótimo, o assunto é uma delícia, mas não é sobre nazistas. Trata-se de um jogo de futebol entre soldados alemães e ingleses no Natal de 1814, em plena Primeira Guerra!”. Quase caímos da cadeira! Até hoje eu não sei se a Amazon.com mandou o livro errado ou se fui eu que me enganei, mas mesmo assim fizemos a matéria (e ela acabou sendo uma das mais legais que já fizemos), publicada em março.
Carvão não é bigode
Às vezes a gente encasqueta com uma frase, uma palavra ou uma expressão e pensa em usá-la em nossos textos. Dura um mês, às vezes mais. Eu sempre penso em um dia publicar uma matéria com o título “A biografia de um canalha” (alguma sugestão para quem seria o biografado?). Em junho passado, o Leandro ficou duas semanas tentando usar num título o slogan de uma famosa loja de departamentos. No final, uma nota sobre o tráfico de escravos acabou servindo: “Vai pagar quanto?”
Os dez mais
Em janeiro de 2004 pedimos a você, leitor, que indicasse quem deveria virar capa da revista. Entre os indicados com apenas um voto, há nomes tão variados quanto os do cantor Renato Russo e do filósofo Tommaso Campanella. Do místico Cagliostro a santo Agostinho. A seguir, os queridinhos de vocês, leitores:
1. Napoleão
2. Joana d´Arc
3. Getúlio Vargas
4. Olga Benário
5. Catarina, a Grande
6. Chaplin
7. Darwin
8. Che Guevara
9. Cleópatra
10. Lampião
Motim anti-Senna
Nenhuma capa foi tão polêmica quanto a de maio. Na redação, houve até um princípio de rebelião. Calma, calma, ninguém se feriu. É que circulou por aqui um “MANIFESTO ANTI-SENNA” (assim, tudo em maiúsculas). Assinado por toda a equipe, pedia que a capa não fosse Ayrton Senna. Entre outras coisas, argumentavam que o assunto não era bem o foco da revista e que as bancas estariam cheias de outras publicações sobre ele. No fundo, a discussão (que dividiria também os leitores) era: Senna é ou não é história? Do ponto de vista de vendas, o manifesto tinha razão: maio registrou a menor venda do ano.
Frases
"Como combater a ignorância sem desrespeitar a inteligência? Aventuras na História aponta uma resposta".
Pedro Bial, jornalista
"É até covardia... Tudo que vem da Família Super se sobressai. Aventuras é saborosa e instigante. Indicada até para quem não gosta de história ou ainda não sabe que gosta!"
Soninha, apresentadora de TV
"Quem disse que é preciso ser chato para falar de assuntos importantes?"
Sabrina Sato, apresentadora
"Com glamour, a revista contraria a máxima de que a memória é o cemitério das idéias"
Guinga, violonista e compositor
Só sucesso
Quando estamos fazendo uma edição tudo serve para inspirar. Música, por exemplo. Veja a lista das mais tocadas do ano
1. O Tema da Vitória – Maio/2004 (Capa: Senna)
2. Faraó Divindade do Egito / Olodum – Julho/2004 (Capa: Ramsés)
3. A toda Cuba le Gusta / Buena Vista Social Club – Junho/2004 (Capa: Fidel)
4. I Shot the Sheriff / Bob Marley – Janeiro/2004 (Capa: o próprio)
5. That´s all Right / Elvis – Agosto/2004 (Capa: Getúlio)
Revista Aventuras na História n° 012
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